[Sermão] Sentido Espiritual das Cerimônias da Missa – Parte 11: O Cânon Romano III – Communicantes, Hanc igitur e Quam oblationem

 

Sermão para o 19º Domingo depois de Pentecostes

15.10.2017 – Padre Daniel Pinheiro, IBP

 

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Ave Maria…

Caros católicos, continuarei hoje aquilo que já começamos há muito tempo: o comentário sobre o sentido espiritual da Missa no Rito Romano Tradicional. Recomendo vivamente que releiam as outras partes dessa exposição, muito útil para uma melhor compreensão da Missa Tridentina e de nossa adesão a ela. Aproveitando a ocasião, gostaria de lembrar que os pais devem explicar aos filhos, pouco a pouco, mas solidamente, as razões de nossa adesão ao Rito Romano Tradicional. E explicar os motivos mais profundos em primeiro lugar, enfatizando o bem imenso que faz esse rito para a nossa fé e a nossa vida espiritual. Já fizemos um bom número de sermões sobre o assunto.

Nós tínhamos parado na parte do Cânon Romano que antecede a consagração, mais precisamente na oração chamada Communicantes. No Communicantes, o padre e os presentes, reconhecendo a proximidade da consagração e consequentemente a grandeza do mistério, ficam repletos de santo temor. Para não oferecerem sozinhos o santo sacrifício, afirmam a comunhão com os santos no céu, pedindo a intercessão deles. A palavra communicantes exprime a comunhão dos santos que confessamos no credo dos apóstolos: creio na comunhão dos santos. Nós somos a Igreja militante, aquela que ainda milita, que combate na terra pela sua salvação. Na Missa, é toda a Igreja que está de algum modo presente. A nós, Igreja militante, se associa a Igreja triunfante, isto é, os santos que já estão no céu. E também a igreja padecente – as almas do purgatório – se associa à Missa, sobretudo recebendo o sufrágio para mais rapidamente poderem chegar ao céu. Não somente afirmamos a união com os santos no céu para oferecer o santo sacrifício da Missa, como afirmamos que veneramos a memória dos santos.

Em primeiro lugar – não podia ser diferente –, in primis, invocamos a Bem-Aventurada sempre Virgem maria, Mãe de Deus. Unimo-nos a ela para oferecer a Missa e a veneramos sob esse título de Mãe de Deus, definido no Concílio de Éfeso, e que mais agrada a Nossa Senhora depois de seu próprio nome.

Em seguida, é invocado o nome de São José. O nome de São José foi introduzido somente pelo Papa João XXIII no Missal de 1962. Trata-se de um acréscimo, portanto, extremamente recente. O nome de São José não estava no Cânon antes porque na Igreja primitiva não era uma devoção tão desenvolvida. Não se desenvolveu tanto nos primeiros séculos para deixar claro que Jesus Cristo é filho de Deus e não de São José, de quem é somente filho adotivo, se assim podemos dizer. Com o passar dos séculos, desenvolveu-se a devoção a São José, sobretudo com Santa Teresa d’Ávila, no século XVI. Todavia, a Igreja não achou por bem acrescentar o nome de São José no Cânon Romano, pelo princípio de que não se deveria tocar no cânon, a oração mais antiga e venerável da santa Igreja, praticamente estabelecida desde o século VI. Mudar algo no Cânon Romano, tirando ou acrescentando, poderia dar a impressão de que a própria fé poderia ser modificada, já que o Cânon é a muralha mais poderosa contra todas as heresias na Missa. Uma pequena modificação no Cânon poderia ser interpretada como a senha para que se mudassem mais coisas, colocando em perigo a nossa fé. A Igreja preferiu, até João XXIII, não tocar nessa oração tão antiga e venerável a acrescentar o nome de São José. O Papa João XXIII o fez. E as consequências não foram boas. Depois de 1500 anos algo foi modificado no Cânon Romano e muitos interpretaram isso como a brecha aberta para que outras modificações fossem feitas. Assim, com a reforma litúrgica de Paulo VI, em 1969, não só mutilaram o Cânon Romano em gestos e palavras, como acrescentaram outras orações eucarísticas, que passaram a ser usadas muito mais frequentemente e que não chegam perto da perfeição do Cânon Romano. Essas mudanças tão sérias e abrangentes na oração eucarística trouxeram, para o povo católico, a noção de que qualquer coisa na liturgia podia ser mudada e de que a própria fé podia ser mudada. Ter o nome de São José no Cânon é, em si, uma coisa boa, é evidente. Ele é o padroeiro da Igreja, Esposo de Maria Virgem, pai adotivo de Nosso Senhor Jesus Cristo. Mas o fato de ter mudado o Cânon para acrescentar o nome de São José, sobretudo em um contexto de sede de novidades, como era o contexto nos anos 60, trouxe prejuízo. Diante disso, resta-nos pedir a São José que, por sua poderosíssima intercessão, possa propagar o rito romano tradicional por todo o orbe terrestre.

São invocados, em seguida, os apóstolos. Não se inova São Matias, que será mencionado após o Cânon, mas se invoca São Paulo. Primeiramente, invocamos São Pedro e São Paulo. As colunas da Igreja Romana. O primeiro papa e o apóstolo dos gentios. Depois, vêm todos os apóstolos, também fundamentos da Igreja Católica. Isso mostra a apostolicidade da Igreja e a sua antiguidade.

Depois, são mencionados mais doze santos: cinco papas, entre os quais estão os três primeiros sucessores de São Pedro – Lino, Cleto, Clemente – para mostrar que a Igreja Católica Romana é a Igreja fundada por Cristo, isto é sobre São Pedro e seus sucessores. Depois vem um Bispo, sucessor dos apóstolos, São Cipriano. São Cipriano é o único que não foi martirizado em Roma, mas era ali venerado porque foi um grande defensor da Sé de Roma, apesar de ter cometido alguns erros em matérias doutrinárias que não estavam ainda bem esclarecidas na sua época. Morreu mártir. Ele é nomeado após São Cornélio porque foi amigo desse Papa. Em seguida, é mencionado um diácono, São Lourenço, e finalmente cinco leigos. Todos são mártires e são romanos com exceção de São Cipriano. O fato de serem todos mártires mostra a antiguidade da oração. O culto aos santos não mártires, chamados de confessores, pois são confessores da fé sem o martírio, começou a se desenvolver mais a partir do século IV. O fato de serem todos mártires mostra que essa oração antecede o século IV. O fato de serem todos romanos, com exceção de São Cipriano, mostra a origem romana da oração.

Afirma-se, finalmente, a comunhão com todos os santos e também a veneração a eles. Pedimos pelos méritos e orações deles que Deus nos proteja em todas as coisas com o seu divino auxílio.

Depois do Communicantes vem o Hanc igitur. Pedimos a Deus, suplicando, que Ele aceite aplacado, agradado, a oblação de nossa servidão e de toda a Sua família. Ao dizer essas palavras, o padre estende as duas mãos, espalmadas, sobre as oblatas. Esse gesto repete o gesto feito pelo Sumo Sacerdote do Antigo Testamento no dia da expiação e gesto feito nos sacrifícios expiatórios. Esse gesto significa que a vítima vai ser oferecida em expiação pelos nossos pecados, para que Deus seja aplacado na sua ira, para que nos conceda, misericordioso, o perdão. Ao fazer esse gesto, o sacerdote indica que Nosso Senhor veio expiar pelos nossos pecados por meio de seu sacrifício na cruz. A oblação de nossa servidão e de toda a família de Deus significa nossa submissão total a Deus, reconhecendo o seu soberano domínio sobre todas as coisas. Reconhecemos a nossa inteira dependência de Deus. Pelas primeiras palavras e pelo gesto das mãos no Hanc igitur, lembramos que a Missa é um sacrifício de adoração a Deus e também que ela é um sacrifício propiciatório, para nos alcançar o perdão de Deus, para nos arrependermos de nossos pecados. Em seguida, pedimos que Deus disponha nossos dias na paz dEle. Esse dEle é importante. Não pedimos a paz meramente humana, pedimos a paz de Deus. A paz de deus nada mais é do que viver uma vida ordenada em estado de graça. A paz de Deus na sociedade é ter uma sociedade que viva tranquila sob a lei divina, sob o jugo leve e suave de Nosso Senhor. Essa paz de Deus nos livra da condenação eterna e nos faz ser contados no número de seus eleitos. É precisamente o que pedimos ao final dessa oração.

A última oração antes da consagração é o Quam oblationem. Nela, pedimos a Deus que se digne fazer dessa oblação uma oblação abençoada, aprovada, ratificada, racional e aceitável. Essa oblação é abençoada porque é o próprio corpo e sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, de onde vem todas as bênçãos. Essa oblação é aprovada ou legítima porque é feita conforme à instituição e à ordem dada pelo Salvador na Última Ceia. Ratificada, confirmada porque é a oblação da nova e eterna aliança, que não mudará, ao contrário da lei mosaica, que cedeu lugar à lei de Cristo. É uma oblação racional porque a vítima é Cristo, homem e Deus, dotado de razão e de vontade. Ao contrário dos sacrifícios da velha lei, em que se ofereciam animais irracionais. Aqui é Nosso Senhor Jesus Cristo, a palavra de Deus encarnada, que é oferecido. Tudo isso faz, evidentemente, que essa oblação se torne agradável a Deus, aceita por Ele. Depois, pedimos que a oblação se torne para nós o corpo e o sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo. Mais uma vez, é claríssimo: o que se oferece na Missa não é, em primeiro lugar, o pão e o vinho, mas o corpo, o sangue, a alma e a divindade de Cristo. E é isso que nos traz todos os benefícios. O pão e o vinho são oferecidos a Deus somente de modo secundário e subordinado ao corpo e sangue de Cristo para significar a nossa união com o sacrifício de Cristo. Essa parte final da oração nos lembra também que essa oblação, que esse sacrifício é um sacrifício eficaz.

No Quam oblationem, são feitos cinco sinais da cruz, para nos lembrar as cinco chagas de Cristo e para nos lembrar que a Missa é a renovação incruenta, isto é, não sangrenta do sacrifício de Cristo. E isso deve ser lembrado sobretudo agora, na iminência da consagração.

Mais uma vez, caros católicos, considerando essas três orações do Cânon Romano que antecedem imediatamente a consagração, podemos ver a riqueza doutrinária e espiritual do rito romano tradicional, esse monumento perfeito da fé católica, essa muralha contra as heresias, essa fonte inesgotável de graças, essa forja de santidade. Infelizmente, o Cânon Romano é tão desprezado atualmente e tão desconhecido, mesmo para nós. Devemos conhecê-lo bem e amá-lo profundamente. É a mais bela e mais eficaz oração composta pela Igreja.

Em nome do pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.