[Sermão] Mudar o nosso caminho, como os Reis Magos

Sermão para a Solenidade da Festa da Epifania do Senhor

12.01.2014 – Padre Luiz Fernando Pasquotto

 + Ave Maria.

Se retiraram a seu país por outro caminho”.

Depois de adorarem Nosso Senhor, os Reis magos pretendiam voltar para Jerusalém, a fim de informarem Herodes do que tinham visto, conforme o pedido que este mesmo rei lhes havia feito. É provável que os Reis magos tenham concebido alguma suspeita contra Herodes e que tenham interrogado Deus a respeito deste rei, recebendo depois uma resposta de Deus num sonho. É provável também que Deus tenha tomado a iniciativa, vindo em auxílio à boa vontade deles. Como comenta São Jerônimo, “os que haviam oferecido dons ao Senhor bem mereciam receber esta resposta” e, para protegê-los da astúcia de Herodes, Deus faz com que eles voltem por outro caminho.

A narração do retorno dos Reis magos ao seu país por outro caminho não é algo sem mistério. Já em outra passagem da Sagrada Escritura, onde é narrado o encontro entre Esaú e Jacó (Livro do Gênesis, capítulo XXXIII), Deus nos mostra que, ao final deste encontro, Esaú volta para o lugar em que vivia pelo mesmo caminho que tinha percorrido antes, mas Jacó se retira por outro caminho. Ora, Esaú sempre foi visto como imagem dos condenados, mas Jacó sempre foi visto como imagem dos predestinados, daqueles que servem a Deus e que andam pelos seus caminhos. Também na passagem do Evangelho de hoje, sem dúvida alguma podemos ver Herodes como imagem dos condenados, dos que não querem servir a Deus, e podemos ver nos Reis magos a imagem daqueles que querem ser fiéis a Deus e que querem andar pelo caminho dos seus mandamentos. Também aqui os Reis magos, de modo semelhante a Jacó, voltaram por outro caminho.

A lição que Deus nos dá neste Evangelho e em outras passagens da Sagrada Escritura é que depois de termos visto Deus por suas ações, pela sua Providência, depois de termos conhecido a doutrina católica, estamos proibidos de voltar pelo mesmo caminho que vínhamos percorrendo, de ter a mesma conduta que tínhamos antes. Quem veio de Herodes a Cristo não pode voltar de Cristo para Herodes.

Esta mudança de caminho foi possível porque os Reis magos tinham a alma cheia de boa vontade, de generosidade para com Deus. Deus sabe de quanta boa vontade estavam cheios os corações dos Reis magos, que empreenderam uma longa viagem a pé desde a Pérsia até a Palestina, viagem cheia de dificuldades e perigos, para adorarem Nosso Senhor, um pequeno menininho. Esta boa vontade e essa generosidade tornam a alma bem disposta para receber as graças de Deus que, uma vez recebidas, nos fazem passar do caminho do orgulho, do apego às coisas materiais e da sensualidade ao caminho da humildade, do desapego, da castidade e da modéstia. Em resumo, passamos a estar animados não mais do espírito do mundo, mas do espírito de Nosso Senhor.

Depois de terem visto Nosso Senhor, Nossa Senhora e São José, os Reis magos não permaneceram mais os mesmos que eram antes de entrar na intimidade da Sagrada Família. Agora que Cristo tinha nascido, eles também tinham nascido com Nosso Senhor e buscavam as coisas do alto, não mais as coisas da terra, e Deus quis que esta mudança interior fosse muito bem simbolizada na mudança do caminho exterior.

A Igreja, como Mãe sábia e zelosa pela salvação dos seus filhos, como Mestra que sabe interpretar bem o ensinamento que Deus nos dá na Sagrada Escritura, quer dispor bem as nossas almas para nos aproximarmos de Nosso Senhor na Eucaristia e recebê-lo de tal modo que nossas almas já não sejam as mesmas que eram no começo da Santa Missa. Ela o faz por meio dos ritos da Santa Missa.

No domingo passado festejamos o Santíssimo Nome de Jesus. Se devemos mostrar respeito ao usar o santo nome de Deus, com maior razão este respeito deve ser mostrado por nós quando se trata da Santíssima Eucaristia, na qual Nosso Senhor, Deus e homem verdadeiro, está realmente, substancialmente presente. Já não estamos diante do nome de Jesus, mas de Jesus em pessoa. Após a consagração do pão e do vinho é Deus realmente que está sobre o altar, apesar de nossos olhos, de nosso tato, de nosso paladar continuarem a nos dizer que é somente pão e vinho. Jesus Cristo mesmo disse que após a consagração a hóstia já não é mais pão, que o que está contido no cálice já não é mais vinho, mas que agora é Ele que está realmente presente sob as aparências de pão e de vinho. Nossos sentidos, aqui, nos mostram ainda presentes os aspectos de pão e de vinho, mas nós cremos naquilo que disse Nosso Senhor porque o falar de Nosso Senhor é sim, sim; não, não. Ele não precisa jurar para garantir a veracidade do que Ele afirma. Deus não pode se enganar, nem nos enganar.

Mas como na Eucaristia Deus, que fez os céus e a terra, está realmente presente sob as aparências de pão e vinho comuns, a Igreja sabe que, se ela não rodear a Eucaristia de toda a veneração e de todo o respeito que ela pode lhe dar, aos poucos os homens começarão a esquecer que Deus Nosso Senhor está realmente presente nela. Os Reis magos ainda puderam ver Nosso Senhor na sua humanidade. Na Comunhão nem a humanidade de Nosso Senhor nós podemos ver. É para ajudar a nossa fé na presença real de Nosso Senhor na Eucaristia que a Igreja veste o padre com todos os paramentos que ele usa na missa, pedindo que eles sejam, tanto quanto possível, muito belos; que ela pede que os fiéis recebam Nosso Senhor de joelhos e na língua – afinal de contas, se ao nome de Jesus todo joelho deve se dobrar, quanto mais diante de Nosso Senhor em pessoa; que o padre faça repetidas genuflexões durante a missa, após a consagração; que ele toque na hóstia com todo cuidado, só com o polegar e o indicador, e não use estes dedos para tocar mais nada depois da consagração até o fim da missa, quando ele os purifica com vinho e água. Da parte dos fiéis, a Igreja pede que eles se aproximem da comunhão não tendo pecados graves na alma (o que seria um sacrilégio), e vestidos conforme a modéstia católica, o que inclui ter os ombros e joelhos cobertos pela roupa que usa – o véu não basta – e tudo o que está entre os ombros e joelhos. Ao determinar um modo de se vestir para receber a comunhão, a Igreja quer ensinar seus fiéis com que reverência eles devem se aproximar da Sagrada Comunhão, na qual recebemos Deus, mostrando isso também na roupa que usam.

Deste modo, nossa boa disposição interior fica muito bem expressa na nossa aparência exterior. Mais que isso: auxiliados pelo rito da Santa Missa podemos voltar não mais pelo caminho que viemos, mas com novas disposições de servirmos a Deus, vivificados pelo Seu Espírito. Algumas igrejas eram construídas levando em consideração esta verdade e buscando simbolizá-la. O padre e os acólitos saíam da sacristia e se dirigiam ao altar, no começo da Santa Missa, por um caminho; ao final da Santa Missa, voltavam à sacristia por outro.

Depois de assistirmos à Santa Missa, ou de rezá-la, deveríamos voltar para casa com um coração todo abrasado do amor divino, a ponto de sermos um objeto de terror para o inferno. Mas não é isso que se vê. Observa-se que muitos voltam sempre mais tíbios, mais impacientes, mais soberbos, mais apegados às honras, ao interesse e aos prazeres terrenos. É por falta de preparação para receber bem Nosso Senhor.

Daqui a pouco nós receberemos Deus Nosso Senhor na comunhão, exatamente o mesmo Jesus Cristo que foi visitado pelos Reis magos nos braços de Nossa Senhora. Entrando na intimidade do Seu Sagrado Coração, aproveitemos para Lhe pedir que não caminhemos mais pelo mesmo caminho interior que estamos habituados a seguir até agora, mas que ao sair desta Santa Missa tomemos outro caminho interior, indicado a cada um de nós por sua Providência e aceito por nós com docilidade, Providência que não pode nos conduzir por caminhos de mentira e de morte, como o que Herodes seguiu, querendo enganar os Reis magos e matando as crianças de Belém. “Eu, disse Nosso Senhor, sou o caminho, a verdade e a vida”.