[Sermão] A Circuncisão e o mistério da Encarnação

Sermão para a Festa da Circuncisão de Nosso Senhor 
1º de janeiro de 2015 – Padre Daniel Pinheiro

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém. Ave Maria. […]

O Verbo se fez carne. Ele se fez carne para nos salvar. Na presente ordem de coisas, a finalidade da encarnação do Verbo é a nossa redenção. A Sagrada Escritura nos deixa isso claro. Em São Mateus (20, 28) está dito que o Filho do Homem veio para servir e dar a sua vida em redenção de muitos. Em São Lucas (19, 10), está dito que o Filho do Homem veio salvar o que estava perdido. Na sua Epístola aos Gálatas, São Paulo diz claramente que, ao chegar a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, para redimir os que estavam sob a lei. Para Timóteo, São Paulo escreve que Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores. Na sua primeira Epístola São João diz que Deus nos amou e enviou seu próprio Filho, vítima expiatória de nossos pecados. A Revelação é clara, então, quanto ao motivo da encarnação. Deus Filho se fez homem, para nos redimir, para nos salvar.

E, hoje, na sua circuncisão, a primeira gota de sangue de Nosso Senhor é derramada por nós. Obedecendo à lei mosaica, ainda em vigor, Nosso Senhor se submeteu à circuncisão e à lei mosaica em geral para nos mostrar a bondade dessa lei até a sua abolição com a paixão e morte de Cristo, para nos dar exemplo de obediência, para nos livrar justamente dessa lei e nos estabelecer na nova lei, mais perfeita e conforme à santidade de Deus e a alta vocação do homem. Ele veio para nos salvar e já no oitavo dia derrama seu sangue por nós.

Adão e Eva, os primeiros seres humanos a existir, foram criados por Deus em estado de graça santificante, em amizade, em união com Deus. Além desse dom sublime da graça santificante, Deus lhes tinha dado a imortalidade – não morriam -, a impassibilidade – não sofriam – e a integridade – não tinha desejos e paixões desordenadas. Tudo estava perfeitamente ordenado em Adão e Eva: a inteligência e a vontade deles se submetiam a Deus, as paixões se submetiam à inteligência e à vontade. Deus tinha dado a Adão e Eva, e também aos descendentes deles, esses dons, com a condição de que fossem obedientes. Podiam comer de todos os frutos das árvores do paraíso, exceto da árvore da ciência do bem e do mal. Tentada Eva pelo demônio e tentado Adão por Eva, desobedeceram ao mandamento divino. O pecado original foi um pecado de orgulho. Não podia ser pecado de concupiscência porque não tinham desejos desordenados. Foi pecado de orgulho: quiseram ser como Deus sem a ajuda de Deus. Quiseram ser como Deus sem a graça. É o grande pecado ao longo da história da humanidade: o homem quer ser Deus, fazendo-se independente de Deus. Ele quer ditar suas próprias leis fazendo abstração de Deus. Ele quer se tornar o centro e o fim de todas as coisas. Até a religião deve ser para o homem, para homem se sentir bem e não para adorar a Deus, para conhecer, amar e servir a Deus. Cometeram o pecado original. Perderam a graça santificante, separaram-se de Deus, tornaram-se inimigos de Deus. Perderam a imortalidade, a impassibilidade, a integridade. E todos os homens, descendentes todos que somos de Adão e Eva, nascemos sem a amizade com Deus, nascemos mortais, sujeitos aos maiores sofrimentos e com desejos desordenados que precisamos domar, mortificar. E isso, claro, sem injustiça da parte de Deus. Se alguém dá a um pai de família uma grande herança e esse pai de família perde todo o seu patrimônio por irresponsabilidade e não transmite aos filhos essa herança, não se pode culpar o doador, mas o pai. Deus não tem culpa pelo pecado de Adão. Mas como Adão era nosso primeiro pai, todos estávamos representados por Adão, chefe natural do gênero humano. Todos sofremos, então, as consequências do pecado de Adão. E o pecado de Adão foi um pecado mortal, gravíssimo. A gravidade da ofensa se mede pela dignidade do ofendido. Deus tem uma dignidade infinita. O pecado de Adão e os nossos pecados mortais são, assim, uma ofensa infinita.

O que podemos fazer com nossas próprias forças para reparar, satisfazer por essa ofensa infinita que é o pecado? O que podemos fazer para Deus que lhe seja mais agradável do que o pecado lhe foi desagradável? Precisaríamos fazer uma ação infinitamente boa. Com nossas próprias forças, então, não podemos satisfazer pelo pecado. Impossível. Somos criaturas finitas, incapazes de uma ação infinitamente boa. Estávamos fadados à condenação e ao desespero. Deus poderia ter nos abandonado, sem injustiça. Mas Deus é infinitamente bom. Ele quis nos redimir. Ele poderia, se quisesse, ter simplesmente perdoando os nossos pecados, sem mais. Mas Deus é infinitamente bom, sábio, e misericordioso, mas também justo. Conciliando todas essas perfeições, Deus decreta, desde toda a eternidade, a encarnação do Verbo, a encarnação da Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. É a bondade de Deus que se manifesta a nós da maneira mais perfeita na encarnação: Deus amou tanto o mundo que lhe deu o seu Filho Unigênito. É a sua misericórdia que se manifesta de maneira perfeita na encarnação porque ao nos mostrar o seu amor por nós nos constrange a amá-lo em retorno, nos constrange a que abandonemos os nossos pecados, nos constrange a fazer tudo por Ele. É a sua justiça que se manifesta na encarnação porque Jesus Cristo, sendo verdadeiramente homem e verdadeiramente Deus pode reparar, satisfazer perfeitamente pelos nossos pecados. Ele é homem e, como homem, foi colocado por Deus é chefe espiritual do gênero humano. Ele nos representa. Ele é Deus, de forma que todas as suas ações, mesmo as mais simples, têm um valor infinitamente bom, infinitamente agradável a Deus. As ações de Cristo agradam muito mais a Deus do que lhe desagradam os pecados. Basta a nós pertencermos como membros vivos a esse corpo místico do qual Jesus é a cabeça, basta a nós sermos membros vivos da Igreja pela fé e pela caridade, isentos de pecados mortais. Na encarnação se manifesta perfeitamente a sabedoria divina: nela se conjugam perfeitamente bondade, misericórdia e justiça. A encarnação é o meio mais eficaz para a salvação dos homens. Quanta bondade, quanta misericórdia, quanta justiça, quanta sabedoria!

Logo depois do pecado, o Altíssimo já anuncia o Messias. Ele fala da descendência da mulher que vai esmagar a cabeça da serpente, do demônio. Tão logo ocorre o pecado, Deus já dá o remédio para o gênero humano. Um Menino nos nasceu, um Filho nos foi dado. Esse menino é homem e Deus. Ele é o Filho de Deus Pai, gerado desde toda a eternidade. Ele é a segunda pessoa da Santíssima Trindade. Hoje, oito dias depois de seu nascimento, Ele começa a derramar seu sangue por nós.

Peçamos à Santíssima Virgem, para que interceda por nós aquela por quem merecemos receber o autor da Vida. Que Ela interceda por nós para que amemos a Deus sobre todas as coisas.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.