[Sermão] Qual é a paz de Cristo?

Sermão para o Domingo da Oitava de Páscoa
28 de abril de 2014 – Padre Daniel Pinheiro

 

ÁUDIO: Sermão para o Domingo in Albis

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém. Ave Maria…

“Veio Jesus, estando as portas fechadas, e pôs-se no meio e disse: a paz seja convosco.”

Caros católicos, três vezes no Evangelho de hoje Nosso Senhor deseja a paz aos discípulos. É bem sabido que os judeus se saudavam desejando a paz uns aos outro. Todavia, o desejo de paz de Jesus não se reduz aqui a uma mera saudação de formalidade. As palavras de Jesus são um desejo de verdadeira paz, verdadeira paz que só é possível porque Ele ressuscitou dos mortos ao terceiro dia após a sua morte. Nosso Senhor é o Príncipe da paz.

Entre as profecias do Antigo Testamento sobre o Salvador, um dos nomes dados pelo profeta Isaías a Nosso Senhor é justamente o de Príncipe da Paz. E o profeta continua dizendo: “seu império será grande e a paz sem fim sobre o trono de Davi e em seu reino.” (Isaías IX,7). Zacarias, pai de São João Batista, diz no canto do Benedictus que Nosso Senhor “há de iluminar os que jazem nas trevas e na sombra da morte e que Ele há de dirigir os nossos passos no caminho da paz.” (Luacs I, 79) Assim que Nosso Senhor nasce, os anjos entoam as palavras: Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade. (Lucas II, 14). E São Paulo diz que Cristo veio para anunciar a paz aos que estavam longe, e a paz também àqueles que estavam perto, ou seja, aos pagãos e aos judeus. O mesmo apóstolo diz que Cristo é a nossa paz. (Efésios II, 14 e 17). Ainda São Paulo nos diz que Cristo restabeleceu a paz a tudo quanto existe na terra e nos céus ao preço do próprio sangue na cruz. (Colossenses I, 20). E durante a sua vida pública Nosso Senhor também nos fala da paz muitas vezes. Ele envia os apóstolos dizendo que ao entrar em uma casa devem desejar a ela paz (Mateus X, 12). À mulher curada do fluxo de sangue, Nosso Senhor diz: “Filha, a tua fé te salvou. Vai em paz e sê curada do teu mal.” (Marcos V, 34). Ao contemplar Jerusalém e a sua incredulidade, Cristo lamenta: “Oh! Se também tu, ao menos neste dia que te é dado, conhecesses o que te pode trazer a paz!” (Lucas XIX, 42). Aos díscipulos, na última ceia, o Salvador diz: “falo-vos essas coisas para que tenhais a paz em mim.” (João XVI, 33) E temos ainda os três desejos de paz que o Santo Evangelho de hoje menciona. Não há dúvida, caros católicos: Nosso Senhor é o Príncipe da Paz.

Todavia, Jesus Cristo diz também: “Não julgueis que vim trazer a paz à terra. Vim trazer não a paz, mas a espada.” (Mateus X, 34) Ou ainda, conforme São Lucas: Julgais que vim trazer paz à terra? Não, mas a separação.” Haveria, então, contradição nas palavras de Nosso Senhor? Ele veio trazer a paz ou a espada e a separação? É claro que não pode haver contradição nas palavras de Nosso Senhor, sendo Ele a própria Verdade, sendo Ele Deus. O próprio Cristo nos explica, quando na última ceia diz aos discípulos: “deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz. Não vô-la dou como o mundo a dá.” (João XIV, 27) Portanto, caros católicos, Nosso Senhor veio trazer a paz ao mundo, mas essa paz não é a paz como o mundo a entende. Qual é, então, a paz de Cristo?

A paz que nos trouxe Cristo é, antes de tudo, a paz com Deus. Com sua paixão e morte de cruz, pela nossa redenção, operada com seu sangue, Nosso Senhor nos traz a reconciliação com Deus, com a Santíssima Trindade. Com o seu sacrifício na Cruz, Cristo restabelece entre Deus e os homens a paz. Deus é aplacado pela caridade infinita de Nosso Senhor Jesus Cristo. A justiça divina é satisfeita pelos sofrimentos de Cristo suportados com tamanha caridade. O Homem-Deus estabelece a paz. Ele estabelece a paz para aqueles que desejam viver em união com Ele, pela fé, acreditando e aderindo incondicionalmente aos seus ensinamentos. Ele estabelece a paz para aqueles que desejam viver em união com Ele, pela caridade, praticando os seus mandamentos. Ele estabelece a paz para aqueles que desejam viver em união com Ele, pela fidelidade à Igreja e à sua doutrina perene. Ele estabelece a paz para aqueles que desejam viver em união com Ele, pela frequência aos sacramentos da confissão e da eucaristia. Ele estabelece a paz para aqueles que desejam se arrepender de seus pecados e que desejam se voltar para Deus. Tudo isso nos ordena a Deus. E a estabilidade, a tranquilidade nessa ordenação a Deus é justamente a paz. A verdadeira paz está fundada em Cristo. Nosso Senhor não veio trazer a paz no mundo, nem a paz do mundo. Ele veio trazer a paz entre Deus e os homens. Ele insiste, sobretudo, depois da sua ressurreição, mostrando que a plenitude dessa paz será alcançada com a vida eterna.

Além da paz entre Deus e os homens, a paz de Cristo é também uma paz do homem consigo mesmo. Aquele que adere aos ensinamentos de Cristo e pratica seus mandamentos, estabelece a devida ordem em sua vida. Essa ordem estável é a paz. Aquele que vive em estado de graça ordena e submete a inteligência e a vontade a Deus. Aquele que vive em estado de graça ordena os sentimentos, as emoções, as paixões, à inteligência e à vontade. Aquele que vive em estado de graça ordena os bens materiais para o bem da sua alma. Cristo, pelos seus méritos, nos dá a graça de ter uma vida ordenada, ordenada a Deus: bens materiais ordenados à alma, sentimentos ordenados à inteligência e à vontade, inteligência e vontade ordenadas a Deus.

Além da paz entre Deus e os homens, além da paz do homem consigo mesmo, Nosso Senhor traz também a paz entre os homens. Essa paz, no entanto, só será verdadeira quando for fundada na fé e na caridade, isto é, na adesão aos ensinamentos de Cristo e na prática da sua lei. Nunca se falou tanto em paz e nunca se viu tanta desordem. Isso ocorre porque se busca uma paz sem o Príncipe da Paz, que é Cristo. A verdadeira paz entre os homens existe quando eles cooperam mutuamente para ordenar a sociedade, para ordenar uns aos outros a Cristo. Muitos acham que a paz de Cristo é simplesmente unir as pessoas, um viver junto, evitando problemas, aceitando tudo o que o outro faz, mesmo os pecados. Muitos acham que a paz de Cristo é achar que todas as religiões são boas. Muitos acham que a paz de Cristo é evitar todo conflito. Muitos acham que a paz de Cristo é a união a qualquer custo. Essa é a paz do mundo, uma falsa paz. Não é a paz de Cristo. A paz de Cristo, baseada na fé e nos mandamentos, termina gerando, como Ele mesmo disse, a separação, porque nem todos desejam a verdadeira paz, mas se contentam com uma paz aparente e superficial. A paz de Cristo, nesse mundo que se opõe a Ele, é também uma espada de combate. A paz não é a mera ausência de conflitos, não é o políticamente correto, não é o simples bom mocismo. A paz não é a indiferença diante dos acontecimentos de nossa vida. Muita gente associa a paz hoje a um estado em que a alma já não deseja nada ou em que a alma não se preocupa com nada, procurando evitar assim todo sofrimento. Essa paz é própria de religiões esotéricas ou orientais. É uma paz pagã, ilusória, uma paz contrária à natureza humana e que causa enormes sofrimentos. É uma paz que destrói a nossa alma, alma que é feita justamente para amar o bem e sofrer pelo bem aqui nesse mundo. A paz do catolicismo é amar a Deus, o Bem, a Verdade e sofrer por Deus, pelo Bem, pela Verdade. A paz de Cristo é uma paz heróica. A paz é a tranquilidade, a estabilidade na ordem, na ordem a Deus. Portanto, a verdadeira paz entre os homens, na medida em que ela pode existir entre os homens, só pode ser uma paz fundada na fé e na caridade. A paz entre os povos e nações só será verdadeiramente uma paz quando povos e nações se subemterem a Cristo, Príncipe da Paz.

Para alcançar, então, a paz nesses três níveis, com Deus, consigo mesmo, com o próximo, é necessário combater. Conforme o antigo ditado latino: si vis pacem, para bellum, se queres a paz, prepara a guerra. Para alcançar a paz da graça será preciso separar-se do demônio, do pecado, do mundo. Para alcançar a paz será preciso separar-se das nossas paixões desordenadas. Para alcançar a paz será preciso, com frequência, desagradar às pessoas, pois é preciso agradar a Deus antes que aos homens. Cristo ressussistado passou antes pela cruz. Nesse mundo, a paz vai acompanhada da Cruz, do combate, da separação. A paz de Cristo é a vida da graça, a vida de união com a Santíssima Trindade.

Na Santa Missa, o padre saúda inúmeras vezes os fiéis com a saudação Dominus Vobiscum, o Senhor esteja convosco. O Bispo, nas Missas festivas, ao se dirigir aos fiéis pela primeira vez diz Pax vobis, a paz esteja convosco. As duas saudações, Dominus Vobiscum e Pax Vobis, têm o mesmo significado: que os fiéis estejam na graça de Deus, que ordenem as suas vidas a Deus. E os fiéis desejam a mesma coisa para o sacerdote: et cum spiritu tuo, e com o teu espírito, isto é, que a tua alma também esteja na graça do Senhor. Contemplemos Nosso Senhor Jesus Cristo ressuscitado e aceitemos a paz que ele nos dá. Paz que começa nesse mundo acompanhada da cruz e que será plena no céu.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

[Sermão] O combate pela virtude da castidade

Sermão para o 25º Domingo depois de Pentecostes

10.11.2013 – Padre Daniel Pinheiro

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Ave Maria…

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ÁUDIO: Sermão para o 25º Domingo depois de Pentecostes – O combate pela virtude da castidade

“Tudo o que fizerdes, em palavras ou por obras, fazei tudo em nome do Senhor Jesus Cristo, dando por Ele graças a Deus Pai.”

Na parábola de hoje, NS diz que, enquanto os homens dormiam, veio o inimigo e semeou cizânia no meio do trigo e foi-se. Entre a cizânia semeada, podemos destacar o pecado da impureza, que tão grande mal faz às almas e à sociedade e que abunda na sociedade, em todos os meios. Diz o Santo Cura d’Ars que nenhum pecado destrói tão rapidamente a alma quanto esse pecado vergonhoso que nos tira da mão de Deus e nos joga na lama. São Tomás de Aquino diz algo semelhante: pela luxúria ou impureza somos afastados ao máximo de Deus. Os santos não estão dizendo aqui que o pecado da impureza é, em si mesmo, o pecado mais grave. O pecado de ódio a Deus ou um pecado contra a fé são em si mais graves, por exemplo. Todavia, os santos dizem que a impureza afasta mais de Deus que outros pecados em virtude da dificuldade em emendar-se quando se contrai o mau hábito de cair nesses pecados vergonhosos. Levado pela ferida do pecado original, o ser humano se deixa escravizar facilmente por esse pecado. E daí vêm consequências gravíssimas. Sobre as consequências drásticas desse pecado para uma alma e para a sociedade, sobre as filhas da luxúria ou impureza, falamos em um importante sermão nos dias do carnaval. Não custa enumerar essas consequências novamente. O vício da impureza gera: cegueira de espírito, precipitação, inconsideração, inconstância, amor desordenado de si mesmo, ódio a Deus, apego à vida presente, desespero com relação à salvação. A luxúria, por tudo isso, leva também a pessoa a perder a fé, a desprezar as verdades reveladas e a se obstinar no pecado, esquecida do juízo e do inferno. Para fazer uma alma perder a fé, é muitas vezes mais eficaz fazê-la se afundar na luxúria do que combater a fé diretamente. As músicas sensuais pelas letras e ritmos, filmes, roupas indecentes, etc., contribuem muitíssimo para a perda da fé sem atacá-la diretamente. Os que combatem a Igreja sabem muito bem disso. Podemos citar ainda, entre as filhas da luxúria, o aborto, que é assassinato, e a eutanásia, que é suicídio ou assassinato. A luxúria leva ao aborto porque as pessoas querem satisfazer suas paixões desordenadas sem responsabilidade. Leva à eutanásia porque se a pessoa já não pode aproveitar a vida, melhor que morra. Quantos males gravíssimos e quantas calamidades espirituais são causados pela busca de um prazer desordenado instantâneo, passageiro. Se de nada vale ao homem ganhar o mundo inteiro, se ele vier a perder a sua alma, o quanto vale ao homem cometer tão vergonhoso e torpe pecado, que lhe faz perder o céu e merecer o inferno? Diz Santo Afonso que, entre os adultos, poucos se salvam por causa desse pecado. Ele dizia isso no século XVIII. Podemos imaginar a situação em nossos dias… Por tão pouca e vergonhosa coisa.

Tendo, então, uma breve ideia das consequências desse pecado, procuremos os meios para adquirir ou avançar na virtude oposta a esse vício, quer dizer, na virtude da castidade. A virtude da castidade é a virtude derivada da virtude de temperança que nos faz ordenar o apetite venéreo conforme a razão iluminada pela fé, que reconhece que isso se reserva aos cônjuges no bom uso do matrimônio, isto é, sem que a procriação seja impedida, podendo, nesse caso, ser verdadeiramente um ato meritório diante Deus. Nossa razão reconhece que esse ato é ordenado à procriação e subsequente educação dos filhos, que se deve fazer dentro de um matrimônio indissolúvel.

Para que possa haver castidade, é preciso que haja primeiro, nos diz São Tomás, a vergonha e a honestidade. A vergonha é o sentimento louvável de temer a desonra e a confusão que são consequência de um pecado torpe. A honestidade é o amor à beleza que provém da prática da virtude. Devemos ter essa vergonha e essa honestidade. Outra raiz da pureza é a modéstia no nosso exterior, no falar, nos modos, no vestir, etc. Sem a modéstia, a pureza será impossível para nós e seremos também causa da queda dos outros.

Colocadas essas bases, para alcançar a castidade, é preciso também rezar muitíssimo, pedindo essa graça. Rezar, sobretudo, para Nossa Senhora, Mãe Castíssima, que sabe ensinar a seus filhos a castidade. A devoção das três Ave-Marias quando se acorda e antes de dormir, pedindo a graça da pureza é muito eficaz para se adquirir a pureza ou para perseverar nela. Também a devoção a São José é muito eficaz no combate pela pureza, pela castidade, sobretudo para os homens. São José ensina aos homens a verdadeira virilidade, que consiste em ter o domínio sobre suas paixões. O homem que se deixa levar pelas paixões, pela impureza é considerado em nossa sociedade decadente como viril. Ora, esse homem é, ao contrário, efeminado, pois efeminado, tecnicamente, é aquele que se deixa levar pelas paixões, pelas más inclinações, que não tem força para combatê-las e vencê-las, em virtude da tristeza e das dificuldades que existem na prática da virtude. Portanto, a devoção a São José vai nos ensinar a verdadeira virilidade, que consiste na castidade. Como diz o Salmo (30, 25): Agi com virilidade e fortalecei o vosso coração, vós que esperais no Senhor. Viriliter agite et confortetur cor vestrum qui speratis in Domino.  Invocar o nome de Jesus, Maria e José é de uma eficácia particular para se obter a pureza.

Para sermos castos, é preciso também mortificar os sentidos, sobretudo os olhos. Jó fez um pacto com seus olhos para não olhar para as moças e, assim, se manteve casto. Evitar a vã curiosidade, não parar os olhos em algo que possa suscitar maus pensamentos ou imaginações. E, justamente, é preciso mortificar nossa imaginação, controlando-a, ordenando-a.

É preciso evitar também as ocasiões de pecado, isto é, os ambientes, as pessoas, as coisas, as circunstâncias que podem levar a pecados contra a pureza. Muito cuidado é necessário no namoro ou no noivado. Namorados e noivos devem estar sempre em locais públicos que lhes impeçam de cometer pecados contra a pureza. Devem evitar andar de carro sozinhos, por exemplo. Namoro e noivado devem durar entre um e dois anos, tempo suficiente para conhecer a alma do outro, e que impede o surgimento de familiaridades indevidas. Bastaria um beijo apaixonado para haver um pecado grave entre namorados e noivos (conforme decreto do Santo Ofício de 1666, sob o Papa Alexandre VII). Os pecados contra a pureza aqui prejudicam também o correto juízo que se deve fazer da alma do outro, de suas qualidades e defeitos, a fim de saber se é possível ou não viver uma vida inteira com a pessoa… Levada pelos sentimentos e paixões, o julgamento será falseado.

Outra ocasião de pecado muito séria hoje é o computador, a internet. Deve-se usar a internet com um objetivo preciso, definido, fazendo uma oração antes ou depois. Quem navega à toa na internet dificilmente se preserva de pecado nessa matéria. Redes sociais também são grande fonte de perigo. Se uma pessoa já caiu várias vezes por meio de internet, reze antes de usá-la, coloque uma imagem de Nosso Senhor ou Nossa Senhora perto, para lembrar a presença de Deus, utilize o computador em local público, a que outras pessoas têm acesso. Se nada disso adianta, a solução é simples: renunciar à internet, ao menos temporariamente: mais vale entrar no céu sem internet do que com a internet ser condenado eternamente. O mesmo vale para TV, filmes e coisas do gênero. É preciso lembrar-se sempre de que o mais oculto dos pecados são conhecidos por Deus e serão conhecidos por todos no dia do juízo. É preciso fugir das ocasiões de pecado. Como diz São Felipe Neri, na guerra contra esse vício, os vitoriosos são os covardes, quer dizer, aqueles que fogem das ocasiões de pecado.

Além da oração, da mortificação dos sentidos e da fuga das ocasiões, é preciso evitar a ociosidade. A ociosidade é mãe de inúmeros pecados, a começar pela impureza. O Rei Davi pecou cometendo adultério e homicídio porque em um momento de ociosidade olhou para a mulher do próximo.

É preciso também mortificar-se, fazendo penitências, jejuns, abstinência de carne. Devemos começar observando a penitência da sexta-feira imposta pela Igreja, procurando fazê-la do modo tradicional, quer dizer, nos abstendo de carne. As mortificações facilitam o domínio da razão e da vontade sobre as paixões. É preciso mortificar-se em coisas lícitas para aprender a vencer a si mesmo na hora da tentação. É preciso, de modo particular, ter muita sobriedade no beber álcool.

No combate pela castidade, é preciso se aproximar dos sacramentos com assiduidade. É preciso se confessar com frequência não só depois da queda, mas também para evitá-la. Aqueles que têm o vício da luxúria ou impureza devem procurar a confissão uma vez por semana, ou pelo menos uma vez a cada duas semanas. É preciso comungar com frequência, estando em estado de graça, para evitar quedas futuras. Com o método preventivo e não só curativo, se impede que o pecado lance raízes mais profundas.

É preciso também pensar no inferno, na condenação eterna que se merece por tão pouca coisa, por algo tão passageiro e instantâneo. Perde-se o céu, se merece o inferno, se crucifica NS novamente por pecado tão torpe. Usar dessa faculdade fora do matrimônio, nos assemelha aos animais brutos, irracionais. Como diz São Tomás, o impuro não vive segundo a razão. Portanto, é preciso pensar no inferno e na nossa morte, da qual não sabemos o dia nem a hora. Não devemos adiar nossa conversão. Pode ser que Deus não nos dê a graça da conversão depois. É preciso aproveitá-la agora.

Na hora da tentação propriamente dita, é preciso rezar, em particular invocando o nome de Jesus, Maria e José e pensar em outra coisa, distrair o pensamento com algo bom, lícito, ainda que sem importância, como enumerar as capitais dos estados, por exemplo. O importante é que ocupemos a imaginação e o pensamento com outra coisa. É preciso cortar a tentação imediatamente. Se cair, procurar levantar-se imediatamente, buscando a confissão com verdadeiro arrependimento e propósito de emenda. Existe uma tendência em desmoronar depois da primeira queda, cometendo outros pecados. Isso agrava muitíssimo as coisas, multiplicando os pecados, as penas, solidificando o mau hábito, dificultando tremendamente a conversão.

Quem tem o vício da impureza não deve desesperar, mas deve se apoiar em Deus, em Nossa Senhora, nos anjos e santos e aplicar os meios que mencionamos com muita determinação. Não basta um eu quisera, um eu gostaria. Não, tem que ser um eu quero firme, disposto a empregar os meios necessários para atingir o fim buscado, que é a pureza.  Ao ser humano pode parecer impossível livrar-se de tal pecado uma vez que se contraiu o vício e, de fato, não é fácil. Mas com Deus é perfeitamente possível. Quem realmente quer se livrar desse vício e se apoia em Deus, consegue ter uma vida pura. Aqueles que não têm o vício devem continuar vigiando e orando, desconfiando de si, pois se acharem que estão imunes a tais pecados, cairão.

Combater pela pureza é necessário. Devemos fazê-lo com determinação e rezando muito. Diz Santo Agostinho que nessa espécie de pecado a batalha é onipresente, mas que a vitória é rara. Mas bem determinados, vigiando, rezando, empregando os meios que citamos, é plenamente possível. E que grande liberdade nos dá a castidade, que grande alegria viver segundo a razão e a fé.

Dirijo-me agora aos pais e aos que ajudam na educação das crianças. Os pais devem vigiar e favorecer a pureza dos filhos desde a mais tenra idade, para que adquiram a vergonha e a honestidade, para que sejam modestos no falar, nos modos, nas vestes… Cabe aos pais evitar que os filhos adquiram maus hábitos nesse campo, ainda que os filhos não entendam a malícia do que estão fazendo, pois depois não conseguirão se livrar do vício. Cuidado pais, cuidado com as crianças. Vejamos o que diz Pio XII: “Por desgraça, diz o Papa, às vezes acontece que pais cristãos com tantos cuidados na educação de um filho ou de uma filha, que são mantidos sempre longe dos perigosos prazeres e das más companhias, de repente vêem os filhos, com a idade de 18 ou 20 anos, vítimas de miseráveis e escandalosas quedas: o bom grão que semearam foi arruinado pela cizânia. Quem foi o inimigo do homem que fez tanto mal? O que ocorreu, continua o Papa, foi que no próprio lar, nesse pequeno paraíso, se introduziu furtivamente o tentador, o inimigo astuto, e encontrou ali o fruto corruptor para oferecer a mãos inocentes. Um livro deixado por acaso na mesa do pai foi o que destruiu no filho a fé de seu batismo, um romance abandonado no sofá ou no quarto pela mãe foi o que ofuscou na filha a pureza de sua primeira comunhão.” Até aqui o Papa. A cizânia pode entrar ao se folhearem revistas de notícias ou jornais largados na casa. A cizânia pode entrar pela televisão por um trecho do jornal televiso a que a criança assistiu por acaso. Vigiem, pais, vigiem pela alma dos filhos. Por favor, mantenham-nos longe da internet e de tablets e ipads, em que podem acessar verdadeiramente qualquer coisa. Eles já vêem tanta coisa ruim fora de casa. Que ao menos dentro dela eles possam encontrar a pureza e a virtude, a começar pelo exemplo dos pais.

De que vale ganhar o mundo inteiro se viermos a perder a nossa alma? De que vale uma satisfação instantânea, fugaz, e que nos faz perder o céu, merecer o inferno e que crucifica novamente NS? Confiando em Deus, desconfiando de nós mesmos, com uma determinação muito determinada, sejamos castos e puros conforme o nosso estado de vida.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo Amém.

[Sermão] Dia de Finados

Sermão para o dia de Finados

02.11.2013 – Padre Daniel Pinheiro

Sermão de Finados de 2012: Rezar pelos fiéis defuntos e converter-nos a Cristo

Morte

Cripta de ossos dos capuchinhos em Roma

AUDIO: Sermão para a Missa de Finados – COmemoração de Todos os fiéis defuntos 2.10.2013

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Ave Maria…

“Requiem aeternam dona eis, Domine, et lux perpetua luceat eis.”

Nesse dia da comemoração dos fiéis defuntos, a Igreja quer que nos voltemos para a as almas do purgatório, para que possamos, por meio de nossas súplicas, aliviar essas almas que sofrem enormemente pelo adiamento da visão beatífica. As almas que morreram em pecado venial ou que não expiaram completamente sobre a terra a pena devida por seus pecados já perdoados, encontram-se em grande sofrimento no purgatório. No pecado, há a culpa e a pena. A culpa é perdoada na confissão, se se trata de um pecado mortal, ou também fora da confissão, se se trata de um pecado venial. Mas, além da culpa, há a pena pelo pecado. Mesmo depois de perdoado o pecado, é preciso expiar por ele, satisfazer pelo pecado, para que a ordem lesada pelo pecado seja restabelecida. No purgatório, encontram-se, então, as almas que morreram em pecado venial ou que não expiaram inteiramente as suas penas.  O sofrimento no purgatório advém primeiramente do adiamento da visão beatífica, como dissemos. As almas do purgatório sabem que ainda não vêem Deus face a face somente por culpa delas, pela negligência em se desapegar dos pecados veniais quando estavam aqui na terra, pela negligência em reparar pelos pecados de que já tinham sido perdoadas. Sofrem também com uma pena sensível, com um fogo semelhante ao do inferno. A diferença com o inferno é justamente que essas penas são passageiras e a alma que está no purgatório sabe disso. Ao mesmo tempo, então, que é grande o seu sofrimento, grande é o seu consolo, pela certeza de poder chegar ao céu. O purgatório é fruto da justiça divina que exige satisfação pelos nossos pecados. Mas o purgatório é também fruto da misericórdia divina, pois sem essa purificação não poderíamos ver Deus face a face, já que Ele não pode admitir diante de si uma alma que tenha relíquias do pecado. Portanto, só podemos ser admitidos diante de Deus depois de expiar todas as penas devidas pelas nossas faltas. Sem o purgatório só iriam ao céu os que morreram sem nenhum pecado venial e que expiaram, aqui na terra, por todas as suas culpas, o que é raro. Assim, o purgatório é fruto também da misericórdia divina.

É um dever do cristão ajudar essas almas na medida do possível. Esse dever pode ser um dever de justiça, se alguém se encontra no purgatório por nossa culpa, por exemplo, devido aos nossos escândalos ou à nossa cooperação em um pecado. Ele é um dever de piedade filial quando se trata de parentes. Pode ser um dever de gratidão quando se trata de alguém que nos fez bem. Ou pode ser um dever de caridade, que nos faz desejar e agir para o bem do nosso próximo. Portanto, devemos rezar constantemente pelas almas dos fiéis defuntos, em particular pelos nossos parentes já falecidos e por aqueles que, eventualmente, lá estão por nossa culpa. E, claro, o melhor meio de fazê-lo é encomendando Missas e aplicando-lhes as indulgências que podem ser aplicadas a eles. Uma indulgência plenária aplicada a uma alma do purgatório a leva diretamente ao céu, pois a indulgência plenária serve justamente como satisfação de todas as penas. Ao se fazer a obra prescrita na indulgência, nas condições prescritas, os méritos de Cristo, de Nossa Senhora e dos Santos são aplicados à alma, satisfazendo pela sua pena. Nas indulgências, a Igreja aplica os tesouros que lhe pertencem para satisfazer a pena pelos pecados já perdoados. A indulgência não perdoa um pecado, ela não perdoa a culpa do pecado. Isso só com o arrependimento e, se for pecado mortal, é preciso também a confissão. A indulgência paga a pena. Portanto, para lucrar uma indulgência, é preciso já ter os pecados perdoados. Não se trata de comprar o céu, mas de chegar mais rapidamente a ele, pela prática de uma boa obra, como visitar uma Igreja, um cemitério, fazer certas orações, etc. Muito importante, então, ajudar as almas do purgatório, pelas Missas, pelas indulgências, mas também pelas orações no dia-a-dia, etc…

A Igreja, na Missa de Requiem , na Missa de Defuntos, nos dá algumas lições para esse dia de finados. Nas cerimônias das Missas de Defuntos, ela está mais preocupada com as almas dos fiéis defuntos do que com os vivos. Assim, o salmo 42, recitado ao pé do altar é omitido. Esse salmo diz que nossa alma não deve estar triste. Todavia, como na Missa de Defuntos temos razão de possuir uma certa tristeza, a Igreja omite esse salmo. Em seguida, quando o Padre recita o Introito na Missa de Réquiem, ele faz o sinal da cruz sobre o Missal e não sobre si mesmo, como que abençoando os fiéis defuntos, para o alívio deles. A Igreja omite também o Gloria Patri no Intróito e no lavabo. Também o Gloria in Excelsis Deo é omitido, bem como o aleluia. Antes do Evangelho o Padre não recita a oração que pede para si mesmo a bênção, pois a leitura do Evangelho, que é um sacramental que nos perdoa as faltas veniais, se estamos arrependidos, e pode nos perdoar também as penas, deve beneficiar aqui somente aos fiéis defuntos. Pela mesma razão, ao fim do Evangelho, o Padre não beija o livro e não pede que nossas faltas sejam perdoadas. Não o faz porque tudo isso deve ser aplicado em benefício das almas do purgatório. Na hora do ofertório, o Padre não faz o sinal da cruz para abençoar a água, pois a água aqui significa os fiéis vivos, sobre quem a Igreja ainda tem jurisdição. E como a Missa está sendo oferecida pelo repouso das almas dos fiéis defuntos, ela omite essa bênção da água. No Agnus Dei, não pedimos a misericórdia e a paz para nós, para pedirmos o descanso para as almas do purgatório. A primeira oração depois do Agnus Dei, que é também um pedido de paz, é omitida nas Missas de Réquiem, pois pedimos a paz para eles e não para nós. No final, não se diz o Ite Missa est, mas Requiescant in Pace, outro um pedido para que os fiéis defuntos descansem em paz. Não há a bênção final, pois, assim como no Introito, a bênção, na Missa de Réquiem, deve ser para eles e não para nós. E hoje, depois da Missa, faremos a benção sobre a essa, essa espécie de caixão vazio e que representa todos os fiéis defuntos. E durante a Missa, quantas vezes a Igreja clama: réquiem aeternam dona eis domine. Dai-lhes senhor, o descanso eterno.

Imitemos a Santa Igreja e, no dia de hoje e na próxima semana, reforcemos as nossas orações pelos fiéis defuntos, sobretudo nossos familiares.

Se podemos fazer bem aos fiéis defuntos, eles também podem nos fazer algum bem. Em particular, eles nos ajudam lembrando-nos o fim de todos nós nessa vida, que é a morte. Do túmulo eles nos dizem: hodie mihi, cras vobis. Hoje, a morte é para mim. Amanhã, será para vocês. Eles nos lembram que a morte há de chegar, e por mais que ela tarde, ela chega rapidamente, em 70, 80, 90 anos. Eles nos alertam também ao dizer: hic iacet pulvis, cinis, nihil, aqui jaz pó, cinza, nada. É tudo o que temos nesse mundo: pó, cinza, nada.

Tumba de Antônio Barberini na Igreja dos Capuchinhos em Roma

Tumba de Antônio Barberini na Igreja dos Capuchinhos em Roma

A única coisa que não passa é a morte em estado de graça ou em pecado mortal. Todo o resto será devorado pelo tempo. Portanto, ao rezar pelos mortos, lembremo-nos de que nós também vamos morrer e que não sabemos o dia de nossa morte. Precisamos sempre estar preparados. Não deixar nossa conversão para mais tarde em nossas vidas, não deixar para o ano que vem ou para o mês que vem ou para amanhã. Não, precisamos estar preparados agora. São dois os momentos mais importantes da nossa vida, em que pedimos para que Nossa Senhora reze por nós: agora e na hora de nossa morte. É preciso que a gente considere sempre que o agora pode ser a hora de nossa morte.

Nesse dia, devemos fazer o bem às almas dos fiéis defuntos e convertermo-nos a Deus.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

[Sermão] O culto dos santos, das relíquias e imagens

Sermão para a Solenidade Externa da Festa de Todos os Santos

3.11.2013 – Padre Daniel Pinheiro

ÁUDIO: Sermão para a Solenidade de Todos os Santos 3.10.2013

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Ave Maria…

Fazemos hoje a Solenidade externa da Festa de Todos os Santos, celebrada no dia 1º de novembro.

Altar das Relíquias

Altar das Relíquias

“Laudate Dominum in sanctis ejus.” Louvai o Senhor em seus santos, nos diz o Salmo 150 na Vulgata. Esse versículo da Sagrada Escritura descreve com precisão a natureza da veneração prestada aos santos pelos católicos, desde os primeiros séculos. Ao venerar os santos glorificamos a Deus, louvamos a Deus em seus santos. Veremos porque é possível cultuar os santos, os benefícios que derivam do culto dos santos, de suas imagens e relíquias.

É bem conhecida a objeção dos protestantes ao culto prestado aos santos. E, em geral, quanto mais ignorante um protestante, mais virulento será seu ataque ao culto dos santos. A heresia protestante diz que o culto dos santos não pode se realizar em virtude de três objeções, basicamente. A primeira delas consiste em afirmar que o culto dos santos se contrapõe ao fato de que NSJC é o único mediador. São Paulo na sua 1ª Epístola a Timóteo afirma: “há um só Deus e só há um mediador entre Deus e os homens, que é Jesus Cristo homem, que se deu a si mesmo para redenção de todos.” Não resta dúvida de que São Paulo estabelece NS como o único mediador. Ele faz isso nos versículos 5 e 6 do capítulo 2. Nos versículos precedentes, ele escreve a Timóteo: “Eu te rogo, pois, antes de tudo, que se façam súplicas, orações, petições, ações de graças por todos os homens.” Em seguida, diz: “Isto é bom e agradável diante de Deus nosso Salvador, que quer que todos os homens se salvem e que cheguem a ter o conhecimento da verdade.” São Paulo recomenda a Timóteo que interceda por todos e diz que isso é agradável diante de Deus. Estaria São Paulo em contradição, ordenando a Timóteo que reze pelos outros ao mesmo tempo em que diz que só há um mediador. É claro que não. Nosso Senhor é o único mediador de redenção, Ele é o único que nos redime e nos salva. Isso não impede que haja mediadores de intercessão, que com suas orações pedem para que Cristo nos aplique a sua redenção. Portanto, NS é o único mediador de redenção, mas ele estabeleceu mediadores de intercessão subordinados a Ele.

É possível, então, haver mediadores de intercessão sem que NS deixe de ser o único mediador de redenção. Mas os protestantes dizem – e é a segunda objeção – que os santos no céu não tomam conhecimento de nossas orações, não podendo, assim, nos ajudar. Isso é falso. É claro que os santos conhecem as nossas orações, pois podem ver tudo em Deus, no Verbo de Deus, ainda que nossas orações sejam meramente internas, sem nada exterior. Os santos no céu têm uma caridade perfeita, inflamada, um amor perfeito por Deus e pelo próximo. Eles querem o bem do próximo e querem agir para o bem do próximo. Seria um contrassenso se no momento em que mais são movidos pela caridade, se no momento em que mais querem e podem ajudar o próximo, os santos não pudessem auxiliar aqueles que mais precisam, que somos nós. Portanto, os santos no céu, ao verem Deus face a face, conhecem também os nossos pedidos e nos ajudam, movidos pela caridade perfeita que possuem.

Finalmente, dizem os protestantes que Deus é tão bom que não precisa de intercessores para nos dar o que necessitamos. Estritamente falando, é óbvio que não haveria necessidade absoluta de intercessores. Todavia, Deus é tão bom que quis que tivéssemos intercessores e modelos, para o nosso próprio bem, para que pudéssemos pedir as coisas com maior confiança, sabendo que somos representados por pessoas que agradam mais a Deus do que nós, pobres pecadores. Diz Santo Agostinho que Deus deixa de conceder muitas coisas, se não houver a intervenção de um mediador e advogado digno. Vemos isso na Sagrada Escritura com os amigos de Jó (Jó XLII, 8) e com Abimelec (XX, 17). Deus só perdoou os pecados dos primeiros pela intercessão de Jó e só perdoou a Abimelec pela intercessão de Abraão. Vale também destacar que Cristo enalteceu a fé do centurião com grandes elogios, apesar de o homem ter enviado ao Salvador os anciãos dos Judeus, em vez de ir pessoalmente, para que pedissem ao Senhor a cura de um servo doente (Lc VII, 2-10). E fez isso por acreditar que o pedido vindo dos anciãos dos Judeus seria mais agradável do que o seu pedido feito diretamente. Recorrer aos santos não é falta de fé. Deus é tão bom que faz os santos cooperarem de modo especial na salvação das almas pela intercessão deles. Assim, a intercessão dos santos em nada diminui a bondade divina, mas a manifesta ainda mais perfeitamente.

A invocação dos santos é lícita e boa. Ela está incluída no culto de dulia que é devido aos santos e que consiste em reconhecer internamente e externamente a excelência dos santos com relação às virtudes sobrenaturais, com relação à união íntima deles com Deus. Esse reconhecimento vai acompanhado de certa submissão a eles. Não se trata, portanto, de culto de latria, que é devido somente a Deus. Ao venerarmos os santos, louvamos e veneramos a obra de Deus neles, louvamos a graça divina que atuou de modo particular e excelente neles. Ao elogiar a obra de um artista, elogiamos também e principalmente o artista que é causa da obra. Ao venerar os santos, louvamos verdadeiramente a Deus em seus santos, como nos diz o salmo.

Veneramos os santos louvando suas excelências, celebrando as festas deles, fazendo obras de caridade ou de mortificação em honra deles, expondo e venerando as imagens e relíquias deles. Veneramos os santos também imitando os exemplos deles. E como eles são imitadores de Cristo, ao imitar os santos, imitamos Cristo. É o que diz são Paulo (1 Cor XI, 1): “Sede meus imitadores, como eu o sou de Cristo.” Mas para imitá-los é preciso ler as vidas de santos. O exemplo deles nos faz muito bem, pois são, de fato, o Evangelho colocado em prática por pessoas como nós. A vida dos santos não é só para ser admirada, mas para ser imitada. Não imitada naquilo que tem de extraordinário, milagres, etc., mas no essencial, na conversão a Deus. E veneramos os santos recorrendo à intercessão deles.

Vimos que entre os meios de honrar os santos está a veneração de imagens e relíquias. Relíquia quer dizer resto. As relíquias são, então, um pedaço do corpo de um santo (relíquia de primeira classe) ou algum objeto que lhe pertenceu (relíquia de segunda classe) ou ainda alguma coisa que tocou uma relíquia de primeira classe (e teremos uma relíquia de terceira classe). Ao venerar as relíquias de um santo veneramos, antes de tudo, a pessoa do santo e também aquele corpo que foi templo do Espírito Santo e membro vivo de Cristo, o corpo que junto com a alma praticou tantas virtudes, o corpo que vai ressurgir glorioso um dia. Vemos na Sagrada Escritura como a fímbria do vestido de NS opera prodígios (Mc VI, 54-56), vemos a sombra de São Pedro curar os doentes (At V, 12-16) e vemos lenços e aventais tocados por São Paulo afugentar os espíritos malignos e curar doenças (At XIX, 11 e 12) . Grande deve ser a nossa veneração pelas relíquias dos santos, imitadores de NS, relíquias que nos remetem aos santos e que são também sacramentais.

As imagens dos santos também podem e devem ser veneradas. “As imagens de Cristo, da Santíssima Virgem e de outros Santos, se devem ter e conservar especialmente nos templos e se lhes deve tributar a devida honra e veneração, não porque se creia que há nelas alguma divindade ou virtude pelas quais devam ser honradas, nem porque se lhes deva pedir alguma coisa ou depositar nelas alguma confiança, como outrora os gentios, que punham suas esperanças nos ídolos (cfr. Sl 134, 15 ss), mas porque a veneração tributada às Imagens se refere aos protótipos que elas representam, de sorte que nas Imagens que osculamos, e diante das quais nos descobrimos e ajoelhamos, adoremos a Cristo e veneremos os Santos, representados nas Imagens.” Assim ensina o Concílio de Trento. A proibição de fazer imagens no AT não é mais válida, pois o risco de idolatria que existia para os judeus, rodeados de pagãos idólatras, adoradores de imagens, já não existe. E mesmo no Antigo Testamento, vemos Deus abrir algumas exceções para a proibição das imagens, pois ele ordena que se façam querubins na arca da aliança e manda que Moisés faça uma serpente de bronze, prefiguração de Cristo crucificado, para que os judeus não perecem pelas picadas das serpentes no deserto. Portanto o culto às imagens se dirige ao original.

O culto aos santos, às relíquias e imagens está de pleno acordo com a obra da salvação e com nossa natureza humana. Nós vivemos em sociedade, a Igreja é uma sociedade instituída por Cristo. Nada mais natural que uns membros da sociedade prestem auxílio a outros, nada mais natural que os membros da Igreja triunfante, no céu, socorram os membros da Igreja militante, que somos nós. Nada mais natural que peçamos a ajuda deles. Pela nossa natureza, somos corpo e alma. Nós precisamos de coisas sensíveis que ajudem a nossa inteligência e a nossa vontade a se elevarem às coisas espirituais. Assim, os sacramentos são sinais sensíveis da graça, as cerimônias da Igreja são sensíveis, a Igreja é uma sociedade visível com um chefe visível, etc. As imagens e relíquias nos ajudam muitíssimo a manter a nossa concentração, a considerar o exemplo e as virtudes de Cristo, de Nossa Senhora, dos Santos. Tirar as imagens das igrejas prejudica a vida de oração, diminui o apelo aos santos, nos privando de muitas graças. Dessa forma, a vaga iconoclasta que atingiu muitas das nossas igrejas nas últimas décadas, prejudica a oração do povo. O que corrobora tudo isso é o fato de o próprio Deus ter se encarnado. Nossa religião não é uma religião de anjos, mas uma religião fundada por Deus para nós homens, feitos de corpo e alma. As duas coisas devem estar unidas e devidamente ordenadas, sendo a alma a principal parte de nosso ser.

 O culto aos santos, de tradição apostólica, nos faz venerar os santos como amigos de Deus, nos faz venerar os santos pelos dons que receberam de Deus. O culto dos santos nos traz grandes benefícios, pois nos ajudam a obter graças que sozinhos não conseguiríamos e nos dão um exemplo e vida em conformidade com Cristo. Grandes benefícios nos trazem também o culto das relíquias e das imagens.

Recorramos aos santos e peçamos a eles que nos ajudem a alcançar o céu onde já se encontram. Laudate Dominum in sanctis eius. Louvai o Senhor em seus santos.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

[Sermão] Cristo, Rei das Nações pelo reinado em nossas almas

Sermão para a Festa de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei

27.10.2013 – Padre Daniel Pinheiro

ÁUDIO: Sermão para a Festa de Cristo Rei 27.10.2013

                Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

                Ave Maria…

                “A turba ímpia grita: não queremos que Cristo reine. Nós, com alegria, dizemos que sois o Rei Supremo de todas as coisas” (Hino das Vésperas da Festa de Cristo Rei).

                Caros católicos, hoje é talvez a festa mais importante do ano litúrgico para os nossos tempos atuais: a Festa de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei. Não digo que seja a festa litúrgica mais importante em si mesma, pois é claro que temos o Natal, a Páscoa, a Epifania e tantas outras festas tão tradicionais e importantíssimas. Digo que ela é a mais importante pelas circunstâncias em que vivemos, pelo momento da história em que vivemos. Momento de apostasia das nações. Não há, infelizmente, outra palavra, caros católicos. As nações abandonam completamente Deus, abandonam completamente NSJC, abandonam completamente a Igreja. Constatando o estado de coisas já em 1925, o Papa Pio XI, com grande sabedoria, instituiu a Festa de Cristo Rei no último domingo de outubro. O Santo Padre sabia que a melhor maneira de inculcar no povo e lembrar ao povo o reinado social de NSJC é por meio da liturgia. Uma liturgia que proclamasse claramente o reinado de NSJC sobre todas as coisas. Rei das almas e das consciências. Rei das inteligências e das vontades. Rei das famílias, da cidade, do povo, da nação, do mundo todo, de todas as coisas. O drama de nossa época é o abandono completo de Cristo e de sua Igreja por parte da sociedade. Daí a importância da festa de Cristo Rei ser celebrada em conformidade com a verdadeira intenção com que foi criada, ou seja, para que se afirme a realeza social de NSJC. Essa festa não diz respeito ao reinado de NS com a sua vinda gloriosa. Não. Essa festa diz que NS deve reinar desde já, em todos os aspectos da vida humana, do aspecto mais individual ao mais social. E por isso a celebramos agora e não no final do ano litúrgico, que faz referência à vinda gloriosa de Cristo, como se ele fosse reinar somente a partir desse momento. Não. Ele reina desde já. Do íntimo de nossa consciência aos atos públicos do governo, em todas as coisas Cristo deve reinar. Essa festa de Cristo Rei bem compreendida é o terror dos inimigos da Igreja, é o terror do mundo e do demônio. Ela se opõe frontalmente ao laicismo, esse erro perverso que afirma que o Estado não deve ter religião ou que o Estado deve dar iguais direitos a todas as religiões. Pio XI classificava o laicismo como peste da nossa época. O laicismo, fruto do protestantismo e da filosofia moderna, busca construir o reino do homem. Por trás da bandeira do laicismo, excluindo toda possiblidade do reino social de Cristo, se unem as forças dissolventes do liberalismo, da maçonaria, do socialismo, do comunismo, para citar alguns dos inimigos da Igreja (Mons. Antonio Piolanti, antigo Reitor da Pontifícia Universidade Lateranense, no Livro Dio Uomo, 2ª edição, 1995, p. 653).  Mas se essa festa é o terror dos inimigos da Igreja, Ela deve ser de um grande consolo para os católicos e celebrada com muita alegria.

                Nosso Senhor é, portanto, Rei. Ele é Rei porque é Deus e todas as coisas dependem dele para ser e existir e para se conservar no ser e para poder agir. Todavia, Ele é Rei também enquanto homem. NS é Rei enquanto homem em virtude da união íntima com o Verbo de Deus, ao ponto de haver em Cristo uma só Pessoa, a Pessoa Divina, embora haja nEle duas naturezas, a divina e a humana. Em virtude dessa união, chamada união hipostática, a humanidade de Cristo tem uma excelência e uma dignidade que superam toda e qualquer criatura e que faz dEle verdadeiramente a cabeça, o chefe de todo o gênero humano e de todas as coisas. E NS é Rei enquanto homem também por direito de aquisição. Ao morrer na Cruz, ao derramar o seu sangue divino por nós, Cristo adquiriu sobre nós um domínio soberano, tornou-se nosso Rei por direito. Como nos diz a Igreja no Hino Vexilla Regis, para o Tempo da Paixão: Regnavit a ligno Deus. Deus reinou do madeiro, da cruz. Deus Reinou do madeiro por amor, ao morrer para nos salvar. Portanto, toda criatura deve se submeter a Cristo como a um rei soberano porque Ele é Deus, porque Ele está acima de todos nós por sua excelência e porque nos redimiu na Cruz.

Entre as criaturas, estão as sociedades, que são consequência da natureza social do homem. O homem precisa da sociedade para assegurar o que é útil e necessário para a sua vida, para poder viver com perfeição. Portanto, ao criar o homem assim, Deus criou também a sociedade. As sociedades, por meio de seus representantes, são capazes de reconhecer a verdade e de praticar o bem. Por exemplo, o Estado, por meio de seus representantes competentes, é capaz de chegar à conclusão de que se deve fazer tal obra para o bem dos cidadãos. De modo semelhante, a sociedade pode e deve reconhecer que Nosso Senhor Jesus Cristo é Deus e Rei e ela deve reconhecer que para honrá-lo como tal é preciso se conformar àquilo que Ele Revelou, ou seja, é preciso estar unido à Igreja que Ele fundou e favorecer essa Igreja. Assim, as sociedades são obrigadas a cultuar NS publicamente conforme a verdadeira religião. Todas as sociedades são obrigadas a isso, desde a família até o Estado. Tudo deve se submeter a Nosso Senhor Jesus Cristo e a suas leis. Os governantes devem honrá-lo publicamente. Os magistrados e professores devem venerá-lo. As artes e as leis devem exprimir a realeza de Nosso Senhor (como nos diz o hino das Véperas da Festa de hoje. Hino Te Saeculorum Principem, das Vésperas de Cristo Rei).

Deve, portanto, haver união entre a Igreja e o Estado. Não se trata de uma confusão entre os dois, mas de união. Essa união não significa que a Igreja deva gerir as coisas puramente temporais do Estado ou ditar qual deve ser a forma de governo, por exemplo. Não. Essa união significa que as leis da Igreja e a doutrina católica, que dizem respeito à salvação das almas, devem ser respeitadas pelo Estado. Assim, por exemplo, na educação e no matrimônio o Estado deve aplicar as leis da Igreja. O Estado ao buscar o bem comum dos seus cidadãos, deve garantir não somente os bens temporais – materiais e culturais – aos cidadãos, mas deve proceder de forma que os cidadãos possam ter com facilidade e em abundância os bens espirituais que são necessários para que eles conduzam religiosamente a sua vida. Entre esses bens espirituais, o mais importante é o de poder conhecer, amar e servir a NSJC. E não basta ao Estado garantir o acesso dos cidadãos à religião católica, mas deve ele próprio prestar vassalagem a NS pelos atos de culto da religião católica, respeitando as leis de Deus e da Igreja. Resta óbvio que essa doutrina do Reinado Social de NSJC, da união entre Igreja e Estado, só pode aplicar-se plenamente em um Estado em que a maioria dos cidadãos é católica. Nesse caso, o poder civil deve procurar os meios e condições intelectuais, sociais e morais pelos quais os fiéis possam perseverar na fé. Isso inclui a regulação das manifestações públicas de outras religiões, que podem colocar em perigo a salvação dos cidadãos. Não se trata, como é evidente, de converter ninguém à força, nem de forçar a consciência, mas de favorecer a verdadeira religião. Por outro lado, o Estado pode ver-se obrigado, em alguns casos, a tolerar uma falsa religião, para evitar um mal maior ou para que se alcance um bem maior. Mas trata-se de tolerância, portanto, de se permitir um mal em vista de um bem. Não se trata de igualar a verdade e o erro, não se trata de colocar em pé de igualdade a religião fundada por NS e o erro. No Estado em que a maior parte dos cidadãos não professa a fé católica ou não conhece a Revelação, o poder civil não católico deve ao menos conformar-se aos preceitos da lei natural – se submetendo assim ao criador – e deve assegurar a liberdade para que a Igreja exerça com liberdade a sua missão.

O Estado, como criatura, deve, então, honrar devidamente a NSJC, isto é, deve honrá-lo como Ele quer ser honrado. Uma criatura que não venera e não cultua devidamente o seu criador está fadada a sofrer graves consequências. Para o homem individualmente considerado, essa consequência é a condenação eterna. Para a sociedade, a consequência de não se cultuar NSJC é o caos social, é o desaparecimento dos primeiros princípios necessários para vida em comum, é o desaparecimento dos primeiros princípios da vida moral, é o indiferentismo religioso dos cidadãos. O Estado que não cultua  NSJC devidamente está fadado ao fracasso na sua mais alta missão, que é a de ajudar seus cidadãos a praticarem a virtude. E, assim, os cidadãos são prejudicados no caminho da salvação. Um Estado que não cultua seu criador prepara a sua ruína mais completa.

Nós, então, diante disso, devemos fazer algo pela nossa pátria, cumprindo nosso dever da virtude de piedade, virtude de piedade que nos manda ajudar a nossa pátria e nos manda procurar o bem dela. Nós devemos fazer algo para que a nossa pátria reconheça e se submeta à realeza de Nosso Senhor Jesus Cristo. É preciso fazer a nossa parte para que a sociedade compreenda que ela deve honrar NSJC e sua Igreja. Alguns acham que a solução está na volta da monarquia. Ora, é preciso dizer que uma monarquia por si só não resolve nada, pois uma monarquia também pode ser liberal, desligada de Deus e da Igreja. A Igreja não tem preferência por uma forma de governo particular, desde que na democracia, na aristocracia ou na monarquia se reconheça que o poder vem de Deus e não do povo, desde que se reconheça a realeza de NSJC e se submeta a suas leis. Claro que para uma dada nação pela sua mentalidade e pelas circunstâncias, uma forma de governo pode ser mais adaptada do que outra. Isso, porém, não é o essencial. O essencial é que o poder civil honre publicamente a NSJC, cultuando-o e observando as suas leis. Outros acham que a solução consiste no combate ao marxismo, aliando todas as forças contra ele. Aqui, também, o mero combate ao marxismo não basta se não se combate ao mesmo tempo os outros erros, em particular o liberalismo, que diz que o homem pode professar livremente sem problema a religião que mais lhe agrada, que afirma que a consciência é livre para decidir o que é bom ou mau, que diz que o Estado não deve ter religião. Não basta combater o marxismo sem propor a solução: o reinado social de NSJC. A única solução para ajudar o nosso país é ter como finalidade o Reino Social de NSJC, é buscar que a sociedade o reconheça e se submeta a ele. Para fazer isso, caros católicos, o primeiro e mais importante passo é que NS reine nas nossas vidas e nas nossas famílias, é buscar realmente a santidade, com determinação, desejando-a realmente. O reinado de Cristo deve começar pelas nossas almas, por todos os aspectos de nossas vidas. É preciso que Cristo reine nas nossas inteligências pela fé. É preciso que Ele reine na nossa vontade pela caridade. É preciso que Ele reine em todos os nossos afetos pela temperança, pela fortaleza. É preciso que Ele reine em todas as nossas atividades, na profissão, nas diversões, nosso modo de ser. É preciso que Ele reine na vida familiar, no matrimônio, no uso do matrimônio, na educação dos filhos. É preciso que Ele reine, caros católicos, em tudo. Não adianta reclamar das condições em que vivemos se não buscamos mudar isso pela santidade. É pela santidade, pela prática das virtudes e reconhecendo a realeza de Nosso Senhor em todos os aspectos de nossa vida que poderemos alcançar a realeza social de NS. É observando os mandamentos e evitando o pecado que contribuiremos para o reinado social de Cristo. Quando pecamos, recusamos obedecer a Nosso Senhor Jesus Cristo, e aumentamos o poder do príncipe do mundo, do demônio. Pelo pecado, favorecemos o reinado do príncipe desse mundo. Portanto, será pouco eficaz o combate pelo reinado social de Cristo, o combate para que a civilização volte a ser formada pela lei de Cristo, se com os nossos pecados favorecemos justamente o reino do príncipe desse mundo. Não adianta, ou muito pouco, ser um paladino da Tradição e do reinado social de Cristo, na internet ou algures, se Cristo não é realmente o Rei de nossas almas.  Portanto, caros católicos, façamos um profundo exame de consciência, para que Cristo possa reinar na nossa inteligência, na nossa vontade, na nossa consciência, em nossos afetos, em todas as nossas ações, em nossa família, em tudo. Primeiro, para podermos nos salvar. Mas também para que Ele reine na sociedade. Se Cristo reinar em nossa alma, o necessário combate público pelo seu reinado social será verdadeiramente eficaz. Convertamo-nos a Cristo Rei. Coloquemos tudo a seus pés e carreguemos o jugo leve e suave de Cristo Rei. A Missa Tradicional exprime claramente o reinado de Cristo. Tudo nela, absolutamente tudo, está voltado para Ele, diz respeito a Ele. Nela, é Cristo o centro, o Rei. Aprendamos com a liturgia. Oportet illum regnare (é preciso que Ele Reine), como diz São Paulo. E esse reinado de Cristo trará grandes benefícios para a sociedade. Ele trará a verdadeira ordem, e o verdadeiro progresso, que é o progresso nas virtudes. Viva Cristo Rei! Rei de nossas almas. Rei das Nações.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

[Sermão] A importância das rubricas na liturgia

Missal Rubricas

Sermão para o 21º Domingo depois de Pentecostes

13.10.2013 – Padre Daniel Pinheiro

ÁUDIO: Sermão para o 21º Domingo depois de Pentecostes Importância das Rubricas 13.10.2013

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Ave Maria…

“Todas as coisas dependem, Senhor, da vossa vontade e nada há que possa lhe resistir.” (Intróito)

Já tratamos, caros católicos, de alguns aspectos da Missa no Rito Romano Tradicional. Já tratamos do latim na liturgia, já tratamos da orientação do Padre, voltado para Deus e não para o povo, já tratamos do silêncio. E vimos a importância fundamental de todas essas coisas. Consideraremos, hoje, os benefícios, para nós e para a Igreja, que advêm das rubricas precisas e bem determinadas do Rito Romano Tradicional.

Antes de tudo, precisamos compreender o que são as rubricas. Nos livros litúrgicos nós encontramos textos em duas cores. Existem textos em preto e textos em vermelho. Os textos em preto são aquelas coisas que o sacerdote deve falar – em voz alta ou baixa, mas que deve falar. Os textos em vermelho descrevem e explicam o que o Padre deve fazer. As coisas em vermelho são as regras litúrgicas. Da cor vermelha vem o nome de rubrica, que vem de rubro, vermelho. No Rito Tradicional, as rubricas são bem precisas, bem determinadas. São raríssimas as opções no Rito Romano Tradicional. Portanto, a Igreja, assistida pelo Espírito Santo e, sobretudo, por meio de Papas santos – como São Leão Magno, São Gregório Magno, São Pio V – estabeleceu, ao longo dos séculos e baseada no que recebeu de NS e dos apóstolos, com precisão como deveria ser o Rito da Missa. Os senhores, frequentando a Missa Tradicional há um certo tempo, já perceberam que variações são praticamente inexistentes.

É comum ouvirmos críticas com relação à liturgia tradicional afirmando que se trata de uma liturgia engessada, sem espontaneidade, sempre a mesma coisa… Essa determinação precisa dos ritos e cerimônias, caros católicos, é, ao contrário, fundamental e é um grande bem. Primeiramente, as rubricas precisas formadas ao longo dos séculos pelo Espírito Santo, como falamos, deixam claro que é Deus que determina como ele deve ser cultuado. Não somos nós que decidimos como Deus deve ser cultuado, não somos nós que decidimos em um escritório como deve ser o rito da Missa ou que decidimos pelo improviso como Deus deve ser cultuado. Se nós consideramos a Sagrada Escritura, no livro do Levítico nós vemos as inúmeras e precisas regras estabelecidas por Deus de como ele deveria ser cultuado. Ora, se Deus fez isso com os sacrifícios e ritos que eram mera prefiguração do sacrifício perfeito de Nosso Senhor Jesus Cristo, convinha muitíssimo que Ele estabelecesse regras precisas de como deve ser cultuado na nova e eterna aliança. Deus, infinitamente sábio, conhece a fraqueza humana e sabe que, deixando o culto ao arbítrio do homem, grandes abominações serão feitas. Portanto, as rubricas bem determinadas nos dizem que é Deus que estabelece como Ele deve ser cultuado, é Ele que determina o que o agrada. Não somos nós que determinamos como Deus deve ser cultuado.

Em seguida, as rubricas precisas, como consequência óbvia do que acabamos de dizer, deixam claro que a liturgia é teocêntrica, o centro é Deus e não nós, os homens. As rubricas bem determinadas manifestam que a liturgia é algo voltado para Deus e não para o homem. Se pudéssemos determinar como Deus deve ser cultuado, no fundo seríamos nós o centro da liturgia, pois escolheríamos o modo de cultuar Deus que mais nos agrada. A liturgia se tornaria algo para nos agradar e não para agradar a Deus. Assim, as rubricas bem precisas nos mostram que é Deus que determina como Ele deve ser cultuado e nos mostra que o centro da liturgia é Deus, que a finalidade da liturgia é agradar a Deus e não a nós mesmos. Se queremos chegar ao céu, devemos agradar a Deus e não a nós mesmos. O rito bem determinado, com rubricas precisas, nos dá essa grande lição. Achar que estamos agradando a Deus, quando agradamos a nós mesmos, é um dos grandes erros dos nossos tempos.

As rubricas bem determinadas tiram, então, a liturgia do nosso controle e domínio. Não somos nós que determinamos como deve ser a liturgia, mas Deus. O fato de não termos controle e domínio sobre a liturgia nos mostra que ela está acima de nós, que é algo sagrado. Aquilo sobre o que eu tenho controle e domínio é inferior a mim. Ao contrário, aquilo que é determinado independentemente da minha vontade por Deus, é superior a mim, é sagrado. As rubricas bem determinadas nos inspiram, portanto, grande respeito e veneração pela liturgia, porque nos fazem compreender que a liturgia é algo sagrado. E diante do sagrado, do mistério, nossa inteligência não se cansa, apesar da repetição. Ao contrário, a repetição que surge das rubricas bem determinadas e da falta de opções nos permite compreender cada vez mais profundamente o mistério e nos unir melhor a NSJC. Se a cada Missa houver uma novidade, nossa atenção vai se voltar para essa novidade e não para o essencial do que está ocorrendo e nossa compreensão do mistério permanecerá sempre superficial. Procuraremos a novidade que agrada aos sentidos e não a profundidade que nos une a Deus. Ao mesmo tempo, essa repetição dos ritos permite ao sacerdote se concentrar cada vez mais no mistério que ele realiza e, portanto, permite ao sacerdote rezar a Missa cada vez com maior devoção, gerando mais frutos para as almas. A repetição é um grande bem na liturgia.

As rubricas precisas trazem consigo outros grandes benefícios espirituais. O primeiro benefício espiritual é uma grande paz. Uma grande paz para o sacerdote e uma grande paz para os fiéis. Só estamos verdadeiramente em paz, quando sabemos que estamos fazendo a vontade de Deus. A paz não é um sentimento, mas é a consequência de sabermos que estamos fazendo a vontade de Deus, que estamos fazendo aquilo que agrada ao Senhor, ainda que em meio aos maiores tormentos e combates. Ora, com o rito bem determinado pela Igreja ao longo dos séculos, sem as inúmeras opções, estamos certos de estarmos fazendo a vontade de Deus, de estarmos agradando a Deus, cultuando-o conforme Ele quer. Isso deve nos trazer uma grande paz. Com as rubricas precisas, estamos seguros de que fazemos a vontade de Deus. Isso traz uma grande paz para o Padre, em particular, porque ele não tem que se preocupar com o que ele vai escolher para agradar mais aos fiéis, ou para adaptar melhor a liturgia. O Padre não tem que se preocupar em escolher o rito penitencial 1, 2 ou 3. O Padre não tem que se preocupar em escolher tal ou tal prefácio. O Padre não tem que se preocupar em escolher tal ou tal Oração Eucarística. Não, tudo já está determinado, ele pode ficar absolutamente tranquilo de estar agradando a Deus e fazendo o bem para os fiéis. Isso dá na verdade uma grande liberdade ao Padre, pois não fica preso ao seu gosto, ao gosto dos fiéis, ao gosto da pastoral disso ou daquilo. Despreocupado de escolher entre as diversas opções, o Padre pode esquecer a si mesmo, para agir como outro Cristo realmente, e isso traz grandes benefícios para ele e para os fiéis.

As rubricas bem determinadas são também uma mortificação, uma negação de si mesmo, pois nos impedem de controlar a liturgia e nos ensinam a conformidade com a vontade de Deus. Quando controlamos algo tiramos disso uma satisfação. Controlar a liturgia ou determiná-la conforme a nossa preferência nos daria uma satisfação desordenada, pois estaríamos submetendo um bem espiritual aos nossos sentimentos. As rubricas bem determinadas impedem que um grupo imponha a sua espiritualidade ou falta de espiritualidade aos outros fiéis. As rubricas impedem as Missas carismáticas, as Missas das crianças, a Missa disso e daquilo. As rubricas deixam claro também que a liturgia não deve ser basear na personalidade do sacerdote. Hoje é muito comum ouvirmos: gosto da Missa do Padre tal, gosto da Missa daquele outro Padre. Isso é um sinal de que os Padres fazem a Missa corresponder à vontade deles. Tem algo gravemente errado nisso. A Missa é da Igreja e não do Padre tal ou tal.

Colocando Deus no centro, fazendo-nos cumprir a vontade de Deus, fazendo com que neguemos a nós mesmos, as rubricas precisas favorecem também a virtude da obediência. Ora, se na Missa, na liturgia, que é o que há de mais importante, eu posso fazer as coisas conforme a minha vontade, porque terei que obedecer em outras coisas menos importantes? As rubricas são indispensáveis para que haja a virtude da obediência, a prontidão em se obedecer às legítimas ordens dos superiores.

São inúmeros, caros católicos, os benefícios trazidos pelas rubricas precisas do Rito Romano Tradicional. Digo do Rito Romano Tradicional porque, infelizmente, a liturgia reformada em 1969 possui rubricas, sim, mas são tantas as opções permitidas pelas rubricas, que, no fim das contas, o princípio por trás das novas rubricas é praticamente faça como quiser. Pode-se escolher entre tantos ritos iniciais, posso escolher entre tantos ritos penitenciais, posso escolher entre tantas orações universais, posso escolher entre tantas orações eucarísticas… No fundo, é praticamente como se fosse dito, faça como quiser. E a psicologia humana funciona dessa forma. Acostumados a fazermos sempre as nossas vontades nas coisas lícitas, passaremos facilmente a fazer as coisas ilícitas. É regra de ouro na vida espiritual mortificar-se mesmo nas coisas lícitas para evitar mais facilmente as ilícitas. Quem faz sempre a própria vontade nas coisas lícitas, passará facilmente às ilícitas. Assim, das inúmeras opções permitidas pelas rubricas se passou rapidamente aos abusos, pois as inúmeras opções favorecem a nossa vontade própria e dão a impressão de que a liturgia é obra nossa e não de Deus, colocando-nos no centro. Além disso, tantas opções tiram a paz do sacerdote e dos fiéis, tiram o foco do sacrifício que se oferece no altar para nos focar nas opções, nas novidades. Daí, dessa grande liberdade nas rubricas, entre outras razões, o caos litúrgico que vivemos hoje, com tantos e tantos abusos, muitos deles graves.

O Livro dos Reis nos relata um exemplo interessante de abuso litúrgico. Heli era o sumo sacerdote naqueles tempos e ele tinha dois filhos que a Sagrada Escritura chama de filhos de Belial, dada a impiedade deles nos sacrifícios. Esses filhos de Heli pegavam indevidamente para si parte dos sacrifícios que os israelitas ofereciam, pegavam para si indevidamente a carnes dos animais oferecidos. Ou seja, colocavam-se no centro, no lugar de Deus. Grandes foram as consequências desses abusos dos filhos de Heli. A primeira dessas consequências que o povo se afastou dos sacrifícios, a segunda foi a morte dos filhos de Heli e a terceira foi a derrota de Israel para os filisteus e a conquista da Arca da Aliança pelos filisteus. E tão graves consequências por abusos nos sacrifícios que eram tão somente prefigurações do sacrifício imaculado de Cristo. Os abusos litúrgicos na Missa têm consequências semelhantes, caros católicos: eles afastam o povo devoto do sacrifício (até porque ninguém é obrigado a assistir a uma Missa em que ocorrem abusos litúrgicos sérios), fazendo que o povo perca o respeito pelo sacrifício, pelo que há de mais sagrado. Em seguida, os abusos litúrgicos prejudicam gravemente o povo, matando muitas almas espiritualmente, a começar pela alma do próprio sacerdote que o comete conscientemente. Finalmente, os abusos litúrgicos abrem largamente o flanco para que os inimigos da Igreja alcancem vitórias sobre ela e a humilhem. A negligência no que há de mais sagrado tem consequências gravíssimas e prejudica a salvação das almas. Tendo isso em vista, a Igreja sempre considerou que o sacerdote que não cumpre voluntariamente uma rubrica comete um pecado. Um pecado venial, se é uma rubrica sem maior importância, ou um pecado mortal, se é uma rubrica importante.

As rubricas bem precisas e bem determinadas da liturgia tradicional são um grande bem e um grande auxílio para a nossa vida espiritual e para a Santa Igreja. Elas são como as muralhas de um castelo, defendendo o tesouro da liturgia, do nosso maior tesouro.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

[Sermão] O Brasil escravo de Nossa Senhora Aparecida

Sermão para a Festa de Nossa Senhora Aparecida

12.10.2013 – Padre Daniel Pinheiro

ÁUDIO: Sermão para a Festa de Nossa Senhora Aparecida – O Brasil escravo de Maria 12.10.2013

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito santo. Amém.

Ave Maria…

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Hoje, Festa de Nossa Senhora Aparecida. Lembro aos pais que devem explicar aos filhos que a importância do dia de hoje é devida a Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil, e não porque é o dia das crianças. O feriado foi instituído e existe em honra de Nossa Senhora Aparecida.

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Caros católicos, quando falamos da natureza do culto devido a Nossa senhora dissemos que, além da veneração, da invocação, do amor, da gratidão e da imitação, era devido a Maria Santíssima também um culto de escravidão. A Nossa Senhora como Rainha do céu e da terra, de tudo e de todos, se deve uma verdadeira escravidão. Uma escravidão por amor. E essa escravidão sintetiza perfeitamente todos os outros atos pertencentes ao culto de Maria. O escravo fiel a sua Rainha, a venera, reconhecendo sua singular excelência. O escravo ama a Rainha que o governa tão bem, e ele procura, consequentemente, agradar em todas as coisas à Rainha. O escravo tem gratidão por uma Senhora e Rainha que fez e faz por ele tantos favores e obtém tantas graças. O escravo invoca e recorre com grande confiança a uma Rainha que conhece suas necessidades, e que pode, e quer socorrê-lo em suas dificuldades. O escravo fiel, por último, trata de imitar a Rainha, já que reconhece nela o modelo de todas as virtudes.

Que Nossa Senhora seja Rainha, caros católicos, é inegável. Ela é Rainha porque é a Mãe do Rei, ela é a Mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo. Nosso Senhor é Rei mesmo enquanto homem porque está unido com o Verbo ao ponto de formar com Ele uma só pessoa, uma pessoa divina. Nosso Senhor é Rei porque nos redimiu na cruz, quer dizer, Ele é Rei por direito de conquista. Nossa Senhora, por sua vez, é Rainha porque é a Mãe de Deus, o que a faz ter uma relação única com Nosso Senhor Jesus Cristo, com o Verbo. Nossa Senhora é Rainha também porque é corredentora, porque participou de forma singular em nossa redenção, adquirindo sobre nós a realeza. Ela é Rainha porque sua santidade é maior que a de todas as outras criaturas, incluindo os anjos. Vemos isso claramente na Ladainha de Nossa Senhora. Mais especificamente, ela é Rainha dos Anjos porque conhece mais profundamente que eles os mistérios divinos. Rainha dos patriarcas porque supera todos eles em heroísmo e em piedade. Rainha dos profetas porque os supera no dom da profecia. Rainha dos apóstolos porque os supera no zelo pela glória de Deus e salvação das almas. Rainha dos mártires porque supera todos eles na virtude da fortaleza. Rainha dos confessores porque sua fé aqui na terra era imensamente superior à fé dos confessores. Rainha das virgens porque supera todas elas com sua pureza imaculada. Enfim, Rainha de todos os santos.  É óbvio que a realeza de Maria é uma realeza dependente e subordinada à realeza de Jesus Cristo. Não são, portanto, dois reinados absolutos e independentes. O reinado de Nossa senhora depende e está subordinado ao de NS. E Maria, como dispensadora de todas as graças adquiridas por Cristo, participa de modo sublime no governo de seu Filho, ajudando-nos a viver em conformidade com a lei da graça.

Nossa Senhora é, portanto, verdadeiramente Rainha, quer queiramos ou não. A nós cabe reconhecer a realeza dessa Rainha que é também nossa Mãe e nos submeter plenamente, entregando a ela tudo o que temos, tudo o que somos, todas as nossas ações passadas, presentes e futuras. Nós já sabemos que o melhor meio para chegar a Nosso Senhor é por Maria, é pela devoção a Maria. E a melhor devoção a Maria é a consagração total a ela como escravos dela, reconhecendo que pertencemos a ela, que somos propriedade dela e entregando tudo a ela, para que ela disponha disso da melhor maneira possível com o objetivo de dar maior glória a Deus e de salvar as almas. Pela consagração total a Maria, nós entregamos tudo a Nossa Senhora: corpo, alma, os bens exteriores, como casa, família, riquezas, e os bens interiores, como méritos, graças, virtudes, satisfações. Nós nos imolamos inteiramente a Jesus nos consagrando totalmente a Maria, e sabendo que, apresentados pelas mãos de Nossa Senhora, esses bens terão muito mais valor aos olhos de Deus e serão aproveitados de forma muito mais perfeita. Além de nos entregarmos inteiramente a Maria, a total consagração a ela consiste também em fazer todas as coisas por Maria, com Maria, em Maria e para Maria. Não basta fazer o ato de consagração e renová-lo com regularidade, se não se vive realmente uma vida espelhada em Maria. É preciso fazer todas as coisas com Maria, quer dizer, tomando-a como modelo de santidade. Fazer todas as coisas em Maria, quer dizer, em união com ela. Fazer todas as coisas por Maria, sempre por meio dela e por sua intercessão, ainda que implicitamente, sem precisar dizer a cada vez que estamos pedindo sua intercessão. Fazer todas as coisas para Maria, para agradar-lhe e poder, assim, agradar a Nosso Senhor Jesus Cristo e à Santíssima Trindade. Fazer tudo com Maria, em Maria, por Maria e para Maria, como diz São Luís de Montfort, para podermos fazer da melhor maneira possível tudo com Jesus, em Jesus, por Jesus e para Jesus. A total consagração a Maria, nunca é demais repetir, é a mais perfeita consagração a Jesus, pois Maria nos conduz a Ele com suavidade, com firmeza e rapidez.

São inúmeros os benefícios dessa total consagração a Jesus por meio da escravidão a Nossa Senhora. Ela nos consagra inteiramente ao serviço de Deus, entregando a Jesus por Maria tudo o que somos e temos. Com essa consagração, imitamos Nosso Senhor Jesus Cristo, que se submeteu a Nossa Senhora durante grande parte de sua vida e ainda hoje atende a todos os seus pedidos. Ela nos traz grandes benefícios porque atrai o amor de Nossa Senhora e seus auxílios especiais. Maria Santíssima, ao ver que alguém se despoja de tudo para honrá-la e servi-la, não poupará esforços para ajudá-lo no caminho para o céu. Com essa consagração, nossas boas obras são purificadas. A melhor de nossas obras sempre é feita com certo amor próprio, em virtude de nossas fraquezas. Quando as entregamos a Maria, ela purifica nossas boas obras dessas pequenas manchas. Com essa consagração, nossas obras se tornam mais belas diante de Deus. Se oferecêssemos uma simples maçã ao Rei, como diz São Luís de Montfort, nosso oferecimento talvez não fosse tão agradável. Mas quando entregamos essa maçã para a Rainha, ela a coloca em uma bela bandeja de ouro e apresenta essa simples homenagem ao Rei, que ficará muito benévolo em virtude da intermediária e em virtude do modo pelo qual chegou até Ele a homenagem. Essa devoção é também boa para o nosso próximo, pois Nossa Senhora saberá aproveitar plenamente nossas boas obras para o bem dos outros. Enfim, essa consagração é a melhor coisa que podemos fazer se queremos realmente nos converter, caros católicos. Uma explicação tão breve dá somente uma pálida ideia do que é essa escravidão por amor, do que é essa consagração total a Jesus por Maria. Recomendo que leiam o Livro de São Luís de Montfort, Tratado da Verdadeira Devoção a Maria, se quiserem entender bem esse tesouro inesgotável e tendo-o lido, que procedam à consagração, se ainda não a fizeram Que procedam a essa consagração com a real intenção de conversão, de servir Nossa Senhora e Nosso senhor Jesus Cristo. Lembro a todos que a devoção a Nossa Senhora não é uma devoção sentimental ou açucarada. A devoção a Nossa senhora deve nos preparar para a batalha. Para os homens e rapazes, em particular, a devoção a Nossa Senhora deve favorecer a virilidade, tornando-nos capaz de controlar nossas paixões e de nos dispor ao combate espiritual.

Tudo isso que falamos se aplica no plano pessoal, caros católicos. Todavia, se aplica também no plano social. Toda sociedade é também uma criatura e, como tal, deve reconhecer e se submeter à Realeza de Nosso Senhor Jesus Cristo e à realeza de Nossa Senhora. O Brasil tem por Rainha Nossa Senhora da Imaculada Conceição sob o título de Aparecida. Se o Brasil quer realmente viver na ordem, é preciso que seja escravo de Nossa Senhora. O Brasil precisa venerá-la, invocá-la, amá-la, agradecer-lhe, imitá-la, submeter-se a ela. Somente assim haverá a verdadeira ordem, que não pode ser outra do que a ordenação de tudo a Nosso Senhor Jesus Cristo. Somente reconhecendo a realeza e a soberania de Nossa Senhora o país poderá ter um verdadeiro progresso, que não é simplesmente um progresso econômico-social, mas que é um progresso das virtudes no povo, das virtudes naturais e sobrenaturais. Ao desprezar Maria Santíssima com tantas leis iníquas (indiferentismo religioso, aborto em alguns casos, uniões homossexuais e tantas outras coisas); ao desprezar Maria por um sistema político completamente esquecido de seu Filho e de sua Igreja; ao desprezar Maria por uma sociedade cada vez mais hostil à religião católica; ao desprezar Maria pela falta de culto público tributado a ela; ao desprezar Nossa Senhora de tantas formas, o Brasil caminha para o abismo. É nosso dever de piedade filial rezar pelo Brasil, recorrer a Nossa Senhora, pedindo pelo Brasil. E, ao pedirmos pela Brasil, devemos pedir não somente pelos governantes, mas também pelo clero, pelos bispos, pelos sacerdotes, para que sejam fiéis e santos.

Claro, devemos batalhar na esfera pública pela realeza de Nossa Senhora, mas devemos começar reconhecendo a realeza dela sobre a nossa alma. Uma ação individual tem um efeito sobre toda a sociedade, inevitavelmente. Assim, um pecado individual, ainda que praticado sozinho, sem o conhecimento dos outros, traz um prejuízo para a sociedade, porque esse pecado prejudicou ao menos um membro da sociedade e, ao prejudicar um membro, é toda a sociedade que é prejudicada. De forma semelhante, mas ainda mais intensa, uma ação meritória traz um benefício para toda a sociedade ainda que seja uma ação desconhecida das outras pessoas, pois essa ação fez um bem ao menos para um membro da sociedade, e, ao beneficiar um membro da sociedade, toda a sociedade é beneficiada. Portanto, caros católicos, podemos imaginar o bem que traz para a sociedade a alma que se consagra totalmente a Nossa Senhora e vive realmente essa consagração. Se queremos mudar a sociedade, devemos primeiro mudar a nós mesmos.

Roguemos a Maria Santíssima para que alcance de seu divino Filho misericórdia para nosso país tão ingrato com os benefícios divinos, benefícios naturais e sobrenaturais. Em particular, o benefício de ter dado ao nosso país, por meio dos missionários portugueses, a fé. A fé católica, que cada vez mais se enfraquece em nossa sociedade, nos fazendo voltar a viver como pagãos. Roguemos a Maria para que tenha piedade de nosso país, que está em ruínas espiritualmente falando. E quando uma sociedade está em ruína espiritualmente, todo o resto termina também desmoronando. Nós repetiremos, após a Missa, a oração e a consagração a Nossa senhora Aparecida feita pelos bispos do Brasil diante das autoridades civis em 1931. Faremos a nossa parte para que o Brasil reconheça a sua rainha e a sirva dignamente, para assim servir ao Rei dos reis, NSJC. Faremos a nossa parte para honrar publicamente a Nossa Senhora Aparecida. Se Nossa senhora for devidamente honrada publicamente nos dará abundantes graças, como ao ser encontrada nas águas do Rio Paraíba fez com que a pesca fosse abundante. Sem Maria, não há peixes. Com Maria, eles são abundantes.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

[Sermão]: O Santo Rosário: arma espiritual para alma, a Igreja e a sociedade

Sermão para a Solenidade da Festa de Nossa Senhora do Rosário – 20º Domingo depois de Pentecostes

06.10.2013 – Padre Daniel Pinheiro

ÁUDIO: Sermão para o 20º Domingo depois de Pentecostes – N. Sra. do Rosário 6.10.2013

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Ave Maria…

 “Fazei-nos, Senhor, pelos mistérios do Sacratíssimo Rosário, meditar na vida, paixão e glória de Vosso Filho Unigênito, para que sejamos dignos das promessas d’Ele.” (Secreta da Festa de Nossa senhora do Rosário).

Como sabemos, caros católicos, a festa de Nossa Senhora do Rosário foi instituída pelo Papa São Pio V em 1571, após a vitória dos católicos na batalha naval de Lepanto, contra os mulçumanos turcos. O primeiro nome da festa foi o de Nossa Senhora da Vitória. Logo em seguida, o Papa Gregório XIII mandou que a festa fosse em honra de Nossa Senhora do Rosário. Provavelmente, o Papa Gregório XIII queria não somente lembrar a vitória alcançada por Nossa Senhora, mas também a principal arma empregada para que a vitória ocorresse: o Santo Rosário, pois o Papa São Pio V pedira a todos os católicos que rezassem o Terço, para que os católicos vencessem a batalha naval. Ao mesmo tempo, todos os que estavam a bordo das galés também levavam consigo o Rosário. E o estandarte da nau capitânia de Dom João de Áustria, o chefe dos cristãos, era Cristo crucificado. E, além da cruz, ele levava também uma cópia de uma misteriosa imagem de Nossa Senhora que havia aparecido no manto de um índio no México. A bordo da nau de Dom João de Áustria, estava, então, a imagem de Nossa Senhora de Guadalupe. Os Missionários, graças a Deus, nos trouxeram a verdadeira religião, nos trouxeram Jesus Cristo. O continente americano ajudava agora, com Nossa Senhora de Guadalupe, na preservação do Velho Continente, a Europa. A festa de Nossa Senhora do Rosário foi assim instituída, por gratidão a tão boa Mãe e para favorecer a prática dessa excelente devoção que é o Terço. Em Lepanto, a civilização cristã foi salva contra a barbárie dos turcos mulçumanos pelo Rosário.

Como sabemos também, caros católicos, o Santo Rosário foi a arma dada por Nossa Senhora a São Domingos de Gusmão, fundador da Ordem dos Dominicanos, para ele vencer a heresia albigense ou cátara, heresia descendente do maniqueísmo, e que atingia, particularmente, o sul da França. Tratava-se de uma heresia monstruosa, que considerava a matéria como um mal. Assim, havia a prática do suicídio, eles se opunham ao matrimônio, pois o matrimônio, pela procriação, geraria almas presas a corpos. Por outro lado, favoreciam qualquer outro ato de luxúria, desde que se evitasse a concepção, e não viam com maus olhos a união entre pessoas do mesmo sexo. Destruíam, portanto, a família e combatiam muitas outras instituições sociais: eram contra a pena de morte, contra qualquer tipo de guerra, ainda que defensivas. Era uma heresia que conduzia ao caos social. Eles negavam, evidentemente, a ressurreição da carne, mas acreditavam na reencarnação, negavam o livre-arbítrio, etc. Muitas coisas que vemos amplamente espalhadas em nossa sociedade, não por acaso. Tratava-se, então, de uma heresia que se opunha à fé e que trazia grandes prejuízos à sociedade civil. São Domingos com suas pregações, com suas virtudes, conseguiu pouca coisa diante desses hereges. Foi com o Rosário dado por Nossa Senhora que ele conseguiu tirar as almas desse erro tremendo. O Rosário, na forma em que o conhecemos hoje, foi dado por Nossa Senhora a São Domingos nessa ocasião. O Rosário é o protetor da civilização católica, como vimos na batalha de Lepanto. O Rosário é também arma contra as heresias, como visto no caso dos albigenses.

Caros católicos, se a oração do Rosário pode fazer tanto bem em coisas de tal importância, quanto bem ele não faz para a nossa alma? O terço é também oração eficaz, muito eficaz para a nossa santificação, para que nos convertamos inteiramente a Nosso Senhor Jesus Cristo. Se rezássemos bem o terço, a heresia do modernismo já teria desaparecido. Essa heresia que, simplificando e resumindo, consiste em afirmar que podemos acreditar no que quisermos e que podemos fazer o que quisermos, desde que nos sintamos bem, desprezando aquilo que nos foi dito por Deus. “Acredite no que quiser, siga a moral que quiser, o importante é você se sentir bem, pois se se sente bem está com Deus”, ouvimos com frequência. Se rezássemos bem o terço, nosso país não estaria se afastando cada vez mais das leis de Deus. Se rezássemos bem o terço, nos afastaríamos definitivamente dos pecados mortais e dos pecados veniais deliberados, nos tornaríamos santos.

Se rezássemos bem o Terço… Mas o que é rezar bem o Terço? Como rezá-lo bem? O Terço é uma oração vocal e mental, caros católicos. Isso significa que devemos rezá-lo com todas as condições necessárias para uma boa oração vocal: estar em estado de graça, ou, ao menos, desejar verdadeiramente sair do estado de pecado mortal, se nos encontramos nele. Em seguida, devemos pedir coisas úteis para a nossa salvação, bens espirituais, antes de tudo. Devemos rezar com recolhimento, com atenção, evitando as distrações voluntárias, combatendo as involuntárias. Devemos rezá-lo com humildade, sabendo que não somos dignos de sermos atendidos. Devemos rezar com resignação, aceitando a vontade de Deus, que conhece perfeitamente o que é o melhor para nós. Devemos rezar com perseverança e grande confiança de sermos atendidos, se pedimos o que é bom para nossa alma. Se deixarmos uma dessas coisas de lado, nosso Terço já não será muito eficaz, perderá muito de sua potência. Mas o Terço é também oração mental, caros católicos. Isso significa que, ao rezar o terço, devemos considerar os mistérios da vida de Cristo e de Nossa Senhora e devemos tirar frutos, resoluções práticas, para a nossa vida, para nos corrigirmos em tal erro, para progredirmos em tal virtude, etc. O Terço bem rezado supõe essa oração mental, essa consideração dos mistérios do Terço e a resolução prática para progredirmos na prática do bem. Nessa união de oração vocal e mental está a profunda riqueza do Terço. Ao rezarmos bem as mais excelentes e perfeitas orações – Pai Nosso e Ave Maria – e considerarmos os mistérios gozosos, dolorosos e gloriosos de Nosso Senhor e Nossa Senhora, nos fixaremos no bem, nos tornaremos santos, nos dirigiremos para o céu, trabalharemos para o bem da Igreja e da sociedade.

Não é, porém, tarefa fácil conciliar a oração vocal e mental no Santo Terço. Cada um pode procurar uma maneira de conjugar a oração vocal e mental no Terço. Todavia, o Padre Antonio Royo Marín nos indica um método eficaz e simples. Ele diz que devemos, nas três primeiras Ave Marias de uma dezena, prestar atenção nas palavras que estão sendo ditas. Aqui está a oração vocal. Nas três Ave Marias seguintes, ele diz que devemos considerar o mistério em questão: a encarnação, a agonia de Jesus, a coroação de Nossa senhora, etc. Nas quatro últimas Ave Marias, devemos fazer uma pequena resolução para nossa vida espiritual, de acordo com o mistério considerado. A humildade para a encarnação, por exemplo. No começo, talvez tenhamos dificuldade, mas o importante é não desistirmos nem desanimarmos, mas perseverarmos e avançarmos, ainda que lentamente.

Rezar bem o Terço é uma grande arma no combate espiritual. É uma arma tão importante que Nossa senhora veio até nós insistir para que o rezássemos todos os dias. Em Fátima, Nossa Senhora insiste para que se reze o terço todos os dias. Em cinco das seis aparições, ela pede para que as crianças rezem o terço diário, para que se alcance a paz e o fim da guerra, da 1ª Guerra Mundial, no caso. Se nós queremos a verdadeira paz, que é a paz da graça, a paz do verdadeiro amor a Deus, devemos rezar o terço. O Terço, quando bem rezado, opera grandes prodígios, caros católicos. O maior deles é a conversão de nossa alma. Quem reza bem o Terço vai deixar o pecado grave. O terço e o pecado não podem coexistir durante muito tempo. Ou se abandona um ou se abandona o outro. Aqueles que ainda não o rezam diariamente, aproveitem essa festa de Nossa Senhora do Rosário e o mês do Rosário – outubro – para tomar a resolução de rezá-lo diariamente. Isso é fundamental. Rezemos o Terço e façamos isso em família, caros católicos, na medida do possível. Infundam nos filhos um grande amor ao Terço. Comecem a rezar com eles pequenos, pouco a pouco, com uma dezena, depois duas, e assim por diante, na medida em que for possível para a criança. As crianças de Fátima eram justamente crianças e rezavam o Terço. Lúcia tinha 10 anos. Francisco, 9. Jacinta, 7. Se vocês ensinarem os filhos a rezar o Terço, estarão lhes dando um grande tesouro.

No Evangelho de São João, nos é narrado que, após a ressurreição de Cristo, houve mais uma pesca milagrosa em que os apóstolos pescaram 153 peixes, sem que a rede se rompesse. O Rosário completo é composto de 153 Ave Marias. O Rosário e a terça parte dele – o nosso Terço – é como uma rede que captura graças abundantes sem se romper. O Terço é a devoção que mais agrada a Nossa Senhora. Quantas graças para aqueles que praticam e amam essa devoção. Se rezássemos bem o terço, nossa alma seria outra, a situação da Igreja seria outra, a condição da sociedade seria outra. Ficar se lamentando e reclamando, não adianta nada. Tomemos nosso Terço e rezemos. Se queremos nos tornar santos, se queremos destruir a heresia, se queremos construir uma sociedade cristã, rezemos o Santo Terço.

[Sermão] São Miguel, o demônio e o combate espiritual.

Sermão para a Festa da dedicação de São Miguel Arcanjo / 19º Domingo depois de Pentecostes

 29.09.2013 – Padre Daniel Pinheiro

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Ave Maria…

“São Miguel Arcanjo, defendei-nos no combate para não perecermos no dia do juízo terrível.” (Aleluia da Missa da Festa Dedicação de São Miguel Arcanjo)

A Festa que nós celebramos hoje não é simplesmente a Festa de São Miguel Arcanjo, mas é a Festa da Dedicação de São Miguel Arcanjo. Que dedicação é essa? Originalmente, se trata, provavelmente, da dedicação a São Miguel Arcanjo, feita nos primeiros séculos, nos subúrbios de Roma, de uma Igreja que ficava próxima à Via Salaria. Esse é, talvez, o significado original da Festa. Todavia, ela significa, hoje, a dedicação da Igreja Católica a São Miguel Arcanjo, que é, então, defensor da Santa Igreja.

A doutrina comum dos teólogos admite que há anjos da guarda não só dos homens, mas também de sociedades, de países, de dioceses, de paróquias, etc. São Miguel é como o anjo da guarda da Santa Madre Igreja, como o foi do povo judeu. E como anjo da guarda ele defende a Igreja constantemente dos males e perigos. Ele combate os demônios para que não façam tanto dano quanto gostariam de fazer. Ele favorece e inspira boas decisões aos membros da hierarquia. Ele oferece a Deus nossas orações: no momento da incensação no ofertório se invoca especificamente a intercessão de São Miguel Arcanjo. O incenso representa nossa oração e São Miguel a apresenta diante de Deus. São Miguel Arcanjo nos assiste também na hora de nossa morte e, por isso, se pede a ele, na Missa de Réquiem (de Defuntos), que leve as almas à santa luz. Eis algumas das funções de São Miguel a quem a Santa Igreja se dedica.

Todavia, São Miguel é o príncipe da milícia celeste, ele nos defende no combate. E creio que seja esse o principal fruto que podemos tirar hoje dessa festa: “a vida do homem sobre a terra é um combate (militia est vita hominis super terram)”, como nos diz o livro de Jó (7, 1). E, como nos diz São Paulo, não é somente contra a carne e o sangue que temos de lutar, mas contra os principados e potestades do inferno, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra os espíritos malignos espalhados nos ares (Efésios 6, 12). E Nosso Senhor diz: “Não julgueis que vim trazer a paz à terra. Vim trazer não a paz, mas a espada” (Mateus 10, 34). E, assim, poderíamos multiplicar as passagens da Sagrada Escritura que nos mostram que estamos em combate, em combate pela glória e honra do Deus altíssimo, pelo bem e liberdade da Igreja e em combate pela salvação de nossas almas. E, por isso, a Igreja que está no mundo se chama Igreja Militante.

Nosso combate é, então, principalmente contra o demônio, o pai do pecado. Os demônios, os anjos caídos, têm por finalidade conduzir o homem à separação de Deus. Os demônios odeiam profundamente a Deus e odeiam a imagem e semelhança que os homens em estado de graça têm com Deus. Os demônios trabalham, portanto, para destruir a vida da graça em nós. Fazem isso por ódio a Deus e por inveja a nós, que ainda temos a possibilidade de nos salvarmos. O desejo íntimo deles é que a adoração devida a Deus seja prestada a eles. Se te prostrares a meus pés, adorando-me, eu te darei tudo isso, diz o demônio a Nosso Senhor. E, para atingir o seu propósito, satanás e seus asseclas têm armas poderosas. Evidentemente, eles tentam as pessoas individualmente, sugerindo o pecado, colocando coisas na nossa imaginação, por exemplo, tentando nos fazer consentir no mal. Lembro, porém, que os demônios não podem agir sobre nossa inteligência nem sobre a nossa vontade. Aqui, somente nós e Deus podemos agir. Mas os demônios vão além dessa tentação individual. Querendo ser como Deus, eles imitam a ação de Deus. Deus faz que todas as coisas se dirijam ao bem daqueles que o amam. Os demônios, ao contrário, tentam dirigir tudo para o mal. Eles potencializam ao máximo os pecados individuais para formar, a partir deles, estruturas de pecado, quer dizer, o demônio usa esses pecados pessoais para organizar e sistematizar uma cultura que favoreça o pecado, para organizar sociedades, grupos que favoreçam o pecado, etc. Podemos ver isso no caso das falsas religiões, que, às vezes, começam com um pecado pessoal – pensemos no caso de Lutero, por exemplo, que, com seus escrúpulos, dividiu a cristandade ao meio, criando o protestantismo para justificar a sua consciência. Podemos ver essa estrutura de pecado nas sociedades secretas, na maçonaria, verdadeira anti-Igreja. Essas estruturas de pecado estão muito bem instaladas hoje, caros católicos. Às vezes, elas são evidentes, como nos casos que acabamos de mencionar e outros: falsas religiões, sociedades secretas, indústria pornográfica, o sistema político que não leva em conta Deus e sua Igreja, etc. Muitas vezes, porém, essas estruturas são mais discretas, menos perceptíveis. É o caso de muitas das diversões de nossos dias. Quantos filmes que introduzem sorrateiramente um ponto contra a fé ou que introduzem por uma única cena a impureza em nossa alma. E a televisão, então? E quantas músicas, seja pela letra seja pelo ritmo também não favorecem o pecado, a desordem nos nossos apetites. E também os livros ruins… São João Bosco, em uma de suas visões, via a barca da Igreja sendo atacada por livros… por livros ruins. Agora, há meios bem mais eficientes de atacá-la: os filmes ruins, a televisão, internet. Não estou dizendo que essas coisas são necessariamente ruins. Podem ser boas. Mas quão raramente podemos encontrar filmes que de nenhum modo prejudiquem a nossa alma ou programas de TV que de nenhum modo prejudiquem a nossa alma. Temos também as modas ofensivas a Nosso Senhor, as máximas do mundo, jogos de computador. Em algumas coisas, o demônio se manifesta mais claramente, como na série Harry Potter, por exemplo, ou como em um jogo de computador em que o objetivo é matar o Papa. A diversão moderada é legítima, mas não é lícita a diversão quando se ofende a Deus ou quando se prejudica a nossa alma. É o demônio o principal autor da cultura de morte em que vivemos hoje, uma cultura que favorece e facilita tanto o pecado e mesmo pecados gravíssimos como o aborto, a prática homossexual, etc. Quão grande deve ser o nosso cuidado com tudo isso, para evitarmos em tudo a ofensa a Deus.

O demônio é insidioso, ele arma ciladas para nos perder, e, como nos diz São Pedro, “o demônio, nosso adversário, anda ao redor de nós como um leão que ruge, buscando a quem devorar” (1 Pedro 5, 8). O demônio ataca. Suas armas são poderosíssimas. No mais das vezes, ele é sutil, tentando fazer com que sirvamos a dois senhores, a Deus e ao mundo, mundo entendido aqui como tudo o que conduz ao pecado. O demônio nos sugere: “você pode servir a Deus, mas não precisa abandonar aquela série de TV de que você tanto gosta só porque lá se fala um pouquinho mal da Igreja ou porque lá se faz uma apologia do amor livre”; “você pode servir a Deus, mas não precisa abandonar aquela roupa de que você gosta e que atrai olhares indevidos.” “você pode servir a Deus, mas não precisa abandonar aqueles lugares mundanos que você frequenta”; “isso aqui é só um pecado leve, não pode fazer tão mal, não precisa abandoná-lo…”

O demônio ataca… e nós, nos defendemos ou nos deixamos levar por essas ciladas, caros católicos? Devemos combater o bom combate. Se as armas do demônio são poderosas, elas não são nada comparadas às armas que Deus nos dá, pois o demônio é como um nada diante de Deus. Auxiliados pela graça e apoiados em NSJC, em Nossa Senhora, nos anjos e santos, os ataques do demônio serão vãos. Para nos defender e atacar, algumas de nossas principais armas são: a fé viva, a oração, os sacramentos (confissão, comunhão e crisma, para quem ainda não é crismado), a meditação da paixão de Cristo, a devoção a Nossa Senhora, os sacramentais (em particular água benta, a bênção do lar), a fuga das ocasiões de pecado, a mortificação, etc… E, importantíssimo, caros católicos, é preciso ter um desejo profundo da santidade, de amar a Deus com todo o nosso ser e ao próximo por amor a Deus. Devemos ter esse desejo profundo de servir unicamente a Nosso Senhor Jesus Cristo. Devemos considerar com frequência a bondade de Deus, suas perfeições. Devemos considerar com frequência a alegria que é servi-lo aqui na terra e a alegria que teremos no céu, se servimos a um só Senhor aqui na terra.

O demônio, como não poderia deixar de ser, ataca também a Igreja. A tentação é clara e, mais uma vez, é, no fundo, aquela terceira tentação de Cristo no deserto: “Igreja, se te prostrares diante de mim, adorando-me e adaptando a tua doutrina e a tua moral, te darei tudo: a aceitação do mundo, maior número de fiéis, não haverá mais perseguições, etc.” Quão mentiroso é o demônio. Se a Igreja não pode sucumbir, caros católicos, pois as portas do inferno não prevalecerão, conforme as promessas de Cristo, essa tentação é bem real e bem presente para os homens da Igreja. Nós devemos, então, rezar a São Miguel para que defenda a Igreja, ele que é seu protetor. Na liturgia tradicional, após a Missa rezada, o padre diz as chamadas orações leoninas, introduzidas pelo Papa Leão XIII, e depois complementadas por São Pio X. Depois da Missa rezada, o padre se ajoelha diante do altar e recita com os fiéis três Ave-Marias, uma Salve Rainha, uma oração para Nossa Senhora na qual se pede a exaltação e a liberdade para a Igreja. Em seguida, recita a oração a São Miguel Arcanjo, contra o demônio e os outros espíritos malignos. E se concluem as orações leoninas com a invocação ao Sagrado Coração de Jesus, repetida três vezes. Assim, todos os padres no mundo inteiro imploravam diariamente e diante do altar, logo após a Missa, a intercessão de São Miguel contra as ciladas do demônio. Isso se perdeu com reforma litúrgica. Não é de se espantar que a influência do demônio tenha aumentado. Devemos recitar diariamente essa oração a São Miguel Arcanjo, caros católicos, pela Igreja e por nós mesmos, para que sejamos preservados das insídias e ciladas do demônio. E devemos usar as armas que mencionamos há pouco.

O demônio é um anjo caído, extremamente inteligente e muito capaz no mal, mas ele é uma mera criatura. O demônio não é um deus do mal, mas ele é uma pura criatura, infinitamente inferior a Deus, a Nosso Senhor Jesus Cristo. E inferior aos anjos, que possuem a graça de Deus. Em particular, ele é muito inferior a São Miguel. O nome Miguel indica justamente isso, pois Miguel quer dizer: quem é como Deus? Ninguém é como Deus, soberano Senhor e criador de todas as coisas.  Sendo uma mera criatura, o demônio só age no mundo na medida em que Deus o permite, segundo os desígnios da sua divina providência. A ação do demônio também entra nos planos da divina providência e Deus permite que ele aja para tirar da ação do demônio um bem muito superior. Vemos isso claramente durante a vida de Nosso Senhor. O demônio incitou a paixão e a morte de Nosso Senhor, pensando vencer definitivamente o Messias. Mas sem saber e sem querer, ele trabalhou para a salvação do mundo e para a sua própria derrota. Deus não quer a ação do demônio, mas ele não a impede, para tirar dela um bem superior. Como nos diz Santo Agostinho: “O Deus todo poderoso […], sendo sumamente bom, não deixaria de nenhum modo que existisse o mal, se Ele não fosse suficientemente poderoso e bom para tirar do mal um bem” (Enchiridion III, 11) e um bem maior. O demônio é uma mera criatura, e Deus, não impedindo o mal realizado pelo demônio, tira desse mal, das tentações, um bem maior, para sua glória e para nós, se buscamos em todas as coisas a vontade de Deus.

Estamos em um grande combate, caros católicos, um combate espiritual. Não só contra a nossa carne ferida pelo pecado original, não só contra o mundo, mas contra os espíritos malignos. Nesse combate, devemos recorrer aos anjos, a São Miguel em primeiro lugar, aos nossos anjos da guarda. E devemos fazer isso de forma correta, pois existem hoje várias devoções aos anjos que não estão de acordo com a prática católica. Em particular, a prática de dar nome aos anjos e de lhes atribuir determinadas funções específicas. Só conhecemos o nome de três anjos: Gabriel, Rafael, Miguel. Portanto, não se deve falar de Uriel e outros. Não se deve comparar a ação dos anjos a algo parecido com a astrologia, determinando-se um mapa astral dos anjos ou outras práticas que beiram a superstição ou o esoterismo. Em particular, a Santa Sé diz (decreto de 1992 da Congregação para a doutrina da Fé) que as “teorias (da senhora Gabriele Bitterlich, fundadora da Obra dos Santos Anjos) acerca do mundo dos anjos, dos seus nomes pessoais, dos seus grupos e funções”, são “estranhas à Sagrada Escritura e à Tradição”, e que essas teorias “não podem servir como base para a espiritualidade e atividade de associações aprovadas pela Igreja.” A Igreja só admite os três nomes conhecidos na Sagrada Escritura – Gabriel, Rafael, Miguel – como afirmam os Capítulos de Carlos Magno e o Concílio Romano realizado sob o Papa Zacarias. Na Igreja de Santa Maria dos Anjos em Roma, nos conta Bento XIV, havia uma pintura com nomes de outros anjos. Foi mandado que esses nomes fossem apagados (Bento XIV, L. IV, Cap. XXX). Sigamos a doutrina tradicional da Igreja na devoção aos anjos e não revelações privadas proibidas ou duvidosas.

Devemos rezar a São Miguel Arcanjo e ao nosso anjo da guarda. A oração “Santo Anjo do Senhor”, para o anjo da guarda, não é uma oração para crianças, mas uma oração para todos, crianças e adultos, que deve ser feita diariamente, principalmente pela manhã e em momentos de necessidade, para que nosso anjo da guarda nos ajude.

Estamos em um grande combate. Combate pela glória do Deus altíssimo.  Combate pela vida eterna. Nós fazemos parte da Igreja Militante, caros católicos, e não simplesmente da Igreja peregrina. Devemos nos armar com as armas espirituais, para que possamos dizer ao fim de nossas vidas, como São Paulo, em uma das mais belas frases da Sagrada Escritura: “combati o bom combati, guardei a fé”. Que nós possamos combater o bom combate contra a carne, o mundo, o demônio, e possamos guardar a fé, e uma fé viva, animada pela caridade. “Tende confiança, nos diz Nosso senhor, eu venci o mundo.” (Jo XVI, 33). Ânimo, coragem. Para Deus, nada é impossível.

Recorramos sempre com grande confiança a São Miguel nesse combate, ele que é o Príncipe das milícias celestes, ele que porta o estandarte da Cruz. São Miguel Arcanjo, defendei-nos nesse combate, sede nossa guarda contra a maldade e ciladas do demônio. Instantemente e humildemente pedimos que Deus sobre ele impere; e vós, príncipe da milícia celeste, com o poder divino, precipitai no inferno a Satanás e aos outros espíritos malignos, que vagueiam pelo mundo para a perdição das almas.

Em nome do pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

[Sermão] A Igreja e sua doutrina

Sermão para o 18º Domingo depois de Pentecostes

22.09.2013 – Padre Daniel Pinheiro

ÁUDIO: Sermão para o 18º Domingo depois de Pentecostes A doutrina católica 22.09.2013

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Ave Maria…

Nosso Senhor, vindo ao mundo para nos salvar com sua caridade e misericórdia infinita, caros católicos, nos ensinou a verdade e nos instrui a amar a verdade, nos instruiu a aderir a ela e a colocá-la em prática. Nosso Senhor veio nos trazer a salvação. Todavia, sabendo que voltaria ao Pai, de onde veio, instituiu a Igreja, sua esposa imaculada, a fim de que a Igreja pudesse nos transmitir intactos seus ensinamentos, para que a Igreja prolongasse até o fim dos tempos os frutos da encarnação e da paixão de Nosso Senhor. A Igreja com sua doutrina é – como não poderia deixar de ser – fruto da misericórdia de Cristo.

 Algumas questões fundamentais, de grave importância foram suscitadas, agitadas, durante a semana com relação à Igreja e à sua doutrina. Convém muitíssimo deixar alguns pontos claros com relação à Igreja e à sua doutrina. Como diz São Paulo a Timóteo, é preciso pregar a palavra a tempo e fora de tempo, repreendendo, suplicando, admoestando, com toda paciência e doutrina. (II Tim. 4, 2)

Nosso Senhor fundou a Igreja, caros católicos. A Igreja, como nos diz o catecismo de São Pio X, é a sociedade de todas as pessoas batizadas que, vivendo na terra, professam a mesma fé e a mesma lei de Cristo, participam dos mesmos sacramentos, e obedecem aos legítimos pastores, principalmente ao Romano Pontífice. A Igreja não é algo vago, etéreo, nebuloso. A Igreja também não é simplesmente, sem mais nem menos, o povo de Deus. A definição da Igreja como simples povo de Deus resta imprecisa, e define melhor o povo judeu do que a Igreja fundada por Cristo. O que caracterizaria esse povo de Deus? Quais as especificidades desse povo? O que une esse povo? É preciso ter bem presente que a Igreja é uma sociedade. Ela é a sociedade de todas as pessoas batizadas que, vivendo na terra, professam a mesma fé e a mesma lei de Cristo, participam dos mesmos sacramentos, e obedecem aos legítimos pastores, principalmente ao Romano Pontífice. E a Igreja é uma sociedade perfeita, isso quer dizer que ela possui em si todos os meios para atingir o seu fim, que é a maior glória de Deus e a salvação das almas pela aplicação dos méritos infinitos obtidos por Cristo, pela transmissão do ensinamento de Cristo, pela celebração dos sacramentos, pela incitação ao amor a Deus e aos seus mandamentos. A Igreja é essa sociedade de que acabamos de falar, uma sociedade perfeita porque tem todos os meios para atingir seu fim, que é a glória de Deus e a salvação das almas. Claro, a Igreja é uma sociedade ao mesmo tempo divina e humana, portanto, ela é um mistério, mas isso não faz com que ela deixe de ser uma sociedade visível, externa, definida, para se tornar algo puramente espiritual, interno e impreciso, sem limites definidos, de forma que, no fundo, todo mundo faz parte dela. Não. A Igreja é visível, também externa, uma sociedade bem definida, da qual são membros os batizados que professam a fé católica, que partilham os mesmos sacramentos e que obedecem aos legítimos pastores.

A Igreja foi fundada por Cristo. Ela possui, portanto, uma constituição que lhe foi dada pela Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, por Deus Filho. A Igreja foi constituída por Deus como Igreja hierárquica. Nosso Senhor escolheu doze homens que Ele nomeou apóstolos (Marcos 3, 14-16), para que ficassem com Ele e pregassem (Atos 5, 17). E Nosso Senhor deu aos doze a missão de continuar a obra da redenção. Nosso Senhor diz aos apóstolos: “Assim como o Pai me enviou também eu vos envio” (Jo 20, 21). Deus enviou Nosso Senhor para governar, ensinar e santificar. São justamente os três poderes que possuem os Apóstolos e seus sucessores, os Bispos: governar, ensinar, santificar. Portanto, Nosso Senhor escolheu doze e conferiu a esses doze poderes particulares: governar, ensinar, santificar. Nosso Senhor constituiu uma hierarquia. A Igreja, por instituição divina é hierárquica. Mas essa não é uma hierarquia colegial, é, antes, uma monarquia. A Igreja é uma monarquia, pois Cristo deu a um dos Apóstolos, São Pedro e aos sucessores de São Pedro, o poder pleno e supremo de jurisdição e um poder supremo, pleno, ordinário e imediato sobre todas e cada uma das Igrejas particulares e sobre todos e cada um dos pastores e fiéis (Conc. Vat. I, Denz. 3064). Nosso Senhor disse a São Pedro: “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja. Eu te darei as chaves do reino dos céus. Tudo o que ligares na terra será ligado no céu. Tudo o que desligardes na terra será desligado no céu” (Mt 16, 18). Depois, Nosso Senhor dirá a São Pedro duas vezes: “apascenta os meus cordeiros” (Jo 21, 15-17). E uma vez: “apascenta minhas ovelhas” (Ibidem). Os cordeiros são só fiéis, as ovelhas são os Bispos e Padres. São Pedro, o Papa, deve apascentar todos, deve governar, instruir e santificar a todos. O que foi divinamente instituído ninguém pode mudar. E Nosso Senhor assistirá a sua Igreja para que ela permaneça até o fim dos tempos como ele a instituiu, pois Ele disse que as portas do inferno não prevaleceriam contra ela e que Ele estaria com a Igreja até a consumação dos séculos. A natureza da Igreja é, então, a de uma sociedade hierárquica e monárquica. Nós sabemos que o bem de cada coisa é agir conforme a sua natureza. Portanto, o bem da Igreja e consequentemente dos fiéis e de todos os homens se verifica quando os membros da Igreja agem conforme a sua natureza, respeitando a instituição divina. Não se trata, em nenhuma hipótese de uma tirania – como é claro -, pois o tirano governa para o seu próprio bem ou para o bem de um grupo. O Papa deve governar para o bem dos fiéis, para que os fiéis alcancem com maior facilidade a salvação. O Papa, sendo o soberano chefe da Igreja, é, ao mesmo tempo e pelo próprio fato de ser o chefe supremo, o servo dos servos. Sua função é servir a todos, promulgando leis que nos levem a Deus, ensinando com clareza e fidelidade a doutrina de Cristo, assegurando a boa administração dos sacramentos. Agindo assim, ele espalhará a misericórdia divina sobre a terra e levará as almas para Deus. Aquilo que muitos desejam, de ver o Papa praticamente como mais um entre os bispos, de ver a democracia instalada na Igreja é um grande prejuízo para a Igreja, para as almas. Agir desse modo é um grande prejuízo para a Igreja e para os homens, é falta de fidelidade a Cristo. O bem de uma coisa é agir em conformidade com sua natureza e a natureza da Igreja é hierárquica, monárquica. Isso não significa que o Papa deva governar sozinho. Não, ele pode e deve pedir conselho, ele pode e deve ser auxiliado no governo da Igreja, mas jamais deve se igualar aos outros bispos.

Como vimos, a Igreja tem como finalidade última a glória de Deus e a salvação das almas. Para atingir esse fim, a hierarquia recebeu de Cristo, como vimos, o poder de ensinar. Esse poder de ensinar consiste em transmitir, guardar, declarar, defender, explicar aquilo que Nosso Senhor ensinou. Aquilo que Nosso Senhor ensinou não pode mudar. Ele manda que os apóstolos ensinam aquilo que ouviram e aprenderam (Mt 28, 20; 10, 27) A Revelação feita por Cristo, se encerrou com a morte do último Apóstolo, São João, no início do século II. O Espírito Santo, como diz Nosso Senhor, ensinou aos apóstolos toda as coisas e lembra a eles o que Cristo ensinou (Jo 14, 26). Não há, portanto, mais nada para ser revelado. Tudo o que a Igreja ensina deve necessariamente estar contido no ensinamento dos Apóstolos. A Igreja não pode, então, mudar aquilo que Cristo e o Espírito Santo ensinaram, a Igreja não pode mudar as verdades reveladas, a Igreja não pode inventar novas verdades reveladas, nem dizer que uma verdade deixou de ser revelada. A Igreja não pode mudar a interpretação dada a uma verdade revelada. A Igreja deve sempre interpretar a verdade revelada no mesmo sentido, com o mesmo entendimento, ainda que mais profundo. Por exemplo, a Igreja sempre afirmou que a presença de Cristo na Missa, após a consagração, é uma presença real, substancial, em corpo, sangue, alma e divindade. A Igreja não pode dizer hoje ou amanhã que a presença de Cristo na Missa existe, mas que é uma presença simbólica, uma presença só para os que creem, etc. A Igreja pode aprofundar-se no entendimento de uma verdade revelada, mas nunca mudando o sentido ou interpretação dessa verdade. Dessa forma, a Revelação (aqui se incluem as verdades de fé e também a moral) não pode ser mudada para se adaptar aos tempos modernos – nem aos antigos, nem a qualquer outro tempo – para se adaptar à mentalidade do homem contemporâneo. As verdades a serem cridas e praticadas não vêm do povo, dos fiéis, mas de Cristo e da hierarquia. A Revelação – a doutrina da Igreja e sua moral – não deve ser lida à luz da modernidade, a fim se adaptar a essa modernidade. É a modernidade que deve ser lida à luz da Revelação, a fim de saber o que pode ser aproveitado da modernidade para o nosso bem. A Igreja tem o dever de se manter fidelíssima ao depósito da Revelação que ela recebeu de Cristo e ela é fidelíssima e será fidelíssima. A Igreja guarda intactas e puras as verdades que recebeu de seu Divino Mestre. Mais uma vez, não é a Revelação que se adapta ao homem e aos seus gostos e caprichos – isso seria divinizar o homem, colocá-lo acima de Deus – mas é o homem que deve ser conformar inteiramente à Revelação. Portanto, a doutrina da fé e da moral da Igreja não pode mudar, não pode evoluir.

Assim sendo, a Igreja não pode evoluir quanto ao aborto, quanto ao homossexualismo, quanto à contracepção, quanto à comunhão dos divorciados recasados, quer dizer, quanto à comunhão daqueles que se casaram na igreja, se separam e depois se juntaram com outra pessoa. A Igreja não pode mudar quanto a isso, pela própria natureza das coisas. E a Igreja deve insistir nesses pontos porque são pontos de suma importância para o indivíduo, mas, sobretudo, para a sociedade. O aborto e o homossexualismo são dois pecados que clamam aos céus por vingança justamente porque são pecados que corroem os fundamentos da sociedade, causam um mal incomensurável à sociedade. O primeiro, porque é suma injustiça, é o assassinato de um inocente indefeso, assassinado por aqueles que mais deveriam protegê-lo e amá-lo. O segundo, porque destrói inteiramente a base da sociedade, que é a família, formada para a propagação do gênero humano e para povoar o céu. É óbvio que a pregação da Igreja não pode nem deve se reduzir a isso. Mas é preciso insistir nesses pontos, sem esquecer os outros principais, a existência de Deus, a Trindade de Deus, a Encarnação de Deus Filho, sua morte por nós na cruz, sua caridade, bondade e misericórdia para conosco. Se os homens da Igreja insistissem um pouco mais sobre esses assuntos, talvez a sociedade não estivesse nesse estado, tão afastada de Deus. Se os homens da Igreja passarem a falar pouco desses assuntos, em pouco tempo os católicos cederão quase completamente em todos esses pontos, como já cederam quase completamente em alguns, como é o caso da contracepção, por exemplo. É preciso falar com frequência sobre esses assuntos, sem reduzir o catolicismo a eles, como é evidente. Todos esses pecados – contracepção, aborto, prática homossexual, divórcio – são pecados graves. Aquele que morrer neles, consciente da gravidade deles – e mesmo um pagão consegue ver com certa facilidade a gravidade deles, excetuando talvez a contracepção – será condenado. É a Igreja que os condena? Não. Eles mesmos se condenam. A Igreja prolonga nesse mundo a missão de Cristo em sua primeira vinda. Cristo veio condenar? Não. O evangelho de São João nos diz (Jo 3, 17 – 21): “Deus não enviou seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele. Quem n’Ele crê não será condenado, mas quem não crê, já está condenado, porque não crê no nome do Filho unigênito de Deus. E a condenação está nisto: a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque suas obras eram más. Porque todo aquele que faz o mal aborrece a luz, e não se aproxima da luz, a fim de que não sejam condenadas as suas obras.” Não é a Igreja que condena. É a própria pessoa que se condena e se prepara para ser julgada como tal por Cristo quando da sua segunda vinda, em que Ele virá glorioso – aí, sim – para julgar os vivos e os mortos. O dever da Igreja e dos homens da Igreja é alertar as pessoas, com caridade: você está se condenando, abandone as trevas, venha para a luz, venha para Deus e sua Igreja. A Igreja deve dizer ao pecador: Nosso Senhor morreu por sua alma, para salvar a sua alma, abandone o pecado e prove e veja quão suave é o Senhor (Salmo 33, 9). A misericórdia da Igreja é tirar o homem de sua miséria. Qual é a maior miséria? O pecado. Para tirar o homem do pecado, ela tem que dizer que o pecado existe e que ele conduz à condenação. A Igreja tem que dizer que pelo pecado grave a pessoa perde o céu e merece o inferno. Quantas almas encontraram e encontram assim a misericórdia divina. Além disso, é obra de misericórdia espiritual ensinar aos ignorantes e corrigir os que erram, oportunamente. Como diz São Pio X, na carta Apostólica Notre Charge Apostolique: “a doutrina católica nos ensina que o primeiro dever da caridade não está na tolerância das convicções errôneas, por sinceras que sejam, nem da indiferença teórica e prática pelo erro ou o vício, em que vemos mergulhados nossos irmãos, mas no zelo pela sua restauração intelectual e moral, não menos que por seu bem-estar material.” A Igreja deve formar a consciência dos homens, é da Igreja que depende a vida espiritual dos homens. Não basta seguir a própria consciência para se salvar, é preciso seguir uma consciência bem formada, que busque realmente a verdade e que a ame. Muitos seguem sua consciência, mas uma consciência cupavelmente mal formada e relaxada, em que se escolhe não se aproximar da luz para não ter que mudar de vida. A Igreja deve formar as consciências. É grande obra de misericórdia ensinar aos ignorantes e corrigir os que estão no erro, de modo oportuno.

A Igreja e seus membros devem trabalhar incessantemente para restaurar tudo em Cristo. A restauração de tudo em Cristo era o que movia São Paulo, como ele disse aos Efésios (1, 10). Restaurar tudo em Cristo era o que movia São Pio X. Restaurar tudo em Cristo é o que deve mover todo católico. Restaurar tudo em Cristo é direcionar tudo a Cristo, fazer tudo por Ele, e com Ele, e n’Ele. Mas, como diz São Pio X, restaurar tudo em Cristo não é simplesmente levar as almas para Deus, mas restaurar a civilização cristã em cada um dos elementos que a compõem (Enc. Il fermo proposito). E isso não é um restauracionismo ideológico, mas um restauracionismo indispensável para todo católico. Mas como fazê-lo? São Pio X indica, na sua Encíclica E Supremi Apostolatus, quatro meios principais, entre outros, para restaurar tudo em Cristo: 1) a boa formação do clero, 2) o ensino da doutrina católica (não é por acaso se São Pio X promulgou o catecismo que leva o seu nome), 3) o fervor da vida cristã, e 4) a caridade cristã, que não é um zelo amargo que mais afasta as almas do que as atrai, mas que é uma verdadeira bondade, que não se confunde tampouco com tolerância do erro ou do pecado. Nesses últimos tempos, nós vemos a disciplina avançando, a liturgia avançando, os ensinamentos avançando e tendendo a se conformar à mentalidade moderna. Ao mesmo tempo em que tudo isso avança, nós vemos a prática real da religião recuando, o número de fiéis caindo, etc. É preciso constatar que esses avanços não têm contribuído para o avanço do Evangelho. Uma pessoa que vai avançando em alto mar e que começa a se afogar deve voltar para a praia ou continuar avançado em alto mar? Dou um exemplo prático na vida da Igreja: a lei da abstinência da sexta-feira. No direito canônico atual, a abstinência de carne pode ser substituída por outra penitência ou por uma obra de caridade. O resultado é que ninguém faz praticamente mais nada na sexta-feira. A penitência, tão necessária à vida cristã, é negligenciada e o resultado são as paixões desordenadas. Não seria o caso de se restabelecer a antiga disciplina, com uma lei clara que pede a abstinência de carne nas sextas-feiras? Algumas conferências episcopais já fizeram isso. Outro exemplo é a recepção da comunhão na mão. Essa prática não tem prejudicado tanto a fé das pessoas na presença real de Cristo na hóstia consagrada? Não seria o caso de se restabelecer uma liturgia e prática provadas por séculos e séculos e centradas completamente em Deus? Não seria o caso de se retornar à teologia baseada nos fundamentos sólidos estabelecidos por São Tomás de Aquino, capaz de responder às exigências de qualquer época? Não seria o caso de se retomar uma pastoral centrada no bem das almas e menos burocrática ou social? Tudo isso aqui é essencial. Não se trata aqui de voltar a um passado por simples gosto romântico do passado ou por ideologia, quer dizer, por uma vontade desconectada da realidade. Os que fazem isso são aqueles que querem restaurar uma suposta liturgia primitiva, que querem restaurar uma suposta caridade primitiva, que querem restaurar uma suposta colegialidade da Igreja dos primeiros séculos, que querem restaurar a disciplina primitiva do não celibato dos padres na igreja latina, etc… Isso seria uma restauração ideológica, uma volta ideológica ao passado. Nós estamos falando aqui de uma restauração que possa nos centrar e centrar a sociedade em Cristo hoje e sempre, com a liturgia tradicional que favorece imensamente a isso, com uma disciplina que nos faz esquecermos de nós mesmos e que nos dirige para Deus, uma disciplina que nos auxilia e facilita a prática do bem, uma disciplina que não é um fim em si, mas um auxílio importante…  Não se trata, nem é possível, como diz São Pio X (Il fermo proposito), de restaurar todas as instituições que se mostraram úteis e eficazes no passado. A Igreja sabe se adaptar facilmente ao que é contingente e acidental sem prejudicar a integridade ou a imutabilidade da fé, da moral e sem prejudicar seus direitos sagrados. Todavia, muitos desses avanços prejudicaram de alguma forma, infelizmente, a fé e a moral, em vez de favorecê-los. A liturgia tradicional, uma disciplina mais tradicional, uma catequese e uma pastoral mais tradicionais não são uma relíquia do passado. São coisas que permanecem sempre jovens, pois fundadas na palavra de Deus, que não passa e não envelhece.

Restaurar tudo em Cristo, caros católicos. Esse deve ser o nosso programa de vida. A começar pela nossa alma, mas sem esquecer nosso próximo, sem esquecer a sociedade. Restaurar tudo em Cristo pelo ensino da religião, da doutrina católica. A primeira e maior obrigação dos pastores, diz o Concílio de Trento, é a de ensinar o povo cristão. E São Paulo diz o mesmo a Timóteo (I Tim. 5, 17): “os presbíteros que governam bem, sejam considerados dignos de estipêndio dobrado, principalmente os que trabalham em pregar e ensinar.” A conversão, o amor a Deus, a misericórdia, só podem vir com a fé. E a fé, como diz São Paulo, vem pelos ouvidos. É preciso que alguém ensine, com segurança e sem ceder às novidades, como diz São Paulo (I Tim. 6, 20). Só se ama aquilo que se conhece. Só amará a Deus quem o conhecer. Se o ensino é bem feito e seguro, isto é, baseado na Revelação e não em conjecturas, e feito com a intenção de trazer as almas para Deus, o resto seguirá como consequência. Façamos nossa parte, caros, católicos, para restaurar tudo em Deus… isso é grande obra de misericórdia.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.