Do progresso de que a religião é suscetível

A respeito do progresso de que a religião é suscetível, ouçamos Bonald: “Desde que se publicou o Livro, que contém o gérmen de todas as verdades morais e sociais até os atos dos últimos concílios e os escritos dos últimos doutores, o cristianismo não é mais que um longo desenvolvimento da verdade, semelhante, diz o seu Fundador, ao grão que amadurece ou à massa que fermenta” 1. Talvez alguém pergunte, havia já dito S. Vicente de Lerins, se nada se pode acrescentar à religião. Pode, sem dúvida; mas se deve fugir de a desfigurar, a pretexto de a aperfeiçoar, porque, para que uma coisa se aperfeiçoe, é necessário que, conservando sempre a sua natureza, receba algum acrescentamento, enquanto que é menos um progresso do que uma mudança quando essa coisa deixa de ser o que era para se tornar outra… A religião imita de alguma sorte a condição dos corpos, que, posto que cresçam e se fortifiquem com a idade, são sempre os mesmos. Há muita diferença entre a idade juvenil e a idade madura; mas assim como nada aparece num homem já feito que não estivesse escondido nele quando era moço, da mesma maneira cumpre que a doutrina da religião cristã seja regulada e siga as medidas seu crescimento… “É preciso, diz o mesmo padre, que a inteligência, a ciência e a sabedoria dos fiéis cresça e se aperfeiçoe no decurso das idades, mas somente no mesmo dogma, no mesmo sentido, no mesmo espírito…; porque os dogmas da filosofia celeste podem ser polidos no decurso dos tempos, mas não é lícito fazer-lhes alguma mudança ou alteração. Podem receber luz, a evidência, a distinção; mas conservam sempre a plenitude, a integridade. Portanto, a Igreja, guarda fiel dos dogmas que lhe foram confiados, não lhes faz a menor mudança, a menor modificação, nem acrescentamento”. O progresso que se efetua na religião, continua um sábio prelado, é, pois, um progresso externo, relativo, na forma, e não na substância. Não é um desenvolvimento interno e real, como se a verdade dogmática só tivesse existido primeiramente em gérmen. A doutrina de Jesus Cristo nunca existiu em gérmen na sua Igreja; formou-se nela desde a sua origem. Os Apóstolos, seus fundadores, conheceram-na explicitamente toda inteira: é a doutrina dos padres, assim como dos teólogos; e, depois da revelação feita aos Apóstolos, nenhuma outra há que possa vir a ser o fundamento da nossa fé. O progresso científico no dogma, diz o bispo de Poitiers, não pode ser senão a exposição mais luminosa da verdade primitivamente ensinada e declarada 2.

Notas:

1 Legislação primitiva, liv. I, cap. 7.

2 S. Vicente de Lerins, Comon., XXIII. – Hist. do dogma cat., T. I. – Introd. – Blanc, t. I Introdução sinodal de Mons. de Poitiers, 1871.

Pe. Rivaux, Tratado de História Eclesiástica, I volume.

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