Sermão (IX) – Rezar pelos fiéis defuntos e converter-nos a Cristo

Sermão para a Comemoração de Todos os Fieis Defuntos  (2 de nov. de 2012) 

Padre Daniel Pinheiro

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém. Ave Maria…

Requiem aeternam dona eis, Domine.

A santa Igreja, depois de celebrar e honrar todos os Santos no céu ontem, dia 1º de Novembro – festa que iremos solenizar no próximo domingo já que a festa de todos os santos não é feriado no Brasil -, quer também socorrer com poderosos sufrágios todas as almas que ainda gemem no purgatório, intercedendo por elas diante de Jesus Cristo, seu Senhor e Esposo, para que cheguem o quanto antes à comunidade dos cidadãos do céu (Martirológio Romano).

Uma Missa pode bastar para levar a alma dos sofrimentos do purgatório à alegria do paraíso.

O purgatório é o lugar e o estado em que se encontram as almas dos justos que morreram na graça e amizade de Deus, mas imperfeitamente purificadas das faltas cometidas nesse mundo. Após a purgação, a purificação, a alma vai necessariamente para o céu. É preciso lembrar que quando pecamos precisamos ser perdoados e cumprir uma pena, satisfazendo pela desordem que causamos pelo nosso pecado, ainda que seja um pecado leve. Se não satisfazemos nessa terra, teremos que satisfazer no purgatório.  As almas que padecem a purificação no purgatório podem ser classificadas em dois grupos: o primeiro é o grupo daquelas almas que morreram sem nenhum pecado, mas que não satisfizeram suficientemente nesse mundo pela desordem causada por seus pecados já perdoados; o segundo grupo é o das almas que morreram somente com pecados veniais. Nesse caso em que as almas morrem só com pecado venial, os pecados veniais são perdoados no instante da morte, mas ainda permanece a obrigação de pagar uma pena, de satisfazer pela desordem causada por esses pecados leves.

A existência do purgatório nos é ensinada pela Revelação em suas duas fontes: Sagrada Escritura e Tradição. Na Sagrada Escritura, vemos Judas Macabeu oferecer sacrifícios e orações pelos pecados dos mortos para que possam ressuscitar um dia (II Mac 12, 41-46). Nosso Senhor diz que quem falar contra o Espírito Santo não será perdoado nem nesse século nem no futuro, o que deixa entender que há pecados que podem ser expiados após a morte (Mt 12, 3 e 32). São Paulo diz que alguns se salvarão, mas como quem passa pelo fogo (I Cor 3, 10-15). Também os Padres da Igreja afirmam a existência do purgatório. São João Crisóstomo diz que a lei de procurar alívio aos que morreram foi dada pelos próprios apóstolos (In epist. Ad Phil., hom. 3,4; MG 62, 203). O Magistério, em particular no Concílio de Trento, também definiu solenemente e infalivelmente a existência do purgatório, a partir da Tradição e da Sagrada Escritura. Assim, podemos ver quanto se afastam da verdade os protestantes que negam a existência do purgatório.

Uma vez que conhecemos a existência do purgatório pela revelação, podemos descobrir a conveniência dele. A purificação efetuada no purgatório decorre da santidade de Deus, que não pode se unir a uma criatura tão profundamente como ocorrerá no céu, se a criatura não estiver completamente purificada. A justiça divina também nos indica a existência e conveniência do purgatório, pedindo ao homem que satisfaça pela desordem causada pelo pecado. A misericórdia divina também é causa do purgatório, pois sem ele a alma manchada e impura permaneceria impossibilitada de ver Deus face a face. O purgatório é, portanto, fruto tanto da justiça quanto da misericórdia divinas. Isso é importante saber: o purgatório é fruto da justiça, mas também da misericórdia. Além disso, sem o purgatório os homens não se preocupariam tanto em evitar os pecados veniais e negligenciariam completamente a satisfação devida ao pecado já perdoado.

No purgatório a alma sofre e é purificada por dois meios. O primeiro meio de purificação é a pena do atraso da visão beatífica. No momento em que a alma poderia ver a Deus face a face e ser infinitamente feliz, ela é obrigada a permanecer mais um tempo afastada de Deus, exilada até que satisfaça por todos os pecados passados. A alma compreende, de modo muito mais perfeito que nós, o bem que ainda não pode ter. Elas sofrem imensamente, de um sofrimento indescritível, por não poderem se alegrar infinitamente com a visão de Deus por causa de pecados leves que poderiam ter evitado com certa facilidade e por causa da satisfação que não quiseram realizar aqui na terra. Essa é a pior pena do purgatório: o adiamento da visão de Deus. A segunda pena é a pena dos sentidos para purificar do prazer ilícito que sempre decorre de qualquer pecado. Muito provavelmente essa pena é causada por um fogo real e corpóreo como o do inferno, fogo capaz de fazer sofrer a alma espiritual como um instrumento nas mãos de Deus. Deus pode usar uma criatura material para influenciar em nossa alma: é o que Ele faz, por exemplo, nos sacramentos em que a água o óleo e outras coisas matérias são instrumentos para mudar a nossa alma. Como nos diz São Tomás, essas penas no purgatório são tão intensas que mesmo a menor delas excede enormemente o maior dos sofrimentos nessa vida.

Todavia, as almas do purgatório, ao contrário daquelas condenadas eternamente, têm muitas consolações: 1) a certeza da salvação, pois sabem que mais cedo ou mais tarde entrarão no céu; 2) a plena conformidade com a vontade de Deus, pois as almas do purgatório veem claramente que as penas são justíssimas e fruto da misericórdia de Deus; 3) a alegria da purificação, pois o obstáculo à união perfeita com Deus vai sendo retirado; 4) o alívio contínuo, na medida em que avançam na purificação; 4) e, provavelmente, a assistência espiritual de Nossa Senhora e do Anjo da Guarda.

Conhecendo, então, a grandeza dos sofrimentos das almas do purgatório, apesar das consolações que citamos, e sabendo que elas nada podem fazer para aliviar e abreviar os próprios sofrimentos, devemos ajudar essas almas. Devemos ajudá-las com grande confiança na misericórdia divina. Trata-se de um dever de caridade, pois elas precisam de nossa ajuda para chegar o quanto antes ao reino dos céus e nós podemos ajudá-las. E, além da caridade para com as almas do purgatório em geral, temos um dever de justiça (parte potencial da justiça: virtude da observância) para com nossos familiares falecidos, sobretudo se são os pais ou os filhos. Temos um dever de justiça também para com aquelas que talvez estejam no purgatório por nossa culpa: por nosso mau exemplo, por nosso escândalo, pecados de cumplicidade etc. Temos obrigação em justiça de ajudar essas almas. Além disso, ajudando-as ganharemos intercessores no céu quando elas tiverem sido liberadas do purgatório.

Na Missa para os Fieis Defuntos, que celebramos hoje, a Igreja insiste na súplica para pedir ao Senhor o descanso eterno da alma dos falecidos.

E como fazer para ajudar as almas do purgatório? É preciso imitar a Igreja. Na Missa para os Fieis Defuntos, que celebramos hoje, a Igreja insiste na súplica para pedir ao Senhor o descanso eterno da alma dos falecidos: Requiem aeternam dona eis, Domine. Assim devemos fazer: oferecer nossas ações e orações pelo repouso da alma dos fiéis defuntos, a fim de que purificada de suas faltas leves possa entrar na alegria do Senhor. A Igreja permite hoje que cada sacerdote reze três Missas. Mas não é só hoje que a Igreja é caridosa pelas almas dos fieis defuntos. A Igreja reza pelos fieis defuntos oficialmente todos os dias na Missa – no Memento dos Mortos após a Consagração – e no Ofício Divino ao final de cada hora litúrgica. Devemos, portanto, rezar pelos defuntos todos os dias e não somente no dia de finados.  Devemos oferecer antes de tudo a oração do terço e Missas pelo descanso das almas do purgatório. Uma Missa pode bastar para levar a alma dos sofrimentos do purgatório à alegria do paraíso. Fazendo isso estaremos exercendo uma verdadeira obra de misericórdia para com a pessoa defunta. Mais do que recordar os momentos do passado, é preciso rezar por ela agora e no futuro. É esse o maior bem que podemos fazer para ela. Santo Ambrósio diz: “Mais do que chorar é preciso ajudá-la com orações. Não a entristeças com tuas lágrimas, ao contrário, recomende-a a Deus com as oblações da tua alma” (Epist. 39, 4: ML 16, 1146). E cumpre aqui notar que podemos rezar, oferecer Missas e penitências por qualquer pessoa defunta que não esteja condenada ao sofrimento eterno com certeza. Isso significa que podemos rezar por todas as pessoas com exceção de Judas, praticamente. Podemos rezar por aquelas que não praticavam a religião católica, por aquelas que praticavam outra religião e assim por diante. É improvável que tenham se salvado, pois a regra é morrer como se vive. Mas como a misericórdia divina é infinita, pode ser que tenham se salvado. Claro, dependendo da pessoa, é necessário fazê-lo com muita discrição e em privado para não ocasionar escândalos.

O dia de finados, lembrando-nos de nossos deveres para com os defuntos, sobretudo para com os de nossas famílias, coloca-nos também diante da morte, caros católicos. E diante dela devemos também pensar em nós mesmos. A Sequência Dies Irae que cantamos há pouco nos indica isso.  A morte é o momento em que toda a nossa vida será julgada por Nosso Senhor Jesus Cristo, Supremo Juiz. É nesse momento que, num instante, seremos destinados ao sofrimento eterno do inferno ou à alegria eterna do céu, nesse caso, passando antes, provavelmente, pelo purgatório.

São Francisco Bórgia, que, face ao caixão de uma princesa reconheceu quão rápido passa a vida, quanto são vãs as coisas terrenas e deu-se conta de que a única coisa que importa é conhecer, amar e servir a Deus.

São Francisco Bórgia, que, face ao caixão de uma princesa reconheceu quão rápido passa a vida, quanto são vãs as coisas terrenas e deu-se conta de que a única coisa que importa é conhecer, amar e servir a Deus.

Devemos fazer como São Francisco Bórgia, que, face ao caixão de uma princesa – considerada uma das mulheres mais belas de sua época – reconheceu quão rápido passa a vida, quanto são vãs as coisas terrenas e deu-se conta de que a única coisa que importa é conhecer, amar e servir a Deus. Tudo o mais passa, mas o amar a Deus verdadeiramente não passa, pois nos conduz à vida eterna. Face à morte devemos, seguindo o exemplo do Santo, nos converter inteiramente a Nosso Senhor Jesus Cristo, aderindo aos ensinamentos da Igreja, praticando os mandamentos, frequentando os sacramentos e reconhecendo que Deus é o nosso verdadeiro bem nesta terra. Toda a nossa vida deve ser, então, em certo sentido, uma preparação para a morte, de maneira que, a cada instante, devamos estar prontos para encontrá-la e sermos julgados pelo Soberano Juiz como dignos da vida eterna. Sabendo que mesmo a menor das penas do purgatório é imensamente superior a qualquer sofrimento aqui na terra, devemos nos esforçar para evitar todo pecado, mesmo os menores e devemos nos esforçar para expiar desde já por nossos pecados.

É preciso, então caros católicos, lembrarmo-nos dos fiéis defuntos, oferecendo sacrifícios e rezando, em particular encomendando Missas para o descanso eterno de suas almas. Eis aqui uma grande obra, muito meritória, de misericórdia e de caridade.  Não devemos, porém, nos esquecer de nós mesmos: é preciso que nos preparemos, desde já, para que tenhamos uma morte santa. Rezar, então, pelos fiéis defuntos e converter-nos a Cristo, Nosso Senhor.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

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