Sermão (X) – “Se eles podem, por que eu não posso ser santo?”

Sermão para a Solenidade de Todos os Santos (4 de novembro de 2012) 

Padre Daniel Pinheiro

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém. Ave Maria…

Depois disto vi uma multidão que ninguém podia contar, de todas as nações e tribos, povos e línguas, que estavam em pé diante do cordeiro. (Apoc., 7)

A festa de todos os santos pode ser resumida na oração Suscipe Sancta Trinitas do ofertório da Missa Tradicional: que sirva para a honra dos santos e para a nossa salvação e que aqueles que celebramos na Terra possam interceder por nós no Céu.

 A festa de todos os santos foi instituída para honrar todos os santos do céu, em particular aqueles que não tem festa própria durante o ano litúrgico. A honra é devida a alguém em virtude de sua excelência e dignidade. Os santos são imitadores de Cristo e amigos íntimos dEle. Ninguém mais digno do que os santos. Eles merecem, portanto, as honras que lhes são tributadas.

Honrando os santos asseguramos também a intercessão deles por nós, a fim de que nos alcancem a salvação. Mas a intercessão não é o único modo pelo qual os santos nos ajudam. Eles nos ajudam a alcançar o céu nos lembrando de que o céu existe e que foi feito para nós. Assim, festejando todos os santos, devemos nos lembrar de que o céu é real e não uma simples abstração. Devemos nos lembrar de que o céu existe e que foi feito para nós. Devemos nos lembrar de que o céu é o lugar onde nossa alma contemplará a face de Deus e se alegrará eternamente. Lugar em que o nosso corpo será transformado em corpo glorioso, não podendo mais sofrer. O céu não foi feito para os outros. O céu foi feito para nós. Para cada um de nós. Os milhões e milhões de santos no céu que festejamos hoje nos ajudam lembrando-nos de que o céu existe e que devemos combater para chegar até ele. Se os judeus fizeram tantos sacrifícios e tantos combates para entrar na Terra Santa, mera figura do paraíso, temos que fazer o mesmo para alcançar o céu.

Mas os santos também nos ajudam pelo exemplo deles. O exemplo dos santos nos permite ver as virtudes sendo praticadas concretamente. A virtude tem um poder muito maior de convencimento quando nos é mostrada pelo exemplo do que quando nos é mostrada abstratamente. O exemplo dos santos nos faz conhecer a virtude e admirar a virtude. Consequentemente, o exemplo dos santos nos leva a amar a virtude, a desejar a virtude e a praticá-la. Por isso devemos ler vidas de santos. Por isso os pais precisam contar vidas de santos aos filhos. Assim ocorre com a mansidão de São Francisco de Sales, a sabedoria de São Tomás de Aquino, a humildade de Santa Teresinha, o desapego dos bens terrenos de São Francisco de Assis, a pureza de São Luís Gonzaga ou de Santa Maria Goretti, a magnificência de São Luís, rei de França, a alegria sem pecado de São Felipe Neri, a misericórdia de São Camilo de Lélis, o zelo apostólico de São Paulo, a fortaleza de Santa Luzia e de Santa Inês, mártires… Poderíamos estender a lista quase até o infinito.

No dia de hoje – solenidade de todos os santos – recebemos um auxílio particular dos santos ao nos lembrarmos também dos santos desconhecidos e esquecidos. Essa lembrança e festejo dos santos esquecidos deve ser para nós motivo de grande esperança de poder alcançar a santidade.

Santo Agostinho: “Si isti et istae possunt, cur non ego?”

Devemos perguntar com Santo Agostinho: se esses e essas podem ser santos, por que eu não posso ser santo? Entre os santos há recém-nascidos, crianças, jovens, casados, virgens, viúvas, confessores, mártires, religiosos e religiosas, padres, bispos, papas. Há príncipes, nobres, governantes e gente do povo, escravos. Agricultores e artesãos, médicos, advogados, comerciantes, etc…  Se eles podem ser santos, por que eu não posso? Assim como Deus concedeu para eles graças para alcançar a santidade, também nos concede graças para sermos santos. Esperança, portanto. A festa de todos os santos deve nos dar uma grande confiança de que Deus nos dará a salvação eterna e as graças necessárias para consegui-la, se com o seu auxílio cumprimos os seus mandamentos. Deus, sumamente bom e poderoso, prometeu a salvação aos que observarem fielmente os seus mandamentos com o seu auxílio. Esperança… Nós podemos ser santos. Vejamos quantos santos… São João nos fala de uma multidão que não pode ser contada… multidão de todas as nações e tribos, povos e línguas.

Para sermos santos no céu, para alcançarmos a alegria desses inúmeros santos, temos de começar a ser santos aqui na terra. É preciso saber o que é a santidade realmente, pois cada um deseja uma santidade segundo seus gostos e inclinações. A santidade consiste no amor a Deus, que é o soberano bem. A santidade consiste na caridade, no amar a Deus sobre todas as coisas. Mas, atenção! A caridade não é um sentimento e não é sensível. A caridade não se reduz a desejos, a aspirações, a dizer que amamos a Deus sobre todas as coisas e depois fazer o que quisermos. Além desses desejos e aspirações, a caridade, para ser realmente caridade, deve ser também efetiva, ou seja, ela deve se manifestar pela prática dos mandamentos, mesmo face às maiores dificuldades e tentações. Nosso Senhor falou: aquele que observa meus mandamentos é o que me ama. Assim, a santidade não consiste em certas práticas particulares como penitências, mas passa necessariamente por elas, pois para nos manter unidos a Deus deveremos nos mortificar em maior ou menor grau, deveremos rezar bastante durante nossa vida e assim por diante. A santidade é tanto mais perfeita quanto maior for a conformidade com a vontade divina. A conformidade com a vontade de Deus nos traz a verdadeira alegria.

Como fazer para alcançar esse amor a Deus, para alcançar a santidade na terra que nos permitirá seguramente ser santos no céu? Antes de tudo, é preciso desejar a santidade e pedir a santidade. Bem-aventurados os que tem fome e sede de justiça, isto é, bem-aventurados aqueles que desejam profundamente a santidade. À sua irmã, que perguntava o que deveria fazer para tornar-se santa, São Tomás respondeu: “basta querer”. Todavia, é preciso querer com uma vontade eficaz. Isso quer dizer que devemos estar dispostos e determinados a empregar os meios necessários para alcançarmos a santidade. Santa Teresa dizia que sem uma determinação muito determinada ninguém progride muito na vida espiritual. Para podermos progredir na santidade e não corrermos o risco de perder o céu, devemos evitar a tibieza. Isto quer dizer que devemos evitar não só os pecados graves – o que é óbvio – mas também os pecados veniais deliberados, propositais. Isso porque os pecados veniais deliberados, quer dizer, os pecados veniais cometidos com os olhos bem abertos e de modo plenamente voluntário esfriam pouco a pouco nossa caridade até o ponto em que passaremos de um pecado venial ao pecado mortal. Para sermos santos, devemos lutar contra o horror ao sofrimento, não devemos temer os sofrimentos, as zombarias e as perseguições que virão da prática da religião e devemos aceitar as doenças e mesmo a morte prematura, se for da vontade de Deus. Bem-aventurados os que padecem perseguição por amor da justiça, i.e., por amor da santidade, porque deles é o reino dos céus. Ao contrário, alegrai-vos e exultai porque grande é a vossa recompensa no céu. Para sermos santos, devemos buscar escolher o melhor e não simplesmente o permitido. Para sermos santos, é preciso ter uma vida de oração sólida, cada um segundo seu estado. Para sermos santos, é altamente aconselhável praticar a meditação considerando durante alguns minutos as verdades divinas ou a vida de Nosso Senhor ou dos Santos e tirando uma conclusão prática para nossas vidas. A meditação é meio utilíssimo para sabermos o que temos que fazer, para sabermos que vícios temos que combater, para sabermos em que virtudes temos que progredir etc. Para sermos, santos, é preciso comungar e nos confessar com frequência. Eis os meios para se atingir a verdadeira santidade e evitar a tibieza, a mornidão, que é esse estado limite entre a amizade e a inimizade com Deus. Desejar a santidade e pedi-la a Deus. Desejá-la com determinação muito determinada, isto é, empregando os meios para alcançá-la com o auxílio de Deus. Esses meios são: evitar pecados veniais deliberados; generosidade, com disposição para suportar os sofrimentos por causa de Deus; buscar o melhor; rezar; meditar; comungar; confessar. Não deixemos para ser santos amanhã. Comecemos desde já.

Se tudo isso nos parece difícil, lembremo-nos dos santos. Lembremo-nos da quantidade imensa de santos que há no céu.  Se eles podem, por que eu, com o auxílio divino, não posso? Basta querer para, com a ajuda de Deus, irmos para o céu. Se tudo isso nos parece difícil, recorramos à intercessão dos santos. Se tudo isso nos parece difícil, lembremo-nos de que um santo é a pessoa mais feliz já nessa terra, apesar das provações, pois em tudo ele vê a mão de Deus e sabe que Deus age perfeitamente. Se tudo isso nos parece difícil, lembremo-nos do céu, nossa verdadeira pátria: ele existe e foi criado para nós. No céu veremos a essência de Deus e seremos plenamente e eternamente felizes.  Se tudo isso nos parece difícil, lembremo-nos da onipotência e da bondade de Deus, que nos ajuda com graças mais do que abundantes. Se tudo isso nos parece difícil, recorramos à Rainha de Todos os Santos, Nossa Senhora.

Altar das relíquias: fiéis veneram as relíquias dos santos.

Convido todos depois da Missa a se aproximarem do altar das relíquias, devoção para o dia de todos os santos. Venham pedir a ajuda deles. São Pio V e São Pio X. Santos que nos são tão caros. O primeiro por causa da Missa e o segundo por seu combate contra o modernismo e os erros modernos. São Tomás e São Francisco de Sales. São Pedro Mártir, dominicano e São Domingos, fundador da mesma ordem. São Felipe Néri e Santo Alberto Magno. São Camilo de Lélis, São Simão Stock e São João da Cruz. Santa Inês e Santa Catarina de Siena. Santa Luzia e Santa Rosa de Lima. Veneremos os santos para nos assemelharmos a eles.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.