Carta aberta a todos os católicos tradicionais

Associção Cultural Montfort

Tomamos conhecimento, por meio da Lista Notícias Católicas, da Carta Aberta de Frei Tiago de São José, que reproduzimos abaixo:

Caríssimos irmãos:

A graça do Espírito Santo esteja em vossas almas!

Entrando, com a Igreja, neste tríduo Pascal, na solene celebração da Paixão, Morte e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo, elevemos nossas preces pela Santa Igreja de Deus! Cristo amou a Igreja e se entregou por Ela! (Ef. 5,25) A Igreja é o amor do Coração de Jesus. Neste dia, amando-nos até o fim (Jo 13), Nosso Senhor instituiu a eucaristia e o sacerdócio. No cenáculo, dotou a sua Igreja de toda a economia da salvação, consumando esta promessa na abundância do derramamento do seu sangue que começou a escorrer logo em seguida no horto das oliveiras. Factus obediens usque ad mortem. (Fil. 2) Obedeceu ao Pai e agora Ele é autor da salvação eterna para todos os que lhe obedecem. (Hb. 5,9) A obediência à vontade de Deus é o único meio seguro de salvação. Esta é a verdadeira teologia da Cruz, na qual depende toda a teologia. Só nela há vida e ressurreição! (Gal. 6,11) “Ave Crux, Spes Única!” Nestes últimos tempos, enfrentei duras tribulações que procurei viver em união com os sofrimentos de Nosso Senhor… Mas tive o consolo de sofrer pela Igreja. “Com efeito, à medida que em nós crescem os sofrimentos de Cristo, crescem também por Cristo as nossas consolações.” (II Cor. 1,5) Vemos claramente, como seu corpo místico, a Igreja está sangrando (Mc 5,25), despedaçada sobre a cruz da apostasia. Fiquei estarrecido com os ataques em tom de extremo desrespeito e arrogância que recebi, desde que questionei a atitude do Padre Leonardo. Meu nome foi largamente ridicularizado nas arenas virtuais dos zombadores. Percebi que há muita gente de péssimo nível, que se arroga o direito de ensinar a santa doutrina católica usando palavras de baixo calão… “qui exacuérunt ut gladium línguas suas” (Ps 63) Isto, com certeza, não é o que Mons. Lefebvre ou Dom Antônio preconizavam! Parece estar surgindo uma geração de gente desequilibrada e mal formada que se aproveita da crise da Igreja como ocasião para suprir suas frustrações pessoais… Alguém chegou a escrever assim: “que ele fique com o Papa e fique com sua Igrejinha!” Outro chegou a dizer: “este fradezinho que vá estudar e veja que não se pode confiar nesta falsa Igreja (!) Outra argumentou: “não podemos mais permanecer na Igreja Oficial!” Outro também disse: “Eu vou obedecer a Fraternidade pois ela é a única igreja verdadeira que nos restou” (!) Além destas “pérolas” tenho arquivadas outras tantas que por questão de ética não se convém comentar… Tais afirmações podem não traduzir a posição oficial da FSSPX, mas mostra um espírito que, infelizmente está infiltrado nela, pois vêm de leigos que são formados nos ambientes dela… Pessoas fanáticas, guiadas pelas paixões e não pelo verdadeiro amor de Cristo! Quiseram me intimidar com uma mensagem que o Padre Daniel Maret nega ter enviado… Ontem pela manhã, recebi uma ligação dele que, numa voz conciliadora, me pedia desculpas pelos atropelos e reafirmava não ter enviado a tal mensagem. Acreditei nele e nos despedimos em tom de concórdia. Entretanto, quando ele publicou no site da Fraternidade a nota de esclarecimento, espantei-me com a afirmação de eu concordava plenamente com os termos do comunidado. Porém, isso não reflete o meu pensamento. O fato é que alguém enviou tal mensagem em nome dele… Porém não creio que alguém da Associação Cultural Montfort tenha tido interesse em fazer isso só para criar animosidades. Até porque a intenção clara de quem escreveu foi de que eu me retratasse… Comento estas coisas para estabelecer a gravidade da situação e, assim, possamos chegar no argumento principal que tenho defendido: NÃO SE PODE REFORMAR A IGREJA FORA DELA! A estratégia do demônio agora é usar os próprios “tradicionalistas” para destruir o Papa e a verdadeira tradição… Espero poder prosseguir estes argumentos, sem precisar sofrer intimidações… Afirmo estar movido unicamente por zelo pela Santa Igreja Católica!

A intenção de Nosso Senhor em fundar a Igreja

Se escrevo é com a intenção de dar aos simples o discernimento (Prov. 1,4) já que a eles aprouve ao Pai revelar os segredos de seu Reino. (Mt 11,26) Sabemos que muitas pessoas bem intencionadas, levados por palavras sedutoras (I Pe. 2,3), acabaram se desviando da verdadeira tradição! Em vista da crise gravíssima que se alastra pela Igreja, muitos estão concluindo que: Não é mais possível permanecer na “Igreja Oficial”, temos que buscar a nossa “Igreja perfeita”. Esta frase, humanamente correta e muito prudente é, no entanto, perigosa e intrinsecamente má. Esta confusão deu origem a diversos gêneros de cismas e heresias na história do cristianismo. Os primeiros “tradicionalistas” que se levantaram contra a autoridade dos Apóstolos são conhecidos hoje como judaizantes. Pregavam que se podia ser cristão, desde que não se deixasse de observar as tradições judaicas, como a circuncisão, tão antigas e veneráveis, mas dispensadas pelo magistério da Igreja no primeiro concílio em Jerusalém. Gostavam de confundir a mente das pessoas com sérias crises de consciência para os que não os seguissem. Também surgiram muitas seitas gnósticas que desprezavam os outros com a idéia de serem cristãos mais evoluídos. Surgiram também outros como os montanistas de Tertuliano que julgavam o Papa e o clero e tinham a certeza de que só eles eram perfeitos e iam se salvar. Mais modernamente, o movimento protestante teve a sua raiz numa mesma pretensão de se julgar mais perfeito que a própria Igreja, com seus pecados, seus abusos e suas riquezas… Assim também foi a índole dos jansenistas e muitos outros mais… Percebemos, portanto, que não é nova a tática do demônio de formar uma igreja paralela, muito mais perfeita no cumprimento das leis morais ou da doutrina, que faça uma competição com a Igreja oficial, como eles sempre costumam dizer. Eis o grande perigo que se encontra nos argumentos de alguém que fala da Igreja como quem está fora e não dentro. Cabe aqui citar alguns trechos da belíssima encíclica de Leão XIII, Satis cognitum: “A Igreja pelo fim último e pelas causas que nela produzem a santidade é espiritual, mas se se contemplam os membros que se compõe e os meios que conduzem aos dons espirituais é exterior e necessariamente visível. Por ser corpo, a Igreja é visível aos olhos… segue-se daí que andam em grande e pernicioso erro aqueles que imaginam uma Igreja a seu gosto e a representam como oculta e de nenhum modo visível… Quando Nosso Senhor Jesus Cristo fala deste edifício místico, somente menciona uma única Igreja, à qual chama sua: “edificarei a minha Igreja” (Mt. 16,18) Qualquer outra que se imagine fora desta, como não foi fundada por Jesus Cristo, não pode ser a a verdadeira Igreja de Cristo… segundo a vontade do seu autor, é necessário que ela seja única para toda terra em toda a duração dos tempos… Para se conservar na unidade da Igreja, se requer, necessariamente a unidade da fé e se requer a unidade de governo em que se realiza a comunhão… A Igreja de Cristo é, portanto, única e perene: quem se separa dela aparta-se da vontade e do preceito de Cristo e, deixando o caminho da salvação, caminha para a perdição.” Consideremos esta doutrina que nos esclarece que há duas formas de se afastar da Igreja: seja perdendo a fé (modernistas), seja se mantendo fora desta unidade de governo – hierarquia legitimamente constituída. Ambos estão fora dela. É preciso também considerar que o ato fundante da Igreja foi acompanhado de uma promessa: “portae inferi non praevalebunt adversum eam” Nosso Senhor teve a intenção de fundar esta Igreja visível e institucional e nos garantiu, por esta solene promessa que poderíamos ter confiança de que esta barca nunca irá afundar, (Mc 4,37) apesar das ondas e turbulências internas e externas… O que tais pessoas não entenderam ainda, em sua presunção molinista é que quem salva a Igreja é Deus! “Sine me nihil potestis facere”! (Jo 15,5) Nada, mas nada mesmo!!! Confiam tanto em suas palavras, mas não têm vida da graça e, portanto, não produzem fruto… e nem podem ter, pois o ramo que não permanece na videira não pode dar fruto! (Jo 15,4). Nosso Senhor Jesus Cristo não somente fundou a Igreja, mas a fez sair do seu santo lado aberto (Jo 19, 34) Esta expressão muito cara aos Padres e Santos doutores, nos lembra que a Igreja é um dom, não é algo que nós construímos com nossas forças e virtudes humanas, mas uma manifestação da graça de Deus, ou, mais propriamente, uma conquista do Senhor na sua paixão.

O Bem-aventurado Papa Pio IX expressou de forma muito clara que: “ninguém pode contestar ou duvidar que o próprio Cristo Jesus, para aplicar a todas as gerações humanas os frutos de sua redenção, tenha edificado aqui na terra, sobre Pedro, a sua única Igreja, isto é, a una, santa, católica, apostólica e que lhe conferiu todo o poder necessário para que seja guardado íntegro e inviolado o depósito da fé e que esta fé seja transmitida a todos os povos e nações para que todos os homens sejam unidos ao seu corpo místico e para que a mesma Igreja que constitui seu Corpo Místico persista na sua própria natureza sempre estável e firme até a consumação dos séculos… Todas as sociedades que estão visívelmente separadas da unidade católica estão desprovidas daquela autoridade viva e constituída por Deus e sempre sujeitas a mudanças e instabilidade… não podendo, seus membros estar seguros de sua própria salvação.” (Carta Apostólica Iam vos omnes)

A missão de Pedro na Igreja

Nós, porém, apegando-nos à tradição recebida desde o início da fé cristã, sustentamos que a figura de Pedro subsiste na figura do Papa. Podemos meditar neste testemunho registrado na terceira sessão do Concílio de Éfeso: “Ninguém duvida que o santo e beatíssimo Pedro, príncipe e chefe dos Apóstolos recebeu de nosso Senhor Jesus Cristo, Salvador e Redentor do gênero humano as chaves do Reino; e ele, até agora e sempre, em seus sucessores, os bispos da Sé Romana, por ele fundada e consagrada com seu sangue, vive e preside e exerce o juízo. (11 de julho de 431) Notemos a expressão: “nos seus sucessores Pedro vive!” E muito precisamente entendemos que “o Romano Pontífice é o sucessor do bem-aventurado Pedro, príncipe dos Apóstolos, verdadeiro vigário de Cristo, cabeça de toda a Igreja, pai e doutor dos cristãos e Nosso Senhor Jesus Cristo transmitiu a ele, na pessoa do bem-aventurado Pedro, o pleno poder de apascentar, reger e governar a Igreja Universal.” (Bula lætentur Cæli 6 jul. 1439) Como ensinou o Bem-aventurado Papa Pio IX: “o Romano Pontífice, sucessor de Pedro possui o primado sobre todo o mundo, é autêntico vigário de Cristo e cabeça de toda a Igreja, pai e doutor de todos os cristãos. Não há como se manter na profissão de fé católica, quando não se conserva em comunhão e obediência ao Romano Pontífice.” (Encíclica Nostis et nobiscum) Estas são palavras eternas. Devemos entender o sentido desta referência de Pedro no evangelho como um desejo de Deus de sublinhar a dimensão da autoridade como antídoto contra o veneno do orgulho que tão sutilmente pode ser introduzido em nossa alma pela serpente soberba que é incapaz de obedecer. (Jer. 2,31) Assim, quando Nosso Senhor ressuscitou, não disse à Madalena: agora vamos constituir outra hierarquia porque Pedro me negou três vezes, mas o confirmou nesta missão de Príncipe dos Apóstolos (Jo 21, 15-17) Sem dúvida que o grande alvo do demônio é o Papa e não há estratégia mais perfeita para destruir a Igreja de Cristo que “desmistificar” e desautorizar o Papa. Infelizmente muitos destes “nossos amigos” não percebem isto e desejam colaborar neste plano de ferir o Papado de morte!

O magistério de Pedro

Enfim, para que o povo não seja levado “para lá e para cá por qualquer vento de doutrina” (Ef. 4, 14), Nosso Senhor Jesus Cristo estabeleceu o Magistério da Igreja, conferindo-lhe sua própria autoridade: Quem vos ouve, a mim ouve! (Lc 16,10) Se Ele não garantisse a Igreja desta capacidade, estaríamos induzidos ao erro pelo próprio Deus, o que é absurdo… “Senhor, se é um erro, é por ti que fomos enganados”. (Ricardo de São Vítor, De Trinitate I 2.) Mas, prevendo a instabilidade humana, o Senhor quis confirmar a graça do Magistério. Acreditar nisto, é ser católico de verdade! Mais do que isto devemos ter a certeza de que nunca se destruirá o verdadeiro depósito da fé. Como afirma o Concílio de Trento: “o Símbolo da fé em uso na santa Igreja Romana, é o princípio no qual todos os que professam a fé em Cristo convergem necessariamente e é o único fundamento sólido, contra o qual as portas do inferno não prevalecerão.” (3ª sessão) Talvez poucos entendam o alcance da promessa de Cristo: Non prævalebunt. Isto quer dizer que por mais que vejamos erros, abusos, relativismos, há uma fé objetiva cuja força não pode ser abalada por nenhuma potência deste mundo! E esta é a força da Igreja! Porém, nos nossos dias surgem certos talentos petulantes que ousam interpretar livremente o magistério da Igreja e, sem saber o que dizem, anatematizam o Papa e se auto- proclamam doutores infalíveis. Assim também na História surgiram muitos, principalmente nas épocas em que os Papas não eram tão virtuosos… João Wyclif, um dos pais dos protestantes, afirmava que o Papa era mau e devia ser censurado e que a Igreja Romana era a Sinagoga de Satanás e a própria Babilônia descrita nos profetas, sendo necessário sair dela para estar no favor de Deus. Outro filho da perdição, João Hus, afirmava que Pedro não foi e não é a cabeça da santa Igreja Católica, e que o Papa é o vigário de Judas Iscariotes. E daí muitos outros, como denunciava o Papa Gregório XVI: “não faltaram todavia, os sectários da nova escola de Jânsenio, que recopiaram as palavras dos luteranos e não temeram criticar a prudência da Sé Apostólica.” (Inter Præcipuas) Entretanto, sabemos que a Sé de São Pedro permanecerá sempre intacta de todo erro, segundo a divina promessa de nosso Salvador feita ao Príncipe dos seus discípulos: “eu roguei por ti, para que tua fé não desfaleça; e tu uma vez convertido, confirma teus irmãos” (Lc 22,32).

Seguir Pedro ou seguir Cristo?

Ao afirmar tais coisas, alguns, mais treinados nas disputas, já se levantariam logo a dizer: se é assim, como explicar este estado calamitoso da Igreja de hoje!? Ora, refutar tal argumento é muito simples: o que estamos vendo na Igreja de nossos dias é uma atitude de rebeldia e desobediência generalizada e sem precedentes, causada pelo abandono da linguagem objetiva, racional e precisa da fé. Assumiram uma linguagem dúbia, imprecisa e permeada de humanismo, denunciada já pelo Apóstolo como “sabedoria humana” (I Cor. 1,21) Isto seria o fim da Igreja Católica? Não. É apenas um castigo necessário, pois como vimos pela citação do Concílio de Trento, nada, nem mesmo tamanha revolução dentro da Igreja pode destruir o poder do dogma da fé. O que muitas pessoas confundem, sendo causa de muito prejuízo, é o fato de que reconhecer o ministério de Pedro não significa confiar em Pedro. Pois não se deve confiar em nenhum ser-humano (Jer 17,5) já que só Deus é bom. (Mc 10,18) Somente pela graça de Deus é que alguém pode permanecer no bem, por isso é que devemos rezar muito pelo Papa! Não é nele que depositamos nossa esperança, mas unicamente em Nosso Senhor Jesus Cristo. É Ele próprio que governa sua Igreja e que dispõe em sua providência todas as coisas, para nosso consolo e para nosso castigo. Não nos cabe questionar os desígnios de Deus… Nenhum Papa e nenhum Bispo tem poder para dissolver os artigos de fé ou os dogmas já definidos na Religião. Nem podem inventar uma nova doutrina. Como ensina o Concílio Vaticano I: O Espírito Santo não foi prometido aos sucessores de Pedro para que, por revelação sua, manifestassem uma nova doutrina, mas para que, com sua assistência, conservassem santamente e expusessem fielmente a revelação transmitida pelos Apóstolos, ou seja, o depósito da fé (Pastor æternus). Baseados nestes ensinamentos, podemos ter toda tranqüilidade de nos mantermos unidos ao Papa, pois, esta é a verdadeira garantia de aderirmos ao magistério de todos os Papas da história, a quem o Papa atual deve inteira obediência, já que sua função não é outra senão garantir a autoridade do que já se assentou nesta mesma edificação, cujo alicerce é o próprio Cristo. Todas as vezes que o Papa não cumpre este seu papel, não somos obrigados a segui-lo, pois, como afirmamos, não seguimos Pedro, mas Cristo e se Pedro vai atrás de Cristo, obviamente estamos indo com ele, se não vai, apenas esperamos que ele perceba e, chorando amargamente, retome o Caminho, sem, porém, nunca deixar de ser Pedro. Neste sentido, entendemos porque foi do desígnio de Deus que o chefe dos Apóstolos não fosse um homem brilhante e imune de fraquezas e erros.

A verdadeira causa da crise

Devemos notar, sob pena de não ir a fundo na questão, que a verdadeira causa da crise da Igreja são os próprios pecados do povo cristão! Isto é o que nenhum destes “teólogos” percebeu… O Beato Francisco Palau, carmelita eremita, em meados do século XIX, no silêncio da sua cela, escondido em profunda intercessão pela Igreja, que já enfrentava grandes batalhas, teve conhecimento dos bastidores de todos estas terríveis aflições: “Formam, por fim, o cume da montanha, os pecados de heresia, de apostasia, e de toda a espécie de impiedade. E no cume estão colocados os pecados daqueles que com um punhal na mão, vomitando blasfêmias contra o Onipotente, e apertando a espuma de seu ódio, furor e raiva contra todo o sagrado, estão jurando que o cravariam, se pudessem, no Coração de nosso adorável Redentor Jesus, e o afiam contra o Coração de sua Igreja e de seus Sacerdotes. Outras vezes, o mistério da iniqüidade se me apresenta como um mar tumultuoso que, rompendo os diques, inunda todo o mundo e arrebata com fúria a todos com exceção de um pequeno número, que puderam se salvar na navezinha de Pedro, porém que estão em grande risco de afundar-se ou de chocar-se com algum escolho ou penhasco, se não cuidam logo de despertar a Jesus, que está dormindo, para que mande aos ventos e acalme a tempestade [Mt 8, 23-27; Lc 8, 22-25]. Diante da montanha de iniqüidade que fabricaram com seus pecados, e o mar de crimes em que vive afogado o povo, não é um grande clamor que desperta a ira do Senhor Deus das vinganças? Vê como o povo pecou e peca… aí está, pois, a causa dos males que lhe oprimem e lhe oprimirão. Com seus pecados, como já lhe fiz observar, perde o povo o direito à glória de possuir a Religião. Por isso, tem dado Deus permissão aos demônios para que, como instrumentos de sua justiça, subam do inferno, cubram com as trevas do erro a pobre humanidade, formem e organizem seitas de impiedade e com elas lhe arrebatem a fé católica. O povo pecou… aí tens a causa porque se está ficando sem Religião, e, por conseguinte, sem sacerdotes, sem solenidades, sem templos, sem Deus e abandonado aos caprichos das seitas de impiedade, que, para zombarem mais d’Ele, fazem celebrar com grande pompa as funções da Semana Santa, enquanto o clero está nas agonias da morte pela espantosa miséria em que se encontra. Quantas vezes, ó cegueira!, Nos sentimos cheios de indignação contra os que consideramos como causas primarias de tanto estrago. Ímpios! Lhes dizemos cheios de uma cólera que acreditamos ser santa, ímpios! Mais que ímpios! Satanases! Querem arrebatar a Igreja! Querem roubar-nos o único consolo nosso, a Religião de nossos pais! Desalmados! Queimaram-nos as Igrejas e os Conventos! Nem mesmo vendo, conseguimos acreditar que haja no mundo homens tão perversos.. Porém uma alma verdadeiramente ilustrada pela Luz do Espírito Santo, pensa e diz o mesmo, ainda que de modo bem distinto. Não se irrita contra eles, antes lhes tem compaixão, e os olha como homens, por sua culpa e orgulho, abandonados por Deus e que estão à disposição do inferno para que, por eles, sejamos castigados no plano espiritual por causa de nossos próprios pecados.” (Luta da alma com Deus – 2ª Conferência, nº 12, 13, 14). Nisto se comprova que não são os ímpios modernistas ou protestantes ou judeus a causa da destruição, mas os pecados do povo cristão! Lembremo-nos que não lutamos contra homens de carne e sangue, mas contra os Principados e Potestades! (Ef. 6)

A graça do Motu Proprio

Enfim, apesar de tantos insucessos pastorais e de tanta desorientação reinante, vemos a impressionante e misteriosa ação de Deus acontecendo na nossa história. A meu ver, o Pontificado de Bento XVI já está registrado como uma reviravolta destes fatos penosos que recaíram sobre a Igreja nos últimos 50 anos, que, aliás, não foram senão um resultado do trabalho sutil que se realizou desde o Renascimento. Podemos visualizar claramente um duplo golpe que o Magistério do atual Pontífice lançou sobre este mistério da iniqüidade. (II Tes. 2,7) Como as pequenas pedras que Davi usou para vencer o gigante, o Santo Padre, com pequenas afirmações, já nos deu todo o recurso para fazer desabar o inimigo aterrador. A primeira, num famoso discurso à Cúria Romana em que se consagrou a expressão: “hermenêutica da continuidade”. Ora, a força do Concílio era justamente a autorização para a descontinuidade. Quando o Papa falou nestes termos, brilhou o Espírito Santo, anulando toda treva do erro que está contido em qualquer ensinamento que não mantém a mesma linha da doutrina tradicional da Igreja. Isto já foi o fim do fantasma Vaticano II, entendido como ruptura ou Igreja nova que já podemos sepultar de vez… Outro golpe de mestre foi, sem dúvida o Motu Proprio Summorum Pontificum (vejamos que nome significativo!) Afirmar que o “Rito da Missa de São Pio V nunca foi abolido” significou dizer: toda esta reforma litúrgica não foi capaz de se impor como verdadeira liturgia católica. De fato, muitas liturgias antigas foram superadas por reformas e nunca mais ressurgiram! Restaurar oficialmente o chamado “Rito Extraordinário” foi um fato inédito que reconheceu que o novo rito não deu certo. De fato, o Papa surpreendeu a muitos que foram formados na mentalidade de que o novus ordo teria substituído para sempre a missa antiga, por isso tanto ódio ao Motu Proprio. Não tenho receio em afirmar que isso significou um golpe mortal no esquema litúrgico produzido nos escritórios do Concilium. É só questão de tempo… No sonho do Rei que Daniel interpretou, havia uma enorme estátua de cabeça de ouro, peito de prata, ventre de bronze, pernas de ferro e pés de barro. Uma pequena pedra (a missa de sempre) se deslocou da montanha (Pedro), sem mão de homem (pois esta missa não foi feita por mão de homem) e batendo nos pés de barro (a geração atual) fez toda a estátua (modernismo) se reduzir a migalhas sem deixar sinal algum. (Dn. 2, 31-35) Esta estátua é o ídolo que o homem colocou para ser adorado na Igreja. O culto ao próprio homem, que é a essência do Vaticano II. A abominação da desolação! (Mt. 24, 15) Teve, no entanto, um fim muito dramático: cada geração foi perdendo a força, representada pelos materiais, até que veio esta pedrinha (a missa verdadeira) para destruir esta idolatria e restituir o verdadeiro culto a Deus realizado pela sua Igreja.

Conclusão

Concluindo esta exortação, volto a afirmar que todo este debate teve início quando decidi me levantar contra o argumento do Pe. Leonardo de que era necessário abandonar sua Arquidiocese, desconsiderando as propostas que já lhe tinham sido feitas em prol da Missa Tridentina, para se manter fiel a Deus. Com isto eu jamais concordarei! E, em vista da fragilidade e da orfandade em que os fiéis católicos se encontram, julguei por bem, contar a experiência negativa que tive com a Fraternidade. Agora, a questão não é saber quem foi o desafortunado que mandou tal e-mail, mas saber o que significa ser católico para a FSSPX! As gravíssimas indagações feitas pelo Professor Alberto Zucchi permanecem sem resposta… Gostaríamos de saber qual é a doutrina que a FSSPX professa hoje. Seria muito importante que adotassem uma postura mais coerente, pois, está prescrito: seja o vosso sim, sim, e o vosso não, não. (Mt. 5,37) Com estes argumentos, provamos, pelo Magistério e pela Sagrada Escritura que quem se desvia desta Tradição e rompe, ainda que veladamente, com a unidade formal com o sucessor de Pedro, está fora da Igreja e corre o risco de perder a salvação. No entanto, por mais argumentos que possamos dar, vemos que isto não se pode entender somente pela inteligência, mas é uma graça que precisa ser dada pelo alto. (Jo 6,65) Tenho zelo também pela salvação deles, pois, acredito que se acabarem se acomodando com este confortável sede-vacantismo prático cada vez se afundarão mais. Acredito que o mínimo que se deve esperar de católicos que se dizem fiéis à tradição é coerência, probidade e respeito… Deixemos para trás as discórdias e partidos que são obras da carne (Gal. 5,20) bem como os rancores e ódios, pois tudo agora é novo (II Cor. 5,17). A questão agora é saber quem realmente está disposto a carregar a cruz (Mt 16,24) com a Igreja e pela Igreja. Esperamos que a FSSPX, juntamente com seus fiéis adotem uma postura de respeito e consideração por todos os sacerdotes, religiosos e leigos que também lutam pela tradição, permanecendo dentro de seus muros, não rompendo a túnica inconsútil do Cristo Senhor. Que os sentimentos de Cristo permaneçam em nós, a fim de que revivendo na liturgia a Paixão do Senhor, completemos em nossa carne o que falta à paixão da Igreja. (Col 1, 24) E assim, possamos ser dignos de participar da glória da Ressurreição!

Mosteiro Santo Elias, 21 de Abril de 2011, Quinta-feira Santa.

Fr. Tiago de S. José ECarm.

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