[Sermão] Desejo pela santidade e a Ascensão do Senhor

Sermão para a Solenidade Externa da Ascensão

28.05.2017 – Pe. Daniel Pinheiro, IBP

Em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Amém.

A Ascensão do Senhor é o triunfo completo de Nosso Senhor Jesus Cristo e a demonstração ainda mais cabal da aceitação de seu sacrifício na cruz pela Santíssima Trindade. No Antigo Testamento, a fumaça advinda dos sacrifícios, e que se dirige sempre ao alto, significava essa aceitação do sacrifício da parte de Deus. A fumaça, sempre em direção ao alto, mostrava que o sacrifício era agradável a Deus. A Ascensão do Senhor substitui a simples fumaça. É a própria vítima, Nosso Senhor Jesus Cristo, homem e Deus, que sobe aos céus. Nada mais justo para o Salvador. Nada mais conveniente também, pois seu corpo glorioso, após a ressurreição, já não encontrava mais seu lugar próprio nesse mundo corruptível. E aquele que foi humilhado pelos homens, tendo sido o justo, merecia ser exaltado. E assim se faz com a sua Ascensão.

Todavia, a Ascensão do Senhor é também mui conveniente para nós. É indo ao céu que Nosso Senhor nos envia o Espírito Santo, como nos havia prometido. É do céu que aplica os méritos infinitos que alcançou com sua vida, paixão e morte na cruz. É muito conveniente para nós porque deve nos encher de esperança: se a cabeça sobe aos céus, também nós, os membros de Cristo, devemos subir ao céu, se somos membros vivos de seu corpo místico.

Gostaria de destacar, porém, o fato de que a Ascensão deve elevar a nossa alma ao céu, aos bens celestes, aos bens que não perecem, que não acabam, que não se corrompem. Assim, vemos os apóstolos olhando para o alto quando Nosso Senhor está subindo ao céu, para em seguida, cumprindo o mandamento do Salvador, pregarem o Evangelho a todas as criaturas. Essa festa da Ascensão deve fazer que voltemos os olhares de nossa alma para o céu, para os bens eternos. Essa festa da Ascensão deve nos fazer desejar a santidade, a perfeição nessa vida, para que possamos alcançar o céu.

Sem o desejo ardente e firme pela santidade não alcançaremos jamais a santidade. Salomão alcançou a sabedoria porque a pediu a Deus: “desejei e foi-me dado o dom da sabedoria, invoquei e veio a mim o espírito de sabedoria” (Sab. 7, 7). O anjo Gabriel diz a Daniel (Dan. 9, 23) que suas orações foram ouvidas porque ele era um homem de desejos, quer dizer, realmente desejava aquilo que pedia. Zaqueu, no Evangelho (Luc. 19, 31), deseja ver Jesus, sem poupar esforços. O Senhor se antecipa a Ele, pede hospitalidade a Zaqueu e vai repousar sob seu teto. Voltando a Salomão, para compreender a eficácia desse desejo pela perfeição, ele diz: “A sabedoria se manifesta facilmente aos que a amam, ela se mostra àqueles que a buscam” (Sab. 6, 13-15). E, ainda, “os que a procuram a encontram.” “Ela se antecipa aos que a desejam.” E mais: “aquele que acorda de madrugada para encontrar a sabedoria, encontrá-la-á sentada já à sua porta.”

Se desejamos seriamente e eficazmente a santidade e a perfeição, a alcançaremos. O desejo pela perfeição não pode ser uma simples aspiração vaga, uma veleidade, um desejo sem que procuremos empregar firmemente os meios necessários para alcançar a santidade. Isso não é um desejo verdadeiro. E um desejo que não se esforça seriamente é um desejo que não dará bons frutos. Será o desejo do preguiçoso que quer e não quer ao mesmo tempo (Prov. 13, 4). Ele quer a santidade que ele considera ideal para si, isto é, sem muitas renúncias, sem muitas cruzes, ou com algumas cruzes, mas não tal ou tal cruz. Ele quer a santidade, mas, no fundo, vendo as dificuldades que deverá enfrentar, vendo as renúncias que deverá fazer, ele não quer. São desejos do preguiçoso. E os desejos do preguiçoso o matam, diz a sagrada Escritura (Prov. 21, 25-26) porque suas mãos recusam o trabalho. O dia inteiro ele só deseja e aspira, sem concretizar nada. Assim são esses desejos ineficazes: durante a oração, a pessoa se pensa muito preparada para as humilhações, para as cruzes, para as dificuldades. Todavia, terminada a oração, essa boa disposição desaparece como um mero sonho. As pessoas com esse desejo ineficaz são comparadas aos soldados representados nas pinturas: estão com a espada sobre a cabeça do inimigo, mas jamais dão o golpe.

É preciso, caros católicos, que esses desejos vejam a luz do dia, como a criança que deve nascer depois do trabalho de parto. São João Evangelista, no Apocalipse, diz que viu uma mulher dando à luz e perto dela um enorme dragão esperando seu fruto para devorá-lo. Esse dragão, podemos dizer, é a imagem do demônio, que fica perto de nossa alma para impedir que os bons desejos venham à luz do dia. Desejar e não colocar em prática é uma grande ilusão que nos engana a muitos.

Nosso desejo deve ser firme, com uma determinação muito determinada, segundo santa Teresa d’Ávila. Esse desejo deve ser constante e perseverante. Não devemos abandonar o caminho ou frear diante das primeiras ou segundas dificuldades. Nem diante de nenhuma dificuldade. Para isso, não deve ser um desejo sentimental, mas um desejo muito bem compreendido com a inteligência e muito amado pela vontade. Esse desejo deve ser humilde, reconhecendo nossas fraquezas, para evitá-las, e deve ser um desejo com muita confiança em Deus. Esse desejo deve ser também prático, colocando, aqui e agora, os meios para realizá-lo. Um desejo que se esforça para se traduzir em obras, apoiado na graça de Deus e com muita confiança nEle. O desejo deve ser efetivo, dar frutos. Esse desejo deve ser paciente. Sem querer virar perfeito do dia para a noite, mas sempre avançando no amor a Deus, na prática do bem.

Alguns dizem que se contentam com o último lugar do purgatório. É um desejo arriscado. Devemos desejar a santidade, sem desejarmos sermos mais santos que os outros, mas desejar ardentemente a perfeição. Desejar muito a santidade não é soberba, como alguns poderiam pensar. Inclusive, é mandamento do Senhor ao nos dize que devemos ser perfeitos como nosso Pai celeste é perfeito. Seria soberba se nos apoiássemos somente nas nossas próprias forças. Mas se nos apoiamos em Deus, não há soberba nesse desejo. Para ter esse desejo e para o colocarmos em prática, é preciso rezar, fazer a meditação católica, fazer a leitura espiritual, frequentar os sacramentos na medida do possível, rezar o terço, fazer penitências (ainda que bem simples), lutar. Só a almas esforçadas chegarão à santidade.

São Tomás disse à sua irmã que para ser santo bastaria desejá-lo. Com um desejo tal como descrevemos, sim. É um desejo que conduz a Deus, sem ficar sonhando acordado. Santo Afonso também afirma: “aquele que deseja verdadeiramente a perfeição não deixa de encaminhar-se a ela, e, se não parar, chegará ao fim. Mas aquele que não a deseja, andará sempre para trás e encontrar-se-á cada vez mais imperfeito.” E Santa Teresa:  “Convém/ muito não diminuir os desejos, mas sim ter grande confiança e acreditar em Deus, porque se nos esforçarmos, pouco a pouco, ainda que não seja de repente, podemos chegar ao mesmo que muitos Santos chegaram, com o auxílio da sua graça; porque se eles nunca se determinassem a desejar a perfeição e a pouco e pouco pô-la em prática, não subiriam a tão alto estado. Sua Majestade quer e é amigo das almas briosas, desde que tenham humildade e nenhuma confiança em si.”

Que a Ascensão do Senhor nos faça desejar ardentemente a santidade, a perfeição, como nos diz a oração da coleta dessa Festa. Que estando aqui nessa terra, habitemos já no céu pelos nossos desejos e pela nossa vida.

Em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Amém.