[Música] Sequentia da Festa de Pentecostes: Veni Sancte Spiritus

 

(Português)

Vinde, Espírito Santo, / Emiti um raio / Da celeste luz.

Vinde, Pai dos pobres, / Doador das graças, / Luz dos corações.
Consolador nosso, / Hóspede da alma, / Doce refrigério. 
No labor, repouso, / Na aflição sois gozo, / No calor, aragem.
Ó luz abençoada, / O íntimo enchei / Dos vossos fiéis.
Sem a vossa força, / Não há nada no homem, / Nada de inocente.
Ao sujo lavai, / Ao seco regai, / Curai o doente.
Envergai o rígido, / Aquecei o frígido, / Conduzi o errante.
Dai a vossos filhos, / Que em Vós confiam, / Vossos sete dons.
Dai-lhes a virtude, / A imortal saúde, / O perene gáudio

(Latim)

VENI, SANCTE SPIRITUS, / ET EMITTE CAELITUS / LUCIS TUAE RADIUM.

VENI, PATER PAUPERUM, / VENI, DATOR MUNERUM, / VENI, LUMEN CORDIUM.

CONSOLATOR OPTIME, / DULCIS HOSPES ANIMAE, / DULCE REFRIGERIUM.

IN LABORE REQUIES, / IN AESTU TEMPERIES, / IN FLETU SOLATIUM.

O LUX BEATISSIMA, / REPLE CORDIS INTIMA / TUORUM FIDELIUM.

SINE TUO NUMINE, / NIHIL EST IN HOMINE, / NIHIL EST INNOXIUM.

LAVA QUOD EST SORDIDUM, / RIGA QUOD EST ARIDUM, / SANA QUOD EST SAUCIUM.

FLECTE QUOD EST RIGIDUM,/ FOVE QUOD EST FRIGIDUM, / REGE QUOD EST DEVIUM.

DA TUIS FIDELIBUS, / IN TE CONFIDENTIBUS, / SACRUM SEPTENARIUM.

DA VIRTUTIS MERITUM, / DA SALUTIS EXITUM, / DA PERENNE GAUDIUM.

 

[Sermão] A Ascensão do Senhor

Sermão para a Solenidade da Ascensão
12 de maio de 2013 – Padre Daniel Pinheiro

 

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém. Ave-Maria…

***

Se alguém ouviu falar em uma aparição de Nossa Senhora Aparecida aqui no Distrito Federal, por favor não se deixe enganar. O Padre responsável por isso abandonou a Igreja Católica, depois abandonou uma Igreja Ortodoxa, portanto cismática, e fundou sua própria religião, casando-se e divorciando-se várias vezes. O que acontece ali é obviamente algo puramente natural, não há nada de sobrenatural e não há nada de católico, apesar de Nossa Senhora Aparecida ser invocada para atrair e enganar os católicos. Mais uma vez, peço que não se deixem levar e enganar por essas supostas aparições recentes, que prejudicam as almas. (Nota do Editor: ver o sermão “A Armadilha das falsas aparições”)

Peço as orações de todos pelo Apostolado para que possa avançar materialmente e, sobretudo, espiritualmente.

Celebramos hoje a Solenidade da Ascensão. A Festa acontece sempre na quinta feira após o V Domingo depois da Páscoa, 40 dias depois da Páscoa. A Ascensão é festa de Preceito, mas como no Brasil não é feriado, não existe, para a Ascensão, a obrigação de ir à Missa na quinta-feira. Mas para que os fiéis não fiquem sem a graça própria do Mistério da Ascensão, a Igreja faz a solenidade no Domingo seguinte. A graça própria do Mistério da Ascensão está expressa na Coleta de hoje: que nós tenhamos nosso espírito já no céu, que nós possamos desejar o céu. Fazer a solenidade de Festas no Domingo não é algo tão recente quanto parece. Pelo menos desde o tempo de São Pio X há essa prática, depois que esse Santo Papa fez algumas mudanças no Calendário, tirando certas festas do Domingo. Foi permitido, então, fazer a solenidade delas no Domingo. A necessidade de fazer essas solenidades de festas de preceito surge com a prejudicial separação da Igreja e do Estado, fazendo que os feriados civis já não correspondam aos dias de preceito, prejudicando a prática da Religião.

***

E o Senhor Jesus, depois que assim lhes falou, elevou-se ao céu, e está sentado à direita de Deus.

Nessa solenidade da Ascensão, caros católicos, devemos considerar a alegria que nos causa a Ascensão de Cristo, devemos considerar a importância dos 40 dias que Nosso Senhor passou na Terra depois da Ressurreição e devemos considerar a importância das últimas palavras de Cristo.

Como dissemos no último Domingo, caros católicos, a Ascensão do Senhor poderia parecer para nós motivo de tristeza, pois nos tira a presença física de Nosso Senhor. Ao contrário, porém, ela deve ser para nós motivo de grande alegria. Alegria pelo que a Ascensão significa para Cristo e alegria pelo que ela significa para nós.

Motivo de alegria pelo que a Ascensão significa para Cristo. Aqui na Terra foi condenado pelo tribunal dos homens, humilhado, tratado como um verme. Foi zombado pelos homens por ter atribuído a si a divindade e os atributos divinos. A Ascensão é a resposta de Nosso Senhor e da Santíssima Trindade. Aquele que é perseguido e humilhado por causa da justiça – e justiça quer dizer aqui santidade – será exaltado. Nosso Senhor ressuscitou e subiu aos céus por sua própria virtude, demonstrando a sua divindade. Ele sobe aos céus para sentar-se à direita do Pai. Como falamos, à direita, porque Nosso Senhor é também Deus como o Pai é Deus e como o Espírito Santo é Deus, nem inferior, nem superior, nem acima nem abaixo, mas à direita. As três pessoas são um só Deus. E ele está sentado. O estar sentado é a posição do soberano. Estar sentado à direita do Pai significa a realeza de Cristo, significa que ele detém o poder de governo, de legislador, de juiz. Nosso Senhor é rei imortal, rei das almas e das nações. Além disso, já não convinha ao corpo glorioso de Cristo habitar aqui embaixo. O corpo glorioso demanda uma habitação que corresponda à sua glória: o céu. Finalmente, com a Ascensão nós temos a certeza de que o sacrifício de Cristo na Cruz foi agradável a Deus. No Antigo Testamento, a aceitação do sacrifício era simbolizada pela fumaça que subia aos céus, dirigindo-se para Deus. No Novo Testamento, é a Ascensão de Nosso Senhor que manifesta a aceitação plena do sacrifício oferecido no Calvário. Com a Ascensão, a justiça está plenamente realizada. A obediência e a caridade infinita de Nosso Senhor Jesus Cristo recebem a recompensa completa com a Ascensão. Só podemos nos alegrar com tal fato.

A Ascensão de Cristo também é para nós motivo de alegria pelos benefícios que nos traz. Motivo de alegria porque Nosso Senhor age, no céu, para aplicar os méritos infinitos adquiridos durante sua vida aqui na Terra, adquiridos sobretudo durante sua paixão e morte. Alegria porque Cristo, tendo subido aos céus, nos enviou o Espírito Santo, para ensinar toda a verdade aos Apóstolos e à Igreja, e para dar a força necessária para transmitir e viver essa verdade. A Ascensão do Senhor é motivo de alegria porque favorece as três virtudes teologais: fé, esperança e caridade. A Ascensão aumenta o mérito da nossa fé. Nossa fé tem muito mais valor com Cristo no céu do que se Ele estivesse entre nós fisicamente, pois a fé é daquilo que não se vê. A Ascensão aumenta nossa esperança, pois aumenta o nosso desejo do céu e nos dá a certeza de que, auxiliados com a graça divina, podemos chegar até o céu. Se a cabeça subiu ao céu, também os membros devem subir. Assim, se vivermos como bons católicos, seremos membros de Cristo e subiremos ao céu junto com Ele. E Nosso Senhor diz que vai preparar o nosso lugar na casa do Pai, o que é motivo de grande esperança. A Ascensão de Cristo aumenta também a caridade. Nosso coração, nosso amor se encontra onde está o nosso tesouro. Ora, nosso tesouro é Cristo, no qual se encontra a nossa salvação. Assim, a Ascensão nos faz amar as coisas do alto e os meios para alcançar as coisas do alto, que são os mandamentos e a fé católica e impede um amor muito terreno a nosso salvador. Grande deve ser, então, nossa alegria nesse dia da Ascensão do Senhor.

Consideremos, agora, brevemente a importância dos 40 dias entre a Ressurreição e a Ascensão do Senhor. Depois de sua Ressurreição, Nosso Senhor Jesus Cristo passou quarenta dias na terra, para provar por muitos meios sua Ressurreição e para falar aos apóstolos e discípulos sobre o reino de Deus, como nos diz São Lucas nos Atos dos apóstolos hoje (Atos I). Portanto, Nosso Senhor passou esses quarenta dias instruindo os apóstolos sobre as verdades de fé, sobre a Igreja e sua constituição hierárquica, sobre as Sagradas Escrituras. Foi nesse período que, muito provavelmente, Nosso Senhor instituiu quatro dos sete sacramentos: os sacramentos da confissão, da crisma, da extrema-unção, do matrimônio. Muito pouco do que Cristo ensinou nesses quarenta dias nos foi transmitido pela Sagrada Escritura. Como é óbvio, caros católicos, nem tudo o que Nosso Senhor ensinou está contido na Sagrada Escritura, ao contrário do que pretendem os protestantes. São João Evangelista diz que Jesus fez ainda muitas coisas que não foram escritas (São João XXI, 25). É a própria Sagrada Escritura que afirma que Cristo fez coisas que não estão contidas na Bíblia, mas que se transmitem pela Tradição. Quem lê a Sagrada Escritura com honestidade e reta intenção se dá conta dessa evidência. Esses quarenta dias que antecederam a Ascensão de Cristo e os ensinamentos do Divino Mestre nesse período com a instituição de quatro dos sete sacramentos são, então, importantíssimos para a nossa salvação.

Finalmente, podemos considerar brevemente as últimas palavras de Cristo antes de sua Ascensão. As últimas palavras de uma pessoa são o seu testamento espiritual, refletem o que tem de mais importante para essa pessoa. Nosso Senhor diz aos apóstolos “Ide por todo o mundo, pregai o Evangelho a toda a criatura. O que crer e for batizado, será salvo. O que, porém, não crer, será condenado.” Essas últimas palavras expressam aquilo que moveu Nosso Senhor durante toda a sua vida aqui na terra: o desejo de que as pessoas se salvem. Mas, para tanto, é preciso que o Evangelho seja pregado, que as pessoas tenham a fé, e uma fé viva, acompanhada das obras, da prática dos mandamentos. É preciso que elas sejam batizadas. É essa a finalidade da Igreja: pregar o Evangelho, transmitir a fé, administrar os sacramentos para levar as almas para o Céu. Diante disso, vale lembrar que começa hoje, no Brasil, a semana de oração para a unidade dos Cristãos. É preciso lembrar que como cantamos no Credo, a Igreja de Cristo, que é a Igreja Católica já é una: ela é una pela unidade da fé, pela unidade dos sacramentos e pela unidade de governo, sob o Santo Padre. A Igreja de Cristo, a Igreja Católica não perdeu nem pode perder a sua unidade. Aqueles que perdem a fé, que rejeitam a autoridade eclesiástica ou os meios de santificação dados por Cristo se afastam da Igreja de Cristo e de sua unidade. A unidade não consiste em estar juntos. A verdadeira unida se faz com a mesma fé, a mesma autoridade, os mesmos sacramentos. A unidade entre Cristãos que deve ser buscada é, na verdade, a volta de hereges e cismáticos à unidade da Igreja Católica. Rezemos, durante essa semana para que aqueles que estão afastados da Igreja Católica, que é a Igreja de Cristo, possam voltar ao único rebanho de Cristo, fora do qual não há salvação. Rezemos para que isso aconteça, nessa semana em que, infelizmente, alguns erros contra a fé serão cometidos em nome de uma unidade mal compreendida. Lembremo-nos das palavras de Nosso Senhor: “Ide por todo o mundo, pregai o Evangelho a toda a criatura. O que crer e for batizado, será salvo. O que, porém, não crer, será condenado.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

[Sermão] Amar os mandamentos e desejar o Céu

Sermão para o Quarto Domingo depois da Páscoa
28 de abril de 2013 – Padre Daniel Pinheiro

 

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém. Ave-Maria…

***

A Coleta de hoje (a Coleta é a primeira oração sacerdotal propriamente dita da Missa, rezada após o Gloria) é uma obra prima, como tantas outras ao longo dos domingos do ano litúrgico. E faz parte, quase certamente, das Coletas antigas colocadas por escrito por volta do séc. IV ou séc. V (apesar de sua composição ser, provavelmente, ainda mais antiga do que isso). Essas Coletas são um lugar teológico, quer dizer, nelas podemos encontrar claramente a doutrina católica, elas exprimem a fé católica e são uma fonte para conhecer a doutrina de Nosso Senhor Jesus Cristo. Santo Agostinho estabeleceu seus doze artigos sobre a doutrina da graça a partir das Coletas das Missas. Foi a partir das Coletas que o Papa São Celestino I (séc. V) forjou o famoso adágio de que a lei da oração estabelece a lei do que se deve crer (legem credendi statuat lex supplicandi). A Coleta de hoje é uma obra prima pelo estilo, com seu ritmo bem estabelecido, com paralelismos, com oposições; porém, antes de tudo pela perfeita doutrina que contém e pelo pedido imprescindível que é feito. A Coleta de hoje é uma obra prima que serve de base para a nossa vida espiritual.

Consideremos essa curta, mas riquíssima oração, fazendo, primeiramente, uma tradução um pouco mais literal do que a habitualmente contida nos missais de fiéis. “Ó Deus, que formais as mentes dos fiéis com uma só vontade, dai aos vossos povos de amar aquilo que ordenais e de desejar aquilo que prometeis, para que, entre as mudanças do mundo, o nosso coração esteja fixado onde estão as verdadeiras alegrias.

Inicialmente, caros católicos, temos, na Coleta de hoje, a afirmação de que é Deus com a sua graça que pode formar, em nossa alma, boas disposições. É ele que forma na alma de todos os católicos e mais especialmente de todos aqueles que estão em estado de graça uma só vontade. Nós não podemos alcançar a graça com nossas próprias forças ou progredir na graça, na virtude, com nossas próprias forças. Na vida sobrenatural é Deus que age. E nós devemos também agir, cooperando com suas graças, com os seus benefícios. Nós devemos implorar, suplicar a sua graça, fazendo a nossa parte, nos esforçando para remover os obstáculos e para nos dispor à recepção da graça. Sem Deus, nós nada podemos fazer. Mas sem a nossa cooperação, também nada pode ser feito.

Tendo reconhecido que toda graça e todo bem sobrenatural vem de Deus, com o qual devemos cooperar, nós pedimos a Ele, que dê aos povos dEle a graça de amar aquilo que Ele ordena e de desejar aquilo que Ele promete. Vale destacar que no latim original temos povos no plural e não no singular, pois a Igreja, sendo única, é composta de diversos povos, ao contrário do que ocorria no Antigo Testamento. Como diz São João no Apocalipse: “Depois disso, vi uma grande multidão que ninguém podia contar, de toda nação, tribo, povo e língua.” (Apoc. VII, 9). É Deus que une esses diferentes povos e nações, formando neles uma mesma vontade, que ama aquilo que ele ordena e que deseja aquilo que ele promete. Portanto, o que faz a unidade dos fiéis não é o estar juntos, mas a caridade e a esperança, que têm como pressuposto a fé, pois só podemos esperar algo em que acreditamos e só podemos amar o que conhecemos. Sem a fé, não há esperança e não há caridade.

E é isso que hoje pedimos a Deus que forme também em nossas almas: a vontade de amar aquilo que Ele ordena e de desejar aquilo que Ele promete. O primeiro pedido é amar aquilo que Ele ordena. Nós só podemos amar, caros católicos, aquilo que reconhecemos como um bem para nós. Nós pedimos a Deus, então, que nos dê a graça de reconhecer que os seus mandamentos, que sua lei é algo bom, e bom para nós, não só porque nos faz alcançar a vida eterna, mas porque é boa para nós já nesse mundo. Reconhecendo que sua lei é um bem, poderemos amá-la verdadeiramente. Hoje, muitos veem a lei de Deus como um fardo a ser carregado com tristeza porque nos tira a liberdade e como um mal necessário para chegar ao céu. Na verdade, a lei de Deus é algo bom em si, ela corresponde perfeitamente à natureza humana e a aperfeiçoa e a eleva (gratia perfecit naturam), fazendo-nos participar da vida infinita da Santíssima Trindade. Além disso, a lei de Deus não tira de nós a liberdade, pois a liberdade bem compreendida não consiste em fazer o que se quer. A liberdade consiste em escolher os meios aptos para se chegar a um objetivo bom. Nosso objetivo aqui na terra é conhecer, amar e servir a Deus para ser eternamente feliz com Ele no céu. Portanto, a verdadeira liberdade consiste em escolher entre meios adequados para ir ao céu, sempre excluindo, consequentemente, o pecado. A lei de Deus auxilia a nossa liberdade, dirigindo-a para Deus, para que não nos desviemos da finalidade para a qual fomos criados. Devemos não só observar a lei de Deus, mas amá-la e amá-la cada vez mais. Como diz o rei David no Salmo 118 (que é um sublime elogio da lei de Deus): “Ah, quanto amo, Senhor, a vossa lei! Durante o dia todo eu a medito.” (Sal CXVIII, 97). Amar a lei de Deus não é, porém, algo sensível. Amar a lei de Deus é, primeiramente, cumpri-la e buscar cumpri-la cada vez melhor. Mas devemos ir além. Devemos buscar  nos alegrar profundamente no cumprimento da lei do Senhor. E é essa a diferença entre um católico comum e um santo. O santo se alegra profundamente no cumprimento da lei de Deus.  Eis o primeiro pedido da Coleta de hoje: que Deus nos dê a graça de amar aquilo que Ele ordena.

O segundo pedido é a graça de desejar aquilo que Ele prometeu. Um desejo se refere sempre a um bem ausente e se nós realmente desejamos esse bem que ainda não possuímos, buscamos os meios para alcançá-lo sem medir esforços. Quanto mais desejamos algo, mais buscamos os meios e mais amamos os meios que nos levam ao que desejamos. A Coleta pede a Deus que nos dê a graça de desejar aquilo que Ele prometeu. Aquilo que Deus nos prometeu, por excelência, foi o céu, a visão face a face de Deus em um corpo ressuscitado. E a vida eterna é justamente o nosso maior bem. Devemos, portanto, desejá-la com todas as nossas forças, empregando os meios necessários para alcançá-la, apesar de todas as dificuldades. O primeiro passo para alcançar a vida eterna é desejar alcançá-la, mas desejá-la realmente, disposto a empregar os meios. E se, com o auxílio divino, desejamos a vida eterna e empregamos o meio para alcançá-la, que é o amor a lei de Deus, o cumprimento da lei de Deus, podemos estar certos de que Deus nos dará graças mais do que abundantes para que alcancemos a vida eterna.

Amar aquilo que Deus manda e desejar aquilo que Ele promete. Não basta, porém, pedir essas duas coisas a Deus, quer dizer, não basta pedir aqui e agora que eu deseje o céu e que eu cumpra os mandamentos para alcançar o céu. É preciso pedir também a graça de perseverar até o fim nesse desejo de alcançar o céu e nesse cumprimento da lei de Deus. E essa é a última petição da Coleta de hoje: que diante da instabilidade, das mudanças das coisas do mundo, nós possamos permanecer fixos onde se contra a verdadeira felicidade. Tendo reconhecido que a lei de Deus é um bem para nós e tendo reconhecido que a vida eterna é o nosso maior bem, somos obrigados a reconhecer que a nossa felicidade se encontra na prática da lei de Deus e na ida ao céu. A verdadeira e perfeita felicidade está no céu, mas já se inicia aqui na terra pela prática da lei de Deus, que nos une a Ele. Que Deus possa fixar definitivamente nosso coração onde estão as verdadeiras alegrias e não nas alegrias aparentes e passageiras do mundo.

Devemos, então, caros católicos, com o auxílio da misericórdia e da onipotência divinas, amar a lei de Deus, praticando-a e procurando praticá-la com alegria. Devemos desejar ardentemente o céu. Devemos fixar nosso coração nesse amor e nesse desejo, que são nossas verdadeiras alegrias. Dessa forma, cumpriremos a nossa finalidade de conhecer, amar e servir a Deus e de alcançar o céu, mas também cumpriremos a finalidade ainda mais importante de dar maior glória a Deus, tornando-o mais conhecido, amado e servido.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

[Liturgia] Tempo da Quaresma

[Republicação] Texto publicado originalmente em 18 de outubro de 2010

Exposição Dogmática

O Tempo da Septuagésima já nos demonstrou a necessidade de nos unirmos, pelo espírito de penitência, à obra redentora do Salvador. Pelo jejum e  outros exercícios de penitência, a Quaresma vai associar-nos a Ele de maneira efetiva. Mas não há Quaresma que valha, sem esforço pessoal de retificação da vida e de a viver com mais fidelidade, reparando, por qualquer privação voluntária, as negligências de outros tempos.

Paralelamente a este esforço, que exige de cada um de nós, a Igreja ergue diante de Deus a cruz de Cristo, o Cordeiro de Deus, que tomou sobre Si os pecados dos homens, e que é o verdadeiro preço da nossa Redenção. À medida que nos aproximamos da Semana Santa, o pensamento da Paixão tornar-se-á predominante, até chegar o momento de prender por completo a nossa atenção. Já desde o começo da  Quaresma, ela nos está presente, e é em união com os sofrimentos de Cristo que o exército cristão vai entregar-se à “santa quarentena”, indo ao encontro da Páscoa com a alegre certeza de partilhar da Ressurreição do Senhor.

Eis o tempo favorável, eis os dias da salvação.* A Igreja apresenta-nos a Quaresma nos mesmos termos com que a apresentava outrora aos catecúmenos e aos penitentes públicos, que se preparavam para as graças pascais do batismo e da reconciliação sacramental. Para nós, como para eles, a Quaresma deve ser um longo retiro, um treino, em que a Igreja nos exercita na prática de uma vida cristã mais perfeita. Aponta-nos o exemplo de Jesus e, através do jejum e da penitência, associa-nos aos seus sofrimentos, para nos fazer participar da Redenção.

Lembremo-nos que não estamos isolados, nem somos os únicos  em causa nesta Quaresma, que ora se empreende. É todo o mistério da Redenção que a Igreja põe em ação. Fazemos parte dum conjunto imenso, em que somos solidários de toda a humanidade, resgatada por Jesus Cristo. –A liturgia do tempo não se cansará de o recordar. Nas matinas dos domingos, as lições do Antigo Testamento, começadas na Septuagésima, continuam a lembrar, a largos traços, a historia do povo judeu, em que se consignam os desígnios de Deus acerca da salvação de todo o gênero humano o afastamento de Esaú em beneficio de Jacó (não é a linhagem terrestre, mas a escolha gratuita, agora estendida a todas as nações, que faz os eleitos); José, vendido por seus irmãos, e salvando o Egito, é Jesus salvando o mundo, depois de ser rejeitado e traído pelo seus; Moisés, que arranca o seu povo à escravidão, e o conduz à terra prometida, é Jesus que nos liberta do cativeiro do pecado e abre as portas do Céu. Os evangelhos não são menos eloqüentes: a narrativa da tentação de Jesus, mostra o Segundo Adão, novo chefe da humanidade, a contas com as astúcias de Satanás, mas esmagando-o com o seu poder  divino; a parábola do homem armado e expulso, por um mais forte, do domínio que usurpara, é ainda afirmação da vitória de Cristo.

Tal é o sentido da nossa Quaresma: um tempo de aprofundamento espiritual, em união com a Igreja inteira, que se prepara para a celebração do mistério pascal. Todos anos, a exemplo de Cristo, seu chefe, o povo cristão, num esforço renovado, retoma a luta contra a maldade, contra Satanás e o homem de pecado, que cada qual arrasta em si mesmo, para  haurir, na páscoa, um suplemento de vida, renovada nas próprias fontes da vida divina e continuar a marcha para o Céu.

Epistola do Primeiro Domingo da Quaresma

Apontamentos de Liturgia

O Tempo da Quaresma começa na Quarta-Feira de Cinzas e termina no sábado Santo. Os últimos quinze dias deste longo período constituem o Tempo da Paixão. Outrora, a Quaresma começava no primeiro domingo, mas os dias que precedem foram acrescentados para perfazer os quarenta dias de jejum. De contrário, ficaria apenas trinta e seis, visto não se jejuar aos domingos.

O jejum de quarenta dias, “inaugurado pela Lei e pelos Profetas, e consagrado pelo próprio Cristo”, foi sempre uma das práticas essenciais da Quaresma. A liturgia a ele alude constantemente, e o prefácio do Tempo recorda-o todos os dias.

Mas o jejum irá de par com a oração, como todos os exercícios penitenciais da Quaresma, é oferecido a Deus em união com o sacrifício do Salvador, diariamente renovado na Santa Missa. Cada dia da Quaresma tem missa própria, devido ao fato de outrora toda a comunidade cristã de Roma assistir diariamente à Santa Missa, durante esta quadra. Daí o indicar-se a “estação”, a Igreja em que se celebrava, nesse dia, a missa da comunidade romana.

Todas as missas feriais incluem, depois da póscomunhão, uma “oração sobre o povo”, precedido dum convite à penitência e à humildade: “Baixai vossas cabeças diante de Deus.” O caráter penitencial é acentuado pelo silêncio do órgão. Os paramentos são roxos. À 2ª, 4ª e 6ª feiras repete-se o trato da Quarta-Feira de Cinzas: “Senhor, não nos trateis conforme merecem os nossos pecados…”.

Rubricas

I. Os domingos da Quaresma são de 1ª classe. Têm sempre Missa e Vésperas. A Quarta-Feira de Cinzas e toda a Semana Santa são férias de 1ª Classe e não admitem nenhuma comemoração.

II. A comemoração da féria é privilegiada: faz-se sempre e antes de qualquer outra.

III. As férias das Quatro-Têmporas são de 2ª classe, e preferidas mesmo às festas particulares de 2ª classe; as outras férias da Quaresma são de 3ª classe e preferidas às memórias e às festas de 3ª classe.

IV. As Quatro-Têmporas da Quaresma verificam-se na primeira semana; seguem as mesmas regras das do Advento.

Texto extraído do Missal Romano Quotidiano de Dom Gaspar Lefebvre

Publicações relacionadas:

[Fotos] No dia de São Braz, a “Benção da Garganta”

Comemora-se hoje São Braz – bispo e mártir (+316) – o qual foi bispo de Sebaste (na antiga Armênia) e operou numerosos milagres. Por ter curado um menino cuja garganta fora atravessa por uma espinha de peixe, dá-se neste dia a benção contra os males da garganta.

Na Capela Santa Marcelina, o Pe. Daniel celebrou a Missa do Domingo da Sexagésima e, em seguida, deu a referida benção (feita com duas velas abençoadas por oração específica).

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Por intercessão de São Brás, Bispo e Mártir, livre-te Deus do mal da garganta e de qualquer outra doença. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém”.

[Sermão] A Purificação de Nossa Senhora

Sermão para a Festa da Purificação de Nossa Senhora
02 de fevereiro de 2013 – Padre Daniel Pinheiro

 

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém. Ave-Maria…

“Luz para iluminar as nações.”

Celebramos hoje uma grande festa. A festa da Purificação de Nossa Senhora, festa também conhecida como Nossa Senhora da Candelária ou das Candeias, justamente pela procissão com velas que se realiza durante esse dia. Nesse dia, celebramos a purificação de Nossa Senhora no Templo e a Apresentação do Menino Jesus no Templo, em cumprimento da Lei Mosaica. Segundo a Lei, a mulher que tinha dado à luz contraía uma impureza legal, que deveria ser tirada com a oferta de um sacrifício no Templo. Segundo a Lei, o primogênito deveria ser apresentado no Templo, e consagrado inteiramente ao serviço de Deus, para demonstrar o soberano domínio de Deus sobre os homens e também em ação de graças pelos primogênitos judeus poupados, quando os primogênitos dos egípcios foram exterminados, a fim de que o povo judeu pudesse se livrar da escravidão. Todavia, depois que a tribo de Levi foi designada para servir no culto divino, os primogênitos deviam ser resgatados pelo valor simbólico de 5 ciclos.

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[Sermão] A Ociosidade e a Preguiça Espiritual

Sermão para o Domingo da Septuagésima
27 de janeiro de 2013 – Padre Daniel Pinheiro

 

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém. Ave-Maria…

Gostaria de fazer um breve comentário sobre o tempo da Septuagésima, antes de passar ao Evangelho. Caros católicos, entramos hoje no tempo da Septuagésima, que compreende os domingos da Septuagésima, da Sexagésima e da Quinquagésima, precedendo a Quaresma. O ano litúrgico começou com o Advento, depois passamos pelo tempo do Natal, que se estende até o dia 13 de janeiro, antiga oitava da Epifania. Em seguida, vem o tempo depois da Epifania, que pode ser mais ou menos longo em função da data da Páscoa. A brevidade do tempo depois da Epifania será recompensada no final do ano litúrgico, em que alguns dos domingos depois da Epifania omitidos no início do ano são retomados, como vimos em novembro. A septuagésima manifesta a bondade da Igreja para com os homens e sua sabedoria. Esse tempo litúrgico que começamos hoje é a transição para a quaresma, a fim de que a passagem para as austeridades não se faça de forma brusca, mas de modo calmo e sereno. São, portanto, duas semanas e meia para que possamos nos dispor bem para o tempo da quaresma. Essa transição está bem marcada na liturgia tradicional, sempre mestra de espiritualidade e doutrina. Assim, os paramentos são da cor roxa, cor penitencial. O Gloria já não é mais cantado, o Alleluia também não. Por outro lado, o órgão ainda é permitido, as flores também são permitidas (embora não as tenhamos hoje). Trata-se, portanto, de preparar, desde já, nosso espírito para a prática mais perfeita e intensa da penitência, da oração e das boas obras que devemos fazer na Quaresma. É o que veremos no Evangelho de hoje que nos prepara para a quaresma ao nos prevenir contra a ociosidade e o mau emprego de nosso tempo.

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Por que estais aqui todo o dia ociosos? … Ide vós também para a minha vinha.

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Manual para o acólito

O referido manual, que pode ser baixado em formato PDF, foi redigido com base em alguns outros manuais de liturgia; é uma espécie de cerimonial para o acólito único da Missa Lecta (missa rezada). Tendo em vista certa confusão de regras que se encontra estudando o assunto, parece-nos oportuno um manual mais detalhado. O conteúdo básico está complementado com comentários a respeito das variações de costume ou mesmo comentários sobre a liturgia sacrifical.

1º Domingo da Paixão

1º DOMINGO DA PAIXÃO

Estação em São Pedro

Iª classe – Paramentos roxos

“Pai, se for possível, afaste-se de mim este cálice. Todavia, faça-se a vossa vontade, e não a minha!”.

Os últimos dias que nos separam da prisão de Jesus, mostram-no-Lo constantemente como objeto do ódio de seus inimigos. Mas, que grandeza divina no modo como Ele próprio vai ao encontro da Paixão, senhor dos acontecimentos, dominando os adversários, seguro da “sua hora”, aquela em que, pela obediência ao Pai e pela efusão do sangue, vai realizar-se a Redenção! Avançam-se os estandartes do Rei: é o mistério da Cruz, em que a Vida sofreu a morte, e pela morte restaurou a vida” (hino de vésperas). No limiar destas augustas semanas, a Igreja mostra-nos, em Jesus, a vitima imaculada do sacrifício, que se prepara, e também o vencedor da morte, o príncipe da vida. Os pensamentos da Igreja vão exclusivamente para Jesus. Ela continua a oferecer a Deus a penitencia quaresmal dos fieis, mas a sua atenção concentra-se na Paixão do Senhor, de quem nos vem a salvação. Isto é particularmente sensível nas partes cantadas das missas desta semana e da Semana Santa. Os textos, em vez de estarem no plural, estão, o mais das vezes, na primeira pessoa do singular: Cristo fala só. Toma sobre si a prece e a angustia de todos. Ele é o justo perseguido, que a morte atemoriza, que os pecadores ameaçam, que implora graça e justiça.


EPISTOLA

de S. Paulo aos Hebreus 9, 11-15

Substituindo todos os sacrifícios da antiga Lei, o sacrifício de Cristo é de tal perfeição, que basta para expiar, duma vez para sempre, os nossos pecados e para franquear-nos, de novo, a porta do Céu. Irmãos: Cristo veio como Pontífice dos bens futuros; e, passando por um tabernáculo mais exclente e perfeito, não construído por mão de homem, isto é, não deste mundo, não foi com o sangue dos chibos ou dos bezerros, mas com o seu próprio sangue, que Ele entrou, de uma vez para sempre, no Santo dos Santos, depois de ter adquirido uma redenção eterna. Com efeito, se o sangue dos chibos e dos touros, bem como a cinza de uma vitela, com que se aspergem os impuros, os santifica quanto à pureza do corpo, quanto mais o sangue de Cristo, que pelo Espírito Santo se ofereceu a Si mesmo, sem mácula, a Deus, não purificará a nossa consciência das obras da morte, para servir ao Deus vivo? É esta a razão porque Ele é o Mediador da Nova Aliança: morrendo para resgatar os pecados cometidos sob a primeira Aliança, quis que recebessem a herança eterna os escolhidos, a quem foi prometida, em Jesus Cristo, nosso Senhor.

EVANGELHO

segundo S. João 8, 46-59

Jesus afirma a sua divindade cada vez com mais insistência. É isso mesmo que os seus inimigos Lhe censuram e Lhe merecerá a condenação. Mas aqueles que acolheram as suas palavras, como enviado de Deus, segui-Lo-ao na vida eterna. Naquele tempo: Disse Jesus à multidão dos Judeus: Qual de vós Me arguirá de pecado? Se Eu cós digo a verdade, porque não acrediteis em Mim? Quem é de Deus, ouve as palavras de Deus. Se vós as não ouvis, é porque não sois de Deus. Responderam, então, os Judeus, e disseram-Lhe: Não dizemos nós, com razão, que Tu é um samaritano, e que tens o demônio? Jesus respondeu: Eu não tenho o demônio; ao contrario, honro o meu Pai; vós é que me desonrastes. Eu não busco a minha glória; há quem tome cuidado dela, e fará justiça. Em verdade, em verdade vos digo: Quem guardar a minha palavra, não verá a morte eterna. Disseram-Lhe por isto os Judeus: Agora é que conhecemos que estás possesso do demônio. Abraão morreu e os profetas, e Tu dizes: Quem guardar a minha palavra, nunca saberá o que é morte eterna. Porventura és Tu maior que o nosso pai Abraão, que morreu? E os profetas também morreram. Quem pretendes Tu ser? Jesus respondeu: Se Eu me glorifico a Mim mesmo, não é nada a minha glória; meu Pai é que Me glorifica, Aquele mesmo que vós dizeis que é vosso Deus. Contudo vós não O conheceis. Eu sim, conheço-O, e guardo a sua palavra. Abraão, vosso pai, suspirou por ver meu dia; viu-o, e ficou cheio de gozo. Disseram-lhe, por isto os Judeus: Tu ainda não tens cinqüenta anos, e viste Abraão? Jesus respondeu-lhes: Em verdade, em verdade vos digo: antes que Abraão existisse, Eu sou. Então pegaram em pedras para Lhe atirarem, mas Jesus encobriu-se, e saiu do templo.

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