[Sermão] Arrancar e destruir, plantar e edificar: São Pio X, modelo de Padre.

Sermão para o 16º Domingo depois de Pentecostes

04.09.2016 – Padre Daniel Pinheiro, IBP

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Ave Maria…

Caros Católicos, a primeira Missa de um padre aqui na Capela Nossa Senhora das Dores é sempre ocasião para falarmos algo sobre o sacerdócio. Falamos, há duas semanas, sobre o sacerdote e Maria Santíssima.

Hoje, aproveitemos a Festa do Papa São Pio X, celebrada ontem (03/09), para falar um pouco do sacerdócio. São Pio X foi vigário de uma paróquia, pároco, cônego, bispo de Mântua, Arcebispo e Patriarca de Veneza e, finalmente, Papa. Papado que ele aceitou na cruz, conforme suas próprias palavras. Passou por todos os degraus da hierarquia eclesiástica. Era um pastor de almas. Um pastor de almas que compreendeu sempre que o pastor não está à frente do rebanho para agradá-lo, para fazer as vontades do rebanho. Compreendeu que o pastor está à frente do rebanho para servi-lo, mostrando-lhe o caminho do céu, o único caminho, que é NSJC crucificado e a Igreja por Ele fundada, a católica.

Em todo o seu ministério sacerdotal, São Pio X teve uma preocupação sempre intensamente presente: a preocupação de ensinar fielmente a doutrina de Nosso Senhor Jesus Cristo, transmitida intacta pela Igreja Católica. Preocupou-se com a instrução religiosa das crianças no catecismo e também com a instrução dos adultos quando vigário e pároco. Preocupou-se de forma profunda com a formação dos padres quando Bispo em Mântua ou em Veneza. Cuidou do Seminário como da pupila de seus olhos porque é do Seminário que saem aqueles que irão instruir todos os outros. Preocupou-se, ao longo de todo o seu sacerdócio, principalmente como Bispo e Papa, em combater os erros mais graves ou menos graves que ameaçavam a fé do povo e, consequentemente, a salvação das almas. Combateu o erro e propagou a verdade. Seu grande combate foi, como não podia ser diferente, como sucessor de Pedro. Combateu aquela que é a pior das heresias: o modernismo. Mais do que uma heresia, o modernismo é, como dizia o próprio Papa, o esgoto coletor de todas as heresias, a síntese de todas as heresias. O modernismo não ataca uma ou algumas verdades de fé. Se aceito, ele destrói todo o edifício da religião católica em seus fundamentos. O modernismo faz a revelação brotar do próprio homem, de seus sentimentos. Assim, a revelação já não é mais aquilo que Deus nos fala exteriormente e que somos obrigados a acreditar. A revelação, no modernismo, é a expressão do sentimento de cada um. A religião serve simplesmente para a pessoa sentir-se bem e não para conhecer, amar e servir a Deus tal como Ele é. O centro da religião torna-se o homem e não Deus. O modernismo é uma forma de fazer do homem Deus, como propôs o demônio no pecado original: sereis como deuses. Então, caros católicos, o grande combate de São Pio X foi contra o modernismo e para defender a fé. Assim lutou heroicamente durante o seu pontificado. Conseguiu frear esse gravíssimo erro, mas o erro submergiu para voltar à superfície em seguida e praticamente triunfar. Hoje, podemos constatar, que, em matéria de religião, as pessoas já não se preocupam com o ensinamento de Nosso Senhor Jesus Cristo, com o ensinamento da Santa Igreja. Preocupam-se em se sentir bem. É o triunfo do modernismo. Mas São Pio X, embora não tenha conseguido vencer definitivamente o erro, deixou-nos os remédios contra esses males. Deixou-nos também o exemplo de seu combate constante.

Um dos principais remédios que São Pio X apontava contra os erros era o sacerdote bem formado. Bem formado na doutrina e na piedade. Ao longo de todo o seu ministério, o sacerdote tem que guardar a doutrina e crescer na piedade. São Pio X dizia: “a piedade e a doutrina são necessárias ao sacerdote. Sem a piedade, a doutrina torna o padre arrogante. Sem a doutrina a piedade torna o padre inútil.” Assim dizia São Pio X. Podemos ir um pouco além: sem a piedade, a doutrina tende a se tornar uma ciência que infla, que enche de orgulho. Cheio de orgulho, é fácil considerar a doutrina como própria e não mais como de Jesus Cristo. A doutrina sem a piedade facilmente degenera em uma doutrina pessoal, com erros e heresias. A piedade sem doutrina, por outro lado, torna o padre inútil porque o ensinamento faz parte de seus deveres mais importantes. E a piedade sem doutrina vai facilmente degenerar em uma piedade sentimentalista e subjetivista, pois não está fundada no dogma, mas em impressões pessoais. A piedade sem doutrina levará também a erros.

O sacerdote deve unir a piedade e a doutrina. A piedade ele mantém e desenvolve pelo santo sacrifício da Missa celebrado com devoção, com a recitação atenta e reverente do Breviário, com a generosidade no exercício de seus deveres sacerdotais: batizar, confessar, visitar os enfermos. São indispensáveis também a meditação, a devoção a Nossa Senhora, principalmente pelo Santo Terço. E o conhecimento das Sagradas Escrituras, necessário tanto para a piedade quanto para a doutrina.

Para a guardar a doutrina, deve manter os seus estudos, baseados no magistério constante da Igreja, baseados na filosofia e na teologia de São Tomás de Aquino, muralha que protege a verdade revelada. Filosofia e Teologia tomistas tão recomendadas pelos Papas (Clemente VI, Nicolau V, Bento XIII, São Pio V, Clemente XII, Urbano V, Inocêncio XII, Bento XIV, Inocêncio VI, Leão XIII). Inocêncio VI dizia que sempre será suspeito de erro aquele que impugnar a doutrina de São Tomás. Tão grande é a sua autoridade que se pode dizer que esteve presente, pela sua doutrina, nos Concílios de Lyon, Viena, Florença e Vaticano I. Não só presente, mas como que presidindo, como diz Leão XIII (Enc. Aeterni Patris). Tão excelente é a Filosofia e Teologia de São Tomás que, no Concílio de Trento, a Suma teológica foi colocada sobre o altar ao lado das Sagradas Escrituras (Enc. Aeterni Patris e Studiorum ducem). O Padre, para guardar a doutrina, de manter estudos baseados em autores comprovadamente católicos. Não pode basear os seus estudos na última moda à direita, à esquerda ou ao centro, em falsos filósofos. O padre deve ter um amor profundo à doutrina católica, que nada mais é do que a doutrina de Nosso Senhor Jesus Cristo. Em nada pode ceder, adulterar ou negociar quando se trata da verdade.

A Missa dos Sumos Pontífices, citando passagem em que Deus fala ao profeta Jeremias, diz assim: “eis que pus as palavras em tua boca, e te estabeleci sobre os povos e sobre os reinos, para que arranques e destruas, edifiques e plantes. ” Claro, essas palavras se aplicam mais perfeitamente ao Papa, mas se aplicam também ao Padre. O Padre que fala a doutrina católica, isto é, a doutrina de Cristo, fala com as palavras de Deus. Daí é que vem a eficácia de seu ministério: fala não as suas palavras, mas a palavra de Deus. E com a palavra de Deus, contida na Sagrada Escritura e na Tradição, e afirmada infalivelmente pela Igreja, o sacerdote deve arrancar e destruir, edificar e plantar. Sim, o padre tem a obrigação de arrancar e destruir. Arrancar e destruir o erro, tão acessível a todos atualmente, muitas vezes sob capa de alta cultura. Deve arrancar e destruir o erro evidente, mas também o erro muitas vezes sutil. Arrancar e destruir aquilo que ameaça a salvação das almas. Assim fez São Pio X contra os erros de seu tempo. Assim fizeram todos os santos sacerdotes. O Padre deve também edificar e plantar. Plantar a semente da doutrina católica, edificar a vida espiritual nas almas, com a fé, a esperança, a caridade e todas as outras virtudes. Não basta destruir e arrancar, é preciso também edificar e plantar. Todavia, é impossível edificar e planar sem que antes sejam arrancadas as ervas daninhas sem que antes sejam destruídas as antigas edificações corrompidas. Arrancar, destruir, plantar e edificar.

Combater como São Pio X combateu: pela verdade e pelo bem das almas. Eis o exemplo de São Pio X. Como vigário ou como Papa, pouco importa. Piedade e doutrina, sempre unidas.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.