[Sermão] Para entender o presépio de Belém

Sermão para o Domingo dentro da Oitava do Natal 
28.12.2014 – Padre Daniel Pinheiro 

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém. Ave-Maria…

Escutemos, caros católicos, atentamente e com devoção o que o Menino Jesus tem para nos ensinar, reclinado na manjedoura em Belém. É simples, mas extremamente profundo e útil para o bem de nossa alma.

O Menino Jesus nos ensina por meio da noite. Ele nasceu em uma das noites mais longas do ano e à meia-noite. Ele fez isso para que seu nascimento fosse conhecido de um pequeno número, nos ensinando a humildade, mas também para nos ensinar que Ele é a luz do mundo, que vem a esse mundo para iluminar a todos os homens, que jaziam nas trevas do pecado. A luz resplandece nas trevas, como nos diz o Prólogo de São João.

O Menino Jesus nos fala por meio do feno, do frio, dos panos que o envolvem, do desconforto do estábulo. Com todas essas coisas, Ele nos ensina a mortificação, sem a qual pouco podemos fazer no caminho da salvação.

O Menino Jesus nos fala por meio do boi e do burro ali presentes. Isaías havia dito: o boi conhece o seu possuidor, e o asno, o estábulo do seu dono. Aí no boi e no asno estão significados os judeus e os pagãos. No asno, os pagãos porque eles, em particular, não compreenderam, antes da vinda de Cristo, a honra a que tinham sido elevados por Deus e haviam se tornado como asnos por causa de seus pecados e falsas religiões (referência ao Salmo 48, 13 e 21). Nada mais natural, em um estábulo, que a presença de um boi e de um burro, sobretudo em tempo de censo, no qual havia muitos viajantes que usavam bois e burros para se deslocarem a suas cidades de origem. Com a presença deles, a Divina Criança mostra que veio salvar a todos, judeus e gentios, e que Ele é o Rei de todos os povos.

O Menino Jesus nos fala por meio da manjedoura. A manjedoura é o local em que os animais do estábulo se alimentam. A Divina Criança ensina que será para a nossa alma verdadeiro alimento. “Eu sou o Pão Vivo que desceu dos céus e quem comer desse Pão viverá eternamente”, dirá Ele mais tarde.

O Menino Jesus nos fala por meio do estábulo. Toda a Terra e tudo o que ela contém pertence a essa criança. Ao querer nascer no estábulo, então, a Divina Criança nos ensina o desapego dos bens desse mundo… Ele nos ensina a usar dos bens que possuímos, sejam grandes ou pequenos, para servi-lo, unicamente. Ele nos ensina a pobreza de espírito, que faz de Deus o nosso verdadeiro tesouro. Sem esse desapego dos bens terrenos ninguém pode salvar-se.

O Menino Jesus nos fala por meio da cidade em que nasceu. Belém é a cidade de Davi. Nascendo em Belém, Ele nos ensina que é o filho de Davi, o Messias prometido desde a queda de Adão. E Belém significa casa do Pão. O Menino Deus nos ensina, insistindo, que Ele vai se tornar o alimento de nossas almas pela Santa Eucaristia, prevendo já o escândalo de alguns com relação a isso ou prevendo a falta de reverência de nossos dias para com o Santíssimo Sacramento.

O Menino Deus nos fala por meio do censo estabelecido pelo Imperador e nos mostra que Ele, Jesus, é o Senhor da história e que mesmo os mais poderosos desse mundo estão sob seu domínio, pois Ele quis que o Imperador fizesse o censo para poder nascer em Belém e cumprir as profecias. O mundo está em paz, para a chegada do Rei da verdadeira paz, que nos torna possível novamente a amizade com Deus. O Império Romano estabeleceu a Pax Romana em seus territórios. A facilidade de locomoção dada pelo domínio do Império Romano vai permitir a difusão rápida do Evangelho. A boa filosofia grega permitirá, ainda que com relutâncias, a aceitação da revelação divina. O Verbo de Deus dispôs tudo sabiamente para a sua Encarnação. O nascimento de Cristo divide a história: antes e depois de Cristo. Não como um simples fato histórico, mas como o centro da história. Na gruta em Belém, apareceu a bondade e o amor do Salvador nosso Deus pelo homem e apareceu não por nossos méritos, mas por sua misericórdia. Esse acontecimento, aparentemente tão singelo, tão simplório, mudou completamente a história da humanidade. Esse acontecimento e suas consequências, culminando com a paixão, morte, ressurreição e ascensão de Cristo, é o centro da história. Quão vazia e tenebrosa seria a história da humanidade sem o nascimento de Cristo. Não teria havido os patriarcas, os profetas e tantos justos do Antigo Testamento. Não teria havido os santos, imitadores de Cristo, não teria havido tanta virtude e virtude em grau heroico. Não teria havido a Santa Igreja com sua celestial doutrina, com seus sacramentos e com todo o bem que fez e faz ao longo da história, tanto na ordem espiritual quanto material. Não haveria a civilização cristã, em que a Igreja é a alma do Estado. Quão vazia e tenebrosa seria a história sem esse acontecimento aparentemente singelo e simplório na gruta de Belém. É preciso que nós tenhamos o sentido cristão da história.

O Menino Jesus nos fala por meio dos pastores. São eles os primeiros homens a serem avisados da boa-nova. Por que são pobres? Sim, mas pobres de espírito. São os primeiros porque são judeus e judeus que vigiavam o rebanho, trabalhando mesmo durante a madrugada. Convinha que o nascimento do Messias fosse anunciado primeiramente aos judeus, que haviam recebido as promessas, e que tinham, à época, a verdadeira religião. Com a presença desses pastores, o Menino Deus nos ensina que devemos vigiar e orar sempre, para podermos alcançar a verdadeira alegria. Esses pastores representam também os pastores da Igreja, o clero, que recebe a doutrina sagrada da Igreja para transmiti-la aos outros.

O Menino Jesus fala por meio do Anjo. O anjo, provavelmente São Gabriel, se alegra com o nascimento de Jesus e o anuncia aos pastores e junto com grande multidão de anjos canta a Glória de Deus e sua infinita bondade. O anjo se alegra e se rejubila, pois com o nascimento do Menino Jesus, Deus será mais amado, em pouco tempo, do que o foi durante os milhares de anos que precederam o nascimento de Jesus. Com a presença do Anjo, a Divina Criança nos ensina a alegria de exercer o apostolado, de ajudar os outros a conhecer, amar e servir a Deus. Ele nos ensina a alegria que é a salvação.

O Menino Jesus fala por meio de São José. É um carpinteiro o responsável pela Sagrada Família. Com a presença de São José no estábulo, a divina criança nos ensina a servir e defender prontamente a Cristo e a Nossa Senhora. Ele nos ensina a defender a Igreja e a servi-la com extrema fidelidade e bravura, pois nesse momento poderíamos dizer que a Igreja se resumia aos três: São José, Nossa Senhora e o Menino Jesus.

O Menino Jesus fala por meio de Maria Santíssima. É uma Virgem que se torna Mãe de Deus. Com a presença de Nossa Senhora no estábulo, Ele nos ensina que a castidade, a pureza, a submissão completa à vontade de Deus traz grandes frutos. É a virtude que traz grandes frutos e frutos de vida eterna. A santidade de Nossa Senhora trouxe a salvação, que é Cristo, não só para ela, mas para todos os homens.

O Menino Jesus, por quem todas as coisas foram feitas, já que Ele é o Verbo de Deus, governa também os astros do céu. A estrela de Belém que guia os reis magos das trevas do paganismo à luz do cristianismo, das terras estrangeiras ao estábulo de Belém, é obra do Menino Jesus.

O Menino Jesus fala também por meio dos Reis Magos, primícias dos gentios. Mago, no oriente antigo, significa a mesma coisa que sábio na Roma Antiga, filósofo na Grécia, ou escriba em Israel. Portanto, os Magos não eram astrólogos, nem adivinhadores, nem feiticeiros. A graça de serem os primeiros gentios a adorarem Cristo não poderia ser dada a adoradores do demônio, como o são os astrólogos, os adivinhadores, os feiticeiros. Era comum naquela época, que os sábios fossem também governantes, ao menos de uma parcela do povo. Por isso, são chamados de Reis Magos. Os magos eram, então, sábios, que praticavam a lei natural e cultivavam as ciências, em particular a astronomia. Sabiam, então, auxiliados pela graça, que a estrela que surgiu era a estrela do Messias, como eles mesmos dizem: “vimos sua estrela no Oriente”. Os Reis Magos sabiam que não se tratava de um fenômeno natural, mas de uma estrela milagrosa, a estrela anunciada pela profecia. Eles trazem ouro porque reconhecem que Cristo tem autoridade sobre eles: Cristo é Rei. Eles trazem incenso porque sabem que Cristo é Deus e incenso só se oferece a Deus. Eles trazem mirra porque sabem que Cristo é homem e que morrerá um dia. Seu corpo deverá ser perfumado quando morrer.

O Menino Jesus escolheu todas essas circunstâncias para nos ensinar que Ele é verdadeiramente homem e verdadeiramente Deus: esse Menino  é o Senhor dos anjos e dos homens, das cidades, dos astros do céus, dos animais, de todos os elementos da natureza. Ao mesmo tempo, Ele nasce em um estábulo, com frio, enrolado somente por alguns panos, recusado pelos homens. O Menino Jesus escolheu todas essas circunstâncias para que reconheçamos nEle o nosso Salvador.

Se o Menino Deus nos ensina tantas coisas e sofre tanto por nós, Ele nos pede uma só: que o amemos em troca, praticando o que Ele nos ensina.  E Ele pede que o amemos profundamente. O Verbo se fez carne. Deixemos, então, o nosso coração de pedra, insubmisso a Deus. Tenhamos um coração de carne. A Igreja nos dá o exemplo de amor a Cristo. No primeiro dia após o Natal, ela comemora a festa de Santo Estevão, primeiro mártir, nos mostrando que nosso amor por Ele deve ir até a efusão do sangue, até o martírio, se necessário for. No segundo dia após o Natal, a Igreja comemora São João, o único apóstolo não mártir, para nos mostrar o amor de Deus pela confissão da fé, pelo combate aos erros, pela prática das virtudes, em particular pela prática da caridade fraterna – baseada sempre no amor a Deus – e pela prática da castidade.

O Menino Jesus nasceu para que possamos amar a Deus sobre todas as coisas, retribuindo seu amor infinito. Prostremo-nos diante do presépio e peçamos ao Menino Jesus a graça de amá-lo e de perseverar nesse amor até o final de nossas vidas.

Grande alegria, caros católicos! Um pequenino nos nasceu, o Filho de Deus nos foi dado.

 Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.