O Santíssimo Sacramento não é amado!

S. Pedro J. Eymard em “A Divina Eucaristia

“Tota die expandi manus meas ad populum non credentem et contradicentem.”

“Diariamente estendo as mãos a um povo que me repele” (Rom. 10, 21).

I

          Infelizmente, Nosso Senhor, no Santíssimo Sacramento, não é amado – verdade patente. Não é amado em primeiro lugar por esses milhares de pagãos, de judeus, de infiéis, de cismáticos e de hereges que desconhecem, ou mal conhecem, a Eucaristia.

          Ah! se entre tantas mil criaturas em que Deus pôs um coração capaz de amar, quantos gostariam do Santíssimo Sacramento se lhes fosse dado conhecê-lo, como eu o conheço! Não me cabe, portanto, amá-lo por elas e em seu lugar? E entre os católicos, poucos, mui poucos amam a Jesus no Santíssimo Sacramento – quantos pensam nele, falam dele, adoram-no, recebem-no?

          E por que este esquecimento, esta frieza? Ah! nunca provaram a Eucaristia, nem a suavidade, nem as delícias de seu amor! Nunca conheceram a Bondade de Jesus e não suspeitam a extensão de seu Amor no Santíssimo Sacramento.

          Alguns têm fé em Jesus, mas fé inativa, fé de tal modo superficial que não toca o coração, mas se contenta com o que exigem, em todo o rigor, a consciência e a salvação. E mesmo este número é relativamente pequeno comparado aos católicos que vivem quais verdadeiros pagãos, como se jamais tivessem ouvido falar da Eucaristia.

II

          E por que é que Nosso Senhor é tão pouco amado na Eucaristia? É porque não se insiste bastante sobre este assunto; recomenda-se apenas a fé na presença de Jesus Cristo, em vez de falar de sua Vida, de seu Amor no Santíssimo Sacramento e de fazer sobressair os sacrifícios que lhe impõe o Amor; numa palavra, em vez de mostrar a Jesus-Eucaristia amando a cada um de nós pessoal, particularmente.

          É também porque nossa conduta patenteia nosso pouco amor. Ao ver o modo pelo qual rezamos, adoramos, freqüentamos a Igreja, ninguém compreende a presença de Jesus Cristo.

          Quantos entre os melhores, nunca fazem uma visita de devoção ao Santíssimo Sacramento, para falar-lhe com o coração, dizer-lhe seu amor! E se não amam a Nosso Senhor na Eucaristia, é porque não o conhecem bastante.

          Se, todavia, o conhecem a Ele e ao seu Amor, aos sacrifícios, às ambições de seu Coração e se, apesar disso, não o amam, que injúria, sim! pois equivale a dizer a Jesus Cristo que Ele não é bastante belo, bastante amável para ser preferido a tudo o que lhes agrada.

          É uma ingratidão.

          Depois de tantas graças recebidas desse bom Salvador, depois de tantas ofertas de si mesmo ao seu serviço, tratá-lo desta maneira equivale a zombar do seu Amor. É uma vergonha. Pois se não o queremos conhecer melhor, vê-lo de mais perto, recebê-lo, falar-lhe ao Coração, é que receamos ser enlaçados por seu amor! Temos medo de não podermos resistir à sua Bondade, medo de ser obrigados a entregarmo-nos e lhe sacrificarmos incondicionalmente o coração, o espírito, a vida. Temos medo do Amor de Jesus Cristo no Santíssimo Sacramento e queremos fugir dele. Perturbando-nos sua Presença, receando acabar por ceder, qual Pilatos e Herodes.

III

          Não amamos a Nosso Senhor no Santíssimo Sacramento porque ignoramos, ou não examinamos suficientemente os sacrifícios que seu Amor aí oferece por nós, sacrifícios de tal forma admiráveis que, só pensar neles, oprime-me o coração e traz-me lágrimas aos olhos!

          A instituição da Eucaristia era o custo de toda a Paixão do Salvador. E como assim? Porque a Eucaristia é o sacrifício sem vítima, cuja Morte a imolação exige. E para ter parte pela manducação. Ora a Eucaristia a tudo compreende.

          É o sacrifício não sangrento, pois a Vítima só uma vez morreu e que por essa Morte reparou e mereceu toda a justificação. Mas, para aplicar os méritos do Sacrifício Sangrento da Cruz que deve durar e ser oferecido a Deus até o fim do mundo, a Eucaristia se perpetua em seu estado de vítima. Cabe-nos participar da Vítima, mas não estivesse ela nesse estado de morte, teríamos demasiada repugnância em comê-la; só comemos o que já morreu à sua própria vida.

          De modo que a Eucaristia era o custo da Agonia de Jesus no Jardim das Oliveiras, das humilhações por que passou nos tribunais de Caifás e de Pilatos, de sua Morte no Calvário! A Vítima, para chegar ao estado sacramental, para chegar até nós, submete-se a todas essas imolações.

          Ao instituir seu Sacramento, Jesus perpetuou os sacrifícios de sua Paixão e condenou-se a sofrer.

          Um abandono tão doloroso quanto o que sofreu no Jardim das Oliveiras; a traição dos amigos e dos seus discípulos que se tornariam cismáticos, hereges, renegados ao ponto de vender as Santas Hóstias, aos mágicos…

          Ele perpetuava ainda as negações que tanto o afligiram em presença de Anãs; os furores sacrílegos de Caifás; os desprezos de Herodes; a vileza de Pilatos; o vexame de ser preferido por uma paixão, um ídolo de carne, como se viu Barrabás; a crucifixão sacramental no corpo e na alma do comungante sacrílego.

          Pois bem, Nosso Senhor tudo sabia de antemão. Conhecia os novos Judas, contava-os no número dos fieis, considerando-os quais filhos queridos. E nada disso o fez recuar. Ele quis que seu Amor ultrapassasse a ingratidão e a malícia humanas, quis sobreviver à sua sacrílega malícia.

          Conhecia a tibieza dos seus, a minha própria tibieza; sabia o pouco fruto que havíamos de retirar da Comunhão e quis amar apesar de tudo, quis que seu Amor, que não nos é dado conhecer, excedesse o nosso amor.

          Resta ainda alguma coisa? Aparentar a Morte quando possui em si a plenitude da Vida – Vida sobrenatural e gloriosa, ser tratado qual morto, como tal considerado, não é alguma coisa? Essa Morte aparente afirma que Jesus está sem beleza, sem movimento, sem defesa, envolvido nas Santas Espécies qual num sudário e no tabernáculo qual num túmulo; no entanto aí está, vendo ouvindo, sofrendo tudo como se morto fosse. O Amor velou-lhe o Poder, a Glória, as Mãos, os Pés, o belo Semblante, a Boca sagrada, tudo enfim. Só lhe deixou o Coração para amar e o estado de vítima para interceder em nosso favor.

          À vista de tamanho Amor de Jesus Cristo para com o homem, que lhe é tão pouco agradecido, o demônio parece triunfar a Jesus. “Eu nada dou ao homem que seja verdadeiro, belo, bom; nada sofri por ele e, no entanto, sou mais amado, mais obedecido, mais bem servido que vós”. Ai de nós, que dura verdade! Nossa frieza, nossa ingratidão são o triunfo de Satanás sobre Deus. Como esquecer o Amor de Nosso Senhor, Amor que tanto lhe custou e ao qual nada recusou?

VI

          É verdade também que o mundo emprega todos os esforços para impedir-nos de amar a Jesus no Santíssimo Sacramento com amor real e prático; de visitá-lo, com o intuito de paralisar os efeitos desse mesmo Amor.

          Absorve, liga, cativa as almas nas ocupações, nas boas obras exteriores para desviá-las de deter o pensamento no Amor de Jesus. Combate, até, diretamente esse amor prático, representando-o como supérfluo, possível quando muito, no claustro.

          E o demônio guerreia incessantemente a Jesus no Santíssimo Sacramento, que sabe aí estar vivo substancial, atraindo e possuindo diretamente as almas por sua própria virtude; e deseja apagar em nós o pensamento, a boa impressão da Eucaristia – ponto decisivo para ele.

          E Deus, todavia, é todo Amor. E esse doce Salvador clama da Hóstia Santa: “Amai-me como Eu vos amei; permanecei no meu Amor. Eu vim para trazer à terra o fogo do Amor e meu desejo mais ardente é vê-lo abrasar vossos corações!”

          Ah! que haveremos de pensar ao morrer, e depois da morte, sobre a Eucaristia, quando lhe virmos, lhe conhecermos toda a Bondade, todo o Amor, todas as Riquezas! Oh meu Deus, que juízo deveis formar de mim, que há longo tempo vos conheço, que tantas vezes comungo! Vós me destes tudo o que era possível, querendo, em troca, que eu vos servisse – e eu ainda não possuo a primeira virtude desse serviço. Vós não sois minha lei soberana, o centro de meu coração, o fim de minha vida. Que precisais ainda fazer para triunfar de meu coração?

          Ah! Senhor, não hesitarei mais! Resolvido finalmente, tomo por divisa: Ou Eucaristia ou a morte!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s