[Sermão] Sentido Espiritual das Cerimônias da Missa – Parte 9: O Cânon Romano

Sermão para 5º Domingo depois de Pentecostes

19.06.2016 – Pe Daniel Pinheiro, IBP

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Ave Maria…

É a obrigação de todo católico conhecer bem as respostas da Missa, as partes da Missa, as orações da Missa. É preciso ler e reler o ordinário da Missa. Interessar-se, conhecer as orações, os gestos. Serve para isso igualmente, por exemplo, o livro Tesouro da Tradição e o livro Missa Tridentina, de Dom Guéranger. E também a releitura dos sermões que fizemos sobre o tema: Sermões sobre a Liturgia

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Caros católicos, continuamos hoje o nosso itinerário pelo sentido espiritual das cerimônias da Missa. Considerado o Prefácio, passamos ao Cânon Romano. O Cânon Romano é a única oração Eucarística existente no Rito Romano Tradicional. O Cânon vai do Te Igitur ao Amen que precede o Pai-Nosso. Nós entramos, assim, na parte mais importante da Santa Missa, nas orações mais importantes da religião católica, no que temos de mais sagrado na nossa santa religião. Aqui, seria preciso parar um pouco porque o assunto torna-se demasiado sagrado para as nossas palavras e devemos pedir a Deus que nos permita compreender, ainda que imperfeitamente, o mistério que está nessas sublimes orações que compõem o Cânon Romano.

Antes de tratarmos de cada uma das orações do Cânon Romano, com suas cerimônias, é preciso tratar do Cânon em geral. É o que faremos hoje. Cânon é uma palavra grega que designava, primitivamente, um bastão reto que servia de régua para medir e para traçar linhas retas. No sentido figurado, cânon passou a significar regra. Assim, a palavra cânon é usada no catolicismo para designar o Cânon das Sagradas Escrituras, quer dizer, aqueles livros que a Igreja reconhece como inspirados por Deus e que formam uma regra de fé e de moral para os homens. A palavra cânon é usada também para designar as leis eclesiásticas, isto é, as regras que nos são dadas pela Igreja. Os artigos do código de direito canônico chamam-se cânones. A oração eucarística no Rito Romano Tradicional chama-se Cânon porque é a única oração eucarística. O Cânon é a regra invariável e fixa para cumprir o ato essencial do sacrifício da Missa. O Cânon é a regra invariável e fixa porque invariável e imutável é também a fé católica. Assim como o Sacrifício de Cristo na Cruz e nos altares é e permanece sempre o mesmo, de modo semelhante o Cânon, no qual se renovará esse sacrifício, é e permanece o mesmo na sua sublime simplicidade e na sua venerável majestade.

O Cânon é dito Romano porque formou-se em Roma, a Sé de São Pedro e de seus sucessores, os Papas.

Vejamos, caros católicos, o que diz o Concílio de Trento a propósito do Cânon Romano. O Concílio Tridentino diz o que segue: “Sendo conveniente que as coisas santas se administrem santamente, e sendo este sacrifício entre todas as coisas a mais santa, instituiu a Igreja Católica já há muitos séculos o Cânon sagrado, tão purificado de todo o erro, que nele não há nada que não exale a suma santidade e piedade, não há nada que não eleve a Deus as almas dos que o oferecem. Pois ele se compõe das palavras do próprio Senhor, das tradições dos Apóstolos e das piedosas instituições dos Sumos Pontífices. ”

Primeiramente, devemos destacar a antiguidade do Cânon Romano afirmada pelo Concílio de Trento. Ele se compõe das palavras do próprio Senhor, das tradições dos Apóstolos e das piedosas instituições dos Sumos Pontífices. Não há dúvida, atualmente, de que ele é a oração eucarística mais antiga em uso em qualquer rito da Missa, seja latino ou oriental. Muitas vezes, por ignorância, se pensa que as liturgias orientais são mais antigas que a liturgia romana. Não são. O Cânon Romano é comprovadamente a oração eucarística mais antiga em uso. Como dito pelo Concílio de Trento, o Cânon Romano encontra sua origem nas próprias palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo, nas tradições dos Apóstolos e nas instituições dos Sumos Pontífices. O Cânon Romano foi se desenvolvendo desde o tempo dos apóstolos, para expressar cada vez melhor a fé católica. Com o Papa São Gregório Magno, bem no início do século VII, nós temos já exatamente o texto do Cânon como recitamos hoje. E São Gregório Magno, evidentemente, não inventou todo o texto do Cânon. Ele o recebeu daqueles que o precederam, acrescentado detalhes para melhor expressar a fé católica. Em sua substância, o Cânon Romano data muito provavelmente do século III, desenvolvendo harmonicamente e ordenadamente aquilo que fora recebido dos apóstolos. O fato é que já faz mais de 1.500 anos que usamos as mesmas palavras para renovar o sacrifício de Cristo no Rito Romano. Já no tempo dos mártires e das catacumbas essas orações do Cânon Romano subiam a Deus com suave odor. Que coisa tremenda repetir as mesmas palavras que tantos sacerdotes disseram ao longo de mais de mil anos para glorificar a Deus e santificar as almas! Que coisa sublime poder usar essas mesmas palavras que santificaram tantos e tantos cristãos ao longo de séculos e séculos, desde os tempos em que o Império Romano ainda perseguia os cristãos! O Cânon Romano é, então, venerável pela sua origem e pela sua antiguidade.

Além da comprovada antiguidade, o Concílio de Trento afirma também a perfeição doutrinal e espiritual do Cânon Romano. Diz o Concílio que a “Igreja Católica instituiu já há muitos séculos o Cânon sagrado, tão purificado de todo o erro, que nele não há nada que não exale a suma santidade e piedade, que nele não há nada que não eleve a Deus as almas dos que o oferecem.” O Cânon Romano é a perfeita expressão da doutrina católica. Tanto é assim que o Credo demorou a ser introduzido na Missa no Rito Romano, pois o Cânon já era a profissão de fé. E o Cânon Romano é a perfeita expressão, em particular, da doutrina católica sobre a Missa. A doutrina católica sobre a Missa afirma que a Missa é a renovação do sacrifício de Cristo, afirma outrossim a presença real e substancial de Cristo nas espécies consagradas e afirma a diferença entre o sacerdote e os fiéis.

O Cânon Romano afirma de modo muito claro que a Missa é a renovação do sacrifício de Cristo, feito agora de modo incruento, isto é, sem sofrimento, sem derramamento de sangue, sem uma nova morte. As orações do Cânon Romano são orações de oblação sacrificial à Santíssima Trindade feita por Jesus Cristo, homem e Deus. Essas orações do Cânon Romano exalam o sacrifício puro, perfeito e de valor infinito da nova e eterna aliança. Essas orações nos deixam claro que, no altar, ocorre o mesmo sacrifício de Cristo ocorrido na Cruz, mudando apenas o modo, como dissemos. Nós veremos melhor isso ao tratar de cada uma das orações do Cânon em particular. O Cânon Romano deixa claro que a Missa é a renovação do sacrifício de Cristo. Ele deixa claro também que, após as palavras da Consagração, estão presentes no altar o Corpo, o Sangue, a Alma e a Divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo sob as aparências do pão e do vinho. As palavras do Cânon Romano não são ambíguas. Ao contrário, são límpidas. Nosso Senhor está realmente e substancialmente presente nas espécies consagradas. O Cânon Romano afirma, ainda, outra verdade fundamental da doutrina católica sobre a Missa: a diferença entre o sacerdote e os fiéis. O Padre, ordenado pelo Bispo, age, na Missa in personna Christi, na pessoa de Cristo. Ele participa do sacerdócio de Cristo, realizando e administrando as coisas sagradas. Os fiéis participam do sacerdócio de Cristo pelo batismo, mas é uma participação de natureza bem distinta da do Padre. Essa participação dos fiéis no sacerdócio de Cristo pelo batismo é sobretudo para poderem receber as coisas sagradas, uma participação passiva. O sacerdócio do Padre, que chamamos simplesmente de sacerdócio, é para realizar e administrar as coisas sagradas, em particular a Santa Missa.

O Cânon Romano é, assim, uma fortaleza inviolável, inexpugnável contra todo erro e toda heresia. A doutrina católica está expressa nele – repitamos – de modo perfeito, límpido. Por isso, os hereges, buscando introduzir seus erros entre os fiéis, sempre procuraram alterar o Cânon da Missa ou substituí-lo. Foi o que fizeram os primeiros protestantes: mudaram a liturgia da Missa e mudaram, principalmente, o ofertório tradicional e o Cânon Romano. Lutero, por exemplo, que negava a Missa como sacrifício, que negava a presença real de Cristo nas espécies consagradas e que negava a diferença entre o sacerdote e os fiéis, eliminou da Missa o que fazia referência a essas coisas. Ele eliminou o ofertório e o Cânon Romano. Cranmer, um dos grandes responsáveis pela revolução protestante na Inglaterra, substitui o Cânon Romano por uma outra oração. A Missa – principalmente o ofertório na sua forma tradicional e o Cânon Romano – era considerada uma blasfêmia pelos protestantes porque ela vai diretamente contra os erros deles. Era preciso, então, que eles a mudassem. Fizeram isso, principalmente, mudando ou abolindo Cânon e abolindo o ofertório. O Concílio de Trento, convocado para expor e reafirmar a doutrina católica imutável e refutar os erros dos protestantes, afirmou que o Cânon Romano é puro de todo erro, que ele exala a mais alta santidade e piedade.

Os católicos e também os inimigos da Igreja sempre souberam que a substituição ou a mutilação do Cânon Romano levaria ao enfraquecimento da fé católica. Infelizmente, é o que vemos nessas últimas décadas, em virtude da reforma litúrgica, com a substituição do Cânon Romano por outras orações eucarísticas ou com o uso de um Cânon Romano consideravelmente modificado e mutilado na chamada primeira oração eucarística. A mutilação ou a substituição do Cânon Romano, essa fortaleza contra as heresias, não pode ficar sem consequência na vida da Igreja e para a fé dos fiéis. Infelizmente, vemos essas consequências com o desmoronamento da fé católica, em particular nesses três pontos mais importantes da doutrina católica sobre a Missa: Missa como sacrifício, presença real de Nosso Senhor Jesus Cristo e diferença entre sacerdote e fiéis. Sempre se considerou que a Igreja não poderia mudar o Cânon Romano sem, ao mesmo tempo, prejudicar a Missa e prejudicar o bem das almas. O Cânon Romano, que rezamos quotidianamente na liturgia tradicional é, então, venerável pela sua origem, pela sua antiguidade e pela sua perfeição doutrinal.

O Cânon Romano é dito em voz baixa pelo sacerdote, de modo que ele mesmo possa ouvir o que está dizendo, mas de modo que os outros não ouçam. Esse silêncio no Cânon Romano é excelente. Assim, o Concílio de Trento afirma: “Se alguém disser que o rito da Igreja Romana que prescreve que parte do Cânon e as palavras da consagração se profiram em voz submissa se deve condenar, seja excomungado.” Esse silêncio no Cânon Romano deixa claro que ele é uma oração sacerdotal. Somente o Sumo Sacerdote entrava no Santo dos Santos do Templo de Jerusalém no Antigo Testamento. Somente o sacerdote recita o Cânon Romano – o Santo dos Santo da religião católica – somente o Sacerdote realiza o sacrifício sobre o altar, agindo na pessoa de Cristo. O silêncio no Cânon deixa muito claro que ele é uma oração sacerdotal e distingue o sacerdote dos fiéis. Ao entrar no Cânon, isto é, no que tem de mais sagrado, o sacerdote se comunica apenas com Deus, deixando de lado os homens. Comunica-se somente com Deus para adorá-lo, para aplacá-lo. Comunica-se somente com Deus também para o bem dos próprios homens, para que Deus atenda às suas súplicas. Assim como Jesus rezou longamente em silêncio na sua paixão, o sacerdote reza em silêncio no Cânon. Esse silêncio nos lembra também o silêncio da noite de Natal em Belém, quando o Verbo Encarnado nasceu. Esse silêncio do Cânon nos lembra, assim, que o Verbo Encarnado se fará realmente e substancialmente presente no altar, como se fez presente no silêncio da noite de Belém. O silêncio cumpre as palavras de Habacuc (2, 20) que diz: “o Senhor reside em sua santa morada: silêncio diante dEle, ó terra inteira.” O silêncio permite, ainda, que os fiéis se associem mais profundamente ao sacrifício de Nosso Senhor Jesus Cristo. O silêncio serve também para nos lembrar que os sentidos não podem perceber a presença real de Nosso Senhor. Os sentidos percebem apenas pão e vinho. É a fé que nos afirma com toda certeza que ali está Cristo em Corpo, Sangue, Alma e Divindade. O silêncio nos lembra, assim, da impotência dos sentidos diante desse mistério de nossa fé. O silêncio favorece, ademais, a humildade, a reverência, a admiração, o sentido de mistério, bem como a negação de nós mesmos. Tudo isso dispõe a alma para a adoração e para a contemplação. O silêncio e o latim protegem palavras tão santas contra a profanação. (Sobre os inúmeros benefícios do silêncio na Missa em geral, já tratamos em outra oportunidade: [Sermão] A orientação do sacerdote e o silêncio na Missa )

As orações do Cânon Romano são orações sacrificiais, como já falamos. São orações que pedem a bênção das espécies que serão consagradas. São orações que oferecem a Deus o Corpo e o Sangue de Cristo. São orações que suplicam a aplicação dos frutos da Missa a nós, pobres pecadores. As orações do Cânon Romano se inspiram na oração sacerdotal de Nosso Senhor Jesus Cristo na Última Ceia, quando celebrou a primeira Missa e quando se preparava para sua paixão e morte. Rezou, nessa ocasião, pelos discípulos, para que se santificassem, para que fossem confirmados na fé. Ofereceu-se ao Pai, para a glória dEle e para que seu sacrifício fosse aceito. Tudo isso pedimos também no Cânon Romano.

Toda a beleza do Cânon Romano se exprime também na sobriedade solene de suas orações, no ritmo dessas orações latinas, com seu estilo próprio, com suas antíteses. O Cânon Romano é uma poesia em prosa. Ele é uma obra-prima em todos os aspectos.

O Cânon Romano é, pela sua origem, pela sua antiguidade, pelo seu uso e pela sua perfeição doutrinal, venerável, inviolável, sagrado. Quando começamos o Cânon Romano, devemos ter toda a devoção e reverência. Toda a nossa alma deve ocupar-se com essas belas orações, com o sacrifício de Nosso Salvador que irá se renovar em instantes sobre o altar. Se alguma oração da Igreja, caros católicos, foi composta sob a inspiração do Espírito Santo, essa oração é seguramente o Cânon Romano.

Em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Amém.