[Sermão] O papel da graça em nossa vida

Sermão para o 18º Domingo depois de Pentecostes

08.10.2017 – Padre Daniel Pinheiro, IBP

 

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Ave Maria…

Sem Vós, não podemos Vos agradar.

Tanto a oração da coleta do dia de hoje quanto a epístola de São Paulo nos falam da graça. Na coleta, pedimos que Deus dirija o nosso coração pela obra de sua misericórdia, pois sem a ação dEle não podemos agradá-lO. Na Epístola, nos é dito que é Cristo que nos confirmará até o fim.

Nós precisamos da graça de Deus, caros católicos, para agradar a Deus e para nos salvar. A graça pode ser dividida, principalmente, em graça santificante e graça atual.

A graça santificante é um dom gratuito de Deus que muda acidentalmente a nossa alma e que nos faz participar da própria vida divina. Quando dizemos que é uma mudança acidental, queremos dizer que continuamos seres humanos quando recebemos a graça, não mudamos a nossa natureza, mas participamos da vida divina e nos tornamos dignos do céu. Não nos divinizamos propriamente. Mas, permanecendo seres humanos, participamos da vida divina.

A graça atual, por sua vez, é a ajuda pontual e transitória de Deus para que façamos o que é bom, para que evitemos o que é mau. Essa ajuda se dirige principalmente a evitar que percamos a graça santificante, se estivermos nela, ou se dirige a nos levar ao arrependimento de nossos pecados para que possamos recobrar a graça santificante, se estivermos em pecado mortal.

O nome graça significa duas coisas importantes: primeiro, é um dom gratuito de Deus. Deus não era obrigado a nos fazer participantes de sua própria vida. Não era obrigado a nos fazer seus amigos desse modo. Mas quis fazer isso pela sua infinita bondade. Não só nos criou, mas nos chamou a algo que está acima de nossa exigência, Ele nos chamou a conhecê-lo como Ele mesmo se conhece, a amá-lO como Ele mesmo se ama. Deus não poderia nos fazer algo maior e melhor por nós. E fez sem ser obrigado a isso. A graça é gratuita.

O nome graça significa também que, por ela, nós nos tornamos gratos, agradáveis a Deus. A graça santificante nos torna agradáveis a Deus. Ora, se a graça é gratuita, dada por Deus e sem ela não somos agradáveis a Ele, está claro que não podemos agradar a Deus sem Ele. Como diz a coleta: quia tibi sine te placere non possumus. Porque sem Vós não podemos Vos agradar.

Para sairmos do pecado (original ou mortal) para o estado de graça santificante, nós podemos nos dispor, implorar a Deus a sua graça, mas não podemos merecê-la propriamente. Como merecer algo que está muito acima de nós? Como merecer a graça de Deus se estamos em estado de inimizade com Ele? Para passar do pecado mortal ou original ao estado de graça santificante, é só por bondade de Deus, que leva em conta, claro, nossas disposições, sem que elas O obriguem a nos dar a sua graça. Sem Deus, nada podemos fazer que O agrade. Claro, Deus dá a graça suficiente para todos, a fim de que se salvem. Ninguém poderá chegar no dia de seu juízo particular, isto é, no instante após a própria morte e dizer: não me salvei porque Deus não me deu a graça. Deus dá a graça suficiente e abundante para que todos se salvem. Se não nos salvarmos é porque não aceitamos a Sua graça, porque não quisemos recebê-la.

Por outro lado, se estamos já em amizade com Deus em união com Ele, isto é, se estamos em estado de graça e fazemos boas obras por Deus, podemos merecer um aumento da graça, podemos merecer graças atuais. Podemos merecer porque, ao fazermos as boas obras em estado de graça, nossas obras passam a ser feitas com Ele, efetivamente.

Então, caros católicos, se por grande infelicidade, estivermos em estado de pecado mortal, devemos implorar a graça de Deus para que saiamos desse estado pelo arrependimento de nossos pecados, por uma boa confissão. Devemos suplicar essa graça de arrependimento e devemos procurar nos dispor para receber essa graça, evitando cometer o mesmo pecado e outros pecados, procurando observar os mandamentos. Se estivermos em estado de graça, devemos suplicar a Deus que nos conserve. Não podemos perseverar na graça sem a ajuda divina, sobretudo não podemos perseverar na graça até a nossa morte sem uma ajuda particular de Deus, como diz São Paulo: é Ele que nos manterá firmes até o fim. Devemos pedir a Deus que nos conserve sempre na graça e devemos pedir, em particular, essa graça da perseverança final.

Devemos nos lembrar que a causa primeira de todo bem é sempre Deus. Muitas vezes, começamos a avançar na vida das virtudes e começamos a atribuir nossas boas obras cada vez mais a nós mesmos e cada vez menos a Deus e à graça dEle. Quando vamos agindo assim, confiando muito em nós mesmos e esquecidos da graça divina, podemos ter certeza de que o abismo, de que o pecado se encontra logo adiante de nós, no nosso próximo passo. As boas obras são fruto de uma misteriosa união entre a graça divina e a nossa cooperação. A parte principal é a graça, claro. Nós cooperamos com a graça. Devemos, então, sempre reconhecer que se vamos avançando no amor a Deus, nas virtudes, nas boas obras, é, em primeiro lugar, pela graça de Deus. Graça de Deus que exige nossa cooperação, como já dissemos e repetimos. Não nos esqueçamos de que a graça de Deus é a fonte de todo bem.

Devemos confiar em Deus e desconfiar de mim mesmo. Desconfiar de mim mesmo não quer dizer que devo pensar: nunca vou me salvar, nunca vou conseguir. Desconfiar de mim mesmo é reconhecer a minha própria fraqueza e a minha própria miséria quando esqueço a graça divina e a negligencio. Desconfiar de mim mesmo é saber que irei pecar se eu não fizer a minha parte para evitar as ocasiões de pecado. Desconfiar de mim mesmo é saber que preciso rezar, que devo me apoiar na graça divina para não cair. Desconfia de mim mesmo é saber que quando penso que posso fazer o bem sozinho, sem a ajuda de Deus, irei cair seriamente em breve. Paradoxalmente, quando confiamos em nós mesmos, esquecidos da graça divina, vamos caminhando ao desespero, pois com nossas próprias forças não conseguiremos fazer o bem por muito tempo. Quando, ao contrário, temos essa desconfiança ordenada de nós mesmos, como acabamos de falar, vamos caminhando para a confiança em Deus, vamos aumentando a nossa esperança. Por isso São Paulo diz: quando estou fraco, estou forte, isto é, quando reconheço as minhas fraquezas, estou forte na graça de Deus, pois recorro a Ele e me apoio nEle e sigo o que Ele diz para vencer as minhas fraquezas.

Devemos também, caros católicos, fazer a nossa parte – ajudados por Deus – para sermos fiéis à graça. A fidelidade à graça é indispensável. Primeiramente, a fidelidade à graça santificante, fazendo tudo para preservá-la. A graça santificante, isto é, a união a Deus, a amizade com Ele, é o tesouro escondido. Tendo encontrado esse tesouro devemos deixar todo o resto para guardá-lo e fazê-lo frutificar sempre. Devemos ser fiéis a tão alto dom que nos foi dado gratuitamente por Deus. Devemos ser fiéis também às graças atuais que Deus nos dá, que são essas ajudas pontuais e transitórias para que evitemos o pecado e para que cresçamos no amor a Ele. É muito importante não negligenciar essas graças atuais que Deus nos dá. Se negligenciamos essas graças, vamos pouco a pouco nos dispondo ao pecado. Se vamos negligenciando essas graças, deixamos de progredir na vida espiritual. Se negligenciamos essas graças, terminamos perdendo muitas outras graças. Muitas graças atuais estão ligadas umas às outras como os elos de uma corrente. Se deixamos passar uma, perdemos várias outras graças que estavam atreladas a ela. Devemos ser fiéis às graças atuais, às graças que nos levam a melhor conhecer, amar e servir a Deus.

Caros católicos, lembremo-nos sempre de que a graça vem de Deus. A nós cabe suplicar a graça divina, nos dispormos a ela e sermos fiéis a ela, desconfiando de nós, confiando em Deus. Dirigi, Senhor, os nossos corações com a obra de vossa misericórdia, pois sem Vós não podemos Vos agradar. O que é a obra da misericórdia de Deus que dirige as nossas almas? A graça divina.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.