[Sermão] Cristo Rei e o liberalismo

Sermão para a Festa de Cristo Rei

29.10.2017 – Padre Daniel Pinheiro

 

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Ave Maria…

 

A Festa de Cristo Rei foi instituída por Pio XI em 1925 para afirmar a realeza de Nosso Senhor Jesus Cristo não só sobre os indivíduos, mas também sobre as sociedades, sobre todas as sociedades, da família ao Estado, da menor sociedade à maior. Por essa época, praticamente a maioria das nações cristãs já haviam se separado da Igreja, muitas realmente apostatado, em movimento que trouxe enorme prejuízo para as pessoas membros dessas nações e para os próprios estados.

Nosso Senhor é Rei porque Ele é Deus verdadeiro. Mas Ele é Rei também enquanto homem, em virtude da união de sua natureza humana à natureza divina na pessoa do Verbo. Nosso Senhor Jesus Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro Homem e sua pessoa é divina. Ele é Rei enquanto homem também por direito de aquisição. Adquiriu a realeza sobre nós pelo seu sangue derramado para a nossa redenção. Essa realeza é sobre os indivíduos e todas as suas faculdades: realeza sobre a inteligência, sobre a vontade, sobre os sentimentos, sobre os sentidos. Essa realeza é sobre todas as ações nossas. Devemos nos submeter inteiramente a Cristo, nosso Rei.

Todavia, Nosso Senhor é Rei também das sociedades. A sociedade também é uma criatura de Deus, já que Deus criou o homem como animal social, ou seja, Deus criou o homem como um ser que precisa de outros para sua perfeição, para viver de modo conveniente. Isso começa pela família, onde todos nascemos. E se conclui com a sociedade civil, com o estado. Nem mesmo a família sozinha basta para a perfeição do homem. É necessária a convivência entre famílias, formando a sociedade civil. Portanto: em suas leis, em seu governo, na educação, em todos os aspectos, a sociedade civil, o estado, e qualquer outra sociedade devem reconhecer a realeza de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Todavia, as nações se revoltaram contra Deus, dizendo: não queremos que Jesus Cristo reine sobre nós. Essa revolta, filha autêntica do demônio com o seu non serviam (não servirei), é própria do liberalismo. A sua origem se encontra na decadência filosófica, teológica e política de fins da idade média, quando se foi abandonando a boa filosofia e a teologia de São Tomás. Podemos, porém, apontar um marco decisivo no avanço do liberalismo: Lutero e a revolta protestante. Lutero nega a autoridade da Igreja e coloca cada indivíduo como autoridade para interpretar a Sagrada Escritura. É o chamado livre exame. Cada um pode, com inspiração particular, interpretar a Bíblia sozinho. É curioso como essa inspiração, teoricamente vinda de Deus, é tão contraditória. Um indivíduo interpreta de um jeito. Outra pessoa interpreta de outro. As duas viriam de Deus. Deus pode se contradizer? Afirmar isso seria uma blasfêmia. O fato é que ao negar a autoridade da Igreja e ao afirmar a independência total do indivíduo em ponto tão fundamental, Lutero coloca as bases mais claras para o liberalismo.

O liberalismo afirma a independência da vontade com relação ao bem, como se cada um pudesse escolher, sem distinção, entre o bem e o mal. Ele afirma a independência do sentimento com relação à inteligência e a vontade, como se todo sentimento devesse ser seguido cegamente, independentemente de qualquer outra coisa. O liberalismo afirma a independência do corpo em relação à alma, como se fôssemos puramente animais. Afirma a independência do indivíduo com relação à sociedade, como se não houvesse hierarquia alguma na família, entre marido e esposa, entre pais e filhos; como se não houvesse hierarquia na Igreja, entre o clero e os fiéis. O liberalismo afirma a independência dos homens com relação a Deus, como se Ele não existisse ou como se Deus existisse simplesmente para satisfazer os anseios dos homens, a fim de que eles se sintam bem. Ele afirma a independência do Estado com relação a Deus e à Igreja, como se não houvesse uma religião verdadeira, como se fossem todas boas. Nessa falsa concepção, também a economia se torna independente de toda lei moral. Essa é a concepção atual de liberdade, radicalmente oposta à liberdade verdadeira, que nos foi dada por Deus. Essa é a concepção liberal de liberdade, conhecida como liberalismo. Essa concepção tão gravemente errada de liberdade e que vai tão profundamente contra a natureza das coisas é uma liberdade que escraviza, que escraviza o homem à sua vontade própria, ao pecado. É uma liberdade que conduz à perdição. A verdadeira liberdade é uma liberdade para nos movermos no bem.

Inspirando-nos em Monsenhor Gaume, prelado francês do século XIX podemos dizer: “Se arrancando sua máscara, perguntamos ao liberalismo: quem és tu? Ele dirá: eu não sou o que pensam. Muitos falam de mim e poucos me conhecem. Não sou a maçonaria, nem motim, … nem troca de monarquia por república, nem substituição de uma monarquia por outra, nem a perturbação momentânea da ordem pública. Não sou nem os latidos dos comunistas, nem os furores dos direitistas, nem a guerrilha nem a pilhagem, nem o incêndio, nem a reforma agrária, nem o socialismo, nem a social democracia, nem o centro, nem a guilhotina, nem as execuções. Essas coisas são minhas obras e minhas filhas, mas não eu. Essas coisas são passageiras mas eu sou um estado permanente. Sou o ódio por toda ordem que não tenha sido estabelecida pelo homem e na qual ele não seja ao mesmo tempo rei e deus. Sou a proclamação dos direitos do homem sem respeito aos direitos de Deus. Sou a fundação do estado religioso e social na vontade do homem em lugar da vontade de Deus. Sou Deus destronado e o homem em seu lugar. Eis porque me chamo Revolução, ou seja, subversão, liberalismo.”

Não adianta combater meramente as filhas e as obras do liberalismo. É preciso combater seus princípios. Ainda menos adianta combater as obras do liberalismo com outras obras do liberalismo, alimentando e reforçando o liberalismo enquanto se tem a ilusão de combatê-lo (o comunismo com o liberalismo em geral ou o liberalismo econômico em particular; a democracia moderna com uma monarquia que é no fundo liberal e maçônica). É preciso combater com os bons princípios da lei natural, com os bons princípios da religião católica. É preciso proclamar a realeza de Cristo em nossa alma e viver essa realeza. É preciso buscar, com os meios que nos são possíveis, que Cristo reine na sociedade, começando por nós e pelas nossas famílias.

Boa é a data da Festa de Cristo rei porque afirma o reinado de Cristo já aqui nesse mundo sobre os indivíduos e sobre as sociedades. Ela não é relegada ao último domingo do ano litúrgico, que trata do fim do mundo, como se o reino de Cristo viesse apenas no fim do mundo.  Boa porque afirma a realeza de Cristo no céu e no purgatório pela proximidade com a Festa de Todos os Santos e com o Dia de Finados. Boa porque é próxima da data que marca o início da revolta de Lutero: a fixação das 95 teses na porta da Igreja de Wittenberg ocorreu em 31 de outubro de 1517 (alguns historiadores chegam a contestar que isso realmente tenha acontecido). Os protestantes a comemoram no último domingo de outubro. A festa de Cristo Rei, sendo no último domingo de outubro, é o antídoto ao liberalismo protestante, que destruiu as pessoas e a sociedade. A realeza de Nosso Senhor Jesus Cristo é o remédio para os males de nossa época. Viva Cristo Rei.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.