A Igreja não combate a ciência (Caso Galileu)

Mons. Miguel Martins

Início do século XX

 O Missionário Brasileiro

 Décima quinta Instrução

A Igreja não combate a ciência (Caso Galileu)

          Um dos fatos com que mais têm especulado os inimigos da Santa Igreja, é o célebre processo de Galileu. Constantemente alegam este fato com o intuito de convencer que a Igreja é impostora, caprichosa, não tem o dom da infalibilidade, e muito particularmente para provar que ela é adversária, inimiga rancorosa da ciência. Tratando-se dessa questão importantíssima, convém muitíssimo ter todo o cuidado para defender a Igreja, mas sem ferir, nem de leve, a verdade dos fatos incontestáveis, porque diversamente os efeitos da defesa ficariam completamente prejudicados. Depois de estudar bem a questão e com ardentíssimo desejo de perfeitamente conhecê-la em sua plena realidade, cheguei às seguintes conclusões, que inteiramente sujeito ao juízo infalível da Igreja, de cujo ensino, com a graça de Deus, jamais me apartarei, nem numa só linha. É verdade que Galileu primeiramente ensinou como simples hipótese que a terra movia-se em torno do sol, quando então quase todos firmemente acreditavam que era o sol que se movia ao redor da terra; e consideravam que essa opinião conforme ao ensino da Escritura Santa, que dizia que por intercessão de Josué Deus fez parar o sol. Mais tarde ele começou a ensinar, não mais como mera hipótese, mas como verdade incontestável, que o sol era imóvel e que era a terra que movia-se em seu torno.

         Como de prever-se, essa terminante asseveração, contrária a crença dos que formavam uma generalidade, provou uma forte e incandescente discussão, que logo produziu uma grande agitação, não só cientifica, mas mesmo religiosa; porque cada um dos partidários procurava demonstrar que a sua opinião é que estava de perfeito acordo com a Escritura Santa. Então, como era de seu dever, o Papa para dissipar essa perturbação inconveniente, e nulificar os seus perniciosos efeitos, por intermédio da Sagrada Congregação do Santo Oficio, proibiu Galileu de continuar a fazer a propaganda de sua doutrina, que ainda não estava, nem de leve, comprovada. Não obstante a firme promessa que havia feito de mais nada fazer, nem escrever a esse respeito, mais tarde Galileu recomeçou e com muito mais ardor a propagar a sua doutrina, não mais como simples cientista, mas como um teólogo, que dogmatizava; e até chegou a querer que o poder eclesiástico autorizasse a defesa do sistema.

         Não é verdade que Galileu foi maltratado na sua prisão. Dos relatórios oficiais do processo consta que ele esteve preso no palácio do Grão Duque de Toscana; e daí foi autorizado pelo Papa a ir residir em Siena, no Palácio do Arcebispo Piccolomini, seu dedicado amigo. Muito menos é verdade que ele sofresse a tortura com o fim de obrigá-lo a retratar-se, pois consta do interrogatório que ele mesmo voluntariamente declarou que nunca teve verdadeira certeza do movimento da terra, e que por isso não podia assegurar que a opinião contrária fosse com certeza falsa; e assim fica desmentida a famosa expressão a que nossos adversários ligam tanta importância: E pur si muove (e a terra por si se move). O livre pensador Philarete Charles assegura que tal frase nunca proferiu Galileu.

         Não é também verdade que o Papa tenha sido caprichoso, injusto no seu procedimento nesta questão. Ninguém será capaz de pôr em dúvida que todo o governo tem o direito e mesmo o dever de proibir a simples publicação duma doutrina, mesmo verdadeira, desde que essa publicação traga a perturbação da ordem e prejudique a sociedade, e com muito mais razão quando essa doutrina não tem verdadeiras provas de exatidão. Portanto, no caso vertente, o Papa não fez senão usar dum pleno direito e cumprir um rigoroso dever.

         É também verdade que o Papa, declarando falsa e contrária à Escritura Santa a doutrina que ensina a imobilidade do sol e o movimento da terra, errou. Hoje não há ninguém, nem mesmo nenhum dos legítimos representantes da Igreja, que não tenha como certíssimo que o sol é imóvel, e que a terra é que gira em seu torno. A própria Igreja depois julgou essa doutrina demonstrada como verdadeira, tanto que suprimiu as decisões que contra ele tinha tomado, e procurou explicar num sentido figurado os textos que pareciam ser favoráveis à doutrina contrária.

         Vamos agora abordar as duas questões, que mais nos interessam, e as quais os nossos adversários ligam suma importância, acreditando que elas lhes dão ganho de causa. A primeira é saber ou verificar se condenando uma doutrina verdadeira, o Papa sacrificou o seu divino privilegio da infalibilidade, fundamento da verdade do ensino católico dogmático? A resposta negativa é peremptória e perfeitamente fundamentada. Os requisitos indispensáveis para a infalibilidade são, como já notamos, os seguintes: O Papa deve falar, não como particular, mas como pastor universal; deve falar, não à particulares, mas à toda a cristandade; não sobre ciências e conhecimentos profanos, mas sobre a fé e costumes; deve, não impor um preceito para fazer evitar alguma coisa, mas deve ordenar que todos acreditem firmemente que tal doutrina é católica ou herética, que tal ato é conforme ou contrário à lei divina; e que a sua decisão legislativa, doutrinária, tenha caráter definitivo, irrevogável e seja dada para sempre vigorar. Eis a respeito o que determinou o Santo Concílio Vaticano I, o que já tinha sido sempre aceito e observado, e que está de perfeito acordo com o direito e com o bom senso: Doctrinam tenendam definit. Ejusmodi definitiones romani Pontificis ex sese irreformabiles esse.

         Concedamos que a decisão tomada tenha os três primeiros requisitos para a infalibilidade; é, porém, evidentíssimo que não tem o quarto, que é mais importante, necessário e essencial para ela ter o cunho duma decisão dogmática. Lendo toda a decisão verificamos que ela proíbe de ler livros que ensinam a doutrina do movimento da terra, e proíbe de por palavras ou por escritos sustentar-se essa doutrina; e nada mais, absolutamente. É, portanto, apenas um preceito disciplinar. A Igreja também proíbe de ler livros obscenos, os suspeitos de heresia; e nem por isso declara, define que esses livros são falsos, heréticos. Há muitíssimos anos a Igreja proibia de sustentar uma opinião oposta à crença da Imaculada Conceição; e foi só em 8 de dezembro de 1854 que definiu essa crença como dogma. A sua anterior proibição não passava dum preceito disciplinar.

         A referida decisão não manda que acreditem todos que a doutrina do movimento da terra é falsa, herética, como também não manda que acreditem que a opinião contrária é verdadeira, católica, dogmática. Não tem, portanto, o caráter legislativo que a todos impõe uma crença religiosa. É certo que os considerandos qualificam a referida doutrina de erro doutrinal, doutrina herética; mas os considerandos não formam o objetivo da decisão, e assim, eles até podem ser falsos, e a decisão ser verdadeira. Tanto é verdade que mais tarde Alexandre VII, mantendo a proibição, suprimiu os seus considerandos. A decisão em questão não tem o caráter definitivo; não é dada como irrevogável, e para sempre.

         Para completar a nossa terminante asseveração, lembraremos que nenhum teólogo posterior, nem mesmo nenhum contemporâneo considerou essa decisão como dogmática.

         Quando o cardeal Hohenzollern ponderou ao Papa Urbano VIII que era preciso muita circunspeção em publicar uma decisão sobre tal assunto, ele respondera-lhe que a santa Igreja não condenara a doutrina como herética, mas só como temerária; e que não havia a recear que algum dia alguma pessoa demonstrasse absolutamente a verdade dessa opinião. Mais claro do que isto, só a luz meridiana. Portanto, não obstante um erro particular, doutrinário, permanece em pé e perfeitamente intacto o divino privilégio da infalibilidade pontifícia, que tanto tortura os nossos gratuitos e odientos adversários.

         Entremos na última e mais importante questão: Em seu procedimento para com Galileu a Igreja teve em mira guerrear a ciência? Não, não, absolutamente que não. Alguns outros antes dele aventaram a mesma doutrina, mas em nada, nem sequer foram melindrados, porque portaram-se com toda a conveniência e correção. O próprio Galileu quando apresentou a nova doutrina como simples hipótese e enquanto procedeu corretamente, longe de ser incomodado, foi acariciado. Se depois sofreu, foi unicamente porque quis converter uma mera opinião destituída de provas, numa decisão dogmática, numa verdade matemática, e até arvorando-se em intérprete soberano da Escritura Santa. Pondo-se de parte essa questão, que por sua causa tornou-se de tão irritante e nociva, ele foi sempre entusiasticamente engrandecido, elogiado pelos maiores e mais notáveis personagens da Igreja católica em ralação aos seus estudos e às suas brilhantes conquistas científicas.

         O próprio Urbano VIII, que mais tarde mandou processar para punir a sua desobediência e contumácia, antes escreveu ao Grão Duque da Toscana o recomendando e fazendo-lhe os mais pomposos elogios relativos às suas grandes vitórias científicas.