[Sermão] Os bens do matrimônio e os três presentes dos reis magos

Sermão para a Solenidade Externa da Epifania

08.01.2016 – Padre Daniel Pinheiro, IBP

 

Em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Amém.

Ave Maria…

A Festa da Epifania é Festa importantíssima. Na Epifania, pouco depois do nascimento do Salvador, nós vemos esses três reis pagãos, irem até Belém para adorar o Menino Deus. Eles significam a vocação dos pagãos, são as primícias dos pagãos que se converterão a Jesus Cristo. Esses três reis reconheciam o Menino Jesus como rei, como Deus e como homem. Assim, levaram ouro, que é o presente dado aos reis. Ouro que é o metal mais precioso e que não se corrompe. Levaram incenso que é oferecido somente a Deus. Na antiguidade, quando queriam que os cristãos negassem o Deus único e verdadeiro, uno e trino, tentavam fazer que eles oferecessem ao menos um grão de incenso aos deuses pagãos, falsos deuses. Oferecer o incenso é um ato de latria, quer dizer, de adoração, o que se pode fazer somente a Deus. Levaram mirra, que serve para embalsamar o corpo e que tem um gosto amargo. Significa o sofrimento e a morte, quer dizer, significa que Jesus Cristo vai sofrer e morrer, que Ele é homem, portanto. Já temos uma bela confissão de fé feita por esses três reis pagãos e logo no início do Evangelho: Cristo é Rei, Deus e homem. A Epifania era a festa mais expressiva da Realeza de Cristo, antes de ser criada a Festa de Cristo Rei. Na Epifania e nos acontecimentos que a circundam, vemos como todos reconhecem que o Menino que nasceu é Rei. Os magos perguntam a Herodes onde está o rei dos judeus, que nasceu. Herodes não contesta isso. Ao contrário, tanto acredita que vai procurar matar o Menino Jesus depois, com medo de perder o seu reinado terrestre, já que não entendeu que o reinado de Cristo é espiritual em primeiro lugar. E toda a cidade se perturbou junto com Herodes diante de tal pergunta, mas ninguém parece ter negado a realeza de Cristo. Os príncipes dos sacerdotes e os escribas do povo também não questionam. Ao contrário, dizem que ele deve nascer em Belém. Todos afirmam a realeza de Cristo. Os três reis magos vêm para adorar o rei dos judeus. Como dissemos, o ouro significa a realeza de Cristo. Mas os outros dois presentes indicam também a realeza de Cristo, pois mostram a causa dessa realeza: Cristo é rei porque é Deus e Cristo é rei porque adquiriu domínio sobre nós com sua morte na cruz.

Hoje, esse primeiro domingo depois da Epifania (Festa da Epifania que é no dia 6), é dedicado à Sagrada Família. Nós podemos fazer um paralelo entre os dons dos reis magos e os bens do matrimônio. Os reis magos oferecem ouro, incenso, mirra, três bens que receberam de Deus e que oferecem de volta a Deus. No matrimônio, os esposos recebem de Deus três bens: a fidelidade conjugal, a indissolubilidade e os filhos. A fidelidade conjugal é como o ouro, pois permite que a união conjugal persevere intacta ao longo dos anos, das décadas. Como o ouro verdadeiro brilha de modo claro, a fidelidade conjugal faz resplandecer a beleza do matrimônio. A fidelidade é um tesouro preciosíssimo, que deve ser guardado e incrementado com todo o zelo. O ouro serve como base e medida para outras riquezas. Assim, a fidelidade conjugal é muitas vezes a base para a felicidade no lar, pois é ela que gera e favorece a confiança, é ela que permite o desenvolvimento da estima e o aperfeiçoamento do amor conjugal. O ouro para conservar sua beleza e esplendor deve ser puro. A fidelidade conjugal para dar todos os seus frutos deve ser inteira, em tudo, nos pensamentos, nos olhares… Em tudo se deve guardar a mais pura fidelidade no matrimônio. Esse é um bem que os esposos receberam no matrimônio e que devem oferecer a Jesus.

O segundo bem do matrimônio é a indissolubilidade, significada pelo incenso. A indissolubilidade permite que os cônjuges realmente se apoiem um no outro, com a certeza de que não serão abandonados nas dificuldades. E ela permite a devida educação dos filhos, com um pai e uma mãe, cada uma fazendo a parte que lhe cabe na educação da criança e do jovem. A indissolubilidade no matrimônio deve ser reflexo da união indissolúvel entre Cristo e a Igreja. Cristo tem uma só Igreja e isso até o fim do mundo. A marido tem uma só esposa e a esposa um só marido e isso até que a morte os separe. Mas por que razão a indissolubilidade pode ser associada ao incenso? Precisamente porque ela é reflexo da união entre Cristo e a Igreja. A indissolubilidade mais claramente expressa o caráter sobrenatural da união matrimonial e o seu caráter sacramental junto com as graças associadas ao sacramento. O incenso significa a divindade de Cristo. A indissolubilidade lembra que a união estre os esposos é reflexo da união entre Cristo e a Igreja, lembra que se trata de um sacramento, de algo instituído por Deus, e lembra aos esposos o dever de fidelidade à graça e de pedir a Deus as graças necessárias para o matrimônio.

O terceiro bem do matrimônio é a prole, os filhos. A mirra como dissemos, por seu relativo amargor, representa o sofrimento, o sacrifício de Cristo. A obra de gerar e de educar os filhos envolve sofrimento e sacrifícios. Na geração dos filhos, os esposos se associam a Deus criador. Na educação dos filhos, eles se associam a Deus redentor. E a redenção se faz com sacrifício. Todavia, além do amargor, a mirra tem um cheiro agradável e serve para preservar o corpo dos mortos da corrupção. Gerar e educar os filhos exige sacrifícios, mas é também uma grande alegria. Nosso Senhor sofreu e morreu para ressuscitar. Pelos sacrifícios na geração e educação dos filhos, os pais preparam, para os filhos e para si mesmos, a felicidade eterna no céu e a felicidade possível já aqui nesse mundo.

Enumeramos aqui esses três bens do matrimônio sem pretender colocá-los em ordem, mas seguindo a ordem mais comum dos presentes trazidos pelos reis magos: ouro, incenso e mirra. A ordem dos bens do matrimônio é: filhos, fidelidade e indissolubilidade.

Que três bens esplêndidos esses do matrimônio – filhos, fidelidade, indissolubilidade – que Deus deu aos esposos e que os esposos devem oferecer de volta a Deus.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.