[Sermão] As bem-aventuranças: programa de santidade

Sermão para a Solenidade de Todos os Santos

02/11/2014 – Padre Daniel Pinheiro

 

Em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Amém.

Ave Maria…

 “Vinde a mim todos os que trabalhais e estais sobrecarregados e eu vos aliviarei” (Aleluia da Festa de Todos os Santos).

Caros católicos, estamos hoje naquela que é, praticamente, a última grande festa do ano litúrgico. Veneramos e prestamos nossas homenagens aos santos, dos mais conhecidos aos totalmente anônimos. Ao mesmo tempo, pedimos a eles que intercedam por nós diante do trono do Cordeiro, e consideramos os exemplos dos santos.

Entre os santos, encontramos homens e mulheres, ricos e pobres, reis e mendigos, clérigos, religiosos e leigos. Virgens e casados. Crianças e adultos. Todavia, têm todos algo em comum. Colocaram em prática os ensinamentos de Nosso Senhor Jesus Cristo. Eles colocaram em prática esse sublime programa de vida cristã que acabamos de ouvir no Evangelho de hoje, em trecho do sermão da montanha, que é o resumo da moral cristã. Devemos fazer o mesmo, caros católicos.

Todos nós desejamos ardentemente a bem-aventurança, a felicidade. Todos desejamos o reino dos céus. Todos desejamos possuir a terra. Desejamos ser consolados. Desejamos ser saciados de justiça. Desejamos alcançar misericórdia. Todos desejamos ver a Deus e desejamos ser chamados filhos de Deus. Para alcançar todas essas bem aventuranças, é preciso, porém, empregar os meios que nos levam até elas. É preciso pegar a estrada que nos conduz a elas.

  1. Bem-aventurados os pobres de espírito porque deles é o reino dos céus. A pobreza de espírito não é a pobreza material; ela não consiste em não possuir os bens desse mundo. Do contrário, todos os pobres seriam santos e quanto mais pobres, mais santos. A pobreza material, porém, ajuda em muito a pobreza do espírito, se a pessoa suporta com paciência a sua condição. Essa pobreza de espírito é, portanto, o desapego dos bens desse mundo, ainda que a pessoa os possua, mas é também o desapego das honras e é também a humildade. O pobre de espírito sabe que sua única riqueza é Deus. Usando das coisas desse mundo sem colocar o nosso coração nelas, utilizando-as para servir a Deus e colocando nosso coração nos bens eternos, possuiremos definitivamente esses bens eternos no reino dos céus.
  2. Bem-aventurados os mansos porque possuirão a terra. Manso é aquele que submete sempre a ira ou cólera à razão iluminada pela fé. A mansidão não implica ausência total de ira, mas implica que a ira esteja sempre submetida à razão iluminada pela fé, quando for preciso irar-se, como o fez Nosso Senhor, por exemplo, na expulsão dos vendilhões do templo. O que é manso assim, sabendo moderar a sua ira, possuirá a terra. A terra é a pátria, é o céu, mas é também a própria pessoa, que, no céu, possuirá plenamente todas as suas faculdades, isto é, ordenará todas as suas faculdades a Deus.
  3. Bem aventurados os que choram porque serão consolados. Esse choro do homem é a sua boa tristeza pelos pecados que cometeu ao usar das coisas criadas contrariamente à lei de Deus. É o choro do pecador arrependido. E dessa boa tristeza o homem será consolado plenamente no céu, quando receber a recompensa pelo seu arrependimento.
  4. Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça porque serão saciados. A justiça aqui não é tanto a virtude particular de justiça que nos faz dar a cada um aquilo que lhe é devido, mas a virtude em geral ou a santidade. Aquele que deseja ardentemente a santidade e que a deseja efetivamente, isto é, colocando em prática os meios para alcançá-la será plenamente saciado no céu, com a santidade perfeita.
  5. Bem-aventurados os misericordiosos porque alcançarão misericórdia. Os misericordiosos são aqueles que buscam tirar o próximo, com bondade, de suas misérias materiais, mas, sobretudo, de suas misérias espirituais. O misericordioso o faz sem se opor, claro, aos ensinamentos de Cristo e aos seus mandamentos. A misericórdia tem como fundamento justamente a doutrina de Nosso Senhor Jesus Cristo. Aqueles que assim exercem a misericórdia para com o próximo, alcançarão de Deus misericórdia, à semelhança do que é dito no Pai-Nosso: alcançaremos o perdão das nossas dívidas para com Deus na medida em que perdoarmos os nossos devedores.
  6. Bem-aventurados os puros de coração porque verão a Deus. Essa pureza de coração é, de um lado, a pureza pela qual se repelem todos os pecados e os afetos desordenados e, de outro, a pureza da inteligência que repele todos os erros contra a fé. Essa pureza nos dois âmbitos levará à visão de Deus face-a-face no céu.
  7. Bem-aventurados os pacíficos porque serão chamados filhos de Deus. Pacífico aqui não é aquele que evita qualquer tipo de combate ou embate. É preciso combater pela salvação da nossa alma. É preciso combater pela honra de Cristo, da Igreja e de Nossa Senhora e dos Santos. Os pacíficos são aqueles que estão na paz. Está na verdadeira paz aquele que está na graça de Deus e com estabilidade. A paz é a tranquilidade na ordem. Pacífico é aquele que está ordenado a Deus, pela graça, de maneira estável. O que é assim pacífico é filho adotivo de Deus pela graça.
  8. Bem-aventurados o que padecem perseguição por amor da justiça porque deles é o reino dos céus. Mais uma vez, caros católicos, justiça é aqui a santidade como um todo. Chegarão aos céus aqueles que suportarem bem as perseguições sofridas por amor a Deus, por amor a Nosso Senhor Jesus Cristo, por amor à verdade, por amor ao bem, por amor à virtude.

Aquele que colocar em prática todos esses sublimes ensinamentos de Nosso Senhor será bem-aventurado quando for injuriado, perseguido e caluniado. Grande será a alegria dos discípulos de Cristo no meio de todos esses sofrimentos porque ele sabe que a recompensa é a vida eterna.

Esse programa de vida, caros católicos, é o nosso programa de vida. Uma grande multidão o cumpriu antes de nós. Nós devemos cumpri-lo também. Não buscando fatos extraordinários nem reconhecimento, mas buscando a santidade nas nossas ações quotidianas.

Hoje, com grande alegria, celebramos a festa de todos os santos. O céu exulta com a presença deles, a terra se alegra com a proteção e intercessão deles, a Igreja é coroada pelos triunfos dos santos. Os santos são aqueles que confessam mais fortemente a fé quanto maiores são os sofrimentos, merecendo, assim, maior honra. Os santos são aqueles que no combate aumentam a sua glória, adornando-a com o martírio, se necessário for.

Alegremo-nos com os santos e imitemos os santos.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.