A língua litúrgica na Igreja II

 Do Catecismo de Perseverança, Tomo VII – Pe. J. Gaume

Uso do Latim

Todas as horas do seu ofício oferece-as a Igreja a Deus numa língua hoje desconhecida à maioria dos fiéis, e dirige-lhas cantando. É justo que vos faça admirar nestes dois usos a profunda sabedoria de vossa mãe. E, primeiramente, porque se usa da língua latina nas orações públicas?

                1º. É para conservar a unidade da fé. Ao nascer do Cristianismo, fez-se o serviço divino em língua vulgar na maioria das igrejas. Mas, como todas as coisas humanas, estão sujeitas à mudança. A língua francesa, por exemplo, já não é a mesma que era há duzentos anos; bom número de termos envelheceram, e outros mudaram de significado. O torneio das frases difere tanto quanto diferem as nossas maneiras das de nossos avôs. Todavia, uma coisa deve permanecer imutável, que é a fé. Para pô-la a salvo dessa instabilidade perpétua das línguas vivas, emprega a Igreja católica uma língua fixa, uma língua que, não sendo já falada, já não está sujeita à mudança.

                A experiência prova que a Igreja foi dirigida, nisto como em todas as coisas, por uma sabedoria divina. Vede o que sucede entre os protestantes. Quiseram empregar nas suas liturgias as línguas vivas, e eis que incessantemente se veem obrigados a renovar as fórmulas, e a retocar as versões da Bíblia: donde alterações infindas. Se a Igreja houvesse feito o mesmo, teria sido necessário de cinquenta em cinquenta anos reunir concílios gerais para redigir novas fórmulas na administração dos sacramentos.

                2º. É para conservar a catolicidade da fé. É necessária a unidade de linguagem para manter mais estreita ligação e mais fácil comunicação de doutrina entre as diferentes Igrejas do mundo, e para as tornar mais facilmente adictas ao centro da unidade católica. Suprimi a língua latina, e eis que o Sacerdote italiano que viaja por França, ou o sacerdote Francês que viaja por Itália, não pode celebrar os santos mistérios nem administrar os sacramentos. É o que sucede ao protestante. Fora do seu país não pode tomar parte no culto público: o Católico não está desterrado em nenhuma das regiões da Igreja Latina.

                Honra, pois, aos Sumos Pontífices que nada têm descurado para introduzirem em todas as partes a liturgia romana. O homem imparcial encontra aqui uma nova prova do seu ilustrado zelo pela catolicidade, caráter augusto da verdadeira Igreja. Ah! Se os gregos e os latinos não houvessem tido senão uma mesma língua, não teria sido tão fácil a Fócio e aos seus aderentes arrastar toda a Igreja grega ao cisma, atribuindo à Igreja romana erros e abusos de que ela nunca foi culpada!

                3º. É para conservar à Religião a majestade que convém. Uma língua douta, que não é entendida senão pelos homens instruídos, inspira mais respeito que a algaravia popular. Os mais santos mistérios não pareceriam ridículos, se fossem expressos em linguagem demasiadamente familiar? Todos o compreendem. Os mesmos protestantes, inimigos jurados da Igreja romana, o conheceram com os outros; porém, a renunciarem às suas preocupações anti-católicas, preferiram ser inconsequentes consigo próprios. Fizeram traduzir o ofício divino em francês: muito bem; mas os da Baixa Bretanha, da Picardia, do Auvergne e da Gasconha não tinham tanto direito a fazer o ofício divino na sua geringonça, como tinham os calvinistas de Paris de o fazerem em Francês? Os reformadores, tão zelosos da instrução do povo baixo, porque não traduziram a liturgia e a Escritura Sagrada em todas essas algaravias? Não contribuiria isto muito para tornar respeitável a Religião [i]?

            Pelo contrário, a língua grega no Oriente, e a latina no Ocidente, conservam alguma coisa da majestade romana, que convém o mais possível à majestade muito maior da Igreja católica. A uma Religião senhora do mundo quadra a língua dos dominadores do mundo, como a uma doutrina imortal quadra uma língua imutável. Se a Religião e a razão devem ações de graças à Igreja católica por ter adotado as línguas gregas e latina, não lhes convém menos reconhecimentos as ciências. Imortalizando a sua língua, imortalizou a Igreja a literatura dos gregos e romanos, do mesmo modo que os Papas salvaram, santificando-os, os monumentos dos Césares. Se não fosse a cruz que a domina, há muito que estaria em terra a coluna Trajana.

            De resto, não é certo que, pelo uso duma língua morta, se achem os fiéis privados do conhecimento do que se contem na liturgia. Longe de vedar-lhes este conhecimento, recomenda a Igreja aos seus ministros expliquem ao povo as diferentes partes do santo Sacrifício e o sentido das orações públicas [ii]. Muito mais, não proibiu absolutamente as traduções das orações da liturgia, pelas quais pode ver o povo na sua língua o que dizem os Sacerdotes no altar [iii]. Não é pois, verdade, como lhe arguem os protestantes, que ela quisesse ocultar os seus mistérios; não, só quis pô-los a salvo das alterações, inevitável consequência das mudanças de linguagem [iv].


[i] Bergier, art. Lingua.

Vol. VII.

[ii] Conc. Trid., Sess. XXII e VIII.

[iii] Exceto o Canon ou o ordinário da Missa, cuja tradução é contrária às intenções da Igreja.

[iv] Vide o Cardeal Bona, Rerum liturg., I, I, c, v, p. 33.