[Sermão] A confiança total em Deus e a Paixão de Cristo

Sermão para o Domingo da Paixão

18.03.2018 – Padre Daniel Pinheiro, IBP

Em nome do Pai…

Ave Maria…

Caros católicos, vemos, no Evangelho de hoje, como Nosso Senhor afirma claramente ser Deus, como Ele afirma a sua eternidade ao dizer: antes que Abraão fosse, eu sou. E, tendo ouvido isso, os judeus pegaram pedras para lhe atirarem. Esse foi o motivo da paixão e morte de Jesus, o fato de Ele ter afirmado a sua divindade. Como sabemos, efetivamente, Jesus é verdadeiro homem e verdadeiro Deus.

Já na Epístola de hoje, São Paulo fala do sacrifício de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele fala de como Cristo derramou Seu sangue e como o sangue dEle purifica a nossa consciência das obras da morte, para que sirvamos ao Deus vivo. Afirma, ainda, que Nosso Senhor é Pontífice dos bens futuros, isto é, da vida eterna, e o Mediador da Nova Aliança.

Caros católicos, podemos tirar, como lição das leituras de hoje e desse tempo da paixão, a esperança. Se Nosso Senhor Jesus Cristo é Deus e homem, se Nosso Senhor Jesus Cristo foi até a morte de cruz para nos salvar, como não esperar nEle? Será que nos abandonaria um Deus que se fez homem, padeceu e morreu na cruz para nos salvar? Será que depois de fazer tudo isso por nós, nos abandonaria? Seria bem incoerente da parte de Deus. Devemos ter uma grande confiança em Deus. Grande confiança? Devemos ter uma confiança total, plena.

Nosso Senhor Jesus Cristo nos assegura que nos dará os meios necessários para chegarmos ao céu. A nossa esperança em Deus se baseia na Sua bondade infinita, na Sua misericórdia infinita, na Sua onipotência, na Sua fidelidade às promessas que fez. Como não esperar e confiar em Deus, que é infinitamente bom e misericordioso, e que, por isso, quer nos ajudar e nos tirar de nossa miséria espiritual? Como não esperar e confiar em Deus, que é onipotente, isto é, que tem todos meios para nos ajudar? Como não esperar e confiar em Deus que é plenamente fiel às suas promessas?

Que pecador, por pior que seja, poderá desesperar do perdão, se busca se arrepender do mal que fez, vendo um Deus amar tanto os homens ao ponto de se encarnar, de derramar todo seu sangue e morrer na cruz por ele? Como não esperar em Deus que nos disse: pedi e recebereis, buscai e achareis, batei e abrir-se-vos-á? Como diz São Paulo: mantenhamos a firme esperança que confessamos, pois fiel é quem faz a promessa.

A consideração da paixão de Cristo deve nos dar grande esperança, caros católicos. Na nossa vida prática, esquecemos frequentemente de viver segundo essa esperança, embora saibamos teoricamente que devamos esperar e confiar em Deus. Vamos confiando muito mais em nós mesmos do que em Deus. Confiamos mais em nós para vencer os nossos defeitos e pecados. Confiamos mais em nós diante das nossas cruzes. Confiamos mais em nós em todas as situações. Claro que devemos fazer a nossa parte e os nossos esforços, mas sempre apoiados inteiramente na bondade e na onipotência divinas. Se procurarmos nos esforçar, apoiados em Deus, Ele nos ajudará. Nem sempre como imaginamos ou desejamos segundo o nosso gosto demasiadamente humano, mas Ele ajudará com abundância. Deus não enviou seu próprio Filho para viver entre os homens e morrer na Cruz para nos abandonar em seguida.

Um dos grandes motivos de não conseguirmos avançar no caminho da virtude e no caminho do combate aos nossos defeitos é a falta de confiança total em Deus. E devemos confiar em Deus em todas as coisas, em todos os acontecimentos da vida, tanto na ordem espiritual quanto na ordem temporal. Devemos confiar em Deus, que é nosso Pai infinitamente bom. Confiar em Deus, que ordena tudo para o bem daqueles que desejam servi-lO. Devemos saber que todos os acontecimentos da vida, grandes ou pequenos, vêm da bondosa providência de Deus, sem a qual não cai um só cabelo da nossa cabeça. Assim, ainda no meio das maiores adversidades, em meio dos maiores perigos, perseguições, doenças, desgraças, devemos colocar toda a nossa confiança em Deus, esperando nEle, fazendo como Abraão, isto é, esperando contra toda esperança. Devemos dizer como o Rei Davi: “Ainda que acampem exércitos contra mim, o meu coração não temerá; ainda que se levante uma guerra contra mim, mesmo então confiarei. Uma só coisa peço ao Senhor, esta solicito: é que eu habite na casa do Senhor todos os dias da minha vida, para gozar da suavidade do Senhor e contemplar o seu templo.” Devemos dizer como Jó: “Ainda que o Senhor me ferisse de morte, nEle esperarei.” Devemos ter essa confiança total, essa confiança plena em todos os aspectos de nossa vida, mesmo nos mínimos detalhes.

Devemos ter particular esperança em Deus quando se trata de buscar a santidade, quando se trata de buscar a perfeição. Nosso Senhor disse para cada um de nós: “Sede perfeitos, como vosso Pai Celestial é perfeito.” Não foi dito a um grupo particular, mas para todos, para cada um de nós. E é o que devemos buscar, com confiança total em Deus, esperando nEle. Ele nos chama a essa vida de perfeição e evidentemente nos dá as graças para que caminhemos e avancemos no caminho da perfeição. Não devemos fechar, com nossas desconfianças e resistências, a entrada de nossa alma para as graças de Deus. Ainda que sejamos uma e muitas vezes infiéis às suas graças; ainda que possamos cair e recair em novas faltas e pecados, não devemos desesperar, mas pedir a nosso Senhor com nova confiança, rogando-lhe humildemente perdão, refugiando-nos na sua bondade, e propondo firmemente a emenda; e estejamos seguros de que nunca nos rejeitará, pois é infinitamente maior a sua misericórdia que a nossa fraqueza e malícia. Se não desanimarmos, se cada dia começarmos com novos e firmes propósitos, por fim seremos verdadeiramente perfeitos e santos. Sem dúvida que a causa de não avançarmos mais na perfeição é muitas vezes a falta de verdadeira confiança em Deus, pois com frequência, desconfiamos dEle, ou confiamos muito em nós mesmos e quando procedemos assim, não confiando nEle, o Senhor não abençoa os nossos esforços. A própria Santa Teresa, falando de si mesma, e referindo-se à época da sua vida em que ainda não tinha se consolidado na sua alma as virtudes que desejava, diz: “Eu suplicava ao Senhor que me ajudasse, mas devia faltar, ao que me parece agora, pôr toda a confiança em sua Majestade. Procurava remédio, fazia esforços, mas não compreendia que tudo aproveita pouco, se não colocamos a nossa confiança em Deus e não em nós mesmos”

Considerando a Paixão de Nosso Senhor, caros católicos, tenhamos essa esperança, essa confiança total em Deus. Façamos a nossa parte e nossos esforços totalmente apoiados em Deus. Desconfiemos de nós mesmos, reconhecendo nossas fraquezas e faltas, mas esperando totalmente em Deus. Precisamos que essa esperança encha toda a nossa alma. Com essa esperança, com essa confiança poderemos caminhar em direção ao cume da perfeição.

Em nome do Pai…

[Aviso] Missa Tridentina em Brasília na Capela Nossa Senhora das Dores

Prezados, Salve Maria!

1. Está circulando uma mensagem a propósito de se pedir uma Missa Tridentina em cada cidade do Distrito Federal.
2. Esta mensagem não cita a Capela Nossa Senhora das Dores, do Instituto Bom Pastor, como um local de Missa. Isso mostra que a iniciativa parece ser bem parcial.
3. A Capela Nossa Senhora das Dores do Instituto Bom Pastor, situada no Jardim Botânico III, em Brasília, tem o reconhecimento da Arquidiocese. O apostolado que nela se realiza tem o aval da Arquidiocese.
3. Os Padres do Instituto Bom Pastor têm o uso de ordens na Arquidiocese de Brasília e a Casa do Instituto Bom Pastor em Brasília foi erigida oficialmente conforme as regras do direito canônico.
4. Na Capela Nossa Senhora das Dores, há 3 Missas Tridentinas aos Domingos: 8:00, 10:00 e 19:00. De segunda-feira a sexta-feira: 6:30 e 19:30. Aos sábados: 8:30.
5. A iniciativa pede dados de participantes. Sabemos, infelizmente, que muitos grupos conservadores são especialistas em se aproveitar de dados assim para depois pedir dinheiro e conseguir adeptos, sob pretexto de visitas da imagem de Nossa Senhora de Fátima e coisas semelhantes. Fiquem atentos.
6. É claro que seria excelente ter a Missa em todas as cidades do DF e mesmo em cada Paróquia. O meio mais adequado, nas circunstâncias, não parece ser esse, porém.
7. Para conhecer as atividades da Capela Nossa Senhora das Dores, visite esse site, veja os sermões, as fotos, as atividades.
8. A semelhança do nome da página facebook que tem divulgado essa iniciativa que nos parece parcial e com o nome deste blog que tem divulgado as atividades da Capela Nossa Senhoras das Dores não deve induzir o leitor ao engano.
9. Contamos com a prudência de cada um.

A Redação do Blog Missa tridentina em Brasília https://missatridentinaembrasilia.org/

[Sermão] A necessária condescendência na família

Sermão para o 4º Domingo da Quaresma

11/03/2018 – Padre Daniel Pinheiro, IBP

 

Em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Amém.

Ave Maria…

São Francisco de Sales diz, em seu magnífico livro Filoteia, que marido e esposa devem ter tanta condescendência um com o outro, que nunca se aborreçam e irritem ambos ao mesmo tempo e de repente, para que entre eles não se note dissensão nem disputa. E o santo faz, então, uma de suas comparações. Ele diz que as abelhas não podem estar em lugar onde se ouvem ecos e estrondos, e onde a voz soa mais alta. Ele diz que da mesma forma o Espírito Santo não pode permanecer numa casa onde há disputas, réplicas, vozes estridentes e altercações.

Mas o que é essa condescendência de que fala São Francisco de Sales? É uma virtude tão simples, mas tão necessária para a vida familiar. A condescendência é irmã da doçura de que falamos domingo passado, e é filha da caridade e da humildade. A condescendência consiste em nos acomodarmos ao gosto e à vontade dos outros.

Desde logo, devemos deixar bem claro que nunca devemos condescender quando houver ofensa a Deus, pois nunca podemos nos acomodar e concordar com o pecado, embora possamos ser pacientes com o pecador. Adão, por exemplo, teve uma má condescendência ao se acomodar aos desejos de Eva, quando esta lhe propôs comer o fruto proibido. Não devemos condescender com o pecado, nem por fraqueza, nem por respeito humano, nem por interesse, nem por qualquer outro motivo.

São Francisco de Sales dizia: Convém condescender em tudo, porém, deve ser até um certo limite e não mais, isto é, até os limites da lei de Deus, que são os limites de toda a prudente condescendência». E acrescentava: A condescendência que não vai acompanhada de candura e de pureza é uma condescendência perigosa e nociva, contra a qual nenhuma precaução é demasiada.

Também não podemos condescender em coisas manifestamente imprudentes ou que possam redundar em prejuízo espiritual.

A condescendência é a flexibilidade suave e bondosa de nossa vontade, que, por amor a Deus e ao próximo, se acomoda de bom grado ao gosto e desejo do próximo, procurando agradar-se no agrado do próximo em tudo o que não seja mau, nem perigoso ou prejudicial. Devemos, então, ser fáceis em condescender com o parecer dos outros e comprazer com eles em todas as coisas em que possamos fazer sem pecado e perigo. E principalmente marido e esposa devem ter essa facilidade em condescender um com o outro.

Nosso Senhor Jesus Cristo nos dá o exemplo de condescendência plenamente ordenada. Vai às bodas de Caná quando o convidam. Faz tantos milagres conforme Lhe são pedidos, ensina seus discípulos a rezar como Lhe pedem. Condescende mesmo com o beijo de Judas, no momento da mais vergonhosa traição, para ver se o atrai com essa demonstração de bondade. Na sua Paixão mesmo, condescende com o que querem fazer os seus carrascos.

A condescendência é uma virtude muito mais importante e estimável do que pode parecer à primeira vista. É uma virtude eminentemente social, isto é, necessária para quem vive em sociedade. Necessária, em primeiro lugar, no seio da família. E a prática dela é muito frequente, pois convivendo com os familiares, teremos inúmeras ocasiões para exercê-la. E a prática constante dessa virtude levará à união de coração dos esposos, passarão a ter cada vez mais uma só vontade, um só querer e um só não querer. Encontraram agrado em ceder um ao outro. Essa condescendência no seio da família aumentará o amor conjugal e a harmonia no lar.

O demasiado apego à vontade e ao gosto próprio além de ser um sinal de soberba, é origem frequente de desavenças, em que a caridade sai bem ferida. A insistência na própria opinião é um vício que vem romper os laços de união, de paz, de caridade e harmonia, que devem reinar no trato e conversas na família, pois, certamente, onde há pessoas teimosas e obstinadas na própria opinião, e que nunca sabem condescender com a opinião dos outros, só pode haver atritos, contrariedades e desgostos.

Ao contrário, a condescendência cristã, pela qual uma pessoa se acomoda de boa vontade ao desejo e ao querer dos outros, é fonte de amor recíproco, de paz, e de concórdia, de tal maneira que não se pode calcular suficientemente quanto essa virtude contribui para a felicidade e bem estar da família. Se, ao entrar em um lar, notamos que ali, nas conversas e no modo de proceder dos seus membros, reina uma cordial fraternidade e uma alegria franca e espiritual, podemos estar seguros que nesse lar reina também uma mútua e caridosa condescendência, porque se ela não existisse, seria impossível aquela santa harmonia e alegria. Os esposos mais unidos acabariam por perder a amizade se nenhum deles fosse de caráter condescendente.

Está certamente muito longe da perfeição sólida e verdadeira todo aquele que, enquanto os outros condescendem com os seus gostos e desejos, se mostra calmo, contente e satisfeito; mas que, se é contrariado na mínima coisa, ou se as coisas não correm à medida dos seus desejos, fica logo inquieto e alterado; sinal certo de que a sua virtude é mais aparente que real, e que tal alma tem a sua vontade própria muito dura e necessita, por isso, aprender a dobrá-la e a mortificá-la.

Quantas vezes vemos, no seio da família, surgir disputas, mesmo sobre questões tão irrisórias e tão irrelevantes, simplesmente porque um não quer ceder à opinião do outro ou calar-se. Quantas vezes vemos que marido e esposa têm ambos uma boa ideia e um acordo de princípios e divergem acidentalmente na sua aplicação. E cada um, achando que a sua ideia é mais perfeita, quer impô-la ao cônjuge, e acabam destruindo tudo pelas brigas. Melhor aceitar uma ideia boa, ainda que seja menos perfeita, do que, querendo aplicar o mais perfeito, causar uma grande briga e ficar sem bem algum. Por exemplo, um cônjuge preferiria que o outro fizesse tal coisa porque considera que será melhor para a família. Mas o outro, por um motivo qualquer, prefere fazer de modo diferente, que é menos perfeito. Não vale a pena, querendo o maior bem da família, terminar em brigas e ofensas. E, muitas vezes, mesmo quando um dos cônjuges está errado, o melhor será calar-se e procurar resolver com paciência e habilidade, quando se percebe que o apego do outro à própria opinião é ainda muito grande. Está claro que a condescendência não impede os cônjuges de conversarem e de dialogarem para chegarem a uma conclusão, mas que conversem com caridade, mansidão e que cada um tenha essa disposição de condescendência para com o outro.

O marido precisa ser muito condescendente com a esposa no exercício de sua autoridade no lar, e lembrando sempre que sua autoridade é para o bem da esposa e dos filhos. Lembrando também que de nada adianta exercer uma autoridade forçada. Deve ser autoridade conquistada na prática, pelo amor, pelo exemplo, pela virtude. A esposa precisa ser muito condescendente com o marido, lembrando da efetiva e real autoridade dele, com todo o respeito e caridade. Cada um precisa saber ceder ou, ao menos, calar, quando percebe que querer impor a própria opinião vai gerar um mal maior.

Nessa condescendência, não procurar também ficar medindo o quanto cada um fez: “Eu já cedi duas vezes, agora é a vez do outro ceder.” Não funciona assim. É preciso que cada um faça a sua parte, se esforce para isso com a ajuda da graça divina. Não é simples, mas plenamente possível.

Venhamos, mais uma vez, ao que diz São Francisco de Sales: “Se queres, alma devota, livrar-te de tão funestos resultados; se queres firmar-te e crescer na humildade; se te queres dispor para receberes com abundância as graças de Deus e caminhares até à perfeição; se queres, por último, conversar em paz e caridade com o teu próximo, eis aqui como te deves portar neste ponto: nas coisas claras, em que a inteligência não pode renunciar à sua própria opinião, porque não podes deixar de concordar com o que vê com evidência, deves de algum modo praticar a mortificação, falando com simplicidade e modéstia, sem afetação, sem ênfase, sem ares magistrais, e sem pretender que se conceda às tuas palavras, discursos ou sentenças, mais importância do que na verdade mereçam em si mesmas; e mesmo estando a verdade e a razão da tua parte, convir-te-á em muitas ocasiões falar pouco, ou calar-te completamente, a não ser que a glória e a honra divina reclamem manifestamente outra coisa.” Continua o Santo: “Nas coisas duvidosas ou discutíveis, deves, ao expor a tua opinião, fazê-lo também com modéstia e humildade e com certa desconfiança de ti mesmo, pensando que podes estar enganado; e antes que se provoquem aborrecimentos ou contrariedades, sê fácil em ceder à opinião alheia.”

E ainda São Francisco de Sales diz:  «É necessário ceder aos sentimentos e parecer dos demais, evitando, quanto possível, disputas e altercações. E no caso de nos vermos precisados a opor-nos à opinião dos outros, façamo-lo com tanta doçura e habilidade que não pareça que procuramos forçar as inteligências e os espíritos».

Marido e esposa, não se apeguem demasiadamente aos seus gostos e à sua vontade; antes, estejam dispostos a condescender facilmente e de bom grado com a vontade do cônjuge (desde que não seja contra a lei de Deus), pois isto servirá muito para avançar na humildade e na caridade, e vai tornar vocês amáveis e agradáveis a Deus, e ao cônjuge.

Caros católicos, como podem perceber, temos redobrado nossos esforços em benefício das famílias que já existem e das futuras. A família é a pupila dos nossos olhos. A família de vocês é a pupila dos nossos olhos.  E como, infelizmente, as famílias muitas vezes se formaram em bases frágeis, é preciso agora reforçá-las com o sólido cimento da doutrina católica e com a prática dessas virtudes às vezes simples, como a condescendência, mas tão necessárias no seio da família.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

[Aviso] Início do catecismo de Adultos (para os inscritos)

Prezados, Salve Maria!

A pedido do Padre Daniel Pinheiro, IBP, lembramos que o Catecismo de Adultos terá início nesse próximo sábado, dia 17/03, das 14h00 às 18h00 no Salão da Capela Nossa Senhora das Dores. Apenas os inscritos poderão participar. E as vagas já se esgotaram.

Um e-mail foi enviado aos inscritos. Quem não tiver recebido, deve falar com o Padre no dia do catecismo.

 

[Oração] Oração dos cônjuges

Transmitimos o conteúdo abaixo a pedido do Padre Daniel Pinheiro, IBP:

Prezados Fiéis, Salve Maria!

No sermão para o 3º Domingo da Quaresma, em que falamos da doçura no seio da família, exortamos veementemente que cada marido e esposa fizessem, unidos, uma ação de graças após a Santa Missa. Alguns nos pediram uma sugestão de oração de graças e elaboramos a oração que segue abaixo. Ela é simples, mas exprime bem os anseios que deve estar em cada alma unida pelo laço do matrimônio.

Além disso, pensamos que essa oração pode ser recitada mesmo diariamente pelo casal, ainda que fora do contexto da Missa. Se o casal recitar com sinceridade e grande confiança essa oração, os frutos serão numerosos. (Clique na imagem ao final para a versão em PDF).

Oração para os cônjuges

Divino Jesus, aqui estamos diante de Vós, nós que fomos unidos, pelo sacramento do matrimônio, à imagem de Vossa união com a Igreja. Colocamo-nos diante de Vós com toda a confiança, e, implorando o perdão de nossas faltas, pedimos, pela intercessão de Vossa Mãe Santíssima, o Vosso auxílio para a nossa família.

Pedimo-vos, Senhor, as virtudes mais necessárias para nossa família, espelhando-nos na Sagrada Família.

Pedimo-Vos a graça de uma fé viva, pela qual possamos ver tudo sob a perspectiva da eternidade. Pedimo-Vos a graça da humildade, da mansidão e da paciência. Pedimo-Vos a graça da doçura no seio de nossa família. Pedimo-vos a graça do espírito de perdão.

Pedimo-Vos a graça do verdadeiro amor conjugal, que é amor de sacrifício e de renúncia de si mesmo. Pedimo-vos as graças de viver para o bem do outro e de nosso filhos, cada um cumprindo os seus deveres. Pedimo-Vos a graça do amor a Vós, sabendo que é esse amor que nos une. Pedimo-Vos que esses dois amores sempre cresçam cada vez mais.

Pedimos-Vos, Senhor, a graça de alcançarmos a vida eterna em união com os filhos que Vós nos destes.

E damo-Vos graças, Senhor, por todos os inúmeros benefícios que nossa família já recebeu de Vossa bondade.

São José, vinde em nosso auxílio.
Maria Santíssima, socorrei-nos com a vossa maternal bondade.
Meu Jesus, o Bom Pastor, confiamos inteiramente em Vós. Amém.

[Sermão] A Doçura no seio da família

Sermão para o 3º Domingo da Quaresma

04.03.2018 – Padre Daniel Pinheiro, IBP

 

Em nome do Pai…

Ave Maria…

Caros Católicos, São Paulo nos fala hoje que devemos ser imitadores de Cristo e que devemos andar no amor, como Cristo nos amou. O apóstolo fala aqui do amor a Deus e do amor ao próximo. É sobretudo desse amor ao próximo que quero falar hoje, em particular no seio da família, entre marido e esposa e entre pais e filhos. Esse amor ao próximo decorre necessariamente do amor a Deus e é uma boa medida dele. Claro, estamos aqui falando do amor ao próximo que ordena todas as coisas em conformidade com a vontade de Deus, de acordo com os mandamentos e as virtudes.

Esse amor ao próximo no seio da família é importantíssimo e tão mal praticado, infelizmente. Existem muitas pessoas, mesmo devotas, que rezam, que levam a sério a santa religião católica e que nas relações sociais com estranhos são muito afáveis, bondosas, humildes, indulgentes, mas que, no seio da família, são ásperas, orgulhosas, de pouca consideração. Com esse comportamento dentro de casa tornam-se a cruz e o tormento para os familiares. Com a conduta áspera dentro de casa, contradizem toda essa bondade que apresentam diante dos outros publicamente. Nesse momento, marido já está pensando: minha esposa é assim. A esposa já está pensando: meu marido é assim. E os mesmos pensamentos entre pais e filhos. Esqueçam um pouco o outro e pensem em si mesmos. Todos nós padecemos desse mal, em maior intensidade ou menor. Olhe para si mesmo em primeiro lugar. Marido, olhe para si mesmo. Esposa, olhe para si mesma. Pais, olhem para si mesmos. Filhos, olhem para si mesmos.

Desse tipo de pessoa, São Francisco de Sales diz que são anjos na rua e demônios em casa. É preciso, então, pedir a Deus e trabalhar para que se tenha a mansidão, a doçura dentro de casa. E que não seja uma doçura meramente exterior e ocasional, mas que ela seja constante, sincera, fruto da humildade e da caridade. É preciso ser bom, afável, com todos, mas principalmente com os da própria família. Que triste é ver, em um lar, o deplorável espetáculo da frieza, da desconsideração, das palavras injuriosas ou grosseiras. Que triste ver, em um lar, o deplorável espetáculo dos arrebatamentos de ira e de orgulho. Que triste ver germinar a semente da falta de afeto e da desarmonia entre as pessoas que mais deveriam se amar, que mais deveriam se ajudar nas coisas espirituais e nas coisas temporais. Ao contrário, quão consolador é ver, em um lar, uma santa cordialidade e afabilidade entre os membros da família. Assim deve ser cada um no seio de sua família: bom, cordial, afável, ainda que os outros membros da família não o amem, e seria preciso sacrificar-se nessa bondade, nessa doçura por amor a Deus e ao próximo. São Francisco de Sales dava um conselho que ele mesmo praticava: honrai a vossa devoção, revesti-la de grande amabilidade para com todos os que vos conhecem, e em especial para com os da vossa família. Grande amabilidade para com todos os que vos conhecem, em especial com os de vossa família. Creio que podemos fazer, todos nós, imensos progressos nessa virtude. Maridos, esposas, filhos, padres… Devo ter essa resolução de proceder com grande bondade, doçura e afabilidade com todos os de minha família. Pedir a graça de Deus para isso e pedi-la com grande confiança. Ser anjo fora de casa e também dentro dela, principalmente dentro dela, para com meus familiares.

É preciso, caros católicos, que entre os membros da família, haja a demonstração de afeto, de afabilidade. Não se sustenta um amor que não se demonstra. É evidente que esse amor se demonstra, em primeiro lugar pelas obras, pelo ordenado e afável cumprimento dos deveres de estado. Mas ele se demonstra e se nutre também de forma simples. Quantas vezes os membros da família se esquecem de demonstrar esse afeto também por pequenas coisas e pequenos agrados, por pequenos presentes e por palavras, que, às vezes, entre os casados, abundaram na época de namoro e que agora sumiram depois do matrimônio. Não deveria ser assim. Deveriam abundar durante o casamento e serem moderados antes dele. Essas coisas são um sinal do amor na família e favorecem esse amor, e são coisas importantes, ainda que estejam longe de ser o principal, como é evidente. Muitas vezes as pessoas pensam: agora eu ajo pela razão e não pelos sentimentos. E se tornam secas, áridas, duras. Ora, a razão manda que o bom amor seja demonstrado de forma ordenada, que haja manifestações legítimas de afeto. Não se trata de sentimentalismo. E esse afeto e essa união podem se manifestar mesmo em coisas mais excelentes. Por exemplo, em uma ação de graças, ainda que breve, feita conjuntamente pelo casal após a Missa, com as mãos dadas, discretamente, mas demostrando assim, para si mesmos, a profunda união. O quanto faria bem essa ação de graças do casal, pedindo as virtudes de que precisam, pedindo essa doçura no seio da família, pedindo a mútua compreensão, pedindo a união dos corações, pedindo pelos filhos. As crianças, talvez, não deixarão que essa ação de graças se prolongue tanto, mas, ainda que ela seja breve, dará frutos. Essa pequena oração do casal na Igreja ajudará muitíssimo. Peço aos casais que procurem fazer isso hoje após a Missa e após cada Missa, em particular pedindo a graça da doçura no seio da família. Procure o casal fazer essa ação de graças após cada Missa.

Faço essa homilia de Quaresma bem curta e simples, mas para que fique bem gravada na alma de vocês e que possa servir como ponto decisivo para a vida familiar. Fique bem gravada na alma a doçura no seio da família, a afabilidade, a cordialidade, a condescendência que faz que nos acomodemos ao gosto e à vontade do outro, desde que não seja contra a lei de Deus. Dessa condescendência falaremos em outra ocasião. Que fique bem gravada na alma de cada um essa necessária demonstração do amor e do afeto também nas coisas simples. Que fique bem gravada essa ação de graças feita pelo casal após a Missa.

Em nome do Pai…

[Sermão] Quaresma: Combate ao defeito dominante

Sermão para o Domingo da Quinquagésima

11.02.2018 – Pe Daniel P Pinheiro

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Ave-Maria…

 “Se não tiver a caridade, nada sou.” (I Cor, 13)

Caros católicos, três dias somente nos separam do começo da Quaresma. A Santa Igreja continua a nos preparar e a nos dispor, pela Sagrada Liturgia, a uma Quaresma que possa dar frutos eternos. Para tanto, a Igreja nos apresenta o sublime elogio da caridade na Epístola de São Paulo e nos apresenta, no Evangelho, o anúncio da paixão e a cura de um cego. Mas como essas três coisas nos preparam de maneira perfeita para a Quaresma, pois não parece haver muita conexão entre elas?

Para compreender o que a Igreja quer nos ensinar, devemos, antes de tudo, considerar bem a finalidade da Quaresma. A Quaresma são quarenta dias de conversão, quarenta dias para que possamos morrer para o pecado com Nosso Senhor Jesus Cristo, a fim de ressuscitar com Ele para a vida da graça. Para fazer isso, precisamos da penitência, pela qual, com verdadeira dor e detestação de nossos pecados, satisfazemos pelas ofensas feitas a Deus. Todavia, a penitência sozinha não serve para nada, se ela não é inspirada pela caridade, quer dizer, ela não serve para nada se ela não é feita em união com Deus ou tendo em vista essa união com Deus, essa amizade com Deus. E isso porque a melhor das ações não tem valor algum para a salvação, se ela não é acompanhada da caridade ou se ela não tem por fim a caridade. Além disso, como somos fracos e inconstantes, e como sem Deus nada podemos fazer, devemos pedir a Deus, pela oração, que nossas penitências acompanhadas da caridade sejam agradáveis aos seus olhos.

Dessa forma, caros católicos, podemos compreender porque a Igreja escolheu estas passagens da Sagrada Escritura para o Domingo que precede a Quaresma. A Igreja anuncia a Cruz, para que satisfaçamos pelos nossos inumeráveis pecados pela penitência. Ela faz o elogio da caridade porque sem a caridade nada tem valor, dado que só a caridade ordena tudo a Deus. E, finalmente, ela nos apresenta a cura do cego, na qual encontramos um modelo de oração: “Filho de David, tende piedade de mim.” Assim, não podemos fazer uma penitência sincera sem ter por finalidade a união com Deus. E, ao mesmo tempo, não podemos estar verdadeiramente unidos a Deus se recusamos carregar a nossa própria cruz, quer dizer, se recusamos fazer penitência. A cruz e a caridade são inseparáveis nessa Terra. Todavia, nem a caridade nem a cruz podem existir sem a oração, pois sem Deus nada podemos fazer. É preciso fazer penitência não para se orgulhar, não para se mostrar aos outros, mas para recobrar ou aumentar a nossa amizade com Deus, pedindo-lhe, pela oração, essa amizade. Durante a Quaresma, a união da penitência, da oração e da caridade é indispensável, e mesmo durante a vida inteira. Uma Quaresma sem um desses três elementos seria uma Quaresma infrutífera, que não conduziria a uma união profunda e duradoura com Deus, união que é, justamente, o objetivo da Quaresma. É por isso que, tradicionalmente, a Igreja recomenda esforços nesses três campos durante a Quaresma: oração, penitência e caridade. 1) Oração. Podemos pensar em algumas práticas concretas. Por exemplo, rezar o terço todos os dias (se ainda não faço), ou fazer uma boa leitura espiritual sólida e segura (se ainda não faço), ou fazer meditação católica todos os dias, tirando alguns minutos para pensar nas verdades eternas (se ainda não faço), ou rezar a via-sacra alguns dias da semana (definir os dias), ou rezar a coroa das dores de Nossa Senhora. 2) Penitência. Por exemplo, pode ser algo relacionado à comida, mas pode ser também com relação à internet, a redes sociais, a whatsapp, todas essas coisas que, de modo geral, nos atrapalham bastante na vida espiritual, se não são muito bem reguladas, o que é bem difícil de fazer. Pode ser também com relação a assistir futebol (esporte em geral) ou ver notícias disso para os homens, o que faz perder um tempo imenso com futilidade. Para as mulheres, deixar, por exemplo, de buscar informações fúteis sobre outras pessoas na internet e fora dela. E são coisas que podem durar depois da Quaresma e mesmo devem durar depois da Quaresma. 3) A caridade para com o próximo. Sobretudo no seio da família. Fazer algum bem material ou espiritual ao próximo, ter mais paciência com o próximo (marido com esposa e vice-versa, os pais com os filhos e assim por diante), evitar falar mal do próximo, rezar por pessoas específicas e com maior intensidade, rezar por quem nos fez algum mal.

Não devemos escolher várias coisas em cada campo, pois terminaremos fazendo mal feito ou não fazendo. Devemos escolher algo bem determinado e concreto em cada uma dessas frentes. E combater seriamente todo pecado, sobretudo o que mais nos atrapalha na união com Deus.

E que se façam os propósitos por amor a Deus, para avançar na santidade, na virtude e também em reparação pelos nossos pecados. O melhor seria escolher práticas que possam nos ajudar de maneira mais duradoura no caminho da santidade. Que não sejam práticas com consequências que durem somente os poucos dias da Quaresma.  Assim, receberemos graças abundantes na Quaresma, na Páscoa e ao longo da vida. Lembrando, porém, que as resoluções de Quaresma não obrigam, por si, sob pena de pecado.

Gostaria, porém, de dar uma sugestão, caros católicos, de resolução para essa Quaresma. Sugestão de uma resolução que une muito bem esses três elementos de que acabamos de falar. Trata-se do combate de cada um contra seu defeito dominante. Não pode haver melhor resolução que essa. Penitência, oração e caridade devem se unir no combate ao nosso defeito dominante.

O demônio, inimigo do homem, é como um leão que ruge ao nosso redor, procurando nos devorar. Com muita inteligência, ele busca, precisamente, nos atacar em nosso ponto fraco. Assim, ele faz a ronda para examinar todas as nossas virtudes teologais, cardeais e morais, e é no ponto em que nos encontra mais fraco que ele nos ataca e tenta nos abater. Como um bom chefe de guerra, ele sabe que uma vez tomado o ponto mais fraco de nossa alma, o menos virtuoso, ele vai se tornar o mestre de todo o resto. Esse ponto mais desprovido de virtude, o mais arruinado pelas nossas más inclinações é justamente o nosso defeito dominante, que é também a raiz, a causa de muitos outros pecados que cometemos. Esse defeito dominante pode ser muito diverso segundo cada pessoa: o orgulho, a vaidade, o medo do sofrimento, a sensualidade, a impureza, o apego ao que nos agrada, a falta de modéstia, o respeito humano, o apego aos bens desse mundo, o apego às honras ou à glória desse mundo. Ele pode ser a loquacidade, que é o falar muito ou o falar sem pensar; pode ser a preguiça (que pode levar à dificuldade para cumprir horários), a preguiça espiritual (que leva a omitir as orações, por exemplo), a falta de espírito sobrenatural, a falta de esperança, a inconstância, o espírito mundano, a ira, etc. Alguém dirá: “Padre, não tenho nem um só desses defeitos.” Ao que se responde: “Seu defeito é o orgulho ou a falta de conhecimento de si.” Outro dirá: “Padre, tenho muitos desses defeitos ou todos esses defeitos.” Ao que se responde: “Certo, mas é preciso descobrir qual é o dominante, aquele que é a raiz dos outros.” Muitas vezes, nosso combate não dá fruto porque combatemos apenas os defeitos superficiais mais aparentes e não a o defeito que causa os outros. Passamos anos e anos sem progredir muito porque não combatemos o inimigo principal a ser combatido. Às vezes, por ignorância. Às vezes por que nos recusamos a querer combater realmente aquele pecado, que no fundo é nosso pecado de estimação. É como tratar somente os sintomas de uma doença grave sem tratar a causa da doença. Esse tratamento dos sintomas sem tratar a doença nos levará à morte. Não combater o defeito dominante nos levará, quase certamente à morte espiritual.

É fácil ver a importância de combater nosso defeito dominante. E isso por duas razões principais. Primeiramente, porque é do defeito dominante que nos vêm os maiores perigos para a nossa alma e as mais graves ocasiões de pecado para nós. Como dissemos, ele é a raiz para vários outros pecados. Segundo, podemos ver a importância de combater o defeito dominante pelo fato de que, uma vez vencido o inimigo mais terrível, os inimigos mais fracos serão facilmente derrotados por nossa alma, que se tornou mais forte em razão da primeira vitória contra o mais temível inimigo. Devemos agir como o rei da Síria na guerra contra Israel. A Sagrada Escritura nos conta que esse rei ordenou aos seus soldados que combatessem unicamente contra o rei de Israel, prometendo que a morte do rei inimigo daria uma vitória fácil sobre o resto do exército israelita. Foi exatamente o que aconteceu: tendo morrido o rei de Israel, todo o exército cedeu e a guerra terminou imediatamente. De maneira semelhante, será muito mais fácil vencer nossos outros defeitos quando tivermos vencido o nosso defeito dominante.

Para que sejamos vitoriosos nesse combate, é preciso, todavia, seguir o conselho da Igreja. A vitória sobre o nosso defeito dominante não ocorre sem os sofrimentos, sem as cruzes, sem as privações. É impossível vencê-lo sem a mortificação. A Igreja fala da paixão e da cruz no Evangelho de hoje, para nós lembrar disso.  Do mesmo modo, sem a oração – sem muita oração – é igualmente impossível vencê-lo e até mesmo começar o combate, pois é Deus que nos dá a força para combater e é Deus que nos dá, em última instância, a vitória. Sem Deus, mais uma vez, nada podemos fazer. A Igreja dá o exemplo da súplica do cego na liturgia de hoje. Finalmente, é a caridade, a vontade de servir Deus, infinitamente bom e amável, que deve nos animar e nos dispor ao combate. A Igreja nos fala na liturgia de hoje da caridade. São a cruz e a oração simples – mas eficaz – do cego que nos são lembradas pelo Evangelho. É a caridade – absolutamente necessária – que nos lembra São Paulo no sublime elogio da caridade. Mas para não se enganar a respeito de seu próprio defeito dominante, é necessário pedir o auxílio de Deus, para que Ele mostre qual é esse defeito. Convém muitíssimo nesse propósito pedir o auxílio de Nossa Senhora das Dores, pois sob esse título Ela revela os corações dos homens. Convém também pedir conselho a um Padre que conheça mais profundamente a sua alma.

Se, conseguirmos vencer, caros católicos, ou ao menos começar uma batalha séria contra nosso vício dominante, o caminho da santidade estará bem traçado, pois dessa forma cortamos o mal pela raiz, cortamos o mal em sua causa e evitaremos muitos frutos ruins, que são os pecados. Com essa má árvore cortada, poderemos praticar com facilidade e alegria a virtude e o bem, avançando no caminho da perfeição. Não devemos nos iludir para não desanimarmos nesse combate contra o nosso defeito dominante. Não venceremos nosso defeito em quarenta dias. Defeito que é, muitas vezes, decorrente do nosso temperamento e reforçado pelas nossas ações ao longo de tantos anos. Para vencê-lo será preciso a graça, muito esforço e um bom tempo. Tomemos como exemplo São Francisco de Sales, de quem se diz que passou praticamente toda a sua vida combatendo o pecado da ira. Combatamos, portanto, firmemente e Deus nos dará a vitória.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

[Sermão] Sentido Espiritual das Cerimônias da Missa – Parte 15: O Cânon Romano VIII – Nobis Quoque peccatoribus e doxologia

Sermão para o Domingo da Sexagésima

04.02.2018 – Padre Daniel Pinheiro, IBP

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Ave Maria…

Nesse domingo da Sexagésima, continuemos a tratar do sentido espiritual das cerimônias da Missa no Rito Romano Tradicional. Chegamos agora ao final do Cânon Romano, esse profundíssimo tesouro da tradição católica, expressão perfeita da fé católica e obra sublime de espiritualidade católica. O padre, tendo pedido pelos fiéis defuntos no Memento dos mortos, volta-se agora para si mesmo e para os fiéis, para pedir a misericórdia de Deus, mostrando mais uma vez que a Santa Missa, de fato, nos obtém a misericórdia divina.

O sacerdote reza, então, o Nobis quoque peccatoribus. Assim começa a oração: A nós também, pecadores, vossos servos, esperando na multidão de vossas misericórdias, dignai-vos conceder alguma parte e sociedade com vossos santos apóstolos e mártires. As três palavras, Nobis quoque pecatoribus (A nós também, pecadores), o padre diz elevando um pouco a voz. São as únicas palavras do Cânon Romano ditas em voz um pouco mais alta, todo o resto sendo dito em voz baixa. Portanto, as únicas palavras do Cânon ditas em voz alta são para reconhecer que somos pecadores. O Padre reconhece em primeiro lugar os seus próprios pecados. E,1 junto com seus pecados pessoais, reconhece também o pecado dos fiéis.

Devemos assinalar aqui essa consciência do pecado que permeia todo a Santa Missa no Rito Romano Tradicional. Com muita frequência o padre reconhece os seus pecados e os pecados do povo. E, ao fazer isso, invoca a misericórdia de Deus, pedindo perdão pelas suas faltas e de todos os fiéis. Essa consciência do pecado muito bem expressa e manifesta no Rito Tradicional da Missa é algo muito importante para a nossa vida espiritual. Aquele que diz não ter pecados é mentiroso, nos diz São João. É importante para a vida espiritual porque o primeiro passo para nos convertemos a Deus é que reconheçamos os nossos pecados, para podermos evitá-los, deixá-los completamente. O Rito Tradicional da Missa reconhece muito bem que somos pecadores. Para citar alguns exemplos desse reconhecimento. No início da Missa, o padre diz o seu confiteor primeiro e sozinho para reconhecer os seus pecados veniais. Os fiéis recitam o confiteor em seguida. O Padre implora o perdão de seus pecados nas duas orações que faz em silêncio ao subir ao altar após as orações ao pé do altar. O Padre invoca nove vezes a misericórdia da Santíssima Trindade no Kyrie. No ofertório da hóstia, o padre reconhece que é um servo indigno e oferece o sacrifício pelos inumeráveis pecados, ofensas e negligências. Implora a clemência de Deus no ofertório do cálice. Essas três palavras ditas em voz alta no Cânon Nobis quoque peccatoribus. Antes da comunhão, os fiéis recitam novamente o confiteor e três vezes o Domine non sum dignus. Portanto, reconhecemos abundantemente os nossos pecados na Missa Tridentina. Reconhecemos para pedir perdão a deus e com o propósito de abandoná-los efetivamente. Infelizmente, no rito novo da Missa, várias dessas orações desapareceram ou foram bem atenuadas. No rito novo, tem-se apenas um confiteor no início da Missa (quando se tem o confiteor no ato penitencial), há apenas seis vezes o Kyrie. As orações que o padre recita subindo ao altar não existem mais. As orações do ofertório foram completamente alteradas. O Nobis quoque peccatoribus só está presente na oração eucarística I do rito novo, que é raramente utilizada e fica diluída porque todas as orações são ditas em voz alta. O Domine non sum dignus é dito apenas uma vez. Isso apenas para citar alguns pontos. O rito romano tradicional nos traz essa consciência do pecado acompanhada do pedido de misericórdia. Seríamos levados ao desespero se reconhecêssemos nossos pecados e não invocássemos a misericórdia de Deus. Seríamos levados à presunção de nos salvarmos sem abandonar os nossos pecados, se invocássemos a misericórdia de Deus sem reconhecer nossas faltas.

Com um pouco de bom senso, podemos perceber que vivemos em uma sociedade que não tem mais a mínima consciência do pecado, é a cultura da indiferença ao pecado. Não há mais certo e errado, virtude e vício, pecado e boas obras. Essa cultura da indiferença quanto ao pecado vem do fato de que o rito dominante em nossa sociedade não exprime mais tão bem o fato de que somos pecadores. O rito novo da Missa, infelizmente, atenuou muito essa consciência do pecado, influenciando assim a nossa cultura. Lembremo-nos que cultura vem do latim cultus, pois a cultura de uma sociedade é formada principalmente a partir do culto dominante na sociedade. Se o culto, se a Missa diminui muito a expressão do fato de que somos pecadores, a cultura será de indiferença ao pecado. E assim vivemos nessa cultura já faz praticamente 50 anos.

Consideremos, caros católicos, como essa oração do Nobis quoque peccatoribus é também humilde. O Padre ousa pedir somente alguma parte e sociedade com os santos e mártires. Reconhecendo-se pecador, mas confiando na abundância da misericórdia, pede ao menos alguma parte, ainda que ocupe a menor posição entre os santos.

A oração do Nobis quoque peccatoribus continua citando 15 mártires, 8 homens e 7 mulheres. Todos esses mártires eram objeto de grande devoção em Roma. O João aqui mencionado é São João Batista. Em seguida, Santo Estêvão, diácono e primeiro mártir propriamente dito. Matias é o escolhido para substituir Judas Iscariotes, o traidor. São Barnabé, companheiro de São Paulo no apostolado. Santo Inácio de Antioquia, discípulo de São João e segundo sucessor de São Pedro na Sé de Antioquia. Santo Alexandre I, papa e mártir. São Marcelino, padre e São Pedro, exorcista, martirizados sob Diocleciano. Santa Felicidade e Santa Perpétua, mártires de Cartago. Santa Ágata e Santa Cecília, mártires da Sicília. Santa Inês, muito jovem mártir romana, bem como Santa Cecília, que converteu seu marido e seu cunhado a Cristo. Santa Anastásia, viúva e mártir romana.

E conclui a oração pedindo que Deus nos admita no consórcio na comunhão desses santos e de todos os santos não considerando os nossos méritos, mas a sua indulgência. Belíssima oração a do Nobis quoque peccatoribus que se conclui com as palavras “por Cristo, Senhor Nosso” sem o amém.

Em seguida o Padre lembra que é por Cristo que Deus cria todas as coisas, as santifica, vivifica e abençoa para a nossa utilidade. A oração pode ter um caráter geral, mas especificamente se refereàs espécies consagradas. Ela se refere ao pão e ao vinho, criaturas de Deus, e que se transformaram no corpo e no sangue de Cristo em virtude sua obra de redenção. O sinal da cruz é feito três vezes, para nos lembrar que é pela cruz de Cristo que temos a Missa, que é pela cruz de Cristo que o pão e o vinho se transformaram em seu corpo e em seu sangue durante a Missa. Nosso Senhor Santifica o pão e o vinho usados na Missa separando-os do uso profano. Ele os vivifica pela consagração, fazendo deles Seu Corpo e seu Sangue, que têm a vida, que são fonte da vida sobrenatural. Ele os abençoa, pois uma vez que foram transubstanciados no corpo e sangue de Cristo são fonte de toda a bênção celeste. Assim, a santificação significa a preparação do sacrifício da Missa pela separação do pão e do vinho. A vivificação é a transubstanciação que ocorre na consagração. A bênção é a abundância de bênção que deriva do Corpo e do Sangue de Cristo.

Finalmente, chegamos à conclusão do Cânon Romano, com a doxologia. Por Ele, com Ele e nEle, a Vós, Deus Pai onipotente, na unidade do Espírito Santo, toda honra e toda glória. Por Ele: devemos sempre passar por Cristo, é Ele o único caminho. Devemos, então, fazer tudo por Cristo. Todavia, não basta fazer as coisas por meio de Cristo, é preciso fazer com Ele, em união profunda com Nosso Senhor, sendo nós membros de seu Corpo Místico.  E devemos ir além fazendo tudo nEle, nos identificando a Ele em um mesmo querer e em um mesmo não querer, de forma que já seja Cristo que viva em nós, como diz São Paulo. Essas palavras nos mostram que podemos dar honra e glória a Deus somente por meio de Cristo, unidos a Ele. Não há outro caminho possível para agradar a Deus.

Ao dizer per ipsum, et cum ipso et in ipso, o padre faz três vezes o sinal da cruz com a hóstia sobre o cálice, quase unindo o Corpo e o sangue de Cristo, pois se fala dEle aqui. Ao citar Deus Pai e o Espírito Santo, o padre faz duas vezes o sinal da cruz fora do cálice, entre o cálice e o seu próprio corpo. Finalmente, faz a pequena elevação, elevando um pouco sobre o altar a hóstia e o cálice, mostrando que é Cristo que é oferecido à Deus, que é Cristo que dá toda honra e toda glória a Deus.

O Padre conclui em voz alta com as palavras: per omnia saecula saeculorum, por todos os séculos dos séculos. De fato, a honra e a glória que Cristo dá a Deus é eterna, sem fim. A glória que todo homem deu, dá ou dará a Deus, é por Cristo, com Cristo e em Cristo. O Padre fala essas palavras em voz alta, assinalando a conclusão do Cânon Romano e para que os fiéis possam dar a sua adesão a tudo o que ocorreu respondendo “Amém”. É a confissão de fé em tudo o que acabou de acontecer sobre o altar, ou seja, os fiéis reconhecem efetivamente que o sacrifício de Cristo foi renovado sobre o altar. É a adesão de alma a todas as orações recitadas pelo padre. É a manifestação do desejo de se oferecer a si mesmo com Cristo.

Caros católicos, tenhamos um grande amor pelo Cânon Romano, formado por Cristo nos primeiros séculos de sua Igreja. O Cânon tão venerável, com praticamente 1500 anos. Quantos santos assim se santificaram, com essas orações que exalam a sã doutrina da Igreja de Cristo e perfeita espiritualidade católica. Unamo-nos com toda nossa alma a essas orações do Cânon quando o padre as recita durante a Santa Missa.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.