[Sermão] Como ser ouvido por Deus na oração?

Sermão para o 5º Domingo depois da Páscoa

06.05.2018 – Padre Daniel Pinheiro, IBP

 

Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.

É o terceiro domingo seguido, caros católicos, em que NSJC nos fala de sua subida aos céus, de sua Ascensão, que será comemorada na próxima quinta-feira, 40 dias depois de sua Ressurreição. A Ascensão de NS é, à primeira vista, um motivo de tristeza para os Apóstolos e para os discípulos do Mestre, ainda muito voltados para as coisas terrenas. Da mesma forma, poderíamos pensar que, para nós, nossa alegria seria muito maior com a presença de NS na Terra. Todavia, era preciso que Cristo subisse ao Pai, para sentar-se à direita dEle – nem acima, nem abaixo, mas à direita – para manifestar a igualdade de natureza com o Pai. Era preciso que Cristo subisse aos céus também para manifestar, definitivamente, que seu sacrifício sobre a cruz foi perfeitamente aceito por Deus. Além disso, a Ascensão tem também consequências excelentes para nós. NS afirma que é bom para nós que ele suba ao Pai, a fim de poder enviar o Paráclito, que ensinará toda a verdade aos apóstolos, mas também porque no céu Ele intercederá por nós diante do Pai. Assim como o sumo sacerdote do AT entrava no Santo dos Santos para interceder pelo povo, Cristo entra na glória celestial para interceder por nós, como nos diz São Paulo (Hebreus VII, 25), pois sua simples presença, com sua natureza humana e as chagas gloriosas de seu sacrifício, é já uma intercessão por nós. Deus, vendo a natureza humana de Cristo, terá misericórdia daqueles que Cristo veio salvar, terá misericórdia de nós.

Tendo sido fortalecido na fé quanto à divindade de Cristo e de sua intercessão por nós no céu, podemos dirigir, com toda confiança, nossas orações a Deus. E tudo o que pedirmos em nome de NJSC, explicitamente ou implicitamente, obteremos, nos diz Ele no Evangelho de hoje. Todavia, nosso Salvador diz em outra ocasião que no dia do juízo haverá muitos que invocaram seu nome, mas que não se salvaram. E quantas vezes, de fato, nossas orações não são atendidas, apesar de invocarmos o nome de Cristo. Isso se explica facilmente, caros católicos. Não basta rezar, invocando o nome de NS. É preciso rezar bem. O apóstolo São Thiago nos diz claramente: “Vós pedis e não recebeis porque pedis mal” (Thiago IV, 3).

Para rezar bem, é preciso primeiramente, que nossa alma esteja em boas disposições. Em seguida, é preciso pedir coisas boas, quer dizer, coisas que nos dirigem para Deus. Finalmente, é preciso pedir de um modo digno da majestade divina à qual nos dirigimos. Se seguirmos esses três pontos, nossa oração será atendida.

É preciso, então, que estejamos bem dispostos. Isso significa que, quando rezamos, devemos estar em estado de graça, em amizade com Deus ou, pelo menos, devemos ter a determinação de sair do pecado, se por infelicidade nos afastamos de Deus pecando mortalmente. Deus não costuma ouvir o homem que, endurecido no mal e sem se preocupar com o estado de sua alma, recorre a Ele somente para pedir coisas meramente temporais ou materiais. Esse homem, inimigo de Deus e querendo permanecer assim, volta-se a Deus por mero interesse. Não será ouvido. E se às vezes Deus o ouve, pode se tratar mais de uma punição do que de um favor propriamente dito. Evidentemente, se o pecador começa a querer detestar seu pecado e começa a voltar-se para Deus, o Senhor, infinitamente bom e misericordioso, olhará com compaixão e amor para o pecador e lhe dará graças de conversão, penitência e perdão. Para rezar bem devemos estar bem dispostos.

Em seguida, devemos pedir algo que é bom. Acabamos de ouvir NSJC dizer no Evangelho: tudo o que pedirdes a meu Pai em meu nome, Ele vos dará. Ora, Deus, sendo a bondade perfeita, nos dá tudo aquilo que pedimos, desde que isso seja uma coisa boa. Se Ele nos desse algo ruim, Ele estaria em contradição com sua bondade infinita. E uma coisa é boa nessa terra se ela nos ajuda, de um modo ou de outro, a ganhar o céu. Assim, quando pedimos a nossa salvação ou coisas necessárias para a nossa salvação – como as virtudes, por exemplo, ou a vitória sobre um vício – nós podemos estar seguros de que seremos atendidos, se estamos bem dispostos e se observamos as outras condições das quais falaremos em breve. Podemos também e devemos pedir coisas temporais (como a saúde, por exemplo, e bens materiais). Mas como essas coisas temporais podem tanto nos aproximar quanto nos afastar de Deus, com muita frequência Ele não nos concede esses bens temporais, pois eles nos afastariam de sua divina majestade. Dessa forma, pode ser melhor para a minha salvação que eu permaneça doente em dada situação. De fato, vale muito mais ser doente e suportar em união com Deus e com paciência uma doença do que estar com saúde, mas utilizar essa saúde para fazer o mal, para pecar. Assim, quando pedimos coisas temporais a Deus, devemos nos submeter inteiramente à sua divina sabedoria, que poderá nos conceder ou negar tais bens em virtude da utilidade ou não deles para a nossa salvação. E Ele sabe muito melhor do que nós o que é útil para nossa salvação. Ele sabe, então, que o emprego que às vezes tanto se deseja e que se reza para alcançar, talvez não seja bom para a minha alma. Dessa forma, nossa oração deve ter por objeto todo bem espiritual que nos dirige para a nossa salvação. Nossa oração pode ter por objeto também as coisas temporais, sabendo que Deus pode atender a essa oração ou não, na medida em que esses bens temporais são bons ou não para a nossa alma. Para rezar bem, é preciso, então, uma boa disposição e é preciso pedir coisas boas. Santo Agostinho diz que aquele que pede coisas contrárias à salvação, não as pede em nome de Cristo, por mais que o nome de NS seja invocado.

Além de ter uma boa disposição e de pedir o que é bom, devemos pedir de uma maneira que seja digna da majestade divina à qual nos dirigimos. Isso quer dizer que devemos rezar com uma verdadeira piedade. Essa piedade não se confunde com um ardor mais ou menos sentimental. Ao contrário, essa piedade se realiza com a atenção, com a humildade, com a confiança e com a perseverança.

Devemos, então, rezar com atenção: a distração voluntária – enfatizo bem: voluntária – acompanha muito mal o pedido de algo que não nos é devido. Como desejar que Deus ouça os nossos pedidos, se nós mesmos não escutamos aquilo que estamos dizendo. Se rezamos sem atenção, com sonolência, pensando em mil coisas estranhas à oração, já não se trata de oração, pois nossa inteligência e vontade estão e aplicando a outra coisa. Honramos Deus com os lábios, mas não com o nosso coração, com nosso espírito. Assim, devemos evitar as distrações voluntárias e combater as distrações involuntárias. E, se apesar de lutar contra as distrações involuntárias enquanto elas durarem, não conseguirmos afastá-las, nossa oração será, mesmo assim, plenamente agradável a Deus, pois fizemos o possível, com generosidade, para afastá-las, combatendo-as. Para evitar as distrações, é preciso escolher, na medida do possível, as circunstâncias que favoreçam a oração. Circunstâncias de lugar, horário… Ao rezarmos, devemos evitar também toda precipitação, e evitar rezar muito rápido, comendo as palavras… Para evitar as distrações, devemos procurar ter um recolhimento habitual, ter os sentidos mortificados, e a curiosidade mortificada. Se apesar disso, vêm as distrações, lutemos contra elas e nossa oração será tão meritória quanto se não houvesse distração. Uma Ave-Maria bem rezada honra mais a Nossa Senhora e dá mais frutos do que 100 rezadas de qualquer jeito. Rezar com atenção demanda esforço e paciência. Não devemos desistir sob pretexto de que não conseguimos, devemos progredir, ainda que lentamente.

Não basta rezar com atenção, devemos rezar com humildade. A Sagrada Escritura nos ensina que Deus resiste aos soberbos, mas que Ele dá a sua graça aos humildes. Devemos, então, quando rezamos, nos apresentar diante de Deus como o publicano, reconhecendo nossa incapacidade, nossas misérias, nossas fraquezas, nossa indignidade. Essa humildade é, antes de tudo, interior e ela faz que nos apoiemos unicamente na misericórdia infinita de Deus e nos méritos infinitos de Cristo. Não devemos apoiar a nossa oração nas nossos méritos, mas nos de Cristo. Essa humildade interior termina por se manifestar também exteriormente: o publicano não ousava nem levantar seus olhos. Se nos apresentamos diante de Deus com presunção e arrogância, com grande estima de nós mesmos e para mostrar nossas virtudes, nossas orações serão infalivelmente infrutíferas. Elas serão também estéreis, se, mais do que orações, elas forem exigências, como se Deus fosse obrigado a nos dar aquilo que pedimos. Deus resiste aos soberbos. Mas a oração daquele que se humilha penetra nos céus.

A piedade na oração implica também uma grande confiança. Nossa oração deve ser confiante porque ela se dirige a Deus, que é todo-poderoso e que quer o melhor para nós. Nossa oração se dirige à infinita bondade de Deus, que nos governa, que cuida de nós e que quer o melhor para nós. Se Deus nos ajuda tantas vezes mesmo quando não pedimos – como foi o caso nas Bodas de Caná – podemos ter certeza que Ele nos ouvirá se rezamos bem. Essa confiança na oração é um preceito dado por São Thiago : “se alguém quer pedir algo a Deus, peça com confiança.” Não deixemos de ter essa confiança total, caros católicos, em nossas orações. Começar a oração já pensando que Deus não me atenderá é um passo certeiro para Ele não me ouvir. E, claro, lembremos que Ele pode ou não nos conceder bens temporais na medida em que são bons ou não para a nossa alma. Falta confiança. É preciso notar que humildade e confiança não se contradizem na oração. A humildade é pelas fraquezas e misérias de quem reza. A confiança é pela onipotência e bondade de Deus.

A última qualidade da oração piedosa é a perseverança. Não basta pedir um instante, uma vez ou algumas vezes para sermos ouvidos, como se pudéssemos determinar o momento em que Deus deve nos conceder seus favores. Deus nos pede a perseverança na oração porque com muita frequência Ele não nos atende imediatamente, a fim de provar e purificar a nossa fé, a nossa confiança e a nossa humildade, a fim de nos fazer rezar mais, a fim de nos fazer apreciar melhor suas graças ou por outra razão digna de sua sabedoria. Vejamos, por exemplo, a perseverança do paralítico na piscina probática: ele esperou 38 anos, ele perseverou durante 38 anos. 38 anos. Ele poderia ter se revoltado e perdido a confiança em Deus. Mas não… Perseverou humildemente e com grande confiança e serenidade. E por que Deus fez esse paralítico esperar 38 anos? Para que ele fosse curado pelo Messias e para que por essa cura, os outros pudessem reconhecer o Verbo de Deus encarnado. Após 38 anos de espera, a cura foi muito mais perfeita não somente para o paralítico, mas também para os outros. A espera de 38 anos foi recompensada pela cura da alma dos que presenciaram a cena, vendo o milagre. A cura faz bem para nós, pois é um dos sinais que confirmam a missão divina de Cristo. E quantos exemplos de perseverança no Evangelho: a cananéia, que insiste para que NS dê as migalhas destinadas aos cachorros, o amigo importuno que pede o pão e tantos outros. Se pedimos bens espirituais – virtudes, conversão, perdão dos pecados – perseveremos sempre.

Devemos, ainda, acrescentar um desejo ardente de sermos atendidos, pois é a nossa salvação que está em jogo. Devemos rezar com diligência e querendo ser atendidos e não com indiferença ou tibieza. O Anjo disse ao Profeta Daniel: você foi atendido porque você é um homem de desejos

Eis, então, caros católicos, como devemos rezar. Mas falta algo que aumenta muito a eficácia de nossas orações: confiá-la nas mãos de Maria Santíssima para que ela apresente nossas súplicas ao seu Filho. Assim, se não estamos endurecidos no pecado, se pedimos coisas úteis para nossa salvação, e as pedimos com atenção, humildade, confiança, perseverança e fervor, seremos sempre e infalivelmente atendidos por Deus, se pedimos algo para nós mesmos. Rezemos, então, e rezemos muito e rezemos bem porque a oração bem feita é o alimento da nossa alma. Ela é a arma de defesa e de ataque contra o demônio, contra as tentações, contra o pecado. A oração bem feita é a chave dos tesouros celestes. Ela é o grande meio para nossa santificação e salvação. E se temos dificuldades para fazer uma boa oração, e certamente o temos, façamos como os Apóstolos e peçamos a NS que nos ensine a rezar, porque aquele que reza bem se salva, enquanto aquele que não reza se condena.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

[Aviso] Conferências, aulas, almoço

Salve Maria! Transmitimos o aviso do Padre Daniel Pinheiro,IBP:

1. Sexta-feira, após a Missa das 19:30, Conferência de Sexta-Feira.
2. Sábado, após a Missa das 8:30, aula sobre a História dos Concílios (mudança de data com História da Igreja).
3. Domingo, feijoada no dia de N. Sra. de Fátima e das mães. Haverá convites à venda no dia.
Deus abençoe.

Catecismo de Adultos – Aula 07 – Cristo Nosso Senhor e Maria Santíssima

Catecismo de Adultos – Aula 07 – Cristo Nosso Senhor e Maria Santíssima

O Verbo Encarnado

Duas naturezas, uma só pessoa

União hipostática

Significado de Jesus e de Cristo

Jesus verdadeiro Messias e verdadeiro Redentor: provas

Nossa Senhora, Mãe de Deus

A virgindade perpétua de Nossa Senhora

O verdadeiro matrimônio de Nossa Senhora com São José

Imaculada Conceição

Imunidade do pecado em Maria Santíssima

A excelência da graça de Maria Santíssima

 

Catecismo de Adultos – Aula 06 – A Teoria da Evolução contra a Ciência e a Filosofia

 

Catecismo de Adultos – Aula 06 – A Teoria da Evolução contra a Ciência e a Filosofia

A Teoria da Evolução contra os princípios da filosofia do ser

Evolução contra o princípio de causalidade

Evolução contra o princípio de conservação do ser

Evolução contra o princípio do agere sequitur esse

Evolução contra o princípio omne agens agit simile sibi

A Teoria da Evolução contra a ciência: falsificações e conclusões infundadas

A questão dos fósseis

A questão das moléculas

A questão das mutações

A questão da linguagem

A questão do elo perdido

[Aviso] Avisos gerais

Salve Maria!

Transmitimos o aviso do Padre Daniel Pinheiro, IBP:

1. Hoje, 1ª sexta-feira do mês em desagravo ao Sagrado Coração de Jesus. Missas às 20:00. Hora Santa às 19:00. Confissões a partir de 19:00.
2. Sábado, 1º sábado do mês em desagravo ao Imaculado Coração de Maria. Missa às 8:30.
3. Sábado, Aula de História da Igreja após a Missa de 8:30 – Igrejas de Roma: Basílica de São Clemente.
4. Domingo, após cada Missa, venda do convite para a feijoada em honra de N. Sra. de Fátima e em homenagem às mães.
5. Domingo, somente após a Missa das 10:00, venda dos pacotes oara a Peregrinação a Aparecida. Já temos um ônibus cheio e as vagas são limitadas.
6. A Festa de São João será no dia 09/06.
Deus abençoe.

Catecismo de Adultos – Aula 05 – Os anjos e o homem

Catecismo de Adultos – Aula 05 – Os anjos e o homem

A ação dos demônios

A ação dos anjos

Anjos da guarda

A criação do homem

Estado de justiça original e seus dons gratuitos

Monogenismo

O pecado original de Adão

O pecado original em nós: despojado da graça, feridos na natureza

Diferença com o grave erro protestante

Como reparar pelo pecado original? A Encarnação do Verbo.

Conferência: Associação de católicos com não-católicos na ação política?

Conferência – Associação de católicos com não-católicos na ação política?

Perigos contra a fé.

Cooperação no pecado.

O exemplo de São Pio X como bispo de Veneza.

Princípios de ação de São Pio X.

Instrução do Santo Ofício de 1949 sobre o ecumenismo.

Nota doutrinal da Congregação para a Doutrina da Fé (2002).

Posição de Monsenhor Lefebvre.

Aliança com a maçonaria pelo conservadorismo? Caso da monarquia…

Comunismo como o maior mal?

A solução é religiosa.

Citações dos Papas.

O caso do non expedit.

[Sermão] A piedade para com a pátria

Sermão para o 3º Domingo depois da Páscoa

22.04.2018 – Padre Daniel Pinheiro, IBP

“Sejais submissos a toda autoridade humana por causa de Deus.”

Caros católicos, na Coleta de hoje – oração que precede a Epístola – nós pedimos a Deus para que possamos repudiar tudo o que se opõe ao nome cristão, e pedimos que possamos seguir tudo o que é conforme ao nome cristão. Entre as coisas que são conformes ao nome cristão, está a virtude da piedade. Não tratamos aqui, porém, da piedade em seus sentidos mais comuns, como sinônimo de devoção, compaixão ou misericórdia, mas tratamos aqui da piedade em seu sentido mais estrito, que é a piedade para com os pais e a pátria.

A virtude da piedade propriamente dita é, então, aquela que nos inclina a dar aos pais, à pátria e a todos os que se relacionam com eles a honra e o serviço que lhes são devidos. A justiça nos diz que nos tornamos devedores daqueles que nos deram benefícios. Somos devedores, em primeiro lugar, de Deus, em razão de sua excelência e em razão de todos os bens inumeráveis que nos deu, a começar pelo nosso ser. Em segundo lugar, são os pais que nos dão o ser e nos governam. E, finalmente, a pátria, em que nascemos e que nos nutre. E por isso, depois de Deus, o homem é devedor sobretudo dos pais e da pátria, nos diz São Tomás. A primeira dívida, que é para com Deus, paga-se com a prática da virtude da religião, pela qual damos a Deus o culto que lhe é devido, em união com Cristo. A segunda e terceira dívidas, devidas aos pais e à pátria, são pagas com a prática da virtude da piedade. Vemos, então, que a virtude da piedade está em estreita relação com o quarto mandamento: honrar pai e mãe. Como sabemos, o quarto mandamento não se resume ao pai e à mãe, mas diz respeito a todos os superiores na ordem familiar, civil e eclesiástica. E esse mandamento indica os deveres dos inferiores para com os superiores e também dos superiores para com os inferiores.

O que nos interessa, porém, hoje é a virtude da piedade que diz respeito à pátria, aproveitando a ocasião desse 22 de abril, data considerada do descobrimento do Brasil. Se somos católicos, buscando, assim, imitar Cristo, e praticar aquilo que é conforme ao nome cristão, devemos ter e praticar a virtude da piedade para com nossa pátria porque ela também é princípio de nosso ser, de nossa educação e ela nos governa. A pátria faz isso enquanto proporciona aos pais – e por meio deles aos filhos – grande quantidade de coisas necessárias e convenientes para o nosso ser, de tal forma que, sem a pátria, não poderíamos ter tantos bens que temos. Devemos praticar a virtude da piedade para com nossa pátria como o fez Nosso Senhor Jesus Cristo em seu tempo e em sua pátria, obedecendo a ela em tudo o que é bom e socorrendo-a em suas dificuldades, sobretudo, se assim podemos dizer, as espirituais. Devemos praticar a virtude da piedade obedecendo às leis justas do país e resistindo, serena e firmemente, àquelas que se opõem à lei de Deus, pois é preciso obedecer antes a Deus do que aos homens. Devemos fazer tudo o que nos manda a autoridade civil, a não ser que mande algo contra a fé, contra a moral, contra a lei natural, contra o bem comum. Cumprir uma lei que é contra a lei de Deus é prejudicar a si mesmo, a sociedade, a pátria.

Devemos praticar a virtude da piedade buscando que nossa pátria reconheça a Verdade e se submeta a ela, para que nossa pátria possa, assim, ajudar seus filhos não só materialmente, mas também espiritualmente, favorecendo e facilitando o conhecimento daquele que é o Caminho, a Verdade e a Vida: Jesus Cristo. Para tanto, devemos rezar por nossa pátria, nos mortificar pelo bem de nossa pátria. Está dito na Sagrada Escritura que o clamor de Israel foi ouvido por Deus. Para tanto, o povo de Israel rezava e fazia penitência. Se rezarmos e fizermos penitência, Deus poderá, então, ouvir nosso clamor. Para ajudar nossa pátria, devemos também agir dentro de nossas possibilidades, começando pela nossa conversão e pela nossa família.

É muito comum reclamarmos de nossa pátria e, ao mesmo tempo, fazermos pouco ou nada por ela. Devemos rezar e agir, mas agir de modo ordenado e sempre segundo os princípios católicos, fazendo isso pelo bem de nosso país. Muitos ainda se iludem querendo ajudar a pátria pela política em primeiro lugar e não pela religião. E assim vão se associando a pessoas ou a grupos contrários aos princípios católicos, vão aderindo a erros sob o pretexto de combater erros maiores. Que ilusão. Na prática por exemplo, vemos católicos se associando a grupos maçônicos para combater o comunismo, como se o comunismo fosse erro maior a ser combatido por esse erro menor. Na verdade, o erro maior aqui são os princípios maçônicos e foi nas lojas maçônicas que foi originado o comunismo/socialismo. Não se pode aderir a um erro, ainda que menor, para combater outro maior. Nesse caso, o erro triunfará sempre. Como os Papas sempre ensinaram, não é pela ação política, mas pelo Evangelho que ajudaremos nossa pátria. Pio XI, na Encíclica Divini Redemptoris dizia: “Como em todos os períodos mais tormentosos da história da Igreja, assim hoje também o remédio fundamental é uma sincera renovação da vida privada e pública, segundo os princípios do Evangelho.” São Pio X dizia na Notre Charge Apostolique: “a reforma da civilização é uma refor religiosa em primeiro lugar, pois não há verdadeira civilização sem civilização moral e não há civilização moral sem a verdadeira religião.” São Pio X diz que isso é uma verdade demonstrada, um fato da história. E o Papa João Paulo II na Centesimus annus diz que “é preciso repetir que não existe verdadeira solução para a «questão social» fora do Evangelho.”

Devemos, ainda, rezar pelos nossos governantes, para que sigam a lei de Deus, para que governem em vista do bem comum, que não pode simplesmente fazer abstração da verdadeira religião. E devemos ter em mente que temos os governantes que merecemos. Para mudar para melhor, temos que rezar muito e procurar a nossa conversão a Deus.

Com isso, ajudaremos nossa pátria sem cair no excesso de endeusá-la, com um nacionalismo descabido, e sem cair no defeito de rejeitar nossa pátria e dizer como os pagãos: minha pátria é onde me sinto bem. Não, caros católicos! Temos verdadeiro dever de justiça para com a nossa pátria, apesar de seus defeitos. Dever de justiça, de piedade. A pátria é princípio de nosso ser. Devemos procurar que ela o seja não só materialmente, mas também em ordem mais elevada, nos ajudando a conhecer a verdade e a praticar o bem.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

[Sermão] O Instituto Bom Pastor e seu papel na Igreja: doutrina, liturgia e união com Roma

Sermão para o Domingo do Bom Pastor, 2º Domingo depois da Páscoa

15.04.2018 – Padre Daniel Pinheiro, IBP

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Ave Maria…

Caros fiéis, gostaria de aproveitar a ocasião desta Festa do Bom Pastor, para tratarmos um pouco do Instituto Bom Pastor e do seu papel dentro da Igreja. Os membros do Instituto querem, claro, seguir o modelo de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Bom Pastor, indo adiante dos fiéis, conduzindo-os aos pastos da verdade e dos sacramentos, conhecendo as ovelhas pelo nome e dando a vida por elas.

De modo particular, os membros do Instituto querem dar a vida pelas ovelhas celebrando a liturgia romana tradicional. E isso de modo exclusivo. Somente a liturgia romana no rito tradicional. O rito romano tradicional, isto é, o rito anterior às reformas litúrgicas oriundas do Concílio Vaticano II é o rito próprio e exclusivo do Instituto Bom Pastor e de seus membros. Assim ele foi fundado e assim ele continua em seus estatutos. Cada membro do Instituto Bom Pastor, se age de modo coerente como se espera, adere a isso, voluntariamente, livremente e firmemente, por questões de princípio relacionadas à fé e à vida espiritual.

Os membros do Instituto Bom Pastor querem também cuidar das ovelhas pela doutrina católica de sempre. A doutrina ensinada por Cristo e pela sua Igreja ao longo dos séculos. Porque essa é a verdade. Consequentemente, há uma crítica construtiva a atos controversos do magistério recente, a atos em desacordo com aquilo que a Igreja sempre ensinou. E isso segundo os princípios teológicos que regem os diversos graus de magistério eclesiástico e que regem os diversos graus de assentimento a esse mesmo magistério.  Essa crítica não é para causar vã polêmica ou simplesmente repetir o que já foi dito, mas para colocar à disposição da autoridade eclesiástica sólidos argumentos teológicos para a correta interpretação desses textos ou mesmo para a necessária correção desses textos, quando for o caso. Pela sua própria natureza, essa crítica exige tempo, reflexão e estudos aprofundados, e não a publicação precipitada de textos em quaisquer meios que sejam.

No ministério sacerdotal, caros católicos, importa, antes de tudo, pregar a verdade e condenar os erros, sem precisar entrar necessariamente em questões polêmicas e complexas que muitas vezes mais confundem do que atrapalham. Assim, de modo geral,, por exemplo, vale mais ensinar a necessária união da Igreja e do Estado com todas as suas provas e razões do que entrar em todas as sutilezas do erro da liberdade religiosa para condená-la. Ao conhecer a verdade, o fiel saberá identificar o erro, que ele venha de não católicos ou que ele venha mesmo de um ato do magistério não-infalível. Dom Lefebvre, que muitos hoje citam sem conhecer, fazendo o livre-exame de Dom Lefebvre, dizia aos padres em retiro sacerdotal em 1980: “Penso que é preciso permanecer diante da realidade tal como ela é e, sobretudo, não somos obrigados a fazer comentários sobre o Papa todos os dias. As pessoas não esperam isso dos padres. As pessoas não esperam que nos seus sermões haja sempre algo sobre o papa. Há vários outros assuntos. Deixem esse problema que é justamente muito delicado, difícil, doloroso, que faz sofrer os fiéis. Agora, se alguém vem procurar-vos em particular, dê a ele a solução do problema. Mas não façam disso sempre o assunto do sermão, o que faz que as pessoas saiam angustiadas… Isso perturba as pessoas, não serve para nada.”  E continua Dom Lefebvre : “O que as pessoas pedem é a santificação, é serem santificadas pelos sacramentos, pelo Santo Sacrifício da Missa. Falem para eles dos problemas que eles têm (em sua vida espiritual), da santificação pessoal deles. Não falta assunto sobre isso. Um vez ou outra, evidentemente, por ocasião de uma conferência ou se alguém o pede, deve-se explicar de forma mais precisa a situação.” Assim se posicionava o Arcebispo Dom Lefebvre. E assim, de fato, vamos agindo no Instituto Bom Pastor, com uma nuance ou outra em cada situação concreta.

Portanto, caros católicos, a crítica construtiva não se trata de falar disso o tempo todo. Além do quê, essa crítica se faz também pela prática pastoral. Ela se faz pelapastoral em que se estabelece a hierarquia da Igreja contra a colegialidade dentro da Igreja. Ela se faz pela pastoral em que se estabelece que a Igreja de Cristo é somente a Igreja Católica, fora da qual não há salvação, contra o ecumenismo. Ela se faz pela pastoral em que se estabelece a união da Igreja e do Estado contra a liberdade religiosa. Ela se faz pela pastoral em que se estabelece o domínio da razão sobre os sentimentos. Ela se faz ela pastoral em que se estabelece o princípio da religião na adesão de nossa inteligência às verdades reveladas por Deus e não no sentimentalismo, contra o modernismo. Ela se faz pela pastoral em que se estabelece, ainda, por exemplo, a hierarquia das finalidades do matrimônio, sendo a finalidade primária a geração dos filhos. Enfim, o modo tradicional católico de organizar o apostolado já é uma crítica à nova teologia. O modo tradicional católico das devoções e do apostolado forma uma mentalidade profundamente católica, capaz de reconhecer o erro e os seus falsos princípios. Como nos disse um padre uma vez: ensinar a verdadeira doutrina católica, seja em que tema for, já é, muitas vezes, uma polêmica hoje em dia. O primeiro dever do sacerdote para com os fiéis é ensinar a doutrina de Cristo, começando pelo catecismo. Infelizmente, quantas vezes vemos a situação absurda de alguns que pretendem saber muito sobre problemas teológicos de liturgia e do magistério recente, mas sequer conhecem as verdades fundamentais do catecismo católico. Antes de conhecerem o catecismo, conheceram as polêmicas e as controvérsias e fazem girar toda a religião em torno dessas questões.

O Instituto Bom Pastor é um Instituto de direito pontifício, tendo a situação canônica regular diante da Santa Sé. Reconhecemos que é preciso estar manifestamente unidos à Santa Sé quando se tem as garantias suficientes para guardar a doutrina católica tradicional e a liturgia romana tradicional. Aqueles que negam, por princípio, um acordo com a Santa Sé até que todas as questões doutrinárias se resolvam, encontram-se no erro. Desconsideram que essa necessária união manifesta, quando se tem garantias suficientes para a fé, para a moral e para a liturgia, também entra no campo da fé. Portanto, recusar essa união manifesta com a Santa Sé quando se tem essas condições suficientes, é colocar em perigo a fé. E, de fato, vemos como, nesses grupos que pretendem resistir, começam a surgir erros doutrinários. Erros doutrinários quanto à constituição da Igreja e sua organização, afirmando, por exemplo, que os católicos devem, agora, viver em células independentes ou deixando entender que o tempo das estruturas acabou, o que se opõe – é evidente – à organização hierárquica da Igreja, que é de instituição divina, e que necessariamente possui as suas estruturas. Além disso, forma-se um espírito de independência e de autonomia que vai gerando cada vez mais divisões e subdivisões, cada um pensando ter visto e entendido toda a verdade, levando muitos a pensar que quanto mais dura a posição, mais católica ela é. Isso, na verdade, é um erro. A posição católica não se identifica com a dureza nem com a moleza, mas simplesmente com aquilo que Nosso Senhor Jesus Cristo nos ensinou e a Igreja nos transmite pelo seu magistério infalível.

A posição católica se baseia simplesmente no ensinamento de Cristo e o magistério constante da Igreja, e não em ser mais dura ou menos dura. Há também, constantemente, a tendência de simplificar muito as coisas, tanto de um lado quanto de outro, e não levar em consideração as distinções teológicas e morais que devem ser feitas para que se tenha um raciocínio correto e uma ação prática justa. Assim, alguns simplificam dizendo que não crise alguma na Igreja e outros simplificam dizendo que é preciso esperar a solução de todos os problemas para poder se unir a Roma. Se aparece alguém fazendo as distinções teológicas e morais necessárias, é logo tratado de radical pelos que dizem que não há crise na Igreja e é tratado de liberal pelos que querem simplesmente a dureza. Portanto, a união manifesta com a Santa Sé deve existir, se há garantias suficientes para a fé, sob pena de cair também em erros doutrinários. A doutrina católica exige isso, a natureza da Igreja exige isso.

Assim, os fundadores do Instituto Bom Pastor, tendo alcançado a exclusividade da liturgia romana no rito tradicional e o direito à crítica construtiva a atos controversos do magistério recente, fundaram o Instituto, que foi reconhecido como de direito pontifício em 2006, sob o pontificado de Bento XVI. Todo católico deve reconhecer a autoridade legítima do Papa. Se, por acaso, em um ponto o Papa comete erros, o que é possível, segundo as condições estritas da infalibilidade do Papa, nesse ponto em que o Papa se equivoca, não está o fiel católico obrigado a obedecer. Mas o Papa continua sendo o Papa, nosso Pastor e Pai, a quem devemos ter filial estima e obediência em suas ordens legítimas.

Portanto, caros católicos, o nosso carisma é o uso exclusivo da liturgia romana tradicional, é a transmissão da doutrina católica de sempre com a consequente crítica construtiva a ensinamentos recentes controversos e tudo isso na união manifesta com a Santa Sé. Todavia, em vez de carisma, palavra um pouco na moda e que nos faz um pouco sorrir, podemos falar simplesmente de fidelidade à Igreja. E é nessa fidelidade que queremos viver e morrer. É nessa fidelidade que queremos conduzir aos céus os fiéis que nos foram confiados pela providência divina.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.