[Sermão] Os princípios não negociáveis para os católicos na política

Sermão para o XIII Domingo depois de Pentecostes
07 de setembro de 2014 – Padre Daniel Pinheiro

 

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém. Ave Maria.

Caros católicos, hoje é dia 7 de setembro. Devemos procurar rezar de modo particular pelo nosso país.

Estamos às portas de mais uma eleição em nosso país. Surgem, então, as propostas de cada um dos candidatos, com relação aos mais variados temas. É doloroso, porém, constatar que os temas de capital importância para nosso país são deixados de lado ou rapidamente descartados sem muita discussão quando surgem. Como se fôssemos seres puramente materiais, o tema que mais ocupa o noticiário e os debates é o da economia, em uma visão reducionista do ser humano e da sociedade. A economia tem, claro, sua relevância, mas ela é bem inferior aos temas que dizem respeito aos fundamentos da nossa sociedade e que moldam o nosso país agora e no futuro.

Entre esses temas fundamentais estão os que o Papa Bento XVI havia chamado no seu pontificado de princípios não negociáveis para os católicos na política. O Papa mencionou três princípios não negociáveis, quer dizer, princípios que um católico não pode desconsiderar quando se trata de eleger um candidato, de votar. O primeiro deles é a proteção da vida inocente em todas as suas fases, desde o primeiro momento da concepção até sua morte natural. Nesse primeiro princípio, está claro que o Papa se refere ao aborto, à eutanásia e a outros assuntos conexos, como a pesquisa com células-tronco embrionárias. O aborto, como sabemos, é o assassinato do bebê ainda no ventre materno. A eutanásia é o assassinato de um doente, tirando dele os meios ordinários de sobrevivência ou matando-o simplesmente, com uma injeção ou algo do gênero. A pesquisa com células-tronco embrionárias é aquela que usa e mata os embriões, em geral fruto de inseminação artificial – inseminação artificial que é gravemente proibida pela Igreja Católica – para pesquisas nas mais diversas áreas ou simplesmente para se fazerem cosméticos. As pesquisas com células-tronco embrionárias são completamente ilícitas porque matam uma vida humana, e, além disso, têm mostrado pouquíssimos resultados. As pesquisas com células-tronco adultas, tiradas de órgãos de pessoas adultas não é ilícita e, essa sim, tem mostrado resultados. Deus faz as coisas bem feitas, caros católicos. Portanto, o primeiro ponto não negociável é a proteção da vida inocente em todas as suas fases, desde a concepção até sua morte natural.

O segundo ponto não negociável é a promoção da família natural, na verdade o único tipo de família que existe, com a união entre um só homem e uma só mulher pelo matrimônio indissolúvel. De modo particular, o católico deve defender a família diante das tentativas do reconhecimento legal de uniões de pessoa do mesmo sexo. Diz a nota doutrinal da Congregação para a Doutrina da Fé de 2003 sobre os projetos de reconhecimento legal das uniões entre pessoas homossexuais: “Em presença do reconhecimento legal das uniões homossexuais ou da equiparação legal das mesmas ao matrimónio, com acesso aos direitos próprios deste último, é um dever opor-se-lhe de modo claro e incisivo. Há que se abster de qualquer forma de cooperação formal na promulgação ou aplicação de leis tão gravemente injustas e, na medida do possível, abster-se também da cooperação material no plano da aplicação. Nesta matéria, cada qual pode reivindicar o direito à objecção de consciência.” Portanto, não se trata de se opor simplesmente ao “casamento” homossexual, mas trata-se de se opor a qualquer reconhecimento legal dessas uniões. No Brasil, um reconhecimento legal foi feito insidiosamente no Supremo Tribunal Federal e sua aplicação foi forçada pelo Conselho Nacional de Jusitça, à revelia da população majoritariamente contra.

Finalmente, o terceiro princípio não negociável mencionado por Bento XVI é o direito dos pais de educarem os filhos. A família antecede o Estado. Portanto, por direito natural cabe aos pais educar os filhos e não cabe ao Estado impor o que ele bem entende, como a ideologia do gênero ou o indiferentismo religioso, por exemplo. O Estado, com seus planos nacionais de educação, tem querido cada vez mais monopolizar a educação de nossas crianças e jovens, querendo obrigar a entrada na escola cada vez mais cedo, estendendo os horários, etc. A educação é direito e dever primeiramente dos pais, por lei natural.

Deve ser para todos evidente que uma sociedade em que os pais matam os filhos, em que os filhos matam os pais idosos, ou em que se mata uma vida inocente simplesmente para se poder viver com mais tranquilidade e sem ter tanto trabalho, é uma sociedade corrompida no seu fundamento. Uma sociedade que reconhece e legitima as uniões homossexuais, uniões que não se voltam para a perpetuação da espécie humana, uniões que não podem dar frutos, que não podem gerar vida, uniões que se opõem ao mais elementar dado da realidade, que é a complementaridade entre um homem e uma mulher – uma sociedade que reconhece e legitima essas uniões está corrompida no seu fundamento. Uma sociedade em que a família não é a principal educadora das crianças e dos jovens é também uma sociedade corrompida no seu fundamento. Pode até ser que tenha durante certo tempo uma prosperidade econômica, mas aquela prosperidade que realmente importa, que é a da virtude, já não existe. E uma sociedade corrompida moralmente a tal ponto está fadada a desaparecer e a ser castigada por Deus.

São esses os três princípios não negociáveis de que nos falava o Papa Bento XVI. É claro que os outros princípios da lei natural e da lei divina não podem ser negociados. Não se pode negociar o princípio, sempre afirmado pela Igreja, da impossibilidade de ser católico e socialista ou comunista ao mesmo tempo. Ou se é uma coisa ou outra. Não se pode negociar o princípio de que a Igreja católica é a verdadeira religião revelada por Deus e que, consequentemente, ela deva ser reconhecida como tal pelo Estado. E assim por diante. Nenhum princípio da fé, da Revelação ou da lei natural pode ser negociado. O que devemos destacar é que esses três princípios não negociáveis mencionados pelo Papa bento XVI estão realmente no fundamento de tudo, não só da sociedade civil, mas também da Igreja. Se uma sociedade cede em um desses três pontos, todo o resto automaticamente desmorona.

E esses três pontos de fundamental importância são completamente negligenciados pelos mais diversos candidatos. Os temas que realmente importam para a sociedade são silenciados, pois pode ser que a sociedade se dê conta desses gravíssimos erros e do suicídio que significam. Esses temas são silenciados porque os principais candidatos são favoráveis em maior ou menor escala a esses erros. Quando alguém ousa levantar algum desses temas e tratar deles devidamente, apontando os problemas e perigos gravíssimos, é logo tratado de fundamentalista religioso. De fundamentalismo religioso não há nada. Primeiro, são temas que dizem respeito à lei natural, independentemente da religião. Nossa razão compreende que não se pode matar um bebê, compreende que não se pode matar um doente. Nossa razão compreende que a união entre duas pessoas é em vista da procriação, da geração dos filhos. Nossa razão compreende que a família é a primeira sociedade onde se educam os filhos. E, ainda que fosse um tema estritamente religioso, é preciso dizer que a Igreja poderia afirmar e deveria reafirmar a sua doutrina, para, com a luz do Evangelho, evitar um grande mal para a sociedade.

Corremos o risco, caros católicos, de ver nosso país se afundar cada vez mais em um socialismo difuso – cada vez menos difuso e mais palpável -, em um relativismo moral ainda mais drástico e pernicioso, em um esquecimento completo da lei natural e da lei de Deus. Nós precisamos fazer a nossa parte. E nossa parte começa pelas nossas famílias, por famílias católicas, em que os filhos são bem educados, em que os membros buscam, cooperando entre si, cumprir a vontade de Deus em todas as coisas e chegar ao céu. Fazer nossa parte com famílias católica numerosas, de onde saíram bons padres, bons religiosos e religiosas. Famílias católicas de onde saíram futuros maridos e esposas católicas que terão famílias católicas numerosas, com vocações e assim por diante. É assim que faremos nossa parte para restaurar tudo em Cristo. Devemos também professar publicamente a nossa fé, sem respeito humano, nos ambientes em que vivemos e agir na esfera pública na medida de nossas possibilidades e sempre em conformidade com a doutrina católica.

Rezemos e façamos a nossa parte por nosso país, para que ele não seja como esses dez leprosos ingratos do Evangelho de hoje. As terras brasileiras receberam de Deus um grande favor, que foi a colonização feita pelos católicos portugueses, que nos trouxe a luz do Evangelho, que nos trouxe Nosso Senhor Jesus Cristo. Se renegarmos essa graça, corremos sérios riscos de cairmos em paganismo pior que o dos índios. Peçamos, nessa novena de Nossa Senhora das Dores, também pelo Brasil, e que Deus tenha piedade de nós.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

[Sermão] O católico e as eleições

Sermão para o 8º Domingo depois de Pentecostes

03.08.2014 – Padre Daniel Pinheiro, IBP

 

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Ave Maria…

 “Os filhos desse século são mais hábeis que os filhos da luz.”

No ano passado, caros católicos, fiz a explicação dessa parábola de que fala Nosso Senhor no Santo Evangelho desse 8º Domingo depois de Pentecostes. Hoje, gostaria de tratar de um tema importante para nós, nossas famílias, nossa religião, nossa pátria. Gostaria de falar das eleições que em breve ocorrerão em nosso país. Vejamos qual é a melhor conduta diante da realidade que se apresenta diante de nós nessas eleições.

Antes de tudo, gostaria de relembrar um ponto do 4º mandamento da lei de Deus. O quarto mandamento nos manda honrar pai e mãe. Já tivemos oportunidade de falar que esse mandamento não se resume, porém, às nossas obrigações para com nossos progenitores, mas se estende também a outras autoridades, civis e eclesiásticas, e se estende igualmente à nossa pátria.

Entre as obrigações para com a pátria, está a obrigação de votar para eleger bons candidatos. Essa obrigação pode ser leve ou grave dependendo das circunstâncias. Ela vai ser mais grave quanto mais dependerem das eleições os interesses religiosos, morais e sociais da nação e quanto mais incerta for a eleição. É preciso ter presente que os legisladores e os governantes podem produzir um grande bem ou um grande mal à Igreja, ao clero, à família cristã e à família em geral, à moralidade pública, etc. Nós temos visto o grande mal que nos faz o governo atual no plano da família, da moralidade pública, da religião católica, ao facilitar o acesso ao aborto, ao legalizar uniões homossexuais, ao tornar obrigatória a educação sexual para as crianças, ao querer impor a ideologia do gênero nas escolas, etc Portanto, é um dever importante eleger bons candidatos. Todo católico sincero deve dar o próprio voto aos candidatos que oferecem garantias verdadeiramente suficientes para a tutela dos direitos de Deus e das almas, para o verdadeiro bem dos indivíduos, das famílias e da sociedade, segundo a lei de Deus e a moral cristã. Por outro lado, votar em um candidato indigno é, a princípio, ilícito.

Todavia, surge uma dificuldade em nossos tempos. Nas supostas democracias em que vivemos, e nesse sistema moderno corrompido desde a sua raiz – pois nega os direitos de Deus e de sua verdadeira Igreja desde o princípio – devemos votar entre dois, três, quatro candidatos, que não escolhemos, mas que nos são impostos. Habitualmente, esses candidatos têm, em linhas gerais, os mesmos objetivos, que são, no fundo, descoroar Nosso Senhor Jesus Cristo, estabelecer uma sociedade completamente alheia aos mandamentos de Deus, completamente alheia à Igreja. Uma sociedade hostil à família cristã. Ou, olhando pelo outro lado, o objetivo deles é estabelecer a cultura de morte, isto é, uma cultura, com leis e facilidades, que nos afastam de Deus, nos levando ao pecado e às maiores abominações, tal como o aborto, a eutanásia, a união homossexual. Diante dessa realidade em que todos os candidatos são indignos, nos surge, então, a dúvida: se podemos votar em um deles ou se devemos nos abster. A resposta dos teólogos moralistas diz que é lícito escolher um candidato ruim para evitar o pior. Para poder votar em um candidato indigno, quando não temos a opção de votar em um bom candidato, devemos ter um fim honesto e uma gravíssima causa para votar nesse candidato indigno. Devemos ter um fim honesto, isto é, podemos votar em um candidato indigno, ruim, mas não porque ele é ruim, nem desejando que ele aplique coisas ruins, mas dando-lhe um mandato para que ele possa fazer o que é sua obrigação como governante ou legislador: legislar ou governar conforme as leis de Deus. Além disso, devemos ter uma causa gravíssima para eleger um candidato indigno. Uma dessas causas gravíssimas é justamente impedir a eleição do pior candidato. Nesse caso, é preciso deixar claro que votamos unicamente para excluir o candidato mais indigno e não porque aprovamos o outro. Com essas ressalvas, isto é, com um fim honesto e para impedir a eleição do pior, o católico pode votar no menos pior. Não há unanimidade entre os teólogos se existe obrigação de votar no menos pior nesse caso. Parece, todavia, que convém votar no menos pior, pois, embora o objetivo seja o mesmo, o ritmo de implantação da cultura de morte é mais lento, permitindo, talvez, a organização de uma melhor resistência. A abstenção dos bons ou a anulação do voto pelos bons, desiludidos, pode determinar a eleição do pior dos candidatos, o que não é, evidentemente, bom. Claro, falamos tudo isso considerando que não há fraudes nas eleições.

Concretamente, caros católicos, não se pode em consciência votar no partido que atualmente governa o Brasil nem em outros mais à esquerda, no nome ou na prática. Se nenhum candidato é bom, convém mais escolher o candidato menos pior do que se abster ou anular o voto. Assim parece pensar a maior parte dos teólogos moralistas. O governo atual tem demonstrado uma grande hostilidade à lei de Deus e da Igreja: tenta de todas as formas impor a cultura de morte, e tem conseguido, muitas vezes de maneira sorrateira, ampliar o aborto, legalizar as uniões homossexuais, impor a ideologia do gênero, a eutanásia e outros crimes semelhantes, que ofendem de modo gravíssimo a Deus e destroem a sociedade na sua raiz.

A política não diz respeito diretamente à Igreja, a não ser quando a política começa a tocar no bem das almas, no bem comum da sociedade (de maneira mais grave) e no bem da Igreja, o que é o caso. E quando isso ocorre, os pastores precisam orientar as ovelhas e denunciar o lobo.

Não podemos nos esquecer, caros católicos, de que entre nossos deveres para com a nossa pátria está também o de rezar por ela, em particular nesse ano eleitoral. Rezemos a Nossa Senhora Aparecida para que ela afaste do Brasil o comunismo, o socialismo, o liberalismo e traga ao Brasil o cetro doce e suave de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Amém.