[Sermão] A Doçura no seio da família

Sermão para o 3º Domingo da Quaresma

04.03.2018 – Padre Daniel Pinheiro, IBP

 

Em nome do Pai…

Ave Maria…

Caros Católicos, São Paulo nos fala hoje que devemos ser imitadores de Cristo e que devemos andar no amor, como Cristo nos amou. O apóstolo fala aqui do amor a Deus e do amor ao próximo. É sobretudo desse amor ao próximo que quero falar hoje, em particular no seio da família, entre marido e esposa e entre pais e filhos. Esse amor ao próximo decorre necessariamente do amor a Deus e é uma boa medida dele. Claro, estamos aqui falando do amor ao próximo que ordena todas as coisas em conformidade com a vontade de Deus, de acordo com os mandamentos e as virtudes.

Esse amor ao próximo no seio da família é importantíssimo e tão mal praticado, infelizmente. Existem muitas pessoas, mesmo devotas, que rezam, que levam a sério a santa religião católica e que nas relações sociais com estranhos são muito afáveis, bondosas, humildes, indulgentes, mas que, no seio da família, são ásperas, orgulhosas, de pouca consideração. Com esse comportamento dentro de casa tornam-se a cruz e o tormento para os familiares. Com a conduta áspera dentro de casa, contradizem toda essa bondade que apresentam diante dos outros publicamente. Nesse momento, marido já está pensando: minha esposa é assim. A esposa já está pensando: meu marido é assim. E os mesmos pensamentos entre pais e filhos. Esqueçam um pouco o outro e pensem em si mesmos. Todos nós padecemos desse mal, em maior intensidade ou menor. Olhe para si mesmo em primeiro lugar. Marido, olhe para si mesmo. Esposa, olhe para si mesma. Pais, olhem para si mesmos. Filhos, olhem para si mesmos.

Desse tipo de pessoa, São Francisco de Sales diz que são anjos na rua e demônios em casa. É preciso, então, pedir a Deus e trabalhar para que se tenha a mansidão, a doçura dentro de casa. E que não seja uma doçura meramente exterior e ocasional, mas que ela seja constante, sincera, fruto da humildade e da caridade. É preciso ser bom, afável, com todos, mas principalmente com os da própria família. Que triste é ver, em um lar, o deplorável espetáculo da frieza, da desconsideração, das palavras injuriosas ou grosseiras. Que triste ver, em um lar, o deplorável espetáculo dos arrebatamentos de ira e de orgulho. Que triste ver germinar a semente da falta de afeto e da desarmonia entre as pessoas que mais deveriam se amar, que mais deveriam se ajudar nas coisas espirituais e nas coisas temporais. Ao contrário, quão consolador é ver, em um lar, uma santa cordialidade e afabilidade entre os membros da família. Assim deve ser cada um no seio de sua família: bom, cordial, afável, ainda que os outros membros da família não o amem, e seria preciso sacrificar-se nessa bondade, nessa doçura por amor a Deus e ao próximo. São Francisco de Sales dava um conselho que ele mesmo praticava: honrai a vossa devoção, revesti-la de grande amabilidade para com todos os que vos conhecem, e em especial para com os da vossa família. Grande amabilidade para com todos os que vos conhecem, em especial com os de vossa família. Creio que podemos fazer, todos nós, imensos progressos nessa virtude. Maridos, esposas, filhos, padres… Devo ter essa resolução de proceder com grande bondade, doçura e afabilidade com todos os de minha família. Pedir a graça de Deus para isso e pedi-la com grande confiança. Ser anjo fora de casa e também dentro dela, principalmente dentro dela, para com meus familiares.

É preciso, caros católicos, que entre os membros da família, haja a demonstração de afeto, de afabilidade. Não se sustenta um amor que não se demonstra. É evidente que esse amor se demonstra, em primeiro lugar pelas obras, pelo ordenado e afável cumprimento dos deveres de estado. Mas ele se demonstra e se nutre também de forma simples. Quantas vezes os membros da família se esquecem de demonstrar esse afeto também por pequenas coisas e pequenos agrados, por pequenos presentes e por palavras, que, às vezes, entre os casados, abundaram na época de namoro e que agora sumiram depois do matrimônio. Não deveria ser assim. Deveriam abundar durante o casamento e serem moderados antes dele. Essas coisas são um sinal do amor na família e favorecem esse amor, e são coisas importantes, ainda que estejam longe de ser o principal, como é evidente. Muitas vezes as pessoas pensam: agora eu ajo pela razão e não pelos sentimentos. E se tornam secas, áridas, duras. Ora, a razão manda que o bom amor seja demonstrado de forma ordenada, que haja manifestações legítimas de afeto. Não se trata de sentimentalismo. E esse afeto e essa união podem se manifestar mesmo em coisas mais excelentes. Por exemplo, em uma ação de graças, ainda que breve, feita conjuntamente pelo casal após a Missa, com as mãos dadas, discretamente, mas demostrando assim, para si mesmos, a profunda união. O quanto faria bem essa ação de graças do casal, pedindo as virtudes de que precisam, pedindo essa doçura no seio da família, pedindo a mútua compreensão, pedindo a união dos corações, pedindo pelos filhos. As crianças, talvez, não deixarão que essa ação de graças se prolongue tanto, mas, ainda que ela seja breve, dará frutos. Essa pequena oração do casal na Igreja ajudará muitíssimo. Peço aos casais que procurem fazer isso hoje após a Missa e após cada Missa, em particular pedindo a graça da doçura no seio da família. Procure o casal fazer essa ação de graças após cada Missa.

Faço essa homilia de Quaresma bem curta e simples, mas para que fique bem gravada na alma de vocês e que possa servir como ponto decisivo para a vida familiar. Fique bem gravada na alma a doçura no seio da família, a afabilidade, a cordialidade, a condescendência que faz que nos acomodemos ao gosto e à vontade do outro, desde que não seja contra a lei de Deus. Dessa condescendência falaremos em outra ocasião. Que fique bem gravada na alma de cada um essa necessária demonstração do amor e do afeto também nas coisas simples. Que fique bem gravada essa ação de graças feita pelo casal após a Missa.

Em nome do Pai…