[Sermão] A paz interior contra a inquietação

Sermão para o 4º Domingo da Quaresma

26.03.2017 – Pe. Daniel Pinheiro, IBP

(Sermão baseado no livro Filoteia de São Francisco de Salve, Parte 4, Capítulo 11 e no livro A Perfeição Cristã de Emílio Gonzales y Gonzales, Capítulo 11)

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Ave Maria…

Caros católicos, nos sermões da Quaresma, temos tratado de algumas virtudes aparentemente simples, mas que são importantíssimas. Já tratamos da paciência para com o próximo, da constância da alma em meio às mais variadas circunstâncias e, no último domingo, tratamos da modéstia e na pureza no falar, mostrando as más consequências das conversas impuras, dos palavrões, das palavras chulas. Hoje, nos inspirando em São Francisco de Sales, vamos tratar da paz interior, que se opõe à inquietação.

O Santo Doutor da Igreja diz que, excetuando o pecado, a inquietação é o maior mal que pode atingir a alma. Vejamos um pouco melhor o que é essa inquietação, essa perturbação da alma.

A alma, diante de um mal, se entristece. O desejo de livrar-se desse mal e de ter os meios necessários para isso segue imediatamente. Até aqui é razoável, pois naturalmente desejamos o bem e fugimos do mal. Se é pelo amor de Deus que a alma procura os meios para se livrar de seus males, vai procurá-los com paciência, com doçura, com humildade, com tranquilidade. A alma vai agir legitimamente para se livrar desses males, mas esperando mais em Deus do que em si mesma e se conformando à vontade de Deus. Por exemplo, se estou doente, devo procurar os meios para me livrar da doença e devo procurá-los com paciência, com tranquilidade, com humildade, conformando-me à vontade de Deus que pode querer a minha cura ou não. Mas faço serenamente o que me cabe.

Ao contrário, se eu procuro o alívio para meus males por amor próprio e não por amor a Deus, terei grande inquietação e desassossego. Caso eu não encontre imediatamente o que desejo, ficarei irrequieto e impaciente. E essas inquietações, longe de aliviar o mal, o aumentam; a alma fica dominada por uma grande tristeza, e perde a coragem e a força. Os males apenas crescerão nessas condições.

E essa inquietação que nos perturba a alma, que nos leva a ser dominado pela tristeza, que nos faz perder a coragem e a força, é um grande obstáculo para alcançar a santidade. A inquietação, diz São Francisco de Sales, não é simplesmente uma tentação, mas a fonte de várias tentações. Ele faz também uma comparação interessante: como as sedições e revoluções civis em um Estado o desolam inteiramente e o impedem de resistir aos inimigos exteriores, também o espírito inquieto e perturbado não tem força suficiente para conservar as virtudes adquiridas nem para resistir às tentações do inimigo, que gosta de pescar nas águas turvas de nossa alma. A pesca do inimigo nas águas turvas da nossa alma inquieta tende a ser abundante, pescando nela as imperfeições e o pecado.

De fato, aquele que está inquieto está em grande parte incapacitado para ouvir Deus. Em geral, faz mal todas as coisas, pois lhe falta a disposição principal para fazer as coisas de modo ordenado e com acerto. Por isso, o demônio combate tanto a paz interior das nossas almas, e quando não pode conseguir diretamente fazer-nos cair em pecado, procura por todos os meios inquietar-nos e perturbar-nos, para que assim incorramos em mil imperfeições e, pouco a pouco, se vão debilitando as nossas forças espirituais, e nos achamos menos firmes no momento da tentação. Daí, bem podemos afirmar que a inquietação, a perturbação e o desassossego são sinais inequívocos do mau espírito, ao passo que a paz interna, serena e estável numa alma é sinal de que mora nela o espírito de Deus, do qual um dos frutos principais é a paz, como diz São Paulo (Gal.5, 2).

A inquietação pode ter várias fontes: a multiplicidade desnecessária das ocupações e negócios, o ímpeto excessivo com que nos consagramos, às vezes, a essas coisas, a precipitação no agir, o amor próprio, os desejos imoderados, a ânsia indiscreta de progredir repentinamente na virtude, o zelo imprudente e impetuoso, as afeições desordenadas, o desgosto do próprio estado, as apreensões, imaginações e temores infundados, mesmo a inclinação natural de certos temperamentos. A causa geral da inquietação, do desassossego, da perturbação da alma, porém, nos diz São Francisco de Sales, é principalmente um desejo desordenado de se livrar de um mal ou de adquirir um bem. Não qualquer desejo, então, mas um desejo desordenado, como já mencionamos. E nada vai dificultar mais livrar-se do mal ou adquirir o bem do que a inquietação, a perturbação da alma.

Non in commotione Dominus, diz a Sagrada Escritura (3 Reis, 19, 2). Deus não está na inquietação, na perturbação. Quando procurarmos legitimamente nos livrar de um mal ou alcançar um bem, sobretudo o da virtude, devemos, antes de tudo, procurar nos acalmar e tranquilizar a nossa alma para só então seguir o movimento do nosso desejo, empregando calmamente e com ordem os meios que conduzem ao fim desejado. Calmamente não significa com negligência, mas significa sem precipitação, sem desassossego. Se não procedermos assim, aumentaremos o nosso mal e nos afastaremos do bem. O rei Davi dizia (Salmo 118, 109): Minha alma, Senhor, está sempre em minhas mãos e não tenho esquecido a Vossa lei. Devemos ter sempre a nossa alma entre nossas mãos, sem nos deixar arrebatar pela inquietação ou por uma paixão desordenada. Se por acaso nossa alma tiver escapado de nossas mãos, devemos ir procurá-la e reconduzi-la calmamente à presença de Deus. O que tem essa paz interior é dono de si, encontra-se disposto para ouvir Deus, para conhecer e executar a sua vontade com muita serenidade, firmeza e ordem. A paz interior assegura em nós o reino de Deus; dispõe-nos para as comunicações divinas; é muito própria para nos fazer conhecer os movimentos da graça; serve-nos de grande auxílio nas tentações; ajuda-nos muito no conhecimento de nós mesmos; mantém em nós a santa simplicidade; favorece grandemente o recolhimento do espírito.

Quais são os meios para alcançar essa paz? O primeiro meio é a consciência limpa dos pecados, ao menos dos mortais e dos veniais mais deliberados. Como diz a Sagrada Escritura, não há paz para os ímpios. Non est pax impiis (Isaías 48, 22). Se estamos em pecado e dele não queremos sair seriamente, nunca poderemos ter essa verdadeira paz. O segundo meio é a humildade e a mansidão. Nosso Senhor o diz expressamente (Mt. 11, 29): “aprendei de mim que sou manso e humilde de coração e achareis repouso para as vossas almas.” Acharei repouso para as vossas almas. Não confundir humildade com mediocridade, nem mansidão com moleza. O terceiro meio é o desapego de tudo o que possa nos afastar de Deus. Podemos desejar ter coisas honestas, desde que isso não nos afaste de Deus, mas devemos ter o ânimo pronto para nos desprender delas na medida em que nos afastem de Deus ou na medida em que Deus dispuser.

Ao percebermos a inquietação em nossa alma, devemos recomendar-nos a Deus, ainda que muito brevemente, e tomar a resolução de nada fazer daquilo que a inquietação nos pede, até que a perturbação passe. Se não pudermos esperar, em virtude da urgência da questão, devemos nos esforçar suavemente para reprimir ou moderar a inquietação, fazendo o que a razão iluminada pela fé nos mostre o que devemos fazer e não seguindo simplesmente o movimento da inquietação. Ajuda muito manifestar com simplicidade e sinceridade a inquietação a quem possa ajudar, seja a um padre ou, ao menos, a uma amizade piedosa.

Essa paz interior não é estar livre de toda a guerra interior e exterior, de toda a tentação, de toda a imaginação importuna, de todo o movimento e agitação das paixões, de toda a angústia e amargura, de toda a oposição do mundo e do demônio. Essa paz interior consiste em levar com paciência tudo isso, procurando resolver as coisas com ordem, serenidade e calma, possuindo a nossa alma e ordenando-a a Deus. Essa paz deve estar no mais profundo de nossa alma, fixada em Deus sempre, unida a Ele sempre. E essa paz nos trará a alegria verdadeira e que a liturgia de hoje tão bem expressa.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

[Avisos] Missa, Vida dos Santos…

Prezados, Salve Maria!

Transmitimos o aviso do Padre Daniel, IBP:

  1. Hoje, sexta-feira, 24/03, Vida de São Felipe Neri após a Missa das 19h30.
  2. Amanhã, 25/03, Festa da Anunciação de Nossa Senhora. Missa Cantada às 8h30. Não é preceito, mas vale o esforço para honrar Nossa Senhora e a Encarnação do Verbo.
  3. Amanhã, após a Missa, continuação do Curso de Introdução à Liturgia Romana.

[Sermão] São José, Pai Virginal de Cristo e Esposo de Maria Virgem

Sermão para a Festa de São José, Esposa da Santíssima Virgem Maria

20.03.2017 – Padre Daniel Pinheiro, IBP

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Ave Maria…

Dois títulos de São José demonstram a sua enorme grandeza. Títulos que correspondem, claro, ao que ele foi verdadeiramente. Esposo de Maria Santíssima e Pai Virginal de Nosso Senhor Jesus Cristo. Se consideramos essas duas coisas em São José, podemos entrever a sua grandeza. Sua grandeza que está na sua santidade. Todo o resto em São José decorre de sua paternidade e de seu matrimônio, como a fruta madura decorre da árvore boa. Por ser esposo de Maria Santíssima e Pai Virginal, adotivo, nutrício de Cristo, São José está intimamente ligado ao mistério da encarnação, atrás apenas de Nossa Senhora.

São José exerceu sobre Jesus os direitos de um verdadeiro pai, do mesmo modo que tinha os direitos e deveres de esposo para com Maria, ainda que tenha renunciado ao exercício de alguns direitos próprios do matrimônio. Nossa Senhora, ao encontrar o Menino Jesus no Templo em Jerusalém, depois de três dias buscando-o, diz: “Eis que teu pai e eu te procurávamos.” Nossa Senhora chama São José de pai, prova certa de que Cristo o chama de pai. Que glória a de São José! O Evangelho nos diz claramente que São José era o esposo de Maria, de quem nasceu Jesus, chamado Cristo. Que glória a de São José: pai adotivo de Jesus Cristo e verdadeiro esposo de Maria Virgem.

Considerando essas funções de São José, podemos ter uma pálida ideia do que foi a sua santidade aqui na terra. Deus dá a cada um a graça proporcional para a missão que lhe é confiada. Depois da função de mãe de Deus, a função mais excelsa é a função de esposo da mãe de Deus e de Pai adotivo do Verbo Encarnado. Em razão dessa dupla função, a santidade de São José é imensa, a maior depois da santidade de Nossa Senhora. Além disso, Deus faz as coisas proporcionais: poderia São José ter uma santidade somente grande e conviver tão proximamente coma Santidade Encarnada e com Nossa Senhora? Uma Santidade grande seria ainda desproporcional e daria à Sagrada Família um quê de inconveniente. Portanto, a santidade de São José era imensa, a maior dos homens que já existiram, atrás apenas da santidade de Nossa Senhora. São João Batista é o maior dos homens no sentido de ser o maior dos profetas, como explicado no Evangelho de São Lucas. São José é maior dos homens, sem mais. É o mais santo.

Se o patriarca José, um dos filhos de Jacó guardava os tesouros do faraó, e por isso era estimado e reconhecido por sua sabedoria, quanto mais São José, que guardou o próprio Deus e a Mãe de Deus? Esse argumento da ordem e da proporcionalidade com que Deus faz as coisas nos permite também dizer que São José não era um idoso em idade avançada. Se fosse, a Sagrada Família seria motivo de estranheza, o que não convém. São José era um homem formado, mas com idade conveniente para casar com a jovem Maria.

Tem como descrever o progresso na santidade de São José em virtude do contato com Jesus e com Maria? Ele não recebia os sacramentos. Era o próprio autor dos sacramentos que estava em contato com ele. Que progressos não teria com esse contato tão próximo? São José é o modelo de virtude para o homem. E brilham nele, primeiramente, as virtudes da vida escondida, que levavam em Nazaré: a pureza, a humildade, o desapego dos bens desse mundo, a paciência, a prudência, a fidelidade. A fé vivíssima, a esperança firmíssima e a caridade ardentíssima.

São José, sendo o Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo e o esposo de Maria, é também o patrono da Igreja Universal. Foi proclamado como tal pelo Papa Pio IX no decreto Quemadmodum Deus, em razão dos pedidos insistentes dos bispos reunidos no Concílio Vaticano I. Se ele foi o protetor da Sagrada Família em Nazaré, continua sendo o protetor da família fundada por Jesus Cristo, que é a Igreja Católica. São José prossegue no seu ofício de velar por Cristo, agora em seu Corpo Místico, que é a Igreja.

São José é também o patrono dos agonizantes. Ele teve a morte mais desejável: entre os braços de Cristo e de Maria. A piedade popular rapidamente viu o patrocínio de São José para os moribundos e comprovou a sua eficácia no momento da morte de seus devotos. Na ladainha de São José, aprovada pelo Papa Pio XI, lá está o título de Padroeiro dos agonizantes ou moribundos.

Toda alma católica deve ser devota de São José, em virtude de sua excelência em virtude de sua função enquanto esteve em vida e em virtude de sua função agora no céu, como Patrono da Igreja, principalmente. São imensas as graças que São José pode nos alcançar. Graça de pureza em meio a esse mundo cada vez mais corrompido. Graça de contemplação nesse mundo cada vez mais agitado. Graça do desapego nesse mundo, para buscarmos nosso tesouro em Deus, nesse mundo cava vez mais materialista. Graça de cumprir bem nossos deveres de estado, também o nosso trabalho em um mundo cada vez mais negligente com tudo. Graça de mansidão, de paciência. Devemos, porém, pedir também grandes graças para a Igreja. Muitas vezes, pedimos s São José somente coisas materiais. Não é ruim e o glorioso pai virginal de Jesus nos atende, mas peçamos também graças mais excelentes e peçamos graças para toda a Igreja, sobretudo nesses tempos tão confusos dentro da Igreja. Devemos ser mais generosos nos nossos pedidos a São José e será ele generoso para conosco.

Ite ad Joseph. Era o que diziam no Egito no tempo das vacas magras. Ide a José, filho de Jacó rejeitado pelos seus irmãos, para alcançar aquilo que ele prudentemente guardou da época das vacas gordas. Ite ad Joseph, pois o faraó tinha confiado a administração de seu reino a José, tinha-o constituído o despenseiro de todos os seus bens. A Igreja nos diz agora: Ite ad Joseph. Ide a José. Não ao patriarca para obter somente bens desse mundo, mas ao Pai de Jesus, ao Esposo de Maria Virgem, ao Patrono da Igreja Universal. Ite ad Joseph. Ide a José, com confiança. Ele ajudará nas coisas mais simples e nas coisas mais importantes. Ele ajudará nos bens materiais. Ele ajudará no matrimônio. Ele ajudará na crise da Igreja. Ite ad Joseph. Ite ad Joseph. Ide a José. A São José.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

[Sermão] A pureza ou a modéstia no falar

Sermão para o 3º Domingo da Quaresma

19.03.2017 – Padre Daniel Pinheiro, IBP

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Ave Maria…

Caros católicos, seguindo o nosso propósito durante essa Quaresma, trataremos de mais uma virtude aparentemente simples, mas bem importante: a pureza ou modéstia no falar. São Paulo trata hoje, em sua epístola, da castidade. Diz o apóstolo que nenhum fornicador ou impuro entrará no reino dos céus. Pouco antes, ele diz: nem sequer se nomeie entre vós a fornicação, a impureza, como convém a santos. E continua: nem palavras torpes, nem parvoíces, nem chocarrices. Palavras torpes são palavras impuras, palavrões, palavras chulas. Parvoíces são palavras tolas, idiotas. Chocarrices são brincadeiras indevidas, piadas indevidas e, se envolvem coisas indecentes, cairão também nas palavras torpes. O que nos interessa hoje é tratar dessas palavras torpes, obscenas, impuras, também palavrões.

Muitas vezes se desdenha dessas palavras, dizendo que não têm muita importância, que há coisas mais graves com o que se preocupar e que elas são ditas simplesmente por brincadeira. Já na época de Santo Afonso se usava esse argumento. O Santo Doutor, farol da moral católica, fala dessa linguagem ruim em seu sermão para o 11º Domingo depois de Pentecostes, sobre as conversas e palavras licenciosas. O Santo diz: “se o confessor os repreende, eles dizem que falam essas coisas somente por brincadeira e sem a menor malícia.” O próprio Santo responde a esse argumento dizendo: “Tenha em mente, pobre insensato que você é, que essas brincadeiras indecentes fazem rir hoje os demônios e que eles farão que você chore um dia no inferno.” E continua o Santo: “não diga que você agiu sem malícia, pois é quase impossível que você não seja nos seus atos o que você é nas suas palavras.”  E cita São Jerônimo que diz: “não está longe dos atos aquele que se deleita nessas palavras.” São Sidônio Apolinário, Bispo de Auvergne, na França, no século V, diz que é impossível encontrar um homem imoral na linguagem e puro nos costumes. E São Bernardo diz que terminamos por praticar aquilo que gostamos de ouvir (ou que gostamos de falar, podemos acrescentar). Lembremo-nos da palavra do próprio Senhor: “a boca fala daquilo que o coração está cheio.” O que falamos é expressão de nosso íntimo ou vai formando o nosso íntimo. Alguém que fala impurezas, obscenidades, palavrões, ou tem o coração cheio disso ou está enchendo rapidamente o coração dessas coisas.

Um dos grandes meios para avançar na castidade nos atos é parar de falar essas impurezas e obscenidades, que são por si só um pecado e que conduzem a pecados ainda mais graves. Uma das dificuldades para as pessoas vencerem os pecados impuros é justamente a onipresença dessa linguagem baixa na nossa sociedade. No ambiente de trabalho, nos meios de comunicação, nos escritos, em todo lugar. Elas conduzem aos pensamentos impuros e aos atos de impureza. A impureza que condena tantas almas… Por uma satisfação insignificante se perde o céu, se merece o inferno, se ofende gravemente a Deus.

E se ao nosso redor falam coisas impuras, palavrões, procuremos mudar de assunto, procuremos sair do ambiente. Não devemos nunca ouvir voluntariamente a tais palavras baixas. Se mudar de assunto e sair do ambiente for impossível, não demonstremos aprovação alguma a essas palavras, por exemplo, rindo delas. Rezemos, reparemos por essas palavras tão baixas, mas sem repeti-las. Nosso apostolado e nossos deveres cotidianos devem ser feitos com palavras dignas de um cristão, mesmo nos momentos que exigem maior firmeza.

As palavras torpes são um pecado. E, como todo pecado, favorecem o reino do demônio. Elas podem ser um pecado leve ou grave, isto é, venial ou mortal. A gravidade depende, primeiramente, da gravidade da palavra em si. Em seguida, depende da intenção com que é proferida e, finalmente, depende também do escândalo que provoca (levando outros ao pecado). Deixemos claro que ainda que sejam ditas somente com a intenção de brincar ou de chamar a atenção de alguma forma, essas palavras não serão lícitas. E tenhamos consciência: ainda que alguma palavra assim não seja um pecado mortal, ela vai dispondo cada vez mais a alma para atos torpes, e o perigo de escândalo ou de levar os outros ao pecado também é considerável. Basta conhecer um pouco de verdadeira psicologia humana. Tais palavras ditas e repetidas vão marcando a imaginação e facilmente a pessoa volta a pensar nelas ou a representar-se tais palavras. A tendência é terminar consentindo nelas interiormente e depois praticar atos de impureza. São Bernardino de Sena conta a história de uma jovem que tinha uma conduta exemplar, mas que ouviu (voluntariamente ou sem combatê-la de um modo sério) uma palavra obscena de um jovem e teve logo maus pensamentos que a levaram a vícios aos quais se entregou de tal forma que o próprio demônio, se tivesse carne humana, não faria.

Que tristeza é ver um cristão proferir palavras tão vergonhosas ou de alguma forma encontrar agrado nelas, por exemplo, rindo. Ou proferir tais palavras por impaciência, por ira. Se Deus nos deu a inteligência e a língua, é para falarmos coisas que nos elevem a Deus, que nos edifiquem a nós mesmos e ao próximo, para falar coisas boas, ainda que não somente religiosas. Em todo caso, nunca para que falemos coisas que nos afastem de Deus. E, assim, São Paulo diz que devemos falar ações de graças. Se Nosso Senhor diz que deveremos prestar contas de toda palavra ociosa, quanto mais de uma palavra impura, torpe. Sendo católicos, temos ainda muitos outros motivos para não proferirmos coisas tão baixas. Vejamos. Somos batizados, somos membros de Cristo. Cristo é a Sabedoria Eterna Encarnada, é a Palavra de Deus que se fez homem. Sendo nós membros e discípulos da Sabedoria Eterna Encarnada, não podemos usar a sabedoria e a palavra que nos foram dadas para proferir coisas torpes, impuras, que A ofendem. Sendo católicos, é na nossa língua que recebemos o Corpo de Cristo. Se a patena em metal que recebe a hóstia consagrada na Missa deve ser revestida de ouro, sem corrupção, quanto mais a nossa língua deve estar isenta da mancha, da corrupção dessas palavras. Nosso Senhor nos dá o exemplo. Jamais usou palavras torpes. As condenações de Jesus dirigidas aos seus inimigos não são xingamentos, palavras baixas, palavrões. Afirmar o contrário seria uma blasfêmia terrível. Seria dizer que Cristo nomeia aquilo que São Paulo diz que um cristão não deve nomear. Nosso Senhor usa palavras duras, mas honestas, e as utiliza com mansidão, justiça e caridade. Palavras que, em aspecto algum, são palavras torpes.

Devemos abolir essas palavras baixas de nosso vocabulário, ainda que algumas não sejam pecado mortal. Se por hábito e sem muita advertência alguém proferir uma palavra impura, um palavrão, deve fazer um pequeno ato de reparação e impor-se uma pequena penitência, a fim de perder esse hábito pouco a pouco. Uma Ave-Maria, por exemplo, ou invocar os nomes de Jesus, Maria e José. E mesmo se essas palavras vêm somente na nossa imaginação, afastemo-las, rezando e pensando em algo lícito.

Como diz São Paulo, que essas coisas nem se nomeiem entre os cristãos, como convém a santos. São coisas despropositadas. Sejamos filhos da luz, como diz o mesmo apóstolo, filhos da Palavra Eterna, da Sabedoria Eterna. Que nossas palavras sejam sábias, dignas de filhos de Deus.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

[Sermão] A serenidade ou a constância da alma

Sermão para o 2º Domingo da Quaresma

12.03.2017 – Padre Daniel Pinheiro, IBP

(Sermão baseado no livro A Perfeição Cristã de Emílio Gonzalez y Gonzales, capítulo 27)

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Ave Maria…

Caros católicos, no último domingo, tratamos da paciência que devemos ter para com os defeitos do próximo. Paciência tão necessária para a santidade, para a paz – em particular, na família – e que, ao mesmo tempo, não é uma aprovação dos defeitos ou faltas do próximo.

Falaremos hoje, nesse segundo domingo da Quaresma, de uma outra virtude simples: a constância ou igualdade de ânimo e que podemos chamar de serenidade.

No Evangelho de hoje, temos a transfiguração do Senhor. O Salvador deixa transparecer a Sua glória, para confirmar os apóstolos na fé, para que não O abandonem quando de Sua paixão. Vejamos, porém, a figura de São Pedro. O príncipe dos apóstolos, antes de Pentecostes, antes de sua santificação, apresenta ainda defeitos. Um deles é precisamente a inconstância de alma, a falta de serenidade em suas ações. Sem muito refletir, por ímpeto, São Pedro, no episódio da transfiguração já quer logo fazer três tendas para ali permanecer, esquecendo-se da necessidade da paixão. Em outros momentos, essa impetuosidade leva São Pedro a dizer que seguirá Jesus, pois só Ele tem palavras de vida eterna, e leva São Pedro a dizer que vai seguir Jesus até a morte, se necessário for. Mas vemos também São Pedro querer impedir a paixão de Cristo, vemo-lo dormir enquanto deveria vigiar, rezando, com Cristo. Logo em seguida, vemos São Pedro tirar a espada e cortar a orelha do soldado no Jardim das Oliveiras para, depois, vermos o apóstolo negar Jesus três vezes antes do galo cantar durante a paixão do Senhor. São Pedro tem a alma inconstante, levada para todos os lados conforme o vento que sopra no momento. Uma hora faz uma coisa e noutro momento, mesmo próximo, já faz o extremo oposto, com um humor que varia muitíssimo. Não tem serenidade em suas ações. Após a ressurreição do Senhor, após os quarenta dias que Cristo passou ainda na terra antes da Ascensão e depois de Pentecostes, São Pedro, arrependido de suas faltas e cheio da graça do Espírito Santo, será firme como a pedra e como a pedra que é o fundamento visível da Igreja de Cristo.

Nossa alma também é assim, muitas vezes. Parece mais um cata-vento do que uma bússola. O cata-vento muda de direção conforme a direção do vento, se deixando levar completamente pelo ambiente. Já a bússola aponta sempre para a mesma direção, independentemente de qualquer coisa, indicando o norte.

A alma inconstante é sacudida pelos vários acontecimentos que lhe sucedem ou é agitada pelas diversas impressões que recebe. Algo a agrada? A alegria e o entusiasmo dessa alma são imensos. Algo a desagrada? Ela fica afogada na mais profunda tristeza. Tem um fervor sensível nas orações? Entrega-se às orações. Já não se sente tão bem na oração? Depressa abandona as práticas de piedade. Se essa alma é contrariada, se torna insuportável. Quando não tem maiores tentações, anda cheia de confiança e com tranquilidade, parecendo-lhe muito fácil a perfeição. Mas quando é tentada ou provada um pouco mais, desanima, perde a esperança e acha que a santidade é impossível. Essa alma é uma cana agitada pelo vento, pelas circunstâncias. Ela não para em pé. É um turbilhão, cheia de ímpetos. Nela, podemos ver as mudanças mais repentinas e opostas. Não há firmeza, nem estabilidade. Não é uma alma constante nem serena. Essa alma, essa pessoa não é senhora de si mesma. Mas escrava das circunstâncias, das situações e de suas próprias inclinações.

Essa falta de serenidade da alma, de constância, de domínio sobre si mesma é sinal de uma virtude inexistente ou ainda muito inicial. Uma virtude edificada sobre a areia movediça. Os males dessa falta de serenidade são imensos. Essa alma não conseguirá fazer grandes coisas no caminho da santidade porque não perseverará em nada. Uma impressão mais forte e ela já se deixará levar por outro caminho, como a criança que se distrai facilmente com qualquer coisa no seu estudo, abandonando o que se tinha proposto a fazer. Essas pessoas volúveis como o cata-vento tornam-se também antipáticas aos outros e chatas em razão da variação de humor.

Devemos ter o ânimo constante, invariável, como a bússola. Devemos ter sempre a nossa alma orientada na mesma direção, na direção de Deus, da salvação eterna. Devemos ter a alma senhora de suas paixões e afetos, conservando a paz, a serenidade, no semblante, no humor, na caridade para com o próximo.  Conservando a mesma resolução no serviço a Deus, a mesma fidelidade no cumprimento de seus deveres, a fidelidade nas obrigações, a modéstia no porte, a tranquilidade no desempenho de suas atividades. Ainda que aconteçam ao redor de nós os mais variados acontecimentos que nos atinjam, a nossa alma deve assim permanecer: serenamente orientada para Deus, para a salvação eterna. Essa serenidade é necessária para a perfeição, muito agrada a Nosso Senhor, produz grande paz na alma, é de um grande mérito, ajuda na prática de todas as virtudes, dispõe para a união com Deus, e é muito agradável ao próximo.

Não é coisa fácil de se alcançar, pois necessita uma virtude mais sólida, mas é plenamente possível, recorrendo a Deus, lutando consigo mesmo. Essa serenidade da alma é uma antecipação da paz perfeita de que gozam os santos no céu. Daquela alma que guarda essa serenidade de alma, orientada sempre e firmemente a Deus, pode-se dizer com o salmista: Deus está no meio dela, nada a moverá (45, 6). Deus é o centro dessa alma, e nada será capaz de a perturbar. E é aqui se compreendem também aquelas belas palavras de Santa Teresa d’Ávila: Nada te perturbe, Nada te espante, Tudo passa, Deus não muda, A paciência tudo alcança; Quem a Deus tem, Nada lhe falta: Só Deus basta.

E assim dizia São Francisco de Sales a uma pessoa que dirigia espiritualmente: “é preciso ter uma contínua e inviolável igualdade de coração no meio da desigualdade dos acontecimentos; e apesar de todas as coisas mudarem à nossa volta, devemos permanecer constantemente imóveis, com o olhar fixo só em Deus, ainda que tudo se transtorne em cima e em baixo, e não somente à nossa volta, mas dentro de nós mesmos; ora esteja a nossa alma triste ou alegre, em satisfação ou amargura, em paz ou desassossegada, em claridade ou em trevas, em tentação ou em repouso, contente ou desgostosa ; ora o sol a abrase ou a brisa a refresque, sempre deve a nossa vontade olhar ao beneplácito de Deus, seu único e soberano Juiz. Em qualquer situação em que Deus nos coloque, tudo nos deve ser igual. Este é o alvo da perfeição a que devemos dispor-nos; quem mais se aproximar dele, esse terá o prêmio.”

Não devemos, porém, confundir essa serenidade e constância de alma com a insensibilidade. Não se trata de se tornar insensível aos mais diversos acontecimentos que nos cercam, como pretenderam falsos filósofos ao longo da história, como os estóicos, por exemplo. Essa insensibilidade seria irracional, contra a nossa natureza e mesmo contra a virtude.  A serenidade não é para abater ou destruir nossos sentimentos e emoções, mas para ordená-los e moderá-los, para que não nos dominem, para que não nos perturbem. Devemos ser superiores a eles, fazendo que movam a nossa alma somente no grau e na medida que sejam conformes à reta razão iluminada pela fé. Não se trata tampouco de um quietismo, que nos leva à inação ou a uma grande passividade. Trata-se de lidar com tudo com essa serenidade. Nas alegrias, nas provações. Procurar resolver as dificuldades, se possível for, com caridade, ordenando tudo a Deus.

Nosso Senhor tinha em Sua alma essa constância e serenidade perfeita. Alegrou-se com a conversão das almas, sofreu com todos os ultrajes que recebeu. Sua alegria é plenamente ordenada e moderada. Seu sofrimento é sereno. Diante de seus carrascos, nem chega a levantar a voz. Fala a verdade com serenidade e firmeza. Diante de Herodes, nem fala, para não jogar pérolas aos porcos. Jesus Cristo é plenamente senhor de Si. Temos também o exemplo de Nossa Senhora, chamada de Virgo Serena, Virgem Serena. Contemplemos a serenidade que conserva Nossa Senhora diante da cruz. Sofria mais do que qualquer homem e mais do que todos os homens juntos, excetuando Cristo. As lágrimas lhe saíam dos olhos. Uma espada lhe transpassava o mais profundo de sua alma. Mas ela permaneceu senhora dessa tristeza, permaneceu plenamente ordenada a Deus, permaneceu serena. E isso está muito bem significado pelo fato de que, em meio à toda essa tristeza, Nossa Senhora permaneceu em pé diante da cruz, firme, orientada a Deus. Rezemos à Virgem Serena, para que nos alcance essa serenidade de alma, em meio a todos os acontecimentos da vida. Que não sejamos como o cata-vento ou a biruta, levados para todo lado, mas orientados como a bússola, orientados para Deus. Que nossas emoções sejam ordenadas conforme à razão e a fé, para nos ajudar na nossa santificação. Que possamos alcançar a estabilidade, a constância, a serenidade de São Pedro plenamente convertido.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

[Sermão] Paciência para com os defeitos do próximo

Sermão para o 1º Domingo da Quaresma

05.03.2017 – Padre Daniel Pinheiro, IBP

 

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Ave Maria…

( Sermão tirado do livro Perfeição Cristã, capítulo XXV, de Emílio Gonzalez y Gonzalez).

Trataremos, nessa Quaresma, de algumas virtudes simples, mas importantíssimas para a vida católica.

O apóstolo nos fala hoje, em sua Epístola, da paciência e como devemos mostrar toda a paciência nas mais diversas circunstâncias. Podemos aplicar isso a uma coisa muito importante, sobretudo na vida familiar: a paciência para com os defeitos do próximo, principalmente no seio da família.

O não ter paciência com os defeitos alheios nasce, ordinariamente, da soberba de espírito e da dureza de coração. A paciência e indulgência cristãs provêm, pelo contrário, de um coração humilde, bondoso e caridoso. Quem é soberbo não se conhece, nem quer conhecer-se a si mesmo; o soberbo tem-se por perfeito e irrepreensível, e enquanto que não repara na trave do seu olho vê, com lentes de aumento, o cisco no olho do próximo. Daí que o soberbo, ao passo que não se corrige dos seus próprios defeitos e nem suporta sequer que lhe chamem a atenção para seus defeitos, mostra-se duro e intransigente com os defeitos alheios.

Devemos estar prevenidos contra este vício, porque são poucos os que, em maior ou menor grau, não adoeçam dele, já que o amor próprio nos cega, e nos faz julgar e tratar o próximo de uma maneira muito diferente da que tratamos a nós mesmos. “Nós, diz S. Francisco de Sales, queremos que suportem os nossos defeitos, parecendo-nos sempre que são dignos de serem tolerados; porém, os do próximo parecem-nos sempre maiores e, consequentemente, menos toleráveis. ”

Tudo isto nasce, como dissemos, da falta de humildade e conhecimento de nós mesmos, e da falta de bondade e de caridade para com o próximo. O coração humilde, bondoso e caritativo, tendo em conta as suas próprias fraquezas e defeitos, e considerando por outro lado quanto custa adquirir a virtude, e quantos obstáculos interiores e exteriores encontra no seu caminho, tolera e sofre com paciência as faltas e misérias do seu próximo; atenua quanto pode a gravidade dessas faltas e defeitos; dá-lhes a interpretação mais benigna possível; cala, espera caridosamente nos casos em que o falar seria inútil ou prejudicial ; e, enfim, trata os outros com aquela prudente misericórdia e indulgência com que nas mesmas circunstâncias quereria ser tratado.

A paciência para com o próximo no meio das suas imperfeições é, sem dúvida, um dos principais efeitos da verdadeira caridade, um dos primeiros sinais dela; e quanto mais bondosa e caridosa é uma pessoa, tanto mais inclinada se sente à benignidade e paciência para com o próximo. Por isso, Deus Nosso Senhor, que é todo bondade e caridade, é tão indulgente e compassivo para conosco. Suporta os nossos defeitos, sofre com infinita paciência os nossos pecados e infidelidades; perdoa-nos uma e outra vez as nossas faltas, e espera-nos um e outro dia, um mês e outro mês, um ano e outro ano, dando-nos tempo e graça para nos arrependermos, emendarmos, e voltarmos ao seu amor e amizade. Se Deus não nos tivesse tolerado, não estaríamos a estas horas sepultados no profundo abismo do inferno?

E à vista de tanta bondade e indulgência por parte do Senhor, não seremos nós bondosos e indulgentes com o nosso próximo? E podemos considerar-nos filhos de tão bom Pai se não procurarmos revestir-nos dos sentimentos caridosos do seu dulcíssimo Coração?

São Francisco de Sales dizia: “Grande parte da nossa perfeição é suportarmo-nos mutuamente nas nossas imperfeições, e o amor do próximo em nada se pode exercitar melhor que nesta tolerância.” Por isso, o Santo Bispo insistia vivamente, tanto nas suas conversas como nos seus escritos, sobre certas virtudes, que dizia não eram suficientemente estimadas, a saber: a cordialidade, a paciência, a afabilidade, a bondade, a tolerância com os defeitos dos outros; e achava uma ilusão imaginar que se podem fazer grandes coisas pelo próximo quando não sabemos suportar suas faltas corriqueiras.

A todos, sem exceção, é necessária esta paciência com os defeitos alheios, pois não há ninguém neste mundo que não tenha defeitos próprios. Somos homens, e não anjos; e as imperfeições, como consequência do pecado original, nos são, de certo, modo naturais e nos acompanharão até à morte. «Deus dispôs assim, diz a Imitação de Cristo, para que aprendamos a suportar uns o peso dos outros, segundo o conselho do Apóstolo, pois ninguém há sem defeito, ninguém que não cause aborrecimento aos outros, ninguém que se baste a si mesmo, ninguém que seja suficientemente entendido em tudo, senão que é preciso suportar uns aos outros e mutuamente consolar-se, ajudar-se, instruir-se e aconselhar-se. Sejamos, pois, pacientes com os defeitos e quaisquer fraquezas do nosso próximo, porque também nós temos muitos defeitos que os outros devem tolerar.”

É indispensável, além disto, esta mútua paciência para se poder viver em paz e harmonia uns com os outros: superiores com inferiores, pais com filhos, maridos com esposas; irmãos com irmãos; amigos com amigos, etc. Sem uma tolerância prudente e caridosa das misérias, imperfeições e faltas alheias, sobretudo das faltas leves e quotidianas, que nascem mais da própria condição fraca e imperfeita da nossa natureza que da malícia, logo surgirão os choques, as desavenças, as murmurações, as palavras ofensivas e os insultos graves, os rancores com todo o cortejo de dissabores e desgostos que virão amargar a vida de todos os que têm de viver juntos. E quanto todas essas coisa efetivamente existem no seio da família, entre marido e esposa. Que lástima! Ao contrário, onde reina a caridade fraterna, e com ela a tolerância mútua dos defeitos e imperfeições, haverá paz, concórdia, alegria santa, e os dias, no meio dos seus trabalhos e amarguras, tornar-se-ão mais suaves, mais agradáveis e suportáveis, até que brilhe para nós na glória, o dia da verdadeira paz e eterna caridade.

A paciência com os defeitos do próximo, acompanhada de atos repetidos de caridade, de humildade, de paciência, de doçura, de mortificação, etc., será muito agradável a Deus Nosso Senhor, e fonte abundante de santificação e de méritos para nós; e por isso, os Santos foram tão benignos, tão pacientes e sofridos no trato com as outras pessoas. Ditoso, diz S. Francisco de Sales, aquele que aprendeu bem estas excelentes lições de caridade e paciência cristã que nos deixaram os servos Deus.

Seria, contudo, um erro funesto confundir a paciência virtuosa com os defeitos dos outros, filha da verdadeira caridade, com uma conivência que contribuísse para favorecer os defeitos e vícios do nosso próximo. Favoreceríamos esses defeitos e seríamos cúmplices deles se de algum modo autorizássemos ou déssemos mostras de aprovar tais defeitos ou se nós, por uma amizade mal entendida, ou por outros respeitos humanos os imitássemos, ou se podendo ou devendo opor-nos a isso o não fizéssemos. Neste último caso encontram-se os pais e superiores, a quem incumbe o dever de velar por aqueles que estão entregues ao seu cuidado. Eles faltariam à sua obrigação se não se opusessem aos vícios e defeitos de seus filhos ou subordinados. A oposição ao vício, a sua correção deve ser sempre, porém, com bondade, prudência, caridade, ainda quando necessitem vigor.

Essa paciência com o próximo não significa estar de acordo com seus defeitos, mas ver a melhor maneira de ajudar o próximo a superá-los. Sabendo o momento de falar e de calar, sabendo o que falar, como falar ou fazer algo. Com paciência, com caridade. Quantas vezes, por impaciência, se faz algo até com boa intenção, mas que só piora as coisas porque não soubemos esperar, ter essa boa paciência com os defeitos do próximo.

Imitemos em tudo isso a conduta de Nosso Senhor Jesus Cristo com os Apóstolos. Com que paciência suportava os defeitos deles, a rudeza deles, as inconveniências e os modos grosseiros deles, o egoísmo, o interesse e toda a série de imperfeições de que estavam cheios quando os chamou ao Apostolado! Como os foi, pouco a pouco, com doçura e fortaleza ao mesmo tempo, purificando-os dos seus maus hábitos, formando-os e aperfeiçoando-os para o alto ministério a que os destinava! Repreendia-os, sim, e opunha-se à suas faltas quando era necessário, porém, com que prudência, com que amor, com que bondade e caridade o fazia! Não era somente para com eles o mestre e o juiz das suas ações. Era ao mesmo tempo o pai e amigo, benfeitor. Procuremos efetivamente ter essa paciência para com o próximo. Ela uma pérola da caridade e da santificação. Procurem sobretudo esposo e esposa ter essa paciência mútua. Essa caridade que se traduz nessa boa paciência com os defeitos do próximo é o segredo para que a paz reine no lar.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.