[Sermão] São Pedro e o Papa

Sermão para a Festa dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo
29 de junhode 2013 – Padre Daniel Pinheiro

 

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém. Ave-Maria…

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Peço que rezem por sua Eminência, o Cardeal Dom José Freire Falcão, que foi criado Cardeal no dia 28 de junho de 1988, completando ontem 25 anos de cardinalato. Sua Eminência, tem nos ajudado muito nesse Apostolado. Rezemos por ele também em agradecimento.

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“Tu és Pedro e sobre esta Pedra edificarei a minha Igreja.” Mt. 16, 16.

O Evangelho de S. Mateus de hoje é fundamental. Trata-se de uma das passagens mais importantes da Sagrada Escritura. Neste Evangelho está contido e afirmado o Primado de São Pedro e de seus sucessores, primado que faz parte da constituição da Igreja tal qual instituída por Deus, por NSJC.

Jesus dirigia-se, então, com seus discípulos à cidade de Cesaréia de Felipe, cidade pagã dedicada ao Imperador Romano e onde o culto aos ídolos era extremo. Convinha que Jesus Cristo estabelecesse aqui o chefe de sua futura Igreja: i) para mostrar que, em matéria religiosa ou em matéria conexa a ela, o Papa está acima do Imperador e de qualquer poder civil, e ii) para mostrar que a Igreja deve se estender não somente aos judeus, mas também aos pagãos, para que todos sigam a Cristo.

Nosso Senhor pergunta então aos apóstolos o que os outros dizem a seu respeito. Alguns dizem que é S. João Batista ressuscitado – em particular Herodes dizia isso (por peso na consciência após ter matado o precursor, que denunciava o seu adultério), outros dizem que NS é Elias (que deveria preceder o Messias), outros, Jeremias (profeta da misericórdia, que pedia aos homens um coração de carne e não de pedra). Aqui Cristo dirige-se a todos os Apóstolos e todos respondem.

Nosso Senhor pergunta em seguida o que eles mesmos pensam de sua pessoa. Quem responde é Simão Pedro somente. “Tu és Cristo, o Filho do Deus Vivo.” Com essa resposta, S. Pedro confessa não somente que Nosso Senhor é o Messias, mas também que ele é Filho de Deus segundo a natureza e não somente por adoção. S. João Batista, Elias, Jeremias são filhos de Deus por adoção, mas Cristo é filho natural de Deus, quer dizer, ele é verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Ele é o Verbo de Deus, que é Deus, encarnado.

São Pedro responde à pergunta de Cristo dizendo quem Cristo é. A resposta de Cristo a S. Pedro diz quem é São Pedro.  NS responde: “Bem-aventurado és tu Simão, Filho de Jonas. Porque nem a carne nem o sangue te revelaram isso, mas meu Pai que está nos céus.” Em primeiro lugar NS diz que quem reconhece a sua divindade e age em consequência, praticando o que Ele ensinou e praticando o que a Igreja ensina será bem-aventurado nessa vida e, sobretudo, na outra. Em segundo lugar, Nosso Senhor faz uma oposição para deixar manifesta a sua divindade: eu sou filho natural de Deus como tu és filho natural de Jonas (Bar Jonas significa filho de Jonas). Em terceiro lugar, tal confissão de uma verdade sobrenatural não pode vir dos homens nem ser uma invenção dos homens, mas ela provém de Deus.

Depois dessa sublime e importantíssima confissão de fé, Nosso Senhor diz à Simão, Filho de Jonas, e somente a ele: “Tu és Pedro e sobre esta Pedra edificarei a minha Igreja.” Primeiro devemos notar a mudança de nome. Simão torna-se Pedro. Quando Deus muda o nome de alguém isso significa uma nova missão que lhe é conferida. Assim foi, por exemplo, com Abrão, que se tornou Abraão após a aliança. E o novo nome significa a nova função. Abraão significa pai de uma multidão de nações. O nome de Pedro significa que o Apóstolo vai ser o fundamento visível da Igreja de Cristo, da única Igreja de Cristo, pois existe apenas uma Igreja de Cristo (ele diz edificarei a “minha Igreja no singular” e não “minhas Igrejas” no plural[1]) e esta única Igreja de Cristo está fundada sobre Pedro. Em hebraico, Pedro e Pedra são exatamente a mesma palavra: cephas ou kephas. Tu és kephas e sobre Kephas edificarei a minha Igreja. Então, evidentemente, a Pedra sobre a qual Cristo vai fundar a sua Igreja é Pedro. São completamente fora de propósito as interpretações dos protestantes com a finalidade de torcerem as palavras do Salvador. Dizem os protestantes que a pedra sobre a qual Cristo vai edificar a Igreja é a fé confessada por Pedro, quer dizer, a Igreja vai ser edificada sobre a confissão da divindade de Cristo, mas não sobre Pedro. Ora, basta ler o que está escrito: Cristo dirige-se a Pedro diretamente e diz “tu és Pedro (Kephas) e sobre esta Pedra (Kephas) edificarei a minha Igreja”. Teria sentido Cristo dizer: tu és Pedro, mudando o nome de Simão, para dizer que ele vai edificar a sua Igreja sobre a fé? Além disso, o esta se refere a um termo que está próximo, que pode ser somente Pedro.

 A Igreja de Cristo é como uma casa e São Pedro como a pedra fundamental, firmada, claro, em Cristo. É a pedra fundamental que dá a estabilidade e a unidade do edifício. Tirando a Pedra fundamental todo o edifício desmorona. Numa sociedade, como é a Igreja, o que dá unidade e coerência é a autoridade suprema. São Pedro é a autoridade suprema da Igreja, que dá a unidade e a estabilidade, e sem a qual a casa desmorona. A autoridade suprema da Igreja é o Papa e não o colégio dos Bispos e mesmo um bispo em sua diocese está completamente subordinado ao Papa. A Igreja é uma monarquia e não uma democracia. E se hoje a Igreja parece, sob alguns aspectos, desmoronar (com uma queda enorme no número de fiéis, no número de vocações, queda vertiginosa da prática religiosa, apostasia das nações antes católicas) é porque essa autoridade suprema é hoje menosprezada, mesmo dentro da Igreja, infelizmente, e mesmo entre muitos dos que mais deveriam defendê-la e favorecê-la.

A Igreja parece desmoronar. Mas ela não pode desmoronar em virtude das promessas de N. Sr.: “as portas do inferno não prevalecerão contra ela”. Isso significa, primeiramente, que a Igreja vai existir até o final dos tempos; segundo, que ela vai existir tal como ela foi fundada por Cristo, quer dizer sobre Pedro, sobre o Papa; terceiro, que ela não vai jamais falhar na sua missão de transmitir fielmente a doutrina de Cristo, o que significa que em matéria de fé e de moral, mesmo nas questões mais atuais e recentes, quando ela ensina de maneira definitiva ela não pode errar. Por outro lado, essas palavras indicam que ela vai ser atacada, exteriormente por perseguições e interiormente por heresias e escândalos. Todavia, ela resistirá intacta na sua constituição e na sua doutrina. Em vão trabalham aqueles que querem destruí-la ou mudá-la. A Igreja está fundada não sobre a areia, mas sobre a rocha, sobre Pedro. Podem vir ventos e tempestades. Ela não cairá jamais. Como NSJC, ela vencerá o mundo.

NS confere finalmente a S. Pedro as chaves do reino dos céus e diz que tudo o que ele ligar sobre a terra será ligado no céu e tudo o que ele desligar na terra será desligado no céu. Tanto no mundo pagão quanto no mundo hebreu as chaves sempre representaram o poder. As chaves de um reino simbolizam justamente o poder supremo nesse reino. São Pedro tem o poder de governo supremo na Igreja. Vale destacar que Cristo diz aos outros apóstolos “tudo o que ligares na terra será ligado no céu e tudo o que desligares na terra será desligado no céu” (Mat. 18, 18), mas NS não lhes dá as chaves do reino dos céus. Só São Pedro tem as chaves e, portanto, os outros podem ligar e desligar, desde que São Pedro, que detém as chaves, o permita. O poder dos outros apóstolos é subordinado ao de São Pedro. E São Pedro será, em seus sucessores, o fundamento e a autoridade suprema da Igreja até o final dos tempos. Se o edifício deve existir até o final dos tempos, é preciso que haja uma pedra fundamental até o final dos tempos. Essa pedra fundamental é o Papa, sucessor de São Pedro no bispado de Roma. Ao aceitar o papado, recebem-se também as prerrogativas dadas a São Pedro: prerrogativa de Pedra, prerrogativa de ter as chaves do reino dos céus para ligar e desligar. Pedro hoje é Francisco.

O Papa, sucessor de São Pedro, é, então, o chefe supremo da Igreja, que deve ser obedecido de maneira incondicional por todos, bispos e fiéis, em matéria de fé e de moral quando ele ensina de maneira definitiva. Ele deve também ser obedecido, a priori, em matéria disciplinar. O papa tem o poder de santificar, de governar e de ensinar os fiéis com a autoridade mais alta que existe. Com o Papa – São Pedro em primeiro lugar – Roma que era mestra de mentiras e da idolatria, torna-se discípula da Verdade e do verdadeiro culto a Deus (referência a texto de São Leão Magno). Nós somos católicos apostólicos ROMANOS, pois foi em Roma que, por disposição divina, São Pedro estabeleceu sua sé apostólica.

A única Igreja de Cristo, a Igreja Católica Apóstolica Romana, fora da qual não há salvação, está fundada sobre o Papa. É o Papa o fundamento visível da Igreja de Cristo. É o Papa o Vigário de Cristo, o doce Cristo na Terra, nas palavras de santa Catarina de Siena. Sem Papa não há Igreja de Cristo, mas somente invenções humanas. Onde está o Papa lá está a Igreja de Cristo. Onde está a Igreja de Cristo, lá está o Papa (Ubi Petrus ibi Ecclesia, ubi Ecclesia ibi Petrus). Mesmo nesses tempos de crise doutrinal e litúrgica, em que muitas autoridades na Igreja por vezes se opõem à doutrina de Cristo, a única tábua de salvação é o Santo Padre. Não porque tudo o que o Papa faz é bom e perfeito. Como diz uma Carta Pastoral de 1871 dos Bispos Suiços, explicitamente aprovada por Pio IX, o Papa do dogma da infalibilidade: “O Papa não é infalível nem como homem, nem como sábio, nem como sacerdote, nem como bispo, nem como príncipe temporal, nem como juiz, nem como legislador. Não é infalível e impecável na sua vida e procedimento, nas suas vistas políticas, nas suas relações com os príncipes, nem mesmo no governo da Igreja. É única e exclusivamente infalível quando, como doutor supremo da Igreja, pronuncia em matéria de fé ou de costumes uma decisão que deve ser aceita e tida como obrigatória por todos os fiéis.” (no Livro Legítima Interpretação da Bíblia, de Lúcio Navarro). A única tábua de salvação é o Papa porque somente ele pode, com seu ensinamento infalível e com seu governo verdadeiramente para o bem das almas, resolver os problemas que assolam a Igreja e a sociedade. Nós podemos e devemos fazer a nossa parte, é evidente, com consequências mais ou menos importantes, mas nada se compara à ação do Papa que age da maneira que mencionamos.

Devemos então, caros católicos, confessar nossa fidelidade ao Papa não somente com a boca, mas também com as obras, como verdadeiros filhos fiéis: praticando a religião católica, rezando pelo Vigário de Cristo, o Papa Francisco, oferecendo sacrifícios por ele e, se necessário for, dando a própria vida por fidelidade ao Santo Padre. Trabalhemos em tudo e sempre para a exaltação da Igreja Católica Apostólica Romana, fundada sobre Pedro, fundada sobre o Papa, a verdadeira e única Igreja de Cristo, mestra da verdade e a única que tem palavras de vida eterna.


[1] Se em outros trechos do Novo Testamento aparece o termo Igrejas no plural, é evidente que se está falando de porções, de unidades que compõem a única Igreja que Cristo fundou. Assim, podemos falar do povo brasileiro, mas podemos falar do povo do Ceará, do povo do Rio Grande do Sul, dos povos que compõem o povo do Brasil. Essas Igrejas locais são partes da única Igreja de Cristo desde que confessem a mesma fé da Igreja Romana, desde que reconheçam o Supremo Pastor que é o Papa, desde que tenha os sete sacramentos.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.