[Sermão] O número dos que se salvam

Sermão para a Solenidade Externa da Festa de Todos os Santos

05.11.2017 – Padre Daniel Pinheiro, IBP

 

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Ave Maria…

Depois disso, olhei e vi uma multidão grande que ninguém podia contar, de toda nação, tribo, povo e língua

Poderíamos, caros católicos, considerando nesse dia de hoje todos os santos no céu, considerando a glória da Igreja triunfante, nos perguntar como aquele judeu perguntou ao Salvador: “Senhor, são poucos os que se salvam ?” E o Senhor respondeu: “Esforçai-vos por entrar pela porta estreita porque vos digo que muitos procurarão entrar, e não conseguirão.” Nosso Senhor fala que é preciso esforçar-se, que é preciso entrar pela porta estreita, que o caminho é difícil, mas não responde propriamente quanto ao número de eleitos. Mesmo em outras passagens, quando o Senhor diz que muitos são os chamados e poucos os escolhidos, Ele não se refere exatamente ao número de eleitos, mas fala da maior parte dos judeus, que não quis entrar no reino de Deus, isto é, na Igreja de Cristo, a Igreja Católica.

Nosso Senhor, no lugar de responder, mostra o caminho, mostra que é preciso esforçar-se, que é preciso renunciar a si mesmo, ao pecado, ao demônio, ao mundo. Nosso Senhor não quis responder para evitar que as almas se perdessem. Se Nosso Senhor respondesse que são poucos os que se salvam, muitos seriam levados ao desespero. Se Nosso Senhor falasse que é grande o número dos que se salvam, muitos seriam levados à presunção, quer dizer, seriam levados a pensar que poderiam se salvar de qualquer jeito, sem muito esforço. Nosso Senhor não responde.

Dentro desse tema, não devemos acreditar que praticamente todo mundo se salva nem que praticamente todo mundo se condena. Nós podemos, todavia, com base na Revelação e na razão, ter um otimismo moderado. Ora, mesmo a lição do livro do Apocalipse, que lemos hoje, fala de uma multidão incalculável de santos. A própria repetição do texto dá a idéia de uma grande multidão. E nós, ao comemorar todos os santos, nos lembramos também da quantidade imensa deles, de quantos nos são completamente desconhecidos e de quantos eram como nós, no mesmo estado de vida, com os mesmos problemas.

Nós temos motivos para um otimismo moderado quanto ao número dos que se salvam. Temos motivo para esse otimismo por causa da misericórdia de Deus, em virtude da sua justiça, que pune apenas os que merecem. Podemos ter um otimismo moderado porque a redenção de Cristo é superabundante. Podemos ter grande esperança porque temos a intercessão de Nosso Senhora, Mãe de Deus e nossa, advogada nossa, refúgio dos pecadores. Portanto, o número dos que se salvam não é um número ínfimo. Devemos evitar essa posição rigorista, mas, ao mesmo tempo, devemos evitar a posição de que todos se salvam, ou a posição de que o caminho para a salvação é fácil. E o dogma de que fora da Igreja católica não há salvação continua sempre válido evidentemente. Apenas se salva quem está na Igreja Católica de fato (reapse) ou por desejo.

São Tomás, ao tratar do assunto, escreve que é melhor dizer que somente de Deus é conhecido o número dos eleitos que serão colocados na felicidade suprema. Nosso Senhor não responde e São Tomás também não responde abertamente à questão. Quem seríamos nós para fazê-lo?

O que deve nos interessar, caros católicos, não é tanto a quantidade de pessoas que se salvam. Pode ser que a maioria dos homens se salve, mas isso não significa que eu esteja entre eles. Pode ser que poucos se salvem, mas que eu esteja entre eles. O que deve nos interessar, então, não é o número dos que se salvam, mas que estejamos entre os que se salvam. E isso é plenamente possível porque Deus quer nos tirar de nossa miséria, Deus nos dá os meios abundantes para vivermos em sua graça e para perseverarmos nela. Temos a Missa, temos os sacramentos, temos os sacramentais, temos o Terço, temos tantas outras orações. Temos a intercessão de Nossa Senhora e dos outros santos. Temos a comunhão dos santos, pela qual podemos e devemos rezar uns pelos outros.

A salvação nos é possível, caros católicos. E não apenas a salvação, mas a santidade, o grande avanço nas virtudes. O caminho é que renunciemos a nós mesmos, tomemos a nossa cruz e sigamos a Jesus.

Renunciar a nós mesmos é renunciar à nossa vontade própria cada vez que a nossa vontade se opõe à vontade divina. É também renunciar ao pecado mortal. E lutar seriamente também contra o pecado venial, isto é, contra o pecado leve. É também renunciar ao demônio com as suas tentações. É renunciar ao mundo, pisoteando o respeito humano, fugindo das ocasiões de pecados, em particular das diversões mundanas. Devemos afastar para longe de nós o espírito mundano, amaldiçoado por Cristo.

Devemos nos apoiar na graça de Deus mais do que em nós mesmos e devemos nos conformar com a vontade de Deus em tudo. Nesse caminho de esperança em direção ao céu, não podemos desanimar. Grande armadilha do demônio é o desânimo e a tristeza. Nós vemos mesmo muitos católicos atingidos profundamente pelo desânimo e pela tristeza. Isso se vê na expressão do rosto, se vê no modo de falar e de agir. Quantos, compreendendo mal o caminho da salvação, desanimam porque não avançam tão rápido quanto idealizaram ou desistem de tudo porque caíram? Querendo avançar muito rápido, tropeçam. Querendo ficar de pé apenas com as próprias forças, caem. E têm dificuldade para levantar. Porque não se apoiam em Deus ou porque não têm paciência consigo mesmo. Claro, é preciso lutar, levantar-se o quanto antes com o propósito de não mais cair, mas com humildade e apoiados em Deus. Esforçar-se de modo sereno, suavemente e fortemente. Esse é o caminho dos santos. Força e suavidade. Sem angústia, sem ter a alma dilacerada na busca pela santidade e pela salvação. Força e suavidade.

O reino dos céus é dos violentos, nos diz Nosso Senhor, isto é, daqueles que o arrebatam pela força, pela força da fé, da caridade, da conformidade com a vontade de Deus, pela força da luta contra a carne, contra o demônio e contra o mundo. Mas o reino dos céus é também dos mansos e dos humildes. É preciso ser violento, manso e humilde, ou seja, suave e forte. É preciso compreender que não há contradição em ser violento, manso e humilde, quando falamos do combate espiritual.

Caros católicos, façamos a nossa parte para estar no número dos que se salvam. Não nos interessa o número dos que se salvam, mas estar entre eles. É perfeitamente possível, com suavidade e força. Deus nos dá graças abundantes para isso. Deus é bom! Confiança nEle!

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.