REGRA PARA DISTINGUIR A VERDADE CATÓLICA DO ERRO

 (Do Comonitório de S. Vicente Lerins) 

Após interrogar com freqüência, cuidado e atenção numerosíssimas pessoas, destacadas em santidade e dou­trina, sobre como distinguir por meio de uma regra se­gura, geral e normativa, a verdade da fé católica da falsi­dade perversa da heresia, quase todas me responderam o mesmo: “Todo cristão que queira desmascarar as intrigas dos hereges que brotam ao nosso redor, evitar suas arma­dilhas e manter-se íntegro e incólume na fé imaculada, deve, com a ajuda de Deus, adornar a sua fé de duas maneiras: em primeiro lugar, com a autoridade da lei divina, e com a tradição da Igreja Católica”. Contudo, alguém poderia objetar: visto que o cânon das Escrituras é por si só perfeito para tudo, que necessidade há de se acrescentar a autoridade da interpretação da Igreja?

Precisamente porque a Escritura, por sua própria sublimidade, não é entendida por todos de modo idên­tico e universal. De fato, as mesmas palavras são inter­pretadas de maneira diferente por uns e por outros. Po­deríamos dizer que existem tantas interpretações quantos leitores. Vemos, por exemplo, que Novaciano explica a Escritura de um modo, Sabélio de outro, Donato, Ário, Eunômio, Macedônio, de outro; e de maneira diversa a interpretam Fotino, Apolinário, Prisciliano, Joviniano, Pelágio, Celéstio e, em nossos dias, Nestório. É, pois, su­mamente necessário, por causa das tão numerosas e in­trincadas faces do erro, que a linha de interpretação dos Profetas e dos Apóstolos se faça segundo a norma do sen­tido Católico e da Igreja.

Na Igreja Católica é preciso pôr o maior cuidado para manter o que se crê em todas as partes, sempre e por todos [1]. Eis o que é verdadeira e propriamente cató­lico, segundo a idéia de universalidade que se encerra na própria etimologia da palavra. Mas isso será conquis­tado se nós seguirmos a universalidade, a antigüidade. o consenso geral. Seguiremos a universalidade se pro­fessarmos a única e verdadeira fé a que a Igreja inteira professa em todo o mundo: a antigüidade, se não nos separarmos de nenhuma forma dos sentidos que foram proclamados por nossos santos predecessores e padres; o consenso geral, por último, se, nesta mesma antigüidade, abraçarmos as definições e as doutrinas de todos, ou de quase todos, os bispos e mestres.

III

EXEMPLO DE COMO APLICAR A REGRA

Qual deverá ser a conduta de um católico, se al­guma pequena parte da Igreja se separar da comunhão na fé universal?

Não cabe dúvida de que deverá antepor a saúde do corpo in­teiro a um membro podre e contagioso.

Mas, e se se trata de uma novidade herética que não está limitada a um pequeno grupo que ameaça contagiar a Igreja inteira?

Em tal caso, o cristão deverá fazer tudo o possível para aderir à antigüidade, a qual não pode mais, evidentemente, ser alterada por nenhuma novidade mentirosa.

E se na antigüidade se descobre que um erro foi com­partilhado por dois ou três homens, ou mesmo por toda uma cidade, ou por uma região inteira?

Neste caso deve-se ter o máximo cuidado em preferir os decretos universais e antigos da Igreja Católica, se houver, à temeridade e à ignorância daqueles poucos.

E se surgir uma nova opinião sobre a qual nada foi ainda definido?

Então é preciso indagar sobre as opiniões dos nossos maiores, daqueles que, em diversos tempos e lugares, sempre permaneceram na comunhão e na fé da única Igreja Católica e vieram a ser mestres comprovados, para confrontá-las com a nova opinião. E tudo aquilo que tiver sido sustentado, escrito e ensinado aberta, freqüente e constantemente, não por um ou dois apenas, mas por todos juntos com um mesmo e único sentido, entenda que isto mesmo deve ser crido sem vacilação alguma.


[1]Quod ubique, quod semper, quod ab omnibus”: Esta regra simples e universal atravessou os séculos, fazendo do Comonitório um clássico da literatura católica”.

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