[Aviso] 1ª Sexta-Feira, Conferência e outros avisos

Transmitimos os avisos do Padre Daniel Pinheiro, IBP:

  1. Hoje, 03/03, 1ª sexta-feira do Mês. Hora Santa das 19h00 às 20h00. Santa Missa às 20h00.
  2. Hoje, 03/03, após a Missa, Conferência da Quaresma sobre Nossa Senhora. de Fátima.
  3. Amanhã, 04/03, 1º sábado do mês. Missa às 8h30.
  4. Amanhã, 04/03, não haverá a aula de História da Igreja. Será passado o documentário sobre as ordenações do IBP no Brasil.

[Sermão] Quarta-Feira de Cinzas: Quaresma é o tempo favorável

Sermão para a Quarta-Feira de Cinzas

01/03/2017 – Padre Daniel Pinheiro, IBP

 

[Sermão] Somos pó. As criaturas são menos que pó. Amemos a Deus.

[Sermão] Quarta-Feira de Cinzas: A morte e quais e como devem ser nossas práticas quaresmais

[Sermão] Programa para a Quaresma: a Cruz, a caridade, a oração e a batalha contra o defeito dominante (nova versão)

[Sermão] Quaresma: Tempo de misericórdia e de graças

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Ave Maria…

Caros católicos, entramos hoje na solenidade das penitências da Quaresma. É um tempo de graça, um tempo de misericórdia, um tempo favorável para nos voltarmos ao Senhor para que Ele se volte para nós. Não sejamos infiéis às graças que Deus quer nos conceder nesse tempo: graça de contrição de nossos pecados, graça para vencermos os nossos pecados, graças de crescimento nas virtudes, graça de amar a Deus mais profundamente.

É tempo de graça, tempo de misericórdia. É tempo de reparar pelos nossos pecados, de combater seriamente os nossos pecados atuais, abandonando completamente qualquer pecado mortal, lutando com vigor mesmo contra os pecados veniais. É tempo de voltar-nos ao nosso Criador e Salvador com todo o nosso coração. É hora de juntar tesouros que não passam. É hora de colocar o nosso coração onde está o nosso único tesouro, no céu, em Deus. Se levarmos a sério esse tempo de graça da Quaresma para nos convertermos, encontraremos dificuldades, tentações, mas, se perseverarmos firme, receberemos graças em abundância. Que ao final da Quaresma, possamos dizer: Senhor, pela vossa graça, cresci no amor a Vós.

Não devemos esquecer também que o tempo da Quaresma é um tempo de graça porque Deus inclina o ouvido de sua misericórdia para as nossas preces, se levarmos a sério as nossas resoluções e, principalmente, se levarmos a sério o propósito de nos converter a Deus empregando realmente os meios para isso. A Quaresma é tempo favorável para rogar a Deus, para que me dê a graça a fim de que deixe o pecado ou os pecados que mais me atrapalham. É o tempo favorável para pedir a Deus a graça para que possamos carregar bem as nossas cruzes. É o tempo favorável para implorar a Deus a nossa conversão. Não somente da boca para fora, mas com vontade resoluta, sem medo de fazer tudo o que for necessário para me converter, sem medo de abandonar tudo o que seja necessário para me converter. O único necessário é viver em união com Deus. A única coisa que vale a pena é Deus. De nada vale ganhar o mundo inteiro, se eu vier a perder a minha alma. Se não devo perder a minha alma pelo mundo inteiro, quanto mais por esse ou aquele pecado… Devo perder tudo, para tudo ganhar, nos diz Santo Afonso de Ligório. Devo deixar tudo o que me afaste de Deus, para tudo ganhar, para ganhar a união cada vez mais íntima com Ele, para ganhar o paraíso. Emendar-me, com a graça de Deus. Isso exigirá um sofrimento, uma certa violência comigo mesmo, mas tudo ganharei. Esse é o tempo favorável. Esse é o tempo da graça. Esse é tempo da benigna misericórdia de Deus. Elevemos a Deus a nossa penitência com a nossa oração, com a nossa vontade firme de nos voltarmos a Ele. Tenhamos nosso coração nos bens eternos. Aquele que medita dia e noite na lei do Senhor, dará a seu tempo fruto abundante, nos diz o Salmo da antífona da comunhão de hoje. Que essa Quaresma não seja apenas um nome ou um tempo. Que essa Quaresma seja o marco de nossa conversão a Deus.

Que não aconteça que, querendo encontrar depois o tempo para fazer penitência e nos converter a Deus, não o encontremos, surpreendidos pela morte. Memento homo. Lembrai-vos, homem, que és pó e ao pó retornarás. As coisas do mundo são também pó. Os nossos pecados são pó. Só Deus é eterno.

Em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Amém

[Aviso] Importante: Resoluções de Quaresma e Jejum e abstinência na Quarta-Feira de Cinzas.

1.Jejum e abstinência na Quarta-Feira de Cinzas.

Quarta-feira de Cinzas é dia de jejum e abstinência. Abstinência de carne é como toda sexta-feira do ano. Jejum é fazer uma só refeição completa no dia, em geral, no almoço. Além dessa refeição normal, duas colações são possíveis. As duas colações juntas não podem, porém, dar uma refeição completa. E nada se deve comer fora do horário da refeição e das duas colações. Um certo incômodo é normal, mas se alguém começa a passar mal, deve comer. A abstinência obriga a partir dos 14 anos em diante. O jejum obriga dos 18 anos até os 60 anos começados.

 

2. Resoluções para a Quaresma.

Em geral, na Quaresma, devemos ter resoluções em três frentes.

  1. Primeiramente frente: oração. Por exemplo, rezar o terço todos os dias (se ainda não faço), ou rezar a via-sacra alguns dias da semana (definir os dias), ou rezar a coroa das dores de Nossa Senhora, fazer uma boa leitura espiritual (sólida e segura).
  2. Segunda frente: penitência. Por exemplo, pode ser ao relacionado à comida, mas pode ser também com relação à internet, a redes sociais, a whatsapp, todas essas coisas que, de modo geral, nos atrapalham bastante na vida espiritual, se não são muito bem reguladas, o que é difícil de fazer. Pode ser também com relação a assistir futebol (esporte em geral) ou ver notícias disso para os homens, o que faz perder um tempo imenso com futilidade. Para as mulheres, deixar, por exemplo, de buscar informações fúteis sobre outras pessoas na internet e fora dela. E são coisas que podem durar depois da Quaresma.
  3. Terceira frente: a caridade para com o próximo. Sobretudo no seio da família. Fazer algum bem material ou espiritual ao próximo, ter mais paciência com o próximo (marido com esposa e vice-versa), evitar falar mal do próximo, rezar por pessoas específicas e com maior intensidade, rezar por quem nos fez algum mal.

Três frentes: oração, penitência, caridade. Escolher algo bem determinado e concreto em cada uma dessas frentes. E combater seriamente todo pecado, sobretudo o que mais nos atrapalha na união com Deus.

E que se façam os propósitos por amor a Deus, para avançar na santidade, na virtude e também em reparação pelos nossos pecados. Assim, receberemos graças abundantes na Quaresma, na Páscoa e ao longo da vida. As resoluções de Quaresma não obrigam, por si, sob pena de pecado.

[Sermão] História das Heresias III: nestorianismo, monofisismo e monotelismo

Sermão para o Domingo da Quinquagésima

26.02.2017 – Padre Daniel Pinheiro, IBP

Em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Amém.

 

Caros católicos, continuemos ainda hoje a nossa brevíssima história das heresias. Antes de tratar das heresias, convém uma breve recordação da verdadeira doutrina sobre Nosso Senhor Jesus Cristo. Nosso Senhor Jesus Cristo é o Verbo encarnado. Ele é verdadeiramente homem e verdadeiramente Deus. Se é verdadeiramente homem, isso significa que Ele tem uma natureza humana completa, em tudo semelhante à nossa, exceto o pecado e o que o conduz ao pecado, como más inclinações, por exemplo. Ele é também verdadeiramente Deus, Deus de Deus, Luz da Luz, Deus Verdadeiro de Deus Verdadeiro. Lembremo-nos de que para a nossa redenção, é preciso que Cristo seja Deus e homem. Sendo Deus, suas ações têm um valor infinitamente bom, reparando, satisfazendo a ofensa infinita de nossos pecados e merecendo infinitamente. Sendo homem, Ele é a nossa cabeça e podemos ser membros dEle, para satisfazer pelos nossos pecados e alcançar as graças divinas.

Em Nosso Senhor, as duas naturezas, a humana e a divina, estão unidas na pessoa do Verbo, isto é, na pessoa divina. Isso significa que a pessoa de Cristo é uma pessoa divina. As ações de Cristo, quaisquer que sejam elas, são ações de uma pessoa divina, pois as ações são sempre de uma pessoa. Quando Cristo, em virtude de sua humanidade, chora, podemos dizer que Deus chora, pois as ações não são de uma natureza, mas da pessoa, que é divina em Cristo. Quando Cristo, em virtude de sua natureza humana, teve cansaço e sentou à beira do poço na região da Samaria, podemos dizer que Deus esteve cansado, pois as ações se atribuem à pessoa de Cristo, que é divina. Essa união das duas naturezas na pessoa do Verbo chama-se união hipostática. Assim, em Cristo há duas naturezas – a humana e a divina -, mas uma só pessoa, a divina. E a união das duas naturezas se faz na pessoa divina. E, como diz o Concílio de Calcedônia, existe a união entre as duas naturezas, mas sem confusão entre elas. E as duas naturezas permanecem distintas, mas não separadas.

Passemos às heresias. Na primeira metade do século V, surgiu a heresia do nestorianismo, que tira seu nome do Bispo de Constantinopla, Nestório, que assumiu essa diocese em 428. Nestório começou a afirmar que em Cristo havia duas pessoas, a humana e a divina, e que o Verbo habitava na natureza humana de Cristo, como em um templo. Dessa forma, Cristo assemelhava-se simplesmente a um homem em estado de graça, talvez no grau mais elevado, mas simplesmente um homem em estado de graça. Se houvesse as duas pessoas em Cristo, não seria possível falar que Cristo é homem e Deus. Cristo seria apenas homem, no fundo. Essa heresia de Nestório ganhou maior visibilidade quando ele passou a negar a Nossa Senhora o título de Mãe de Deus. Essa negação era natural, já que ele negava, no fundo, a divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo. Na verdade, Nossa Senhora, deu à luz Jesus Cristo, homem e Deus, e pessoa divina. Ela pode ser chamada verdadeiramente de Mãe de Deus, consequentemente. São Cirilo de Alexandria foi o Bispo que mais se opôs a Nestório, condenado no Concílio de Éfeso (431), que reafirmou solenemente Nossa Senhora como Mãe de Deus.

Pouco tempo depois, em 446, um velho abade chamado Eutiques, em reação a Nestório, caiu no erro contrário. Passou a afirmar que em Jesus Cristo havia apenas uma natureza: a divina. É a heresia do monofisismo, que significa uma natureza. Deturpando algumas palavras de São Cirilo de Alexandria, os monofisitas negavam a natureza humana de Cristo. Mais uma vez é toda a obra da redenção colocada a perder com essa heresia. Eutiques, de baixa capacidade intelectual, tinha uma considerável influência política. Conseguiu que o imperador reunisse um outro Concílio, também em Éfeso, em 449. O Papa São Leão Magno chegou a enviar legados e uma carta com a boa doutrina, chamada de Tomo de São Leão. Nesse Concílio, todos os bispos que tinham condenado o monofisismo começaram a ser excluídos e foram ameaçados com deposições, exílios e até morte. O herege Eutiques foi restaurado como abade enquanto os bispos que tinham guardado a fé, como Flaviano e Teodoreto, foram depostos. Flaviano foi preso e tão maltratado que morreu. Muitas vezes, as duas formas de perseguir a Igreja se unem. Esse Concílio aprovou a doutrina herética do monofisismo. São Leão Magno e os Papas seguintes nunca aprovaram esse Concílio, que passou para a história como o Latrocínio de Éfeso, tamanhos os absurdos que nele ocorreram. A heresia monofisita será condenada em um concílio legítimo, o Concílio de Calcedônia, que restabeleceu claramente a doutrina: união das duas naturezas em Cristo, mas sem confusão entre elas, e distinção das duas naturezas, mas sem separação. E essa união se faz na pessoa do Verbo. O Concílio de Calcedônia ocorreu em 451.  O monofisismo chegou a conhecer uma ampla difusão, sobretudo por sua roupagem mística que atraiu muita gente, dando origem a várias seitas.

Dependente do monofisismo, surgiu uma outra heresia em meados do século VII, chamada de monotelismo. O monotelismo não chegava a negar a natureza humana de Cristo, mas negava que em Cristo houvesse uma vontade humana. Essa heresia mutila a natureza humana de Cristo, negando-lhe a vontade humana. A heresia do monotelismo é uma espécie de semi-monofisismo. O monotelismo foi favorecido pelo desejo de pacificação que tinha o Imperador Heráclio, pois no império ainda reinava a discórdia em virtude das inúmeras seitas monofisitas. Como dissemos no sermão anterior, muitas vezes o desejo de falsa pacificação termina levando à aceitação da semi-heresia, de uma heresia atenuada, mas que, na realidade, é tão heresia quanto a heresia mais escancarada. Muitas vezes se quer reduzir tudo a uma mera questão de grupos, como se não estivesse a verdade em questão. Sérgio, patriarca de Constantinopla, homem mais da política que da Igreja, realizou os desejos do imperador propondo um texto que pretendia conciliar a doutrina católica com a heresia monofisita por meio do monotelismo, em que cada um cederia um pouco. Os católicos poderiam continuar afirmando a natureza humana de Cristo, mas teriam que negar a existência de sua vontade humana. Os monofisitas teriam que reconhecer a natureza humana de Cristo, mas poderiam negar a sua vontade humana. Os católicos não podiam aceitar isso, evidentemente. O monotelismo foi condenado pelo Papa São Martinho I em 649 e também pelo terceiro Concílio de Constantinopla em 680. Foi reafirmada a natureza humana íntegra de Cristo, com uma vontade humana, mas inteiramente submissa à vontade divina, evidentemente.

Com o monotelismo, terminam-se as chamadas heresias cristológicas mais diretas. Umas negavam a divindade de Cristo, outras a sua humanidade. Todas tornavam impossível a redenção, como já falamos.

Confessemos a humanidade e a divindade de Cristo. Ele é o Verbo Encarnado. O Filho de Deus que se fez homem. Como diz São João: Deus amou tanto o mundo que deu Seu próprio Filho, para todo o que crê nEle não pereça, mas tenha a vida eterna. Nosso Senhor Jesus Cristo é o Filho bem-amado do Pai, em quem Ele colocou todas as suas complacências. Façamos o que Ele nos manda, sobretudo nesse tempo de Quaresma que irá se iniciar.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

[Aviso] 40 horas de Adoração ao Santíssimo Sacramento em reparação pelos pecados do carnaval

Todos estão convidados a adorar o Santíssimo Sacramento nesse tempo de carnaval em que o Sagrado Coração de Jesus é tão ofendido. E em que também o Imaculado Coração de Maria é ofendido.

Os mundanos não medem esforços para cometer pecados. Não meçamos esforços para reparar por esses pecados e pelos nossos.

Na Capela Nossa Senhora das Dores, haverá a tradicional devoção das 40 horas de Adoração ao Santíssimo Sacramento em reparação pelos pecados cometidos no carnaval. 

A Exposição do Santíssimo, com Procissão, Ladainha de Todos os Santos e Orações será ao final da Missa de 10h00 do domingo, 26/02.

O encerramento, com a Ladainha de Todos os Santos, Procissão, Bênção do Santíssimo Sacramento e Reposição será ao final da Missa de terça-feira, 28/02, que tem início às 10h00.

Veja abaixo o calendário a partir do Domingo da Quinquagésima, quando têm início as 40 horas.

40-horas

[Sermão] História das heresias II: arianismo, apolinarismo, donatismo, pelagianismo

Sermão para o Domingo da Sexagésima

19.02.2017 – Pe Daniel Pinheiro, IBP

 

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Ave Maria…

Como dissemos há três domingos, a história da Igreja se assemelha àquela barca em meio à tempestade agitada. A Igreja é perseguida, ao longo de sua história, às vezes com violência externa, física. E, muitas vezes, pelos erros contra a fé, as heresias, que, em geral, perdem mais almas do que a perseguição física, violenta. Vimos como é importante conhecer um pouco essas heresias para evitarmos a queda nelas, pois os erros com bastante frequência reaparecem revestidos com nova roupagem, ou com algumas atenuações, mas que não lhes tiram a condição de erro.

Chegamos, então, ao início do século quarto, momento em que surge a heresia ariana, que tira o seu nome de Arius, padre da cidade de Alexandria que havia feito seus estudos em Antioquia. A heresia ariana nega a divindade do Verbo, afirmando que o Verbo tem natureza inferior ao Pai. Assim, para o heresiarca Arius, o Verbo é filho de Deus Pai não em sentido próprio e natural, mas somente adotivo. Nega, então, a divindade de Cristo, que é o Verbo Encarnado. Negar a divindade do Verbo e negar, consequentemente, a divindade de Cristo é destruir a redenção operada por Nosso Senhor Jesus Cristo. Jesus Cristo nos redimiu por ser verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem. Sendo Deus, suas ações têm valor meritório infinito. Sendo homem, Ele é a nossa cabeça e repara em nosso nome. Se a divindade de Cristo é negada, e ele é uma criatura, suas ações são limitadas, finitas, não sendo suficientes para satisfazer pelos nossos pecados, que são uma ofensa infinita a Deus. Não haveria, então, redenção. Se Cristo não fosse homem, ele não agiria como nosso mediador, como nossa cabeça e também não haveria redenção. Portanto, negar a divindade ou a humanidade de Cristo, é destruir a nossa redenção, a nossa salvação. E são inúmeras as heresias que negam uma coisa ou outra. A heresia de Arius negava a divindade de Cristo e a trindade das pessoas divinas, e decorria de alguns erros precedentes, como a heresia gnóstica e o adocionismo, por exemplo.

Arius foi condenado pelo seu Bispo em Alexandria e pelo Concílio de Nicéia, o primeiro Concílio Ecumênico depois do chamado Concílio de Jerusalém, feito pelos apóstolos para resolver a questão dos judaizantes. No Concílio de Nicéia, em 325, ficou estabelecido que o Verbo é consubstancial ao Pai, quer dizer, que Ele tem a mesma natureza divina de Deus Pai. E assim cantamos ainda hoje na Missa, durante o Credo. Todavia, Arius continuou a propagar os seus erros com suas composições literárias, chamadas de Thalia, um misto de poesia e prosa para o povo. Interessante notar como já se propagavam os erros por esses meios artísticos e culturais. Ainda hoje se faz isso e com muita abundância. Erros contra a fé e contra a moral são espalhados, por exemplo, por meio de romances, músicas, filmes, desenhos, jogos… E muitos ingenuamente acham que essas coisas são inofensivas por definição. Na esmagadora maioria dos casos, não são inofensivas.

Mesmo depois da condenação pelo Concílio de Nicéia, o arianismo continuou sendo afirmado por inúmeros clérigos – incluindo padres e bispos -, professado também por grande parte do povo e alcançou difusão enorme. O imperador romano da época, Constantino, chegou, em determinado momento, a favorecer essa heresia. Os arianos passaram a se esconder atrás do semi-arianismo, após o Concílio. No lugar de negar claramente a divindade do Verbo, passaram a afirmar que o Verbo é semelhante ao Pai. Outros passaram a dizer que o Verbo é de substância semelhante ao Pai. Ou seja, não afirmavam que o Verbo era da mesma substância que o Pai, consubstancial ao Pai. Era um jeito light de favorecer a heresia, procurando atenuá-la. Depois de uma heresia, em geral, surge a heresia em forma atenuada, a semi-heresia, que muitas vezes causa mais estragos do que a heresia plenamente afirmada. A principal figura contra a heresia ariana foi Santo Atanásio.

Outra heresia de meados do século IV é o apolinarismo. Apolinário, Bispo de Laodicéia afirma a natureza divina de Cristo, mas nega uma natureza humana completa em Cristo. Apolinário afirmava que Cristo tinha uma natureza humana composta somente de corpo e de uma alma sensível, isto é, Cristo não tinha uma inteligência humana nem uma vontade humana, mas o próprio Verbo exercia essas funções em Cristo. Temos aqui o erro contrário ao arianismo: a negação de uma verdadeira natureza humana em Cristo. Sem uma inteligência e uma vontade humanas, não se pode falar de verdadeira natureza humana. Sem a natureza humana completa e verdadeira, Cristo não poderia também nos salvar. O erro de Apolinário também impediria a nossa redenção. A teoria de Apolinário é uma reação exagerada ao arianismo. Querendo afirmar a divindade de Cristo, termina por negar a Cristo uma verdadeira natureza humana. Apolinário foi deposto e condenado pelo Papa Damásio em 377 e 382.

Ainda no século IV surgiu também o erro donatista, que tira seu nome de Donato, grande organizador dessa heresia. O donatismo afirma que a validade dos sacramentos depende da santidade do ministro do sacramento. Dizem, então, que se o ministro estiver privado da graça, se ele se encontra em pecado mortal, o sacramento seria inválido. Isso é falso. A validade do sacramento, na verdade, não depende da santidade do ministro que o administra. A graça transmitida no sacramento não é a graça do ministro, mas de Cristo. Até mesmo um herege pode batizar validamente, por exemplo, se ele batiza com água, dizendo as palavras corretas do Batismo e querendo fazer o que a Igreja faz, ainda que ele tenha uma concepção errada do que a Igreja faz. Um padre em pecado confessa e absolve os pecados validamente, se as outras condições são observadas. O donatismo está ligado ao rigorismo dos montanistas, de que falamos no sermão precedente sobre as heresias.

Já no século V, a Igreja é agitada pela heresia do pelagianismo, difundida particularmente pelo monge bretão Pelágio. O pelagianismo é uma heresia que afirma o naturalismo, quer dizer, afirma que o homem pelas suas próprias forças naturais, sem o auxílio da graça de Deus, pode evitar todo pecado e conquistar o céu, ver Deus face a face. O que é absurdo pois ver Deus face a face é sobrenatural, está acima de nossa natureza, de suas exigências e forças. Pelágio afirma, então, que pelas nossas simples forças naturais nós podemos chegar acima da nossa natureza, o que é contraditório. Os erros do pelagianismo são: i) afirmar que o pecado de Adão, o pecado original, prejudicou somente ao próprio Adão e afirmar que o pecado de Adão não se transmite aos seus descendentes; ii) afirmar que as crianças nascem sem o pecado original, portanto inocentes e unidas a Deus; iii) afirmar que as crianças mortas sem o batismo alcançam a vida eterna; iv) afirmar que o homem com as suas forças naturais e com a sua liberdade pode evitar todo pecado e alcançar a visão beatífica; v) afirmar que a graça de Deus não é necessária para evitar o pecado, para nos manter unidos a Deus e para chegar à vida eterna; vi) afirmar que a graça de Cristo é somente o seu exemplo; vii) afirmar que a redenção não é a regeneração do homem pela graça de Deus na alma, mas que a redenção é um chamado para uma vida mais elevada a ser conquistada com as próprias forças.

O pelagianismo é um humanismo, de um otimismo irracional. Modernamente, foi retomado por Rousseau, por exemplo, com o seu mito do bom selvagem. É retomado também nos sistemas de educação que deixam a criança (ou o jovem) entregue a si mesma. O pelagianismo é a destruição completa da ordem sobrenatural. Qualquer um sabe, por experiência própria e alheia, que o homem nasce com as feridas do pecado original, com inclinação para o erro, para mal (bem aparente), para uma deleitação desordenada dos bens sensíveis. Qualquer um sabe que, pelas suas próprias forças, não consegue vencer de modo duradouro o pecado, ainda menos todo pecado. O pelagianismo esvazia a redenção feita por Nosso Senhor Jesus Cristo, colocando-o simplesmente como exemplo e não como a cabeça de um corpo místico que transmite o vigor para os membros do corpo. Para o pelagianismo, é o homem que se redime a si mesmo, com as suas próprias forças. A ajuda divina nem é necessária para eles. Santo Agostinho combateu veemente o erro pelagiano, reconhecendo a sua gravidade ao abandonar o homem a si mesmo, ao negar a redenção de Cristo. Na verdade, a redenção se faz pela graça de Deus unida à cooperação do homem a essa mesma graça. O pelagianismo foi condenado inúmeras vezes pela Igreja. Por exemplo, no Concílio de Éfeso.

Depois do pelagianismo, surge o semi-pelagianismo. Mais uma vez, a semi-heresia, que tenta fazer uma certa síntese entre a heresia e a verdade. A síntese entre o erro e a verdade só pode ser ela mesma um erro. Mas a heresia mitigada e mais misturada com a verdade engana mais facilmente as pessoas e atrai muitas vezes aquelas que estão cansadas da oposição ao erro e buscam uma via de conciliação, de pacificação. Por isso, a semi-heresia tende a conquistar, muitas vezes, mais adeptos. Mas lembremos sempre: a mistura de erro e verdade é sempre um erro. O semi-pelagianismo afirma que não se requer a graça para começar a ter fé ou para começar a se santificar, mas somente para completar a fé e a santificação. Afirma também que a perseverança final é fruto simplesmente de nossos méritos.  Ao contrário, a verdade é que a graça é necessária para qualquer ato, mesmo inicial, da vida sobrenatural. A fé e a santificação, mesmo no seu primeiro início, só podem existir com a graça de Deus. E sem a graça divina é impossível perseverar até a morte e alcançar a vida eterna. O semi-pelagianismo foi combatido, entre outros, por São Cesário de Arles. Foi condenado no Concílio de Orange, aprovado pelo Papa Bonifácio II.

Entre essas heresias, o arianismo, o donatismo e o pelagianismo chegaram a alcançar grande difusão. O arianismo e o pelagianismo também nas suas formas mitigadas. O combate dos católicos contra esses erros foi árduo, mas a verdade terminou triunfando. Para o arianismo, São Jerônimo diz que o mundo inteiro acordou com um gemido para encontrar-se ariano. A adesão ao erro foi imensa. Os arianos tinham mesmo a maior parte das igrejas, dos templos para o culto. Santo Atanásio, bispo de Alexandria exilado, escrevendo ao seu rebanho, dizia” eles, os hereges, têm as igrejas, os lugares de culto, mas que vocês têm a verdadeira fé que habita em vocês.” Também o donatismo chegou a cooptar vários bispos. O pelagianismo igualmente teve uma considerável penetração nos meios católicos.

Nos séculos quarto e quinto, os erros foram muitos e se apresentaram com vigor. A verdade, porém, triunfou. A defesa da fé, pelos que a guardaram, foi firme. Vale também a lição a propósito da semi-heresia, desse erro que se mistura com mais elementos de verdade para mais facilmente enganar. Essa síntese entre o erro e a heresia que atrai aqueles que desejam uma pacificação a todo preço, essa síntese que só pode ser ela mesma um erro. Vivemos nós uma imensa crise de fé. Não é só uma ou outra verdade de fé que é atacada ou negada, mas toda a religião católica com seu fundamento que é negada. E, muitas vezes, diante de tão imensa catástrofe é grande a tentação de aceitar erros menores. É grande a tentação de aceitar erros misturados com a verdade, a fim de encontrar apoio, a fim de encontrar uma certa pacificação. Nosso apoio não pode estar no erro, nem no menor deles. Nosso apoio deve estar na verdade, na verdade que nos foi revelada por Deus. A pacificação não pode também encontrar-se fora da verdade, fora de Nosso Senhor Jesus Cristo. Não se pode transigir ou negociar com a verdade, ainda mais com a verdade que nos foi revelada por Deus e que a Igreja Católica nos ensina.

Em nome do Pai…