[Sermão] O Bom Samaritano

Sermão para o XII Domingo depois de Pentecostes
31 de agosto de 2014 – Diácono Tomás Parra

 

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém. Ave Maria.

Reverendo Padre, Caros irmãos,

Neste 12º Domingo depois de Pentecostes, o Evangelho nos narra que, estando Jesus entre os doutores da lei, um deles levantou-se e disse-lhe, para tentá-lo: “Mestre, que devo eu fazer para possuir a vida eterna?”. Nosso Senhor, por sua vez, cheio de mansidão, lhe propôs também uma questão, seguindo seu custume quando era Ele mesmo testado, e disse: “Que é que está escrito na lei? Como lês tu?”. O doutor, respondendo, disse: “Amarás o Senhor teu Deus com todo teu coração, com toda a tua alma, com todas as tuas forças, com todo teu entendimento; e o teu próximo como a ti mesmo”. Nosso Senhor então, responde: “Respondeste bem; faz isso, e viverás”, como dizendo, faz isso sempre e terás a vida eterna.

“Mas quem é meu próximo?”. Esta pergunta do doutor mostra a soberba dos escribas, que acreditavam serem poucos os que mereciam seu amor. E foi também a ocasião para Cristo tomar a palavra e ensinar a parábola do Bom Samaritano, que é o quadro mais belo e mais perfeito que se poderia fazer do amor do próximo.

Nessa parábola do Evangelho, caros irmãos, Nosso Senhor descreve a Si mesmo. Ele é o Bom Samaritano que trata o homem com uma misericórdia admirável e divina. Ele é o exemplo perfeito de amor de Deus e do próximo.

Primeiramente, caros irmãos, o Bom Samaritano olha cheio de compaixão para aquele homem ferido e despojado de seus bens, e se aproxima dele. Ora, esse homem somos nós, pecadores, despojados de todas as riquezas de ordem sobrenatural por causa do pecado. Nosso Senhor se aproximou de nós pela sua Encarnação, mistério no qual ele manifesta a sua onipotência, e o tão grande amor que teve por nós, que o levou a rebaixar-se e a assumir, num ato de infinita humildade, uma natureza humana frágil, capaz de sofrer, de sofrer por nós. Ele aproximou-se, também, deste homem ferido, pela maneira que quis se apresentar ao mundo, comendo com os pobres, com os pecadores, levando uma vida humilde, e escolhendo, muitas vezes, no povo simples os seus apóstolos, aos quais devia confiar sua missão. Além disso, a cada dia, Nosso Senhor vem sobre o altar, na missa, para pagar pelos nossos pecados e nos fortalecer pela comunhão.

Tendo-se aproximado, o Bom Samaritano ligou-lhe as feridas. Eram muitas essas feridas deste homem abandonado meio morto pelos ladrões. Muitos eram os ferimentos do homem decaído pelo pecado. Na verdade, caros irmãos, depois do pecado, o homem havia perdido a graça santificante, que é a amizade com Deus, a vida sobrenatural da alma. Seu entendimento estava obscurecido para as verdades mais fundamentais da religião. Sua vontade, debilitada por ter apegado o coração à criatura e o afastado do Criador, deixando-se por isso, muitas vezes, dominar pela concupiscência; seu corpo estava submetido à doença e à morte, e suas paixões ficaram como revoltadas e seguindo sem controle a lei da concupiscência.

Mas Nosso Senhor, nosso Bom Samaritano, por amor, vai tratar e curar estes ferimentos. Na cruz, Ele nos alcança de novo a graça santificante, estabelecendo uma Nova Aliança entre Deus e os homens. Pelos seus ensinamentos, Ele iluminou nossa inteligência, ampliando a revelação divina. Ele fortaleceu nossa vontade, nos dando a esperança, que nos faz desejar as coisas do céu, e a caridade sobrenatural, que educa nossos amores segundo Deus. Com seu exemplo, ensinou-nos que a morte é uma passagem para uma vida incorruptível e bem-aventurada, e, morrendo por nós, fez das misérias desta vida meios para ganharmos méritos para a vida eterna.

Em seguida, o Bom Samaritano, deitando azeite e vinho sobre as feridas, representa Jesus Cristo, que através dos sacramentos aplica sua misericórida e seus méritos, apagando nossos pecados e nos fortalecendo pela graça para uma vida nova, uma vida santa. O azeite e o vinho são, por um lado, a doçura misturada com a severidade, com as quais Nosso Salvador nos cura, nos perdoando e nos corrigindo. Por outro lado, representam a palavra de Deus, que ao mesmo tempo revela verdades suaves que conduzem ao arrependimento e verdades terríveis que fazem o pecador temer por sua condenação.

Depois disso, caros irmãos, o Bom Samaritano coloca o homem sobre sua montada, para levá-lo. Fazendo isso, ele representa Cristo, que assumindo a natureza humana, nos elevou para perto de Deus. Pois Ele tomou sobre si nossos próprios pecados, de tal forma que pudéssemos ser incorporados a Ele para formar seu Corpo Místico. Além disso, Nosso Senhor nos eleva do chão, ou seja, nos tira de nossos vícios, oferecendo-nos um exemplo perfeito de obediência a Deus Pai, de humildade, de mansidão e de todas as virtudes. E, também, a cada dia nos auxilia em nossos trabalhos e sofrimentos, nos chamando com estas palavras: “Vinde a mim todos os que estais cansados sob o peso do vosso fardo, e eu vos aliviarei”. Este gesto de tomar nos braços o pecador significa também associá-lo à sua Cruz, à obra da Redenção.

A estalagem, para onde é levado o homem ferido, simboliza a Igreja Católica, a quem Nosso Senhor confiou todos os homens, antes de subir aos Céus; e é unicamente na Igreja Católica que eles acharão todos os auxílios próprios para curar as suas chagas, e para fazê-los obter uma saúde perfeita, a salvação.

O Bom Samaritano, que segundo o Evangelho de hoje, agiu como o próximo desse homem ferido, é figura de Cristo Nosso Senhor, que se fez homem para ser nosso próximo, e assim tudo dispôs para nossa salvação.

Tendo nos dado o exemplo deste amor ao próximo, que é, aliás, sinal e condição do amor de Deus, Cristo nos deixou o “mandamento novo”: “Amai-vos uns aos outros, assim como eu vos amei”.

Que a meditação destas verdades e o exemplo de Nosso Senhor Jesus Cristo nos façam, caros irmãos, estar atentos aos sofrimentos e necessidades de nossos próximos, nos ensine a ter compaixão e a dedicarmos, em favor deles, nosso tempo, nosso trabalho e nossas próprias pessoas, sobretudo para o bem da alma deles.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.