[Sermão] Eucaristia: o Santíssimo Sacramento do Altar

Sermão para a Festa de Corpus Christi
30 de maio de 2013 – Padre Daniel Pinheiro

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém. Ave-Maria…

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A minha carne é verdadeiramente alimento e o meu sangue é verdadeiramente bebida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue fica em Mim e Eu nele.

A Festa de Corpus Christi, prezados católicos, deve ser muito cara aos nossos corações. O que há de mais belo, de mais sublime, de mais divino do que a Santíssima Eucaristia? Nosso Senhor prometeu aos Apóstolos que estaria com eles todos os dias, até à consumação dos séculos. Nosso Senhor poderia ter se contentado em cumprir a sua promessa por sua presença espiritual, pelos auxílios da graça derivados de seus méritos infinitos obtidos, de modo particular, na cruz. Nosso Salvador quis, porém, permanecer entre nós em Corpo, Sangue, Alma e Divindade, sob as aparências do pão e do vinho. Após seu sacrifício na Cruz, não poderia haver modo mais eficaz, mais sublime de Nosso Senhor mostrar a sua caridade para conosco. A Eucaristia é o fruto do Sagrado Coração de Jesus que transborda de caridade para conosco.

Para que nós pudéssemos considerar em toda a sua plenitude essa caridade, foi instituída a festa de Corpus Christi. Na Quinta-Feira Santa, nós comemoramos e relembramos a instituição da Eucaristia, da Missa, do sacerdócio, mas nossa alma está muito ocupada com o pensamento da paixão e morte de Nosso Senhor. A Igreja quis, então, no séc. XIII, acrescentar um segundo dia em que festejamos e consideramos o triunfo de Nosso Senhor Jesus Cristo presente em Corpo, Sangue, Alma e Divindade. Um segundo dia em que festejamos o triunfo da caridade de Nosso Senhor para conosco.

A Eucaristia é um Mistério de nossa Santa Religião e é um dogma, quer dizer, uma verdade em que somos obrigados a acreditar com toda certeza, pois Deus nos revelou e a Igreja nos ensina como tal. É somente pela fé que acreditamos que, após as palavras do sacerdote, encontram-se o Corpo e o Sangue de Cristo realmente e substancialmente presentes sob as aparências de pão e de vinho. Após as palavras da consagração, ocorre, portanto, a transubstanciação: toda a substância do pão e toda a substância do vinho se convertem no Corpo e no Sangue de Cristo. Ora, como o Corpo e o Sangue de Cristo estão unidos à sua Alma e à sua Divindade, temos sob as espécies do pão e do vinho, o Corpo, a Alma, o Sangue e a Divindade de Cristo. A visão, o tato, o paladar todos os sentidos nos dizem que estamos diante de um pouco de pão e de um pouco de vinho. Todavia, sabemos pela fé e com certeza absoluta que estamos diante do Corpo, Sangue, Alma e Divindade do Senhor. Cremos porque Nosso Senhor nos falou claramente: “a minha carne é verdadeiramente alimento e o meu sangue é verdadeiramente bebida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue fica em Mim e Eu nele.” (Jo 6, 56,57) Como o mistério da Santíssima Trindade de que tratamos domingo passado, só podemos reconhecer que Nosso Senhor está realmente presente na hóstia consagrada e no cálice consagrado pela fé. Fé que não contradiz a razão, mas a eleva.

A Eucaristia, instituída por Nosso Senhor, é ao mesmo tempo sacrifício e sacramento. A Eucaristia é um sacramento. A Eucaristia, como os outros seis sacramentos, foi instituída por Cristo para nos transmitir a graça de modo eficaz. Todavia, a Eucaristia não é simplesmente um sacramento, mas ela é o Santíssimo Sacramento. Ela é o Santíssimo Sacramento porque, além de transmitir a graça, como os outros sacramentos, ela contém o autor da graça, ela contém Nosso Senhor Jesus Cristo, homem e Deus. É o próprio Deus que se encontra na Eucaristia. É o próprio Deus que, no excesso de sua caridade, se entrega a nós como alimento na Eucaristia. Cristo se entrega a nós pela Eucaristia para que nos unamos intimamente a Ele, a fim de que sejamos transformados em outros Cristos, em almas que tenham as mesmas virtudes de Cristo. Esse pão vivo e celestial, esse pão dos anjos, conserva e aumenta a vida da alma, que é a graça. Ela obtém o perdão dos pecados veniais, se estamos arrependidos, e nos preserva dos mortais. Ela aumenta o fervor da caridade, nos dispondo a agir cada vez mais por amor a Deus.

A Eucaristia é também chamada de Santíssimo Sacramento do Altar. Do altar. O altar é o local onde se oferece o sacrifício. A Eucaristia é denominada Santíssimo Sacramento do Altar porque é pela Eucaristia, no momento da consagração, que se perpetua o Sacrifício de Cristo, oferecido no Calvário na Sexta-feira Santa. É a Missa o sacrifício da Nova Lei. As prefigurações e sombras do Antigo Testamento cedem lugar à realidade e à luz. O sacrifício de Melquisedeque, o sacrifício de Isaac, o sacrifício do cordeiro pascal, os sacrifícios do Templo anunciavam o sacrifício perfeito e imaculado de Cristo. Trata-se do único e mesmo sacrifício do Calvário que é renovado nos altares. É a mesma vítima: Cristo. É o mesmo sacerdote principal: Cristo, que na Missa age por meio do padre. Entre a Missa e o Calvário muda somente o modo em que o Corpo e o Sangue de Cristo são oferecidos à Santíssima Trindade. No Calvário, Cristo ofereceu sua humanidade derramando sangue, com sofrimento. No altar, ele se oferece, no momento da consagração, de modo incruento e sem sacramental, sem derramamento de sangue, sem sofrimento, sem morrer. Todas as graças que Cristo mereceu e adquiriu no Calvário são aplicadas pela Missa. É pela Missa que nos vêm todas graças. A Missa é um tesouro infinito. Nosso Senhor morreu na Cruz para nos salvar e instituiu a Missa como sacrifício perfeito da Nova Aliança, para renovar o sacrifício do seu Corpo e do seu Sangue, para aplicar seus méritos infinitos adquiridos no Calvário.

A Eucaristia, como falamos no início, é um Mistério da fé. Ela é também um Mistério da esperança. É Nosso Senhor que o diz: “o que come deste pão viverá eternamente”. Todavia, é preciso aproximar-se do Corpo de Cristo com as disposições corretas, pois quem come desse Pão ou bebe desse Cálice indignamente será réu do Corpo e do Sangue de Cristo, bebendo a própria condenação, como nos diz São Paulo. Devemos nos aproximar da comunhão com as disposições corretas, disposições de que tratamos não faz muito tempo (ver sermão sobre o milagre da multiplicação dos pães): necessidade de ser católico, batizado, estar em estado de graça, estar em jejum de pelo menos uma hora, aproximar-se da comunhão com devoção e vestido modestamente. Recebendo bem a Eucaristia, podemos esperar vencer nosso combate nesse vale de lágrimas e alcançar o céu. A Eucaristia nos dá forças para alcançar o céu como o maná deu força aos judeus para a travessia do deserto e como o pão que Deus deu a Santo Elias permitiu que o santo profeta andasse ainda mais 40 dias e 40 noites (I Reis, 5). A Eucaristia é um mistério de esperança.

A Eucaristia é também um mistério de caridade. Mistério da caridade porque nos é impossível compreender o amor infinito de Deus para com os homens. Não bastou à caridade de Nosso Senhor morrer na Cruz para nos salvar, pobres pecadores. Ele quis permanecer conosco e permanecer conosco real e substancialmente com seu Corpo, Sangue, Alma e Divindade. De fato, Nosso Senhor nos amou e nos amou até o fim, quer dizer, ao máximo, buscando a nossa salvação. A Eucaristia é mistério da caridade porque, como nenhum outro sacramento, ela nos transmite a graça e aumenta o fervor da caridade. Nós cremos na presença real de Nosso Senhor Jesus Cristo não somente porque Ele nos falou. Nós acreditamos na presença real porque nós cremos no amor de Deus (I Jo, 16) por nós. De fato, é preciso crer no amor infinito de Deus pelos homens para poder crer na Eucaristia. O que Deus não faz por nós, caros católicos? Não sejamos ingratos. Acreditemos no amor de Deus e deixemos que essa caridade guie as nossas vidas, para que façamos em todas as coisas a perfeita vontade divina.

Sendo o sacramento da Eucaristia um mistério de fé, de esperança e de caridade, ele é também o sacramento da nossa consolação. Diante da tristeza, quando nossa alma pergunta “por que, Deus, anda a minha alma triste, diante das aflições causadas pelo inimigo?” não deixemos nos abater. Podemos ficar triste diante de certos males, mas nunca abatidos, desesperados. Se a tristeza começa a crescer e a se apoderar de nosso coração, ela perturbará a nossa alma, perturbando o uso da razão, prejudicando a virtude. Diante da tristeza, olhemos para o Sacrário. Pensemos no amor divino. Busquemos consolo em Deus. Encontraremos consolos diante das misérias da vida na medida em que estivermos unidos a Deus. Nas criaturas, nos amigos, nas diversões lícitas, podemos até encontrar algum consolo, mas é passageiro. Deus deve ser nosso supremo e, na verdade, único consolo, pois é Ele o bem infinito. Por que está triste a minha alma, quando Deus fez tudo para me salvar? Enquanto sacrifício, a Eucaristia nos coloca diante dos olhos os sofrimentos de Cristo, para que possamos unir os nossos aos dEle, e somos consolados.  Enquanto sacramento, Nosso Senhor está conosco na Eucaristia como amigo, que quer o nosso bem disposto a nos ajudar a carregar o nosso jugo, para aliviá-lo, e, assim, somos consolados. Não deixemos a tristeza tomar conta de nossa alma. Dirijamos o nosso olhar e a nossa alma ao sacrário, onde Nosso Senhor quis ficar, humildemente e muitas vezes desprezado, para nos salvar e consolar.

A Festa de Corpus Christi é a festa do triunfo da fé e a festa do triunfo da caridade divina. Quão desprezado encontra-se Nosso Senhor na Eucaristia. Quanta irreverência na celebração das Missas, quantos sacrilégios cometidos naquilo que há de mais sagrado na face da terra. Quanta irreverência na recepção da Santa Eucaristia, quantos comungam sem pensar se estão em estado de graça ou não. Quantas partículas em que Nosso Senhor está realmente presente se perdem em comunhões feitas na mão. Quanta irreverência nos gestos e nos trajes diante do Altíssimo.   Devemos, então, com entusiasmo redobrado professar com muita solenidade a nossa fé na presença real e substancial de Nosso Senhor Jesus Cristo na Eucaristia. Devemos confessar com muita solenidade a caridade divina para conosco e agradecer por todos os seus inumeráveis benefícios. Não bastam, porém, os ritos e solenidades exteriores, caros católicos. Devemos afirmar nossa fé e expressar o nosso amor e gratidão para com Deus interiormente, antes de tudo, convertendo-nos inteiramente a Ele, tomando a firme decisão de servi-lo. Façamos isso comungando com grande devoção e assistindo piedosamente à Santa Missa. Ofereçamos essa Missa e a nossa comunhão nesse dia, em reparação pelos nossos próprios pecados, pelos pecados públicos, pelos pecados de nossa nação e de todos os povos. Olhando para a Eucaristia, devemos crer no amor de Deus para conosco e devemos responder a tão insistentes chamados de Nosso Senhor para que nos convertamos. Que Cristo Eucarístico possa reinar em nossas almas e nas nações.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

[Sermão] O mistério da Santíssima Trindade

Sermão para a Festa da Santíssima Trindade
(Primeiro Domingo depois de Pentecostes)
26 de maio de 2013 – Padre Daniel Pinheiro

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém. Ave-Maria…

“Ide, pois, e ensinai todas as gentes, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo.”

Caros católicos, a Igreja nos fez reviver, desde o Tempo do Advento até Pentecostes, a vida de Nosso Senhor Jesus Cristo. Preparamo-nos para o seu nascimento (Advento), comemoramos o seu nascimento (Natal), festejamos a sua circuncisão na oitava do Natal, comemoramos a visita dos reis magos na Epifania, festejamos a Purificação de Nossa Senhora e a Apresentação do Menino Jesus no Templo. Entramos na Quaresma (precedidos pela Septuagesima), com a tentação de Nosso Senhor no deserto, com sua pregação e a oposição mortal dos fariseus. Lembramos sua entrada triunfante em Jerusalém no Domingo de Ramos, a Instituição da Eucaristia, da Missa e do Sacerdócio na Quinta-Feira Santa. Sua Paixão e Morte na Cruz na Sexta-Feira Santa. Sua Ressurreição gloriosa, sua Ascensão, o envio do Espírito Santo sobre Nossa Senhora e os Apóstolos, encerrando o Tempo Pascal. Nós começamos agora o Tempo que, na liturgia tradicional, se chama Tempo depois de Pentecostes e que significa liturgicamente a aplicação aos homens dos méritos infinitos obtidos por Cristo durante toda a sua vida na terra. Essa aplicação se faz por obra do Espírito Santo, a quem se atribuem as obras de santificação. Esse Tempo depois de Pentecostes é justamente um prolongamento de Pentecostes, com o Espírito Santo que atua na Igreja e nas almas, para nos conduzir ao céu.

Nesse primeiro domingo depois de Pentecostes, festejamos a Santíssima Trindade. São dois os principais mistérios da religião revelada por Deus aos homens: o mistério da Encarnação do Verbo e o mistério da Santíssima Trindade. Se queremos ser agradáveis a Deus, devemos ter a fé, quer dizer, devemos acreditar – com nossa inteligência – firmemente e com toda certeza naquilo que Deus nos revelou. São Paulo diz que sem a fé não podemos agradar a Deus e, com o mesmo sentido, Santo Atanásio diz que se queremos nos salvar, devemos, antes de tudo, ter a fé e conservá-la íntegra e sem mancha. Assim, se queremos agradar a Deus, devemos crer e confessar que Deus é Uno e Trino. Se queremos nos salvar, devemos crer e confessar que existe um só Deus em três Pessoas, pois Deus, que não pode se enganar nem nos enganar, nos disse que Ele é um só Deus em três Pessoas. Portanto, caros católicos, quando cultuamos Deus, quando adoramos Deus e o servimos, não estamos cultuando uma entidade mais ou menos vaga, não estamos cultuando o supremo arquiteto do universo da maçonaria, não estamos cultuando a mãe natureza ou uma força, uma energia positiva. Não estamos cultuando um Deus que se confunde com o mundo. Cultuamos, isso sim, um Deus que é puro espírito, infinitamente bom e amável, onisciente, onipotente, eterno… Cultuamos um Deus que é distinto das criaturas, que mantém na existência tudo o que criou e que governa tudo com suprema bondade e misericórdia. Nós cultuamos um só Deus em três Pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo. Essas três Pessoas são um só Deus e não três deuses porque as três têm uma só substância, uma só natureza, uma só essência, uma só divindade; as três são igualmente eternas, igualmente poderosas, nenhuma das três é uma criatura. Um só Deus, um só Senhor em três Pessoas realmente distintas. A única diferença que existe entre as três Pessoas da Santíssima Trindade é o fato de uma proceder da outra. O filho procede do Pai desde toda a eternidade. O Espírito Santo procede do Pai e do Filho desde toda a eternidade. O Pai não procede de ninguém.

A Santíssima Trindade, como falamos, é um mistério. É um mistério pois nossa razão não pode sozinha chegar à conclusão de que Deus é um em três Pessoas. Precisamos da Revelação para conhecer isso. É famosa a história de Santo Agostinho, que buscava compreender a Santíssima Trindade quando escrevia seu livro sobre o assunto. Deus lhe mostrou como esse mistério é inacessível à pura razão comparando o seu desejo ao desejo de um menino que queria colocar toda a água do mar em um buraco cavado na areia da praia. Diante do mistério da Santíssima Trindade, muitos inimigos da religião pretendem combatê-la dizendo que a fé é irracional, pois não podemos compreender aquilo em que acreditamos. Caros católicos, a fé não é irracional. Ao contrário, ousaria dizer que não existe nada de mais conforme à razão  do que a fé. A fé supera a razão, mas a fé não contradiz a razão. Poderíamos comparar as verdades da fé com relação à nossa inteligência com uma equação do segundo grau para uma criança de cinco anos. A equação supera a inteligência da criança, mas nem por isso a equação contradiz a inteligência daquela criança ou se torna irracional. Da mesma forma, as verdades sobrenaturais não se tornam irracionais pelo fato de superarem nossa razão. Nossa inteligência não consegue compreender o mistério da Santíssima Trindade, mas ela consegue mostrar que não se trata de um absurdo, ela consegue responder às objeções contrárias à Santíssima Trindade, ela consegue mostrar que é possível a existência de um só Deus em três Pessoas. Ela consegue, por meio de analogias e comparações, entender melhor o mistério, embora não consiga demonstrá-lo ou explicá-lo completamente.

Podemos compreender um pouco o mistério da Santíssima Trindade fazendo, por exemplo, uma analogia com a nossa inteligência e com a nossa vontade. O Verbo é gerado – não criado – porque Deus conhece a si mesmo perfeitamente desde toda a eternidade. Esse conhecimento que Ele tem de si gera o Filho ou Verbo, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. Esse Filho gerado é em tudo igual ao Pai, salvo justamente no fato de proceder do Pai. Do amor que existe entre o Pai e o Verbo – amor que existe desde toda a eternidade – procede o Espírito Santo. O Espírito Santo é em tudo igual ao Pai e ao Filho, salvo no fato de proceder de ambos. Essa geração do Filho e o proceder do Espírito Santo não diminuem em nada o Filho e o Espírito Santo com relação ao Pai. Os três são igualmente eternos, igualmente perfeitos. Os três são um só Deus. O mistério da Santíssima Trindade supera a nossa razão, mas não a contradiz.

Além disso, caros católicos, nossa razão é capaz de reconhecer a existência de Deus e ela reconhece que Deus é infinitamente perfeito. Diante disso, a nossa razão reconhece que se Deus nos falar, somos obrigados a aceitar porque Deus, infinitamente perfeito, não pode se enganar nem nos enganar. E aceitar aquilo que Deus nos falou não é humilhar a nossa inteligência, mas ao contrário, aceitar as verdades de fé é a maior exaltação a que pode chegar nesse mundo a nossa inteligência, pois a fé aumenta a capacidade de conhecimento da nossa razão e faz que nossa razão penetre na ordem sobrenatural. A fé não é contrária à razão. Deus é o autor da fé e da razão. Ele não pode se contradizer colocando as duas em oposição. A fé não diminui a razão. A fé aperfeiçoa e eleva a nossa razão, a nossa inteligência humana. É melhor ser mais perfeito com a ajuda de outro – no caso, Deus – do que permanecer sozinho na imperfeição ou na mediocridade.

Se Deus falou, devemos, então, acreditar. Lendo a Sagrada Escritura, aparece claramente que Deus revelou ser Uno e Trino. Ele revelou isso abertamente no Novo Testamento e deu indícios fortíssimos no Antigo Testamento.

Não convinha que a Santíssima Trindade fosse revelada plenamente aos judeus pelo risco que havia de eles caírem no politeísmo, sem compreender bem a Trindade das pessoas e pelo fato de estarem cercados de pagãos politeístas. Mas já a primeira frase da Sagrada Escritura indica a Santíssima Trindade: “No Princípio criou Deus o céu e a terra e o Espírito de Deus movia-se sobre a água”. Ora, “no Princípio” era o Verbo, quer dizer, Deus Filho, no diz São João no início de seu Evangelho. “Deus” é Deus Pai. O “Espírito de Deus que se move sobre a água” é o Espírito Santo. Além disso, nessa mesma frase, em hebreu, a palavra “Deus” é Elohim, que é uma forma plural, mas o verbo – “criou” – se encontra no singular. No plural da palavra Elohim, temos a pluralidade de pessoas. No singular do verbo “criou” temos a unidade da essência. Ainda no primeiro capítulo do Gênesis Deus disse: “façamos o homem à nossa imagem e semelhança”. O verbo “façamos” no plural indica a pluralidade de pessoas. “À nossa imagem e semelhança” no singular indica a unidade da essência. Davi diz no Salmo (LVI): “Abençoe-nos Deus, o nosso Deus, abençoe-nos Deus.” Invoca, assim, três vezes Deus: Deus Pai, Deus Filho, Deus Espírito Santo. E o que está no meio é chamado de maneira sublime nosso Deus, pois faz referência ao Filho, que assumiu nossa carne, veio ao mundo para nos salvar. O Profeta Isaías diz: “Sanctus, Sanctus, Sanctus”, referência ao Pai, ao Filho, ao Espírito Santo. E poderíamos ainda citar outras passagens do Antigo Testamento que fazem referência à Santíssima Trindade.

No Novo Testamento, Nosso Senhor ensina abertamente a Trindade das Pessoas em Deus. Temos o Evangelho de hoje: “Ide, pois, e ensinai todas as gentes, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo.” “Nome” está no singular, para significar a unidade de essência em Deus. Também quando Nosso Senhor diz: “Quando vier o Paráclito, que vos enviarei da parte do Pai, o Espírito da Verdade, que procede do Pai, ele dará testemunho de mim.” Há o Pai, o Filho e o Paráclito, que procede dos dois, que é enviado pelo Pai e pelo Filho. Podemos citar também o Batismo de Nosso Senhor e sua Transfiguração, em que tanto o Pai como o Espírito Santo se manifestam para glorificar o Filho. Também os Apóstolos ensinam a Santíssima Trindade. São João diz: “três são os que dão testemunha no céu: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. E esses três são um.” São Paulo na Epístola de hoje diz “dEle, por Ele e para Ele”, com referência à Santíssima Trindade. E, claro, poderíamos multiplicar os exemplos.

Também a Tradição exprime claramente a fé na Santíssima Trindade. Podemos mencionar o Credo de Santo Atanásio – que recomendo a todos que leiam – e poderíamos citar os outros Padres da Igreja. Basta, porém, considerarmos esse monumento da Tradição e da fé que é o Rito Tradicional da Missa, e que é, em particular, uma confissão clara da fé na Santíssima Trindade. No ofertório, pedimos à Santíssima Trindade que receba a oblação que oferecemos na Missa: Suscipe Sancta Trinitas hanc oblationem. Logo antes da Bênção final, exprimimos o nosso desejo de que o sacrifício que acabou de ser oferecido aplaque a Santíssima Trindade e lhe seja agradável: Placeat tibi Sancta Trinitas. Recitamos em todos os Domingos depois de Pentecostes o Prefácio da Santíssima Trindade. Peço que considerem atentamente as palavras desse Prefácio que será cantado logo mais e vejam que sublime síntese do Mistério da Santíssima Trindade está contida nessa bela oração.

Todas as nossas ações devem ser feitas em nome da Santíssima Trindade. Na Santa Missa, o primeiro rito é o sinal da Cruz, para indicar que o sacrifício da Cruz vai ser renovado e oferecido em honra da Santíssima Trindade. Permaneçamos firmes e inabaláveis na fé na Santíssima Trindade, caros católicos, sem a qual não podemos agradar a Deus, sem a qual não podemos nos salvar. E que, pela firmeza dessa fé, sejamos protegidos de toda a adversidade (Coleta). Peçamos à Santíssima Trindade que habite em nossas almas pela graça. Bendita seja a Santíssima Trindade e a Unidade Indivisa, como nos diz o Intróito da Missa de hoje.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

[Sermão] A Festa de Pentecostes

Sermão para o Domingo de Pentecostes
19 de maio de 2013 – Padre Daniel Pinheiro

 

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém. Ave-Maria…

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E ficaram todos cheios do Espírito Santo e falavam das grandezas de Deus (Communio).

Festejamos hoje, caros católicos, Pentecostes. Pentecostes é a descida do Espírito Santo sobre os Apóstolos e Nossa Senhora no cenáculo em Jerusalém. A descida do Espírito Santo em Pentecostes é importantíssima. Ela é a festa da promulgação da Igreja e a festa da promulgação da nova lei.

No Antigo Testamento, a festa de pentecostes comemorava a promulgação da lei mosaica, dada por Deus a Moisés no Monte Sinai, e que constituiu perfeitamente os judeus como o povo eleito. Podemos dizer que Pentecostes que nós comemoramos hoje foi a promulgação da Nova Lei, a promulgação da Igreja fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo sobre a Cruz. Nosso Senhor começou a fundar a Igreja por sua pregação; Ele consumou a fundação quando estava pregado na Cruz e, finalmente, Ele promulgou a sua Igreja aos olhos de todos quando mandou o Espírito Santo aos apóstolos, para que anunciassem o Evangelho a toda a criatura. Portanto, Pentecostes é um acontecimento capital na vida da Igreja e um acontecimento único. Pentecostes é, praticamente, o começo da Igreja. Continuar lendo

[Sermão] É preciso rezar, e rezar bem.

Sermão para o Quinto Domingo depois da Páscoa
5 de maio de 2013 – Padre Daniel Pinheiro

 

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém. Ave-Maria…

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É o terceiro domingo seguido, caros católicos, em que Nosso Senhor Jesus Cristo nos fala de sua subida aos céus, de sua Ascensão, que será comemorada na próxima quinta-feira, quarenta dias depois de sua Ressurreição. A Ascensão de Nosso Senhor é, à primeira vista, um motivo de tristeza para os Apóstolos e para os discípulos do Mestre, ainda muito voltados para as coisas terrenas. Da mesma forma, poderíamos pensar que, para nós, nossa alegria seria muito maior com a presença de Nosso Senhor na Terra. Todavia, era preciso que Cristo subisse ao Pai, para sentar-se à direita dEle – nem acima, nem abaixo, mas à direita – para manifestar a igualdade de natureza com o Pai. Era preciso que Cristo subisse aos céus também para manifestar, definitivamente, que seu sacrifício sobre a cruz foi perfeitamente aceito por Deus. Além disso – manifestar a divindade de Cristo e a aceitação de seu sacrifício – a Ascensão tem também consequências excelentes para nós. Nosso Senhor afirma que é bom para nós que ele suba ao Pai, a fim de poder enviar o Paráclito, que ensinará toda a verdade aos apóstolos,  mas também porque no céu Ele intercederá por nós diante do Pai. Assim como o sumo sacerdote do Antigo Testamento entrava no Santo dos Santos para interceder pelo povo, Cristo entra na glória celestial para interceder por nós, como nos diz São Paulo (Hebreus VII, 25), pois sua simples presença, com sua natureza humana e as chagas gloriosas de seu sacrifício, é já uma intercessão por nós. Deus, vendo a natureza humana de Cristo, terá misericórdia daqueles que Cristo veio salvar, terá misericórdia de nós.

Tendo sido fortalecido na fé quanto à divindade de Cristo e de sua intercessão por nós no céu, podemos dirigir, com toda confiança, nossas orações a Deus. E tudo o que pedirmos em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, explicitamente ou implicitamente, obteremos, nos diz Ele no Evangelho de hoje. Todavia, nosso Salvador diz em outra ocasião que no dia do juízo haverá muitos que invocaram seu nome, mas que não se salvaram. E quantas vezes, de fato, nossas orações não são atendidas, apesar de invocarmos a mediação de Cristo. Isso se explica facilmente, caros católicos. Não basta rezar, invocando o nome de Nosso Senhor. É preciso rezar bem. O apóstolo São Thiago nos diz claramente: “Vós pedis e não recebeis porque pedis mal” (Thiago IV, 3).

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Para rezar bem, é preciso primeiramente, que nossa alma esteja em boas disposições. Em seguida, é preciso pedir coisas boas, quer dizer, coisas que nos dirigem para Deus. Finalmente, é preciso pedir de um modo digno da majestade divina à qual nos dirigimos. Se seguimos esses três pontos, nossa oração será atendida.

É preciso, então, que estejamos bem dispostos. Isso significa que, quando rezamos, devemos estar em estado de graça, em amizade com Deus ou pelo menos não devemos estar endurecidos no mal, se por infelicidade nos afastamos de Deus pelo pecado. Deus não costuma ouvir o homem que, endurecido no mal e sem se preocupar com o estado de sua alma, recorre a Ele somente para pedir coisas temporais. E se às vezes Deus o ouve, pode se tratar mais de uma punição do que de um favor propriamente dito. Evidentemente, se o pecador começa a querer detestar seu pecado e começa a voltar-se para Deus, Ele, infinitamente bom e misericordioso, olhará com compaixão e amor para o pecador e lhe dará graças de conversão, penitência e perdão. Para rezar bem devemos estar bem dispostos.

Em seguida, devemos pedir algo que é bom. Acabamos de ouvir Nosso Senhor dizer no Evangelho: tudo o que pedirdes a meu Pai em meu nome, Ele vos dará. Ora, Deus, sendo a bondade perfeita, nos dá tudo aquilo que pedimos, desde que isso seja uma coisa boa. Se Ele nos desse algo ruim, Ele estaria em contradição com sua bondade infinita. E uma coisa é boa nessa terra se ela nos ajuda, de um modo ou de outro, a ganhar o céu. Assim, quando pedimos a nossa salvação ou coisas necessárias para a nossa salvação – como as virtudes, por exemplo, ou quando pedimos para vencer um vício – nós podemos estar seguros de que seremos atendidos, se estamos bem dispostos e se observamos as outras condições das quais falaremos em breve. Podemos também e devemos pedir coisas temporais (como a saúde, por exemplo, e bens materiais). Mas como essas coisas podem tanto nos aproximar quanto nos afastar de Deus, com muita frequência Ele não nos concede esses bens temporais, pois eles nos afastariam de sua divina majestade. Vale muito mais ser doente e suportar em união com Deus e com paciência uma doença do que estar com saúde, mas utilizar essa saúde para fazer o mal. Assim, quando pedimos coisas temporais a Deus, devemos nos submeter inteiramente à sua divina sabedoria, que poderá nos conceder ou negar tais bens em virtude da utilidade ou não deles para a nossa salvação. E Ele sabe muito melhor do que nós o que é útil para nossa salvação. Dessa forma, nossa oração deve ter por objeto todo bem espiritual que nos dirige para a nossa salvação. Nossa oração pode ter por objeto também as coisas temporais, sabendo que Deus pode atender a essa oração ou não, na medida em que esses bens temporais são bons ou não para a nossa alma. Para rezar bem, é preciso, então, uma boa disposição e é preciso pedir coisas boas. Santo Agostinho diz que aquele que pede coisas contrárias à salvação, não as pede em nome de Cristo, por mais que o nome de Nosso Senhor seja invocado.

Além de ter uma boa disposição e de pedir o que é bom, devemos pedir de uma maneira que seja digna da majestade divina à qual nos dirigimos. Isso quer dizer que devemos rezar com uma verdadeira piedade. Essa piedade não se confunde com um ardor mais ou menos sentimental. Ao contrário, essa piedade se realiza com a atenção, com a humildade, com a confiança e com a perseverança.

Devemos, então, rezar com atenção: a distração voluntária – enfatizo bem: voluntária – acompanha muito mal o pedido de algo que não nos é devido. Como desejar que Deus ouça os nossos pedidos, se nós mesmos não escutamos aquilo que estamos dizendo? Se rezamos sem atenção, com sonolência, pensando em mil coisas alheias à oração, já não se trata de oração, pois nossa inteligência e vontade se aplicam a outra coisa. Honramos Deus com os lábios, mas não com o nosso coração, com nosso espírito. Assim, devemos evitar as distrações voluntárias e combater as distrações involuntárias. E, se por fraqueza, não conseguirmos vencer as distrações involuntárias, nossa oração será, mesmo assim, plenamente agradável a Deus, pois fizemos o possível, com generosidade, para afastá-las, combatendo-as. Para evitar as distrações, é preciso escolher, na medida do possível, as circunstâncias que favoreçam a oração. Circunstâncias de lugar, horário… Ao rezarmos, devemos evitar também toda precipitação, rezar muito rápido, comendo as palavras… Uma Ave-Maria bem dita honra mais a Nossa Senhora e dá mais frutos do que 100 rezadas de qualquer jeito. Rezar com atenção demanda esforço e paciência. Não devemos desistir sob pretexto de que não conseguimos; devemos progredir, ainda que lentamente.

Não basta rezar com atenção, devemos rezar com humildade. A Sagrada Escritura nos ensina que Deus resiste aos soberbos, mas que Ele dá a sua graça aos humildes. Devemos, então, quando rezamos, nos apresentar diante de Deus como o publicano, reconhecendo nossa incapacidade, nossas misérias, nossas fraquezas, nossa indignidade. Essa humildade é, antes de tudo, interior e ela faz que nos apoiemos unicamente na misericórdia infinita de Deus e nos méritos infinitos de Cristo. Essa humildade interior termina por se manifestar também exteriormente: o publicano não ousava nem levantar seus olhos. Se nos apresentamos diante de Deus com presunção e arrogância, com grande estima de nós mesmos e para mostrar nossas virtudes, nossas orações serão infalivelmente estéreis. Elas serão também estéreis se, mais do que orações, elas são exigências, como se Deus fosse obrigado a nos dar aquilo que pedimos. Deus resiste aos soberbos. Mas a oração daquele que se humilha penetra nos céus.

A piedade na oração implica também uma grande confiança. Nossa oração deve ser confiante porque ela se dirige a Deus, que é todo-poderoso e que quer o melhor para nós. Nossa oração se dirige à infinita bondade de Deus, que nos governa, que cuida de nós e que quer o melhor para nós. Se Deus nos ajuda – e felizmente – mesmo quando não pedimos, como foi o caso nas Bodas de Caná, podemos ter certeza que Ele nos ouvirá se rezamos bem. Essa confiança na oração é um preceito dado por São Thiago : “se alguém quer pedir algo a Deus, peça com confiança.” Não deixemos de ter essa confiança, caros católicos, em nossas orações.

A última qualidade da oração piedosa é a perseverança. Não basta pedir um instante, uma vez ou algumas vezes para sermos ouvidos, como se pudéssemos determinar o momento em que Deus deve nos conceder seus favores. Deus nos pede a perseverança na oração porque com muita frequência Ele não nos atende imediatamente, a fim de provar e purificar a nossa fé e confiança, a fim de nos fazer rezar mais, a fim de nos fazer apreciar melhor suas graças ou por outra razão digna de sua sabedoria. Vejamos, por exemplo, a perseverança do paralítico na piscina probática: ele esperou 38 anos, ele perseverou durante 38 anos. E por que Deus fez esse paralítico esperar 38 anos ? Para que ele fosse curado pelo Messias e para que, por meio dessa cura, os outros pudessem reconhecer o Verbo de Deus encarnado. Após 38 anos de espera, a cura foi muito mais perfeita não somente para o paralítico mas também para os outros. A espera de 38 anos foi recompensada pela cura da alma dos que presenciaram a cena. E quantos exemplos de perseverança no Evangelho: a cananéia, que insiste para que Nosso Senhor dê as migalhas destinadas aos cachorros, o amigo importuno que pede o pão e tantos outros.

Devemos, ainda, acrescentar um desejo ardente de sermos atendidos, pois é a nossa salvação que está em jogo. Devemos rezar com diligência e querendo ser atendidos e não com indiferença ou tibieza. O Anjo disse ao Profeta Daniel: você foi atendido porque você é um homem de desejos

Eis, então, caros católicos, como devemos rezar. Mas falta algo que aumenta muito a eficácia de nossas orações: confiá-la nas mãos de Maria Santíssima para que ela apresente nossas súplicas ao seu Filho.

Assim, se não estamos endurecidos no pecado, se pedimos coisas úteis para nossa salvação, e as pedimos com atenção, humildade, confiança, perseverança e fervor, seremos sempre e infalivelmente atendidos por Deus, se pedimos algo para nós mesmos. Rezemos, então, e rezemos muito e rezemos bem porque a oração bem feita é o alimento da nossa alma. Ela é a arma de defesa e de ataque contra o demônio, as tentações, o pecado. A oração bem feita é a chave dos tesouros celestes. Ela é o grande meio para nossa santificação e salvação. E se temos dificuldades para fazer uma boa oração, e certamente o temos, façamos como os Apóstolos e peçamos a Nosso Senhor que nos ensine a rezar, porque aquele que reza bem se salva, enquanto aquele que não reza se condena.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

[Sermão] Amar os mandamentos e desejar o Céu

Sermão para o Quarto Domingo depois da Páscoa
28 de abril de 2013 – Padre Daniel Pinheiro

 

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém. Ave-Maria…

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A Coleta de hoje (a Coleta é a primeira oração sacerdotal propriamente dita da Missa, rezada após o Gloria) é uma obra prima, como tantas outras ao longo dos domingos do ano litúrgico. E faz parte, quase certamente, das Coletas antigas colocadas por escrito por volta do séc. IV ou séc. V (apesar de sua composição ser, provavelmente, ainda mais antiga do que isso). Essas Coletas são um lugar teológico, quer dizer, nelas podemos encontrar claramente a doutrina católica, elas exprimem a fé católica e são uma fonte para conhecer a doutrina de Nosso Senhor Jesus Cristo. Santo Agostinho estabeleceu seus doze artigos sobre a doutrina da graça a partir das Coletas das Missas. Foi a partir das Coletas que o Papa São Celestino I (séc. V) forjou o famoso adágio de que a lei da oração estabelece a lei do que se deve crer (legem credendi statuat lex supplicandi). A Coleta de hoje é uma obra prima pelo estilo, com seu ritmo bem estabelecido, com paralelismos, com oposições; porém, antes de tudo pela perfeita doutrina que contém e pelo pedido imprescindível que é feito. A Coleta de hoje é uma obra prima que serve de base para a nossa vida espiritual.

Consideremos essa curta, mas riquíssima oração, fazendo, primeiramente, uma tradução um pouco mais literal do que a habitualmente contida nos missais de fiéis. “Ó Deus, que formais as mentes dos fiéis com uma só vontade, dai aos vossos povos de amar aquilo que ordenais e de desejar aquilo que prometeis, para que, entre as mudanças do mundo, o nosso coração esteja fixado onde estão as verdadeiras alegrias.

Inicialmente, caros católicos, temos, na Coleta de hoje, a afirmação de que é Deus com a sua graça que pode formar, em nossa alma, boas disposições. É ele que forma na alma de todos os católicos e mais especialmente de todos aqueles que estão em estado de graça uma só vontade. Nós não podemos alcançar a graça com nossas próprias forças ou progredir na graça, na virtude, com nossas próprias forças. Na vida sobrenatural é Deus que age. E nós devemos também agir, cooperando com suas graças, com os seus benefícios. Nós devemos implorar, suplicar a sua graça, fazendo a nossa parte, nos esforçando para remover os obstáculos e para nos dispor à recepção da graça. Sem Deus, nós nada podemos fazer. Mas sem a nossa cooperação, também nada pode ser feito.

Tendo reconhecido que toda graça e todo bem sobrenatural vem de Deus, com o qual devemos cooperar, nós pedimos a Ele, que dê aos povos dEle a graça de amar aquilo que Ele ordena e de desejar aquilo que Ele promete. Vale destacar que no latim original temos povos no plural e não no singular, pois a Igreja, sendo única, é composta de diversos povos, ao contrário do que ocorria no Antigo Testamento. Como diz São João no Apocalipse: “Depois disso, vi uma grande multidão que ninguém podia contar, de toda nação, tribo, povo e língua.” (Apoc. VII, 9). É Deus que une esses diferentes povos e nações, formando neles uma mesma vontade, que ama aquilo que ele ordena e que deseja aquilo que ele promete. Portanto, o que faz a unidade dos fiéis não é o estar juntos, mas a caridade e a esperança, que têm como pressuposto a fé, pois só podemos esperar algo em que acreditamos e só podemos amar o que conhecemos. Sem a fé, não há esperança e não há caridade.

E é isso que hoje pedimos a Deus que forme também em nossas almas: a vontade de amar aquilo que Ele ordena e de desejar aquilo que Ele promete. O primeiro pedido é amar aquilo que Ele ordena. Nós só podemos amar, caros católicos, aquilo que reconhecemos como um bem para nós. Nós pedimos a Deus, então, que nos dê a graça de reconhecer que os seus mandamentos, que sua lei é algo bom, e bom para nós, não só porque nos faz alcançar a vida eterna, mas porque é boa para nós já nesse mundo. Reconhecendo que sua lei é um bem, poderemos amá-la verdadeiramente. Hoje, muitos veem a lei de Deus como um fardo a ser carregado com tristeza porque nos tira a liberdade e como um mal necessário para chegar ao céu. Na verdade, a lei de Deus é algo bom em si, ela corresponde perfeitamente à natureza humana e a aperfeiçoa e a eleva (gratia perfecit naturam), fazendo-nos participar da vida infinita da Santíssima Trindade. Além disso, a lei de Deus não tira de nós a liberdade, pois a liberdade bem compreendida não consiste em fazer o que se quer. A liberdade consiste em escolher os meios aptos para se chegar a um objetivo bom. Nosso objetivo aqui na terra é conhecer, amar e servir a Deus para ser eternamente feliz com Ele no céu. Portanto, a verdadeira liberdade consiste em escolher entre meios adequados para ir ao céu, sempre excluindo, consequentemente, o pecado. A lei de Deus auxilia a nossa liberdade, dirigindo-a para Deus, para que não nos desviemos da finalidade para a qual fomos criados. Devemos não só observar a lei de Deus, mas amá-la e amá-la cada vez mais. Como diz o rei David no Salmo 118 (que é um sublime elogio da lei de Deus): “Ah, quanto amo, Senhor, a vossa lei! Durante o dia todo eu a medito.” (Sal CXVIII, 97). Amar a lei de Deus não é, porém, algo sensível. Amar a lei de Deus é, primeiramente, cumpri-la e buscar cumpri-la cada vez melhor. Mas devemos ir além. Devemos buscar  nos alegrar profundamente no cumprimento da lei do Senhor. E é essa a diferença entre um católico comum e um santo. O santo se alegra profundamente no cumprimento da lei de Deus.  Eis o primeiro pedido da Coleta de hoje: que Deus nos dê a graça de amar aquilo que Ele ordena.

O segundo pedido é a graça de desejar aquilo que Ele prometeu. Um desejo se refere sempre a um bem ausente e se nós realmente desejamos esse bem que ainda não possuímos, buscamos os meios para alcançá-lo sem medir esforços. Quanto mais desejamos algo, mais buscamos os meios e mais amamos os meios que nos levam ao que desejamos. A Coleta pede a Deus que nos dê a graça de desejar aquilo que Ele prometeu. Aquilo que Deus nos prometeu, por excelência, foi o céu, a visão face a face de Deus em um corpo ressuscitado. E a vida eterna é justamente o nosso maior bem. Devemos, portanto, desejá-la com todas as nossas forças, empregando os meios necessários para alcançá-la, apesar de todas as dificuldades. O primeiro passo para alcançar a vida eterna é desejar alcançá-la, mas desejá-la realmente, disposto a empregar os meios. E se, com o auxílio divino, desejamos a vida eterna e empregamos o meio para alcançá-la, que é o amor a lei de Deus, o cumprimento da lei de Deus, podemos estar certos de que Deus nos dará graças mais do que abundantes para que alcancemos a vida eterna.

Amar aquilo que Deus manda e desejar aquilo que Ele promete. Não basta, porém, pedir essas duas coisas a Deus, quer dizer, não basta pedir aqui e agora que eu deseje o céu e que eu cumpra os mandamentos para alcançar o céu. É preciso pedir também a graça de perseverar até o fim nesse desejo de alcançar o céu e nesse cumprimento da lei de Deus. E essa é a última petição da Coleta de hoje: que diante da instabilidade, das mudanças das coisas do mundo, nós possamos permanecer fixos onde se contra a verdadeira felicidade. Tendo reconhecido que a lei de Deus é um bem para nós e tendo reconhecido que a vida eterna é o nosso maior bem, somos obrigados a reconhecer que a nossa felicidade se encontra na prática da lei de Deus e na ida ao céu. A verdadeira e perfeita felicidade está no céu, mas já se inicia aqui na terra pela prática da lei de Deus, que nos une a Ele. Que Deus possa fixar definitivamente nosso coração onde estão as verdadeiras alegrias e não nas alegrias aparentes e passageiras do mundo.

Devemos, então, caros católicos, com o auxílio da misericórdia e da onipotência divinas, amar a lei de Deus, praticando-a e procurando praticá-la com alegria. Devemos desejar ardentemente o céu. Devemos fixar nosso coração nesse amor e nesse desejo, que são nossas verdadeiras alegrias. Dessa forma, cumpriremos a nossa finalidade de conhecer, amar e servir a Deus e de alcançar o céu, mas também cumpriremos a finalidade ainda mais importante de dar maior glória a Deus, tornando-o mais conhecido, amado e servido.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Fotos da Missa do XV Domingo depois de Pentecostes (Pe. Roberto César)

Publicamos algumas fotos da missa rezada no IBB no último domingo (05/09/10) pelo Pe. Roberto. Agradecemos o padre pela disposição em atender os fiéis de Brasília durante a ausência do Pe. Sérgio David, que se encontra em peregrinação.

Dom Burke descarta inovações em prefácio sobre o Motu Proprio Summorum Pontificum

Il blog degli amici di Papa Ratzinger, transmitindo a notícia da agência Androkronos, informa que o Arcebispo Raymond Leo Burke teria afirmado que no Rito Tradicional não há permissão para mulheres no serviço do altar, assim como para a utilização de leigos na distribuição da Sagrada Comunhão. A informação seria parte de um estudo da aplicação do Motu Proprio Summorum Pontificum após três anos de sua publicação.

Fonte: Fratres in Unum

Faleceu o Prof. Orlando Fedeli, presidente da Associação Cultural Montfort.

Fratres in Unum.com

Faleceu hoje (09 de junho), vítima de infarto, o Professor Orlando Fedeli, presidente da associação cultural Montfort. Anima eius et animae omnium fidelium defunctorum per Dei misericordiam requiescant in pace.

Hoje (10/06), em Brasília, o Pe. Sérgio rezou a missa pela alma do Prof. Orlando. Havia um número razoável de amigos do prof. Orlando na missa, considerando ainda que vários estavam em São Paulo por ocasião do sepultamento.

Depois da missa, um grupo de quase quinze alunos e amigos seus rezou o terço por ele, diante de uma imagem de Nossa Senhora, essa Tão Boa Mãe a quem o professor nos ensinou a ter tanta devoção!

Professor Orlando, obrigado por tudo!

Auxílio dos Cristãos, rogai por nós!
São João Bosco, rogai por nós!

V. F.

3º Domingo depois da Páscoa (25/04/2010)

2ª classe – Cor Branca

Epístola de São Pedro I; 2, 11-19

Caríssimos, rogo-vos que, como estrangeiros e peregrinos, vos abstenhais dos desejos da carne, que combatem contra a alma. Comportai-vos nobremente entre os pagãos. Assim, naquilo em que vos caluniam como malfeitores, chegarão, considerando vossas boas obras, a glorificar a Deus no dia em que ele os visitar. Por amor do Senhor, sede submissos, pois, a toda autoridade humana, quer ao rei como a soberano, quer aos governadores como enviados por ele para castigo dos malfeitores e para favorecer as pessoas honestas. Porque esta é a vontade de Deus que, praticando o bem, façais emudecer a ignorância dos insensatos. Comportai-vos como homens livres, e não à maneira dos que tomam a liberdade como véu para encobrir a malícia, mas vivendo como servos de Deus. Sede educados para com todos, amai os irmãos, temei a Deus, respeitai o rei. Servos, sede obedientes aos senhores com todo o respeito, não só aos bons e moderados, mas também aos de caráter difícil. Com efeito, é coisa agradável a Deus sofrer contrariedades e padecer injustamente, por motivo de consciência para com Deus.

Evangelho segundo São João; 16, 16-22

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: Ainda um pouco de tempo, e já me não vereis; e depois mais um pouco de tempo, e me tornareis a ver, porque vou para junto do Pai. Nisso alguns dos seus discípulos perguntavam uns aos outros: Que é isso que ele nos diz: Ainda um pouco de tempo, e não me vereis; e depois mais um pouco de tempo, e me tornareis a ver? E que significa também: Eu vou para o Pai? Diziam então: Que significa este pouco de tempo de que fala? Não sabemos o que ele quer dizer. Jesus notou que lho queriam perguntar e disse-lhes: Perguntais uns aos outros acerca do que eu disse: Ainda um pouco de tempo, e não me vereis; e depois mais um pouco de tempo, e me tornareis a ver. Em verdade, em verdade vos digo: haveis de lamentar e chorar, mas o mundo se há de alegrar. E haveis de estar tristes, mas a vossa tristeza se há de transformar em alegria. Quando a mulher está para dar à luz, sofre porque veio a sua hora. Mas, depois que deu à luz a criança, já não se lembra da aflição, por causa da alegria que sente de haver nascido um homem no mundo. Assim também vós: sem dúvida, agora estais tristes, mas hei de ver-vos outra vez, e o vosso coração se alegrará e ninguém vos tirará a vossa alegria.