[Sermão] A Mulher coroada de estrelas: a necessidade da devoção a Nossa Senhora para a alcançar a salvação

Sermão para a Festa da Assunção de Nossa Senhora
18 de agosto de 2013 – Padre Daniel Pinheiro

 

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém. Ave Maria…

“Apareceu um grande sinal no céu: uma Mulher revestida do sol, a lua debaixo dos seus pés e na cabeça uma coroa de doze estrelas.” (Apoc. 12, 1)

A Assunção de Nossa Senhora significa que ela, depois de passar a sua vida aqui na terra, subiu aos céus em corpo e alma. A Assunção de Nossa Senhora sempre foi verdade ensinada pela Igreja, é verdade contida na doutrina dos Apóstolos. Todavia, foi em 1950, com o Papa Pio XII, que a Assunção de Nossa Senhora ao céu foi proclamada como dogma da fé, quer dizer, a Igreja afirmou infalivelmente que a Assunção é uma verdade revelada por Deus e que devemos acreditar nessa verdade, se queremos nos salvar. Assim, quem nega a Assunção de Nossa Senhora perde automaticamente a fé católica e desagrada a Deus, pois sem a fé é impossível agradar a Deus. Nossa Senhora foi a primeira redimida integralmente, ela foi aos céus em corpo e alma, ao contrário dos santos e de todos os que morrem em estado de graça, que devem esperar a ressurreição do corpo no fim dos tempos. Nossa Senhora é a primeira redimida integralmente porque ela é a corredentora. Convinha que, tendo sido associada tão intimamente à obra de redenção operada por NSJC, ela fosse também intimamente associada à glória d’Ele, pela Assunção em corpo e alma ao céu, e sem que seu corpo conhecesse a corrupção, pois foi esse corpo que deu ao Salvador a sua carne humana. Maria Santíssima, então, subiu aos céus em corpo e alma.

A Festa da Assunção de Nossa Senhora deve, assim, elevar a nossa alma para as coisas celestes, para a nossa verdadeira pátria, que é o céu. Como nos diz a coleta da Missa de hoje, devemos estar sempre inclinados para as coisas celestiais, a fim de podermos participar da glória celeste. Onde está nosso tesouro lá está o nosso coração. Se olhamos para as coisas desse mundo, se nos inclinamos às coisas desse mundo, é porque nosso tesouro está aqui nessa terra e, consequentemente, também o nosso coração, a nossa vontade está apegada às coisas desse mundo. Nossa Senhora, por sua Assunção, nos mostra que nosso tesouro é bem outro. Ela nos mostra que nosso tesouro é a Santíssima Trindade, ela nos mostra que nosso tesouro é seu Filho, Jesus Cristo, a Verdade, o Caminho, a Vida.

Maria Santíssima nos aponta o tesouro a ser buscado – o céu – mas, além disso, ela nos indica, igualmente, o caminho. Ela nos indica o caminho nessa passagem do Apocalipse que compõe o Introito da Missa de hoje: “Apareceu em seguida um grande sinal no céu: uma Mulher revestida do sol, a lua debaixo dos seus pés e na cabeça uma coroa de doze estrelas.” (Apocalipse 12, 1) Nossa Senhora está revestida de sol, tendo a lua a seus pés e coroada com 12 estrelas.

1. N. Sra. está revestida de Sol. O sol representa Jesus Cristo, que é a luz do mundo e o Sol de Justiça. Como nos diz S. Paulo, nós devemos nos revestir de Cristo (Rom 13, 14), quer dizer, nós devemos nos revestir do homem novo, criado em justiça e santidade (Efésios 4, 24). Devemos nos revestir de Jesus Cristo para imitar as virtudes d’Ele, para fazer tudo por Ele, com Ele e n’Ele. Devemos nos revestir de Cristo para que os frutos de sua redenção possam nos ser aplicados.

2. Em seguida, Maria esmaga a lua com seus pés: a lua representa aqui o mundo e o seu príncipe, a serpente. A lua é mutável, instável, inconstante, ela tem várias fases. Também o mundo com seus tesouros passageiros, que são os pecados, é mutável. Nossa Senhora esmaga a lua, reduzindo-a ao nada, como Judith (Epístola de hoje) ao matar Holofernes reduziu ao nada os inimigos de Israel. Deus, ao contrário do mundo e do pecado, é eterno e imutável, caros católicos. Céus e terras passarão. A Palavra de Deus não passará. Devemos ser firmes e constantes no serviço de Deus, firmeza e constância que são verdadeira sabedoria. A Sagrada Escritura nos diz: Stultus ut luna mutatur; sapiens autem permanet ut sol. (Eclesiástico 27, 12) O insensato, o tolo é inconstante como a lua; o sábio, porém, é constante como o sol. Devemos esmagar a lua e sermos constantes como o sol, devemos esmagar o pecado, o demônio, o mundo, e devemos ser constantes como Cristo foi constante em fazer sempre a vontade de Deus.

3. Finalmente, Maria Santíssima está coroada de doze estrelas. O Patriarca José, filho de Jacó, teve um sonho em que onze estrelas se prostravam diante dele. Essas onze estrelas eram os irmãos de José, as tribos do povo hebreu, que lhe iriam implorar socorro quando chegasse o tempo das vacas magras.  Essa coroa de Nossa Senhora, com doze estrelas, representa toda a humanidade que deve prostrar-se diante dela, implorando-lhe as graças adquiridas por Cristo na cruz. Essa coroa significa a realeza e a soberania de Maria sobre toda a humanidade e nos mostra como devemos ter veneração e devoção, nesse vale de lágrimas, a tão soberana Rainha e Rainha de Misericórdia.

Assim, se quisermos alcançar o céu, devemos primeiramente olhar para o céu, desejá-lo. Em seguida, devemos nos revestir de Cristo, da sua graça, de suas virtudes. Devemos, igualmente, esmagar o pecado. Mas para fazer tudo isso, devemos ter devoção a Nossa Senhora. Esse último ponto é indispensável, caros católicos. A devoção a N. Sra. é necessária para a nossa salvação.

A devoção a Nossa Senhora é indispensável para a salvação porque para nos salvarmos devemos praticar as virtudes. Para praticar as virtudes, precisamos da graça de Deus. Para alcançar a graça de Deus, necessitamos recorrer a Maria. Necessitamos de Maria para alcançar a graça porque Deus quis que fosse assim. Ele poderia ter feito de outro modo, não há dúvida. Deus não era obrigado a usar uma mera criatura para transmitir as suas graças. Todavia, na sua sabedoria, quis que fosse assim. 1) Devemos ter devoção a N. Sra. porque Deus a escolheu como tesoureira, administradora e dispensadora de todas as sua graças, de sorte que todas passam por suas mãos. Ela é a medianeira de todas as graças. 2) Assim como na ordem da natureza temos necessariamente um pai e uma mãe, também na ordem da graça devemos ter Maria por Mãe, se queremos ter Deus por Pai. 3) A devoção a Maria é necessária porque tendo ela formado a Cabeça do corpo místico – que é Cristo – cooperando com o Espírito Santo, ela forma, também com o Espírito Santo, os membros desse corpo, dessa cabeça, que somos nós os cristãos. Quem quer ser membro de Cristo deve se deixar formar por Maria e pelo Espírito Santo. 4) A devoção a Maria é necessária porque foi no ventre dela que o Espírito Santo formou Cristo, Homem e Deus. Assim, Nossa Senhora possui o molde para formar, pela graça divina, Cristo em nossas almas. E com Maria, Cristo pode ser formado em nossas almas, pela graça, de modo rápido, fácil e suave. Sem a devoção a Nossa Senhora é impossível salvar-se, como de modo semelhante não é possível salvar-se fora da Igreja Católica. Aquele que conhece Nossa Senhora ou tem a possibilidade de conhecê-la e se dá conta ou poderia se dar conta de seu papel fundamental para a salvação, mas deixa de honrá-la e de recorrer a ela, certamente se perderá. É claro e evidente que esse papel fundamental de Nossa Senhora é completamente subordinado a NSJC e dependente d’Ele.

As citações dos Padres da Igreja e dos santos no sentido da necessidade da devoção a Nossa Senhora para alcançar a salvação são abundantes. Por exemplo, São Cirilo de Alexandria, (séc. V, P.G. 77, 1031-1034): “Oh Maria, Mãe de Deus, salve! Por ti encontram a salvação todas as almas fiéis.” São Germano de Constantinopla (séc. VIII, P.G. 98, 350): “Ninguém se salva a não ser por teu auxílio, oh Mãe de Deus! Ninguém fica livre dos perigos a não ser por meio de ti, oh Virgem fecunda!” Santo Idelfonso (séc. VII, P.L. 96, 69, De Virginit. Perp. S. M., c. 4): “Vinde comigo a esta Virgem, se tendes medo de ir, sem ela, ao inferno. Vinde, e escondamo-nos debaixo de seu manto para não nos cobrirmos, um dia, de confusão.” São Bernardo (séc. XII, II Hom. Super Missus est): “Nos perigos, nas angústias, nas dúvidas, pensa em Maria, invoca Maria… Seguindo-a não errarás, rogando-a não terás motivo para desesperar, pensando nela não cairás no erro. Se Maria te socorre, não cairás. Se Maria te protege, não temerás. Se ela te acompanha, não te cansarás. Se ela te for favorável, chegarás ao porto da salvação.” São Boaventura (séc. XIII, Comment. In Luc., c. 1, n. 70): “Quem a honra dignamente, será justificado, mas quem a esquece morrerá em seus pecados. Sim, oh doce Senhora, estão longe da salvação os que não te conhecem; mas quem persevera no tributo de honrá-la, não deve temer a perdição.” Poderíamos ainda citar São Tomás, São Bernardino de Siena e tantos outros, caros católicos. Recomendo fortemente a leitura dos livros Tratado da Verdadeira Devoção a Maria e Segredo de Maria, de São Luís de Montfort, em que ele afirma claramente a necessidade da devoção a Nossa Senhora e o modo de praticá-la. Recomendo o livro Glórias de Maria, de Santo Afonso de Ligório. Mas para concluir essas citações de santos, vejamos o que diz São Leonardo de Porto Maurício, nos seus pequenos discursos para a honra de Maria. Diz o santo: “é impossível que se salve quem não é devoto de Maria.” (Discorssetti ad onore di Maria disc. 7, n.1); e em outro lugar (disc. 16, n. 4) diz: “portanto, sede devotos de Maria, e eu vos asseguro que sereis salvos.” Assim, não há dúvida de que o ensinamento dos santos afirma a necessidade da devoção de Nossa Senhora para a salvação.

E nós podemos concluir a mesma coisa a partir da Sagrada Escritura. Já citamos a realeza de Nossa Senhora, coroada de estrelas no Apocalipse. Vemos no Santo Evangelho que o primeiro a cultuar Nossa Senhora é o Arcanjo Gabriel, ao saudá-la como faz um inferior ao superior: “Ave, gratia plena”, diz o Arcanjo. Vemos Maria honrada por Santa Isabel: “bendita tu entre as mulheres e bendito o fruto do teu ventre”, diz a prima de Nossa Senhora. Vemos Maria honrada por uma mulher do povo que sem medo clama para Cristo diante da multidão: “bem aventurados os seios que te amamentaram e bem aventurado o útero que te portou.” É relevante o número de vezes que N. Sra. é cultuada nos Evangelhos. Finalmente, NS diz: “discípulo eis aqui a tua mãe”. Ele não diz “João, eis aqui a tua Mãe”, mas “discípulo, eis aqui a tua mãe”. Todo discípulo de Cristo deve ter Maria por mãe e deve recebê-la em sua casa, em seu coração. E deve honrá-la e respeitá-la como mãe e deve carinhosamente recorrer a tão boa mãe para obter dela o alimento espiritual, que é a graça. Todo discípulo de Cristo tem necessariamente N. Sra. por mãe e a honra e recorre a ela como a uma boa mãe, Mãe doce e misericordiosa. E NS nos entrega Maria por mãe quando já está pregado na cruz, quer dizer, no momento mais capital da história da salvação. Precisamos honrar Maria, ter verdadeira devoção a ela!

É evidente, caros católicos, que a finalidade da devoção a Nossa Senhora, como de qualquer devoção, é a união a Cristo, é a devoção a Cristo. O anjo a saúda porque ela vai se tornar Mãe de Deus. Santa Isabel a saúda porque ela já Mãe de Deus. A mulher do povo honra Nossa Senhora porque ela carregou Deus em seu ventre e o nutriu. A devoção a Nossa Senhora nos é necessária para sermos devotos de Cristo porque Cristo quis assim, como já dissemos. Ele quis que fôssemos até Ele pelo mesmo caminho que Ele utilizou para vir até nós. Nossa Senhora direciona e apresenta a Deus toda a honra que recebe de nós e alcança para nós as graças que precisamos. Quando Santa Isabel honra Maria, N. Sra. imediatamente honra Deus recitando o Magnificat, louva a Deus reconhecendo que é Ele a fonte de todo o bem, e que ela é uma pobre escrava do Altíssimo: “Minha alma engradece o Senhor, (…) pois olhou para a humildade de sua serva e fez em mim maravilhas.” Honrar Nossa Senhora é, portanto, honrar Cristo, honrar a Santíssima Trindade. Onde está Maria, lá está Cristo. Onde está Cristo, lá está Maria! Quem honra a Mãe, honra o Filho.

É evidente que a devoção a Nossa Senhora deve ser sólida e verdadeira, sincera. A devoção não é simplesmente usar algumas medalhas ou escapulários, ou dizer algumas orações. Tudo isso é bom, excelente, necessário, mas a verdadeira devoção consiste em recorrer a Maria para que ela nos converta, para que mudemos de vida. A verdadeira devoção consiste em buscar imitar as virtudes de Nossa Senhora.

Alegremo-nos, caros católicos, pois Cristo nos deu na devoção a Maria o caminho mais fácil, curto, perfeito e seguro para nos unir a Ele, união a Cristo que é a finalidade de nossas vidas. É um caminho também necessário para nos unir a Cristo. Maria é, diante de Deus e de seu Filho, uma criatura, infinitamente inferior. Mas para nós, ela é a criatura escolhida por Deus para nos levar a Cristo, para que possamos conhecê-lo e servi-lo melhor. Ela é o caminho para que os frutos da redenção operada por Cristo nos sejam aplicados. Ela nos dirige para Cristo dizendo o que disse aos servos nas bodas de Caná: “Fazei tudo o que Ele vos disser”. A devoção a Maria é ir a Jesus por Maria: ad Iesum, per Mariam. Recorramos a Nossa Senhora sempre, em todas as nossas necessidades. Recorramos a ela, para que, por ela, cheguemos a Cristo: ad Iesum, per Mariam. Maria, Mãe de misericórdia, vida, doçura e esperança nossa. Para chegar ao céu, precisamos nos vestir do sol, que é Cristo, devemos esmagar a lua que é o pecado e devemos ser devotos de Nossa Senhora, nossa Rainha e nossa mãe dulcíssima.

Em nome do pai, e do Filho, e do espírito Santo. Amém.

[Sermão] O mistério da Santíssima Trindade

Sermão para a Festa da Santíssima Trindade
(Primeiro Domingo depois de Pentecostes)
26 de maio de 2013 – Padre Daniel Pinheiro

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém. Ave-Maria…

“Ide, pois, e ensinai todas as gentes, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo.”

Caros católicos, a Igreja nos fez reviver, desde o Tempo do Advento até Pentecostes, a vida de Nosso Senhor Jesus Cristo. Preparamo-nos para o seu nascimento (Advento), comemoramos o seu nascimento (Natal), festejamos a sua circuncisão na oitava do Natal, comemoramos a visita dos reis magos na Epifania, festejamos a Purificação de Nossa Senhora e a Apresentação do Menino Jesus no Templo. Entramos na Quaresma (precedidos pela Septuagesima), com a tentação de Nosso Senhor no deserto, com sua pregação e a oposição mortal dos fariseus. Lembramos sua entrada triunfante em Jerusalém no Domingo de Ramos, a Instituição da Eucaristia, da Missa e do Sacerdócio na Quinta-Feira Santa. Sua Paixão e Morte na Cruz na Sexta-Feira Santa. Sua Ressurreição gloriosa, sua Ascensão, o envio do Espírito Santo sobre Nossa Senhora e os Apóstolos, encerrando o Tempo Pascal. Nós começamos agora o Tempo que, na liturgia tradicional, se chama Tempo depois de Pentecostes e que significa liturgicamente a aplicação aos homens dos méritos infinitos obtidos por Cristo durante toda a sua vida na terra. Essa aplicação se faz por obra do Espírito Santo, a quem se atribuem as obras de santificação. Esse Tempo depois de Pentecostes é justamente um prolongamento de Pentecostes, com o Espírito Santo que atua na Igreja e nas almas, para nos conduzir ao céu.

Nesse primeiro domingo depois de Pentecostes, festejamos a Santíssima Trindade. São dois os principais mistérios da religião revelada por Deus aos homens: o mistério da Encarnação do Verbo e o mistério da Santíssima Trindade. Se queremos ser agradáveis a Deus, devemos ter a fé, quer dizer, devemos acreditar – com nossa inteligência – firmemente e com toda certeza naquilo que Deus nos revelou. São Paulo diz que sem a fé não podemos agradar a Deus e, com o mesmo sentido, Santo Atanásio diz que se queremos nos salvar, devemos, antes de tudo, ter a fé e conservá-la íntegra e sem mancha. Assim, se queremos agradar a Deus, devemos crer e confessar que Deus é Uno e Trino. Se queremos nos salvar, devemos crer e confessar que existe um só Deus em três Pessoas, pois Deus, que não pode se enganar nem nos enganar, nos disse que Ele é um só Deus em três Pessoas. Portanto, caros católicos, quando cultuamos Deus, quando adoramos Deus e o servimos, não estamos cultuando uma entidade mais ou menos vaga, não estamos cultuando o supremo arquiteto do universo da maçonaria, não estamos cultuando a mãe natureza ou uma força, uma energia positiva. Não estamos cultuando um Deus que se confunde com o mundo. Cultuamos, isso sim, um Deus que é puro espírito, infinitamente bom e amável, onisciente, onipotente, eterno… Cultuamos um Deus que é distinto das criaturas, que mantém na existência tudo o que criou e que governa tudo com suprema bondade e misericórdia. Nós cultuamos um só Deus em três Pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo. Essas três Pessoas são um só Deus e não três deuses porque as três têm uma só substância, uma só natureza, uma só essência, uma só divindade; as três são igualmente eternas, igualmente poderosas, nenhuma das três é uma criatura. Um só Deus, um só Senhor em três Pessoas realmente distintas. A única diferença que existe entre as três Pessoas da Santíssima Trindade é o fato de uma proceder da outra. O filho procede do Pai desde toda a eternidade. O Espírito Santo procede do Pai e do Filho desde toda a eternidade. O Pai não procede de ninguém.

A Santíssima Trindade, como falamos, é um mistério. É um mistério pois nossa razão não pode sozinha chegar à conclusão de que Deus é um em três Pessoas. Precisamos da Revelação para conhecer isso. É famosa a história de Santo Agostinho, que buscava compreender a Santíssima Trindade quando escrevia seu livro sobre o assunto. Deus lhe mostrou como esse mistério é inacessível à pura razão comparando o seu desejo ao desejo de um menino que queria colocar toda a água do mar em um buraco cavado na areia da praia. Diante do mistério da Santíssima Trindade, muitos inimigos da religião pretendem combatê-la dizendo que a fé é irracional, pois não podemos compreender aquilo em que acreditamos. Caros católicos, a fé não é irracional. Ao contrário, ousaria dizer que não existe nada de mais conforme à razão  do que a fé. A fé supera a razão, mas a fé não contradiz a razão. Poderíamos comparar as verdades da fé com relação à nossa inteligência com uma equação do segundo grau para uma criança de cinco anos. A equação supera a inteligência da criança, mas nem por isso a equação contradiz a inteligência daquela criança ou se torna irracional. Da mesma forma, as verdades sobrenaturais não se tornam irracionais pelo fato de superarem nossa razão. Nossa inteligência não consegue compreender o mistério da Santíssima Trindade, mas ela consegue mostrar que não se trata de um absurdo, ela consegue responder às objeções contrárias à Santíssima Trindade, ela consegue mostrar que é possível a existência de um só Deus em três Pessoas. Ela consegue, por meio de analogias e comparações, entender melhor o mistério, embora não consiga demonstrá-lo ou explicá-lo completamente.

Podemos compreender um pouco o mistério da Santíssima Trindade fazendo, por exemplo, uma analogia com a nossa inteligência e com a nossa vontade. O Verbo é gerado – não criado – porque Deus conhece a si mesmo perfeitamente desde toda a eternidade. Esse conhecimento que Ele tem de si gera o Filho ou Verbo, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. Esse Filho gerado é em tudo igual ao Pai, salvo justamente no fato de proceder do Pai. Do amor que existe entre o Pai e o Verbo – amor que existe desde toda a eternidade – procede o Espírito Santo. O Espírito Santo é em tudo igual ao Pai e ao Filho, salvo no fato de proceder de ambos. Essa geração do Filho e o proceder do Espírito Santo não diminuem em nada o Filho e o Espírito Santo com relação ao Pai. Os três são igualmente eternos, igualmente perfeitos. Os três são um só Deus. O mistério da Santíssima Trindade supera a nossa razão, mas não a contradiz.

Além disso, caros católicos, nossa razão é capaz de reconhecer a existência de Deus e ela reconhece que Deus é infinitamente perfeito. Diante disso, a nossa razão reconhece que se Deus nos falar, somos obrigados a aceitar porque Deus, infinitamente perfeito, não pode se enganar nem nos enganar. E aceitar aquilo que Deus nos falou não é humilhar a nossa inteligência, mas ao contrário, aceitar as verdades de fé é a maior exaltação a que pode chegar nesse mundo a nossa inteligência, pois a fé aumenta a capacidade de conhecimento da nossa razão e faz que nossa razão penetre na ordem sobrenatural. A fé não é contrária à razão. Deus é o autor da fé e da razão. Ele não pode se contradizer colocando as duas em oposição. A fé não diminui a razão. A fé aperfeiçoa e eleva a nossa razão, a nossa inteligência humana. É melhor ser mais perfeito com a ajuda de outro – no caso, Deus – do que permanecer sozinho na imperfeição ou na mediocridade.

Se Deus falou, devemos, então, acreditar. Lendo a Sagrada Escritura, aparece claramente que Deus revelou ser Uno e Trino. Ele revelou isso abertamente no Novo Testamento e deu indícios fortíssimos no Antigo Testamento.

Não convinha que a Santíssima Trindade fosse revelada plenamente aos judeus pelo risco que havia de eles caírem no politeísmo, sem compreender bem a Trindade das pessoas e pelo fato de estarem cercados de pagãos politeístas. Mas já a primeira frase da Sagrada Escritura indica a Santíssima Trindade: “No Princípio criou Deus o céu e a terra e o Espírito de Deus movia-se sobre a água”. Ora, “no Princípio” era o Verbo, quer dizer, Deus Filho, no diz São João no início de seu Evangelho. “Deus” é Deus Pai. O “Espírito de Deus que se move sobre a água” é o Espírito Santo. Além disso, nessa mesma frase, em hebreu, a palavra “Deus” é Elohim, que é uma forma plural, mas o verbo – “criou” – se encontra no singular. No plural da palavra Elohim, temos a pluralidade de pessoas. No singular do verbo “criou” temos a unidade da essência. Ainda no primeiro capítulo do Gênesis Deus disse: “façamos o homem à nossa imagem e semelhança”. O verbo “façamos” no plural indica a pluralidade de pessoas. “À nossa imagem e semelhança” no singular indica a unidade da essência. Davi diz no Salmo (LVI): “Abençoe-nos Deus, o nosso Deus, abençoe-nos Deus.” Invoca, assim, três vezes Deus: Deus Pai, Deus Filho, Deus Espírito Santo. E o que está no meio é chamado de maneira sublime nosso Deus, pois faz referência ao Filho, que assumiu nossa carne, veio ao mundo para nos salvar. O Profeta Isaías diz: “Sanctus, Sanctus, Sanctus”, referência ao Pai, ao Filho, ao Espírito Santo. E poderíamos ainda citar outras passagens do Antigo Testamento que fazem referência à Santíssima Trindade.

No Novo Testamento, Nosso Senhor ensina abertamente a Trindade das Pessoas em Deus. Temos o Evangelho de hoje: “Ide, pois, e ensinai todas as gentes, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo.” “Nome” está no singular, para significar a unidade de essência em Deus. Também quando Nosso Senhor diz: “Quando vier o Paráclito, que vos enviarei da parte do Pai, o Espírito da Verdade, que procede do Pai, ele dará testemunho de mim.” Há o Pai, o Filho e o Paráclito, que procede dos dois, que é enviado pelo Pai e pelo Filho. Podemos citar também o Batismo de Nosso Senhor e sua Transfiguração, em que tanto o Pai como o Espírito Santo se manifestam para glorificar o Filho. Também os Apóstolos ensinam a Santíssima Trindade. São João diz: “três são os que dão testemunha no céu: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. E esses três são um.” São Paulo na Epístola de hoje diz “dEle, por Ele e para Ele”, com referência à Santíssima Trindade. E, claro, poderíamos multiplicar os exemplos.

Também a Tradição exprime claramente a fé na Santíssima Trindade. Podemos mencionar o Credo de Santo Atanásio – que recomendo a todos que leiam – e poderíamos citar os outros Padres da Igreja. Basta, porém, considerarmos esse monumento da Tradição e da fé que é o Rito Tradicional da Missa, e que é, em particular, uma confissão clara da fé na Santíssima Trindade. No ofertório, pedimos à Santíssima Trindade que receba a oblação que oferecemos na Missa: Suscipe Sancta Trinitas hanc oblationem. Logo antes da Bênção final, exprimimos o nosso desejo de que o sacrifício que acabou de ser oferecido aplaque a Santíssima Trindade e lhe seja agradável: Placeat tibi Sancta Trinitas. Recitamos em todos os Domingos depois de Pentecostes o Prefácio da Santíssima Trindade. Peço que considerem atentamente as palavras desse Prefácio que será cantado logo mais e vejam que sublime síntese do Mistério da Santíssima Trindade está contida nessa bela oração.

Todas as nossas ações devem ser feitas em nome da Santíssima Trindade. Na Santa Missa, o primeiro rito é o sinal da Cruz, para indicar que o sacrifício da Cruz vai ser renovado e oferecido em honra da Santíssima Trindade. Permaneçamos firmes e inabaláveis na fé na Santíssima Trindade, caros católicos, sem a qual não podemos agradar a Deus, sem a qual não podemos nos salvar. E que, pela firmeza dessa fé, sejamos protegidos de toda a adversidade (Coleta). Peçamos à Santíssima Trindade que habite em nossas almas pela graça. Bendita seja a Santíssima Trindade e a Unidade Indivisa, como nos diz o Intróito da Missa de hoje.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

[Sermão] A obediência devida às autoridades humanas

Sermão para o Terceiro Domingo depois da Páscoa
21 de abril de 2013 – Padre Daniel Pinheiro

 

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém. Ave-Maria…

***

Sede, pois, submissos a toda instituição humana.

Caros católicos, nós aprendemos no quarto mandamento – honrar pai e mãe – que devemos não somente obedecer aos pais, mas aos superiores de modo geral. Aprendemos que devemos obedecer à autoridade civil e às suas leis. E isso porque, como diz São Paulo (Rom. XIII, 1), todo poder vem de Deus e não há poder que não venha de Deus. Todo poder vem de Deus porque foi Deus quem criou o homem como animal racional e social, como um ser que precisa se associar aos outros para alcançar a sua perfeição. Assim, os homens se unem na sociedade civil a fim de poderem alcançar tudo o que é necessário para o bem temporal, o que inclui não somente bens materiais, mas também bens espirituais. Se os homens vivessem sozinhos eles teriam somente o mínimo necessário para a própria sobrevivência. A vida em sociedade proporciona muitos outros bens ao homem, em particular possibilita ou, ao menos deveria possibilitar, o tempo necessário para a contemplação da verdade. A vida em sociedade é para o bem do homem. Agora, onde existe a associação de homens em vista de um fim, é preciso que haja um chefe ou um grupo de chefes. É preciso que haja um chefe que ordene os diversos membros da sociedade em busca do fim pelo qual se reuniram. Portanto, a existência da autoridade decorre da própria natureza humana. Como a natureza humana foi criada por Deus, toda autoridade vem de Deus, é instituída por Deus e devemos obediência a ela. Essa verdade era muito claramente significada quando os reis, ao assumir o trono, recebiam também a consagração por parte de um Bispo.

Sagração de São Luis (Rei Luis IX) - Iluminura do séc. XIII

Sagração de São Luis (Rei Luis IX) – Iluminura do séc. XIII

Hoje, todavia, pretende-se afirmar que a autoridade vem não de Deus, mas do povo, que tem um poder absoluto e ilimitado. Dizem, então, que se alguém exerce alguma autoridade é simplesmente por delegação do poder absoluto e ilimitado que lhe foi delegado pelo povo e que, sendo assim, a autoridade é obrigada a fazer o que quer o povo, seja o que for. A fonte da autoridade não é mais Deus, e sim o povo, que toma o lugar de Deus. Nesses tempos de “inclusão”, há um só excluído, ou dois: Deus e sua Santa Igreja.

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Dessa forma, a autoridade, representando o povo – que tem poder absoluto e ilimitado – pode decretar o que é o bom e o que é ruim, pode estabelecer o bem e o mal. A autoridade pode aprovar o aborto, ela pode subverter a lei natural aprovando o divórcio ou aprovando a união civil homossexual. A autoridade vem do povo, aquilo que o povo deseja ou aquilo que eles pretendem que o povo quer deve ser feito. Toda a política moderna, todo Estado moderno, se baseia nesse poder absoluto e ilimitado do povo que toma o lugar de Deus e que passa a ser a fonte de todo poder. E isso é um erro. Um erro grave.

Como dissemos no início, a própria natureza humana, criada por Deus, demanda a união das pessoas em sociedade e demanda, consequentemente, a existência de uma autoridade. Assim, a fonte primeira de toda a autoridade é Deus, criador de todas as coisas. E é por isso que devemos obedecer à autoridade civil, às suas leis. Ao longo da história, os cristãos sempre se destacaram pela prática exata das leis civis, pela obediência aos soberanos, à autoridade. Primeiro, porque respeitar tal autoridade é respeitar a autoridade divina, enquanto desrespeitar tal autoridade é desrespeitar a autoridade divina. Segundo, porque respeitar tal autoridade é um apostolado eficaz, como nos diz São Pedro na Epístola: devemos ter bom procedimento entre os gentios para que, considerando as boas obras, eles glorifiquem a Deus.

Toda autoridade vem de Deus e devemos respeitá-la e obedecer a ela por causa disso. Todavia, com a afirmação moderna de que o poder e a autoridade vêm do povo e só do povo e não de Deus, temos visto cada vez com maior frequência, ênfase e violência a promulgação de leis que se opõem às leis de Deus e à lei natural. É evidente que uma autoridade só guarda sua autoridade na medida em que ela permanece submetida à autoridade superior. Assim, quando uma autoridade humana age contrariamente ao que Deus manda, ela perde toda autoridade com relação a isso. Na verdade, uma lei injusta não é uma lei. Uma lei é um ditame para a razão promulgado pela autoridade legítima para o bem comum. Verdadeira e legítima autoridade não pode haver sem que derive de Deus. Não se pode chamar reta razão aquela que discorda da verdade e da razão divina e não pode ter por finalidade o bem comum a lei que se opõe ao bem supremo dos homens que é Deus. Assim, uma lei injusta não é, na verdade, uma lei e pode ser desobedecida e em alguns casos deve ser desobedecida. Ocorre o mesmo com os pais e o filho. Ensinamos no catecismo às crianças que elas devem fazer tudo o que os pais mandam, a não ser que seja algo contrário à fé ou à moral. Devemos fazer tudo o que nos manda a autoridade civil, a não ser que mandem algo contra a fé, contra a moral, contra a lei natural, contra o bem comum. No Império Romano, apesar de perseguidos e martirizados, os cristão eram considerados cidadãos exemplares. Mas se fosse colocado de um lado Deus e de outro a obediência ao Império, não tinham dúvida: preferiam Deus, preferiam morrer a ofender gravemente a Deus.

martiresNinguém pode servir ao mesmo tempo a dois senhores, nos diz Nosso Senhor. Quando a autoridade civil exerce sua autoridade em conformidade com Deus, servimos Deus ao servir a autoridade civil. Quando a autoridade civil age contrariamente a Deus, temos que escolher entre dois senhores: o Estado ou Deus. É preciso escolher Deus, evidentemente. Não devemos temer aquele que pode nos colocar na prisão ou que pode tirar a vida de nosso corpo. Devemos temer aquele que vai nos julgar e que pode nos condenar à morte eterna em razão de nossa desobediência à sua suprema autoridade. Devemos obedecer à autoridade civil, às autoridades humanas e a nossos superiores, mas devemos obedecer em primeiro lugar a Deus.

O Papa Leão XIII tratou em várias ocasiões desse assunto. Ele fez isso porque foi justamente durante seu papado – final do século XIX – que várias nações deixaram de ser católicas em decorrência da revolução francesa e da ação das sociedades secretas.  Ao deixarem de ser católicas, passaram a promulgar várias leis contrárias à religião católica, à fé, à moral, à lei natural. Em sua encíclica Sapientiae Christianae, sobre os deveres fundamentais dos cidadãos cristãos, o Papa assim o diz:

;eao xiii“Se as leis dos Estados se puserem em aberta contradição com a de Deus, se forem injuriosas para a Igreja ou contrárias aos deveres religiosos, se violarem no Sumo Pontífice a autoridade de Jesus Cristo, então resistir é obrigação e obedecer seria um crime – um crime até contra a pátria – porque pecar contra a religião é fazer mal ao próprio Estado.”

Precisamos ter bem presente esse ponto da doutrina de Nosso Senhor Jesus Cristo, caros católicos, pois cada vez teremos mais leis que se opõem à religião divinamente revelada e cada vez mais essas leis serão violentas. E nesse caso, cumprir o quarto mandamento, é obedecer a um só Senhor, Deus. Assim, agiremos para a glória de Deus para o bem da nossa alma e para o bem da sociedade civil.

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[Sermão] “Se há tantos milagres, há uma razão”

Sermão para o 20º Domingo depois de Pentecostes (14 de outubro de 2012) 

Padre Daniel Pinheiro

Dicit ei Jesus vade filius tuus vivit.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém. Ave Maria…

“Reconheceu, então, o pai, ser aquela mesma hora em que Jesus lhe dissera: Teu filho vive. E creu ele, e toda a sua casa.”

No Evangelho de hoje, São João nos narra o milagre da cura do filho do oficial do rei. Durante todo o Evangelho abundam os milagres de Nosso Senhor Jesus Cristo. Se há tantos milagres, deve haver uma razão para tanto. Nosso Salvador faz tantos milagres para confirmar a verdade de seu ensinamento e de sua divindade, mas também para mostrar a sua bondade exercendo uma grande misericórdia para com os homens.

O milagre é, por definição, algo feito por Deus fora da ordem da natureza. É uma alteração passageira e pontual da ordem natural, que supera sem dúvida as forças de toda a natureza criada. Acima de todas as criaturas e acima de toda a ordem natural está unicamente Deus. Assim, onde há um verdadeiro e autêntico milagre que altere a ordem natural, devemos concluir que ali está Deus, agindo diretamente por si ou por meio de uma criatura.

É preciso, porém, muita cautela para se afirmar que algo se trata de um milagre. Mas é preciso também reconhecê-lo quando ele existe. E no caso de Nosso Senhor isso é evidente. Ele fala, e os cegos vêem, os surdos ouvem, a língua dos mudos se desata, os paralíticos andam, as enfermidades desaparecem num instante; os que acabam de morrer voltam à vida, os que já estavam sendo levados para o sepulcro saem do caixão, os que enterrados depois de alguns dias e já com o mau cheiro característico, se levantam e saem de seu túmulo. O mar e as chuvas obedecem à voz de Cristo.  Naturalmente falando, tudo isso é impossível. Realizar tais obras pelas simples palavras, ou por um simples gesto, ou utilizando meios desproporcionais como um pouco de saliva e de terra é impossível a toda e qualquer criatura. Uma palavra, um gesto, uma ordem aos elementos da natureza e às doenças, uma ameaça ao demônio basta para Cristo realizar tais coisas. Pela qualidade das obras e pelo modo de fazê-las, fica claro que nesse caso é Deus quem age. E quando Deus age para confirmar um ensinamento, tal ensinamento é necessariamente verdadeiro, de outra forma seríamos enganados por Ele, o que é impossível. Então, aquilo que Cristo ensina é verdadeiro e como Ele nos ensinou a sua divindade abertamente, dizendo, por exemplo, “Eu e o Pai somos um”, devemos confessar que Cristo é verdadeiramente homem e verdadeiramente Deus.

Cristo fez milagres sobre os anjos, colocando-os a seu serviço diante dos homens em seu nascimento, em sua ressurreição, em sua ascensão. Cristo fez milagres sobre os demônios expulsando-os com uma simples palavra. Cristo fez milagres sobre os corpos celestes, com a estrela que guiou os magos, com os céus se abrindo quando de seu batismo por São João Batista, com as trevas que se fizeram presentes durantes sua crucificação. Cristo fez milagres sobre os homens, ressuscitando três, curando toda espécie de enfermidade: lepra, febre, paralisia, cegueira, surdez, mudez, curando à distância, etc. Cristo fez milagres sobre as criaturas racionais, com pescas milagrosas, tempestade acalmada, secando a figueira, multiplicando os pães, rasgando o véu do templo, produzindo terremoto quando de sua morte, etc. Podemos constatar, então, que toda a criação está sob a realeza de Cristo.

Cristo começou a fazer milagres somente ao iniciar a sua vida pública, a sua pregação. Se Cristo fez milagres para confirmar a sua doutrina e para manifestar sua divindade, não convinha que fizesse milagres antes de começar a pregar e sabemos que ele começou a ensinar somente aos 30 anos. E se Cristo deveria mostrar a sua divindade pelos milagres, não convinha fazê-los desde a sua infância, a fim de que a realidade de sua humanidade não fosse colocada em dúvida. Assim, não devemos dar crédito a revelações privadas que contam milagres de Cristo durante a sua infância. São João diz claramente que o milagre nas bodas de Caná foi o primeiro que Jesus fez, manifestando sua glória, e seus discípulos acreditaram nele.

Mas se os milagres têm como finalidade primeira mostrar a veracidade do ensinamento de Cristo e de sua divindade, eles são também expressão de sua infinita bondade misericordiosa. Vemos isso claramente no Evangelho: ao sair da barca, viu uma multidão numerosa, teve compaixão e curou os enfermos; teve compaixão dos que o seguiam e estavam com fome, teve piedade dos cegos em Jericó etc. A pedido de sua Mãe, reconhecendo o embaraço dos noivos em Caná, transformou a água em vinho.  E o povo judeu reconheceu essa bondade de Nosso Senhor e se admirava muito, dizendo: “Ele fez bem todas as coisas. Fez ouvir os surdos e falar os mudos!”

Devemos notar, acerca dos milagres de Cristo, que Ele nunca realizou um milagre em benefício próprio. Sofre de fome durante quarenta dias no deserto, mas não quer transformar as pedras em pão. Tem sede ao lado de um poço, mas, no lugar de saciar sua sede com um milagre, pede água à samaritana. Permite a seus carrascos que o maltratem e o matem na cruz, enquanto podia com uma simples ordem ser defendido por legiões de anjos. Os milagres são para os outros. São para o bem físico dos outros, mas sobretudo para o bem espiritual dos outros, para que possam acreditar em Cristo e reconhecer sua bondade e misericórdia. Devemos destacar também que Cristo nunca operou milagres supérfluos ou por capricho. Todos corresponderam, justamente, a uma necessidade física ou moral.

No Evangelho de hoje, no milagre da cura do filho do oficial do rei, não é diferente. Nosso Senhor cura um doente à distância, dizendo simplesmente “Vai, o teu filho vive.” Pode um homem fazer tal coisa? Pode um anjo fazer tal coisa? Sem dúvida, não. Só Deus pode fazer isso diretamente ou indiretamente. Cristo, sendo verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem, o faz. Cristo sabe que os homens precisam dos milagres para poder acreditar em seu ensinamento. Ele mesmo o diz: Vós, se não virdes milagres e prodígios, não credes. Todavia, há um limite para os milagres, pois uma vez realizado um número sufciente para comprovar a veracidade do ensinamento, já não são mais necessários. Hoje, os milagres já não são necessários, embora ainda existam muitos, em particular em Lourdes.  Nosso Senhor é movido, então, pela compaixão face ao sofrimento desse pobre pai e cura seu filho. Nosso Senhor age em benefício de outrem e jamais em benefício próprio.  E Nosso Senhor age não somente para curar fisicamente, mas sobretudo para dar a vida sobrenatural: o pai, tendo constatado a cura do filho, acreditou em Nosso Senhor Jesus Cristo junto com toda a sua casa. Os milagres supõem a fé ou terminam, em certo sentido, gerando a fé.

Reconheçamos, então, nos milagres de Cristo a confirmação inquestionável de sua divindade e de todo o seu ensinamento e reconheçamos também a sua bondade e misericórdia infinitas. Da mesma forma como Cristo ajudou àquelas pessoas quando esteve fisicamente presente entre os homens, ele nos ajudará. Os milagres são hoje mais escassos, pois já temos motivos suficientes para reconhecer a divindade e a bondade de Cristo. Mas se for necessário, Cristo nos ajudará até mesmo com milagres.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Nota do editor: destaques são nossos.

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[Sermão] Sobre a Fé e os erros opostos

Sermão para o 16º Domingo depois de Pentecostes (16 de setembro de 2012) 

Padre Daniel Pinheiro

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Ave Maria…

Tratemos hoje, caros católicos, de algo fundamental, algo sem o qual – nos diz São Paulo na Epístola aos Hebreus (11, 6) – não podemos agradar a Deus. Tratemos, pois, da fé. São Paulo utiliza hoje uma expressão curiosa: “que Cristo habite pela fé em vossos corações”. A fé está, então, em nosso coração? A fé é, então, um sentimento? Considerar a fé como um sentimento é um erro extremamente atual e que tem causado muito mal para as almas. Esse erro encontra sua origem na doutrina do modernismo, condenada por São Pio X. Negando que nossa razão possa conhecer a existência de Deus e possa receber uma revelação exterior (duas coisas falsas, pois podemos conhecer que Deus existe e podemos conhecer aquilo que ele nos ensina), o modernismo explica a existência da religião a partir de um sentimento interior, o sentimento religioso. As doutrinas das diversas religiões são todas expressões mais ou menos perfeitas desse sentimento e são todas expressões boas desse sentimento. Assim, toda religião que possa manter em uma pessoa esse sentimento religioso é boa. E o importante é que esse sentimento continue vivo, mesmo que para isso eu mude de religião, ou mude a doutrina católica ou mude a interpretação do ensinamento da Igreja. É  exatamente isso que nós vemos hoje: muitos ficam na Igreja Católica enquanto isso lhes agrada, mas se querem divorciar-se e casar-se novamente já não se sentirão bem e procurarão uma seita onde se sentirão bem e estarão, assim – pensam – “de bem com Deus”. Muitos querem mudar a doutrina católica segundo suas vontades e caprichos para se sentirem bem e outros querem reinterpretar os ensinamentos da Igreja. Podemos ver, então, quantos males são causados pelo fato de confundir a fé com um sentimento.

A fé, caros católicos, não é um sentimento e a frase de São Paulo não afirma isso. Para entender bem a frase de São Paulo – “que Cristo habite pela fé em vossos corações” – é preciso conhecer o vocabulário bíblico. O coração na Bíblia é, antes de tudo, a sede da inteligência ou da vontade. Quando São Paulo nos diz que deseja que Cristo habite pela fé em nossos corações, ele deseja, na verdade, que Cristo esteja presente em nossa inteligência pela fé, porque a fé está na inteligência e não nas emoções. A fé é uma virtude sobrenatural, dada pela graça divina, pela qual aderimos à verdade revelada por Deus, em virtude da autoridade divina que não pode se enganar nem nos enganar. Repito: a fé é a adesão da inteligência à verdade revelada por Deus, em virtude da autoridade divina que não pode se enganar nem nos enganar. Devemos ter isso muito claro para não confundir a fé com um sentimento passageiro que vai e vem. Devemos considerar na fé três coisas. De que modo devemos crer, em que acreditamos e por que acreditamos. Em seguida, devemos considerar alguns dos principais erros que se opõem à fé e alguns dos perigos para a nossa fé.

A primeira coisa que devemos considerar na fé é, então, de que modo devemos crer. Quando recitamos o Credo e dizemos “creio”, o que estamos dizendo? Estamos dizendo “eu penso”, “eu acho”, “é possível” ou “para mim é assim”…? Não! Quando dizemos creio ao recitar o credo, expressando a nossa fé, estamos aderindo da maneira mais firme possível, com certeza absoluta e sem nenhuma dúvida àquelas verdades, porque é  Deus quem nos fala e se Deus nos fala nós somos obrigados a acreditar de modo absoluto, porque Ele não pode se enganar nem nos enganar. Devemos crer, então, com certeza absoluta, sem condições nem hesitações… São Paulo nos diz que a fé é a certeza daquelas coisas que não vemos (Heb 11,1). Trata-se, portanto, de certeza.

Em que devemos acreditar com fé? Devo acreditar com fé, quer dizer, aderindo de modo absoluto, em tudo aquilo que Deus nos revelou por escrito ou por tradição e que a Igreja me ensina como divinamente revelado. Isto é, devo aderir de modo absoluto e incondicional a tudo aquilo que a Igreja ensina como revelado, pois a Igreja Católica foi estabelecida por Deus como infalível em matéria de fé e moral. Por exemplo, minha inteligência deve aderir com certeza absoluta à verdade de que Cristo é homem e  Deus, que Maria Santíssima foi concebida sem pecado e subiu aos céus, que o Papa é infalível em certas condições, que a contracepção é imoral etc. Nem todas as verdades de fé estão contidas explicitamente no Credo, mas só implicitamente. Precisamos saber também que não pode crescer o número de verdades reveladas. A Revelação terminou com o último Apóstolo. Depois da morte de São João Evangelista não há revelação de novas verdades. E os dogmas definidos  recentemente pela Igreja não são novas verdades reveladas? Não, esses dogmas não são novidades, mas estavam contidos ao menos implicitamente na doutrina ensinada pelos Apóstolos e pelas Sagradas Escrituras. A Igreja simplesmente explicita e afirma essas verdades em um dado momento da história. Assim, a infalibilidade está presente em Mateus 16, 16: “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja e tudo o que ligares na terra será ligado no céu e tudo o que desligares na terra será desligado no céu. E as portas do inferno não prevalecerão contra ela.” A Imaculada Conceição está contida na saudação do anjo: “Ave, cheia de graça…” E se não há novas verdades, também não pode haver uma interpretação diferente da interpretação que sempre foi dada aos dogmas. Não se pode dizer que renovação significa comemoração quando se diz que “a missa é a renovação não sangrenta do sacrifício da cruz”. Não. Renovação sempre foi interpretada pela Igreja como a repetição sacramental, não sangrenta do sacrifício de Cristo. Assim, não pode haver novas verdades reveladas nem pode haver mudança de sentido das verdades reveladas. Ambas as coisas seriam adulterar a Revelação para adaptá-la aos nossos gostos e preferências.

Mas por que devemos acreditar de maneira tão absoluta, com a maior certeza possível? Qual motivo leva nossa inteligência a aderir com tal certeza? O fato de ser Deus quem fala e sabermos que é Ele quem fala. Deus não pode se enganar nem nos enganar. E sabemos que é Ele quem fala quando vemos o dedo dEle confirmar uma certa doutrina com verdadeiros milagres e verdadeiras profecias; friso bem: com verdadeiros milagres e profecias. Sabemos que Cristo ensinou aquilo que Ele viu no seio do Pai porque Ele fez inúmeros milagres e profecias. E sabemos também que ele constitui sua Igreja como guardiã infalível da Revelação. Devemos acreditar, portanto, de modo incondicional e total quando Deus nos fala. Não acreditamos porque nossos pais nos ensinaram, nem porque o padre nos ensinou, mas porque Deus nos ensinou e se revelou para nós. Os pais, o padre, são instrumentos de Deus para que os outros possam conhecer os ensinamentos divinos. Mas no fundo, cremos porque Deus nos revelou. E, por essa razão, se deixo de acreditar em uma única verdade revelada proposta como tal pela Igreja – por exemplo, a Imaculada Conceição – perco toda a fé, porque já não acredito porque Deus me revelou, mas por um critério meu, a partir do qual decido o que é verdade ou não. Se deixo de aderir, de acreditar em uma única verdade de fé, perco a fé, deixo de ser católico.

A fé é, então, necessária para a nossa salvação e devemos com frequência fazer atos de fé durante a vida, em particular em momentos de tentação contra a fé e na hora da morte. Evidentemente, nunca podemos negar um só artigo de fé sem perdê-la e às vezes somos obrigados a manifestá-la. Por exemplo, quando a autoridade legítima nos interroga e o silêncio equivale a negar a fé.

Mas se a fé é um bem tão precioso, devemos evitar tudo aquilo que se opõe à fé. Alguns pecados se opõem à fé por excesso e outros por defeito.

Por excesso, opõem-se à fé a credulidade excessiva e a superstição. A credulidade excessiva consiste em admitir com demasiada facilidade e sem fundamento suficiente que certas verdades pertencem à fé. Ocorre normalmente em pessoas devotas, mas ignorantes, que concedem importância extraordinária ao que diz qualquer visionário. A Sagrada Escritura nos coloca em guarda contra essa excessiva credulidade: “Caríssimos, não creias em qualquer espírito, mas examinai os espíritos para ver se são de Deus, porque muitos falsos profetas levantaram-se no mundo” (1Jo 4,1). Mas também não devemos cair no extremo oposto racionalista que duvidaria até mesmo das revelações privadas aprovadas pela autoridade suprema da Igreja, como Fátima ou Lourdes. Em todo caso, as revelações privadas não fazem parte da Revelação com “R” maiúsculo e não há jamais obrigação estrita de acreditar nelas, embora não acreditar possa ser extremamente imprudente nos casos aprovados pela autoridade suprema da Igreja. Devemos ter cuidado, então, com a excessiva credulidade, em aceitar tudo que é tipo de revelação privada. Só podemos aceitá-las quando há a aprovação definitiva e cabal da Igreja, quando há a certeza de que nada nelas se opõe à doutrina da Igreja.

Se opõe também à fé por execesso a idolatria, tributando a uma criatura a adoração devida a Deus. A adivinhação, que tenta averiguar os futuros incertos e coisas ocultas por meios incertos e desproporcionais também se opõe à fé. E assim, a comunicação com demônios, com os mortos, ou outras práticas falsas, a fim de descobrir o desconhecido, consultar horóscopos, astrologia, leitura de mão/quiromancia, cartomante, tarô, búzios, etc. são pecados graves contra a fé e a religião; atribuir importância indevida aos sonhos, presságios… praticar magia ou feitiçaria; jogar com tábuas Ouija ou mesas que giram; praticar o jogo do copo; praticar o espiritismo (falar com os espíritos, invocar os mortos)… Eis aí alguns exemplos de pecados gravíssimos contra a fé e a religião.

Por defeito, também é pecado contra a fé a heresia, que nega uma ou mais verdades reveladas, e a apostasia, que é o abandono total da fé recebida no batismo. A dúvida proposital de qualquer artigo de fé, a ignorância deliberada das verdades de fé que devem ser conhecidas, e a negligência de instruir-se na fé de acordo com o próprio estado de vida também se opõem à virtude da fé. Podemos citar ainda o indiferentismo (que é acreditar que uma religião é tão boa quanto a outra, e que todas as religiões são igualmente verdadeiras e agradáveis a Deus, ou que o homem é livre para aceitar ou rejeitar a religião que quiser); a leitura ou circulação de livros ou escritos contra a crença e a prática católicas, de tal modo a comprometer a própria fé também se opõem à mesma; participar em ato de culto ou liturgia de cismáticos ou hereges; aderir a ou apoiar sociedades proibidas. Para proteger a fé, a Igreja não recomenda o casamento com alguém que não é católico e tal casamento só pode ocorrer com a dispensa da autoridade eclesiástica.

Nós vivemos em um mundo em que há uma crise de fé enorme. Tudo isso que acabamos de mencionar é abundante em nossa sociedade e mesmo entre católicos, desde a excessiva credulidade até o casamento com acatólicos, passando pelas práticas de adivinhação, sempre condenadas pela Igreja. Nós precisamos, então, fortalecer a nossa fé, pedindo a Deus que aumente a nossa, nos dando uma firmeza cada vez maior e fazendo com frequência atos de fé, em particular nos momentos de tentação contra a fé. Devemos também nos instruir segundo o nosso estado, lendo o catecismo de São Pio X ou o Catecismo Romano e outros livros seguros quanto à doutrina católica.

Senhor, vós sabeis que somos homens de pouca fé. Por isso vos pedimos, aumentai a nossa fé para que possamos crer com uma certeza cada vez maior e para que possamos aderir totalmente e profundamente aos vossos ensinamentos e para que possamos conhecê-los cada vez melhor. Assim, poderemos ser agradáveis a Vós e felizes nessa terra, mas sobretudo no céu.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo.

Nota do editor: destaques são nossos.

Anunciação de Nossa Senhora (I): São Gabriel Arcanjo

 

 

 

 

 

 

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Em preparação para a Festa da Anunciação de Nossa Senhora, no dia 25 de março, postamos hoje algo sobre São Gabriel Arcanjo, cuja festa se celebra hoje, 24 de março.

O trecho a seguir é extraído do livro Legenda Aurea.

“A anunciação do Senhor é assim chamada porque no dia agora festejado um anjo anunciou o advento do Filho de Deus na carne. Por três razões convinha que a encarnação do Filho de Deus fosse precedida pela anunciação do anjo.

Primeira razão, que a ordem da reparação correspondesse à ordem da prevaricação. Do mesmo modo que o diabo tentou a mulher para levá-la à dúvida, da dúvida ao consentimento, do consentimento à queda, o anjo Gabriel anunciou à Virgem para estimular sua fé e levá-la da fé ao consentimento, do consentimento à concepção do Filho de Deus.

Segunda razão, o ministério do anjo, porque sendo o anjo ministro e escravo de Deus, e tendo a bem-aventurada Virgem sido escolhida para mãe de Deus, era conveniente que o ministro servisse a senhora e era justo que a Anunciação fosse feita à bem-aventurada Virgem por um anjo.

Terceira razão, reparar a queda do anjo, já que se a Encarnação não teve por único objetivo reparar a queda do homem, mas também reparar a ruína do anjo, os anjos não deviam ficar excluídos dela. Assim como a mulher não está excluída do conhecimento do mistério da Encarnação e da Ressurreição, o mesmo deveria acontecer com o mensageiro angélico.”

“Ó Deus, que entre todos os Anjos, escolhestes o Arcanjo Gabriel para anunciar o Mistério de vossa Encarnação, concedei-nos por vossa bondade, que, depois de celebrarmos a sua festa na terra, gozemos no céu os efeitos de sua proteção!”