[Sermão] A confiança total em Deus e a Paixão de Cristo

Sermão para o Domingo da Paixão

18.03.2018 – Padre Daniel Pinheiro, IBP

Em nome do Pai…

Ave Maria…

Caros católicos, vemos, no Evangelho de hoje, como Nosso Senhor afirma claramente ser Deus, como Ele afirma a sua eternidade ao dizer: antes que Abraão fosse, eu sou. E, tendo ouvido isso, os judeus pegaram pedras para lhe atirarem. Esse foi o motivo da paixão e morte de Jesus, o fato de Ele ter afirmado a sua divindade. Como sabemos, efetivamente, Jesus é verdadeiro homem e verdadeiro Deus.

Já na Epístola de hoje, São Paulo fala do sacrifício de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele fala de como Cristo derramou Seu sangue e como o sangue dEle purifica a nossa consciência das obras da morte, para que sirvamos ao Deus vivo. Afirma, ainda, que Nosso Senhor é Pontífice dos bens futuros, isto é, da vida eterna, e o Mediador da Nova Aliança.

Caros católicos, podemos tirar, como lição das leituras de hoje e desse tempo da paixão, a esperança. Se Nosso Senhor Jesus Cristo é Deus e homem, se Nosso Senhor Jesus Cristo foi até a morte de cruz para nos salvar, como não esperar nEle? Será que nos abandonaria um Deus que se fez homem, padeceu e morreu na cruz para nos salvar? Será que depois de fazer tudo isso por nós, nos abandonaria? Seria bem incoerente da parte de Deus. Devemos ter uma grande confiança em Deus. Grande confiança? Devemos ter uma confiança total, plena.

Nosso Senhor Jesus Cristo nos assegura que nos dará os meios necessários para chegarmos ao céu. A nossa esperança em Deus se baseia na Sua bondade infinita, na Sua misericórdia infinita, na Sua onipotência, na Sua fidelidade às promessas que fez. Como não esperar e confiar em Deus, que é infinitamente bom e misericordioso, e que, por isso, quer nos ajudar e nos tirar de nossa miséria espiritual? Como não esperar e confiar em Deus, que é onipotente, isto é, que tem todos meios para nos ajudar? Como não esperar e confiar em Deus que é plenamente fiel às suas promessas?

Que pecador, por pior que seja, poderá desesperar do perdão, se busca se arrepender do mal que fez, vendo um Deus amar tanto os homens ao ponto de se encarnar, de derramar todo seu sangue e morrer na cruz por ele? Como não esperar em Deus que nos disse: pedi e recebereis, buscai e achareis, batei e abrir-se-vos-á? Como diz São Paulo: mantenhamos a firme esperança que confessamos, pois fiel é quem faz a promessa.

A consideração da paixão de Cristo deve nos dar grande esperança, caros católicos. Na nossa vida prática, esquecemos frequentemente de viver segundo essa esperança, embora saibamos teoricamente que devamos esperar e confiar em Deus. Vamos confiando muito mais em nós mesmos do que em Deus. Confiamos mais em nós para vencer os nossos defeitos e pecados. Confiamos mais em nós diante das nossas cruzes. Confiamos mais em nós em todas as situações. Claro que devemos fazer a nossa parte e os nossos esforços, mas sempre apoiados inteiramente na bondade e na onipotência divinas. Se procurarmos nos esforçar, apoiados em Deus, Ele nos ajudará. Nem sempre como imaginamos ou desejamos segundo o nosso gosto demasiadamente humano, mas Ele ajudará com abundância. Deus não enviou seu próprio Filho para viver entre os homens e morrer na Cruz para nos abandonar em seguida.

Um dos grandes motivos de não conseguirmos avançar no caminho da virtude e no caminho do combate aos nossos defeitos é a falta de confiança total em Deus. E devemos confiar em Deus em todas as coisas, em todos os acontecimentos da vida, tanto na ordem espiritual quanto na ordem temporal. Devemos confiar em Deus, que é nosso Pai infinitamente bom. Confiar em Deus, que ordena tudo para o bem daqueles que desejam servi-lO. Devemos saber que todos os acontecimentos da vida, grandes ou pequenos, vêm da bondosa providência de Deus, sem a qual não cai um só cabelo da nossa cabeça. Assim, ainda no meio das maiores adversidades, em meio dos maiores perigos, perseguições, doenças, desgraças, devemos colocar toda a nossa confiança em Deus, esperando nEle, fazendo como Abraão, isto é, esperando contra toda esperança. Devemos dizer como o Rei Davi: “Ainda que acampem exércitos contra mim, o meu coração não temerá; ainda que se levante uma guerra contra mim, mesmo então confiarei. Uma só coisa peço ao Senhor, esta solicito: é que eu habite na casa do Senhor todos os dias da minha vida, para gozar da suavidade do Senhor e contemplar o seu templo.” Devemos dizer como Jó: “Ainda que o Senhor me ferisse de morte, nEle esperarei.” Devemos ter essa confiança total, essa confiança plena em todos os aspectos de nossa vida, mesmo nos mínimos detalhes.

Devemos ter particular esperança em Deus quando se trata de buscar a santidade, quando se trata de buscar a perfeição. Nosso Senhor disse para cada um de nós: “Sede perfeitos, como vosso Pai Celestial é perfeito.” Não foi dito a um grupo particular, mas para todos, para cada um de nós. E é o que devemos buscar, com confiança total em Deus, esperando nEle. Ele nos chama a essa vida de perfeição e evidentemente nos dá as graças para que caminhemos e avancemos no caminho da perfeição. Não devemos fechar, com nossas desconfianças e resistências, a entrada de nossa alma para as graças de Deus. Ainda que sejamos uma e muitas vezes infiéis às suas graças; ainda que possamos cair e recair em novas faltas e pecados, não devemos desesperar, mas pedir a nosso Senhor com nova confiança, rogando-lhe humildemente perdão, refugiando-nos na sua bondade, e propondo firmemente a emenda; e estejamos seguros de que nunca nos rejeitará, pois é infinitamente maior a sua misericórdia que a nossa fraqueza e malícia. Se não desanimarmos, se cada dia começarmos com novos e firmes propósitos, por fim seremos verdadeiramente perfeitos e santos. Sem dúvida que a causa de não avançarmos mais na perfeição é muitas vezes a falta de verdadeira confiança em Deus, pois com frequência, desconfiamos dEle, ou confiamos muito em nós mesmos e quando procedemos assim, não confiando nEle, o Senhor não abençoa os nossos esforços. A própria Santa Teresa, falando de si mesma, e referindo-se à época da sua vida em que ainda não tinha se consolidado na sua alma as virtudes que desejava, diz: “Eu suplicava ao Senhor que me ajudasse, mas devia faltar, ao que me parece agora, pôr toda a confiança em sua Majestade. Procurava remédio, fazia esforços, mas não compreendia que tudo aproveita pouco, se não colocamos a nossa confiança em Deus e não em nós mesmos”

Considerando a Paixão de Nosso Senhor, caros católicos, tenhamos essa esperança, essa confiança total em Deus. Façamos a nossa parte e nossos esforços totalmente apoiados em Deus. Desconfiemos de nós mesmos, reconhecendo nossas fraquezas e faltas, mas esperando totalmente em Deus. Precisamos que essa esperança encha toda a nossa alma. Com essa esperança, com essa confiança poderemos caminhar em direção ao cume da perfeição.

Em nome do Pai…