[Sermão] Sentido Espiritual das Cerimônias da Missa – Parte 8: Prefácio

Sermão para o 4º Domingo depois de Pentecostes

12.06.2016 – Padre Daniel Pinheiro, IBP

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Ave Maria…

Desde o ano de 2014 que começamos uma série de sermões sobre o sentido espiritual das cerimônias da Missa no Rito Romano Tradicional. Chegamos até o ofertório. Exorto todos a relerem esses sermões que têm um valor razoável para a melhor compreensão da Missa que quotidianamente celebramos aqui na Capela Nossa Senhora das Dores. Os sermões anteriores estão no site da Missa Tridentina em Brasília. É a obrigação de todo católico conhecer bem as respostas da Missa, as partes da Missa, as orações da Missa.

Sermões sobre Liturgia

[Sermão] Sentido Espiritual das Cerimônias da Missa – Parte 1: Os Paramentos

[Sermão] Sentido espiritual das Cerimônias da Missa – Parte 2: Da Aspersão à subida ao Altar

 [Sermão] Sentido espiritual das Cerimônias da Missa – Parte 3: Da Incensação ao Kyrie

[Sermão] Sentido espiritual das Cerimônias da Missa – Parte 4: Do Gloria à Epístola

[Sermão] Sentido Espiritual das Cerimônias da Missa – Parte 5: Do Gradual ao Sermão

[Sermão] Sentido Espiritual das Cerimônias da Missa – Parte 6: Ofertório (até o Deus qui humanae substantiae)

[Sermão] Sentido Espiritual das Cerimônias da Missa – Parte 7: Ofertório (até a Secreta)

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Retomamos hoje a consideração do Rito Romano Tradicional, caros católicos, que é a coisa mais bela que existe do lado de cá do céu. Retomamos a consideração desse Rito que é o mais venerável e antigo em toda a cristandade. Retomamos onde o tínhamos deixado, após a Secreta, no Prefácio.

O Prefácio se encontra em todas as liturgias católicas de que se tem notícia. O Prefácio é, então, tão antigo quanto a Igreja, pois, segundo o princípio de Santo Agostinho, o que é tão antigo e se encontra em uso em todas as Igrejas (católicas) deve vir de uma fonte comum, que é a tradição apostólica.

As palavras do Prefácio começam com a conclusão dessa oração chamada Secreta, e da qual já tratamos. O sacerdote diz, então, em voz alta o per omnia saecula saeculorum, a que os fiéis respondem Amen, aderindo à oração da Secreta. Com as palavras seguintes – Dominus vobiscum – ditas pelo padre, tem início o Prefácio propriamente dito. O Prefácio é essa parte que precede e prepara imediatamente para a oração eucarística, que é sempre a mesma no Rito Romano tradicional e que é chamada de Cânon Romano. O Prefácio introduz e preparara imediatamente para a parte mais importante da Santa Missa: o Cânon Romano. O Padre começa com a saudação Dominus vobiscum – desejando que os fiéis estejam na graça de Deus, unidos a Deus para que possam se associar adequadamente ao sacrifício que em breve se realizará sobre o altar. O Padre já não se volta para os fiéis para dizer-lhes o Dominus vobiscum, pois despediu-se deles pelo Orate Fratres. Também não estende as mãos, mas deixa-as sobre o altar. O Padre não se volta para os féis nesse momento porque, após o ofertório e até a comunhão, ele está inteiramente voltado para o altar, como se já tivesse entrado no Santo dos Santos, como o Sumo Sacerdote que entrava sozinho no Santo dos Santos no templo de Jerusalém no Antigo Testamento. No início do Prefácio, antigamente, uma cortina era estendida, de forma que os fiéis não podiam ver o que ocorria no altar, para demonstrar, assim, o mistério da ação sagrada que ocorre sobre o altar. Não faria, então, sentido o padre voltar-se para os fiéis tendo essa cortina estendida entre eles. Essa cortina já não existe mais fisicamente. Existe, porém, uma cortina simbólica. O silêncio durante o Cânon Romano é a cortina de mistério em torno da renovação do sacrifício de Cristo que ocorre no altar das Igrejas católicas. O povo responde o Dominus Vobiscum dizendo Et cum spiritu tuo, isto é, desejando que Deus também esteja com o padre, desejando que o sacerdote esteja na graça de Deus.

Em seguida, o sacerdote dá uma ordem clara: Sursum corda. Corações ao alto. Ao dar esse preceito, o sacerdote lembra as palavras de São Paulo: quae sursum sunt quaerite, (buscai as coisas do alto) quae sursum sunt sapite (provai das coisas do alto). O sacerdote lembra também o que diz Jeremias (Lamentações 3, 41): Elevemos ao céu nosso coração e nossas mãos em direção ao Senhor. E, ao dizer essas palavras, Sursum corda, o sacerdote efetivamente levanta também as mãos, na posição de quem faz uma oração. O gesto corresponde, assim, às palavras, mostrando que devemos estar prontos para louvar a Deus não somente com a boca, mas também pelos atos. Os fiéis respondem: Habemus ad Dominum, nós temos o nosso coração em Deus, querendo dizer que têm a resolução firme de buscar as coisas do alto, os tesouros celestes, e dizendo que estão com a disposição devida para entrar no Cânon. Santo Agostinho, em alguns de seus sermões, fala sobre essas palavras dizendo que devemos ter o coração elevado a Deus e não elevado por orgulho e dizendo que devemos ter o coração elevado para as coisas do alto e não rebaixado para as coisas da terra (Sermões 261 e 227, por exemplo). E São Cirilo de Jerusalém (Catequese 23) fala aos fiéis: que ninguém esteja aqui presente de maneira a dizer com a boca que tem o coração elevado ao Senhor, enquanto seu espírito está preocupado com as solicitudes da vida.

O sacerdote, em seguida, diz Gratias agamus Domino Deo nostro – demos graças ao Senhor nosso Deus – juntando as mãos e se inclinado. Com essas palavras e esse gesto, o Sacerdote indica uma das quatro finalidades da Santa Missa: a ação de graças a Deus. Tal é aqui a importância da ação de graças que ela dará o nome ao sacramento do Corpo e do Sangue de Cristo. Eucaristia quer dizer ação de graças. Tal é a importância da ação de graças que a Missa é designada também pelo termo Eucaristia, quer dizer, de ação de graças. O padre, conclamando os fiéis a darem graças a Deus antes do Cânon, repete aquilo que fez Nosso Senhor Jesus Cristo na Última Ceia: antes de mudar o pão em Seu Corpo e o vinho em Seu Sangue, Nosso Salvador deu graças, nos diz a Sagrada Escritura. Essa ação de graças, se vista com maior profundidade, não se resume a agradecer pelos benefícios recebidos, mas engloba também as outras finalidades da Missa: adorar a Deus, pedir as graças e pedir perdão pelos nossos pecados. Essa ação de graças, em sentido mais amplo, significa o culto inteiro que deve ser tributado a Deus. Às palavras do Padre (gratias agamus Domino Deo nostro) os fiéis respondem: Dignum et iustum est. O povo confirma que é digno e justo dar graças a Deus, cultuá-lo como Ele quer ser cultuado. Dignum et iustum eram as palavras usadas na antiguidade para aclamar e aprovar algo nas assembleias civis. É digno de Deus, efetivamente, receber os nossos louvores, os nossos agradecimentos, a nossa adoração. Ele é a perfeição. Ele é a bondade infinita, a sabedoria infinita. É justo que prestemos culto a Deus, reconhecendo quem Ele é e dando a Deus o que Lhe é devido.

Esse diálogo que acabamos de considerar precede todos os Prefácios no Rito Romano Tradicional. Em seguida, todos os Prefácios têm uma parte inicial semelhante, uma parte intermediária que trata do mistério pertinente e, por fim, a conclusão, que é também semelhante para todos os Prefácios. A primeira parte presente em quase todos os Prefácios são as palavras: É verdadeiramente digno e justo, bom e salutar que nós Vos demos, sempre e em todo lugar, graças, Senhor, Pai Santo, Deus onipotente e eterno, por Cristo Nosso Senhor. O sacerdote retoma, então, as palavras que os fiéis acabaram de dizer: é digno e justo. Acrescenta, porém, que é bom e salutar, afirmando que tributar o culto devido a Deus é algo bom e que nos alcança a salvação, quando feito com o coração voltado realmente para o alto. Nessas palavras, o sacerdote deixa claro também que a ação de graças tributada a Deus, à Santíssima Trindade, se faz por meio de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ainda nessas palavras, o sacerdote afirma algumas das perfeições divinas pelas quais devemos dar graças a Deus: Ele é o Senhor, aquele que tem o soberano domínio sobre todas as coisas. Ele é nosso Pai, pois nos criou, nos conserva e fez de nós filhos Seus por adoção em virtude do batismo. O sacerdote nos fala da santidade de Deus para nos indicar a santidade que devemos buscar: sede santos como vosso Pai celeste é santo, nos diz Nosso Senhor. E, finalmente, menciona a onipotência e a eternidade de Deus, atributos divinos que devem nos levar a nos submeter humildemente a Deus.

Após essas palavras, trata-se do mistério pertinente. Existem atualmente 15 Prefácios: Natal, Epifania, Quaresma, Santa Cruz, Páscoa, Ascensão, Pentecostes, Santíssima Trindade, Sagrado Coração, Cristo Rei, Nossa Senhora, São José, Apóstolos, Comum e Defuntos (ou 16, se considerado o da Missa Crismal). O mais frequente é o Prefácio Comum, usado quando não existe um Prefácio próprio para a ocasião. Após a consideração do mistério pertinente no corpo do Prefácio, temos a conclusão, que precede o Sanctus. Essa conclusão consiste na associação de nossa voz com a voz dos anjos. Essa conclusão consiste na associação do culto da Igreja militante – nós ainda aqui nessa terra, militando, combatendo pela nossa salvação – com a Igreja triunfante, representada pelos anjos. Nessa conclusão, que precede o Sanctus, são citados, em maior ou menor quantidade, alguns dos nove coros angélicos: serafins, querubins, tronos, dominações, virtudes, potestades, principados, arcanjos e anjos. É a união do culto que fazemos aqui nessa terra com o culto eterno deito pelos anjos no céu.

O Sanctus prolonga essa união entre os homens e os anjos presente na conclusão do texto do Prefácio. A primeira parte do Sanctus – Santo, Santo, Santo, Senhor Deus dos exércitos, os céus e a terra estão repletos de vossa glória – retoma as palavras dos serafins em Isaías. É um canto a Deus uno e trino, e criador. Santo é dito três vezes para afirmar a trindade de Pessoas. Senhor Deus está no singular para marcar a unidade de natureza. Um só Deus em três pessoas. Os céus e a terra estão repletos da glória de Deus. Os céus e a terra, com tudo o que contêm, são um reflexo das perfeições de Deus. O efeito – as criaturas – nos fala da perfeição da causa – Deus. Nós podemos entrever, nas pálidas perfeições das criaturas, a perfeição infinita de Deus. Assim, verdadeiramente, os céus e a terra estão repletos e narram a glória de Deus. Vale destacar que a palavra sabaoth usada na liturgia da Missa (Sanctus, Sanctus, Sanctus Dominus Deus sabaoth) é hebraica e assim foi conservada na liturgia tradicional. Na liturgia tradicional, temos as três línguas sagradas que estavam no título da cruz de Cristo anunciando o motivo de sua condenação: o latim, o grego (no Kyrie Eleison) e o hebraico (no sabaoth, no hosanna, no aleluia). E dizemos bem Senhor Deus dos exércitos e não Senhor Deus do universo, como na infeliz tradução em português, talvez pacifista. Deus é o Deus dos exércitos celestes, das milícias celestes. Nós somos a Igreja militante, nós somos aqueles que combatem sob o estandarte da Cruz. É preciso que nos lembremos disso. Muito se fala de Igreja peregrina, Igreja caminhante, Igreja na terra, mas se esquece de falar de Igreja militante. Assim, esquecemos de combater e perdemos o combate espiritual. Somos a Igreja militante e Deus é o Senhor Deus dos exércitos.

A primeira parte do Sanctus é tirada do louvor dos anjos. A segunda parte é tirada do louvor dos homens: benedictus qui venit in nomine Domini. São as palavras dos homens no domingo de Ramos, na entrada de Nosso Senhor Jesus Cristo em Jerusalém, poucos dias antes de sua morte, poucos dias antes de seu sacrifício na Cruz. Pouco antes, então, de renovar esse sacrifício sobre o altar, lembramos essas palavras dos homens no domingo de Ramos, querendo, porém, nos manter fiéis a Cristo, ao contrário do que fizeram eles naquela ocasião.

Na primeira parte do Sanctus, o padre está inclinado e com as mãos juntas, imitando o gesto de adoração dos anjos. Na segunda parte ergue-se e faz o sinal da cruz, lembrando a proximidade do sacrifício de Cristo, do sacrifício da Cruz.

O hosanna que aparece no Sanctus é uma interjeição de aclamação à qual acrescentamos as palavras in excelsis (no mais alto dos céus), para indicar que nosso coração realmente está no alto, como afirmado lá no início do Prefácio.

Quando a Missa é Solene, isto é, com diácono e subdiácono, os dois sobem ao altar para recitar junto com o sacerdote o Sanctus. É o Antigo Testamento – significado pelo subdiácono – e o Novo Testamento – significado pelo diácono – que se unem a Nosso Senhor Jesus Cristo, que é o padre, para dar graças à Santíssima Trindade. Os três ministros significam também toda a Igreja militante, padecente e triunfante, dando graças a Deus.

Podemos destacar ainda no Prefácio, caros católicos, a beleza da sua melodia, quando se trata de uma Missa Cantada ou Solene. É uma beleza que realmente eleva a alma e que a dispõe para a gratidão e para a adoração a Deus. Uma melodia que nos prepara para o que haverá de mais sublime: o Cânon Romano, em que ocorre a renovação do sacrifício de Nosso Senhor Jesus Cristo. Existe uma história que corre e que diz que o compositor Mozart teria afirmado que trocaria toda a sua música pela composição do Prefácio. Não sabemos ao certo se a frase é exata, mas ela indica claramente uma verdade: a beleza sobrenatural que se encontra nessa melodia.

Assim, caros católicos, a cada Missa, quando ouvirmos o Prefácio com todos os seus elementos, lembremo-nos do que aqui falamos e tenhamos o nosso coração realmente elevado, voltado e fixado no que é realmente o nosso tesouro: as coisas do céu.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.