Sermão (VII) – Sobre a Misericórdia Divina

Sermão para o 21º Domingo depois de Pentecostes (21 de outubro de 2012)

Padre Daniel Pinheiro

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém. Ave-Maria…

Caros católicos, Nosso Senhor quer, no Evangelho de hoje, nos mostrar a grandeza de sua misericórdia divina, da misericórdia desse rei, que só pode ser Cristo ele mesmo. E Ele quer também nos mostrar as disposições que devemos ter para sermos dignos de receber essa misericórdia. Para nos mostrar, então, a imensidade da misericórdia divina e as disposições que devemos possuir para recebê-la, o Salvador utiliza uma parábola. A parábola é com frequência utilizada nos discursos na Palestina, a fim de gravar mais facilmente no espírito dos auditores – por meio de comparações e exemplos – o ensinamento ou o preceito que não seria guardado se fosse apresentado diretamente.

A misericórdia consiste justamente em ajudar o outro a sair de uma condição miserável, ruim. Assim, para exercer a verdadeira misericórdia, aquele que a exerce deve encontrar-se em condição melhor do que o miserável. Aquele que não tem dinheiro para comer, por exemplo, não poderá exercer uma obra de misericórdia material com aquele que tem fome. É o rei, antes de tudo, que exerce a misericórdia com seus súditos. É Deus que exerce a misericórdia com suas criaturas. Deus, que possui, evidentemente, todas as perfeições e é infinitamente rico de todos os bens e de toda bondade, pode exercer sua misericórdia sem nenhuma restrição. Em certo sentido, a misericórdia é a virtude divina por excelência porque somente aquele que possui infinitamente todos os bens, todas as perfeições pose ser verdadeiramente misericordioso. Como só Deus possui infinitamente todos os bens, somente Ele é plenamente misericordioso. Deus, infinitamente perfeito, pode, então, exercer sempre a sua misericórdia para com o homem, dando ao homem os meios necessários e mesmo superabundantes para que saia de sua miséria.

Ora, a condição mais miserável em que o homem pode se encontrar é a do pecado, mais precisamente a do pecado mortal, pelo qual o homem ofende gravemente a Deus e torna-se seu inimigo. Além disso, pelo pecado mortal, o homem age gravemente contra si mesmo e contra a sociedade. Não há mal maior e miséria maior do que o pecado grave. Eis, então, a situação mais miserável em que o homem pode se encontrar: afastado de seu criador e redentor, tendo-o ofendido grave e infinitamente e tendo contraído uma dívida impagável diante de Deus, como o servo da parábola, que contraiu uma dívida de dez mil talentos, o que simboliza a dívida infinita do pecado mortal. O servo parece, então, condenado a uma grande e justa punição: a punição de ser vendido com toda a sua família e todos os seus bens para outra pessoa, o que significa ser entregue como escravo do pecado ao inimigo do gênero humano, o demônio.

Todavia, a misericórdia divina, não conhecendo limites, quer perdoar o pecador. Deus, com sua misericórdia, sempre dá ao pecador os meios para que saia, para que se livre de sua miséria. Deus concede sempre graças suficientes e graças abundantes para que o pecador possa pedir perdão e possa receber dignamente esse perdão. Deus exerce sua misericórdia pelo intermédio de seus ministros (os padres), por meio dos bons conselhos que recebemos, por meio de uma boa leitura que fazemos, por meio de boas inspirações que nos dá… Enfim, Deus exerce sua misericórdia por inúmeros meios que são tão abundantes que por vezes nem percebemos a ação misericordiosa de Deus. E isso porque Ele quer que todo homem se salve. Ele não quer a morte do pecador, mas que ele quer que o homem viva para que se converta e possa viver eternamente.

A misericórdia de Deus não tem limite. Ou melhor, ela tem um só limite: a vontade do homem. Deus não destrói a nossa liberdade e nossa capacidade de abusar dessa liberdade, usando-a mal. Se Deus nos criou sem nós, Ele não nos salvará sem nós, como nos diz Santo Agostinho. Assim, para sermos digno da misericórdia divina – misericórdia que atua em praticamente cada momento de nossa vida – devemos seguir o exemplo desse servidor que não podia pagar as suas dívidas, fazendo, porém, algo a mais, algo que ele negligenciou.

É preciso, primeiramente, suplicar a Deus com grande confiança que nos faça misericórdia, como pediu o servidor endividado. Ele diz ao rei: “Tem paciência comigo”. Nós devemos pedir a Deus também as disposições necessárias sem as quais não podemos obter seu perdão. Não há nenhum pecado que Deus não possa perdoar. Ele perdoa todos, desde que estejamos bem dispostos. E para estarmos bem dispostos, é preciso continuar a seguir o exemplo desse servidor endividado.

Ao pedir perdão, o servo endividado se humilha profundamente aos pés de seu mestre. Temos que fazer o mesmo diante de Cristo, quer dizer, devemos ter uma dor, um arrependimento por ter ofendido a Deus. Essa dor não é necessariamente sensível. Ela é, ao contrário, uma dor essencialmente interior, espiritual, que se caracteriza pela detestação de todos os pecados graves e pelo firme propósito de não mais pecar. Essa dor e esse propósito decorrem do fato de reconhecermos o pecado como o maior o mal que existe e estarmos conscientes de ter praticado esse mal. Devemos, então, detestar todas as nossas faltas graves passadas e ter o firme propósito, a firme determinação/resolução de evitá-las no futuro com a graça de Deus e, claro!, empregando os meios necessários para tanto. E devemos preferir a morte a ofender gravemente a Deus. Devemos repetir com São Domingos Sávio, jovem discípulo de São João Bosco, morto aos quinze anos: “prefiro a morte ao pecado”. Essa dor e esse arrependimento por ter ofendido a Deus, junto com a firme decisão de não mais voltar a fazê-lo, são indispensáveis para podermos beneficiar-nos da misericórdia divina.

Em seguida, o servidor endividado confessa suas faltas, ao menos implicitamente. Ele não procurou negar a sua dívida ou justificá-la. Nós devemos fazer o mesmo. Eis a segunda condição para obtermos o perdão de nossas dívidas, de nossos pecados: confessá-los. Confessemos, então, os nossos pecados ao Padre, após ter feito nosso exame de consciência, e confessemos bem os nossos pecados: sinceramente (sem mentiras), integralmente (sem esconder nenhum pecado grave ainda não perdoado), simplesmente (sem fazer malabarismos para tentar justificar o que fiz) , humildemente;  admitindo e manifestando TODOS os pecados graves que ainda não foram perdoados, dizendo a espécie deles e também o número de vezes que foram cometidos. A ocultação de um só pecado grave impede o perdão de todos e acrescenta um novo: o pecado gravíssimo de sacrilégio.

Finalmente, devemos satisfazer por nossas faltas, imitando o servidor que faz essa sincera promessa ao rei: “(…) eu te pagarei tudo”, diz o servidor. Ele esperava com mil esforços conseguir pagar, ao menos em parte, a sua dívida. Tenhamos também nós uma vontade sincera e eficaz de satisfazer por nossos pecados, cumprindo primeiramente a penitência imposta pelo padre no momento da confissão. Também devemos satisfazer praticando boas obras, fazendo penitências, aceitando com generosidade as doenças, as provações, as contrariedades dessa vida. Tudo isso coopera para o pagamento perfeito da dívida causada pelo pecado. Mas nós possuímos, além de tudo isso, um meio muito precioso que faltava a esse servidor: oferecer a Deus as satisfações infinitas de seu divino Filho, em especial unindo-nos à satisfação que é oferecida no Santo Sacrifício da Missa. Nossas próprias satisfações, apesar de necessárias, são insuficientes e têm valor somente quando unidas à satisfação infinita oferecida por Nosso Senhor Jesus Cristo à Santíssima Trindade.

Não devemos, no entanto, esquecer uma outra condição indispensável para podermos beneficiar da misericórdia divina. Essa condição foi desprezada pelo servidor endividado e lhe valeu um castigo ainda mais severo do que o previsto anteriormente. Nós devemos ser misericordiosos com o nosso próximo porque Deus nos perdoará na medida em que perdoamos aos que nos ofenderam. É o que rezamos diariamente no Pai-Nosso. “Perdoai-nos as nossas dívidas assim como nós perdoamos aos nossos devedores.”

Eis, então, caros católicos, o que é preciso para que alcancemos misericórdia. Tenhamos, então, uma grande confiança na misericórdia divina, que quer que todo homem se salve e que é capaz de perdoar toda e qualquer falta. Onde abundou a miséria do pecado, superabundou a misericórdia da graça. Não sigamos, portanto, a máxima do mundo que diz: “não se preocupe com seus pecados, Deus é infinitamente misericordioso ou no final da vida Deus me perdoará os pecados”. Ao contrário, devemos aproveitar essa misericórdia para nos converter o quanto antes a Ele, sem colocar obstáculos à sua bondade, que quer nos resgatar de nossa miséria. Não sabemos o dia de nossa morte. Façamos, portanto, (1) um bom exame de consciência; (2) tenhamos uma verdadeira dor por nossos pecados, detestando-os e (3) com o firme propósito de não mais ofender a Deus; (4) confessemos ao padre integralmente, sinceramente e humildemente todas as nossas faltas graves ainda não perdoadas, dizendo a espécie desses pecados e também o número de vezes que os cometemos; (5) satisfaçamos pelos nossos pecados cumprindo cuidadosamente a penitência imposta pelo ministro da misericórdia divina. Como vocês notaram, o servo endividado nos ensina a fazer uma boa confissão, para obtermos o perdão de nossos pecados graves. Se imitarmos assim esse servidor endividado, sem esquecer, porém, a misericórdia para com o nosso próximo, seremos dignos da misericórdia divina e poderemos alcançar, desse modo, a vida eterna.

Em nome do Pai, e do Filho, e do espírito Santo. Amém.