Santa Morte do Clérigo Comollo

(Amigo e companheiro de seminário de S. João Bosco)

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Na manhã do dia 25 de março, dia da Anun­ciação de Nossa Senhora, quando João (Bosco) se dirigia à capela, encontrou-se no corredor com Comollo que o estava esperando para lhe dizer ter chegado a hora da partida. João ficou muito surpreso, pois, no dia anterior tinham passeado juntos muito tempo e o tinha deixado em perfeita saúde. Comollo acrescentou com voz comovida: — Sinto-me mal e o que me aterra é dever me apresentar ao grande juízo de Deus. — João o exortou a não se querer preocupar, pois, estas coisas eram de fato sérias mas haveria tempo para se preparar. Dito isto, entraram na igreja. Comollo assistiu ainda á S. Missa durante a qual teve um des­maio pelo que deveu ser transportado ao dormi­tório e ir para a cama. Naquele momento, atesta o Pe. Giacomelii, João anunciou aos colegas que Comollo morreria daquela doença.

Logo que terminou a função na igreja, escreve D. Bosco na biografia do amigo, fui visi­tar Comollo no dormitório. Apenas me viu entre os presentes fez-me sinal para que me aproxi­masse e assim me falou: — Tu me disseste que era coisa remota e que eu ainda teria tempo para me preparar; mas não é assim; estou certo de que logo vou me apresentar diante de Deus; tenho pouco tempo à minha disposição; vou te dizer claro: devemos nos separar. — Eu, porém o con­vidava a não se inquietar e a não ficar aflito com tais idéias. — Não me inquieto nem me aflijo; só penso que devo comparecer ante o grande e inapelável juízo e isso é que me perturba interior­mente. — Essas palavras muito me afligiram, por isso procurei saber sempre suas notícias e cada vez que eu o visitava ele repetia sempre a mesma expressão: — Aproxima-se o momento de me apresentar ao juízo divino; devemos nos separar: — Julgo não exagerar dizendo que no curso de sua vida me repetiu umas quinze vezes a mesma expressão.

“Segunda-feira ele ficou na cama ardendo em febre. Já tinha previsto que os médicos não atinariam com sua doença. Terça e quarta-feira passou-as fora da cama, sempre triste e melan­cólico, absorto no pensamento dos juízos divi­nos. A tarde de quarta-feira deitou-se de novo para não se levantar mais. No sábado à tarde fui visitá-lo: — Já que nos devemos deixar, me disse, e visto daqui a pouco eu dever me apre­sentar ao juízo, gostaria que passasses comigo esta noite. — O Pe. José Mottura, diretor espi­ritual, ao ver como o enfermo ia de mal a pior concedeu-me de boa vontade que eu passasse a noite à cabeceira do enfermo. Era o dia 30 de março, véspera do solene dia de Páscoa. — Fique atento, me disse o diretor e se perceber qual­quer perigo chame logo a mim ou a outrem. Ob­serve também todas as particularidades da do­ença para comunicar ao medico amanhã. — As oito horas a febre subiu; às 8 e 15 teve um acesso de febre convulsa tão forte que lhe tirou o uso da razão. A princípio lamentava-se ininterruptamente como se estivesse horrorizado por algum fan­tasma ou objeto aterrador. Daí a meia hora, voltando um tanto a si e olhando fixo para os presentes exclamou em voz alta: Ai juízo! — De­pois começou a se debater com tanta violência que cinco ou seis que estávamos de pé em derredor mal o pudemos conservar na cama. Tais movimentos duraram umas três horas depois do que readquiriu o uso dos sentidos. Esteve muito tempo pensativo como ocupado em sérias refle­xões, depois, deixando de parte aquele ar de tris­teza e de terror que desde vários dias sentia em vista dos juízos divinos, pareceu completamente sereno e tranqüilo. Falava, ria, respondia a todas as perguntas que lhe eram feitas, a ponto de pare­cer em estado normal de saúae. Perguntaram-lhe de onde provinha tão radicai mudança da tris­teza para a alegria. Ficou um pouco embaraçado para responder e depois, olhando de um lado para outro como para ver se ninguém o escutasse come­çou a me falar em voz “baixa: Até agora tinha medo de morrer pelo temor do juízo divino; tudo me aterrorizava; mas agora estou tranqüilo, nada mais receio pelo motivo que vou te confiar como a um amigo: Enquanto eu estava agitado pelo temor dos juízos divinos, pareceu-me ser trans­portado num momento para um vale vasto e pro­fundo em que a agitação do ar e um vento furioso tiravam as forças de todos que ali entrassem. No meio daquele vale havia um grande abismo como, se fosse urna fornalha muito larga e profunda, de onde saíam chamas devoradoras. De quando em vez eu via muitas almas, algumas das quais reconheci, cair nesse abismo e produzir na queda globos imensos de fogo e de fumaça que se eleva­vam até o céu. A tal vista, horrorizado, pus-me a gritar por medo de dever cair naquela voragem assustadora. Voltei atrás para fugir, mas eis que uma inúmera multidão de monstros de forma hor­rível, uns diferentes dos outros, tentavam em­purrar-me para o abismo… Então gritei mais vezes, cada vez mais aterrorizado, sem saber o que fazer e fiz o sinal da santa Cruz. A este ato de piedade todos aqueles monstros queriam incli­nar a cabeça mas não podendo fazê-lo, se contorciam e se afastavam um pouco de mim. Não po­dendo no entanto fugir ainda e afastar-me daquele lugar de desgraça vi então um exército de homens armados que, quais valorosos guerreiros, vinham em meu auxílio. EIes assaltaram valorosamente aqueles monstros alguns dos quais ficaram des­pedaçados, outros caíram por terra e outros se puseram em fuga precipitosa. Libertado daquele perigo, comecei a caminhar por aquele vale tão majestoso até que cheguei ao sopé de unia escada que dava acesso a alta montanha. Vi com horror que em todos os degraus da escada havia grandes serpentes prontas a se lançarem contra quem se aventurasse por aquela escada. Não havia, no entanto, outra passagem senão aquela e eu não tinha coragem de subir com medo das serpentes. Esmagado pelo cansaço e pela aflição, destituído de forças, já estava para desmaiar quando uma Senhora, que penso ter sido nossa Mãe Celeste, vestida lindamente, me tomou â mão e fez-me ficar de pé dizendo-me: — Vem comigo. Trabalhaste para me honrar e me invocaste tantas vezes; é justo que agora recebas a devida recompensa. As comunhões que fizeste em minha honra merecem que eu te livre do perigo a que te quer atrair o inimigo das almas. — Fez-me sinal para que eu a seguisse escada acima. Quando Ela pôs o pé na escada, todos aqueles animais voltaram para o outro lado a venenosa cabeça e não reto­maram a primitiva posição senão quando já está­vamos longe deles. No alto da escada, encontre-me num jardim deliciosíssimo onde vi coisas que jamais julguei existirem. Quando me viu tranqüilo, aquela bondosa Senhora acrescentou estas palavras: — Agora estás na salvação; a mi­nha escada é que deve te conduzir ao sumo bem. Coragem, meu filho, o tempo é breve. Estas flores que formam tão belo ornamento neste jardim são recolhidas pelos anjos que com elas vão te entretecendo uma coroa de glória afim de te colo­car entre os meus filhos no reino dos céus. — Assim falando, a Senhora desapareceu. Estas coisas, concluiu Comollo, satisfizeram tanto o meu coração e me tornaram tão tranqüilo que longe de desejar a morte, suspiro que venha logo afim de me unir com os anjos do céu para cantar os louvores do meu Deus. — Assim falou Comollo.

“Diga-se o que quiser da narração acima, o fato é que quanto maior tinha sido o seu temor de comparecer perante Deus, tanto mais agora nele se manifestava o desejo de que chegasse esse instante bendito. Não mais se lhe via no semblante sinal de tristeza mas todo risonho e jovial queria só cantar salmos, hinos ou loas espirituais.

“Posto que o estado de sua doença aparen­temente se manifestasse com grande melhora, no entanto, ao romper da aurora, julguei boa coisa adverti-lo a que nesse dia recebesse os santos Sacramentos mesmo por ser o dia de Páscoa. De boa vontade, respondeu-me, nada tenho que me perturbe a consciência, no entanto, visto o estado em que me encontro, acharia bom falar um momento com meu confessor antes de receber a Sagrada Comunhão.

“A sua Comunhão foi uma cena edificante e maravilhosa. Terminada a confissão, fez a pre­paração para receber o Santo Viático enquanto o diretor espiritual, acompanhado pelos semina­ristas, entrava com o Santíssimo na enfermaria. Ao avistar o Santíssimo, Comollo comovidíssimo mudou de cor e de fisionomia e exclamou em santo arrebatamento: — Oh! belo espetáculo! Alegre visão! Vê como brilha este sol! Que lindas estrelas lhe fazem coroa! Quantos anjos prostrados por terra o adoram e não ousam erguer a fronte inclinada! Oh! Deixem-me ajoelhar com eles e adorar também eu este sol nunca visto. — Enquanto dizia isso, fazia esforços para se levan­tar e com fortes movimentos tentava se apro­ximar do SS. Sacramento. Eu me esforçava para o conservar na cama; rolavam-me pela face lágrimas de ternura e de admiração; não sabia o que dizer nem o que lhe responder. E Comollo se debatia com maior violência querendo ir ao encontro do S. Viático e só se tranqüilizou depois que O recebeu. Depois da Comunhão ficou imóvel algum tempo, inteiramente con­centrado nos mais afetuosos sentimentos para com Jesus; depois se deixou transportar em novos arrebatamentos de alegria pronunciando por muito tempo fervorosas jaculatórias. Final­mente abaixando a voz, me chamou para perto dele e me pediu não lhe falasse a não ser de coisas espirituais dizendo que aqueles últimos momentos que ainda lhe restavam, eram por demais preciosos e devia empregá-los todos em glorificar a Deus, por isso não responderia a pergunta que lhe fosse feita relativamente a outras coisas.

“Depois disso, parecendo muito exaurido de forças e com grande sonolência entregou-se ao repouso. Os seminaristas tinham ido às sagra­das solenidades da igreja matriz. Depois de pequeno repouso, Luiz acordou e ao me ver sozinho à sua cabeceira, me disse: — Eis-nos, ó caro amigo, eis-nos chegados ao momento em que nos devemos deixar por algum tempo. Julgávamos que um poderia confortar o outro nas vicissitudes da vida, auxiliar-nos, aconse­lhar-nos em tudo o que pudesse ajudar a nossa salvação eterna. Mas não era assim que estava escrito nos santos e sempre adoráveis desígnios de Deus. Tu me ajudaste sempre nas coisas espi­rituais, científicas e até temporais; devo te agra­decer. Deus te dê a recompensa. Mas antes de nos separarmos, escuta umas lembranças e um teu amigo. A amizade não se preocupa em fazer o que o amigo pede enquanto vive mas também em realizar o que prometeram depois da morte. Por isso o pacto que fizemos com a mais estrita promessa, de rezar um pelo outro afim de nos salvarmos não quero que se estenda apenas à morte de um de nós mas até a morte de ambos; jura e promete que hás de rezar por mim enquanto viveres. — Posto que ao ouvir tais palavras eu me sentisse a ponto de rebentar em lágrimas, no entanto eu as contive e prometi tudo o que ele queria. Depois de me dar alguns avisos concluía: — Uma coisa tenho ainda a pedir-te e de muito coração. Quando fores passear e passando perto do meu sepulcro ou vires os companheiros dizer: aqui está sepultado o nosso colega Comollo, então tu lhes sugiras com pru­dência e em meu nome que cada um reze por minha intenção um Pater e um Réquiem. Assim ficarei livre das penas do purgatório. Ainda muito teria a te dizer mas o mal me oprime cada vez mais; por isso recomenda-me às orações dos amigos, reza por mim e Deus te acompanhe, te abençoe; rever-nos-emos quando Ele o quiser.

“Na tarde do dia de Páscoa apareceu tão prostrado que apenas podia articular e pro­nunciar alguma palavra; foi então acometido de novo e mais violento acesso de febre, acompa­nhada por dolorosas convulsões que nós mal podíamos conter. Por mais que estivesse fora de si ou agitado pela violência do mal, apenas lhe perguntávamos: Comollo por quem é preciso sofrer? — ele logo voltando a si, jovial e sorri­dente, respondia: Por Jesus Crucificado.

Em tal estado, sem proferir um lamento pela atrocidade das dores, passou a noite e quase o dia inteiro que se seguiu. De quando em quando se punha a cantar com voz comum e tão firme que o julgaríeis em perfeito estado de saúde. O seu canto era o Miserere, as ladainhas de Nossa Senhora, o Ave maris Stella e loas espi­rituais. Mas visto que o canto o esgotava pro­curamos sugerir-lhe alguma oração; deixava de cantar para dizer as orações que lhe sugeríamos.

“As sete da tarde do dia 1.° de abril, como piorasse cada vez mais, o diretor espiritual julgou dever se lhe administrar a Extrema Unção; e ele que pouco antes parecia agonizar, refez-se completamente, respondeu a todas as orações e responsos que ocorrem na administração desse Sacramento. O mesmo aconteceu às onze e meia quando o Cônego Sebastião Mottura, nosso reitor, ao ver que um suor frio começava a lhe cobrir o corpo, administrou-lhe a bênção papal. “Confortado assim com todas as facilidades de nossa santa religião, não parecia um doente mas um que repousa na cama; estava em plena posse dos sentidos, com o espírito pacato e tran­qüilo; bem alegre, proferia a todo o momento fervorosas jaculatórias a Jesus Crucificado, a Maria Santíssima, aos santos, pelo que o senhor reitor teve que dizer: — Comollo não precisa que outros lhe recomendem a alma pois é sufi­ciente por si mesmo. — À meia-noite com voz muito forte entoou a Ave Maris Síella e conti­nuou este hino até o último versículo sem inter­rompê-lo, muito embora o convidássemos a não se cansar. Estava tão recolhido em si mesmo e do seu rosto transparecia um tal ar de paraíso que parecia um anjo.

“Um companheiro lhe perguntou: — O que mais te consola neste momento? — Ter feito alguma coisa por Maria e ter recebido com fre­qüência a Santa Comunhão — respondeu.

A uma e meia da manhã de 2 de abril, posto que conservasse sempre a serenidade habitual, pareceu tão extenuado que parecia faltar-lhe a respiração. Reavendo-se um pouco, recolheu todo o vigor que tinha e com voz entrecortada, os olhos fixos no céu, irrompeu em tais expressões de amor e de confiança para com Maria, que todos os presentes se comoveram até as lágrimas. Vendo que lhe faltava o pulso, percebi chegado o momento em que ia deixar o mundo e os companheiros, por isso me pus a lhe sugerir o que me pareceu a propósito. E ele, bem atento ao que se lhe dizia, com o rosto e com os lábios sorridentes, conservando inalterável tranqüili­dade, fitou os olhos no crucifixo que conservava entre as mãos cruzadas ao peito e se esforçava por repetir as palavras que lhe sugeríamos. Dez minutos antes de expirar, chamou-me para perto de si e disse: — Se queres algo para a eterni­dade, eu… adeus, vou-me embora. Jesus e Maria, coloco minha alma em vossas mãos. — Eis as últimas palavras que disse. Endureceram-lhe os lábios, a língua se lhe engrossou e, assim, não podendo pronunciar as jaculatórias que lhe sugeríamos articulava-as com os lábios.

Ali estavam também dois diáconos Sassi e Fiorito que lhe liam o Proficiscere, terminado o qual, no ato de se pronunciarem os santos nomes de Jesus e Maria, sempre sereno e risonho, iluminando-se num doce sorriso como o de quem se surpreende perante uma cena maravilhosa e alegre, sem fazer um único movimento, a sua bela alma se separou do corpo, voando como piedosamente o esperamos, a repousar na paz de Nosso Senhor. A sua feliz morte se deu às duas da manhã antes que surgisse a aurora do dia 2 de abril de 1839, na idade de 22 anos menos cinco dias.

“Naquela noite, narra Tiago Bosco, o clé­rigo Vercellino de Búlgaro que dormia num dor­mitório diferente do de João Bosco, acordando de repente se põe a gritar:— É Comollo! É Co­mollo! — Todos acordam, correm para ele e lhe perguntam o que queria dizer. Tiago Bosco, vice-prefeito, o convida a fazer silêncio mas Vercellino repetia sempre: — Comollo morreu! — Os companheiros acham impossível, pois na véspera Luiz tinha melhorado muito. — No entanto eu o vi. Comollo entrou no dormitório e disse: — Morri agora! E desapareceu. — Alguns o quise­ram persuadir de que não passara de um sonho mas nisso entram no dormitório os dois diáconos que tinham assistido Comollo; todos lhes perguntaram: — Como vai Comollo? — Morreu! responderam. — A que horas? — Faz doze minu­tos! — Pensemos no assombro que todos tive­ram ao ver que não fora uma ilusão de Vercellino.” Ao raiar o dia, espalhando-se a notícia da morte de Luiz Comollo, a maior consternação invadiu o seminário. Todos, porém, diziam conso­lados: — Nesta hora Comollo já estará no céu rezando por nós; e todos porfiavam em conseguir algum objeto que lhe tivesse pertencido, para o reter como lembrança de um colega tão estimado e venerado. O reitor do seminário, movido pelas singulares circunstâncias que acompanharam a morte de Comollo, não podendo se conformar com a idéia de que o santo jovem fosse sepultado no cemitério comum, logo cedinho se dirigiu a Turim e conseguiu com as autoridades civis e eclesiásticas a permissão para sepultar Comollo na Igreja de S. Felipe, contígua ao mesmo semi­nário. Portanto, na manhã de 3 de abril, com a presença de todos os seminaristas, de todos os superiores, do vigário, dos cônegos e do clero, e com o acompanhamento de imenso povo, foi o cadáver levado processionalmente pela cidade de Chieri e depois de longo percurso foi conduzido à Igreja de S. Felipe. Aí, com música piedosa e pomposo aparato o diretor cantou a Missa, “pre­sente cadavere”; terminada a função, foi o corpo de Luiz depositado numa tumba aberta bem perto da mesa de comunhão como se aquele Jesus Sacramentado que fora alvo de tanto amor da parte de Comollo e que constituirá as suas delícias, o quisesse perto de si, mesmo depois da morte.

Apenas sepultado, Comollo apareceu uma segunda vez e foi esta aparição testemunhada por um dormitório inteiro. Eis como D. Bosco narra o maravilhoso acontecimento:

“Em vista da amizade e da confiança ili­mitada que me unia a Comollo, estávamos habi­tuados a falar do que podia nos acontecer a todo o momento, isto é, de nossa separação pela morte. Um dia, relembrando o que tínhamos lido na vida dos santos, entre brincadeira e seriedade dissemos que teria sido um grande conforto se aquele de nós dois que primeiro houvesse sido chamado à eternidade tivesse levado ao outro a notícia do seu estado na outra vida. Renovando muitas vezes estas conversas, fizemos uma pro­messa recíproca de rezar um pelo outro e que o que morresse primeiro traria a notícia da pró­pria salvação para o companheiro vivo. Eu des­conhecia a importância de tal promessa e confesso que foi uma grande leviandade e não aconselho a ninguém a fazê-la; no entanto consideramos sem­pre com seriedade o cumprimento de tal promessa. Muitas vezes a confirmamos, especialmente na última doença de Comollo, colocando, porém, sem­pre a condição: se Deus tivesse permitido e se fosse do seu agrado. As últimas palavras de Comollo e o último olhar me tinham assegurado o cumprimento do nosso pacto.

Alguns companheiros estavam ao par disso e ansiosos por assistir à sua realização. Eu estava mais ansioso ainda pois esperava um grande con­forto para minha grande tristeza.

Era a noite de 3 para 4 de abril, noite que se seguia à sua sepultura; eu com mais vinte com­panheiros estávamos dormindo no salão que dá para o pátio na face sul. Estava deitado mas não dormia, pensando na promessa feita e como que prevendo o que ia acontecer, eu me sentia presa de um pavor e uma grande comoção. Ao bater meia-noite ouve-se um rumor surdo no fundo do corredor, esse rumor ia se tornando mais audí­vel, mais profundo e mais agudo à medida que se avizinhava. Parecia um carroção arrastado por muitos cavalos, um trem de ferro ou o troar de um canhão. Não saberia defini-lo, a não ser dizen­do que formava um conjunto de ruídos tão vibrá­teis e ao mesmo tempo tão violento a ponto de gerar um horror imenso e emudecer os que o escu­tavam. Ao se aproximar da porta do dormitório fazia trepidar as paredes, o teto, e o chão do corre­dor como se fossem vigas de ferro percutidas por braço poderosíssimo. A sua aproximação não era sensível de forma a se poder medir a dimi­nuição de distâncias, mas, deixava uma incerteza como a de uma máquina a vapor que em sua corrida não nos permitisse saber o lugar em que se acha e cuja posição só conhecemos pelo penacho de fumaça que se perde no ar.

Os seminaristas acordam mas ninguém fala. Eu estava petrificado pelo medo. O rumor se aproxima; está perto do dormitório; a porta se abre sozinha com violência; continua cada vez mais forte o estrondo sem que se veja coisa alguma a não ser uma luz mortiça variegada nas tona­lidades de suas cores e que parecia regular o rumor. Num certo momento se faz improviso silêncio, brilha a luz com mais fulgor e se ouve distinta­mente a voz de Comollo; mais fraca do que em vida a dizer 3 vezes consecutivas: Bosco! Bosco! Bosco! Estou salvo!

Naquele momento o dormitório se torna ainda mais luminoso, o rumor reaparece muito mais violento como um trovão a estremecer a casa, mas, daí a pouco cessou por completo e a luz desapareceu. Os companheiros, saltando das camas, tinham fugido sem direção; reuniram-se todos num canto do dormitório como para se encorajar, outros se agruparam em redor do pre­feito Diác. José de Rivoli e assim passaram a noite esperando ansiosos o surgir do dia. Todos tinham escutado o rumor. Alguns escutaram a voz, mas, não entenderam as palavras. Pergun­tavam-se reciprocamente a significação do rumor e da voz e eu sentado na cama dizia-lhes apenas que se tranqüilizassem, afirmando-lhes ter ouvido distintamente as palavras: Estou salvo! — Outros também as tinham ouvido como eu e por muito tempo se ia repetindo no seminário a narração deste fato.

Eu sofri muito e naquele momento meu pavor foi tão grande que eu teria preferido morrer. Foi a primeira vez que me lembro ter tido medo.

Começou disto uma doença que me levou à beira da sepultura e me abalou tanto a saúde que não pude readquiri-la senão muitos anos depois.

Deus é onipotente e misericordioso; no mais das vezes não presta ouvidos a estes pactos; às vezes, porém, na sua infinita misericórdia, permite que se realizem fatos como o acima exposto. Não daria jamais conselho a alguém para fazer tal combinação. Tratando-se de estabelecer contato entre as coisas sobrenaturais e as naturais, a pobre humanidade vem a sofrer horrivelmente, especialmente em fatos relativos à nossa salva­ção eterna. Estamos suficientemente certos da existência da alma; não precisamos exigir pro­vas; baste-nos o que nos revelou N. Senhor Jesus Cristo.

Quando D. Bosco reimprimia em 1884 a biografia de Luiz Comollo, algumas testemunhas desta aparição ainda estavam vivas; até os ori­ginais da primeira edição antes de serem impressos foram lidos e revistos pelos superiores do semi­nário e pelos companheiros que foram testemu­nhas oculares. O Pe. José Fiorito o narrou mui­tas vezes aos superiores do Oratório. O fato causou sensação até fora do seminário e alguns o ouviram narrado pelo sineiro da matriz Domingos Pogliano que lhe confirmava a autenticidade.

Não obstante o sofrimento causado pela perda do amigo, o terror produzido pela aparição, sofri­mento que como ele mesmo o disse acima, abalou sua saúde já debilitada pelas longas vigílias sobre os livros, e quase o levou à sepultura, um jovem clérigo, espírito irrequieto e então muito leviano, que não pertencia ao dormitório de Bosco, aborrecido por vê-lo sempre recolhido, lhe repetia muitas vezes: Bosco, Bosco, Bosco, estou salvo! — João sentia reabrir-se uma dolorosa ferida; essas palavras ditas em tom de burla soavam mal aos seus ouvidos, no entanto ele sorria e brincando ameaçava com o dedo o clérigo em questão mas não dizia palavra. Este clérigo, mais tarde santo e zelosíssimo sacerdote, repetia-nos estas suas travessuras para nos dar uma idéia da paciência, e do domínio que João Bosco adqui­rira sobre sua índole naturalmente fogosa.

Fonte: “São João Bosco Seminarista”, revista Leituras Católicas, Nº 806. Agosto de 1957.