Sermão (XIII) – A queda de Jerusálem e o dia do Juízo

Sermão para o 26º Domingo depois de Pentecostes (25 de novembro de 2012)

Padre Daniel Pinheiro

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém. Ave Maria…

Estamos hoje, caros católicos, no último Domingo depois de Pentecostes, que é o último domingo do ano litúrgico. A partir do domingo que vem entraremos no Advento, nos preparando para a festa do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo. Como já falei anteriormente, o último domingo do ano litúrgico simboliza o final dos tempos. E, por isso, Nosso Senhor fala, no Evangelho, de muitas coisas que devem anteceder o final do mundo e que servem também como um sinal do fim dos tempos.

“Esta geração não passará sem que se cumpram todas essas coisas.”

Mas Nosso Senhor, no Evangelho de hoje, não nos fala somente do fim do mundo. Ele nos fala também da queda de Jerusalém, ocorrida algumas décadas depois de seu discurso. O Evangelho que agora cantamos responde a duas perguntas feitas pelos discípulos. Uma pergunta é referente à queda de Jerusalém e a outra é referente à sua segunda vinda e ao fim do mundo. Nesse discurso, Ele responde a essas duas perguntas no estilo dos antigos profetas, com quadros descritivos do futuro que se sobrepõem, um sendo a prefiguração do outro. Aqui é exatamente isso que ocorre. Nosso Senhor trata da ruina de Jerusalém e do fim do mundo, pois a queda de Jerusalém é uma prefiguração do fim do mundo.

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Sermão (XII) – Contracepção, métodos naturais e a cultura da morte

Sermão para o 25º Domingo depois de Pentecostes (18 de novembro de 2012)

Padre Daniel Pinheiro

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém. Ave Maria…

Filhas de Jerusalém, não choreis sobre mim, mas chorais sobre vossos filhos. Porque eis que virá um tempo em que se dirá: Ditosas as estéreis e ditosos os seios que não geraram e os peitos que não amamentaram. (Lc XXIII, 28-29)

Eis aqui a única referência que Cristo faz à contracepção e à mentalidade contraceptiva. Claro que essas palavras de Nosso Senhor são suscetíveis de várias interpretações e se aplicam a circunstâncias diversas, em particular ao momento da queda de Jerusalém e mesmo ao fim dos tempos. Mas é claro que Nosso Senhor se refere, aqui, também à contracepção e à mentalidade contraceptiva. E Ele o faz no meio de seus maiores sofrimentos, durante a Via Sacra. Durante toda a história da humanidade nunca vimos um período em que a contracepção estivesse tão disseminada como em nossos tempos. É preciso chorar, nos diz Nosso Senhor. Continuar lendo

[Sermão] Sobre a Fé e os erros opostos

Sermão para o 16º Domingo depois de Pentecostes (16 de setembro de 2012) 

Padre Daniel Pinheiro

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Ave Maria…

Tratemos hoje, caros católicos, de algo fundamental, algo sem o qual – nos diz São Paulo na Epístola aos Hebreus (11, 6) – não podemos agradar a Deus. Tratemos, pois, da fé. São Paulo utiliza hoje uma expressão curiosa: “que Cristo habite pela fé em vossos corações”. A fé está, então, em nosso coração? A fé é, então, um sentimento? Considerar a fé como um sentimento é um erro extremamente atual e que tem causado muito mal para as almas. Esse erro encontra sua origem na doutrina do modernismo, condenada por São Pio X. Negando que nossa razão possa conhecer a existência de Deus e possa receber uma revelação exterior (duas coisas falsas, pois podemos conhecer que Deus existe e podemos conhecer aquilo que ele nos ensina), o modernismo explica a existência da religião a partir de um sentimento interior, o sentimento religioso. As doutrinas das diversas religiões são todas expressões mais ou menos perfeitas desse sentimento e são todas expressões boas desse sentimento. Assim, toda religião que possa manter em uma pessoa esse sentimento religioso é boa. E o importante é que esse sentimento continue vivo, mesmo que para isso eu mude de religião, ou mude a doutrina católica ou mude a interpretação do ensinamento da Igreja. É  exatamente isso que nós vemos hoje: muitos ficam na Igreja Católica enquanto isso lhes agrada, mas se querem divorciar-se e casar-se novamente já não se sentirão bem e procurarão uma seita onde se sentirão bem e estarão, assim – pensam – “de bem com Deus”. Muitos querem mudar a doutrina católica segundo suas vontades e caprichos para se sentirem bem e outros querem reinterpretar os ensinamentos da Igreja. Podemos ver, então, quantos males são causados pelo fato de confundir a fé com um sentimento.

A fé, caros católicos, não é um sentimento e a frase de São Paulo não afirma isso. Para entender bem a frase de São Paulo – “que Cristo habite pela fé em vossos corações” – é preciso conhecer o vocabulário bíblico. O coração na Bíblia é, antes de tudo, a sede da inteligência ou da vontade. Quando São Paulo nos diz que deseja que Cristo habite pela fé em nossos corações, ele deseja, na verdade, que Cristo esteja presente em nossa inteligência pela fé, porque a fé está na inteligência e não nas emoções. A fé é uma virtude sobrenatural, dada pela graça divina, pela qual aderimos à verdade revelada por Deus, em virtude da autoridade divina que não pode se enganar nem nos enganar. Repito: a fé é a adesão da inteligência à verdade revelada por Deus, em virtude da autoridade divina que não pode se enganar nem nos enganar. Devemos ter isso muito claro para não confundir a fé com um sentimento passageiro que vai e vem. Devemos considerar na fé três coisas. De que modo devemos crer, em que acreditamos e por que acreditamos. Em seguida, devemos considerar alguns dos principais erros que se opõem à fé e alguns dos perigos para a nossa fé.

A primeira coisa que devemos considerar na fé é, então, de que modo devemos crer. Quando recitamos o Credo e dizemos “creio”, o que estamos dizendo? Estamos dizendo “eu penso”, “eu acho”, “é possível” ou “para mim é assim”…? Não! Quando dizemos creio ao recitar o credo, expressando a nossa fé, estamos aderindo da maneira mais firme possível, com certeza absoluta e sem nenhuma dúvida àquelas verdades, porque é  Deus quem nos fala e se Deus nos fala nós somos obrigados a acreditar de modo absoluto, porque Ele não pode se enganar nem nos enganar. Devemos crer, então, com certeza absoluta, sem condições nem hesitações… São Paulo nos diz que a fé é a certeza daquelas coisas que não vemos (Heb 11,1). Trata-se, portanto, de certeza.

Em que devemos acreditar com fé? Devo acreditar com fé, quer dizer, aderindo de modo absoluto, em tudo aquilo que Deus nos revelou por escrito ou por tradição e que a Igreja me ensina como divinamente revelado. Isto é, devo aderir de modo absoluto e incondicional a tudo aquilo que a Igreja ensina como revelado, pois a Igreja Católica foi estabelecida por Deus como infalível em matéria de fé e moral. Por exemplo, minha inteligência deve aderir com certeza absoluta à verdade de que Cristo é homem e  Deus, que Maria Santíssima foi concebida sem pecado e subiu aos céus, que o Papa é infalível em certas condições, que a contracepção é imoral etc. Nem todas as verdades de fé estão contidas explicitamente no Credo, mas só implicitamente. Precisamos saber também que não pode crescer o número de verdades reveladas. A Revelação terminou com o último Apóstolo. Depois da morte de São João Evangelista não há revelação de novas verdades. E os dogmas definidos  recentemente pela Igreja não são novas verdades reveladas? Não, esses dogmas não são novidades, mas estavam contidos ao menos implicitamente na doutrina ensinada pelos Apóstolos e pelas Sagradas Escrituras. A Igreja simplesmente explicita e afirma essas verdades em um dado momento da história. Assim, a infalibilidade está presente em Mateus 16, 16: “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja e tudo o que ligares na terra será ligado no céu e tudo o que desligares na terra será desligado no céu. E as portas do inferno não prevalecerão contra ela.” A Imaculada Conceição está contida na saudação do anjo: “Ave, cheia de graça…” E se não há novas verdades, também não pode haver uma interpretação diferente da interpretação que sempre foi dada aos dogmas. Não se pode dizer que renovação significa comemoração quando se diz que “a missa é a renovação não sangrenta do sacrifício da cruz”. Não. Renovação sempre foi interpretada pela Igreja como a repetição sacramental, não sangrenta do sacrifício de Cristo. Assim, não pode haver novas verdades reveladas nem pode haver mudança de sentido das verdades reveladas. Ambas as coisas seriam adulterar a Revelação para adaptá-la aos nossos gostos e preferências.

Mas por que devemos acreditar de maneira tão absoluta, com a maior certeza possível? Qual motivo leva nossa inteligência a aderir com tal certeza? O fato de ser Deus quem fala e sabermos que é Ele quem fala. Deus não pode se enganar nem nos enganar. E sabemos que é Ele quem fala quando vemos o dedo dEle confirmar uma certa doutrina com verdadeiros milagres e verdadeiras profecias; friso bem: com verdadeiros milagres e profecias. Sabemos que Cristo ensinou aquilo que Ele viu no seio do Pai porque Ele fez inúmeros milagres e profecias. E sabemos também que ele constitui sua Igreja como guardiã infalível da Revelação. Devemos acreditar, portanto, de modo incondicional e total quando Deus nos fala. Não acreditamos porque nossos pais nos ensinaram, nem porque o padre nos ensinou, mas porque Deus nos ensinou e se revelou para nós. Os pais, o padre, são instrumentos de Deus para que os outros possam conhecer os ensinamentos divinos. Mas no fundo, cremos porque Deus nos revelou. E, por essa razão, se deixo de acreditar em uma única verdade revelada proposta como tal pela Igreja – por exemplo, a Imaculada Conceição – perco toda a fé, porque já não acredito porque Deus me revelou, mas por um critério meu, a partir do qual decido o que é verdade ou não. Se deixo de aderir, de acreditar em uma única verdade de fé, perco a fé, deixo de ser católico.

A fé é, então, necessária para a nossa salvação e devemos com frequência fazer atos de fé durante a vida, em particular em momentos de tentação contra a fé e na hora da morte. Evidentemente, nunca podemos negar um só artigo de fé sem perdê-la e às vezes somos obrigados a manifestá-la. Por exemplo, quando a autoridade legítima nos interroga e o silêncio equivale a negar a fé.

Mas se a fé é um bem tão precioso, devemos evitar tudo aquilo que se opõe à fé. Alguns pecados se opõem à fé por excesso e outros por defeito.

Por excesso, opõem-se à fé a credulidade excessiva e a superstição. A credulidade excessiva consiste em admitir com demasiada facilidade e sem fundamento suficiente que certas verdades pertencem à fé. Ocorre normalmente em pessoas devotas, mas ignorantes, que concedem importância extraordinária ao que diz qualquer visionário. A Sagrada Escritura nos coloca em guarda contra essa excessiva credulidade: “Caríssimos, não creias em qualquer espírito, mas examinai os espíritos para ver se são de Deus, porque muitos falsos profetas levantaram-se no mundo” (1Jo 4,1). Mas também não devemos cair no extremo oposto racionalista que duvidaria até mesmo das revelações privadas aprovadas pela autoridade suprema da Igreja, como Fátima ou Lourdes. Em todo caso, as revelações privadas não fazem parte da Revelação com “R” maiúsculo e não há jamais obrigação estrita de acreditar nelas, embora não acreditar possa ser extremamente imprudente nos casos aprovados pela autoridade suprema da Igreja. Devemos ter cuidado, então, com a excessiva credulidade, em aceitar tudo que é tipo de revelação privada. Só podemos aceitá-las quando há a aprovação definitiva e cabal da Igreja, quando há a certeza de que nada nelas se opõe à doutrina da Igreja.

Se opõe também à fé por execesso a idolatria, tributando a uma criatura a adoração devida a Deus. A adivinhação, que tenta averiguar os futuros incertos e coisas ocultas por meios incertos e desproporcionais também se opõe à fé. E assim, a comunicação com demônios, com os mortos, ou outras práticas falsas, a fim de descobrir o desconhecido, consultar horóscopos, astrologia, leitura de mão/quiromancia, cartomante, tarô, búzios, etc. são pecados graves contra a fé e a religião; atribuir importância indevida aos sonhos, presságios… praticar magia ou feitiçaria; jogar com tábuas Ouija ou mesas que giram; praticar o jogo do copo; praticar o espiritismo (falar com os espíritos, invocar os mortos)… Eis aí alguns exemplos de pecados gravíssimos contra a fé e a religião.

Por defeito, também é pecado contra a fé a heresia, que nega uma ou mais verdades reveladas, e a apostasia, que é o abandono total da fé recebida no batismo. A dúvida proposital de qualquer artigo de fé, a ignorância deliberada das verdades de fé que devem ser conhecidas, e a negligência de instruir-se na fé de acordo com o próprio estado de vida também se opõem à virtude da fé. Podemos citar ainda o indiferentismo (que é acreditar que uma religião é tão boa quanto a outra, e que todas as religiões são igualmente verdadeiras e agradáveis a Deus, ou que o homem é livre para aceitar ou rejeitar a religião que quiser); a leitura ou circulação de livros ou escritos contra a crença e a prática católicas, de tal modo a comprometer a própria fé também se opõem à mesma; participar em ato de culto ou liturgia de cismáticos ou hereges; aderir a ou apoiar sociedades proibidas. Para proteger a fé, a Igreja não recomenda o casamento com alguém que não é católico e tal casamento só pode ocorrer com a dispensa da autoridade eclesiástica.

Nós vivemos em um mundo em que há uma crise de fé enorme. Tudo isso que acabamos de mencionar é abundante em nossa sociedade e mesmo entre católicos, desde a excessiva credulidade até o casamento com acatólicos, passando pelas práticas de adivinhação, sempre condenadas pela Igreja. Nós precisamos, então, fortalecer a nossa fé, pedindo a Deus que aumente a nossa, nos dando uma firmeza cada vez maior e fazendo com frequência atos de fé, em particular nos momentos de tentação contra a fé. Devemos também nos instruir segundo o nosso estado, lendo o catecismo de São Pio X ou o Catecismo Romano e outros livros seguros quanto à doutrina católica.

Senhor, vós sabeis que somos homens de pouca fé. Por isso vos pedimos, aumentai a nossa fé para que possamos crer com uma certeza cada vez maior e para que possamos aderir totalmente e profundamente aos vossos ensinamentos e para que possamos conhecê-los cada vez melhor. Assim, poderemos ser agradáveis a Vós e felizes nessa terra, mas sobretudo no céu.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo.

Nota do editor: destaques são nossos.