[Sermão] As lições da Transfiguração (antecedido por um aviso prático e circunstancial aos pais e por um aviso doutrinal)

Sermão para o 2º Domingo da Quaresma

16.03.2014 – Padre Daniel Pinheiro, IBP

ÁUDIO: Sermão para o 2º Domingo da Quaresma: Lições da Transfiguração

Em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Amém.

Ave Maria…

(Aviso prático)

                Gostaria de pedir aos pais que não deixem os filhos soltos e que não transformem o claustro das irmãs em parquinho. Não deixem os filhos correndo ou simplesmente brincando o tempo todo durante a Missa. Peço também que não alimentem as crianças durante a Missa. Se houver realmente necessidade, é preciso sair da Capela e alimentá-la rapidamente. Peço também aos pais e mães que às vezes ficam fora da Capela que não conversem, mas que busquem prestar atenção na Santa Missa. Estou consciente de que tudo isso exige um grande esforço, mas é necessário, para o bem da criança, para acostumá-la pouco a pouco a como se comportar em uma Igreja e durante a Missa, é necessário para os pais, para poderem prestar atenção melhor na Missa e para educar bem os filhos e é necessário para as outras pessoas que assistem à Missa. Sei que não é fácil, sobretudo que devemos ter aqui a maior proporção da cidade no que toca ao número de crianças em relação à quantidade de pessoas que assistem à Missa. É uma grande graça e sinal que existe fidelidade à lei natural e à lei de Deus. Mas precisamos ordenar um pouco as coisas. Nosso Senhor diz Sinite parvulos venire ad me (Deixai vir a mim as criancinhas). É preciso, então, que elas venham, mas os pais precisam redobrar o esforço, esforço que será recompensado.

(Aviso doutrinal)

                Muito se tem falado, mesmo no Vaticano, da possibilidade de dar a comunhão aos católicos casados na Igreja, em seguida divorciados e, depois, recasados. Se por acaso isso vier a acontecer, será a destruição completa da moral sexual católica, pois será a autorização de uma relação extraconjugal. Além disso, com essa comunhão aos divorciados recasados, se destroem três sacramentos: o matrimônio, a comunhão e a confissão. A comunhão aos divorciados recasados nunca foi, não pode ser, nem nunca será condizente com a doutrina de Cristo sobre o matrimônio. Não se pode servir a dois senhores, a Cristo e ao mundo. É preciso servir a Cristo.

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Sermão

“Este é o meu Filho dileto, em quem pus toda a minha complacência; ouvi-o”

                Caros católicos, nesse segundo domingo da Quaresma, a Santa Igreja nos apresenta o Evangelho da Transfiguração. Se todas as passagens da sagrada Escritura e do Evangelho em particular são importantes, o episódio da Transfiguração tem especial importância. Tanto é assim que três vezes durante o ano a Transfiguração é lida no Evangelho da Missa. Ontem, hoje e no dia 6 de agosto, Festa da Transfiguração de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Na Transfiguração, nós temos um pequeno resumo de todo o Evangelho, prezados católicos, o que é importante nesse tempo da Quaresma, em que buscamos realmente nos converter a Cristo, a aderir ao Evangelho. Nós temos, então, na Transfiguração, um resumo das verdades de fé mais necessárias e profundas e temos um resumo de como age a providência divina.

Eis que temos, então, no Monte Tabor, Jesus Transfigurado, seu rosto refulgindo como o sol e suas vestes mais brancas que a neve. Antes de tudo, precisamos entender o que ocorreu na Transfiguração. Ora, como sabemos, Jesus é verdadeiramente homem e verdadeiramente Deus. A união das naturezas divina e humana em Cristo é tão profunda e íntima que há uma só pessoa em Nosso Senhor Jesus Cristo, a pessoa divina, a pessoa do Verbo. A humanidade de Cristo está o mais unida possível à divindade, e desde o momento de sua concepção no seio de Maria. Sabemos que quanto mais algo está próximo da causa, mais ele se assemelha à causa. Portanto, a humanidade de Cristo, mesmo quando Ele estava ainda na terra, entre nós, se aproximava ao máximo da santidade divina. Assim, a alma de Cristo, desde o momento de sua concepção possui o mais alto grau de graça, de virtude, de dons… Mas, além disso, a alma de Cristo, desde o momento de sua concepção, possuía a visão beatífica. A alma de Cristo via desde o início Deus face a face. A consequência da visão beatífica na alma é a glorificação do corpo. E em Jesus, a glória do seu corpo é não somente consequência da visão beatífica, mas também de sua divindade. Dessa forma, Jesus deveria ter sempre seu corpo como ele apareceu aos três apóstolos no momento da Transfiguração, Ele deveria ter sempre um corpo glorioso. Deveria, mas não tinha. E não tinha porque não quis ter. E não quis ter para poder sofrer por nós, para poder satisfazer pelos nossos pecados, para poder mostrar seu amor por nós pelos seus sofrimentos, para nos salvar, para nos redimir, enfim. Portanto, prezados católicos, a primeira lição do evangelho de hoje, é a perfeição sem medida da alma de Cristo e sua divindade, em outras palavras, a Encarnação do Verbo.

No Evangelho, vemos também que apareceu uma nuvem e que uma voz falou. A nuvem é um símbolo de Deus. No deserto, no êxodo do Egito, Deus guiava o seu povo com uma nuvem durante o dia e de noite com uma coluna de fogo. Essa nuvem luminosa que vemos aqui no Evangelho é o Espírito Santo, caros católicos. E a voz que sai da nuvem e se dirige a Jesus Cristo, chamando-o de Filho, é Deus Pai, que coloca todas as suas complacências nEle. Temos aqui a Santíssima Trindade, caros católicos: um só Deus em três pessoas: Pai, Filho, e Espírito Santo.

Ao lado de Cristo temos Moisés e Elias. Neles está resumido todo o Antigo Testamento: a lei e os profetas. É a comprovação de que Jesus Cristo é o Messias, é o Salvador, é o Profeta, é o novo legislador anunciado no Antigo Testamento. Os dois personagens do AT estão a nos dizer que, com a vinda de Cristo, cessa o AT, a salvação já não pode ser encontrada no Antigo Testamento, mas somente em Jesus Cristo. Outra verdade de fé, prezados católicos: só pode haver salvação em Nosso Senhor Jesus Cristo, o Messias anunciado pelo Antigo Testamento. Só é verdadeira e só pode salvar a religião fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo, que é a católica. No Evangelho, se diz que Elias e Moisés falavam com Jesus. Certamente, falavam da obra de redenção de Cristo, de sua morte na Cruz, de seu amor pelos homens.

A Transfiguração ocorre em um monte, no monte Tabor. A elevação do monte indica que o que está ocorrendo ali é algo sobrenatural. Na verdade, a Transfiguração no Monte Tabor, nada mais é do que uma fresta pela qual podemos ver como será o céu. No céu, teremos Nosso Senhor em toda a sua glória, depois de seus sofrimentos sobre a terra. Teremos a Santíssima Trindade, que será eternamente contemplada, adorada, amada. Teremos os santos. Poderemos conhecer as comunicações a vida íntima de Deus, como vemos na Transfiguração a comunicação entre as pessoas divinas. Lá poderemos fazer a nossa tenda e sermos eternamente felizes. Aqui, na terra, temos que combater. Aqui está colocada a Transfiguração para mostrar qual o objetivo que devemos buscar. Devemos ter sempre diante de nós o fim que buscamos: o céu, a vida eterna.  Aqui está colocada a Transfiguração para que penetremos o prêmio que mereceremos se conhecermos, amarmos e servirmos Nosso Senhor Jesus Cristo.

Nesse tempo de Quaresma, é importante nos lembrarmos que é o céu a nossa felicidade. Todos os nossos sacrifícios, todos os nossos sofrimentos, todas as nossas obras, todas as nossas orações, tudo deve ser orientado para alcançarmos o céu. Na Transfiguração, temos algumas indicações do caminho a ser percorrido. Antes de tudo, é preciso subir o monte. A subida demanda esforço, trabalho. Todavia, sozinho não podemos subir. É Jesus quem nos leva. Para subir o monte que leva ao céu, para passar por esse vale de lágrimas e chegar ao céu, é preciso que Jesus nos leve, como ele levou os três apóstolos. Sem Jesus, nada podemos fazer. E se queremos que Jesus nos leve, devemos nos dispor para isso, rezando e procurando praticar com seriedade a sua vontade em todas coisas. Vemos Moisés e Elias. Moisés e Elias jejuaram ambos quarenta dias e quarenta noites, para cumprir melhor a vontade de Deus. Para subir o monte que leva ao céu, é preciso mortificação, como falamos domingo passado. Jesus levou São Pedro, São Thiago Maior e São João Evangelista com ele. São Pedro nos diz que é preciso prontidão no serviço de Deus, se queremos chegar ao monte Tabor celeste. São João nos diz que é preciso a pureza se queremos chegar ao monte Tabor celeste. São Thiago diz que devemos estar prontos, se for necessário, a dar a própria vida, para chegar ao monte Tabor celeste, pois São Thiago Maior foi o primeiro apóstolo mártir. A Transfiguração também está colocada aqui para mostrar que Deus sempre nos dá as graças diante das provações. Nosso Senhor quis aparecer glorioso diante desses apóstolos para que eles não se escandalizassem diante da provação que seria para eles a morte de Cristo na Cruz. Deus, na sua bondade infinita, sempre nos dá as graças para superarmos as provações. Com a cruz, Deus sempre nos manda a transfiguração, por mais que, às vezes, essa transfiguração não seja tão clara. Eis aqui algumas indicações importantes na Quaresma para chegarmos ao monte Tabor.

Todavia, mais importante que essas belas indicações, nós temos as palavras de Deus Pai. “Este é o meu Filho bem amado em quem eu coloquei todas as minhas complacências.” Todo o agrado de Deus está em Nosso Senhor Jesus Cristo. Assim, só será agradável a Deus e só encontrará a salvação aquele que está unido a Nosso Senhor Jesus Cristo. E, para estar unido a Nosso Senhor, é preciso, como diz Deus Pai, ouvir o que Nosso Senhor nos diz. É preciso ouvir os seus ensinamentos e colocá-los em prática, reconhecendo nesse ensinamento palavras de vida eterna. Assim, como está dito no Evangelho de São João (3, 36): “Aquele que crê no Filho tem a vida eterna; quem não crê no Filho não verá a vida, mas sobre ele pesa a ira de Deus.” Também Nossa Senhora nos diz a mesma coisa. Aos serviçais das bodas de Caná, ela diz:  Fazei tudo o que Ele, Cristo, vos disser. Está aqui o caminho para chegar ao Monte Tabor celeste, está aqui o objetivo desses quarenta dias de misericórdia e de graça que é a Quaresma: ouvir Nosso Senhor Jesus Cristo e fazer tudo o que Ele nos manda.

Que belo resumo do Santo Evangelho, caros católicos, temos diante de nós na Transfiguração. As verdades de fé mais importantes, o anúncio do céu e os meios para chegar até lá.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.