Vida de Sta. Teresa de Jesus

Escrita por ela mesma – Loyola, 1985.

 

 CAPÍTULO IX

 Trata por que modos começou o Senhor a despertar a sua alma edar-lhe luz em trevas tão grandes e fortalecer-lhe as virtudes para não mais O ofender. 

  1. Andava minha alma já cansada e, embora o quisesse, não a deixavam sossegar os maus costumes que tinha. Aconteceu-me que, entrando um dia no oratório, vi uma imagem que ali haviam guardado para certa festa que se fazia na casa. Era de Cristo cheio de chagas, e tão devota que só de lhe pôr nela os olhos fiquei tur­bada, pois bem representava o que passou Ele por nós. Foi tal o que senti vendo quão mal lhe havia agradecido aquelas chagas, que o coração me parecia partir-se. Lancei-me a Seus pés derramando muitíssimas lágrimas, suplicando-Lhe que me fortalecesse de uma vez para não mais O ofender.
  2. Era eu muito devota da gloriosa Madalena e muitas vezes, especialmente quando comungava, pensava na sua conversão; como sabia ao certo que tinha naquela hora o Senhor dentro de mim, arrojava-me aos Seus pés parecendo-me que minhas lágrimas não seriam então dignas de desprezo. E não sabia o que estava dizendo, pois demais já fazia Ele em consentir que por Sua causa eu as der­ramasse, dado que tão depressa me esquecia daquele sentimento. Encomendava-me àquela gloriosa Santa, rogando-lhe que me alcançasse perdão.
  3. Parece, porém, que diante dessa imagem em que falei colhi maior proveito porque já estava muito desconfiada de mim e punha toda confiança em Deus. Creio que Lhe disse então que não me  haveria de levantar dali até que Ele me fizesse o que eu Lhe supli­cava. Tenho a certeza de que me valeu essa súplica, porque fui melhorando daí por diante. Usava eu o seguinte modo de orar: como não podia discorrer com o entendimento, procurava represen­tar a Cristo dentro de mim e, a meu parecer, sentia-me melhor nos passos em que O via mais só. Imaginava que, estando sozinho e aflito, como pessoa necessitada, me haveria de acolher. Tinha eu muitas dessas simplicidades. Sentia-me especialmente bem na oração do Horto: cabia-me ali acompanhá-Lo. Pensava naquele suor, na­quela aflição que O atacara: desejaria, se fosse possível, enxugar aquele suor penoso. Mas recordo que jamais me atrevia a fazô-lo, à lembrança dos meus pecados tão graves. Ficava com Ele o mais que o permitiam os meus pensamentos — pois inúmeros pensamen­tos me atormentavam.
  4. Quase todas as noites antes de dormir, durante muitos anos, quando me encomendava a Deus, pensava sempre um pouco neste passo da oração do Horto; fazia-o antes mesmo de ser monja, porque me haviam dito que assim se ganham numerosas indulgên­cias. E tenho para mim que por tal modo ganhou muito a minha alma: comecei a fazer oração sem o saber e o costume antigo me impedia de a deixar, tal como não deixava de me benzer antes de dormir.
  5. Voltando ao que falava acerca do tormento que me cau­savam os pensamentos, digo que este modo de orar sem discurso do entendimento significa ou que a alma anda muito rica, ou muito perdida — perdida em distrações. Se está aproveitando, aproveita muito porque cresce no amor. Mas muito lhe custará chegar a tal ponto, salvo a pessoas como algumas que conheço, às quais o Senhor quer fazer com que em breve cheguem à oração de quietude. Para estas é útil usarem de um livro, a fim de mais depressa se re­colherem. A mim também me dava proveito ver campo, ou água, ou flores. Nestas coisas achava a lembrança do Criador; quero dizer que me despertavam, davam-me recolhimento, serviam-me de livro e também me recordavam de minha ingratidão e meus pecados. Coisas do Céu ou coisas elevadas jamais pude imaginar, tão gros­seiro era meu entendimento — até que o Senhor por outro modo mas representou.
  6. Tinha tão pouca habilidade para representar coisas com o entendimento que, afora o que via, de nada me valia a imaginação, como o fazem outras pessoas que sabem representar coisas quando estão recolhidas. Eu só podia pensar em Cristo como homem; e assim mesmo jamais O pude representar no meu íntimo, por mais que lesse acerca da Sua formosura e olhasse as Suas imagens; era como um cego ou como quem está na escuridão: embora fale com uma pessoa e veja que está com ela, pois sabe ao certo que está ali, entende e crê na sua presença, mas não a vê. Dessa maneira me acontecia a mim quando pensava em Nosso Senhor. Por essa causa era eu tão amiga de imagens. Desventurados os que por sua culpa perdem esse bem! Parece mesmo que não amam o Senhor, pois se O amassem folgariam de ver o Seu retrato, tal como dá prazer contemplar a figura de alguém a quem se quer bem.
  7. Nesse tempo me deram as “Confissões de Santo Agostinho”; parece-me que o Senhor o ordenou, porque eu não as procurei nem nunca as havia visto. Sou muito afeiçoada a Santo Agostinho: à sua ordem pertencia o mosteiro onde morei como secular. Amo-o também porque ele foi pecador; sempre hauri consolo dos Santos que o Senhor tomava a Si depois de pecadores, parecendo-me que neles haveria de encontrar a vida. E como o Senhor lhes perdoara, também me poderia perdoar a mim; só uma coisa me desconsolava, segundo já o disse: é que a eles só uma vez os chamara o Senhor e não tornaram a cair; a mim chamara-me tantas vezes que já me afligia. Contudo, considerando no amor que Ele me tinha, tornava a animar-me, que de Sua misericórdia jamais desconfiei. De mim é que desconfiava muitas vezes.
  8. Oh! valha-me Deus, como me espanta a dureza de minha alma apesar de tantas ajudas de Deus! Faz-me temor ver o pouco que podia comigo e quão atada me via sem me resolver a entregar-me toda ao Senhor. Lendo as “Confissões” parecia-me ver-me a mim ali; comecei a encomendar-me muito a este glorioso Santo. Quando cheguei à sua conversão e li como ouviu aquela voz no Horto, pareceu-me que o Senhor mandava Sua voz a mim, segundo o sentiu meu coração. Muito tempo fiquei desfeita em lágrimas, presa de grande aflição e tormento. Oh! quanto sofre uma alma (valha-me Deus) por perder a liberdade de que deveria ser senhora e que tormentos padece! Agora me admiro como podia viver num sofrer tão grande. Louvado seja Deus, que me deu vida para sair de morte tão mortal.
  9. Parece-me que grandes forças recebeu minha alma da Di­vina Majestade que devia ouvir meus clamores e sentir dó de tantas lágrimas. Começou a crescer em mim o gosto de ficar mais tempo com Ele, e a tirar dos olhos as ocasiões porque, tiradas elas, logo eu volvia a amar Sua Majestade; que bem entendia eu que O amava, mas não entendia o amar deveras, como o deveria entender. Mal acabava eu de me dispor a querer servi-Lo, Sua Majestade já me começava a deliciar. Parecia até que aquilo que os outros procuram adquirir com grande lida, instava o Senhor comigo para que o recebesse, pois nos últimos anos já me dava prazeres e delícias. Nem as ternuras de devoção, nem a suplicar que me desse esses prazeres jamais me atrevi; só Lhe pedia que me desse graça para que não O ofendesse e me perdoasse meus grandes pecados. Vendo-os tão grandes, jamais ousaria deliberadamente desejar prazeres. De sobejo fazia a Sua piedade, e verdadeiramente era usar comigo de grande misericórdia, consentir em trazer-me à Sua presença, pois bem eu via que, se Ele não me procurara, eu não O procuraria. Só uma vez na minha vida recordo de Lhe ter pedido um prazer, sofrendo de grande sede; e apercebendo-me do que fazia, fiquei tão confusa que a simples aflição de me ver tão pouco humilde, deu-me o que eu me atrevera a pedir. Bem sabia eu que era lícito pedi-lo, mas parecia-me a mim que só o era para os que se preparam, procuran­do com todas as forças a verdadeira devoção que consiste em não ofender a Deus e estar pronto e determinado para todo o bem. Parecia-me que minhas lágrimas eram pranto de mulher, pranto sem força, já que com ele não alcançava o que desejava. E, contudo, creio que me valeram; porque, como disse, especialmente depois dessas duas vezes de grande compunção, de lágrimas e dor no meu peito, comecei a orar melhor e a tratar menos em coisas que me condenavam. Ainda assim não as deixava de todo, mas, como disse, fui me ajudando de Deus para desviar-me. E como Sua Majestade não esperava senão uma correspondência de minha parte, foram cres­cendo as mercês espirituais da maneira que adiante direi. Coisa desusada, pois não as costuma dar o Senhor senão àqueles que têm consciência mais limpa.

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