[Sermão] Nossa Senhora das Dores, a corredentora

Sermão para o 17º Domingo depois de Pentecostes – Festa de Nossa Senhora das Dores

15.09.2013 – Padre Daniel Pinheiro

ÁUDIO: Sermão para a Festa de Nossa Senhora das Dores Corredentora – 17º Domingo depois de Pentecostes 15.09.2013

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Ave Maria…

O Livro do Apocalipse nos diz que “apareceu no céu um grande sinal: Uma mulher vestida de sol, e a lua debaixo dos seus pés, e uma coroa de doze estrelas sobre a sua cabeça; e, estando grávida, clamava com dores de parto, e sofria tormentos para dar à luz.” Nós já vimos, na Solenidade da Assunção, que essa mulher representa, principalmente, Nossa Senhora, já vimos o que significa ela estar vestida de sol, com a lua debaixo de seus pés e coroada de doze estrelas. Mas vemos também que ela está grávida e sofre com as dores de parto, sofrendo tormentos para dar à luz. Ora, sabemos que as dores do parto são consequência do pecado original, são uma pena pelo pecado original. Todavia, sabemos também que Nossa Senhora foi concebida sem o pecado original e sabemos que Nosso Senhor foi concebido no seio de Maria por obra do Espírito Santo. A partir disso, somos obrigados a concluir que Nossa Senhora não sofreu as dores do parto ao dar à luz o Menino Jesus. Mas o texto do Apocalipse é claro. A Mulher está grávida e sofre com as dores do parto e sofre tormentos para dar à luz. Que filho é esse, então, e que dores são essas, caros católicos? Esse filho de que nossa senhora está grávida somos nós, prezados católicos, somos nós, seus filhos na ordem da graça. Se Nossa Senhora deu à luz o Menino Deus sem dor, ela nos gera para a vida da graça em meio às maiores dores e sofrimentos. Se ela deu à luz a Cabeça, que é Cristo, sem dor, nós, os membros do corpo místico de Cristo, somos gerados com dor. Somos gerados pela dor de Cristo, pelos seus sofrimentos nesse mundo, e somos gerados pelas dores de Nossa Senhora, dores que acompanham o seu Filho, dores que ela aceitou e ofereceu para a nossa salvação. Nossa Senhora, ao dizer o “fiat” ao Anjo Gabriel, ao aceitar a Encarnação do Verbo, ao se submeter inteiramente à vontade de Deus, aceitou também todos os sofrimentos ligados ao seu papel de Mãe do Redentor. Ela aceitou cooperar na nossa redenção pelas suas dores, oferecendo seu filho. Nossa Senhora é verdadeiramente corredentora nossa. Claro que seu papel na redenção não é paralelo e independente de Cristo. Ao contrário, a participação de Nossa Senhora na nossa redenção é subordinada, dependente de Cristo e secundária. Nada falta na redenção feita por Cristo, que é verdadeiramente homem e Deus. Não obstante, Ele quis associar de modo particular Nossa Senhora na obra da redenção.

Um dos princípios que nos guiam quando falamos de Maria Santíssima é a antítese ou a contraposição com relação à Eva e ao papel de Eva no pecado original. No pecado original, Eva coopera com o pecado de Adão, mas o pecado original é só de Adão, pois só ele é realmente a origem do gênero humano. Se só Eva tivesse pecado, seria um pecado pessoal, não haveria o pecado original que herdamos todos e que nos faz nascer sem a graça santificante, sem a amizade com Deus. Eva coopera formalmente no pecado de Adão, mas o pecado é de Adão. Se invertermos, então, as coisas, temos que Nossa Senhora coopera na obra da redenção, feita por Cristo, o novo Adão. Se Cristo não tivesse sofrido e morrido na Cruz, Nossa Senhora nada poderia fazer. Toda a redenção vem de Cristo, Nossa Senhora é redimida e se ela coopera na obra da redenção é em virtude das graças obtidas por Cristo. Mas Cristo quis que Nossa Senhora cooperasse, de forma dependente, subordinada e secundária, na obra da nossa redenção, de nossa salvação. Nossa Senhora é realmente nossa corredentora, sem que isso tire em nada a glória de seu Filho e o valor infinito de sua encarnação e morte. Se Nossa Senhora é corredentora, isso é já um fruto da redenção.

Nossa Senhora oferece à Santíssima Trindade todas as suas dores – principalmente desde o momento da Encarnação – para a nossa redenção. Nossa Senhora, sendo Mãe do Redentor, o acompanha em todos os seus sofrimentos e penas durante toda a sua vida e principalmente em sua paixão e morte. Inúmeras são as dores e os sofrimentos de Nossa Senhora para nos gerar para a graça. São inúmeras as dores de Nossa Senhora durante toda a sua vida. A Igreja e o povo devoto escolheram principalmente sete dores de Nossa Senhora, dores que resumem todas as outras. A primeira delas é a profecia de Simeão, profecia de que uma espada transpassaria o coração de Nossa Senhora. Por essa dor, podemos pedir a Deus que imprima em nossas almas a Paixão de Cristo e as dores de Nossa Senhora, para que tenhamos sempre presente o quanto vale a nossa alma e o quanto custa o pecado, e podermos assim emendar a nossa alma. A segunda dor é a fuga para o Egito. Por essa dor, podemos pedir à Virgem Dolorosa a graça de sofrer com paciência até a morte todas as provações dessa vida. A terceira dor é a perda do Menino Jesus em Jerusalém durante três dias. Por essa dor, podemos pedir a graça de nunca perdermos Deus e a graça de morrermos unidos a Ele. A quarta dor é o encontro da Santíssima Virgem com seu Filho no caminho da Cruz. Por essa dor, podemos pedir a graça da conformidade com a vontade de Deus em todas as coisas e a graça de carregar a nossa cruz com alegria até nosso último suspiro. A quinta dor é a crucificação de Nosso Senhor. Por essa dor, podemos pedir a graça de viver e morrer crucificados para tudo o que é mundano. A sexta dor é a descida da Cruz, é Nossa Senhora que tem em seus braços seu Filho morto e desfigurado. Por essa dor, podemos pedir a graça do arrependimento e do perdão de nossos pecados. A sétima dor é o sepultamento de Cristo. E por essa dor, devemos pedir a graça da perseverança final.

São inúmeras as dores de Nossa Senhora e ainda maior é a qualidade e a intensidade dessas dores. Quanto maior é o amor, maior é a dor, ao ver o bem amado sofrer. O amor de Nossa Senhora por seu Divino Filho não pode ser calculado. Podemos, então, imaginar a sua dor diante do desprezo dos homens pelo Salvador, diante da crueldade, diante do deicídio. Nossa Senhora sofria enquanto Mãe de Cristo, mas também enquanto nossa Mãe, vendo tantos de seus filhos ofendendo a Deus. A Virgem Dolorosa sofreu mais do que todos os mártires juntos e deveria ter morrido de tanta dor, se Deus não a tivesse conservado em meio a tantos e tão grandes sofrimentos para que ela participasse da nossa redenção. Nossa Senhora, unida a Cristo, aceitou as dores e ofereceu as dores à Santíssima Trindade para nos salvar.

Todavia, quão esquecidas são as dores de Nossa senhora, caros católicos. A Virgem Santíssima, Santo Afonso nos diz (Glórias de Maria, 367), queixou-se à Santa Brígida de que muito poucos são os que dela se compadecem e que a maior parte dos homens vive esquecida de suas aflições. Em seguida, a Virgem recomendou à Santa que guardasse continuamente a memória dessas dores. Consideremos, pois, com frequência as dores de Nossa Senhora, caros católicos, e nelas encontraremos grandes consolos e grandes graças. Grandes consolos porque veremos que não há dor em nossa vida que supere as dores de Nossa Senhora. E uma Mãe que sofreu tanto se compadece ainda mais de seus filhos em seus sofrimentos. As dores de Nossa Senhora nos ensinam que aquele que semeia nas lágrimas, colhe na exultação, na alegria, como diz o Salmo (125). Nas aflições, nas provações, nas cruzes, olhemos para as dores de Nossa Senhora. Ela sofreu mais, e pode e quer nos consolar. Ela semeou nas lágrimas e colheu na alegria eterna. Olhemos para Nossa Senhora e seu coração transpassado pelas sete espadas. Encontraremos na Virgem Dolorosa a doçura necessária para suportar as nossas dores. No pecado, olhemos para as dores de Nossa Senhora e para a paixão de Cristo, e encontraremos graças abundantes de conversão. Olhemos para a Virgem Dolorosa e tenhamos uma grande gratidão por tudo aquilo que sofreu por nós em união com seu Divino Filho. Olhemos para Maria e vejamos do que é capaz uma Mãe que ama seus filhos.

Grandes graças, nos diz o mesmo Santo Afonso, estão reservadas aos devotos das dores de Nossa Senhora. O Santo relata a seguinte revelação feita a S. Isabel a esse respeito: “São João Evangelista, depois da Assunção da Senhora, muito desejava revê-la. Obteve, com efeito, essa graça e sua Mãe querida apareceu-lhe em companhia de Jesus Cristo. Ouviu em seguida Maria pedir ao Filho algumas graças especiais para os devotos de suas dores, e (ouviu) Jesus prometer quatro principais graças. Ei-las: 1º) esses devotos terão a graça de fazer verdadeira penitência por todos os seus pecados, antes da morte; 2º) Jesus guardá-los-á em todas as tribulações em que se acharem, especialmente na hora da morte; 3º) Ele lhes imprimirá no coração a memória de sua Paixão, dando-lhes depois um prêmio especial no céu; 4º) por fim, os deixará nas mãos de sua Mãe para que deles disponha a seu agrado, e lhes obtenha todos e quaisquer favores.” (Santo Afonso Maria de Ligório, Glórias de Maria, p. 368). Segundo esse relato, a devoção às Dores de Nossa Senhora é de origem apostólica. Mas nem precisávamos desse relato para saber disso. Basta considerar os Evangelhos, sobretudo o de São João, que nos diz que Nossa Senhora estava lá de pé, diante de Deus, de pé para mostrar seu consentimento, sua adesão total à obra da redenção, para mostrar a ausência de desespero, para mostrar a serenidade no meio das maiores dores. É evidente que os primeiros cristãos não podiam deixar de considerar as dores de Nossa Senhora.

Assim, prezados católicos, dada a excelência particular dessa devoção a Nossa Senhora das Dores, dado que ela tanto agrada a Nosso Senhor e a Nossa senhora, dado que ela manifesta o fato de que Nossa Senhora é corredentora, dado que essa devoção consola o Coração de Maria, dado que ela nos obtém grandes graças, recomendo a todos uma grande devoção às dores de Nossa Senhora. E levando tudo isso em consideração, depois da novena preparatória que fizemos, peço a cada um que se consagre a Nossa Senhora das Dores, com verdadeira intenção de emendar-se, de viver uma vida santa. É o que faremos recitando juntos o ato de consagração a Nossa Senhora das Dores. E consagrando-nos, consagraremos também esse nosso singelo apostolado, para que plantando nas lágrimas possamos colher na exultação. Porque, vejam, o fruto das dores de Nossa Senhora e da devoção à Virgem Dolorosa é a alegria. Por isso, o Papa Pio VII coloca a alegria como última invocação da Ladainha de Nossa Senhora das Dores. Nossa Senhora das Dores é a alegria de todos os santos, porque nos traz a salvação pelo seu Filho, porque unida a Ele nos redime, porque nos consola nas angústias e sofrimentos. Coloquemos, então, esse nosso apostolado nas mãos de Nossa Senhora das Dores, para que cada um de nós e para que os que vierem depois de nós possam colher na alegria da vida eterna.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.