[Sermão] História das heresias VI: Lutero

Sermão para o 5º Domingo depois da Páscoa

21.05.2017 – Padre Daniel Pinheiro, IBP

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Ave Maria…

Caros católicos, na Epístola de hoje, o Apóstolo São Thiago diz claramente que não basta ouvir a palavra de Deus, mas que é preciso colocá-la em prática. Ou seja, é necessária a fé e são necessárias as obras. A essa verdade muito clara e coerente se opôs Lutero. Hoje, encerraremos esse segundo bloco da nossa série de sermões sobre as heresias falando da heresia de Lutero, a figuram mais simbólica do protestantismo.

Lutero nasceu em 1483 na Alemanha, em Eisleben. Recebeu o grau de Mestre em Erfurt em 1505. Pouco depois, entrou nos eremitas de Santo Agostinho. Lutero era um frade que jamais deveria ter seguido essa vocação. Resolveu entrar quando, com medo de morrer, fez um voto de entrar na vida religiosa se sobrevivesse. Na versão mais comum, ficou com pavor da morte durante uma tempestade, quando estava em viagem e um raio caiu perto dele. Pouco tempo antes, um amigo dele tinha morrido fulminado por um raio. O próprio Lutero dirá que foi um voto forçado por necessidade, assediado pelo terror e pela angústia, e do qual se arrependeu depois. Ora, um voto feito nessas condições não tem nem validade.

Martinho Lutero refletia muito o espírito alemão da época: sensível e brutal, sentimental, confuso, arrogante, seguro de si, colocando a sua vontade por regra absoluta e não muito esclarecido sobre quaisquer questões que o preocupavam. Assim, Lutero dirá: “Estou certo de que meus dogmas vêm do céu” e “minha doutrina é tal que só ela engrandece a graça e a glória de Deus.”

Lutero era bastante melancólico, dominado pela tristeza e cheio de escrúpulos. Lutero confundia tentação com o pecado, a inclinação ao pecado com o ato pecaminoso. Era uma alma verdadeiramente dilacerada e atormentada, que se via sempre no pecado e que não acreditava ser possível vencê-lo verdadeiramente. Diante desse erro, negando a misericórdia divina, desesperava quanto ao seu julgamento por Deus e quanto à sua salvação.

A sua formação espiritual e teológica foi sofrível, péssima. Sua espiritualidade era extremamente subjetiva, derivada dos chamados místicos alemães, de doutrina bem duvidosa e perigosa ou mesmo formalmente condenadas, como a de Mestre Eckhart. Espiritualidade subjetiva e, consequentemente, já descolada em boa parte da doutrina. “Piedade” entre aspas, sem doutrina, introspectiva, voltada mais para o homem do que para Deus. Seus estudos teológicos foram feitos com base em uma escolástica bem decadente, já impregnada com os erros do chamado nominalismo e que afirmava a impossibilidade de conciliar razão e fé. Tratava-se, então, de uma escolástica muito distante daquela de São Tomás de Aquino, que conciliava esplendidamente a razão e a fé. Assim, Lutero vai desprezar a razão, dizendo que ela é a meretriz do demônio.

É nesse monge, com essas disposições de alma, que vai nascer a doutrina protestante e a chamada reforma protestante. Para os que conhecem a história de Lutero, não há dúvida de que a sua doutrina se formou, no seu pensamento, para acalmar as suas angústias. São as suas impressões, as suas emoções e experiências pessoais que formarão a sua doutrina. Seus sentimentos e ideias (desconectadas da realidade) se tornavam para ele norma universal, preceito divino que deveria ser imposto ao mundo. A sua leitura da Sagrada Escritura foi uma leitura subjetiva, segundo a sua inclinação, e tendenciosa, para que a Sagrada Escritura se conformasse com as suas inclinações. De um problema pessoal, formar-se-á um sistema tão contrário à verdade…

Para resolver sua angústia, seus escrúpulos e sua fraqueza para abandonar o pecado, Lutero vai, então, elaborar uma doutrina nova, revolucionária. Ele vai dizer que o pecado original corrompeu de tal forma a natureza do homem que qualquer ação do homem, por melhor que pareça, é um pecado mortal. Assim, para Lutero, se alguém der uma esmola para um pobre com a intenção de ajudá-lo, isso é um pecado mortal. Segundo o heresiarca, o homem é incapaz das boas obras, incapaz de praticar o bem. Os atos dos homens são sempre pecaminosos, diz Lutero. Diz também que o homem não tem culpa desses pecados, já que, segundo ele, o ser humano não tem livre-arbítrio, não tem liberdade para fazer o bem. Lutero falará, então, no servo arbítrio no lugar de livre arbítrio. Na teologia de Lutero, para se salvar, basta a fé, entendida por ele como a confiança de que Deus quer salvar. Lutero revoluciona, desse modo, toda a doutrina de Cristo, contradizendo-a frontalmente, deturpando-a. Não se trata de reforma, mas de deforma ou de revolução, de blasfêmia, subvertendo todos os princípios da religião cristã e como se fôssemos obrigados a fazer o mal praticamente. Para o heresiarca, o homem se salva não porque está na graça de Deus, sem pecado grave, mas porque Deus o considera justo a partir dessa fé-confiança, ainda que o homem esteja afogado nos mais graves pecados. É uma justificação externa: Deus considera a pessoa como justa, como santa, mas ela é, na verdade, pecadora. É a doutrina do sola fides, da salvação pela fé somente. Isso resolvia as angústias de Lutero: salvando-se apenas pela fé, afirmando a impossibilidade de se livrar do pecado negando o livre arbítrio, Lutero poderia pecar tranquilamente, sem se angustiar, sem se preocupar com a sua salvação. Assim, ele dirá que se deve pecar fortemente e que se deve crer ainda mais fortemente. Um absurdo completo.

Só a fé, então, já basta para a salvação, de acordo com Martinho Lutero. A caridade, o amor a Deus e ao próximo, as boas obras, tudo isso para Lutero é impossível. E mesmo tentar fazer essas coisas já é um pecado, segundo ele. Essa doutrina é abominável, vai contra Cristo, contra a Sagrada Escritura, contra a Igreja, contra a razão e contra o mais simples bom senso. Onde está, nessa doutrina da reforma, a santidade que nosso Senhor veio trazer mandando que fôssemos perfeitos como o Pai Celeste é perfeito? Onde está o renascimento espiritual pelo batismo, que Nosso Senhor chama de um novo nascimento espiritual em seu diálogo com Nicodemos? Onde está a necessidade das boas obras, afirmada por São Thiago tão claramente, bem como pelo próprio São Paulo?

Essa doutrina de Lutero da justificação pela fé somente leva à afirmação de que todos os meios de santificação são inúteis: a missa, os sacramentos, o sacerdócio, a Igreja e sua hierarquia – o papa em primeiro lugar -, a prática das penitências, as próprias orações e a prática das virtudes. De fato, Lutero vai se opor a tudo isso. Ele vai manter, em aparência, apenas dois sacramentos, mas dizendo que são simplesmente cerimônias para favorecer essa fé-confiança. Ele vai negar a Igreja e a sua hierarquia. Vai negar a autoridade do Papa e dos Concílios, quando fica evidente que a sua doutrina contradiz a doutrina de sempre da Igreja. Nega, assim, também a Tradição e o Magistério da Igreja, dizendo que só a Sagrada Escritura basta e que cada um pode interpretá-la livremente. É o sola Scriptura com o livre exame da Bíblia, derivados do seu subjetivismo, derivados da sua leitura subjetivista da Sagrada Escritura e derivados da franca oposição da interpretação dele com a interpretação dos padres da Igreja e com a interpretação da Igreja. Para resolver essa oposição, ele afirma, então, que apenas a sua opinião vale. A tal ponto chega Lutero que ele vai pretender decidir quais livros são inspirados ou não: negará, por exemplo, a Epístola de São Thiago, que afirma a necessidade das obras de maneira muito clara como ouvimos na Santa Missa de hoje.

Lutero lançou, ou melhor, tornou mais evidentes e difundidos os princípios que norteiam a modernidade e que vêm da decadência da Idade Média: 1) o subjetivismo, quer dizer, o reino do sujeito sobre a realidade, em particular em matéria religiosa ao interpretar a Sagrada Escritura segundo o seu gosto (livre exame) e ao erigir em pretensa verdade o que lhe convém e satisfaz; 2) a negação da autoridade e o igualitarismo ao negar a autoridade da Igreja, do Papa e da hierarquia em geral, e ao negar o sacerdócio, igualando, assim, todos. Lutero defenderá a autoridade dos príncipes temporais, mas por mera conveniência, já que muitos deles o protegiam. A negação da autoridade religiosa em Lutero e o seu igualitarismo em religião, fazendo de cada um o Papa que pode interpretar a Bíblia, culminará no igualitarismo político e econômico da revolução francesa e do socialismo, bem como no enfraquecimento generalizado da autoridade em todos os níveis.  Tudo isso vai fundamentar o liberalismo: o homem como árbitro da verdade e do bem, independentemente de Deus.

Poderíamos ainda tratar de muitos outros pontos sobre Lutero (como a sua moral péssima), para mostrar como foi catastrófica a sua reforma, que arrastou grande parte da Europa para erros tão escandalosos, tão absurdos, tirando-a da verdadeira Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo. Os princípios de Lutero estavam já latentes na decadência da Idade Média, no voluntarismo de um Duns Scotus, no nominalismo de um Ockham, no subjetivismo do chamado misticismo alemão. Ajudaram também na propagação da heresia protestante o nacionalismo e o absolutismo (dos soberanos temporais) crescentes e derivados do renascimento e que opunham os príncipes ao Papa. Muitos soberanos temporais enxergaram, na reforma protestante, a ocasião para diminuir a influência da Igreja na sociedade e para confiscar os bens da Igreja. Ajudou também na propagação da heresia o lamentável enfraquecimento da figura do Papa aos olhos do povo e dos soberanos em virtude de acontecimentos que antecederam a revolução protestante. O primeiro acontecimento foi o cativeiro de Avignon, quando o papado se instalou em Avignon, em virtude da pressão do rei da França, em atitude descabida, e em virtude da insegurança em Roma, dadas as lutas entre partidos. Ficou o Papa nessa cidade da França, com o rei procurando controlá-lo, o que gerará desconfiança ao Papa por parte de outros soberanos, supondo que o Papa atendia aos interesses do rei da França. O segundo acontecimento foi o cisma do ocidente, quando a cristandade ficou dividida na submissão entre dois bispos que se proclamavam Papa (claro, apenas um era verdadeiramente o Papa). O cativeiro (68 anos) e o cisma (39 anos) duraram um tempo bastante considerável. Foram acontecimentos péssimos.

Podemos, ainda, citar o humanismo e o renascimento como causas favorecedoras da difusão infeliz do protestantismo. O humanismo com seu desprezo da escolástica, incluindo a boa. O renascimento com seu paganismo e que chegou a penetrar em muitos membros da Igreja, gerando escândalos, permitindo que Lutero se apresentasse como um reformador diante dos incautos.

Lutero foi condenado pelo Papa Leão X com a famosa Bula Exsurge Domine e pelo Concílio de Trento.

A chamada reforma protestante foi realizada há 500 anos, em 1517. Esse é o ano marcado pela fixação das suas 95 teses na porta da Universidade de Wittenberg, onde lecionava Sagrada Escritura, em particular as Epístolas de São Paulo. Na verdade, a fixação dessas 95 teses é contestada por alguns historiadores bem sérios. Seria uma elaboração posterior para engrandecer um pouco a figura de Lutero. A fixação de teses na porta da Igreja era uma convocação para uma disputa teológica. O fato é que não houve essa disputa nesse momento, o que nos faz pensar que as teses não foram fixadas. Se tivessem sido, certamente teólogos católicos teriam disputado com Lutero nesse momento, como fizeram depois. O pretexto para as 95 teses foram as indulgências. Mero pretexto. Lutero queria já apresentar seus dogmas, elaborados pelos seus pensamentos para resolver suas angústias. Claro que houve alguns abusos nas indulgências por parte de alguns encarregados de pregá-las e concedê-las, mas, em si, as indulgências são excelentes. Lutero utilizou essa questão como pretexto para sua revolta. Qualquer criança do catecismo sabe que as indulgências não compram o céu e que elas pressupõem o arrependimento sincero do pecado e o desapego do pecado.

O fato é que já faz 500 anos, com consequências tão drásticas para as almas. Não há o que comemorar. Não podemos comemorar um acontecimento que levou tantas almas para o erro e que perdeu tantas almas. Devemos mais bem lamentar. Mas a providência divina age. Ela suscitou verdadeiros reformadores. Santo Inácio de Loyola, Santa Teresa de Ávila, São Pedro de Alcântara, São Felipe Neri, São Carlos Borromeu, São Pio V, São Camilo de Lelis e tantos outros. Se a Igreja perdia metade de um continente, conquistava grande parte das Américas com os missionários jesuítas, franciscanos e dominicanos. E com a aparição de Nossa Senhora de Guadalupe no México. Deus age na história, caros católicos. Tenhamos confiança e façamos a nossa parte, procurando nos santificar.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Algumas Fontes:

Philip Hughes. História da Igreja Católica.

Bernardino Llorca. Manual de História Eclesiástica.

Frantz Funck-Brentano. Lutero.

Ricardo Garcia-Villoslada. Raíces Históricas del Luteranismo.

Ricardo Garcia-Villoslada. Martín Lutero (2 volumes).

[Sermão] História das heresias V: cátaros, fraticelli, Wycliffe e Hus

Sermão para o 4º Domingo depois da Páscoa

14.05.2017 – Padre Daniel Pinheiro, IBP

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Ave Maria…

Nosso Senhor, no Evangelho de hoje, promete aos apóstolos que enviará o Espírito Santo e que Ele lhes ensinará toda a verdade. A Revelação divina, caros católicos, se encerra, portanto com a morte do último apóstolo, São João Evangelista, em torno do ano 100. A partir da morte do último apóstolo, nenhuma verdade nova pode ser revelada. E a verdade, que foi ensinada por Nosso Senhor Jesus Cristo e pelo Espírito aos apóstolos, nos é transmitida fielmente pela Igreja. Ela não pode, claro, ser alterada.

Retomemos ainda hoje, caros católicos, nossa breve história das heresias, esses erros que se opõem à verdade revelada.

Passamos ao século XII, com a heresia cátara, também chamada de albigense, em virtude da principal cidade que ocuparam, chamada Albi, no sul da França. A heresia cátara, espalhada pela Europa, vinda provavelmente do leste, tem diversas nuances. Essencialmente, porém, a heresia cátara é a velha heresia gnóstica que vai serpenteando ao longo da história sob diversas capas. Ela retoma basicamente os mesmos princípios do gnosticismo e do maniqueísmo. Professa o dualismo, afirmando a existência de dois deuses: um bom, criador do espírito, e um mal, criador da matéria. O princípio mal teria aprisionado as emanações divinas ou partículas divinas na matéria, sendo que o objetivo é precisamente libertar-se da matéria, que, segundo eles, é má. Tudo isso é absurdo, como já dissemos. Existe um só princípio, Deus, que é bom, e criador de todas as coisas, inclusive da matéria, que é um bem. Não existe um princípio mal equivalente a Deus.  O mal absoluto não existe, ao contrário do que prega o gnosticismo. O mal é ausência de ser. O mal absoluto seria a total ausência de ser, quer dizer, não existiria. O demônio não é princípio equivalente a Deus ou quase equivalente, mas é uma pobre criatura, com grande capacidade, mas que nada pode fazer sem a permissão de Deus, que permite os males para que deles venham um bem superior, como permitiu o pecado original para que daí viesse a Encarnação do Verbo.

Com essa oposição à matéria, como se fosse má, esses hereges se opunham fortemente ao matrimônio, pois esse gera um novo ser material. Chegavam ao ponto de evitar comer tudo o que fosse de origem animal e que viesse de reprodução. Eram favoráveis ao aborto e ao suicídio. Defendiam também a reencarnação, até que a partícula divina se purificasse e fosse liberada da matéria. Toleravam, porém, bastante o chamado amor livre e uniões incapazes de gerar filhos, bem como as uniões contra a natureza. Encontramos muitas dessas consequências em nossa sociedade atual: contra o casamento aberto à vida, contrária à procriação, mas favorável a todo tipo de união estéril, favorável à proliferação daqueles que se recusam a comer coisas de origem animal (vegetarianos e veganos), favorável à doutrina da reencarnação, que se encontra difusa em boa parte da sociedade. Era uma heresia tremenda contra a Igreja e com gravíssimas consequências para a sociedade, como se pode deduzir dos seus erros. Como contrária à matéria, conduz ao fim da própria sociedade.

O Papa Inocêncio III a ela se opôs com vigor, enviando missionários. É nesse contexto que surgirá São Domingos com o Rosário e com a sua ordem religiosa, a Ordem dos Pregadores )dominicanos), rezando a Nossa Senhora e pregando a doutrina católica. É aqui que surgirá também a Inquisição, tão caluniada pelos inimigos da Igreja e sobre a qual falaremos em outra ocasião. A Inquisição que foi criada justamente para que houvesse um julgamento devido e justo dos hereges, já que a população, diante de erros tão graves, buscava muitas vezes fazer justiça com as próprias mãos e o poder civil também não procedia sempre do modo devido.

Com a heresia cátara, novamente a heresia gnóstica vem mais claramente à tona ao longo da história. Atraindo muitas almas, em momentos de crise da sociedade. Mas a Igreja permaneceu firme.

Surge nos séculos XIII e XIV a heresia dos fraticelli. Heresia derivada de uma má compreensão de São Francisco de Assis. Afirmavam a existência de duas igrejas: uma material, corrupta e com o Papa como chefe. Outra espiritual, pobre (pauperismo), pura e santa, da qual faziam, parte, evidentemente, os fraticelli. Para eles, os padres e bispos pecadores perdiam a autoridade e o poder de administrar os sacramentos. Opunham-se também ao sacramento do matrimônio, renovando esse outro erro grave e comum ao longo da história. Ao mesmo tempo, parece que se inclinavam a certo sensualismo. No terreno social, combatiam a riqueza como se fosse um mal em si, favorecendo, então, teorias contrárias ao direito natural de propriedade privada. Opunham-se, assim, à Igreja tal como fundada por Cristo: uma sociedade visível, hierárquica, tendo por chefe São Pedro e seus sucessores. Renovam a heresia donatista ao negar a autoridade de governo e o poder de administrar os sacramentos ao padres e bispos pecadores. Iam mesmo contra a lei natural ao não reconhecer que os bens materiais são, em si bons, cabendo aos homens fazer bom uso deles ou não. A riqueza não é por si má. É indiferente. O que é preciso é utilizá-la bem e estar desapegado dela, como diz Nosso Senhor: bem-aventurados os pobres de espírito, isto é, aqueles que usam dos bens terrenos desapegados deles e somente para alcançar o céu. Os fraticelli foram condenados por Bonifácio VIII, João XXII e combatidos por São João Capistrano que tentou convertê-los.

Os fraticelli foram muito influenciados por Joaquim de Fiore, morto em 1202, e que defendia a chegada da Idade do Espírito Santo, a Idade do amor, em que a sociedade seria perfeita já nessa terra e em que todos seriam iguais, como se igualdade fosse, em si, um bem. Essas idéias darão origem às teorias que quererão fazer o paraíso aqui nesse mundo. Defendia também a pobreza como um bem absoluto, defendia o fim da Igreja visível, o fim dos sacramentos, o fim do culto visível, uma interpretação meramente espiritual da Sagrada Escritura e sem a autoridade do Magistério. Essas ideias completamente erradas, contrárias ao ensinamento de Nosso Senhor Jesus Cristo, tiveram uma grande influência nas mentalidades. Vemos muito disso ainda hoje, de modo vulgar, quando se defende uma Igreja não institucional, quando se defende um amor vago entre todos, quando se rejeita a autoridade, quando se defende uma paz fora da verdadeira ordem e quando se defende o igualitarismo. A aparente austeridade de Joaquim de Fiore e dos Fraticelli permitiu, em certa medida, a popularização dessas ideias tortas. Com grande prejuízo para a verdade, para a Igreja e para a salvação das almas.

Passamos, finalmente, a duas heresias que preparraam amplamente o terreno para o protestantismo. A heresia de João Wycliffe e a heresia de João Hus. João Wycliffe estudou em Oxford, Inglaterra, em meados do século XIV. Terminou aderindo a certas ideias de Joaquim de Fiore, em particular à questão da pobreza absoluta, e a um nacionalismo que começava a aflorar na Inglaterra, opondo o rei à Igreja. Começou a atacar a vida monástica e defendeu o confisco dos bens da Igreja. Iniciou, igualmente, campanha contra o Papa, afirmando que o único Papa era o próprio Cristo, indo claramente contra as palavras de Cristo, que estabeleceu Pedro e seus sucessores como o fundamento de sua Igreja. Propôs a Sagrada Escritura como única fonte da Revelação, negando a tradição e negando a autoridade do Magistério da Igreja. Negou a presença real de Cristo sob as aparências de pão e vinho nas espécies consagradas, contra as palavras claras do Senhor. Opôs-se ao sacramento da confissão, a que chamava de invenção tardia, e opôs-se também às imagens sagradas e às indulgências. Confissão instituída tão claramente pelo Salvador após a sua ressurreição e culto das imagens difundido na Igreja desde o seu início, praticamente. Foi condenado por Gregório XI em 1377 e pelo Concílio de Constança, confirmado, nesse ponto, pelo Papa Martinho V.

João Hus, Professor da Universidade de Praga desde 1396, terminou seguindo basicamente as mesmas ideias de Wycliffe, pois havia grande intercâmbio entra as faculdades inglesas e as universidades da Boêmia. Isso em função do casamento do Rei Ricardo II da Inglaterra com Ana da Boêmia. João Hus terminou sendo condenado pelo mesmo Concílio de Constança.

Prezados católicos, vemos como a Igreja está, ao longo de sua história, em constante combate contra o erro, contra a mentira, contra o mal. Como Nosso Senhor em sua vida pública teve de se opor ao erro dos saduceus e dos fariseus o tempo inteiro para o bem das almas. Devemos estar seguros de que Nosso Senhor governa a barca da Igreja. Que ela não vai naufragar. Nosso Senhor triunfa. O Coração Imaculado de Maria triunfa sobre os erros. A Igreja Triunfa. A verdade triunfa.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

[Sermão] História das heresias IV: iconoclastia e heresia de Berengário de Tours

Sermão para o 3º Domingo depois da Páscoa

07.05.2017 – Padre Daniel Pinheiro, IBP

Em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Amém.

Ave Maria…

Retomamos, caros católicos, a nossa breve consideração das heresias ao longo da história da Igreja. Isso nos serve como ocasião para afirmar a verdade católica em oposição a esses erros e serve para evitar os mesmos erros nos tempos atuais e futuros. As heresias, em geral, se repetem ao longo dos séculos, mudando um pouco a roupagem, mudando alguns fundamentos. É-nos bastante proveitoso, então, conhecer esses erros contra a fé.

Vamos hoje ao século VIII, quando surgiu a heresia iconoclasta, que é a oposição às imagens sagradas, proibindo o uso das imagens e o culto às imagens. Foi o imperador de Constantinopla, Leão III, Isáurico, que, em 730, publicou um edito geral proibindo o culto das imagens. Essa data marca o início oficial da heresia e da campanha contra as imagens. O decreto encontrou oposição firme em São Germano, patriarca de Constantinopla, em São João Damasceno, o grande defensor das imagens e também na piedade popular tradicional. Também o Papa Gregório II e seu sucessor, Gregório III, se opuseram à iconoclastia. O imperador, enfurecido, com a oposição ao seu decreto herético, começou a campanha de destruição de imagens de Nosso Senhor e dos santos. Passou a exilar, castigar e mesmo matar os opositores. O filho e sucessor do imperador Leão III, chamado Constantino V, Coprônimo, seguiu a mesma linha e intensificou a perseguição. Passou a destruir mesmo as relíquias dos santos, tão veneradas. Chegou a reunir um sínodo, no Palácio imperial de Hieria, a que 338 bispos assistiram. O imperador impôs a sua vontade, proibindo o culto das imagens e condenando os principais defensores desse culto: São João Damasceno e São Germano. Em Roma, o Papa Estevão III respondeu com um sínodo afirmando a doutrina católica constante do culto às imagens. Foi somente com a Imperatriz Irene, regente do Império, que a heresia foi condenada no II Concílio de Nicéia em 787. O Papa participou, por meio de seus legados, desse Concílio. Proclamou-se a bondade do culto às imagens, provada pelos documentos pontifícios e pelos escritos dos padres da Igreja.

Todavia, a heresia voltou a surgir na primeira metade do século IX e com violência sob o imperador Leão V. O que tinha escapado da perseguição anterior foi destruído nessa segunda. Inúmeros foram os martírios, os desterros e as prisões. Foi novamente uma Imperatriz regente, Teodora, que conseguiu pacificar as coisas, renovando as decisões do II Concílio de Nicéia. Os monges tiveram durante toda a crise iconoclasta um papel determinante na defesa das imagens e da honra prestada a elas.

As imagens eram usadas pelos cristãos desde o início praticamente. Basta vermos as catacumbas. O culto às imagens dos santos vem do fato de o Verbo ter se Encarnado. O Concílio de Trento, reafirmando a doutrina católica do culto às imagens contra a heresia protestante, diz as imagens dos santos também podem e devem ser veneradas: “As imagens de Cristo, da Santíssima Virgem e de outros Santos, se devem ter e conservar especialmente nos templos e se lhes deve tributar a devida honra e veneração, não porque se creia que há nelas alguma divindade ou virtude pelas quais devam ser honradas, nem porque se lhes deva pedir alguma coisa ou depositar nelas alguma confiança, como outrora os gentios, que punham suas esperanças nos ídolos (cfr. Sl 134, 15 ss), mas porque a veneração tributada às Imagens se refere aos protótipos que elas representam, de sorte que nas Imagens que osculamos, e diante das quais nos descobrimos e ajoelhamos, adoramos a Cristo e veneremos os Santos, representados nas Imagens.” Assim ensina o Concílio de Trento. O culto prestado à imagem é um culto prestado não à imagem em si, mas àquele que a imagem representa.  A proibição de fazer imagens no Antigo Testamento não é mais válida, pois o risco de idolatria que existia para os judeus, rodeados de pagãos idólatras, adoradores de imagens, já não existe. E mesmo no Antigo Testamento, vemos Deus abrir algumas exceções para a proibição das imagens, pois ele ordena que se façam querubins na arca da aliança e manda que Moisés faça uma serpente de bronze – prefiguração de Cristo crucificado – para que os judeus não perecem pelas picadas das serpentes no deserto. Portanto o culto às imagens se dirige ao original.

O culto às imagens é bom pela nossa natureza, somos corpo e alma. Nós precisamos de coisas sensíveis que ajudem a nossa inteligência e a nossa vontade a se elevarem às coisas espirituais. Assim, os sacramentos são sinais sensíveis da graça, as cerimônias da Igreja são sensíveis, a Igreja é uma sociedade visível com um chefe visível, etc. As imagens e relíquias nos ajudam muitíssimo a manter a nossa concentração, a considerar o exemplo e as virtudes de Cristo, de Nossa Senhora, dos Santos. Dão-nos também esperança de alcançar o céu ao nos fazer lembrar daqueles que lá já estão. Tirar as imagens das igrejas prejudica a vida de oração, diminui o apelo aos santos, nos privando de muitas graças. Prejudica a vida espiritual. Hoje, infelizmente, existe em muitos espíritos, uma mentalidade de tendência iconoclasta, querendo esvaziar as igrejas católicas das imagens sagradas, como se isso atrapalhasse a devoção, sendo que é precisamente o contrário. Na França, por exemplo, vemos uma vaga iconoclasta na época em que os protestantes tentaram tomar o poder, vemos uma vaga iconoclasta na Revolução Francesa e vemos uma vaga iconoclasta atual em virtude de princípios litúrgicos e teológicos errôneos.

Interessante notar as causas da heresia iconoclasta. Não é um erro isolado, mas que deriva das heresias precedentes que já vimos. O nestorianismo separava a natureza divina e a natureza humana de Cristo, o monofisismo negava a humanidade de Cristo. Tudo isso vai contra a representação de Cristo como homem. E a imagem de Cristo expressa a sua humanidade, claro. Essas heresias se opunham, então, às imagens de Cristo e, consequentemente, às outras imagens. É preciso ver também na heresia iconoclasta a influência do judaísmo e principalmente do islamismo. O islamismo, recém-fundado por Maomé, se expandia violentamente, como sempre, e muitos viviam no império romano do oriente e combatiam no exército. Judeus e maometanos se opõem às imagens.

A heresia iconoclasta terá como consequência estremecer as relações entre cristãos do ocidente e do oriente, preparando o terreno para o cisma do oriente em 1054. As mentalidades começarão a se separar. O imperador romano do oriente começará cada vez mais a querer governar a igreja, naquilo que é conhecido como cesaropapismo – o imperador usurpando o poder que pertence ao Papa. É pouco depois da heresia iconoclasta que surgirá a figura de Fócio, na segunda metade do século IX, colocando os fundamentos para que a maior parte dos cristãos do oriente se separem da verdadeira Igreja de Cristo em 1054. As consequências da crise iconoclasta foram terríveis.

Já no século XI, surge a heresia eucarística de Berengário de Tours. Ele afirmava, em seus ensinamentos na escola da catedral de Tours, que na eucaristia não estava o verdadeiro corpo e sangue de Cristo, mas somente uma imagem ou figura. Como Berengário era muito ativo e hábil, suas idéias atraíram muitos adeptos e logo se difundiram. A doutrina chegou ao Papa Leão IX que condenou a heresia de Berengário. Habilidoso, o herege conseguiu, porém, o apoio de dois bispos e do rei da França, Henrique II. Foi condenado, porém, em 1051 no sínodo em Paris. Berengário chegou a jurar a doutrina católica sobre a eucaristia, mas mantendo a heresia interiormente. Fez a mesma coisa anos mais tarde em Roma. Professou a boa doutrina diante do Papa para logo depois voltar a professar a heresia. Quantos, hoje, fazem uma profissão externa de catolicidade, mas professam erros e heresias de modo velado, para enganar os desatentos. Condenado ainda outras vezes, parece que, finalmente, se arrependeu de seus erros e morreu penitente, retirado em uma ilha. Essa heresia eucarística de Berengário foi a ocasião para se introduzir na Santa Missa a elevação da hóstia no momento da consagração, a fim de que todos pudessem logo adorar a Nosso Senhor Jesus Cristo real e substancialmente presente em corpo, sangue, alma e divindade sob as aparências do pão e do vinho.

Como dissemos no início, as heresias tendem a se repetir. Os protestantes todos retomarão depois a heresia eucarística e quase todos retomarão a heresia iconoclasta. A Igreja, porém, apesar das tempestades, permanece sempre firme na sua doutrina. Sempre com prudência, com paciência e firmeza. Ao fim, a verdade triunfa. Mais uma vez, caros, católicos, permaneçamos firmes na doutrina católica íntegra, sem nos deixar levar por qualquer sopro de doutrina, pelas vãs filosofias, ou pelos pensamentos da moda. Só Nosso Senhor e sua Igreja têm palavras de vida eterna.

Em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Amém.