[Sermão] Carpe Diem: redimir o tempo e o plano de vida

Sermão para o 20º Domingo depois de Pentecostes

11.10.2015 – Padre Daniel Pereira Pinheiro, IBP

 

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Ave Maria…

“Irmãos, tende cuidado em andar com prudência: não como insensatos, mas como pessoas circunspectas, aproveitando o tempo, porque estão a correr maus dias.” Essas são as palavras de São Paulo no início da Epístola de hoje, tirada de sua Epístola aos Efésios.

O apóstolo nos diz para andar com prudência. A prudência é escolher os melhores meios para chegar a fins bons. Em última instância, a prudência é escolher os melhores meios para que cheguemos a nosso fim último, que é a felicidade eterna. A imprudência pode vir do fato de que escolhemos meios ruins para chegar a um fim bom ou porque temos em vista um fim mal a ser atingido. Se somos prudentes, escolhemos os melhores meios – lícitos, claro -, para chegarmos ao céu.

São Paulo acrescenta que não devemos ser insensatos, tolos, mas circunspectos. A circunspecção é parte da virtude da prudência. Pela circunspecção, eu considero as circunstâncias, aquilo que está em torno de mim, para poder agir da melhor maneira possível e atingir meu objetivo, que é a salvação. O texto original latino nos fala, porém, não propriamente da circunspecção, mas da sabedoria: não sede insensatos, mas sábios. O sábio é aquele que considera todas as coisas a partir de uma visão elevada. O sábio enxerga as coisas como Deus as vê, dando importância a cada coisa segundo a sua ordenação a Deus. O sábio considera todas as coisas com o olhar da fé, sabendo que estamos aqui nessa vida para ganhar o céu. O sábio não se deixa enganar pelas máximas do mundo, pelo naturalismo que nos faz esquecer de Deus, pelo ateísmo prático, que desconsidera Deus no quotidiano, como se Ele não existisse. O sábio não se deixa levar pelas falsas soluções contrárias à fé ou que não colocam Cristo e sua Igreja em primeiro plano.

E o sábio sabe aproveitar o tempo. Ele não o aproveita como os pagãos ou como os cristãos que vivem como pagãos. Estes, tolos, dizem como Horácio, poeta pagão de antes de Cristo: carpe diem, aproveite o dia, aproveite o tempo. Ele dizia isso para que as pessoas vivessem afogadas em suas desordens, agindo segundo suas paixões. Colocavam a felicidade nisso: nas satisfações das paixões e dos sentimentos. Carpe diem, devemos dizer nós, os católicos, aproveitemos o dia para ganhar o céu, como sábios. É assim que o sábio aproveita o dia, aproveita o tempo. Movido pela perspectiva da eternidade, o sábio sabe que cada instante é precioso para que possa acumular o verdadeiro tesouro, para que possa multiplicar os talentos que lhe foram dados por Deus. Sabe que não pode desperdiçar o tempo com coisas vãs e fúteis. Sabe que não deve consumir seu tempo diante da televisão para ver não somente coisas vãs e fúteis, mas ofensivas a Deus e prejudiciais para a sua alma. E assim também com a internet, muitas vezes. Se consumir seu tempo com isso, será consumida a própria pessoa por essas coisas. O sábio sabe que cada instante de sua vida é precioso para estar em estado de graça, pois o instante seguinte pode ser o de sua morte.

Mais do que aproveitar o tempo, o sábio sabe redimir o tempo, como nos faz compreender o original latino do texto. O sábio redime o tempo, usando-o para o bem de sua alma. O sábio sabe que deve procurar aproveitar ao máximo o tempo, redimir o tempo, principalmente quando os dias são maus. Maus eram os dias no tempo de São Paulo. É bem provável que o Apóstolo faça menção à perseguição sangrenta, com a qual ele mesmo sofreria pouco tempo depois, sendo martirizado pelos romanos. Vivemos também nós dias maus. Os maus dias hoje são maus pela apostasia generalizada, pela tentativa de mudar e de corromper as palavras de vida de Nosso Senhor mesmo nas questões mais elementares. Maus dias porque os homens são insensatos, tolos, dizendo em seus corações: Deus não existe ou, se existe, Ele está sempre de acordo com a minha vontade. Maus dias porque vamos caminhando para o abismo. Cícero, autor pagão de antes de Cristo, exclama diante da depravação de costumes de sua época: “o tempora, o mores” (ó tempos, ó costumes). O que devemos nós exclamar diante de uma sociedade que volta aos mais bárbaros costumes pagãos depois de ter conhecido a luz sublime do Evangelho? Devemos redimir o tempo, dobrando o joelho diante de Nosso Senhor Jesus Cristo, fazendo boas obras, vivendo a fé católica. Não devemos, então, perder o nosso tempo, mas devemos redimi-lo. Aproveitá-lo realmente para a nossa salvação. Fazer tudo com caridade, mesmo as coisas mais simples e necessário. Como nos diz São Paulo (1Cor 10, 31): “quer comais, quer bebais, fazei tudo para a maior glória de Deus”, isto é, por amor a Deus e para que Ele seja mais conhecido e amado.

Devemos, então, caros católicos, evitar a ociosidade, que consiste em ficar à toa ou desperdiçar o tempo com coisas vãs, inúteis. A ociosidade é mãe de todos os vícios, em particular ela é mãe da impureza e da preguiça, sobretudo da preguiça espiritual. Para redimirmos o tempo e evitarmos a ociosidade, devemos fazer um plano de vida. É o que nos sugere a sabedoria católica.

O plano de vida é estabelecer um horário completo e detalhado das ocupações do dia, para procurar cumpri-lo fielmente. Do levantar ao dormir e abarcando todas as atividades. Quais orações e em que momentos do dia as farei. Horários de trabalho, de estudo. Horário também para as distrações, moderadas e não contrárias a Deus. Devemos fazer um horário para cada dia da semana e procurar cumpri-lo, a não ser que haja motivo proporcional para deixá-lo de lado. Chama-se plano de vida, mas é, na verdade, um plano diário, para cada dia. Tampouco precisa ser o mesmo para cada dia, pois cada dia pode ter suas particularidades, com suas obrigações e atividades próprias.

A utilidade do plano de vida é muito clara, sobretudo para os espíritos inconstantes, como tendemos a ser todos na sociedade atual. Sem o plano de vida, perdemos muito tempo, ficamos indecisos sobre o que fazer, nos descuidamos das obrigações ou as cumprimos de modo desordenado e chegamos à inconstância e seremos volúveis. Sem saber o que fazer, terminaremos à toa na internet ou em alguma outra distração inútil. Com o plano de vida sabiamente estabelecido, ao contrário, e tendo definido com precisão as atividades de cada dia, não ficaremos sem saber o que fazer, não perderemos tempo, nada de importante nos escapará, teremos facilidade para fazer todas as nossas ações com espírito sobrenatural e educaremos nossa vontade. É bom que mesmo a família tenha alguns horários estabelecidos para cada dia, sobretudo para a oração.

Para tirar do plano de vida todo o bem que ele pode nos dar, é preciso traçá-lo com sabedoria e não adotá-lo definitivamente a não ser depois de tê-lo provado durante certo tempo, para ver se ele se adapta realmente a nossas obrigações ou se é preciso modificá-lo em algo.

Algumas regras básicas na elaboração do plano de vida: 1º) o plano de vida deve estar completamente de acordo com os deveres de estado da pessoa, de acordo com suas obrigações habituais. Deve levar em conta o seu caráter, para corrigir os defeitos próprios do caráter e para favorecer as virtudes próprias do caráter. Ele deve levar em consideração a sua saúde física. De nada adiantaria estabelecer um plano de vida em que se dorme 5 horas por noite, se no dia seguinte a pessoa não consegue fazer nada bem por causa do cansaço. 2º) O plano de vida deve ser flexível e rígido a um só tempo. Flexível para não nos sentirmos escravizados por ele quando a caridade para com o próximo ou uma circunstância importante imprevista nos obrigue a mudanças. Isso se aplica muito aos pais e mães de família, principalmente de crianças menores. Mas deve ser rígido, pois é preciso procurar segui-lo a não ser que algo relevante o impeça. 3º) O plano de vida deve conter não somente o horário, do acordar ao dormir, mas próximo a ele deve estar também a lista com as minhas más inclinações, que devo combater, e a lista com as virtudes que mais devo procurar adquirir. E a isso devemos juntar o exame de consciência diário.

Caros católicos, devemos aproveitar o tempo. Devemos redimi-lo. Se redimirmos o tempo, o tempo vai nos redimir, pois iremos aproveitá-lo para conquistar o céu.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.