[Sermão] A apresentação ao Templo e a lei mosaica

Sermão para o Domigo da Oitava de Natal
30 de dezembro de 2012 – Padre Daniel Pinheiro

 

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém. Ave-Maria…

Nós estamos, caros católicos, na oitava do Natal. Isso significa que a alegria e as graças próprias do Natal se prolongam durante oito dias, ou uma semana, do dia 25 ao dia 1º de janeiro. As oitavas na Igreja Católica encontram sua origem no Antigo Testamento: a festa dos tabernáculos durava oito dias, havendo no oitavo uma grande solenidade; a festa de consagração do templo, na época de Salomão, também foi feita no oitavo dia. No Rito Tradicional, ainda restam três oitavas, a oitava de Natal – na qual estamos -, a oitava de Páscoa e a de Pentecostes. As três principais festas litúrgicas se prolongam, assim, durante oito dias, a fim de que durante os oito dias a Igreja possa comunicar de modo mais pleno as graças e os ensinamentos relativos a esses mistérios, que não podem ser esgotados em um único dia.

O Evangelho de hoje nos narra a apresentação de Nosso Senhor ao Templo. Segundo a lei mosaica, os primogênitos dos homens e dos animais deveriam ser consagrados ao Senhor. Os primogênitos dos homens deveriam ser resgatados em troca de um cordeiro ou, se a família fosse pobre, por um par de rolas ou dois pombinhos. A Santa Família, claro, fez a oferenda dos pobres, embora tivessem recebido pouco antes os presentes caros dos Reis Magos. Podemos supor que, movidos pela caridade, já haviam dado o valor de tais presentes aos que eram mais pobres que eles. Tal exigência da parte de Deus – de consagrar os primogênitos – decorria da liberação do povo Judeu da escravidão do Egito. Nessa ocasião, dado que o Faraó, com o coração endurecido, não deixava os judeus partirem, Deus fez que a morte atingisse todos os primogênitos do Egito, homens e animais, poupando os primogênitos dos judeus. Poupou-os, mas pediu que lhe fossem consagrados e resgatados por animais. Dessa forma, ao consagrarem os primogênitos, os judeus reconheciam que Deus é o soberano Senhor de todas as coisas, mesmo da vida dos homens. Cristo, sendo o primogênito de Nossa Senhora, deveria ser consagrado a Deus. Bom, vale notar que dizer que Cristo foi o primogênito não significa que ela teve outros filhos. Nunca é demais lembrar: Cristo não tinha irmãos em sentido estrito. Na Sagrada escritura, também os primos e parentes próximos são chamados de irmãos. Primogênito é um termo jurídico da lei mosaica, empregado mesmo quando é o único filho. Nosso Senhor, no Evangelho de hoje, é apresentado ao templo, segundo a lei de Moisés.

Nosso Senhor se submete, então, à lei mosaica. Ora, Jesus Cristo, sendo homem e Deus desde o primeiro instante de sua concepção, já estava plenamente consagrado a Deus pela união com a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade desde o momento da encarnação. Ele não precisava ser consagrado a Deus por meio da lei mosaica. Todavia, Cristo quis praticar e observar esse e todos os outros pontos da lei mosaica. Ele quis fazê-lo não porque estivesse submetido à essa lei – pois era Deus -, mas por quatro motivos.

Primeiro, para mostrar que a lei mosaica era boa. A lei mosaica levava à salvação, se fosse praticada em virtude da fé no Messias vindouro e por amor a Deus. A lei mosaica era imperfeita, mas boa.

Segundo, Ele quis praticar a lei mosaica para consumá-la, mostrando que a lei estava ordenada a Ele, mostrando que a lei era uma preparação para a sua vinda, e para mostrar que ela deveria cessar com a sua vinda. Claro, a parte da lei que deve cessar diz respeito às práticas rituais e cerimoniais, dado que os dez mandamentos permanecem plenamente válidos mesmo depois da vinda de Cristo.

Em terceiro lugar, Nosso Senhor Jesus Cristo quis observar a lei para que os judeus não tivessem uma desculpa para caluniá-lo, acusando-o de pecado por não praticar a lei.

Em quarto lugar, Ele quis submeter-se à lei mosaica, justamente, para nos liberar dela, e nos dar uma lei muito mais perfeita que é a lei da graça.

Portanto, após a vinda de Cristo, os ritos e as cerimônias mosaicas devem cessar, sob pena de falta grave, pois continuar a praticá-las significa negar que o Messias já veio e que nos deu uma lei muito mais perfeita. Antes da vinda de Cristo e durante a sua vida na Terra, a lei mosaica estava viva e vivificava as almas dando a graça. Depois da morte de Cristo até o ano 70, aproximadamente, a lei já estava morta, pois Cristo já havia instituído a nova aliança em seu sangue na Cruz, mas ela ainda não era mortífera. Isto significa que entre a morte de Cristo e a destruição do templo no ano 70, a lei mosaica estava morta, mas sua prática não era, ainda, um pecado, e por isso os Apóstolos continuaram a frequentar o Templo até essa data. A lei estava morta, mas sua prática não matava a alma. Após a destruição de Jerusalém e do Templo no ano 70, a lei mosaica torna-se morta e mortífera, quer dizer, praticá-la é um pecado grave, pois significa dizer que o Messias ainda não veio ou que não instituiu uma nova aliança, o que vai contra a fé.

Claro que, ao obedecer às cerimônias e ritos da lei de Moisés sem estar minimamente obrigado a isso, Nosso Senhor Jesus Cristo nos ensina uma obediência perfeita ao mandamentos, às leis da Igreja e aos superiores quando os superiores nos dão ordens legítimas. Vale destacar que mesmo o repouso do sábado nunca foi violado pela Salvador quando Ele realizava milagres, apesar das acusações dos fariseus. O repouso sabático não proibia as obras divinas e os milagres são, evidentemente, uma obra divina. No sétimo dia, Deus cessou a criação, mas não parou de agir na conservação e no governo do mundo. Portanto, o milagre, sendo obra divina, era perfeitamente possível e lícito no sábado. Segundo, não eram proibidas as obras necessárias para a saúde do corpo no repouso sabático. A lei permitia até que se libertasse um jumento que tivesse caído no poço e não permitiria a cura de uma pessoa doente? Além disso, os milagres realizados por Cristo tinham por objetivo não só o bem do corpo, mas também o da alma. Finalmente, o repouso sabático não proibia os atos de culto. Quando Nosso Senhor pede para que o paralítico carregue seu leito no dia de sábado, por exemplo, Ele ordena ao homem que faça um ato de culto a Deus, pois o ex-paralítico ao carregar seu leito proclama o milagre, a misericórdia e a onipotência divinas, o que é um ato de culto a Deus. Portanto, Nosso Senhor está longe de ser o primeiro revolucionário como querem alguns. Quem adulterava o sábado, querendo proibir o que era permitido, eram os fariseus. E nisso consiste a revolução: em adulterar as leis divina e natural ajustando-as aos nossos próprios gostos. Os revolucionários eram, portanto, os fariseus. Nosso Senhor é para nós, no Evangelho de hoje, exemplo de perfeita obediência e submissão à vontade de Deus. E mais uma vez Ele mostra toda a sua caridade por nós ao se submeter à lei para o nosso bem, para que possamos ter uma lei muito mais perfeita.

Gostaria de fazer também um breve comentário a respeito da Epístola e do que hoje muitos chamam de fé adulta. Hoje se ouve com frequência dizer que devemos ter uma fé adulta e, no mais das vezes, isso significa que não devemos aceitar tudo o que a Igreja sempre ensinou. Uma fé adulta significa, então, recusar o que não nos agrada ou recusar aquilo que não estamos dispostos a acreditar, embora a Igreja o tenha ensinado sempre. Assim, muitos políticos, por exemplo, se dizem católicos de fé adulta, e, como tal, são favoráveis ao aborto, ao divórcio, ao casamento homossexual. Essa fé chamada de adulta é exatamente o que São Paulo chama de meninice e de escravidão aos rudimentos do mundo na Epístola de hoje. Portanto, a fé adulta, entendida como essa liberdade diante do que a Igreja sempre ensinou, é na verdade uma escravidão aos rudimentos do mundo, uma escravidão que impede de ver a Verdade e de amá-la.

Se queremos que Deus mande aos nossos corações o Espírito do seu Filho, para fazer de nós seus filhos adotivos, devemos ter uma obediência perfeita à vontade de Deus, aos mandamentos e às leis da Igreja. Devemos também ter uma fé que aceita tudo aquilo que está contido no depósito da revelação confiado à Igreja Católica Apostólica Romana.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.