[Sermão] Virgem do Carmo: Porta do Céu, Ianua Caeli

Sermão para o 6º Domingo depois de Pentecostes/Nossa Senhora do Carmo

16.07.2017 – Pe. Daniel Pinheiro, IBP

Em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Amém.

Ave Maria…

Caros católicos, querendo a providência que coincida nesse ano o dia 16 de julho, Festa de Nossa Senhora do Carmo, com o domingo, não podemos deixar passar a oportunidade de dizer algumas palavras a propósito de Nossa Senhora e de Nossa Senhora do Carmo.

Nas Ladainhas de Nossa Senhora, nós temos diversas invocações que exprimem a dignidade ou a função de Maria Santíssima, na sua relação com Deus, com os anjos e com os homens. Uma dessas invocações é a invocação de Ianua Coeli, Porta do Céu. Nessa invocação, podemos considerar Nossa Senhora como medianeira entre Deus e os homens. Ao dizer que Nossa Senhora é porta do céu, muita coisa é dita em duas palavras. Nossa Senhora é porta do céu nos dois sentidos: para que Deus venha até os homens e para que os homens possam ir até Deus.

Foi por Nossa Senhora que o próprio Deus, que a segunda pessoa da Santíssima Trindade veio ao mundo. Claro, o Verbo poderia ter se encarnado e vindo ao mundo de outro modo, mas Ele quis fazê-lo por Maria. Ele quis passar por Nossa Senhora. Quis nascer de uma mulher, de uma virgem. E essa mulher virgem é Maria, preparada desde o primeiro instante de sua concepção ao ser preservada do pecado original e ao ser concebida em uma graça imensa (maior que a graça consumada de todos os anjos e santos no céu). Foi preparada até o momento da anunciação do anjo Gabriel, avançando no amor a Deus em passos largos a cada ato seu, ato que sempre fazia com uma caridade mais perfeita.

Nosso Senhor poderia ter vindo ao mundo de outro modo. Todavia, quis nascer de uma mulher. Quis nascer de uma mulher para que a participação de Eva, uma mulher, no pecado original fosse mais claramente e com maior justiça reparada. Para que não restasse dúvida que não só o homem foi redimido por Cristo, mas também a mulher. Assim como uma mulher cooperou com a entrada da morte e do pecado, assim uma mulher cooperou de modo ainda mais enfático na redenção. Que sabedoria a divina. É com o cristianismo que a mulher encontrará a sua verdadeira dignidade. É o cristianismo que coloca a mulher no seu lugar com a sua devida dignidade. É com o cristianismo que as mulheres passam a ser conhecidas pelas suas virtudes, pela sua honra, pelas qualidades de sua alma. No paganismo antigo e no paganismo atual, as mulheres são mais conhecidas pelos seus vícios, infelizmente. Nosso Senhor quis, então, nascer de uma mulher. E quis nascer de uma mulher virgem, cumprindo a profecia feita por Isaías. Virgem para deixar muito clara e fora de qualquer dúvida a sua origem divina, a sua filiação divina. Nosso Senhor, Deus e homem verdadeiro, vem ao mundo por Maria. O fiat de Maria na anunciação do anjo é a porta pela qual Deus vem habitar entre os homens. Maria é a porta pela qual veio Cristo, o autor de todas as graças. Maria é a porta pela qual passam todas as graças. Ela é a medianeira de todas as graças. Porque Deus assim quis e porque assim está muito bem feito. Maria é o aqueduto, como a chama São Bernardo de Claraval. Ela é o canal por onde passam todas as graças. A fonte das graças é Cristo. O aqueduto que conduz as águas da graça é Maria. Maria é também o pescoço. Cristo, a cabeça. Nós, os membros do Corpo Místico. As graças da cabeça, que é Cristo, passam para os membros, que somos nós, pelo pescoço, que é Maria. Maria é a Rainha, Mãe do Rei, que não quer nada a não ser a vontade de seu Filho. Ela é a porta do céu. E Maria é uma larga porta do céu, sendo mui generosa medianeira das graças divinas, mui generosa tesoureira e distribuidora das graças divinas. Ianua Coeli.

Mas Nossa Senhora é porta do céu também no sentido contrário. Ela é porta do céu também no sentido ascendente. Como diz tão bem São Luís Maria Grignon de Montfort, no Tratado da Verdadeira Devoção a Maria, Cristo quis vir à terra por Maria; Ele quer que cheguemos ao céu também por Maria. Maria é a porta que nos conduz a Cristo, que nos conduz ao céu, pois é por ela que recebemos as graças para irmos ao céu, é por ela que podemos dirigir mais eficazmente nossas súplicas a Deus. É como filhos de Maria que seremos realmente discípulos de Cristo. É pela devoção a Maria que formamos mais rápida e facilmente Cristo em nossa alma. A porta da salvação é estreita como diz Nosso Senhor (Mt. 7, 13): “Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçoso o caminho que conduzem à perdição e numerosos são os que por aí entram.” Maria alarga um pouco a porta, não diminuindo as exigências da vida cristã, mas nos ajudando a nos conformar a Cristo. Estreita é a porta da salvação porque a verdade é uma só e os erros múltiplos. Estreita porque é mais árduo praticar a virtude do que os inúmeros vícios. Mas Maria Santíssima nos ajuda a perseverar na fé, como ela perseverou até o fim e nos ajuda a praticar as virtudes.

Maria é a porta que leva à outra porta que é Cristo. Como Ele mesmo o diz (jo. 10, 9): “Eu sou a porta, aquele que entrar por mim, se salvará.” A porta que conduz a essa porta é Maria. Maria é porta que leva a Cristo, é a porta que nos dá todos as graças para entrarmos na porta da salvação que é Cristo. E poderíamos continuar falando de Maria ainda muito. De Maria nunquam satis. Nunca se fala o suficiente de Maria, sendo ela a mais perfeita criatura da Santíssima Trindade, sendo ela a Mãe de Deus e Porta do céu.

O Escapulário de Nossa Senhora do Carmo traduz muito bem essa verdade de Maria como porta do céu. O Escapulário de tecido significa o hábito, a veste de Nossa Senhora. Vestir o hábito de Nossa Senhora significa procurar imitar as suas virtudes. Vemos isso na Sagrada Escritura. O profeta Elias ao ser arrebato aos céus deixa parte de seu manto com o profeta Eliseu e diz-se, então, que o profeta Eliseu adquiriu as virtudes de Elias. São Paulo diz que devemos nos revestir de Cristo, isto é, que devemos ser imitadores dEle e trazer em nós as mesmas disposições que Ele. Portar o Escapulário deve significar isso: o desejo de imitar as virtudes de Nossa Senhora. O escapulário permite também que nós nos lembremos dos novíssimos, dos nossos últimos fins. O Escapulário nos lembra do inferno, do purgatório, do céu, da nossa morte, do nosso juízo. Devemos meditar frequentemente nos novíssimos, se queremos nos salvar. O Escapulário nos lembra disso.

O Escapulário é um dos mais poderosos sacramentais, ele nos alcança muitas graças, é uma excelente devoção a Maria, justamente porque nos leva a imitá-la. É, muito provavelmente, a devoção mais popular a Maria depois do Santo Terço. Com o escapulário, que Maria nos entregou pela mão de São Simão Stock, a Mãe de Deus nos traz abundantes graças do céu e nos leva ao céu.

São bem conhecidas as duas promessas principais para quem recebe o escapulário com uma reta intenção: a salvação eterna e a liberação da alma do purgatório no sábado seguinte à morte. Para a primeira promessa, a condição é morrer usando o escapulário. Para a segunda promessa, as condições são: usar constantemente o escapulário, guardar a castidade segundo o próprio estado de vida e fazer as orações em honra de Nossa Senhora do Carmo impostas pelo sacerdote. Além disso, nos dois casos, é preciso que a imposição do Escapulário tenha sido feita.

Não se trata, claro, de superstição. Alguém poderia pensar que, tendo recebido o escapulário, pode viver mal a vida inteira, pois tem certeza de sua salvação. Ora, nada garante que a pessoa morra com o escapulário. Na sua impiedade, certamente acabará se desfazendo dele. A história guarda o registro de uma pessoa que queria matar-se e não conseguia. Percebeu que era por causa do escapulário. Arrancou o escapulário e cometeu o pecado gravíssimo do suicídio. Nada garante que morreremos usando o escapulário, se vivemos como ímpios. Além disso, como usar algo que tem a finalidade de honrar Nossa Senhora para mais ofendê-la pela obstinação no pecado? Seria absurdo. O escapulário deve ser usado com reta intenção.

Quantos relatos de conversão em razão do escapulário, nas mais diversas circunstâncias. O Papa Pio XII dizia do escapulário: “Não se trata de algo de pouca importância, mas de adquirir a vida eterna em virtude desta promessa da Bem-aventurada Virgem que a tradição relata; trata-se, pois, de um assunto que é o mais importante de todos e de conduzi-lo seguramente ao seu termo. O Escapulário como veste da Virgem é o sinal e o penhor da proteção da Mãe de Deus”. Esse mesmo Papa dizia também: “Quantas almas, em circunstâncias humanamente desesperadas, devem sua suprema conversão e sua salvação eterna ao Escapulário do qual estavam revestidos! Quantas também, nos perigos do corpo e da alma, sentiram, graças a ele, a proteção maternal de Maria!”.

É uma devoção excelente para honrar Maria, nos leva a imitar suas virtudes, nos promete a salvação eterna. Uma devoção tão simples. Carregar um pedaço de tecido pendurado no pescoço e que podemos portar com toda a discrição dentro dos trajes, o que alguns não querem fazer por questão de estética, porque o escapulário não combina com a roupa… O traje de Nossa Senhora deve combinar com toda a nossa vida em todos os seus aspectos.

Com o escapulário, Nossa Senhora alarga a porta do céu, como falamos antes. Que bondade a de Nossa Senhora ao nos dar a sua veste, ao nos dar ajuda tão preciosa, tão eficaz e tão simples ao mesmo tempo! Honra a Maria Santíssima, Mãe de Deus e Porta do Céu.

Em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Amém.