[Sermão] São Miguel, o demônio e o combate espiritual.

Sermão para a Festa da dedicação de São Miguel Arcanjo / 19º Domingo depois de Pentecostes

 29.09.2013 – Padre Daniel Pinheiro

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Ave Maria…

“São Miguel Arcanjo, defendei-nos no combate para não perecermos no dia do juízo terrível.” (Aleluia da Missa da Festa Dedicação de São Miguel Arcanjo)

A Festa que nós celebramos hoje não é simplesmente a Festa de São Miguel Arcanjo, mas é a Festa da Dedicação de São Miguel Arcanjo. Que dedicação é essa? Originalmente, se trata, provavelmente, da dedicação a São Miguel Arcanjo, feita nos primeiros séculos, nos subúrbios de Roma, de uma Igreja que ficava próxima à Via Salaria. Esse é, talvez, o significado original da Festa. Todavia, ela significa, hoje, a dedicação da Igreja Católica a São Miguel Arcanjo, que é, então, defensor da Santa Igreja.

A doutrina comum dos teólogos admite que há anjos da guarda não só dos homens, mas também de sociedades, de países, de dioceses, de paróquias, etc. São Miguel é como o anjo da guarda da Santa Madre Igreja, como o foi do povo judeu. E como anjo da guarda ele defende a Igreja constantemente dos males e perigos. Ele combate os demônios para que não façam tanto dano quanto gostariam de fazer. Ele favorece e inspira boas decisões aos membros da hierarquia. Ele oferece a Deus nossas orações: no momento da incensação no ofertório se invoca especificamente a intercessão de São Miguel Arcanjo. O incenso representa nossa oração e São Miguel a apresenta diante de Deus. São Miguel Arcanjo nos assiste também na hora de nossa morte e, por isso, se pede a ele, na Missa de Réquiem (de Defuntos), que leve as almas à santa luz. Eis algumas das funções de São Miguel a quem a Santa Igreja se dedica.

Todavia, São Miguel é o príncipe da milícia celeste, ele nos defende no combate. E creio que seja esse o principal fruto que podemos tirar hoje dessa festa: “a vida do homem sobre a terra é um combate (militia est vita hominis super terram)”, como nos diz o livro de Jó (7, 1). E, como nos diz São Paulo, não é somente contra a carne e o sangue que temos de lutar, mas contra os principados e potestades do inferno, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra os espíritos malignos espalhados nos ares (Efésios 6, 12). E Nosso Senhor diz: “Não julgueis que vim trazer a paz à terra. Vim trazer não a paz, mas a espada” (Mateus 10, 34). E, assim, poderíamos multiplicar as passagens da Sagrada Escritura que nos mostram que estamos em combate, em combate pela glória e honra do Deus altíssimo, pelo bem e liberdade da Igreja e em combate pela salvação de nossas almas. E, por isso, a Igreja que está no mundo se chama Igreja Militante.

Nosso combate é, então, principalmente contra o demônio, o pai do pecado. Os demônios, os anjos caídos, têm por finalidade conduzir o homem à separação de Deus. Os demônios odeiam profundamente a Deus e odeiam a imagem e semelhança que os homens em estado de graça têm com Deus. Os demônios trabalham, portanto, para destruir a vida da graça em nós. Fazem isso por ódio a Deus e por inveja a nós, que ainda temos a possibilidade de nos salvarmos. O desejo íntimo deles é que a adoração devida a Deus seja prestada a eles. Se te prostrares a meus pés, adorando-me, eu te darei tudo isso, diz o demônio a Nosso Senhor. E, para atingir o seu propósito, satanás e seus asseclas têm armas poderosas. Evidentemente, eles tentam as pessoas individualmente, sugerindo o pecado, colocando coisas na nossa imaginação, por exemplo, tentando nos fazer consentir no mal. Lembro, porém, que os demônios não podem agir sobre nossa inteligência nem sobre a nossa vontade. Aqui, somente nós e Deus podemos agir. Mas os demônios vão além dessa tentação individual. Querendo ser como Deus, eles imitam a ação de Deus. Deus faz que todas as coisas se dirijam ao bem daqueles que o amam. Os demônios, ao contrário, tentam dirigir tudo para o mal. Eles potencializam ao máximo os pecados individuais para formar, a partir deles, estruturas de pecado, quer dizer, o demônio usa esses pecados pessoais para organizar e sistematizar uma cultura que favoreça o pecado, para organizar sociedades, grupos que favoreçam o pecado, etc. Podemos ver isso no caso das falsas religiões, que, às vezes, começam com um pecado pessoal – pensemos no caso de Lutero, por exemplo, que, com seus escrúpulos, dividiu a cristandade ao meio, criando o protestantismo para justificar a sua consciência. Podemos ver essa estrutura de pecado nas sociedades secretas, na maçonaria, verdadeira anti-Igreja. Essas estruturas de pecado estão muito bem instaladas hoje, caros católicos. Às vezes, elas são evidentes, como nos casos que acabamos de mencionar e outros: falsas religiões, sociedades secretas, indústria pornográfica, o sistema político que não leva em conta Deus e sua Igreja, etc. Muitas vezes, porém, essas estruturas são mais discretas, menos perceptíveis. É o caso de muitas das diversões de nossos dias. Quantos filmes que introduzem sorrateiramente um ponto contra a fé ou que introduzem por uma única cena a impureza em nossa alma. E a televisão, então? E quantas músicas, seja pela letra seja pelo ritmo também não favorecem o pecado, a desordem nos nossos apetites. E também os livros ruins… São João Bosco, em uma de suas visões, via a barca da Igreja sendo atacada por livros… por livros ruins. Agora, há meios bem mais eficientes de atacá-la: os filmes ruins, a televisão, internet. Não estou dizendo que essas coisas são necessariamente ruins. Podem ser boas. Mas quão raramente podemos encontrar filmes que de nenhum modo prejudiquem a nossa alma ou programas de TV que de nenhum modo prejudiquem a nossa alma. Temos também as modas ofensivas a Nosso Senhor, as máximas do mundo, jogos de computador. Em algumas coisas, o demônio se manifesta mais claramente, como na série Harry Potter, por exemplo, ou como em um jogo de computador em que o objetivo é matar o Papa. A diversão moderada é legítima, mas não é lícita a diversão quando se ofende a Deus ou quando se prejudica a nossa alma. É o demônio o principal autor da cultura de morte em que vivemos hoje, uma cultura que favorece e facilita tanto o pecado e mesmo pecados gravíssimos como o aborto, a prática homossexual, etc. Quão grande deve ser o nosso cuidado com tudo isso, para evitarmos em tudo a ofensa a Deus.

O demônio é insidioso, ele arma ciladas para nos perder, e, como nos diz São Pedro, “o demônio, nosso adversário, anda ao redor de nós como um leão que ruge, buscando a quem devorar” (1 Pedro 5, 8). O demônio ataca. Suas armas são poderosíssimas. No mais das vezes, ele é sutil, tentando fazer com que sirvamos a dois senhores, a Deus e ao mundo, mundo entendido aqui como tudo o que conduz ao pecado. O demônio nos sugere: “você pode servir a Deus, mas não precisa abandonar aquela série de TV de que você tanto gosta só porque lá se fala um pouquinho mal da Igreja ou porque lá se faz uma apologia do amor livre”; “você pode servir a Deus, mas não precisa abandonar aquela roupa de que você gosta e que atrai olhares indevidos.” “você pode servir a Deus, mas não precisa abandonar aqueles lugares mundanos que você frequenta”; “isso aqui é só um pecado leve, não pode fazer tão mal, não precisa abandoná-lo…”

O demônio ataca… e nós, nos defendemos ou nos deixamos levar por essas ciladas, caros católicos? Devemos combater o bom combate. Se as armas do demônio são poderosas, elas não são nada comparadas às armas que Deus nos dá, pois o demônio é como um nada diante de Deus. Auxiliados pela graça e apoiados em NSJC, em Nossa Senhora, nos anjos e santos, os ataques do demônio serão vãos. Para nos defender e atacar, algumas de nossas principais armas são: a fé viva, a oração, os sacramentos (confissão, comunhão e crisma, para quem ainda não é crismado), a meditação da paixão de Cristo, a devoção a Nossa Senhora, os sacramentais (em particular água benta, a bênção do lar), a fuga das ocasiões de pecado, a mortificação, etc… E, importantíssimo, caros católicos, é preciso ter um desejo profundo da santidade, de amar a Deus com todo o nosso ser e ao próximo por amor a Deus. Devemos ter esse desejo profundo de servir unicamente a Nosso Senhor Jesus Cristo. Devemos considerar com frequência a bondade de Deus, suas perfeições. Devemos considerar com frequência a alegria que é servi-lo aqui na terra e a alegria que teremos no céu, se servimos a um só Senhor aqui na terra.

O demônio, como não poderia deixar de ser, ataca também a Igreja. A tentação é clara e, mais uma vez, é, no fundo, aquela terceira tentação de Cristo no deserto: “Igreja, se te prostrares diante de mim, adorando-me e adaptando a tua doutrina e a tua moral, te darei tudo: a aceitação do mundo, maior número de fiéis, não haverá mais perseguições, etc.” Quão mentiroso é o demônio. Se a Igreja não pode sucumbir, caros católicos, pois as portas do inferno não prevalecerão, conforme as promessas de Cristo, essa tentação é bem real e bem presente para os homens da Igreja. Nós devemos, então, rezar a São Miguel para que defenda a Igreja, ele que é seu protetor. Na liturgia tradicional, após a Missa rezada, o padre diz as chamadas orações leoninas, introduzidas pelo Papa Leão XIII, e depois complementadas por São Pio X. Depois da Missa rezada, o padre se ajoelha diante do altar e recita com os fiéis três Ave-Marias, uma Salve Rainha, uma oração para Nossa Senhora na qual se pede a exaltação e a liberdade para a Igreja. Em seguida, recita a oração a São Miguel Arcanjo, contra o demônio e os outros espíritos malignos. E se concluem as orações leoninas com a invocação ao Sagrado Coração de Jesus, repetida três vezes. Assim, todos os padres no mundo inteiro imploravam diariamente e diante do altar, logo após a Missa, a intercessão de São Miguel contra as ciladas do demônio. Isso se perdeu com reforma litúrgica. Não é de se espantar que a influência do demônio tenha aumentado. Devemos recitar diariamente essa oração a São Miguel Arcanjo, caros católicos, pela Igreja e por nós mesmos, para que sejamos preservados das insídias e ciladas do demônio. E devemos usar as armas que mencionamos há pouco.

O demônio é um anjo caído, extremamente inteligente e muito capaz no mal, mas ele é uma mera criatura. O demônio não é um deus do mal, mas ele é uma pura criatura, infinitamente inferior a Deus, a Nosso Senhor Jesus Cristo. E inferior aos anjos, que possuem a graça de Deus. Em particular, ele é muito inferior a São Miguel. O nome Miguel indica justamente isso, pois Miguel quer dizer: quem é como Deus? Ninguém é como Deus, soberano Senhor e criador de todas as coisas.  Sendo uma mera criatura, o demônio só age no mundo na medida em que Deus o permite, segundo os desígnios da sua divina providência. A ação do demônio também entra nos planos da divina providência e Deus permite que ele aja para tirar da ação do demônio um bem muito superior. Vemos isso claramente durante a vida de Nosso Senhor. O demônio incitou a paixão e a morte de Nosso Senhor, pensando vencer definitivamente o Messias. Mas sem saber e sem querer, ele trabalhou para a salvação do mundo e para a sua própria derrota. Deus não quer a ação do demônio, mas ele não a impede, para tirar dela um bem superior. Como nos diz Santo Agostinho: “O Deus todo poderoso […], sendo sumamente bom, não deixaria de nenhum modo que existisse o mal, se Ele não fosse suficientemente poderoso e bom para tirar do mal um bem” (Enchiridion III, 11) e um bem maior. O demônio é uma mera criatura, e Deus, não impedindo o mal realizado pelo demônio, tira desse mal, das tentações, um bem maior, para sua glória e para nós, se buscamos em todas as coisas a vontade de Deus.

Estamos em um grande combate, caros católicos, um combate espiritual. Não só contra a nossa carne ferida pelo pecado original, não só contra o mundo, mas contra os espíritos malignos. Nesse combate, devemos recorrer aos anjos, a São Miguel em primeiro lugar, aos nossos anjos da guarda. E devemos fazer isso de forma correta, pois existem hoje várias devoções aos anjos que não estão de acordo com a prática católica. Em particular, a prática de dar nome aos anjos e de lhes atribuir determinadas funções específicas. Só conhecemos o nome de três anjos: Gabriel, Rafael, Miguel. Portanto, não se deve falar de Uriel e outros. Não se deve comparar a ação dos anjos a algo parecido com a astrologia, determinando-se um mapa astral dos anjos ou outras práticas que beiram a superstição ou o esoterismo. Em particular, a Santa Sé diz (decreto de 1992 da Congregação para a doutrina da Fé) que as “teorias (da senhora Gabriele Bitterlich, fundadora da Obra dos Santos Anjos) acerca do mundo dos anjos, dos seus nomes pessoais, dos seus grupos e funções”, são “estranhas à Sagrada Escritura e à Tradição”, e que essas teorias “não podem servir como base para a espiritualidade e atividade de associações aprovadas pela Igreja.” A Igreja só admite os três nomes conhecidos na Sagrada Escritura – Gabriel, Rafael, Miguel – como afirmam os Capítulos de Carlos Magno e o Concílio Romano realizado sob o Papa Zacarias. Na Igreja de Santa Maria dos Anjos em Roma, nos conta Bento XIV, havia uma pintura com nomes de outros anjos. Foi mandado que esses nomes fossem apagados (Bento XIV, L. IV, Cap. XXX). Sigamos a doutrina tradicional da Igreja na devoção aos anjos e não revelações privadas proibidas ou duvidosas.

Devemos rezar a São Miguel Arcanjo e ao nosso anjo da guarda. A oração “Santo Anjo do Senhor”, para o anjo da guarda, não é uma oração para crianças, mas uma oração para todos, crianças e adultos, que deve ser feita diariamente, principalmente pela manhã e em momentos de necessidade, para que nosso anjo da guarda nos ajude.

Estamos em um grande combate. Combate pela glória do Deus altíssimo.  Combate pela vida eterna. Nós fazemos parte da Igreja Militante, caros católicos, e não simplesmente da Igreja peregrina. Devemos nos armar com as armas espirituais, para que possamos dizer ao fim de nossas vidas, como São Paulo, em uma das mais belas frases da Sagrada Escritura: “combati o bom combati, guardei a fé”. Que nós possamos combater o bom combate contra a carne, o mundo, o demônio, e possamos guardar a fé, e uma fé viva, animada pela caridade. “Tende confiança, nos diz Nosso senhor, eu venci o mundo.” (Jo XVI, 33). Ânimo, coragem. Para Deus, nada é impossível.

Recorramos sempre com grande confiança a São Miguel nesse combate, ele que é o Príncipe das milícias celestes, ele que porta o estandarte da Cruz. São Miguel Arcanjo, defendei-nos nesse combate, sede nossa guarda contra a maldade e ciladas do demônio. Instantemente e humildemente pedimos que Deus sobre ele impere; e vós, príncipe da milícia celeste, com o poder divino, precipitai no inferno a Satanás e aos outros espíritos malignos, que vagueiam pelo mundo para a perdição das almas.

Em nome do pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.