[Sermão] A natureza do culto a Nossa Senhora: veneração, amor, gratidão, invocação, imitação.

Sermão para o 16º Domingo depois de Pentecostes

8 de setembro de 2013 – Padre Daniel Pinheiro

ÁUDIO: Sermão para o 16º Domingo depois de Pentecostes Natividade N. Sra. A natureza do culto a Nossa Senhora veneração, amor, gratidão, invocação, imitação 8.09.2013

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Ave Maria…

Avisos:

Hoje é dia 8 de setembro, dia da Natividade de Nossa Senhora. É também o dia da fundação do IBP (Instituto do Bom Pastor), em 2006. Peço a todos que rezem pelo Instituto, pelos seus membros, sobretudo por mim. O Instituto, como sabem, baseia seu apostolado na “fidelidade ao Magistério Infalível e no uso exclusivo da liturgia gregoriana na digna celebração dos santos mistérios” (Estatutos, Finalidade, 2).

Rezemos pela Síria e pelo nosso país.

Sermão

“Salve, ó Mãe Santíssima, que destes à luz o Rei que governa a terra e o Céu por todos os séculos.” (Introito da Missa da Natividade de Nossa Senhora).

No dia da Assunção de Nossa Senhora, falamos da necessidade da devoção a tão boa mãe para a nossa salvação. Aproveitemos que hoje é o dia da Natividade de Nossa Senhora para honrar Maria Santíssima e honrá-la tratando da natureza do culto que lhe deve ser tributado, para podermos ser bons e fiéis filhos dela. Trataremos, então, do tipo de culto que é devido a Nossa Senhora. Veremos que é um culto denominado de hiperdulia e que é um culto de veneração, de amor, de gratidão, de invocação, de imitação, de escravidão.

O culto, segundo a definição de São João Damasceno, é o reconhecimento da excelência de quem é cultuado, com a consequente submissão a ele. Nossa Senhora pode ser, então, cultuada religiosamente, pois possui grande excelência e nos é muito superior na ordem da graça. Cultuá-la, nada mais é do que reconhecer que Deus fez nela maravilhas, maravilhas que superam todas as maravilhas concedidas às criaturas.

A natureza do culto depende da natureza da excelência. Ora, Deus tem uma excelência infinita, Ele é o criador de todas as coisas, infinitamente perfeito. A Deus se deve o culto de latria, de adoração, de total submissão à sua onipotência. O culto de latria é exclusivo para Deus. Adorar uma criatura no sentido preciso da palavra é cometer um pecado de idolatria. Aos santos, consequentemente, é devido um culto de outra natureza, chamado culto de dulia, de veneração, em virtude da excelência sobrenatural que possuem, quer dizer, em virtude da santidade que possuem, da união profunda e definitiva que possuem com a Santíssima Trindade. Aos santos é devido tal culto pelo que possuem de Deus, pela graça que possuem, pelas virtudes que possuem, pela caridade que possuem. Com tal culto, não somente é lícito, mas é também muito útil e conveniente invocar e reverenciar os santos. Esse culto aos santos é doutrina de fé e mandado pela Igreja. Nossa Senhora tem, por um lado, uma excelência infinitamente inferior a Deus, a Nosso Senhor Jesus Cristo. Nossa Senhora é uma criatura, ainda que seja a criatura mais perfeita. A Nossa Senhora não se pode prestar, evidentemente, um culto de latria, de adoração. Fazê-lo seria uma desordem grave. Por outro lado, Nossa Senhora está muito acima dos outros santos e mesmo dos anjos. Sua excelência supera a excelência de todos os santos e anjos juntos. Portanto, a Maria Santíssima é devido um culto especial, particular, denominado de hiperdulia, que se distingue do culto de dulia aos santos pelo grau, em virtude da santidade e excelência particulares da Santíssima Virgem. Todavia, o culto a Nossa senhora é distinto do culto aos santos não somente em grau, mas também em sua natureza, pois a dignidade de Maria não é simplesmente a dignidade da santidade, mas é a dignidade de Mãe de Deus, o que a coloca na ordem da união hipostática, ainda que de modo relativo somente. Assim, o culto devido a Nossa Senhora é o culto de hiperdulia, um culto que é infinitamente inferior ao culto devido a Deus, mas que é muito superior ao simples culto de dulia devido aos santos. E isso em virtude da santidade extraordinária de Nossa Senhora e de sua Maternidade Divina. Nada mais falso, portanto, do que a acusação dos protestantes que dizem que os católicos adoram Nossa Senhora. Santo Epifânio já dizia: “Maria seja honrada. Deus, adorado.” (Adv. Haer., III, haer. 79, PG 42, 742)

Esse culto devido a Nossa Senhora deve se expressar com cinco atos principais: 1) atos de veneração, pela excelência e dignidade quase infinitas da Mãe de Deus; 2) atos de amor, porque, além de ser Mãe de Deus, é também nossa Mãe; 3) atos de gratidão, porque é nossa corredentora; 4) atos de invocação, porque ela é medianeira de todas as graças; 5) finalmente, o culto de Nossa Senhora deve incluir também a imitação, por causa da excelência de suas virtudes.  A esses cinco atos, devemos também a Nossa Senhora um singular culto de escravidão, pois ela é Rainha do Céu e da Terra. Desse culto de escravidão, porém, falaremos em outra oportunidade.

Com a veneração, reconhecemos a excelência e a superioridade de Nossa Senhora. Essa veneração deve ser interior, estimando as qualidades de Nossa senhora com a mente e honrando-a com a vontade, quer dizer, dando testemunho de sua excelência, como deve ser também exterior, com as práticas piedosas estabelecidas para esse fim, sejam elas públicas ou privadas, individuais ou sociais, litúrgicas ou extra-litúrgicas. Assim, poderemos nos associar à veneração manifestada pelo anjo Gabriel, por Santa Isabel, e a profecia feita por Nossa Senhora de que todas as gerações a chamariam bem aventurada se cumprirá. E sabemos bem que a honra do filho está em grande parte na mãe. Assim, quando veneramos Maria, seu Filho é também estimado e honrado.

Com o amor, retribuímos a Maria sua maternidade espiritual para conosco. Foi ela que nos trouxe ao mundo o princípio da graça, que é Nosso Senhor. O Espírito Santo usa Nossa Senhora como instrumento para nos transmitir as graças. Ela, portanto, nos gera para a graça, em certo sentido. Ela é realmente nossa Mãe. Ela também nos ajuda e nos conduz pelo bom caminho, como toda boa mãe. A Sagrada Escritura nos manda honrar pai e mãe naturais. Quanto mais honrada deve ser, então, nossa Mãe na ordem da graça. Devemos também reconhecer em Maria a mais santa das criaturas, e devemos amar em Maria esse bem imenso, essa grande santidade, essa profunda união com Nosso Senhor. O amor nos faz desejar o bem do amado. Ele nos manda fazer tudo o que agrada ao ser amado e nos proíbe tudo o que desagrada ao ser amado. Assim, esse amor filial profundo a Nossa Senhora deve traduzir-se em obras. A prova do amor são as obras, nos diz São Gregório Magno. Portanto, esse amor a Nossa Senhora deve nos levar à prática dos mandamentos, das virtudes e deve nos afastar de tudo o que ofende a Nossa Senhora, quer dizer, do pecado e daquilo que nos leva ao pecado. Amando assim Nossa Senhora, amaremos também Cristo, pois só é agradável a Nossa Senhora aquilo que é agradável ao seu Filho. Da mesma forma, tudo o que desagrada a Cristo, desagrada a Maria. Esse amor é o centro, o coração do culto a Nossa Senhora.

Com a gratidão, damos aquilo que é devido aos nossos benfeitores. A gratidão tem três graus. O primeiro é reconhecer o benefício recebido, o segundo é agradecer com palavras e o terceiro é retribuí-lo com obras. Depois da Santíssima Trindade, depois do Verbo Encarnado que nos redimiu, Maria Santíssima é a nossa maior benfeitora, a maior benfeitora do gênero humano, sobretudo por sua qualidade de corredentora ao pé da cruz. Quão grande deve ser nossa gratidão para com Maria, que ofereceu seu Divino Filho para o perdão de nossos pecados e que aceitou ter sua alma transpassada pela espada para que fôssemos redimidos. Com grande generosidade, Nossa Senhora nos entregou o maior bem que existe, ela nos entregou Nosso Senhor. Assim, devemos ser gratos a tão boa Mãe e Corredentora. Devemos ser gratos interiormente, considerando os incalculáveis benefícios que Maria nos fez e faz. Devemos ser gratos exteriormente com palavras, louvando-a, e agradecendo-lhe incessantemente, pois, dado o tamanho do benefício, nunca conseguiremos manifestar a nossa gratidão por completo. Devemos ser gratos externamente com as obras, retribuindo tantos benefícios e sacrifícios com alguns sacrifícios, sobretudo oferecendo a nós mesmos a Maria Santíssima, para que ela nos conduza com segurança até seu Filho. Devemos retribuir com uma vida de santidade. Muitas vezes nos esquecemos de agradecer devidamente a Maria por todos os benefícios que ela nos deu e dá.

Com a invocação, reconhecemos que Nossa Senhora é, por vontade divina, a medianeira de todas as graças. Assim, devemos a ela um culto de grande confiança, devemos recorrer a Maria e invocá-la em toda necessidade espiritual e material. E devemos recorrer a ela e invocá-la completamente seguros de que seremos sempre ouvidos, se a graça solicitada é necessária ou conveniente para nossa salvação. Devemos recorrer a ela sempre: nas dúvidas, para que nos esclareça; nos extravios, para que voltemos para o bom caminho; nas tentações, para que nos ajude; nas fraquezas, para que nos fortaleça; nas quedas, para que nos levante; nas desolações, para que nos anime; nas cruzes e trabalhos, para que nos console. Sempre e em todo lugar devemos recorrer a Maria, como à melhor das mães. Aquela que entregou seu próprio Filho para nos salvar não recusará interceder por nós. O Evangelho, nas Bodas de Caná, nos indica a confiança com que devemos nos dirigir a Maria. Ela intercede pelos noivos sem que eles tenham pedido, pois os noivos nem sabem que estava faltando vinho e não sabem que precisam daquela graça. Se Nossa Senhora nos ajuda quando não pedimos, imaginem o que faz quando recorremos a ela com grande confiança e humildade. Nossa Senhora conhece bem as nossas necessidades. Ela pode nos conceder sua ajuda e quer nos ajudar. Não precisamos de mais nada para correr a Nossa Senhora.

Com a imitação, reconhecemos na Mãe de Deus um modelo e exemplo perfeitíssimo de todas as virtudes. Para cultuar adequadamente Nossa Senhora devemos imitá-la, reproduzindo em nossa vida as virtudes de Maria no pensar, no falar, no agir, enfim, em todas as coisas. A imitação de uma pessoa é um verdadeiro culto a ela, porque a tomando como modelo reconhecemos sua excelência e superioridade moral e nossa submissão a ela. Toda a virtude de Maria está resumida naquela famosa frase: “fiat mihi secundum verbum tuum”. “Faça-se em mim segundo a vossa palavra.” A raiz das perfeições de Nossa senhora está na sua perfeita conformidade com a vontade de Deus. Devemos buscar essa conformidade total com a vontade divina. E Maria é um modelo sublime e acessível a todos, como diz Leão XIII. Diz o Papa (Enc. Magnae Dei Matris, 8 de setembro de 1892): “a bondade e a Providência divina nos deu em Maria um modelo de todas as virtudes, (um modelo) todo feito para nós. Porque, considerando-a e contemplando-a, as nossas almas já não ficam ofuscadas pelos fulgores da divindade, senão que, atraídas pelos vínculos íntimos de uma comum natureza, com maior confiança se esforçarão por imitá-la. Se, amparados pelo seu eficaz auxílio, nós nos dedicarmos com todas as nossas forças a esta obra (de imitá-la), certamente conseguiremos reproduzir em nós ao menos algum traço de tão grande virtude e santidade; e, depois de havermos imitado a sua admirável conformidade com as divinas vontades, poderemos juntar-nos a Ela no céu.” Assim, o culto perfeito a Nossa Senhora supõe o firme propósito de imitá-la.

A devoção a Maria deve ser, então, uma devoção de veneração, uma devoção de amor, uma devoção de gratidão, uma devoção de invocação, uma devoção de imitação. A devoção a Nossa Senhora nesses quatro atos e em todos os atos deve ser sempre uma devoção interior, quer dizer, que realmente brota do desejo de honrá-la, de reconhecer e de nos submeter à grandeza de Nossa Senhora. A devoção também deve ser terna, isto é, cheia de confiança, como uma criança confia em sua mãe. A devoção a Nossa Senhora deve ser uma devoção santa, que tem por objetivo evitar todo pecado e imitar as virtudes de Maria, principalmente sua humildade profunda, sua fé vivíssima, sua obediência; sua oração contínua, sua mortificação, sua pureza divina, sua esperança firmíssima, sua caridade ardente, sua paciência heroica, sua sabedoria celestial. A devoção a Nossa Senhora deve ser igualmente constante, quer dizer, deve ser uma devoção que consolida nossa alma no bem e que nos dá forças para não abandonarmos facilmente as práticas devocionais. Ela deve dar à alma a constância e o ânimo no combate contra o mundo, a carne, o demônio. A devoção a Nossa Senhora deve ser uma devoção desinteressada, tendo como principal motivo não os benefícios que recebemos, mas sim, as perfeições de Nossa Senhora, a excelência dela, a santidade dela, a sua profunda união com Cristo. O devoto de Maria deve amá-la e honrá-la sem buscar a si mesmo em primeiro lugar.

Portanto, caros católicos, já sabemos como praticar essa devoção a Nossa Senhora, devoção que é necessária para a nossa salvação. Devemos venerar Maria, amá-la profundamente, agradecer-lhe com imensa gratidão, invocá-la com grande confiança e imitá-la em todas as virtudes. E fica claro que se fizermos tudo isso, caminharemos rapidamente e com segurança para Nosso Senhor Jesus Cristo, para a união com Cristo, união que deve ser o fim de toda e qualquer devoção. Quem honra a Mãe, honra o Filho. Quem desagrada à Mãe e a ofende, desagrada ao Filho e o ofende. Quem agrada a Mãe, agrado o Filho. Quem ama a Mãe ama o Filho.

Em nome do Pai, do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

[Sermão] As três ressurreições e os três tipos de morte da alma

Sermão para o 15º Domingo depois de Pentecostes
1º de setembro de 2013 – Padre Daniel Pinheiro

 

ÁUDIO: Sermão para o 15º Domingo depois de Pentecostes Viúva de Naim Três Ressurreições e três mortes da alma 1.09.2013

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém. Ave Maria…

“Jovem eu te digo: levanta-te.”

São Lucas é o único Evangelista a narrar essa ressurreição, a ressurreição do único filho de uma viúva de uma cidade chamada Naim. Uma grande multidão seguia Nosso Senhor em virtude da belíssima doutrina que Ele ensinava – o sermão da montanha ainda estava impresso nas almas – e em virtude dos milagres que ele operava para confirmar a origem divina da sua doutrina, fazendo ao mesmo tempo um grande bem ao povo com esses milagres. Além dessa grande multidão que seguia Cristo, havia também uma grande quantidade de pessoas que seguia, por compaixão pela pobre mãe viúva, o cortejo fúnebre desse jovem. São Lucas nos diz ainda que o milagre ocorreu próximo da porta da cidade. Ora, na porta das cidades dos judeus havia grande quantidade de pessoas também, pois era nas portas que os judeus faziam os mercados e os tribunais (Salmo 68,13). Esse encontro entre a multidão que seguia Nosso Senhor Jesus Cristo, a multidão que seguia o cortejo fúnebre e a multidão que se encontrava na porta da cidade não é um acaso, mas é disposto pela vontade divina de Cristo, a fim de que o milagre seja conhecido por muitos, a fim de que muitos possam crer nEle e naquilo que Ele diz, para que muitos possam se salvar.

E Nosso Senhor ressuscita esse jovem diante de uma multidão imensa de pessoas com uma grande facilidade. Ele simplesmente diz ao jovem: Eu te digo, levanta-te. E para provar a ressurreição, o jovem não somente se levantou e se sentou, como começou a falar. Cristo mostra, então, seu domínio absoluto sobre a vida e a morte, domínio que só pode ser divino. Essa ressurreição é bem diferente das ressurreições feitas por Elias e Eliseu no Antigo Testamento, também em favor de viúvas. Os dois tiveram que fazer vários gestos, várias orações, implorando a Deus a ressurreição, enquanto Cristo ressuscita o jovem com uma simples ordem, que se cumpre imediatamente. O bom senso da multidão reconhece que aí está o dedo de Deus e essa multidão se enche de um bom temor de Deus. Digo de um bom temor porque é um temor reverencial e de respeito pela onipotência divina, e temor que leva os presentes a glorificarem a Deus. Se ainda não reconhecem em Cristo o Verbo de Deus humanado, ao menos o reconhecem como um profeta, como alguém enviado por Deus para dizer a verdade. Também nós reconhecemos Cristo como um profeta e muito mais do que um profeta, pois afirmamos que Cristo é Deus. Por que não crer, então, em tudo aquilo que nos ensinou e nos ensina pela sua santa Igreja? Por que não praticar aquilo que Ele nos ordena fazer, se é para a glória de Deus e para o nosso bem, para a nossa salvação?

Mas não devemos esquecer um detalhe importante do Evangelho de hoje. Cristo opera o milagre da ressurreição do jovem por compaixão pela mãe viúva. São as lágrimas da mãe, no fundo, que moveram Cristo a realizar esse milagre, como as lágrimas de santa Mônica moveram Cristo a converter seu filho, Santo Agostinho. As lágrimas, as orações, as súplicas das mães pelos seus filhos – as dos pais também, mas sobretudo as das mães – têm um grande valor e eficácia diante de Deus. Que os pais não negligenciem as orações fervorosas pelos filhos. Essas orações são parte integrante do dever dos pais em relação aos filhos.

Todavia, é outra a lição principal do Evangelho de hoje. Nós sabemos que a ressurreição do jovem filho da viúva de Naim não é a única ressurreição que Cristo fez. Pelos Evangelhos, sabemos que Cristo fez pelo menos três ressurreições. Mas é bem provável que tenha feito muitas outras, pois nem tudo o que Ele fez está escrito. Se se escrevesse tudo o que Cristo fez nem no mundo todo poderiam caber os livros que seria preciso escrever, como nos diz São João (Jo 21,25). Longe esteja de nós, portanto, limitar-nos à Sagrada Escritura, desprezando a Tradição. Dizíamos, então, que são três as ressurreições narradas nos Evangelhos. A ressurreição da filha de Jairo, chefe de uma Sinagoga, a ressurreição do jovem filho da viúva de Naim que acabamos de ouvir, e a ressurreição de Lázaro. A filha de Jairo foi ressuscitada quando ainda se encontrava dentro da casa. O jovem foi ressuscitado no caminho para ser enterrado. Lázaro foi ressuscitado depois de 4 dias já sepultado. Cada um desses três mortos representa as três classes de mortos que Nosso Senhor ressuscita diariamente. A morte da filha de Jairo, ressuscitada ainda dentro de casa, representa o pecado grave cometido por pensamento seguido de consentimento, mas que não se traduziu em nenhum ato exterior. Pensar no mal voluntariamente, alegrar-se com o mal cometido ou desejar fazer o mal são pecados interiores que nos valem a morte se dizem respeito à matéria grave. Nosso Senhor diz, por exemplo, que aquele que olha uma mulher para desejá-la já adulterou em seu coração. A filha de Jairo representa, assim, o pecado interno. O jovem filho da viúva de Naim, ressuscitado no caminho para o cemitério, representa o pecado grave cometido também exteriormente e que tem, portanto, maior intensidade que o pecado cometido só interiormente. Lázaro, ressuscitado depois de quatro dias enterrado, representa o pecado grave que já se tornou uma inclinação arraigada na alma e que a pessoa muitas vezes já nem consegue reconhecer como um mal. Ora, é mais difícil curar o pecado que já se tornou um hábito do que o simples pecado exterior, assim como é mais difícil curar o pecado que se traduziu em obras ruins do que o pecado que é só interior. O pecado puramente interior é mais fácil de ser abandonado e perdoado: Cristo ressuscitou a menina ainda na casa. O pecado que é também exterior já é mais difícil de ser abandonado e perdoado, dada a sua maior intensidade: Cristo ressuscitou o jovem já no caminho para o cemitério, cemitério que simboliza, nesse caso, a morte eterna causada pela separação eterna de Deus. O pecado habitual, aquele que já é para nós quase uma segunda natureza é muito difícil de ser abandonado e, portanto, de ser perdoado: Cristo ressuscitou Lázaro somente após 4 dias de sepultura, quer dizer, já muito perto da morte eterna. E depois de ressuscitado, Lázaro ainda estava amarrado, mostrando que mesmo depois do perdão de um pecado habitual a tendência, a inclinação para voltar a cometê-lo é grande.

Todavia, Cristo ressuscitou cada um desses três mortos, quer dizer, Cristo perdoa todos esses pecados que esses mortos representam, mesmo os mais graves, mesmo os mais arraigados, desde que estejamos dispostos a receber o perdão, quer dizer, desde que (1) detestemos o pecado, desde que (2) tenhamos o firme propósito de não mais cometê-lo, desde que (3) confessemos todos os nossos pecados graves ao padre com sinceridade e simplicidade e desde que (4) estejamos dispostos a cumprir a penitência dada por ele. A confissão é o meio pelo qual a misericórdia divina ressuscita as nossas almas. A confissão foi criada pelo Sagrado Coração de Jesus, que deseja ardentemente a nossa salvação até o ponto de ser transpassado pela lança. Todo pecado é perdoável, mas é preciso buscar logo esse perdão, para não morrermos em pecado mortal. Lembremo-nos de que o filho da viúva era jovem. Busquemos a confissão com confiança e rapidamente.

Devemos também tirar do Evangelho de hoje a lição de que devemos cortar o mal imediatamente na raiz, quer dizer, devemos combater a tentação, cortando-a quando ela começa a aparecer na nossa imaginação e na nossa inteligência. Para combater a tentação devemos fazer o ato de virtude contrário, devemos desviar o nosso pensamento para algo lícito, bom e, se possível, santo. Devemos fugir das ocasiões de pecado, nos mortificar. Se não cortamos esses maus pensamentos imediatamente, terminaremos consentindo, depois passando para as obras e criando um vício, um costume ruim.  É mais fácil evitar que uma árvore seja plantada do que cortar uma árvore já plantada ou que tenha raízes profundas. É preciso, assim, evitar o plantio das árvores más e arrancar as já plantadas. Mas isso não basta. É preciso ocupar o terreno com as árvores boas da virtude, da obediência total à lei de Deus. Nosso Senhor Jesus Cristo na sua imensa compaixão diante de nossas misérias, compaixão tal como a vimos relatada hoje no Evangelho, quer ressuscitar a nossa alma. Mas ele pede também a nossa cooperação. Não recusemos cooperar com um Deus que quer nos salvar.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

[Sermão] A orientação do sacerdote e o silêncio na Missa

Sermão para o 14º Domingo depois de Pentecostes
25 de agosto de 2013 – Padre Daniel Pinheiro

 

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém. Ave Maria…

“Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de aborrecer a um, e amar ao outro; ou há de afeiçoar-se a este, e desprezar aquele.”

Faz quase um mês consideramos brevemente a importância do Latim na Liturgia. Consideramos sua importância para a nossa vida espiritual, importância para o bem da Igreja. Hoje, consideraremos também brevemente os outros dois aspectos mais sensíveis quando se fala da Santa Missa no Rito Tradicional: a orientação do padre com relação a Deus e aos fiéis e o silêncio. Lembro que esses aspectos, embora sejam os mais visíveis, não são, porém, os mais importantes. São aspectos fundamentais e de grandíssima importância, mas não são os mais importantes. Os aspectos mais importantes da Missa Tradicional são suas orações riquíssimas doutrinariamente e espiritualmente, com todos os ritos que acompanham essas orações, que são também sacramentais que glorificam a Deus e imploram a sua misericórdia para conosco, pobres pecadores. Consideremos, então, a orientação do sacerdote, voltado para Deus, e o silêncio da Missa Tradicional.

É muito comum ouvirmos as pessoas se referirem à Missa Tradicional – muitas vezes com certo desprezo – como aquela Missa em que o Padre está de costas para o povo, como se fosse uma grande injúria ao povo, um crime de lesa-povo. Na verdade, o sacerdote não se encontra de costas para o povo, mas de frente para Deus, como é evidente. O sacerdote e fiéis estão olhando para o mesmo sentido, para Cristo, para Deus. Originalmente, sacerdote e fiéis se voltavam para o oriente, voltados para Cristo, chamado na liturgia de Oriens (Antífona “O”,por exemplo) de sol que nasce, de sol de justiça. Com o passar do tempo, muitas vezes já não se voltavam para o oriente geográfico, mas simplesmente para o mesmo sentido, para o mesmo lugar, para um oriente espiritual. É quase certo que, mesmo na última ceia, Cristo não estava de frente para os apóstolos. O modo de se dispor à mesa naquela época era bem distinto do nosso. Com o corpo reclinado, ficavam, em geral, todos do mesmo lado, segundo os estudos mais recentes. Tratava-se também de uma ceia ritual (páscoa judaica) e não de uma simples refeição. E mesmo se tivesse Cristo rezado a primeira Missa de frente para os apóstolos, nada mudaria em nossa argumentação, já que ao longo do tempo – e muito rapidamente, segundo atestações históricas, a Igreja estabeleceu a celebração voltada para Deus e não para o povo. Diz Bento XVI, no primeiro volume de suas obras completas (citado por Dom Athanasius Schneider em seu artigo sobre as cinco chagas da liturgia – Les cinq plaies de la liturgie) que “a ideia de que o sacerdote e a assembleia devem se olhar durante a oração nasceu com os modernos e – continua o papa – essa ideia é totalmente estranha à cristandade tradicional. O Padre e assembleia não se dirigem mutuamente uma oração, mas é ao Senhor que eles se dirigem. Por isso, na oração eles olham para a mesma direção: seja para o leste, como símbolo cósmico do retorno do Senhor, ou então, onde isso não é possível, olham para uma imagem de Cristo situada na abside, para uma cruz ou simplesmente olham juntos para o alto.”

Quando o sacerdote celebra a Missa virado para o povo, existe uma grande tendência de que o povo se torne o centro da Missa. Parece muitas vezes que a Missa é um diálogo do sacerdote com o povo, e a Missa permanece num plano quase exclusivamente horizontal – entre homens -, sem elevar-se a Deus, num plano vertical. A posição do padre virado para o povo é mais condizente com uma aula, com uma refeição, ou com uma situação de palco. Fazer da Missa uma pura catequese, fazer dela uma simples refeição ou um show são coisas que, consequentemente e infelizmente, vemos com frequência. Além disso, o Padre voltado para o povo e vendo a reação dos fiéis ao que está sendo feito e dito, tenderá fortemente a adaptar sua ação e seu discurso para agradar aos fiéis presentes, gerando inúmeros abusos.

Assim, a Missa em que o sacerdote dá as costas ao povo para voltar-se unicamente para Deus, coloca Deus no centro da liturgia e deixa claro que aquela ação é um ato de culto para Deus e não uma mera catequese ou reunião social. Deixa claro que não se trata de uma mera refeição e muito menos de um show para agradar aos fiéis presentes. Com o Padre voltado para Deus, ele conduz o povo a Deus e não vai no sentido oposto ao dos fiéis. Ele é o Pastor que conduz os fiéis ao Calvário e ao Céu, à Jerusalém Celeste. Sacerdote e fiel devem se dirigir ao mesmo lugar. O Padre voltado para Deus está na posição que convém ao mediador entre Deus e os homens: o sacerdote está diante de Deus, suplicando diante d’Ele em favor dos homens. O Padre está, dessa forma, voltado para o tabernáculo, onde está NSJC realmente e substancialmente presente e que convém muitíssimo que esteja no centro da Igreja e não em uma capela à parte. Ele está também voltado para a Cruz, colocada no centro do altar. É preciso ter bem presente na nossa inteligência que as nossas disposições espirituais mudam conforme nossa posição, conforme a arquitetura do lugar, etc., pois somos não só alma, mas também corpo. Assim, rezar ajoelhado, em pé ou sentado nos dispõe de maneira distinta para a oração, por exemplo. Consequentemente, por mais que se diga que espiritualmente estão todos voltados para Deus quando o Padre celebra a Missa voltado para o povo, os resultados são bem distintos, pois estão, de fato, voltados uns para os outros, olhando uns para os outros, dirigindo-se uns aos outros. Dessa forma, a posição do sacerdote, voltado para Deus é de importância enorme para uma boa liturgia, para colocar Deus no centro, para evitar fazer da Missa uma mera refeição ou um mero espetáculo. A posição do Padre na Missa Tradicional diminui a importância dos fiéis e diminui a importância do Padre. Todos diminuem para que Cristo possa crescer, como fazia São João Batista. Vale destacar que, teoricamente, o padre voltado para Deus não é exclusivo da Missa Tradicional. Seria possível fazê-lo também na liturgia oriunda da reforma litúrgica de 1969 do Papa Paulo VI. Na prática, todavia, é algo quase exclusivo da Missa Tradicional. A mudança na orientação dos padres foi talvez o que mais chocou os fiéis no processo de reforma da liturgia, pois a sensação foi de que o povo passava a ser o centro e não mais Deus.

O silêncio, ao contrário do latim e da orientação do padre, é próprio da Missa Tradicional. Falamos aqui do silêncio que advém do fato de muitas orações serem rezadas em voz baixa pelo sacerdote e que não é um silêncio artificial. Falamos do silêncio da própria Missa e não de um silêncio inserido na Missa. O silêncio na Missa Tradicional traz um grande benefício para a nossa vida espiritual. Antes de tudo, o silêncio permite que deixemos, mais uma vez, de ser o centro da Missa. Ora, aquele que fala é o centro das atenções. Se as pessoas falam constantemente durante a Missa elas terão grande tendência a achar que a Missa diz respeito, em primeiro lugar, a elas e não a Deus. As orações do Padre em voz baixa deixam claro também para o padre que não é a sua pessoa particular o centro da Missa. Não é ele que precisa aparecer. Essas orações em voz baixa e o consequente silêncio da Missa Tradicional deixam claro que o centro da Missa é Deus, é Cristo que renova o seu Sacrifício oferecendo-o à Santíssima Trindade. O Padre que fala em voz baixa é o centro da liturgia, mas não enquanto padre tal ou padre fulano, e, sim, enquanto instrumento de Cristo Sacerdote, de forma que o centro é claramente Cristo. Assim, colocando Deus como o centro, o silêncio nos ensina a caridade, que nos inclina a fazer tudo a partir de Deus, por amor a Deus.

O silêncio nos ensina também a mortificação. Pelo nosso orgulho, temos muitas vezes tendência a falar, a querer ser o centro das atenções. Pelo silêncio, negamo-nos a nós mesmos, às nossas inclinações, mortificamos os nossos sentidos e deixamos que Deus aja. Muitas pessoas que assistem à Missa Tradicional pela primeira vez se queixam do silêncio ou de não terem participado da Missa, etc. (Trataremos em outra ocasião da questão da autêntica participação na Missa). Na verdade, essas queixas se devem muitas vezes à simples repulsa por essa mortificação imposta pelo silêncio e pelo fato de não ser o centro da liturgia. O homem moderno tem grande dificuldade em deixar de ser o centro em livrar-se do antropocentrismo. Como sabemos, porém, a mortificação é indispensável para uma vida espiritual ordenada. O silêncio ajuda bastante nesse ponto: negação de si. O silêncio mostra que não precisamos ser o centro das atenções para que a Missa tenha sentido, mas que é justamente o oposto. A Missa tem sentido quando Deus é o centro.

O silêncio na Santa Missa coloca Deus no centro e nos mortifica. Ele também nos ensina a rezar. O fato é que, durante o silêncio, não há alternativa: ou a pessoa reza ou ela se distrai. Aceitar a distração seria um pecado, ainda que leve muitas vezes. A pessoa precisa, então, rezar, e rezar sozinha. O silêncio nos ensina o valor da oração individual, nos ensina a rezar e nos faz buscar o melhor meio para nos unirmos ao Sacrifício de Cristo, renovado diante de nós.

O silêncio, mortificando os sentidos, nos ajuda muito a considerar com a inteligência o que realmente importa durante a Santa Missa. O silêncio favorece o progresso na oração, nos conduzindo além da oração simplesmente oral. O silêncio nos permite considerar as verdades eternas e tomar a resolução, com o auxílio divino, de ajustar nossa vida a essas verdades. Em resumo, o silêncio favorece a meditação, meditação católica. Cada vez mais no mundo o silêncio é raro. Aonde vamos há alguma espécie de barulho de música, de televisão, de rádio, ou algo para ocupar nossa imaginação e inteligência com coisas sem importância. Todo mundo anda com seu fone de ouvido. Ora, sem silêncio não pensamos devidamente e, se não pensamos, não podemos aderir com firmeza a Deus. Esse barulho entrou também na Igreja, no centro da vida da Igreja que é a liturgia, infelizmente. O silêncio é necessário para a nossa vida espiritual e a Missa tradicional o favorece.

Ademais, o fato de a pessoa ter de rezar sozinha durante a Missa favorece a oração fora do contexto litúrgico e favorece, em particular, a oração individual, tão em desuso atualmente. Há uma tendência de muitos a considerar que a única oração que tem importância é a oração comunitária.  Assim, diante do silêncio, a pessoa tem de rezar, do contrário, ela se distrai. O silêncio favorece uma oração mais elevada, nos faz considerar o que realmente importa na Missa: o sacrifício de Cristo renovado para a glória de Deus, para o perdão dos nossos pecados.

Estamos falando aqui do silêncio litúrgico, que tira a pessoa do centro das atenções, que a mortifica, que a obriga – em certo sentido – a rezar. Muitas pessoas dizem que gostam muito do silêncio da Missa, apesar da presença de uma ou várias crianças na Capela ou próxima da Capela chorando, fazendo barulho. Esse silêncio litúrgico não é necessariamente um silêncio absoluto.  O silêncio litúrgico favorece, então, a oração e, consequentemente, a devoção, a prontidão no serviço de Deus.

Finalmente, o silêncio na Missa explicita o fato de que é o sacerdote que age na pessoa de Cristo e que é o sacerdote que renova o sacrifício do Calvário ao dizer as palavras da consagração. Não é o povo que consagra, não é o povo que celebra a Missa. É o sacerdote. Para deixar clara a diferença de papéis, o Padre reza as orações mais profundamente sacerdotais em silêncio: o ofertório, o cânon, as palavras da consagração. Um dia estava ensinando um padre a celebrar a Missa. Durante o treino ele falou as palavras da consagração em voz alta. Eu disse, então, que deveriam ser ditas em voz baixa. Ele disse que pensava que pelo menos as palavras da consagração eram ditas em voz alta. Na verdade, justamente as palavras da consagração são as que mais devem ser ditas em voz baixa, para deixar claro que quem realiza o mistério da Missa é o sacerdote agindo na pessoa de Cristo, independentemente dos fiéis, contra a concepção protestante da igualdade completa entre sacerdote e fiel. As orações em voz baixa, portanto, têm também um profundo sentido doutrinário.

Temos aqui, caros católicos, alguns aspectos que ilustram a importância da orientação do sacerdote e a importância do silêncio durante a Santa Missa. É uma importância grande para nossa vida espiritual e para a vida da Igreja. O silêncio, a orientação do Padre, voltado para Deus e o latim, de que já falamos em outra oportunidade, nos ajudam bastante a servir um só Senhor – a Santíssima Trindade – e a buscar em primeiro lugar o reino de Deus.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

[Sermão] A Mulher coroada de estrelas: a necessidade da devoção a Nossa Senhora para a alcançar a salvação

Sermão para a Festa da Assunção de Nossa Senhora
18 de agosto de 2013 – Padre Daniel Pinheiro

 

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém. Ave Maria…

“Apareceu um grande sinal no céu: uma Mulher revestida do sol, a lua debaixo dos seus pés e na cabeça uma coroa de doze estrelas.” (Apoc. 12, 1)

A Assunção de Nossa Senhora significa que ela, depois de passar a sua vida aqui na terra, subiu aos céus em corpo e alma. A Assunção de Nossa Senhora sempre foi verdade ensinada pela Igreja, é verdade contida na doutrina dos Apóstolos. Todavia, foi em 1950, com o Papa Pio XII, que a Assunção de Nossa Senhora ao céu foi proclamada como dogma da fé, quer dizer, a Igreja afirmou infalivelmente que a Assunção é uma verdade revelada por Deus e que devemos acreditar nessa verdade, se queremos nos salvar. Assim, quem nega a Assunção de Nossa Senhora perde automaticamente a fé católica e desagrada a Deus, pois sem a fé é impossível agradar a Deus. Nossa Senhora foi a primeira redimida integralmente, ela foi aos céus em corpo e alma, ao contrário dos santos e de todos os que morrem em estado de graça, que devem esperar a ressurreição do corpo no fim dos tempos. Nossa Senhora é a primeira redimida integralmente porque ela é a corredentora. Convinha que, tendo sido associada tão intimamente à obra de redenção operada por NSJC, ela fosse também intimamente associada à glória d’Ele, pela Assunção em corpo e alma ao céu, e sem que seu corpo conhecesse a corrupção, pois foi esse corpo que deu ao Salvador a sua carne humana. Maria Santíssima, então, subiu aos céus em corpo e alma.

A Festa da Assunção de Nossa Senhora deve, assim, elevar a nossa alma para as coisas celestes, para a nossa verdadeira pátria, que é o céu. Como nos diz a coleta da Missa de hoje, devemos estar sempre inclinados para as coisas celestiais, a fim de podermos participar da glória celeste. Onde está nosso tesouro lá está o nosso coração. Se olhamos para as coisas desse mundo, se nos inclinamos às coisas desse mundo, é porque nosso tesouro está aqui nessa terra e, consequentemente, também o nosso coração, a nossa vontade está apegada às coisas desse mundo. Nossa Senhora, por sua Assunção, nos mostra que nosso tesouro é bem outro. Ela nos mostra que nosso tesouro é a Santíssima Trindade, ela nos mostra que nosso tesouro é seu Filho, Jesus Cristo, a Verdade, o Caminho, a Vida.

Maria Santíssima nos aponta o tesouro a ser buscado – o céu – mas, além disso, ela nos indica, igualmente, o caminho. Ela nos indica o caminho nessa passagem do Apocalipse que compõe o Introito da Missa de hoje: “Apareceu em seguida um grande sinal no céu: uma Mulher revestida do sol, a lua debaixo dos seus pés e na cabeça uma coroa de doze estrelas.” (Apocalipse 12, 1) Nossa Senhora está revestida de sol, tendo a lua a seus pés e coroada com 12 estrelas.

1. N. Sra. está revestida de Sol. O sol representa Jesus Cristo, que é a luz do mundo e o Sol de Justiça. Como nos diz S. Paulo, nós devemos nos revestir de Cristo (Rom 13, 14), quer dizer, nós devemos nos revestir do homem novo, criado em justiça e santidade (Efésios 4, 24). Devemos nos revestir de Jesus Cristo para imitar as virtudes d’Ele, para fazer tudo por Ele, com Ele e n’Ele. Devemos nos revestir de Cristo para que os frutos de sua redenção possam nos ser aplicados.

2. Em seguida, Maria esmaga a lua com seus pés: a lua representa aqui o mundo e o seu príncipe, a serpente. A lua é mutável, instável, inconstante, ela tem várias fases. Também o mundo com seus tesouros passageiros, que são os pecados, é mutável. Nossa Senhora esmaga a lua, reduzindo-a ao nada, como Judith (Epístola de hoje) ao matar Holofernes reduziu ao nada os inimigos de Israel. Deus, ao contrário do mundo e do pecado, é eterno e imutável, caros católicos. Céus e terras passarão. A Palavra de Deus não passará. Devemos ser firmes e constantes no serviço de Deus, firmeza e constância que são verdadeira sabedoria. A Sagrada Escritura nos diz: Stultus ut luna mutatur; sapiens autem permanet ut sol. (Eclesiástico 27, 12) O insensato, o tolo é inconstante como a lua; o sábio, porém, é constante como o sol. Devemos esmagar a lua e sermos constantes como o sol, devemos esmagar o pecado, o demônio, o mundo, e devemos ser constantes como Cristo foi constante em fazer sempre a vontade de Deus.

3. Finalmente, Maria Santíssima está coroada de doze estrelas. O Patriarca José, filho de Jacó, teve um sonho em que onze estrelas se prostravam diante dele. Essas onze estrelas eram os irmãos de José, as tribos do povo hebreu, que lhe iriam implorar socorro quando chegasse o tempo das vacas magras.  Essa coroa de Nossa Senhora, com doze estrelas, representa toda a humanidade que deve prostrar-se diante dela, implorando-lhe as graças adquiridas por Cristo na cruz. Essa coroa significa a realeza e a soberania de Maria sobre toda a humanidade e nos mostra como devemos ter veneração e devoção, nesse vale de lágrimas, a tão soberana Rainha e Rainha de Misericórdia.

Assim, se quisermos alcançar o céu, devemos primeiramente olhar para o céu, desejá-lo. Em seguida, devemos nos revestir de Cristo, da sua graça, de suas virtudes. Devemos, igualmente, esmagar o pecado. Mas para fazer tudo isso, devemos ter devoção a Nossa Senhora. Esse último ponto é indispensável, caros católicos. A devoção a N. Sra. é necessária para a nossa salvação.

A devoção a Nossa Senhora é indispensável para a salvação porque para nos salvarmos devemos praticar as virtudes. Para praticar as virtudes, precisamos da graça de Deus. Para alcançar a graça de Deus, necessitamos recorrer a Maria. Necessitamos de Maria para alcançar a graça porque Deus quis que fosse assim. Ele poderia ter feito de outro modo, não há dúvida. Deus não era obrigado a usar uma mera criatura para transmitir as suas graças. Todavia, na sua sabedoria, quis que fosse assim. 1) Devemos ter devoção a N. Sra. porque Deus a escolheu como tesoureira, administradora e dispensadora de todas as sua graças, de sorte que todas passam por suas mãos. Ela é a medianeira de todas as graças. 2) Assim como na ordem da natureza temos necessariamente um pai e uma mãe, também na ordem da graça devemos ter Maria por Mãe, se queremos ter Deus por Pai. 3) A devoção a Maria é necessária porque tendo ela formado a Cabeça do corpo místico – que é Cristo – cooperando com o Espírito Santo, ela forma, também com o Espírito Santo, os membros desse corpo, dessa cabeça, que somos nós os cristãos. Quem quer ser membro de Cristo deve se deixar formar por Maria e pelo Espírito Santo. 4) A devoção a Maria é necessária porque foi no ventre dela que o Espírito Santo formou Cristo, Homem e Deus. Assim, Nossa Senhora possui o molde para formar, pela graça divina, Cristo em nossas almas. E com Maria, Cristo pode ser formado em nossas almas, pela graça, de modo rápido, fácil e suave. Sem a devoção a Nossa Senhora é impossível salvar-se, como de modo semelhante não é possível salvar-se fora da Igreja Católica. Aquele que conhece Nossa Senhora ou tem a possibilidade de conhecê-la e se dá conta ou poderia se dar conta de seu papel fundamental para a salvação, mas deixa de honrá-la e de recorrer a ela, certamente se perderá. É claro e evidente que esse papel fundamental de Nossa Senhora é completamente subordinado a NSJC e dependente d’Ele.

As citações dos Padres da Igreja e dos santos no sentido da necessidade da devoção a Nossa Senhora para alcançar a salvação são abundantes. Por exemplo, São Cirilo de Alexandria, (séc. V, P.G. 77, 1031-1034): “Oh Maria, Mãe de Deus, salve! Por ti encontram a salvação todas as almas fiéis.” São Germano de Constantinopla (séc. VIII, P.G. 98, 350): “Ninguém se salva a não ser por teu auxílio, oh Mãe de Deus! Ninguém fica livre dos perigos a não ser por meio de ti, oh Virgem fecunda!” Santo Idelfonso (séc. VII, P.L. 96, 69, De Virginit. Perp. S. M., c. 4): “Vinde comigo a esta Virgem, se tendes medo de ir, sem ela, ao inferno. Vinde, e escondamo-nos debaixo de seu manto para não nos cobrirmos, um dia, de confusão.” São Bernardo (séc. XII, II Hom. Super Missus est): “Nos perigos, nas angústias, nas dúvidas, pensa em Maria, invoca Maria… Seguindo-a não errarás, rogando-a não terás motivo para desesperar, pensando nela não cairás no erro. Se Maria te socorre, não cairás. Se Maria te protege, não temerás. Se ela te acompanha, não te cansarás. Se ela te for favorável, chegarás ao porto da salvação.” São Boaventura (séc. XIII, Comment. In Luc., c. 1, n. 70): “Quem a honra dignamente, será justificado, mas quem a esquece morrerá em seus pecados. Sim, oh doce Senhora, estão longe da salvação os que não te conhecem; mas quem persevera no tributo de honrá-la, não deve temer a perdição.” Poderíamos ainda citar São Tomás, São Bernardino de Siena e tantos outros, caros católicos. Recomendo fortemente a leitura dos livros Tratado da Verdadeira Devoção a Maria e Segredo de Maria, de São Luís de Montfort, em que ele afirma claramente a necessidade da devoção a Nossa Senhora e o modo de praticá-la. Recomendo o livro Glórias de Maria, de Santo Afonso de Ligório. Mas para concluir essas citações de santos, vejamos o que diz São Leonardo de Porto Maurício, nos seus pequenos discursos para a honra de Maria. Diz o santo: “é impossível que se salve quem não é devoto de Maria.” (Discorssetti ad onore di Maria disc. 7, n.1); e em outro lugar (disc. 16, n. 4) diz: “portanto, sede devotos de Maria, e eu vos asseguro que sereis salvos.” Assim, não há dúvida de que o ensinamento dos santos afirma a necessidade da devoção de Nossa Senhora para a salvação.

E nós podemos concluir a mesma coisa a partir da Sagrada Escritura. Já citamos a realeza de Nossa Senhora, coroada de estrelas no Apocalipse. Vemos no Santo Evangelho que o primeiro a cultuar Nossa Senhora é o Arcanjo Gabriel, ao saudá-la como faz um inferior ao superior: “Ave, gratia plena”, diz o Arcanjo. Vemos Maria honrada por Santa Isabel: “bendita tu entre as mulheres e bendito o fruto do teu ventre”, diz a prima de Nossa Senhora. Vemos Maria honrada por uma mulher do povo que sem medo clama para Cristo diante da multidão: “bem aventurados os seios que te amamentaram e bem aventurado o útero que te portou.” É relevante o número de vezes que N. Sra. é cultuada nos Evangelhos. Finalmente, NS diz: “discípulo eis aqui a tua mãe”. Ele não diz “João, eis aqui a tua Mãe”, mas “discípulo, eis aqui a tua mãe”. Todo discípulo de Cristo deve ter Maria por mãe e deve recebê-la em sua casa, em seu coração. E deve honrá-la e respeitá-la como mãe e deve carinhosamente recorrer a tão boa mãe para obter dela o alimento espiritual, que é a graça. Todo discípulo de Cristo tem necessariamente N. Sra. por mãe e a honra e recorre a ela como a uma boa mãe, Mãe doce e misericordiosa. E NS nos entrega Maria por mãe quando já está pregado na cruz, quer dizer, no momento mais capital da história da salvação. Precisamos honrar Maria, ter verdadeira devoção a ela!

É evidente, caros católicos, que a finalidade da devoção a Nossa Senhora, como de qualquer devoção, é a união a Cristo, é a devoção a Cristo. O anjo a saúda porque ela vai se tornar Mãe de Deus. Santa Isabel a saúda porque ela já Mãe de Deus. A mulher do povo honra Nossa Senhora porque ela carregou Deus em seu ventre e o nutriu. A devoção a Nossa Senhora nos é necessária para sermos devotos de Cristo porque Cristo quis assim, como já dissemos. Ele quis que fôssemos até Ele pelo mesmo caminho que Ele utilizou para vir até nós. Nossa Senhora direciona e apresenta a Deus toda a honra que recebe de nós e alcança para nós as graças que precisamos. Quando Santa Isabel honra Maria, N. Sra. imediatamente honra Deus recitando o Magnificat, louva a Deus reconhecendo que é Ele a fonte de todo o bem, e que ela é uma pobre escrava do Altíssimo: “Minha alma engradece o Senhor, (…) pois olhou para a humildade de sua serva e fez em mim maravilhas.” Honrar Nossa Senhora é, portanto, honrar Cristo, honrar a Santíssima Trindade. Onde está Maria, lá está Cristo. Onde está Cristo, lá está Maria! Quem honra a Mãe, honra o Filho.

É evidente que a devoção a Nossa Senhora deve ser sólida e verdadeira, sincera. A devoção não é simplesmente usar algumas medalhas ou escapulários, ou dizer algumas orações. Tudo isso é bom, excelente, necessário, mas a verdadeira devoção consiste em recorrer a Maria para que ela nos converta, para que mudemos de vida. A verdadeira devoção consiste em buscar imitar as virtudes de Nossa Senhora.

Alegremo-nos, caros católicos, pois Cristo nos deu na devoção a Maria o caminho mais fácil, curto, perfeito e seguro para nos unir a Ele, união a Cristo que é a finalidade de nossas vidas. É um caminho também necessário para nos unir a Cristo. Maria é, diante de Deus e de seu Filho, uma criatura, infinitamente inferior. Mas para nós, ela é a criatura escolhida por Deus para nos levar a Cristo, para que possamos conhecê-lo e servi-lo melhor. Ela é o caminho para que os frutos da redenção operada por Cristo nos sejam aplicados. Ela nos dirige para Cristo dizendo o que disse aos servos nas bodas de Caná: “Fazei tudo o que Ele vos disser”. A devoção a Maria é ir a Jesus por Maria: ad Iesum, per Mariam. Recorramos a Nossa Senhora sempre, em todas as nossas necessidades. Recorramos a ela, para que, por ela, cheguemos a Cristo: ad Iesum, per Mariam. Maria, Mãe de misericórdia, vida, doçura e esperança nossa. Para chegar ao céu, precisamos nos vestir do sol, que é Cristo, devemos esmagar a lua que é o pecado e devemos ser devotos de Nossa Senhora, nossa Rainha e nossa mãe dulcíssima.

Em nome do pai, e do Filho, e do espírito Santo. Amém.

O bom samaritano e a virtude da esperança diante do desânimo na prática da religião

Sermão para o 12º Domingo depois de Pentecostes

11 de agosto de 2013 – Padre Daniel Pinheiro

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Ave Maria…

“Mestre, que devo fazer para alcançar a vida eterna?”

A pergunta do doutor da lei deve ser a pergunta das nossas vidas, caros católicos: “Mestre, o que devo fazer para alcançar a vida eterna?” Não basta perguntá-la, mas é preciso colocar a resposta em prática.

O doutor da lei chama NSJC de Mestre e lhe faz a pergunta para tentá-lo, para ver se NSJC se opõe à lei mosaica, e poder, assim, condená-lo, ou para ver se NSJC cai em alguma contradição, a fim de desacreditá-lo diante do povo. Nosso Senhor, conhecendo a malícia desse doutor da lei, deixa que o próprio doutor da lei responda. E ele o faz muito bem, mostrando conhecimento do que se deve fazer para alcançar a vida eterna, embora não pareça colocar o que sabe em prática. O doutor da lei diz que se deve amar o Senhor Deus com todo o coração, com toda a alma, com todas as forças, com todo o entendimento.

É preciso que em nossas vidas, nas decisões que tomamos, nas situações em que nos encontramos, nas ações que fazemos… é preciso sempre que nos perguntemos o que devemos fazer para alcançar a vida eterna. Como nos diz o doutor da lei, confirmado por NS, devemos amar o Senhor nosso Deus de todo o coração, quer dizer, com toda a nossa vontade, querendo unicamente Deus em nossas vidas e querendo as outras coisas somente enquanto nos levam a Ele. Devemos amar o Senhor nosso Deus com toda a nossa alma, quer dizer, com todas as faculdades, com todos os sentimentos sempre ordenados para Deus, com toda nossa vida ordenada para Deus. Como nos diz São Paulo: “quer comais, quer bebais, fazei tudo para a glória de Deus.” E devemos amá-lo com todas as nossas forças, quer dizer, devemos amá-lo ao máximo. Como diz São Bernardo: a medida do amor a Deus é amá-lo sem medida. Finalmente, devemos amá-lo com todo o nosso entendimento, quer dizer, nosso amor deve ser guiado pela fé, pois para amar realmente a Deus sobrenaturalmente, a fim de alcançar a vida eterna, é preciso conhecê-lo pela fé verdadeira, pela fé católica. Amar a Deus, caros, católicos, não é algo vago, não é um sentimento mais ou menos beato, não é sentir-se em paz ou na presença de Deus. Já falamos disso várias vezes, mas insisto, pois é esse um dos principais erros dos nossos tempos, mesmo dentro da Igreja Católica. Ouvimos com muita frequência que se a pessoa se sente bem, ela ama Deus e é amada por Ele, não importando a religião. Deus está em todos os lugares, em todas as religiões, o importante é você sentir-se bem. Não, não é nada disso. Amar não é um vago sentimento, ainda que intenso. Amar é querer o bem do amado e fazer o bem para o amado. Queremos e fazemos o bem para Deus quando aderimos à religião que Ele nos revelou e quando guardamos os mandamentos de Deus e da Igreja.

Para alcançar a vida eterna, devemos amar o Senhor Nosso Deus de todo o coração, de toda a alma, com todas as nossas forças, com todo o nosso entendimento. Vejam, caros católicos, que se encontra sempre a palavra “todo” qualificando a vontade, o coração, o entendimento, as forças. Isso porque não devemos nos contentar em amar Deus pela metade ou em parte, fazendo uma partilha entre Deus e nossa vontade pessoal, entre Deus e nossos gostos pessoais, entre Deus e o mundo, entre Deus e nossos parentes. Não. Devemos, ao contrário, amar a Deus em primeiro lugar e devemos amar as outras coisas por amor a Deus, para levá-las para Deus ou porque nos levam para Deus. E, claro, se amamos a Deus, amaremos o nosso próximo para ajudá-lo em suas necessidades, sobretudo espirituais.  Amar a Deus partilhando-o com outras coisas pode ser impossível, se essa outra coisa nos faz ofender a Deus gravemente. Mas ainda que essa outra coisa não ofenda a Deus, se nosso coração está dividido, seremos tíbios, e seremos, então, presa relativamente fácil do pecado e do demônio. É preciso amar a Deus inteiramente, caros católicos, amá-lo com todo o nosso ser, e amá-lo cada vez mais.

Amar a Deus inteiramente significa esquecer as falsas máximas mundanas, significa deixar as más companhias. Amar inteiramente a Deus significa renunciar a certas diversões cada vez mais abundantes, refinadas e imorais ou anticatólicas também na doutrina. Quantos filmes, mesmo os mais acessíveis a jovens e crianças, se opõem à doutrina e moral católicas. Quantas danças pelo próprio modo de dançar ou pelas circunstâncias são ruínas para as almas. Quantas casas de diversão são verdadeiros centros de perdição. E praias e piscinas com imoral promiscuidade dos sexos e trajes sumários. Quantas revistas com tantas coisas mundanas e superficiais (as chamadas revistas femininas, por exemplo), contrárias à fé ou indecentes.  Novelas e seriados de televisão, modas indecentes, conversas ruins, brincadeiras de mau gosto, etc. (vide Royo Marín, Teología de la Perfección Cristiana, 2008, p. 297/298) Amar a Deus é renunciar a toda e qualquer diversão que de alguma forma ofenda a Deus. Amar a Deus inteiramente é suportar com paciência a zombaria e as perseguições por renunciar a tudo isso, por simplesmente fazer o bem e comportar-se cristãmente. Todavia, tudo isso é apenas o aspecto negativo de amar inteiramente a Deus, pois amar a Deus é reconhecer n’Ele a infinita bondade, a infinita misericórdia para conosco. Amar a Deus é conformar nossa vontade inteiramente à vontade d’Ele, sabendo que sua vontade é perfeitíssima. Amar a Deus inteiramente é buscar nos alegrar na prática da religião e da virtude. Amar a Deus é buscar sempre a sua maior glória. Devemos também nos lembrar daquelas palavras de NS: “aquele que ama a sua vida nesse mundo vai perdê-la, mas que aquele que aborrece a sua vida neste mundo vai conservá-la para a vida eterna” (Jo 12, 25).

Mas, padre, é impossível amar a Deus dessa forma, diriam muitos. Como renunciar a tantas coisas que quase todo mundo faz normalmente? Como conformar nossa vontade com a vontade de Deus, mesmo nas cruzes? Como educar meus filhos nesse mundo? Como eu, jovem, posso abandonar todas essas coisas que meus colegas fazem?  Nós estamos no mundo, padre, se renunciarmos a tantas coisas e buscarmos a conformidade em tudo com a vontade de Deus, seremos desprezados pelos outros, vamos sofrer muito, seremos tristes, vamos aborrecer a nossa vida. É impossível conseguir viver de modo verdadeiramente católico nesse mundo em que o pecado nos espera no nosso próximo passo. É impossível amar a Deus com todo o nosso ser. É impossível na sociedade em que vivemos e no momento de crise por que passa a Igreja. Temos que nos dividir entre Deus e o mundo. Se não o fizermos, será impossível viver. Eis aqui a tentação do desespero, caros católicos. Eis a tentação daquele que busca seguir a Cristo e que quer fazê-lo bem, mas que diante de tantas dificuldades e cruzes vai pouco a pouco desanimando, arrefecendo e tem a forte tentação de desistir. E quantos, de fato, terminam desistindo, dizendo que preferem abandonar tudo, já que não são capazes de amar a Deus inteiramente. Diante dessa tentação de desespero, é preciso reagir com a esperança sobrenatural, caros católicos.  Lembremo-nos, caros católicos, que em nenhum momento NS prometeu a paz – como o mundo a entende – aqui na terra. Ao contrário, ele prometeu a espada, ele disse que seus discípulos deveriam carregar a cruz. Mas ao mesmo tempo, Ele disse que estaria conosco até o final dos tempos e que estaria conosco todos os dias. Se Deus nos faz viver hoje, nessa sociedade, nesse momento de crise na Igreja, é porque podemos amá-lo inteiramente, é porque podemos alcançar a vida eterna. Podemos esperar com toda confiança e certeza que Deus nos dará os meios necessários para nos salvar e nos dará esses meios com abundância, se buscamos com sinceridade observar os seus mandamentos. E devemos esperar com firme confiança em Deus porque Ele é infinitamente bom e todo-poderoso. Ele é infinitamente bom. Isso significa que Deus quer que nos salvemos. Isso significa que Ele nos dará todas as graças, todos os meios para que nos salvemos. Isso significa que Ele não pode nos pedir o impossível. Deus é todo-poderoso. Isso significa que para ele nada é impossível. O que para nós sozinhos é impossível, com Deus se torna plenamente possível. É evidente que, sozinhos, nos é impossível amar inteiramente a Deus, não somente nos tempos em que vivemos, mas em qualquer tempo. Com Deus, podemos amá-lo inteiramente sempre em qualquer circunstância. Como diz Santo Agostinho: “Porque Deus não manda coisas impossíveis, mas quando manda, quer que façamos o que podemos e que peçamos o que não podemos, e Ele nos ajuda a poder”. E como diz São João: “os seus mandamentos não são pesados” (1Jo 5, 3).

Devemos ter grande e firme confiança porque Nosso Senhor Jesus Cristo é o Bom Samaritano da parábola de hoje. O homem despojado dos seus bens e ferido somos nós, a humanidade, despojada da graça pelo pecado e ferida com suas más inclinações, consequências do pecado. Aquele homem descia de Jerusalém para Jericó. Jerusalém simboliza a pátria celeste, a virtude, o bem. Esse homem deixava o caminho da virtude e viajando sozinho colocava-se em situação de perigo, pois era bem sabido que na estrada havia assaltantes. Esse homem somos nós que, seguindo muitas vezes a sugestão do mundo, da nossa vontade própria ou do demônio, deixamos muitas vezes a vida da graça, nos colocamos em ocasião de pecado e caímos, somos feridos pelo pecado, despojados da graça, da amizade com Deus. Esse homem, assaltado e ferido pela própria negligência somos nós, que por nossa culpa, por nossos descuidos nos afastamos de Deus, de Jerusalém, do céu e descemos para Jericó, para o pecado, para o inferno. Ainda assim, sabendo que esse homem era culpado de seus próprios males e sabendo que se tratava de um inimigo (Judeus e samaritanos eram inimigos e se assume que o ferido e despojado é um judeu, embora não esteja dito explicitamente), o bom samaritano o socorreu, colocando vinho e óleo nas suas feridas, levando-o para a estalagem e pagando as despesas. O Bom Samaritano é NSJC. É NSJC que, nos vendo em estado de pecado (por nossa própria culpa, como é claro), que nos vendo inimigos de Deus, portanto, inimigos d’Ele pelos nossos pecados, vem em socorro. Quanta bondade! Quanta misericórdia! Nosso Senhor coloca o vinho para purificar nossas feridas, fazendo-nos expiar por elas por meio dos sofrimentos, e das cruzes. Nosso Senhor coloca o azeite, nos restituindo a graça, nos auxiliando nas nossas provações, tornando nosso jugo suave e leve. Ele nos leva para a estalagem que é Igreja, em particular nos leva para a confissão. É Ele quem paga, em primeiro lugar, pelo nosso estado de pecador. Ele paga sofrendo e morrendo na cruz por nós. Bondade infinita! Misericórdia infinita! A parábola do Bom samaritano deve nos dar, caros católicos, grande esperança! Vejamos o que Cristo faz com aquele que ainda é seu inimigo. Muito mais fará com aquele que busca servi-lo com todo o seu ser. Cabe a nós implorar o socorro desse Bom Samaritano e deixar que Ele nos salve. E, quando por infelicidade cairmos, procuremos na Estalagem, que é a Igreja, o vinho e o azeite, que é a confissão dos nossos pecados. As quedas – que devemos procurar evitar a todo custo – não devem nos desanimar, ou nos fazer desesperar, ou diminuir nossas práticas religiosas. Devemos nos levantar para servir a Deus com maior vigor e afinco. Quando vier a tentação do desespero, de desistir, recitemos confiadamente o ato de esperança, praticando a virtude oposta a esse pecado. Não devemos arrefecer, não devemos abandonar nossas práticas devocionais, mas devemos mantê-las e até aumentá-las, se for possível.

Amar a Deus inteiramente, caros católicos, é, portanto, perfeitamente possível. Não sozinhos. Isso seria pelagianismo, quer dizer, seria acreditar que podemos nos salvar sem a ajuda divina, sem a graça. A coleta de hoje nos mostra que só podemos servir a Deus dignamente em virtude de um dom que Ele nos dá. Não podemos fazer nada de bom na ordem sobrenatural sem o auxílio da graça. As orações da Missa Tradicional são anti-pelagianas por excelência, pois invocam com ênfase o auxílio da graça. Aqueles que se deixam formar pelas orações da Missa Tradicional estarão vacinados contra qualquer tentação de pelagianismo ou autossuficiência. As orações da Missa Tradicional são a base para a doutrina da graça de Santo Agostinho, doutrina que é anti-pelagiana por excelência. E com o auxílio da graça, podemos correr ao céu, evitando as ofensas a Deus. Diante das dificuldades, não desanimemos, não nos desesperemos. Diante das dificuldades, devemos ter coragem! Diante das dificuldades, esperança na bondade e na onipotência divinas que nos dá todos os meios para nos salvarmos. Façamos a nossa parte rezando, pedindo o auxílio divino, nos esforçando para amar inteiramente a Deus, pois é isso que temos que fazer para alcançar a vida eterna.  “Mestre, que devo fazer para alcançar a vida eterna?” Ama o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todas as tuas forças, com todo o teu entendimento.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

[Sermão] “O Senhor chorou”. Ou: A virtude da Piedade em Cristo e em nós, e os pecados que mais ofendem a Deus.

Sermão para o Nono Domingo depois de Pentecostes
21 de julho de 2013 – Padre Daniel Pinheiro

 

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém. Ave-Maria…

***

Rezemos para que a presença do Papa no Brasil possa trazer bons frutos.

 “Videns civitatem, Jerusalem, Dominus flevit.” Vendo a cidade – Jerusalém – o Senhor chorou.

O Evangelho deste Domingo nos fala das lágrimas de Nosso Senhor Jesus Cristo. As lágrimas são, antes de tudo, um sinal de tristeza. Mas, devemos nos perguntar, como aquele que é verdadeiramente homem e verdadeiramente Deus pôde chorar, uma vez que ele tinha a visão beatífica em sua alma? Pois Cristo desde o momento de sua encarnação via Deus face a face, e essa visão impede todo sofrimento. Como pôde, então, aquele que via Deus face a face entristecer-se? Precisamos lembrar que Cristo veio ao mundo para satisfazer por nossos pecados e que satisfez por nossos inúmeros pecados aceitando os sofrimentos – até à morte e morte de cruz – com uma caridade infinita, a fim de nos salvar.  Dessa forma, ele tinha a visão beatífica, Ele via perfeitamente a Deus, como os santos no céu e muito mais perfeitamente que os santos no céu, mas a impassibilidade, quer dizer, a ausência de sofrimento e a imortalidade que decorrem dessa visão face a face de Deus, não se encontravam em Jesus Cristo enquanto ele viveu nessa terra, antes de sua ressurreição. E isso voluntariamente. Cristo via Deus face a face, mas sofreu e quis sofrer para satisfazer perfeitamente por nossos pecados.

Sabendo que Cristo podia chorar, devemos nos interrogar sobre o porquê dessa tristeza profunda de Nosso Senhor no episódio relatado pelo Evangelho. O choro vem da tristeza e a tristeza nos atinge quando vemos algum bem que amamos ameaçado, atacado, destruído. Assim, por exemplo, os parentes choram a perda de um ente querido, manifestando com isso o amor que tinham para com ele. Para compreender, então, porque Nosso Senhor Jesus Cristo chora no Evangelho de hoje, devemos compreender o que ele ama. Ora, Cristo é o abismo de todas as virtudes, isto é, Ele possui e exerce o mais perfeitamente possível todas as virtudes, ou quase todas, pois há virtudes que Cristo não possuía, porque há virtudes que supõem um defeito precedente, como a virtude da penitência supõe um pecado pessoal anterior. E essas virtudes que supõem um defeito anterior, Cristo evidentemente não as possuía, pois Ele é o cordeiro imaculado. Ele sofria com caridade infinita pelos pecados dos outros, mas não pelos seus, pois Ele não os tinha.

Entre todas as virtudes que Cristo possuía e exercia perfeitamente, encontra-se a virtude da piedade. Mas piedade em sentido próprio e não no sentido de devoção ou religiosidade, nem de compaixão ou misericórdia. A virtude da piedade propriamente dita é aquela que nos inclina a render aos pais, à pátria e a todos os que se relacionam com eles a honra e o serviço que lhes são devidos. A justiça nos diz que nos tornamos devedores daqueles que nos deram benefícios. Somos devedores, em primeiro lugar, de Deus, em razão de sua excelência e em razão de todos os bens inumeráveis que nos deu. Além disso, é Ele que nos dá o ser e nos governa. Em segundo lugar, são os pais que nos dão o ser e nos governam. E, finalmente, a pátria, em que nascemos e que nos nutre. E por isso, depois de Deus, o homem é devedor sobretudo dos pais e da pátria, nos diz São Tomás. A primeira dívida é paga com a prática da virtude da religião, pela qual damos a Deus, em união com Nosso Senhor e na medida das limitações de nossa natureza humana, o que lhe é devido. A segunda dívida devida aos pais e à pátria é paga com a prática da virtude da piedade.

Cristo possuía, assim, a virtude da piedade de modo perfeito. Ele amava, então, imensamente a sua pátria e, sobretudo, Jerusalém, o centro de sua pátria. Por isso Cristo chorou, caros católicos. Como Jerusalém recusava o verdadeiro Messias, a verdadeira religião e a salvação, Nosso Senhor chorou, vendo a ruína de tantas e tantas almas que recusaram a sua misericórdia. Toda a destruição material de Jerusalém, profetizada por Cristo e realizada no ano 70, é nada diante da ruína espiritual causada pela cegueira voluntária de Jerusalém. Quantas graças, quantos privilégios dados à cidade santa. E com que ingratidão e infidelidade ela pagou. É o dever dos filhos não só obedecer aos pais em tudo o que é lícito e mostrar o devido respeito, mas também socorrê-los quando esses precisam de ajuda. Nosso Senhor tentou socorrer Jerusalém de todas as formas: orações, ensinamentos, ameaças, milagres, profecias, morte na Cruz. Mas Jerusalém continuou cega e endureceu o seu coração.

Hoje, caros católicos, não há somente uma Jerusalém no mundo, há várias. Quantas nações receberam graça sobre graça, favor sobre favor de Cristo e agora respondem com ingratidão e infidelidade, dizendo: Não queremos que Ele, Jesus Cristo, reine sobre nós (regnare Christum nolumius). Já não queremos suas leis, nem sua Revelação; Revelação, aliás, única verdadeira, pois confirmada por tantos milagres e profecias verdadeiros. E vemos nesses países – que são criaturas de Deus – o jugo doce e suave de Cristo lançado por terra e calcado pelos homens. Consideremos, porém, somente a nossa pátria, que tem se distanciado cada vez mais de Deus, da religião católica, com a aprovação cada vez mais larga, embora sorrateira, do aborto (esse crime que nunca se justifica), com a aprovação de uniões contrárias à natureza, com o laicismo galopante.

Se somos católicos, buscando, então imitar a Cristo, devemos também nós ter e praticar a virtude da piedade para com nossa pátria, caros católicos, porque ela também é princípio de nosso ser, de nossa educação e ela nos governa, fazendo tudo isso enquanto proporciona aos pais – e por meio deles aos filhos – grande quantidade de coisas necessárias e convenientes para o nosso ser. Devemos praticar a virtude da piedade para com nossa pátria como o fez Nosso Senhor Jesus Cristo, obedecendo a ela em tudo o que é bom e socorrendo-a em suas dificuldades, sobretudo espirituais. Devemos, caros católicos, praticar a virtude da piedade buscando que nossa pátria reconheça a verdade e se submeta a ela e possa assim ajudar seus filhos não só materialmente, mas também espiritualmente, mostrando a eles o caminho, a verdade e a vida: Jesus Cristo. Para tanto, devemos rezar por ela, fazer apostolado por ela, nos mortificar por ela. Com esses atos ajudaremos nossa pátria sem cair no excesso de endeusá-la, com um nacionalismo descabido, e sem cair no defeito de rejeitar nossa pátria e dizer como os pagãos: minha pátria é onde me sinto bem. Não, caros católicos! Temos verdadeiro dever de justiça para com a nossa pátria, apesar de seus defeitos.

Mas Jerusalém, que Nosso Senhor Jesus Cristo ama tanto, caros católicos, representa também, e evidentemente, a alma de cada um de nós, agraciada por Deus com inúmeros benefícios, com incontáveis graças e graças abundantes. Recebemos, sobretudo com o batismo, todas as condições para receber Cristo em nossas almas. Nosso Senhor ama, então, cada uma de nossas almas. O amor de Cristo por nós é um amor puro e sobrenatural. É um amor que quer o bem dos homens. Mas não qualquer bem como as riquezas, o reconhecimento, um prazer instantâneo ou qualquer outro bem que se limite a esse mundo. O bem que Nosso Senhor quer é o bem de nossa santificação, de nossa salvação eterna. A tristeza de Nosso senhor vem, então, primeiramente, do fato de muitos desprezarem seus mandamentos e não alcançarem, como consequência, a vida eterna e terminarem perdendo eternamente as suas almas, no inferno. A tristeza de Cristo é causada pelos pecados que impedem a nossa salvação. Cristo chora porque muitas vezes preferimos um instante de satisfação nesse mundo à alegria eterna no céu, ofendendo gravemente as suas leis e crucificando-o novamente.

Assim, Nosso Senhor chora não só sobre Jerusalém, mas sobre as almas. E ele chora sobre as almas quando elas não o amam, quer dizer, quando não cumprem a sua lei. Ele se entristece quando as almas preferem entregar-se ao pecado mortal em vez de se entregarem a Ele.  O pecado mortal, caros católicos, é a transgressão voluntária da lei de Deus em matéria grave. É a negação de Deus como supremo legislador, como soberano governador, como supremo juiz, como supremo benfeitor, como nosso verdadeiro bem e felicidade suprema. O pecado mortal é uma ofensa grave a Deus pela desobediência de suas leis, leis que têm por objetivo o próprio bem do homem e de Deus. O pecado mortal é a recusa total do amor de Deus por nós. O pecado mortal é o inferno em potencial, um potencial que pode virar realidade e muitas vezes vira realidade quando menos esperamos.

A cena histórica e real descrita hoje pelo evangelista é o choro de Nosso Senhor diante de Jerusalém. Estamos pouco antes de sua triunfante entrada nessa mesma cidade no Domingo de Ramos. O povo Judeu vai aclamá-lo como o Filho de Davi, quer dizer, como o Messias. Mas Nosso Senhor chora. Nosso Senhor chora porque, três dias depois, esses mesmos que o aclamaram como o Messias vão pedir a sua crucifixão, recusando a sua lei, a sua graça. Eles louvaram a Cristo com a boca, mas o coração deles estava longe de Deus. Nosso Senhor chora, então, particularmente pelos pecados de nós católicos que o louvamos com a boca, mas que o crucificamos com as nossas obras pecaminosas.

São Paulo, em sua Epístola de hoje, cita alguns dos pecados que mais entristecem a Nosso Senhor. E ele nos dá, então, alguns exemplos que se aplicam de maneira muito especial a nós católicos desses tempos atuais. Tempos em que o amor do homem até o desprezo de Deus tem destruído as mais evidentes verdades católicas.

O primeiro pecado mencionado por São Paulo é a idolatria. A idolatria que nos faz adorar um falso Deus no lugar do verdadeiro. A idolatria de nossos dias é o relativismo, uma espécie de religião acima das religiões. Ele tem como propósito igualar todas as religiões: colocar em pé de igualdade a religião fundada por Cristo – homem-Deus – e as religiões que são fruto da invenção humana ou do pai da mentira.  Ora, religiões que ensinam doutrinas contraditórias não podem ser ambas verdadeiras. Uma só pode ser a verdadeira. Uma só é a verdadeira religião, aquela anunciada pelos profetas e confirmada pelos milagres de Cristo: a religião católica, como já dissemos.

O segundo pecado de que nos fala o Apóstolo é a impureza (ver a esse respeito o sermão sobre a luxúria): quantos hoje, mesmo entre católicos levam uma vida completamente desregrada nesse ponto. Mesmo entre o clero, infelizmente. Quantos perdem o céu por causa de um ato que nos assemelha ao animais irracionais. Quantos pecados cometidos contra a castidade. Muitos cometidos sozinhos. Muitos não esperam o casamento. Aqueles que casam se divorciam e se juntam, em adultério, com outra pessoa. Os casados utilizam métodos anticoncepcionais e assim por diante. Ora, os bens do matrimônio são três: (i) a fidelidade – contra o adultério – (ii) a indissolubilidade – contra o divórcio e o recasamento – e (iii) os filhos – contra a anticoncepção e mentalidade contraceptiva. E um dos bens do sacerdócio é o celibato.

Esses pecados e todos os outros pecados, caros católicos, entristecem a alma de Nosso Senhor. Dominus flevit. O Senhor chorou à vista de Jerusalém que ia cometer o deicídio. Nosso Senhor chorou em previsão de todos os nossos pecados. Foram nossos pecados que crucificaram a Cristo. E nosso crime é ainda maior que o dos judeus, pois professamos e reconhecemos que Cristo é Homem e Deus e veio para nos salvar. Dominus flevit. O Senhor chorou por causa de nossas ofensas. O Senhor chorou porque nos amou profundamente, porque buscou em tudo a nossa salvação, mas nós preferimos o pecado. Quanta ingratidão!

É preciso, então, parar de ofender a Cristo, praticando a religião. Sabemos que hoje, neste mundo que se opõe cada vez mais à virtude, isso não é fácil. Mas Nosso Senhor não prometeu a facilidade, caros católicos. Ele não veio trazer a paz, pelo menos não como o mundo a compreende, mas Ele veio trazer a guerra. Ele deu a cada um uma cruz e junto com essa cruz, Ele deu graças abundantes para carregá-la e uma Mãe para nos ajudar, Nossa Senhora. São Paulo nos diz: Deus não permitirá que sejais tentados além do que podem as vossas forças. Assim, se o combate é difícil, porque o pecado em nossa sociedade é abundante, a graça de Nosso Senhor é superabundante, seu jugo é leve e suave. O Apóstolo afirma hoje, DEUS É FIEL: ele sempre nos dá as graças necessárias. Resta saber se nós somos fiéis às promessas de nosso batismo. Devemos mostrar nossa fidelidade pela submissão de nossa inteligência às verdades reveladas por Deus e pela prática incondicional da moral católica, evitando assim entristecer e ofender ao Sagrado Coração de Nosso Senhor Jesus Cristo. Não basta honrar Deus com os lábios para depois crucificá-lo, como fizeram os Judeus na semana santa. Se Deus é fiel, também nós devemos sê-lo.

Convertamo-nos, então. Tenhamos confiança em Nosso Senhor Jesus Cristo: sem Ele nada podemos fazer. Busquemos a confissão. E se cairmos de novo, levantemo-nos, com verdadeiro arrependimento, e busquemos novamente a confissão. Tenhamos confiança: a misericórdia de Deus é imensa. Alegremos a alma de Cristo, pedindo perdão pelos nossos pecados, comungando com frequência, desagravando – com boas obras – o Coração de Nosso Senhor, ferido por nossos pecados.  Alegremos o Coração de Nosso Senhor e o Imaculado Coração de Maria pela prática da virtude, pela prática sincera e íntegra da religião católica. Ele nos ajudará com suas graças. Alegrando o coração de Cristo também o nosso coração se alegrará profundamente. Como nos diz o Salmista (118,1): “Felizes aqueles cuja vida é pura e seguem a lei do Senhor”. Felizes porque a lei do Senhor é para nosso bem e para a maior glória dEle.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

[Sermão] A Prudência e os erros opostos. Ou: A parábola do feitor iníquo.

Sermão para o Oitavo Domingo depois de Pentecostes
14 de julho de 2013 – Padre Daniel Pinheiro

***

[Breve Introdução à Missa Solene]

Estamos hoje no 8º Domingo depois de Pentecostes. É uma grande graça poder celebrar uma Missa Solene, é uma grande graça para vocês poder assistir a uma Missa Solene, assistir e se unir àquilo que há de mais belo deste lado do céu. Se uma Missa Rezada ou uma Missa cantada já é bela, quanto mais bela é uma Missa Solene, com todos os seus ritos. São Tomás diz que os ritos servem para mostrar a importância do que se está realizando no sacramento, bem como para instruir os fiéis. Podemos dizer que os ritos são também sacramentais. Pela solenidade da Missa de hoje, pela doutrina católica que ela exprime de maneira sublime (por exemplo, peço que vocês reparem como ela exprime a hierarquia da Igreja, tal como instituída por Nosso Senhor Jesus Cristo), pela excelência dos ritos, podemos nos preparar de maneira excelente para receber com grande abundância os frutos da Missa, sobretudo o perdão de nossos pecados. Aproveitemos, caros católicos, para assistir bem a essa Santa Missa e nos unir ao sacrifício de Cristo oferecendo-nos a nós mesmos junto com Ele. Não sabemos quando teremos novamente essa graça.

***

[Sermão]

O Santo Evangelho de hoje, caros católicos, nos traz algumas dificuldades, diante das quais muitas pessoas tiram conclusões erradas ou precipitadas. Como pode o senhor elogiar o feitor, o administrador iníquo? Antes de falarmos desse elogio e da prudência, é preciso lembrar que ninguém pode interpretar a Sagrada Escritura segundo suas próprias ideias e gostos, ninguém pode ir contra o sentido e a interpretação que a Igreja sempre deu e dá, pois compete à Santa Madre Igreja julgar e interpretar as Sagradas Escrituras.  São Francisco de Sales diz que se trata de uma profanação feita às Sagradas Escrituras o fato de pretender que o entendimento das Escrituras é demasiado fácil. Assim, a leitura das Sagradas Escrituras não deve ser feita indistintamente por todos. São Pedro diz, por exemplo, que há, nas cartas de São Paulo, “algumas coisas difíceis de entender, que os indoutos e inconstantes na fé adulteram (como fazem também com outras partes das Escrituras) para sua própria perdição” (2Pe III, 16). Portanto, na Sagrada Escritura há passagens difíceis, que podem levar as almas à perdição em virtude de uma falsa interpretação. É preciso sempre ler as Sagradas Escrituras com o Magistério da Igreja ao lado, pois foi à Igreja que Deus revelou toda à verdade, e cabe à Igreja dar o sentido verdadeiro da Palavra de Deus contida nas Sagradas Escrituras.

Venhamos à parábola. O feitor iníquo é o homem pecador, o homem que administrou mal os bens que lhe foram dados por Deus. Deus nos deu vários bens para administrarmos: a inteligência, a vontade, os sentimentos, os bens materiais. O administrador iníquo é, portanto, o homem que usa mal sua inteligência, aderindo ao erro, é o homem que usa mal sua vontade, dirigindo-a ao que é contrário à vontade de Deus. É o homem que não ordena seus sentimentos e paixões pela razão iluminada pela fé. Trata-se do homem que usa mal seu corpo, por exemplo, pelos pecados de impureza, pecados que fazem dele como um animal irracional. Trata-se do homem que usa mal os bens materiais que possui. O homem pecador é um administrador infiel dos bens que lhe foram dados por Deus, pois o pecador usa os bens dados por Deus não para a maior glória da Santíssima Trindade, para a salvação da própria alma e para a salvação do próximo, mas ele os utiliza para satisfazer seus próprios desejos, contrários ao desejo perfeito do seu senhor, que é Deus.

Diante dessa má administração, nada mais justo do que sofrer a consequência: cavar, mendigar, quer dizer, sofrer, fazer penitência, deixar o pecado e praticar a virtude esforçando-se para isso e pedindo isso para Deus. Todavia, o administrador iníquo, sem arrependimento do mal que cometeu, escapa dessa justa consequência com uma grande habilidade, uma habilidade que implica mais um pecado grave, mas que é uma grande habilidade. Diante disso, o senhor louva não a ação pecaminosa propriamente dita de reduzir injustamente a dívida dos devedores, mas a habilidade, a prudência do feitor.

A prudência consiste justamente em ordenar os meios para alcançar um determinado fim. A prudência não é ter medo, como muitos pensam. A prudência consiste em escolher os meios mais adequados para se chegar a um determinado objetivo. Agora, a prudência será uma boa prudência se ela escolhe meios lícitos para alcançar um objetivo lícito. A boa prudência é aquela que, em última instância, determina os melhores meios para que alcancemos a vida eterna. A boa prudência é aquela que dita o que se deve fazer em determinado momento para cumprir a vontade de Deus, para alcançar a vida eterna, levando em conta todas as circunstâncias e depois de madura reflexão. A má prudência, por outro lado, é aquela que dispõe os meios para fazer um pecado, para alcançar um fim ruim, oposto a Deus e à nossa salvação. A má prudência é também aquela que escolhe meios ruins para atingir um fim, ainda que esse fim seja bom. Dessa forma, fica evidente que a prudência do administrador da parábola é uma má prudência, que escolhe meios pecaminosos para atingir seu fim, que é escapar de uma justa punição. Dessa forma, o homem rico elogia não a ação, que foi desonesta, mas a capacidade, a indústria, a inteligência do feitor infiel em dispor os meios para atingir seu fim e ele o faz para que tenhamos a mesma habilidade, mas em vista de fazer o bem. Da mesma forma, poderíamos admirar a habilidade de um assaltante de banco em conseguir roubar milhões de reais sem que ninguém perceba, sem que um alarme sequer dispare, embora condenemos veementemente a ação do roubo. Nós devemos imitar esse administrador iníquo, mas com uma boa prudência, uma prudência que escolhe os meios mais adequados para chegarmos ao céu. Uma prudência que nos faz evitar o pecado e que nos faz sempre agir em vista do céu. Que fique claro, então, que o senhor – que na parábola é Deus – não faz o elogio do pecado ou da iniquidade, mas ele elogia a inteligência, a habilidade, a prudência do administrador em dispor os meios para atingir seu fim. Ele elogia o feitor infiel para nos mover a agir com muita prudência, com muita sagacidade, mas para o bem, escolhendo meios bons, meios lícitos a fim de praticarmos bem nossos deveres de estado e sempre tendo como objetivo último a vida eterna. Para tanto, devemos conhecer melhor o que é a virtude da prudência e os vícios opostos a ela.

A virtude da prudência é a virtude que, apoiada sobre a fé, inclina nossa inteligência a escolher, em toda e qualquer circunstância, os melhores meios para atingirmos nossos objetivos, sempre tendo em vista nossa finalidade última que é o céu, a vida eterna. Dessa forma, a verdadeira prudência sobrenatural nunca escolhe meios que nos impeçam de chegar ao céu ou que ofendam a Deus. A verdadeira prudência nos faz buscar, sob a luz da fé, os melhores meios para nos salvarmos. A virtude da prudência é indispensável para o exercício das outras virtudes, para o exercício da justiça, da temperança, da fortaleza, indicando a melhor maneira de exercê-las. É a prudência que dirige todas as outras virtudes, a fim de que se evitem os pecados por defeito ou por excesso. Sem a prudência, como saber, por exemplo, se é melhor calar ou reagir diante de uma adversidade? A prudência é necessária para conciliar virtudes que parecem contrárias, como a justiça e a misericórdia, a mansidão e a força, a penitência e o cuidado legítimo com a saúde, o recolhimento e o zelo apostólico, etc. É a prudência que nos indicará a maneira correta de proceder para conciliar essas virtudes sem que elas se destruam mutuamente. A prudência é também indispensável para evitar o pecado, pois para evitar o pecado é preciso conhecer as causas e as ocasiões do pecado e escolher bem os remédios. É exatamente isso que faz a prudência. Com a experiência do passado, próprio e alheio, e a partir do estado atual da alma, a prudência vê o que é ou será para nós uma ocasião de pecado e sugere, então, os melhores meios para que se evite a ocasião de pecado, o melhor meio para vencer as tentações, os remédios necessários. Sem essa prudência, quantos pecados são cometidos!

Para a perfeita prática da prudência, que nos é tão necessária é preciso que tenhamos  (i) a memória do passado, pois o conhecimento dos êxitos e fracassos passados próprios e alheios nos orientam muitíssimo para saber o que devemos fazer aqui e agora. A experiência é mãe da prudência. Por isso, as pessoas jovens não são, em geral, prudentes, por falta de experiência. Além da memória do passado, é preciso (ii) a inteligência do presente, para saber discernir se o que nos propomos a fazer aqui e agora é bom ou mau, lícito ou ilícito, conveniente ou inconveniente. Para uma prudência perfeita, é preciso também a (iii) docilidade, para pedir e aceitar o conselho de pessoas sábias – sábias do ponto de vista católico – e experimentadas, pois ninguém pode pretender saber resolver bem todas as situações que surgem. É necessária para a virtude da prudência também a (iv) sagacidade, que nos faz ver por nós mesmos com rapidez e exatidão o que devemos fazer nos casos urgentes, em que não temos ocasião de pedir conselho. Nos casos não urgentes, será necessária a (v) reflexão madura, proporcionada à situação e à questão. Precisamos também da (vi) providência, que é enxergar longe e ter bem presente qual é o nosso fim último, sem nos limitar a objetivos instantâneos. A providência deve também nos fazer prever as consequências boas e ruins das nossas ações. É necessária igualmente a (vii) circunspecção, que é a atenta consideração das circunstâncias para julgar se é conveniente ou não realizar tal ato diante de tais circunstâncias. Há atos que, considerados em si mesmos, são bons e convenientes para atingir o fim pretendido, mas que, em razão de circunstâncias especiais, poderiam se tornar contraproducentes, ou perniciosos. Finalmente, é preciso a (viii) precaução, para afastar os obstáculos que podem comprometer a consecução do fim. A precaução deve nos levar, por exemplo, a nos afastar das más companhias, que nos influenciam mal e que nos distanciam da nossa salvação. Em decisões importantes, todos esses elementos devem estar presentes.

Como vimos, a prudência consiste em refletir sobre quais são os meios mais aptos para se atingir um objetivo bom, em escolher os meios mais aptos e finalmente em decidir colocar em prática esses meios.  À prudência se opõem, então, a precipitação, a inconsideração e a inconstância. A precipitação nos leva a não refletir devidamente e, sem a devida reflexão, faremos um juízo do que é bom ou ruim de forma precipitada, apressada, e levados não pela razão, mas pelas paixões ou caprichos. Já a inconsideração nos faz escolher mal. Embora tenhamos talvez refletido, preferimos escolher fazer isso ou aquilo pelo simples fato de demandar menos esforço, por exemplo, ou porque nos agrada mais. Quanto à inconstância, ela no faz desistir facilmente, por motivos indevidos, das decisões e propósitos que havíamos feito após devida reflexão e devido juízo. A precipitação, a inconsideração e a inconstância são causadas principalmente pela luxúria, que é o vício que mais obscurece a razão, pois aplica veemente nossa alma às coisas sensíveis, impedindo que a inteligência considere e julgue devidamente as coisas. Em nossa sociedade dominada pela luxúria, constatamos claramente a dificuldade das pessoas em tomar decisões após a devida reflexão, vemos a dificuldade das pessoas em julgar corretamente as coisas, vemos a inconstância das pessoas. Também se opõe à prudência a negligência, que consiste na ausência de decisão eficaz depois de ter refletido devidamente. O precipitado não pensa devidamente sobre o que deve fazer. O inconsiderado escolhe mal o que deve fazer. O inconstante não coloca em prática o que decidiu. O negligente nem chega a decidir. Todos são imprudentes.

Além da precipitação, da inconsideração, da inconstância e da negligência, se opõem à prudência três vícios que se assemelham falsamente a ela: a prudência da carne, a astúcia e a solicitude excessiva pelos bens terrenos. A (i) prudência da carne consiste em uma habilidade para encontrar os meios oportunos para atingir fins que se opõem ao nosso fim último, para atingir fins que não se subordinam aos mandamentos de Deus. A prudência da carne encontra os meios oportunos para satisfazer as paixões desordenadas de nossa natureza ferida pelo pecado original. A prudência do administrador da parábola é claramente uma prudência da carne. Já a (ii) astúcia é uma habilidade especial para alcançar um fim, bom ou mal, mas por meios falsos, simulados. Ainda que o fim seja bom, os meios devem ser também sempre bons, e justos, e verdadeiros. Portanto, a astúcia, que usa meios simulados e vias falsas é pecaminosa. A astúcia pode ser praticada com as palavras (dolo) ou com ações (fraude). Finalmente, se opõe à prudência a (iii) solicitude excessiva pelos bens terrenos, se colocamos esses bens terrenos como o fim a ser buscado, ou se para buscá-los começamos a negligenciar a nossa vida espiritual, ou se não temos confiança na providência divina, temendo que nos falte o necessário, se fizermos o que temos que fazer. Assim, são imprudentes em razão da solicitude excessiva pelos bens terrenos, por exemplo, os que não confiam em Deus e que utilizam métodos anticoncepcionais, que se opõem à natureza humana.

Após considerar o que é a prudência e os vícios opostos, devemos saber o que é necessário para progredir na virtude da prudência. Devemos empregar alguns meios. Antes de tudo, é preciso rezar e pedir a Deus para que nos conceda a graça de uma verdadeira prudência sobrenatural, invocando o Espírito Santo, rezando para Nossa Senhora, para Nossa Senhora do Bom Conselho, por exemplo. Devemos, para progredir na prudência, sempre refletir de modo proporcional à importância da decisão a ser tomada, sem nos deixar levar pelo ímpeto da paixão, do sentimento, do capricho, mas, sempre guiados pelas luzes da razão iluminada pela fé. Devemos considerar com calma as consequências boas e más que se seguirão de tal ação. Devemos perseverar nos bons propósitos, sem nos deixar levar pela inconstância ou negligência. Devemos colocar em prática os bons propósitos assim que possível, do contrário vamos arrefecendo. Devemos nos manter castos e puros (cada um segundo o seu estado), pois, como vimos, a impureza prejudica gravemente a prudência, obscurecendo nossa inteligência. Devemos vigiar contra a prudência da carne, que busca pretextos e sutilezas para nos eximir do cumprimento do dever. Devemos sempre proceder com simplicidade e transparência, evitando toda simulação ou engano. Devemos ordenar à glória de Deus e à nossa salvação todas as nossas ações, pois fomos criados para conhecer, amar e servir a deus. Não age prudentemente quem de alguma forma age se opondo a essa finalidade. Devemos imprimir em nossa alma uma máxima, que nos recordará sempre a agir tendo em vista esse fim último. Por exemplo: “de que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro, se perde a sua alma?

Na parábola de hoje, o senhor elogia a prudência do administrador iníquo, para nos mostrar a habilidade, a capacidade e a eficácia dos filhos das trevas em alcançar seus maus objetivos. É grande, por exemplo, a habilidade dos defensores da cultura de morte. Eles são de uma grande habilidade para implantar o pecado. Se os deputados e senadores não querem aprovar uma lei que permita o aborto em qualquer caso, porque os congressistas temem não serem eleitos depois, os abortistas recorrem aos tribunais, que decidem em favor do aborto. Eles recorrem ao poder executivo, para que sejam feitas normas que ampliem o acesso ao aborto nos casos não punidos pela lei. Eles fazem leis suficientemente vagas para incluir nelas a possibilidade livre de aborto, etc. Se o Congresso não quer aprovar uma lei para o casamento homossexual, eles impõem tal união à sociedade por meio de decisão do Conselho Nacional de Justiça, que obriga os cartórios a registrarem tais uniões, etc. Os filhos das trevas são muito hábeis na prudência da carne, para buscar aquilo que ofende a Deus e que prejudica a sociedade, a fim de satisfazerem as paixões, a fim de implementarem uma ideologia diabólica. Nós devemos imitar a habilidade deles, mas para o bem, buscando um fim bom, e buscando esse fim bom com meios igualmente bons e justos, sem astúcia, sem enganação. Devemos buscar os melhores meios e executar com afinco esses meios, com a finalidade de que Nosso Senhor Jesus Cristo reine em nossas almas, para que reine na sociedade, para que Ele reine nas nações. Devemos sempre agir com prudência, tendo em vista sempre a nossa finalidade aqui na terra, que é a salvação da nossa alma. Devemos agir com prudência, refletindo, escolhendo os meios mais aptos, tomando a decisão de colocar em prática esses meios para sermos eternamente felizes no céu. Assim, no dia do juízo, Nosso Senhor poderá nos dizer: fidelis servus et prudens intra in gaudium domini tui. Servo fiel e prudente, entra na alegria do Senhor. (Mescla de São Mateus XXIV, 45 e XXV, 21)

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

[Sermão] A árvore boa e a árvore má

Sermão para o Sétimo Domingo depois de Pentecostes
07 de julho de 2013 – Padre Daniel Pinheiro

 

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém. Ave-Maria…

“Assim, toda árvore boa dá bons frutos e toda árvore má dá maus frutos.”

Desde o começo do mundo havia duas árvores, desde a criação de Adão e Eva havia duas árvores. No paraíso terrestre, havia várias árvores, mas havia duas árvores principais. A árvore da vida e a árvore da ciência do bem e do mal. A primeira, a árvore da vida, dava bons frutos: ela conservava a vida do homem e cooperava, por virtude divina, para a imortalidade de nossos primeiros pais, imortalidade que era dom puramente gratuito de Deus. A segunda árvore dava maus frutos, era a árvore da ciência do bem e do mal, e seu fruto era a morte. Deus mandou nossos primeiros pais comerem da primeira – da árvore da vida – e de todas as árvores do paraíso, mas os proibiu de comerem da segunda – da árvore da ciência do bem e do mal – para que assim reconhecessem o domínio soberano de Deus sobre todas as coisas e sobre eles mesmos em particular.

Ora, o fruto da primeira árvore é a vida da graça, a justiça, a santidade, a vida de união e amizade com Deus e, finalmente, a vida eterna. É a árvore da vida. O fruto da segunda é o pecado mortal, o orgulho, a desobediência a Deus e a seus preceitos, a inimizade com Deus e, finalmente, a morte eterna no inferno. Essas duas árvores existem, de certo modo, ao longo de toda a história.

A árvore boa é constituída por Cristo e por seus membros: “Eu sou a videira; vós, os ramos. Quem permanecer em mim e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer”, nos diz Nosso Senhor (Jo XV). A árvore boa é aquela que ilumina as inteligências com o ensinamento de Cristo. A árvore boa é aquela que transmite aos homens a graça por meio dos sacramentos para que esses possam observar – e observar com a alegria – a vontade de Deus. A árvore boa é aquela que santifica os homens com a fé, a esperança, a caridade. Com a humildade, a paciência, a fortaleza, a justiça, a pureza. A árvore boa é aquela que fomenta a verdadeira paz, verdadeira paz que só existe na ordem, que por sua vez só existe quando todas as coisas estão ordenadas, voltadas para o Deus Uno e Trino. A árvore boa é aquela que defende a verdadeira dignidade do homem, dignidade que se mede por sua união com Deus. A árvore boa é aquela que defende e favorece a verdadeira liberdade, verdadeira liberdade que não consiste em poder fazer o bem ou o mal indiferentemente, mas que consiste em escolher os meios bons para se fazer unicamente o bem. A árvore boa é aquela que nos dá a verdadeira alegria, pois ela nos dá a posse do verdadeiro bem, que é Deus. A árvore boa é aquela que ama verdadeiramente os homens, pois quer o bem deles, isto é, sua salvação. Para tanto, essa árvore, como uma boa mãe, não poupa esforços, admoestações, conselhos, preceitos e às vezes castigos, necessários para o bem dos filhos. É essa a árvore boa, nascida da árvore plantada no Cálvário, quer dizer, nascida da Cruz de Cristo. É essa a árvore boa, que dá bons frutos para a vida eterna: ela gera a santidade individual, o bem da sociedade e a glória de Deus. Não há dúvidas, a árvore boa é a Igreja Católica, o Corpo Místico de Cristo, da qual devemos ser ramos e ramos vivos pela fé, esperança e caridade.

A árvore má, por outro lado, é aquela que o inimigo do genêro humano – o demônio – utiliza como seu instrumento para perder as almas. Ele mente e é o o pai da mentira, desde o princípio. Para Eva, ele prometeu sorrateiramente: se comeres da árvore que está no meio do paraíso, sereis como Deuses. Ainda hoje, esse inimigo nos promete, fraudulentamente, a felicidade pela desobediência aos mandamentos de Deus. Ele faz de nós os ramos de sua árvore pelo pecado mortal, esse pecado que nos separa de Deus e é a antecâmara do suplício eterno. Os frutos dessa árvore são, como nos diz São Paulo, a fornicação, a impureza, a luxúria, idolatria, feitiçaria, ódio, discórdia, ciúme, ira, rivalidade, divisão, seitas, inveja, bebedeira, orgias e outras coisas semelhantes (Gal V, 19-21). E o santo Apóstolo completa: “Dessas coisas vos previno, como já vos preveni: os que as praticarem não herdarão o Reino de Deus!” (Gal V, 21) E depois continua: Não vos enganeis: nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os difamadores, nem os assaltantes hão de possuir o Reino de Deus” (I Cor VI, 10). Eis os frutos dessa árvore má. São também frutos dessa árvore má as falsas religiões, as seitas, a maçonaria, a teosofia, e outras sociedades do mesmo tipo, bem como o esoterismo, tão em voga em nossos tempos.

Existem duas árvores, como existem duas filiações. Existem os filhos da mulher, Nossa Senhora, e os filhos da serpente, como está dito no Livro do Gênesis. Existem duas bandeiras, como nos diz Santo Inácio: a do demônio e a de Cristo. O demônio quer que nos coloquemos sob a sua bandeira pelo desejo das riquezas, pelo amor da glória desse mundo, pelo orgulho desenfreado, pelo pecado. Nosso Senhor, animado por caridade infinita para com o Deus e para conosco, quer que o sigamos com a pobreza de espírito, quer dizer, pelo desapego dos bens desse mundo, que são meros instrumentos. Ele quer que o sigamos pelo desejo dos opróbios e menosprezos, contra a vanglória desse mundo. Ele quer que o sigamos pela humildade, oposta ao orgulho. Ele quer que o sigamos pela virtude. Coloquemo-nos sob a bandeira de Cristo, sob o estandarte da Cruz. Escolhamos a Cristo por chefe e senhor, fazendo o que ele nos ensinou, praticando a virtude. Escolhamos servir o exército da Igreja de Cristo. Quando pelo pecado começarmos a nos afastar da bandeira de Cristo para servir ao demônio, busquemos confiadamente a confissão, o perdão de nossos pecados e busquemos servir ainda mais e melhor a Nosso Salvador e à sua Igreja.

Mas tenhamos sempre em mente que essa árvore má produz maus frutos unicamente na medida em que Deus o permite, para tirar deles um bem maior. E Deus mostra sua onipotência e sabedoria justamente tirando do mal um bem infinitamente superior. Do pecado original de Adão e Eva, enganados pelo demônio, Deus tirou a Encarnação de seu Filho Único. Seu Filho que vence o demônio na árvore da Cruz, Cruz que, por sua vez, gerou a árvore da Igreja. Não se trata, portanto, de equiparar as duas árvores, as duas filiações, os dois exércitos. Um vem de Deus que é infinitamente poderoso e infinitamente bom. O outro vem do demônio, uma criatura muito capaz, mas uma pobre criatura que renegou o criador e que tenta imitá-lo, mas para o mal. Uma pobre criatura que só age na medida em que Deus permite, e isso para tirar dos males um bem maior.

Se pertencemos outrora aos ramos da árvore má, e servimos à iniquidade como escravos do pecado, devemos agora ser ramos de Cristo, filhos da Igreja Católica, e devemos servir à justiça para chegarmos à santificação e à verdadeira liberdade, liberdade de filhos de Deus, uma liberdade que exclui o mal. Sejamos ramos de Cristo, do seu Corpo Místico que é a Igreja, e sejamos ramos vivos. Nosso Salvador nos disse (Jo XV): “Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor. Todo ramo que não der fruto em mim, ele o cortará; permanecei em mim e eu permanecerei em vós. O ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira. Assim também vós: não podeis tampouco dar fruto, se não permanecerdes em mim. Eu sou a videira; vós, os ramos. Quem permanecer em mim e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer. Se alguém não permanecer em mim será lançado fora, como o ramo. Ele secará e hão de ajuntá-lo e lançá-lo ao fogo, e queimar-se-á.”

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

[Sermão] São Paulo, modelo de fidelidade, caridade e humildade

Sermão para a Festa dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo
[Domingo,] 30 de junho de 2013 – Padre Daniel Pinheiro

 

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém. Ave-Maria…

***

Caros católicos, falamos ontem de São Pedro Apóstolo, da função que recebeu de NS: função de pedra fundamental da Igreja, de chefe supremo da Igreja. Falamos do sucessor de São Pedro, o Papa, e falamos da veneração que devemos ter por ele. A festa, porém, é também de São Paulo Apóstolo. Na liturgia, São Pedro e São Paulo estão sempre juntos. Quando se comemora a festa da conversão de São Paulo (25 de janeiro), faz-se memória de São Pedro. Quando se comemora a festa da Cátedra de São Pedro (22 de fevereiro), faz-se memória de São Paulo. No dia 29 de junho, a festa é de ambos, mas como em geral a ênfase é dada a São Pedro, foi instituída em 30 de junho a comemoração de São Paulo, com memória de São Pedro. Ontem no dia da festa de São Pedro e São Paulo, falamos de Pedro e do Papa. Hoje, na solenidade dessa mesma festa, falaremos do Apóstolo Paulo. Os dois estão assim tão unidos porque São Paulo cooperou, com São Pedro, de maneira eminente para a edificação da Igreja de Roma. São eles as duas colunas da Igreja Romana. Na frente da Basílica de São Pedro no Vaticano, vemos a imagem dos dois apóstolos. São Pedro, pastor supremo com as chaves do reino dos céus de um lado, e São Paulo, apóstolo com zelo extremado pela glória de Deus e pela salvação das almas do outro lado, com a espada, instrumento do seu martírio, mas também a espada da Palavra de Deus, que ele tão bem manuseou para a conversão das pessoas. Os dois estão unidos igualmente pelo martírio, pois foram para Deus no mesmo dia, 29 de junho. São Pedro crucificado, mas de cabeça para baixo, pois não se considerou digno de morrer como o Divino Mestre. São Paulo morreu decapitado, pois era cidadão romano e ao cidadão romano era reservada pena menos cruel e menos vergonhosa. Do Apóstolo São Paulo, podemos destacar a fidelidade à Palavra de Deus, a caridade e a humildade.

Continuar lendo

[Sermão] São Pedro e o Papa

Sermão para a Festa dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo
29 de junhode 2013 – Padre Daniel Pinheiro

 

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém. Ave-Maria…

***

Peço que rezem por sua Eminência, o Cardeal Dom José Freire Falcão, que foi criado Cardeal no dia 28 de junho de 1988, completando ontem 25 anos de cardinalato. Sua Eminência, tem nos ajudado muito nesse Apostolado. Rezemos por ele também em agradecimento.

***

“Tu és Pedro e sobre esta Pedra edificarei a minha Igreja.” Mt. 16, 16.

O Evangelho de S. Mateus de hoje é fundamental. Trata-se de uma das passagens mais importantes da Sagrada Escritura. Neste Evangelho está contido e afirmado o Primado de São Pedro e de seus sucessores, primado que faz parte da constituição da Igreja tal qual instituída por Deus, por NSJC.

Jesus dirigia-se, então, com seus discípulos à cidade de Cesaréia de Felipe, cidade pagã dedicada ao Imperador Romano e onde o culto aos ídolos era extremo. Convinha que Jesus Cristo estabelecesse aqui o chefe de sua futura Igreja: i) para mostrar que, em matéria religiosa ou em matéria conexa a ela, o Papa está acima do Imperador e de qualquer poder civil, e ii) para mostrar que a Igreja deve se estender não somente aos judeus, mas também aos pagãos, para que todos sigam a Cristo.

Continuar lendo