[Sermão] São poucos os que se salvam? Ou: o número dos eleitos

Sermão para a Solenidade Externa da Festa de Todos os Santos

04.11.2017 – Padre Daniel Pinheiro, IBP

Depois disso, olhei e vi uma multidão grande que ninguém podia contar, de toda nação, tribo, povo e língua.

Poderíamos, caros católicos, considerando nesse dia de hoje todos os santos no céu, considerando a glória da Igreja triunfante, nos perguntar como aquele judeu perguntou ao Salvador: “Senhor, são poucos os que se salvam?” E o Senhor respondeu: “Esforçai-vos por entrar pela porta estreita porque vos digo que muitos procurarão entrar, e não conseguirão.” Nosso Senhor fala que é preciso esforçar-se, que é preciso entrar pela porta estreita, que o caminho é difícil, mas não responde propriamente quanto ao número de eleitos. Mesmo em outras passagens, quando o Senhor diz que muitos são os chamados e poucos os escolhidos, Ele não se refere exatamente ao número de eleitos, mas fala da maior parte dos judeus, que não quis entrar no reino de Deus, isto é, na Igreja Católica Apostólica Romana.

Nosso Senhor, no lugar de responder, mostra o caminho, mostra que é preciso esforçar-se, que é preciso renunciar a si mesmo, ao pecado, ao demônio, ao mundo. Nosso Senhor não quis responder para evitar que as almas se perdessem. Se Nosso Senhor respondesse que são poucos os que se salvam, muitos seriam levados ao desespero. Se Nosso Senhor falasse que é grande o número dos que se salvam, muitos seriam levados à presunção, quer dizer, seriam levados a pensar que poderiam se salvar de qualquer jeito, sem muito esforço. Nosso Senhor não responde propriamente a pergunta.

Dentro desse tema, não devemos acreditar que praticamente todo mundo se salva nem que praticamente todo mundo se condena. Nós podemos, todavia, com base na Revelação e na razão, ter um otimismo moderado. Ora, mesmo a lição do livro do Apocalipse, que lemos hoje, fala de uma multidão incalculável de santos. A própria repetição do texto na Epístola de hoje dá a ideia de uma grande multidão. E nós, ao comemorar todos os santos, nos lembramos também da quantidade imensa deles, de quantos nos são completamente desconhecidos e de quantos eram como nós, no mesmo estado de vida, com as mesmas dificuldades, com as mesmas quedas e conseguiram, no entanto, alcançar o céu, humilhando-se e apoiando-se na graça de Deus, fazendo a parte deles, fazendo o esforço deles, ajudados pela graça, com o nosso mesmo estado de vida, com os nossos mesmos defeitos, com os nossos mesmos pecados, e conseguiram converter-se a Deus.

Lembremo-nos sempre caros católicos, nesse dia, daquela frase de Santo Agostinho: “Se estes e estas puderam se santificar, por que não eu?” Também eu posso me santificar com a graça de Deus, com muita humildade.

Nós temos motivos para um otimismo moderado quanto ao número dos que se salvam, caros católicos. Temos motivo para esse otimismo por causa da misericórdia de Deus, e também por causa da Sua justiça, que pune apenas aqueles que merecem, que morrem sem arrependimento. Podemos ter um otimismo moderado porque a redenção de Cristo é superabundante. Podemos ter grande esperança porque temos a intercessão de Nossa Senhora, Mãe de Deus e nossa, advogada nossa, refúgio dos pecadores. Portanto, o número dos que se salvam não é um número ínfimo. Devemos evitar essa posição rigorista, mas, ao mesmo tempo, devemos evitar a posição de que todos se salvam. Claro, o dogma de que fora da Igreja Católica não há salvação continua sempre válido, evidentemente. Apenas se salva quem está na Igreja Católica de fato ou por desejo.

São Tomás de Aquino, caros católicos, ao tratar do assunto, escreve que é melhor dizer que somente de Deus é conhecido o número dos eleitos, que serão então colocados na felicidade suprema. Nosso Senhor não responde e São Tomás também não responde abertamente à questão: “Qual é o número dos que se salvam?” Quem seríamos nós para fazê-lo?

O que deve nos interessar, caros católicos, não é tanto a quantidade de pessoas que se salvam. Pode ser que a maioria dos homens se salve, mas isso não significa que eu esteja entre eles. Pode ser que poucos se salvem, mas que eu esteja entre eles, pelos meus esforços ajudados com a graça de Deus. O que deve nos interessar, então, não é o número dos que se salvam, mas que estejamos entre eles. E isso é plenamente possível, caros católicos, porque Deus quer nos tirar de nossa miséria, Deus nos dá os meios abundantes para vivermos em Sua graça e para perseverarmos nela. Temos em primeiro lugar a doutrina da Santa Igreja Católica, temos a Missa, temos os sacramentos, temos os sacramentais, temos o Terço. Temos a intercessão de Nossa Senhora e dos outros santos. Temos a comunhão dos santos, pela qual podemos e devemos rezar uns pelos outros, oferecer sacrifícios pela salvação uns dos outros.

A salvação nos é possível, caros católicos e plenamente possível. E não apenas a salvação nos é possível, mas a santidade, o grande progresso nas virtudes. O caminho é que renunciemos a nós mesmos, tomemos a nossa cruz e sigamos a Jesus, nos unamos a Ele profundamente.

Renunciar a nós mesmos é renunciar à nossa vontade própria cada vez que a nossa vontade se opõe à vontade divina. É também renunciar ao pecado mortal e lutar seriamente contra o pecado venial, isto é, contra o pecado leve. É também renunciar ao demônio com as suas pompas, as suas tentações. É renunciar ao mundo, pisoteando o respeito humano, fugindo das ocasiões de pecado, em particular das diversões mundanas. Devemos afastar para longe de nós o espírito mundano, amaldiçoado por Nosso Senhor Jesus Cristo.

Devemos, caros católicos, nos apoiar na graça de Deus mais do que em nós mesmos e devemos nos conformar com a vontade de Deus em tudo. Nesse caminho de esperança em direção ao céu, não podemos desanimar. Grande armadilha do demônio é o desânimo e a tristeza. Nós vemos muitos católicos atingidos profundamente pelo desânimo e pela tristeza. Isso se vê na expressão do rosto, se vê no modo de falar e de agir. Quantos, compreendendo mal o caminho da salvação, desanimam porque não avançam tão rápido quanto idealizaram ou desistem de tudo porque caíram? Querendo avançar muito rápido, tropeçam. Querendo ficar de pé apenas com as próprias forças, caem. E têm dificuldade de levantar. Porque não se apoiam em Deus ou porque não têm paciência consigo mesmo. Claro, é preciso lutar, levantar-se o quanto antes com o propósito de não mais cair, mas com humildade, com paciência e apoiados em Deus. Quantos diante dos sofrimentos que Deus usa para moldar nossa alma recuam e caem no velho e constante erro de procurar Deus num sentimento agradável. Procurar Deus num sentimento é ter uma ideia de Deus muito baixa, muito aquém de Sua natureza perfeitíssima. E de fato, caros católicos, o sofrimento é a grande pedra de tropeço no caminho da santidade, no caminho do céu. Diante do sofrimento que Deus usa com toda a Sua bondade, com toda a Sua misericórdia para nos santificar, para nos tornar perfeitos, refugamos, recuamos e voltamos pelo caminho do pecado ou por um caminho de imperfeição.

Devemos então nos esforçar, caros católicos, de modo sereno, suavemente e fortemente. Esse é o caminho dos santos. Força e suavidade. Sem angústia, sem ter a alma dilacerada na busca pela santidade e pela salvação. Procurando avançar sempre com serenidade, com força e suavidade.

O reino dos céus é dos violentos, nos diz Nosso Senhor, isto é, daqueles que o arrebatam pela força, pela força da fé, pela força da caridade, pela força da conformidade plena com a vontade de Deus, pela força da luta contra a carne, contra o demônio e contra o mundo. Mas o reino dos céus também nos diz Nosso Senhor é dos mansos e dos humildes. É preciso, caros católicos, ser violento, manso e humilde, ou seja, suave e forte. É preciso compreender que não há contradição em ser violento, manso e humilde, quando falamos do combate espiritual.

A via da salvação e da santidade é estreita e se estreita ainda mais na medida em que queremos ser santos do nosso jeito, buscando uma santidade que nos agrada de algum modo. Ao contrário, se deixarmos Deus agir, se aceitarmos de bom grado as cruzes, se nos lançarmos inteiramente nas mãos de Deus para que Ele molde a nossa alma pelos sofrimentos que Ele quiser nos dar, se deixarmos que Ele molde a nossa alma também por outros meios que Ele quiser usar, se nos lançarmos assim a Deus, essa via estreita vai tornar-se bem larga, pois Deus vai dilatar a nossa alma com o Seu amor.

Caros católicos, façamos a nossa parte com a graça de Deus para estarmos no número dos que se salvam. Não nos interessa o número dos que se salvam, mas estar entre eles. É perfeitamente possível, com suavidade e força. Nosso Senhor Jesus Cristo, amigo de nossa alma nos dá graças abundantes para isso. Deus é bom, caros católicos! Confiança nEle!

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

[Aviso] Festa dos Santos

Alguns avisos sobre a Festa dos Santos:
1. A venda de convites foi encerrada ontem.
2. As crianças devem se vestir após a Missa. Então, tiraremos a foto, cantaremos um pouco e almoçaremos. Depois, teremos duas rodadas do bingo.
3. Não se trata de festa à fantasia. É uma homenagem aos santos e um modo de conhecer um pouco a vida deles. Expliquem a vida do santo para a criança

4. A criança deverá, então, conhecer um pouco da vida do Santo, para apresentá-lo muito rapidamente durante o Bingo dos Santos. Se a criança for muito bebezinha, os pais deverão fazê-lo ou ajudar. Não será possível que todas crianças falem, pois são mais de 80. Avisem e expliquem isso para elas, para não ficarem frustradas se não forem chamadas no Bingo.
5. A criança deverá estar trajada sempre decentemente, mesmo se a iconografia do santo indicar algo diverso. Por exemplo, São Sebastião é
representado com o torso despido atingido pelas flechas. A criança NÃO deverá vir sem camisa.
6. Na pesquisa (com fontes confiáveis) sobre a vida do santo, identificar algo na sua iconografia que possa identificá-lo com certa rapidez. Por
exemplo, a flecha para São Sebastião, o lírio para São José.
7. Os trajes podem e devem ser simples e dignos, feitos em casa com a ajuda das próprias crianças, na medida do possível.
Deus abençoe.”

[Avisos] Diversos e importantes

  1. Não haverá Adoração ao Santíssimo na próxima quinta-feira.
  2. Haverá, na quinta-feira, 01/11, Terço para as mulheres casadas do apostolado.
  3. No dia de finados, 02/11, Missa nos horários de um domingo: 8:00, 10:00 (Cantada ou Solene) e 19:00.
  4. Não haverá Hora Santa nessa primeira sexta-feira em razão dos horários de Missa no dia de finados.
  5. Sábado, 03/11, aula de História da Igreja: Basília Romana de Santa Maria Sopra Minerva.

[Sermão] A determinação muito determinada no combate espiritual contra a frouxidão

 

Sermão para o 21º Domingo depois de Pentecostes

13.10.2018 – Padre Daniel Pinheiro, IBP

Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém.

Ave Maria…

Citaremos nesse Sermão algumas passagens de Santa Teresa d’Ávila. Textos de que, em geral, muitos gostam, mas que poucos entendem. Não é uma leitura tão simples. Então, é preciso um pouco de cuidado ao fazer a leitura de Santa Teresa d’Ávila ou de São João da Cruz.

Caros católicos, a epístola de São Paulo nesse 21º Domingo depois de Pentecostes nos imprime na alma algumas verdades fundamentais da vida espiritual, verdades das quais nunca devemos nos esquecer.

Em primeiro lugar, a ideia geral de que a vida espiritual, de que a busca pelo céu, de que a busca pela santidade, de que a busca pela perfeição é um combate. Sim, caros católicos, muitas vezes nos esquecemos que se trata de uma guerra, de uma luta, de uma peleja tremenda. E, esquecidos disso, desanimamos diante dos ataques do inimigo de nossa alma, desanimamos com alguma derrota eventual, desanimamos porque não estamos dispostos realmente a nos esforçar e a combater. Ora, como em toda guerra, são necessárias renúncias, são necessários sacrifícios para alcançar a vitória. Sem essa disposição firme, sem uma determinação muito determinada de quem vai para uma guerra para vencê-la a todo custo, jamais sairemos vitoriosos do combate espiritual. Essa é a primeira verdade, de que a vida espiritual é um combate.

Em segundo lugar, o fato de que essa guerra não é contra as potências humanas, mas é contra os principados e potestades, contra os reitores desse mundo de trevas, contra os espíritos do mal. Enfim, nosso combate é contra os demônios, contra aqueles anjos que se revoltaram contra Deus por orgulho e que foram, então, precipitados no inferno. É claro que os demônios têm uma natureza muito mais perfeita que a nossa natureza humana. É claro que eles têm uma inteligência e um poder muitos maiores do que a nossa inteligência e a nossa capacidade. E toda essa perfeição, que vem de Deus, os demônios, após o pecado, a utilizam para nos levar ao pecado e ao inferno. O demônio arma inúmeras ciladas, armadilhas, das quais, sozinhos, não podemos escapar. Sozinhos, terminaremos sendo devorados pelas ciladas desse leão que ruge em torno de nós buscando devorar-nos, como diz São Pedro. Assim é o demônio. E, de fato, não temos inteligência, nem força para resistir-lhe. O demônio encontrará meios sutis para nos fazer desanimar, para nos levar à tristeza, para nos fazer ceder ao mundo, para nos fazer aderir a um erro qualquer, para nos fazer buscar diversões pecaminosas e assim por diante. Ele conseguirá nos levar, pouco a pouco, a algum pecado mortal e nos fazer crer que é impossível a nossa conversão e a nossa salvação.

Vem, então, caros católicos, a terceira grande verdade. A primeira verdade é que a vida espiritual é um combate tremendo. A segunda é que esse combate é contra os demônios. A terceira verdade é que devemos ser fortes em Deus. Devemos fortalecer-nos nEle, na eficácia do Seu poder. Devemos estar revestidos da armadura de Deus. São Paulo repete isso duas vezes nesse breve texto da epístola de hoje. Revesti-vos da armadura de Deus para resistir às insídias, às ciladas do demônio. E revesti-vos de Deus para poderdes resistir no dia mau, para que possamos permanecer perfeitos em tudo. Sim, caros católicos, se não estivermos revestidos da armadura de Deus facilmente seremos trucidados no combate espiritual, ainda que isso ocorra sutilmente, pois o demônio é astuto. Se formos ao combate apoiando-nos somente em nossa natureza, em nossas qualidades naturais, em nossas próprias forças, já estamos derrotados. Devemos estar revestidos com a armadura de Deus. E o que é a armadura de Deus? A armadura de Deus é a graça santificante, que nos faz participar da própria vida divina. Se estivermos na graça, estaremos revestidos com a armadura de Deus. E junto com a graça estão sempre todas as outras virtudes, das quais São Paulo enumera algumas nessa epístola: a verdade, a justiça, o zelo para propagar o Evangelho, a fé, o elmo da salvação – que é a esperança – e a espada do Espírito, que é a Palavra de Deus. Se não estivermos revestidos da graça, se a nossa fortaleza não estiver em Deus, vamos sucumbir rapidamente diante do demônio. Nas nossas fraquezas, caros católicos e reconhecendo nossas fraquezas é que somos fortes, como nos diz São Paulo (II Cor 12, 10). Porque reconhecendo as nossas debilidades, nos apoiaremos na graça de Deus, nos revestiremos da armadura de Deus e, aí sim, seremos fortes. Basta-nos a graça de Deus nesse combate espiritual.

Estamos, então, caros católicos, em um combate tremendo contra o demônio. Em um combate tremendo pela glória de Deus, pela glória da Igreja e pela salvação de nossa alma. Devemos ser fortes e não frouxos. Devemos combater arduamente. Devemos ter fibra. É preciso trabalhar como bom soldado de Cristo, como nos diz São Paulo. Infelizmente, hoje somos muito molengas, nos falta fibra. Desanimamos na primeira ou na segunda dificuldade. Não temos força porque não colocamos nossa força em Deus, mas em nós mesmos. É preciso deixar de lado essa frouxidão e agir com fibra, com fortaleza no combate espiritual. Nosso Senhor o disse: o reino dos céus é dos violentos, o reino dos céus é arrebatado à força. Não estamos falando, é evidente, de violência física, mas dessa determinação muito determinada de que fala Santa Teresa e sem a qual é impossível a salvação. Se, revestidos com a armadura de Deus, não tomarmos as rédeas da nossa vida espiritual, se não decidirmos definitivamente sofrer tudo para agradar a Deus e alcançar o céu, ficaremos no meio do caminho, como o soldado com medo que termina sendo atingido mortalmente no meio da batalha. A santidade, caros católicos, exige heroísmo. Muitos pretendem ser fortes abandonando a lei de Deus. Esses são fracos. Crianças e jovens, em particular, devem ter muito claro na alma a grandeza de ser um católico, a grandeza de combater pela glória de Deus, a grandeza de combater para que Deus reine sobre os indivíduos e sobre as sociedades, a grandeza de lutar pela própria salvação. Essa é a grandeza de cada um de nós, criados por Deus. Nada há mais nobre, mais elevado, mais grandioso do que isso. Com toda a humildade, apoiados em Nosso Senhor, combatamos o bom combate, guardemos a fé e a caridade.

Não sejamos frouxos, caros católicos, nem desanimados, nem tíbios, nem fracos, nem pusilânimes, nem envergonhados, nem medrosos, nem melindrosos, nem suscetíveis. Sejamos fortes em Deus, de uma fortaleza que não se quebra por nada e que é, ao mesmo tempo, serena. É preciso ter uma determinação muito determinada para alcançar a vitória nesse combate. E essa determinação vem de Deus. Peçamo-la a Ele.

Aproveitando que amanhã (15/10) é a festa de Santa Teresa d’Ávila, vejamos algumas citações – adaptadas – dela a respeito dessa determinação necessária para que vençamos o combate espiritual. Assim dizia Santa Teresa: “Se não nos determinarmos a tragar de uma vez a morte e a falta de saúde, nunca faremos nada. (Caminho de Perfeição 11, 4) Procurai não temer a morte e entregai-vos de todo a Deus, venha o que vier. Que importa que morramos?” Devemos, então, caros católicos, estar determinados a morrer antes do que pecar. Que importa que morramos, se vamos ao céu?

Falando daqueles que querem ir pelo caminho da perfeição sem parar até chegar ao fim, Santa Teresa diz “que importa muito (…) ter uma grande e muito determinada determinação de não parar até chegar à perfeição, venha o que vier, suceda o que suceder, trabalhe-se o que se trabalhar, murmure quem murmurar, quer lá se chegue, quer se morra no caminho (Caminho de Perfeição 21, 2).” Não devemos, caros católicos, nos preocupar com nada, nem desanimar por nada. Venha o que vier, suceda o que se suceder, trabalhe-se o que se trabalhar, murmure quem murmurar, quer lá se chegue, quer se morra no caminho, devemos perseverar, devemos continuar firmes na busca da santidade.

E Santa Teresa diz que essa determinação muito determinada é muito útil contra as ciladas do demônio. Ela diz que o demônio “tem grande medo das almas determinadas, porque ele já tem experiência do grande dano que lhe fazem essas almas e ele sabe que tudo quanto dispõe para prejudicar essas almas, vem a ser em proveito delas e de outros, e que o demônio sai, então, perdendo.” Mas, ao contrário, se o demônio “tem a alguém por inconstante e que não está firme no bem, nem com grande determinação de perseverar, o demônio não o deixa em paz nem a sol nem a sombra. Colocará nessa alma constantes medos e mostrará a essa alma muitos inconvenientes sem fim para que ela não persevere (Caminho de Perfeição 23, 4).” Portanto, caros católicos se somos vigilantes e determinados, sem nos descuidar, é o demônio que terá medo de nós, vendo o grande proveito que podemos tirar das provações que nos faz ao estarmos revestidos da armadura de Deus. Ao tentar nos levar ao pecado, crescemos na virtude, será para o nosso bem e para o bem do próximo.  Ao contrário, porém, se não somos determinados, não nos deixará o demônio em paz e nos dará medos e nos mostrará dificuldades – imaginárias muitas vezes – e vamos cair.

Dizia a Santa também que é grande fundamento “para se livrar dos ardis e gostos vindos do demônio, que uma alma comece com determinação a seguir caminho da cruz desde o princípio e que não tenha desejo de consolações”. Continua ela, “O mesmo Senhor nos ensinou este caminho de perfeição ao dizer: «Toma a tua cruz e segue-Me». É Ele o nosso modelo; não tem o que temer aquele que só para contentar Nosso Senhor, segue os Seus conselhos. (Vida 14, 13)” Devemos, caros católicos, começar com determinação a seguir o caminho da cruz, sem desejar consolações.

Ainda Santa Teresa diz que essa determinação muito determinada ajuda bastante a alma a combater com mais ânimo. Ela fala que, assim, “a alma peleja com mais ânimo. Já sabe essa alma determinada que, venha o que vier, não há de voltar atrás. É como quem está numa batalha e sabe que, se o vencem, não lhe perdoarão a vida e, se não morre na batalha, há de morrer depois (23, 5).” Então, vale a pena batalhar. Sim, caros católicos, venha o que vier, não devemos voltar atrás no caminho da santidade. Renunciaremos certo, a muitas coisas, morreremos para muitas coisas, mas ganharemos a vida eterna. De que adianta guardarmos aquilo que nos afasta de Deus? De que vale permanecer no pecado? Isso é a morte da alma. Morramos, ao contrário, para esse mundo, morramos lutando por Deus.

Diz ela também que devemos aproximarmo-nos do bom Mestre, Nosso Senhor Jesus Cristo, muito determinados a aprender o que Ele ensina, e Sua Majestade fará com que não deixemos de sair bons discípulos, nem Ele nos deixará, se não O deixamos primeiramente. (26, 10)

E, finalmente, dizia Santa Teresa: “Há de se notar muito que a alma que neste caminho espiritual de oração mental começa a caminhar com determinação e consegue não fazer muito caso, nem de se consolar nem de se desconsolar muito, quer lhe faltem estes gostos e ternura, quer lhos dê o Senhor, tem já andado grande parte do caminho”. A alma que começa a oração mental, quer dizer, a meditação, com determinação, já tem andado grande parte do caminho. E continua a Santa: “Não tenha medo de voltar atrás, por mais que tropece, porque o edifício vai começado em firme fundamento. Sim, não está o amor de Deus em ter lágrimas nem nestes gostos e ternuras, que na maior parte os desejamos e consolamos com eles, mas está o amor a Deus em servi-Lo com justiça e fortaleza de ânimo e humildade (Vida, 11, 13)”.

“Talvez não saibamos o que é amar” – ainda a Santa – “e não me espantarei muito; porque  amar não está no maior gosto, mas sim na maior determinação de desejar contentar a Deus em tudo e procurar, tanto quanto pudermos, não O ofender, e rogar-Lhe que vá sempre por diante a honra e a glória de Seu Filho e o aumento da Igreja Católica (4M 1, 7)”.

Todas palavras tremendas de Santa Teresa e importantíssimas para a nossa vida espiritual.

Não sejamos frouxos, caros católicos, mais uma vez, nem desanimados, nem tíbios, nem fracos, nem pusilânimes, nem envergonhados, nem medrosos, nem melindrosos, nem suscetíveis. Sejamos fortes em Deus, de uma fortaleza que não se quebra e que é serena. É preciso ter essa determinação muito determinada para alcançar a vitória nesse combate. E essa determinação vem de Deus. E essa determinação é alegre. Peçamos a Nosso Senhor essa determinação muito determinada. E ela é para homens e para as mulheres. Assim dizia Santa Teresa para as suas freiras: “eu não quereria, minhas filhas, que o fôsseis em nada, nem o parecêsseis, senão varões fortes” – senão homens fortes. E como diz São Paulo: Vigiai, permanecei firmes na fé, portai-vos varonilmente e fortalecei-vos. Claro, São Paulo e Santa Teresa falam dessa força de vontade, dessa determinação muito determinada no combate espiritual e que devemos ter, homens e mulheres, cada um conforme a sua natureza.  Que tristeza ver hoje tantos cristãos frouxos, pusilânimes, ainda mais quando se vêem homens efeminados, no modo de falar, nos gestos, no comportamento. Enquanto Santa Teresa dizia para as suas filhas que não deveriam na vida espiritual, parecer senão varões fortes, sem serem melindrosas, nem suscetíveis.

A vida do homem sobre a terra é uma milícia, é um combate, nos diz a Sagrada Escritura. De fato, a vida é luta renhida, a vida é uma disputa com ardor pela salvação da nossa alma. A vida é combate que os fracos abate. Aqueles que não forem muito determinados em Deus serão abatidos no combate da vida espiritual pelo demônio. Mas esse combate que só pode, ao contrário, exaltar aos fortes em Deus e aos bravos em Deus, só pode exaltar aqueles que caminham humildemente submetidos a Deus. A vida é luta renhida: Viver é lutar. A vida é combate, que os fracos abate, que os fortes, os bravos só pode exaltar (referência a um trecho de poesia de Gonçalves de Almeida, mas interpretado catolicamente). Sejamos desses fortes e desses bravos em Deus, e com toda a humidade, caros católicos.

Em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Amém.

O católico e as eleições

Sermão para o 19º Domingo depois de Pentecostes

30.09.2018 – Padre Daniel Pinheiro, IBP

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Ave Maria…

Caros católicos, gostaria de tratar da questão do voto, considerando não tanto a situação concreta, mas, sobretudo, considerando os princípios estabelecidos pelos teólogos católicos. Sim, nos momentos de maior agitação é que mais precisamos ter claros os princípios. Eles servem sobretudo nos momentos de agitação, em que as paixões tendem a obscurecer a inteligência. Como sabemos, caros católicos, a política tende a agitar muito as paixões. É preciso, então, estarmos bem esclarecidos e bem dóceis com relação aos princípios católicos, para aplicá-los nesses momentos de agitação.

Evidentemente, sabemos que a democracia moderna está fundada em um princípio completamente equivocado, um princípio que penetra praticamente todas as instituições dessa democracia moderna. É o princípio de que o poder vem do povo, independentemente de Deus. Não caros católicos, a verdade é que o poder vem de Deus e deve ser exercido em conformidade com a lei de Deus. Sabemos que os candidatos são quase sempre impostos aos cidadãos, que devem com frequência escolher entre dois males. Sabemos que muita coisa na democracia moderna é uma pura ilusão.

Sabemos também claramente, como afirmam e insistem os Papas ao longo de toda essa crise do mundo moderno, escancarada no século XIX, que a solução é, em primeiro lugar, religiosa e não política. A solução não vem, em primeiro lugar de um partido, de um candidato, de uma forma de governo, sobretudo quando vemos tudo isso ligado a princípios opostos a Nosso Senhor e à Sua Igreja. Como dizia o Cardeal Pie, grande defensor, nesse mesmo século XIX, da realeza social de Nosso Senhor Jesus Cristo, “a questão social será resolvida pela questão religiosa, e a questão religiosa diz respeito, sobretudo à questão do culto.” E podemos acrescentar: a questão do culto diz respeito sobretudo à questão da Missa. Ainda assim, diante de tudo isso, não podemos deixar de agir na sociedade de modo ordenado e do modo como nos é possível, sem jamais pecar, evidentemente. E chegamos, então, à questão do voto.

Os moralistas católicos são unânimes em dizer que, a princípio, o voto é, em consciência, obrigatório em uma eleição importante para o bem comum, como podemos considerar as eleições para o governo e para a legislatura de um país, de um estado, de uma cidade. E é também um ensinamento do Magistério da Igreja, por exemplo, de Leão XIII, de Pio XI e de Pio XII. Todo membro de uma sociedade está obrigado a cooperar para o bem comum dessa sociedade. É claro que a escolha do governante e daqueles que elaboram as leis influi muitíssimo no bem comum. Esta obrigação do voto está ligada ao 4º Mandamento, que estabelece também as obrigações dos membros da sociedade para com a sociedade. E essa obrigação está ligada à virtude da piedade, virtude derivada da justiça e que estabelece os deveres dos homens para com a sua pátria.

Essa obrigação em consciência, caros católicos, existe quando a eleição é importante para o bem comum e quando é possível eleger um candidato digno e quando nosso voto vai fazer diferença. Muito facilmente se pensa que o voto de um indivíduo não vale nada, o que é um erro. Em certos casos, essa obrigação pode deixar de existir, por exemplo, quando o voto se torna um reconhecimento de um governo usurpador, como foi o caso na Itália no século XIX, quando os Estados Pontifícios foram tirados do Papa de maneira injusta. Naquele momento, votar seria reconhecer essa injustiça.

O voto, a princípio, deve ser para alguém realmente apto, realmente digno. Para alguém ser considerado realmente digno, é preciso que seja católico, de espírito firme, ou seja, que defenda todos os princípios católicos com convicção e clareza, incluindo a lei natural; É preciso também que tenha capacidade para governar, que seja prudente, que tenha experiência compatível com o cargo; é preciso também que conheça suficientemente a ciência política e que tenha suficiente eloquência. Claro que o mais importante aqui é a defesa dos princípios católicos e da lei natural. E é considerado indigno alguém que não tem alguma dessas qualidades, sobretudo quem não tem a qualidade da defesa íntegra dos princípios católicos e da lei moral.

Muitas vezes, porém, caros católicos, se apresenta o caso em que nos é dada a escolha somente entre candidatos indignos –  poderíamos dizer, na verdade, quase sempre, senão sempre. Nesse caso, praticamente todos os moralistas afirmam que é possível, com certas condições, votar ou eleger o candidato menos indigno para afastar o mais indigno, ou seja, os moralistas afirmam que é possível votar naquele que dá esperanças de que seja o mal menor para afastar um mal maior. Isso porque o voto é, em si, uma ação boa e o mandato é conferido a alguém para que o exerça devidamente, quer dizer para que exerça a função que lhe é conferida em vista do verdadeiro bem comum, ainda que venha depois a abusar dessa função. Esse ato de votar no menos indigno com o motivo grave de afastar um mal maior é um ato bom. Claro que votar no candidato menos pior somente para afastar o mal maior não pode ser e não é um apoio formal ao que esse candidato tem de ruim. Assim, é lícito votar no menos pior com o objetivo de afastar um mal maior e esse voto não significa apoiar o projeto de governo desse candidato no que ele tem de ruim. Procurando o bem de afastar o mal maior, é possível votar no mal menor ou no candidato menos indigno havendo apenas candidatos indignos. Votar no mal menor nessas condições não é apoiar o mal do mal menor.

Aquele que vota no menos pior deve, porém, evitar o escândalo, ou seja, deve explicar as discordâncias que tem com esse candidato e explicar que vota nele como o menos pior, simplesmente para evitar um mal maior e não com apoio formal. Caso alguém queira manifestar seu voto no mal menor, deve deixar claro que não se trata de um apoio irrestrito e deve apontar em que pontos há erros. Deve dizer que não é apoio formal, que apenas está votando no menos pior, buscando o bem de evitar o mal maior. E deve-se, após a eleição do mal menor, continuar denunciando o que o candidato menos pior tem de ruim em seu programa de governo e tentando impedir por meios lícitos a aplicação das medidas ruins. Não deve haver acomodação dos bons.

Para considerar quem é menos indigno, deve-se considerar, em primeiro lugar, os princípios morais, ou seja, aquelas questões que mais têm influência no bem moral da sociedade. Não se deve considerar em primeiro lugar a economia ou o bem pessoal, o bem particular. E aqui podemos citar aquilo que Bento XVI chamava de princípios não negociáveis na política, que são três: 1) a tutela da vida inocente, em particular contra o aborto, contra a eutanásia; 2) o reconhecimento da família natural, isto é, um homem e uma mulher unidos pelo matrimônio indissolúvel, contra o divórcio, contra as uniões entre pessoas do mesmo sexo, mesmo contra a esterilização; 3) a tutela do direito de os pais educarem os filhos. Quanto mais um candidato se afasta dos princípios da moral católica e da lei natural em seu programa de governo, mais indigno ele será, e esses três pontos são os mais básicos.  Assim, se por hipótese, há dois candidatos que são iguais em tudo, mas tem um que é a favor do aborto em qualquer situação e o outro é a favor do aborto em alguns casos, seria possível votar nesse candidato que é a favor do aborto em alguns casos. Seria possível não para apoiar o aborto em alguns casos, mas pelo bem de evitar o aborto generalizado. E, elegendo esse candidato, seria necessário procurar, por meios legítimos, que o aborto cessasse mesmo nesses casos.  Ou, se por hipótese, há apenas dois candidatos comunistas, mas um que quer destruir completamente a Igreja e outro que lhe concede certa liberdade, seria possível votar nesse que concede certa liberdade para a Igreja. E esse voto não seria um apoio ao comunismo, o que nunca se deve fazer, mas seria para buscar o bem de evitar a perseguição completa da Igreja. E, depois de eleito o menos pior, se deveria lutar pelos meios lícitos para a liberdade total da santa Igreja.  Lembremo-nos então, mais uma vez, de que o voto no menos pior não deve ser nunca um apoio ao que há de ruim no candidato, ou no programa de governo.

Dito isto, caros católicos, não existe, porém, obrigação de votar no menos pior. A quase unanimidade dos moralistas também afirma isso. Portanto, é possível, sim, votar no menos pior. Ao mesmo tempo, não é obrigatório votar no menos pior. Se não existe obrigação de votar no mal menor, no menos pior, tampouco existe obrigação de fazer campanha pelo mal menor. É preciso ter bastante discernimento e prudência em qualquer apoio mais explícito ao mal menor.  Guardemos, então, esses princípios para que não se lancem anátemas mutuamente. A nós, particularmente, e a vários moralistas, parece recomendável votar no menos pior, mas sem ilusões.

É preciso ter bastante clareza: o voto no menos pior não vai propriamente melhorar as coisas de um modo geral. Provavelmente, as coisas vão continuar piorando, porém, mais lentamente. O mal menor, por definição, não é o bem que resolverá os problemas da sociedade. Não deve haver ilusão quanto a isso. Sem falar de possíveis mudanças de atitude, de jogos de cena, etc… infelizmente comuns na política moderna. O fato, porém, de o mal se disseminar mais lentamente permite uma melhor defesa dos bons princípios na sociedade, desde que os bons não se acomodem.

Tem os que dizem que votar no mal menor é apoiar o mal do mal menor. Falso. Explicamos bem que não é assim. Votar no mal menor nas condições em que estamos dizendo nesse sermão e que apontam os moralistas não é apoiar o mal do mal menor.  Tem os que dizem que deixar de votar no mal menor é apoiar o mal do mal maior. Falso também. Abster-se de votar no mal menor não é apoiar formalmente o mal do mal maior. Em nenhuma das hipóteses se apoia a revolução, seja votando no mal menor, seja se abstendo de votar quando a escolha é somente entre dois males.

Em resumo, seguindo os moralistas e os princípios de teologia moral: devemos afirmar 1) que o voto, a princípio, é obrigatório em consciência quando se trata de eleição importante para o bem comum e quando se pode eleger um candidato digno. Afirmar que nessas condições o voto é facultativo chama-se liberalismo. Devemos afirmar 2) que é lícito votar no mal menor nas condições em que expusemos. Devemos afirmar 3) que o voto no mal menor não é obrigatório.

Lembremo-nos caros católicos, daquilo que dizia Monsenhor Jouin, elogiado por São Pio X, e que combatia os erros à esquerda e à direita no início do século XX. Esse prelado dizia que as coisas iriam melhorar quando os católicos não mais recuassem de suas convicções, quando os católicos retomassem a coragem mediante a prática das virtudes, quando retomassem a via do sacrifício para seguir o Messias pobre e sofredor, quando os católicos parassem de mendigar a salvação à direita e à esquerda e quando formassem o partido de Deus de que fala São Pio X (Encíclica E Supremi Apostolatus). Partido de Deus que não é, em primeiro lugar, um partido político, evidentemente.

Caros católicos, que Nossa Senhora Aparecida nos ajude a ajudar o Brasil.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

[Aviso] Atividades na Capela durante o Retiro Sacerdotal dos Padres do IBP

Atividades da Capela Nossa Senhora das Dores na semana de de 27/08/2018 a 31/08/2018.

Nessa semana, haverá Missa às 6h30 na segunda-feira (27/08). As atividades serão retomadas normalmente a partir da Missa das 19h30 na sexta-feira (31/08).

Sexta-Feira, após a Missa das 19h30, haverá Vida dos Santos: Santa Catarina Labouré

Sábado, após a Missa das 8h30, há aula de história da Igreja: A Basílica de São Pedro, 1ª Parte.