[Sermão] A Santíssima Trindade e nossa vida espiritual

Sermão para a Festa da Santíssima Trindade

15.06.2014 – Pe. Daniel Pinheiro, IBP.

 

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Ave Maria…

                “Que ressoe na boca de todos a glória do louvor ao Pai, e ao Filho que Ele gerou; e que ao Espírito Santo se dê igualmente um louvor perene.” (Antífona de Vésperas).

A Santa Igreja, após reviver a vida de Nosso Senhor, do seu nascimento à sua ascensão aos céus, e depois de festejar a descida do Espírito Santo sobre os Apóstolos e Nossa Senhora no Cenáculo em Jerusalém, coloca diante de nós o mistério da Santíssima Trindade. Trata-se, junto com o mistério da encarnação e da redenção, de verdade importantíssima de nossa religião. Todavia, com a liturgia de hoje, não se trata simplesmente de se considerar abstratamente o dogma da Santíssima Trindade. Trata-se também de enxergar a ação da Santíssima Trindade em toda a nossa vida.

Relembremos, em primeiro lugar, o que conhecemos da Santíssima Trindade. Que existe um só Deus em três pessoas é uma verdade que não poderíamos jamais conhecer pela força de nossa razão. A existência de Deus e muitas de suas perfeições podem ser conhecidas pela razão humana sem o auxílio da Revelação. Assim, alguns filósofos da antiguidade chegaram à verdade da existência de Deus e de suas perfeições. Todavia, que Deus seja um em três Pessoas, não poderíamos jamais conhecer pela nossa razão. Em Deus, há uma só natureza, uma só substância em três pessoas. O Pai, o Filho e o Espírito Santo são iguais em tudo: são igualmente eternos, igualmente onipotentes, igualmente oniscientes. Eles são um só Deus e não três Deuses. A única coisa que distingue as três pessoas é que o Pai não procede de nenhum outro, enquanto o Filho é gerado desde toda a eternidade pelo Pai que se conhece perfeitamente, e o Espírito Santo procede do Pai e do Filho pelo amor mútuo entre eles. O Pai não é anterior nem superior ao Filho. O Pai e o Filho não são nem anteriores nem superiores ao Espírito Santo. O Pai, o Filho e o Espírito Santo são um só Deus em Três Pessoas. É bom lembrar que estamos aqui diante de um mistério, que ultrapassa nosso entendimento, embora não o contradiga. Nunca poderemos compreender perfeitamente como em um só Deus existem Três Pessoas, mas com o estudo da teologia, com a aplicação da nossa razão ao que Deus nos falou, podemos ver que não existe contradição entre a unidade e a trindade em Deus. Poderíamos fazer algumas comparações – certamente imperfeitas, claro – que podem nos ajudar a entender essa unidade na trindade. Por exemplo, em cada ser nós temos um ser, mas temos três dimensões: largura, comprimento, profundidade. Na música, o acorde perfeito é um, mas formado por três notas: a tônica, a terça e a quinta. Eis, então, resumidamente, o que conhecemos da Santíssima Trindade.

Vejamos, agora, a ação da Santíssima Trindade sobre nós, começando pela nossa criação. Deus, na sua vida íntima, conhece a Verdade e o Bem. Essa Verdade que Deus conhece e esse Bem que Ele ama só pode ser Ele mesmo, pois Ele é a Verdade Primeira e o Bem Supremo. A Santíssima Trindade é perfeitamente feliz, não precisando de nada além de si mesma para completar essa felicidade. Todavia, a Santíssima Trindade, na sua bondade infinita e na sua liberalidade infinita, quis que outros seres participassem de algum modo de sua própria vida, de sua felicidade. Assim, a Santíssima Trindade nos criou, para nos dar a possibilidade de sermos participantes da vida dela, já aqui na terra pela fé e pela caridade, mas, sobretudo, no céu, com a visão face a face dela. Quando recitamos o Credo, atribuímos a criação a Deus Pai, pois se atribui a onipotência a Deus Pai, como se atribui a sabedoria a Deus Filho e a bondade ao Espírito Santo, embora as três Pessoas tenham igual onipotência, igual sabedoria e igual bondade. Atribuímos a criação a Deus Pai, mas foi a Santíssima Trindade que nos criou e que criou – e cria – todas as coisas. A Santíssima Trindade está presente em nossas vidas desde o primeiro momento de nossa vida natural. É ela quem nos dá essa vida.

Mais importante e sublime do que isso, no entanto, é o fato de que é a Santíssima Trindade que nos dá a vida sobrenatural no batismo. Nós somos batizados em Nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. É por obra da Santíssima Trindade – em virtude dos méritos de Cristo, Deus Filho encarnado – que somos gerados para a vida da graça, para a vida de união com Deus, para a vida de amizade com Deus. Pelo batismo, nos tornamos Filhos adotivos de Deus Pai, nos tornamos irmãos de Nosso Senhor Jesus Cristo e nos tornamos Templos do Espírito Santo. Na medida em que permanecemos fiéis às promessas feitas no batismo, promessas de fidelidade a Cristo e à Sua Igreja e de rejeição ao demônio e ao pecado, a Santíssima Trindade faz em nossa alma a sua morada pela graça santificante. Nosso Senhor mesmo o diz: “Se alguém me ama, guardará a minha palavra e meu Pai o amará e nós viremos a ele e faremos nele morada.” (Jo XIV, 6).

A Santíssima Trindade nos gera para a vida sobrenatural e nos mostra claramente o caminho da salvação no Evangelho. Esse caminho é Nosso Senhor Jesus Cristo. No Batismo de Cristo no Jordão, Deus Pai nos diz que todo seu amor está em Jesus Cristo e o Espírito Santo sob a forma de pomba lá está para confirmar o que é dito. Se queremos, então, ser amados por Deus eternamente, devemos estar unidos a Cristo. Na Transfiguração, Deus Pai diz que Nosso Senhor é seu Filho e que devemos ouvi-lo. E, novamente, lá está o Espírito Santo para confirmar o que é dito, dessa vez sob a aparência de nuvem. Se queremos nos salvar, devemos ouvir o que nos diz Nosso Senhor Jesus Cristo.

A Santíssima Trindade está conosco desde o início de nossa vida natural e de nossa vida sobrenatural. Devemos invocar a Santíssima Trindade em todos os nossos atos, sobretudo aqueles que se referem mais diretamente a Deus. Se vamos começar os estudos, façamos ao menos o sinal da Cruz. Se vamos começar o trabalho, façamos ao menos o sinal da cruz. Devemos procurar começar nossas ações com o sinal da Cruz, tão bom resumo de nossa religião: no sinal da Cruz está contido o mistério da Encarnação e da Redenção pelo gesto, e o mistério da Unidade e Trindade em Deus pelas palavras.

Se é o Deus Uno e Trino que nos dá tudo o que somos e temos, se é a Santíssima Trindade que nos governa com bondade e sabedoria, ela é também o objeto primário do culto, da liturgia.. A santa Missa é oferecida à Santíssima Trindade. Na Missa Tradicional, isso é muito claro. No ofertório, após o Lavabo, o padre recita: “Recebei, ó Santíssima Trindade, essa oblação que vos oferecemos…” Antes da bênção, o padre diz: “que vos seja agradável, Trindade Santa, a homenagem deste vosso servo…” As orações da Igreja se concluem com uma referência à Santíssima Trindade. Na recitação do Breviário pelo padre, todos os salmos se concluem com o “Glória ao Pai”. Na Santa Missa, o primeiro gesto do Padre é o sinal da Cruz, profissão de fé na Santíssima Trindade.

É a liturgia que nos ensina, então, o primeiro de nossos deveres para com a Santíssima Trindade: adorá-la, como os anjos que cantam no céu dizendo “Sanctus, Sanctus, Sanctus” em homenagem à Santíssima Trindade. Devemos prestar o mesmo culto de latria às três pessoas da Santíssima Trindade. O segundo de nossos deveres é a gratidão para com a Santíssima Trindade, que nos criou e fez de nós filhos adotivos de Deus pelo batismo. O terceiro de nossos deveres é procurar reproduzir em nós a imagem da Santíssima Trindade: buscando ser santo como ela é Santa, conformando nossa vontade à dela, conservando entre nós uma união baseada em Deus. Ninguém mais do que Nossa Senhora reproduziu tão bem em sua alma a imagem da Santíssima Trindade. Peçamos a ajuda dela, caros católicos, para honrar e imitar a Santíssima Trindade.

“Bendita seja a Santíssima Trindade e a indivisível unidade. Louvemo-la porque fez conosco a sua misericórdia.”

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.