Evolução do dogma?

 O século XIX encantado da palavra evolução tentou aplicá-la também ao dogma. Daí equívocos funestos que importa dissipar. 

Evoluem os dogmas? Sim e não. Objetivamente, não; subjetivamente, sim. explico-me. 

Quando emudeceram, gelados pela morte, os lábios do ultimo apostolo, fechou-se o ciclo das revelações publicas. O período de inspiração estava concluído, inaugurava-se o período de assistência. No primeiro, acendeu-se o foco de luz, no segundo, conserva-se. Uma vez constituído de depósito divino, Deus confia-o à sua Igreja. Ela o guardará intacto e inviolável até ao fim dos tempos. Nenhuma verdade há de perecer, nenhuma será acrescentada. Objetivamente, pois, não pode haver evolução, não pode haver progresso no dogma. 

Subjetivamente, porém, nós podemos conhecê-lo com maior profundidade, explicá-lo com mais clareza, desenvolvê-lo em novas conclusões. Quem ousará supor que uma só geração lhe tenha esgotado todos os tesouros? Os gênios depositam muitas vezes nas suas obras germes de verdades que só um futuro distante verá desabrochar. Será menos rica, menos patente a palavra de Deus? Não há também de florescer e frutificar a semente divina confiada à Igreja? Vede com que amor, com que carinho respeitoso ela a cultiva! Vede como, sob a assistência do Espírito que nela reside, as causas mais encontradas concorrem admiravelmente para expansão lógica das verdades reveladas! 

São os gênios que, no desfilar dos séculos, sondam, com os olhos de águia, as profundezas dos ensinamentos divinos. Quantas harmonias não sentidas, quantos tesouros antes ignorados, quantas belezas não advertidas, não logrou descobrir a meditação profunda e afetuosa dos doutores, dos santos, dos teólogos! 

São as mudadas condições da vida dos povos. Com o avançar do progresso, novas aspirações se manifestam, acentuam-se novas exigências. Em função das necessidades dos tempos, a Igreja repensa as verdades que lhe foram confiadas e tira das suas riquezas novas soluções, novas luzes para iluminar o gênero humano em todas as fases de sua existência histórica e social. 

São os erros, são as heresias. Descansavam os fieis tranqüilos na posse indisputada da sua fé. Surge um espírito temerário que, com a ousadia de suas negações lança a perturbação nas almas. A Igreja consulta as fontes divinas da revelação, estuda-as, aprofunda-as e contra o erro que surge, formula, define em termos precisos a doutrina impugnada [1]. A definição criou o dogma? Não; defendeu-o contra a dúvida, protegeu-o na consciência dos fieis contra os perigos de uma interpretação falsa e equivoca. A definição é o sim eterno da verdade oposto ao não do erro que nasce.

Entretanto, os estudos suscitados pela controvérsia banham de desconhecidas claridades a verdade divina que por um instante a negação pretendera ofuscar. Um exemplo. Os primeiros cristãos criam explicitamente que Jesus era Filho de Deus e Filho de Maria. nesta verdade, porém, quantas outras não se incluem que eles admitiam expressamente mas nem sempre formularam com distinção! Vieram, porém, os gnósticos, vieram os arianos, os nestorianos os eutiquianos, os monotelitas. Sob a urgência de dar uma resposta a suas multiplicadas negações a fórmula fecunda foi meditada, analisada e dela jorrou imensa luz: explicitamente e distintamente a Igreja enuncia e define os dogmas da consubstancialidade do Verbo, da verdadeira natureza humana de Cristo, da distinção das duas naturezas subsistentes na Pessoa do Verbo, da existência de duas vontades no Homem-Deus, etc., etc. Era uma semente fecunda, hoje é uma árvore que se ostenta e toda a pujança de seu desenvolvimento. Houve progresso, não houve mudança. 

Estudo direto do dogma, progresso das ciências e da vida social, impugnação do erro e da heresia, tais são os principais fatores humanos de que se serve a divina Providência para promover na Igreja o conhecimento mais amplo, mais profundo, mais harmonioso da verdade revelada. 

Colocai diante do firmamento estrelado um observador com a vista desarmada: é um espetáculo grandioso que o extasia. Dai-lhe agora um telescópio comum: como os astros se multiplicam, como se distinguem na viveza de seu fulgor! Imaginai-o agora armado de um destes poderosíssimos instrumentos, maravilhas da ótica e da mecânica moderna. Que vista deslumbrante! Quantos mundos, cuja existência nem sequer se suspeitava! Como das profundezas do espaço surgem miríades de astros desconhecidos! Dizei-me, mudou-se porventura o firmamento, mudaram-se as estrelas? Não; cresceu a potência visual do observador. Assim no firmamento das verdades da Igreja. Em si, são sempre iguais e imutáveis os dogmas revelados; em nós, porém, com o volver dos anos, se manifestam mais claros e mais distintos. 

Nada, portanto, tão simples como responder à pergunta inicial: evoluem os dogmas? Evoluem os dogmas? Evoluem, isto é, aprofundam-se, precisam-se, definem-se, sim. Evoluem, isto é, nascem, morrem, transmudam-se, crescem por justaposição de novos dogmas, não. O primeiro evoluir é vida, é progresso na verdade: o segundo é variação, incoerência, contradição. 

Aos olhos do observador sincero e maravilhado oferece a Igreja o espetáculo singular do desenvolvimento da vida aliado à imutabilidade divina da verdade. E esta admirável imutabilidade do dogma católico outra coisa não é senão o comentário histórico da promessa de Cristo: “Eu estarei convosco todos os dias, até à consumação dos seculos”. 

Pe. Leonel Franca em A Igreja, a reforma e a civilização, Cap. III, O Magistério Infalível.


[1]“Ideo divina Providentia multos diversi erroris haereticos esse permittit, ut cum insultant nobis et interrogant nos ea quae nescimus vel sic excutiamus pigritiam nostram et divinas Scripturas nosse cupiamus. S. Agostinho, De Genesi C. Manichaeos, I, 1, C. 1, n. 2, (ML, XXXIV), 173”

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