[Aviso] 40 horas de Adoração ao Santíssimo Sacramento em reparação pelos pecados do carnaval

Todos estão convidados a adorar o Santíssimo Sacramento nesse tempo de carnaval em que o Sagrado Coração de Jesus é tão ofendido. E em que também o Imaculado Coração de Maria é ofendido.

Os mundanos não medem esforços para cometer pecados. Não meçamos esforços para reparar por esses pecados e pelos nossos.

Na Capela Nossa Senhora das Dores, haverá a tradicional devoção das 40 horas de Adoração ao Santíssimo Sacramento em reparação pelos pecados cometidos no carnaval. 

A Exposição do Santíssimo, com Procissão, Ladainha de Todos os Santos e Orações será ao final da Missa de 10h00 do domingo, 26/02.

O encerramento, com a Ladainha de Todos os Santos, Procissão, Bênção do Santíssimo Sacramento e Reposição será ao final da Missa de terça-feira, 28/02, que tem início às 10h00.

Veja abaixo o calendário a partir do Domingo da Quinquagésima, quando têm início as 40 horas.

40-horas

[Sermão] História das heresias II: arianismo, apolinarismo, donatismo, pelagianismo

Sermão para o Domingo da Sexagésima

19.02.2017 – Pe Daniel Pinheiro, IBP

 

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Ave Maria…

Como dissemos há três domingos, a história da Igreja se assemelha àquela barca em meio à tempestade agitada. A Igreja é perseguida, ao longo de sua história, às vezes com violência externa, física. E, muitas vezes, pelos erros contra a fé, as heresias, que, em geral, perdem mais almas do que a perseguição física, violenta. Vimos como é importante conhecer um pouco essas heresias para evitarmos a queda nelas, pois os erros com bastante frequência reaparecem revestidos com nova roupagem, ou com algumas atenuações, mas que não lhes tiram a condição de erro.

Chegamos, então, ao início do século quarto, momento em que surge a heresia ariana, que tira o seu nome de Arius, padre da cidade de Alexandria que havia feito seus estudos em Antioquia. A heresia ariana nega a divindade do Verbo, afirmando que o Verbo tem natureza inferior ao Pai. Assim, para o heresiarca Arius, o Verbo é filho de Deus Pai não em sentido próprio e natural, mas somente adotivo. Nega, então, a divindade de Cristo, que é o Verbo Encarnado. Negar a divindade do Verbo e negar, consequentemente, a divindade de Cristo é destruir a redenção operada por Nosso Senhor Jesus Cristo. Jesus Cristo nos redimiu por ser verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem. Sendo Deus, suas ações têm valor meritório infinito. Sendo homem, Ele é a nossa cabeça e repara em nosso nome. Se a divindade de Cristo é negada, e ele é uma criatura, suas ações são limitadas, finitas, não sendo suficientes para satisfazer pelos nossos pecados, que são uma ofensa infinita a Deus. Não haveria, então, redenção. Se Cristo não fosse homem, ele não agiria como nosso mediador, como nossa cabeça e também não haveria redenção. Portanto, negar a divindade ou a humanidade de Cristo, é destruir a nossa redenção, a nossa salvação. E são inúmeras as heresias que negam uma coisa ou outra. A heresia de Arius negava a divindade de Cristo e a trindade das pessoas divinas, e decorria de alguns erros precedentes, como a heresia gnóstica e o adocionismo, por exemplo.

Arius foi condenado pelo seu Bispo em Alexandria e pelo Concílio de Nicéia, o primeiro Concílio Ecumênico depois do chamado Concílio de Jerusalém, feito pelos apóstolos para resolver a questão dos judaizantes. No Concílio de Nicéia, em 325, ficou estabelecido que o Verbo é consubstancial ao Pai, quer dizer, que Ele tem a mesma natureza divina de Deus Pai. E assim cantamos ainda hoje na Missa, durante o Credo. Todavia, Arius continuou a propagar os seus erros com suas composições literárias, chamadas de Thalia, um misto de poesia e prosa para o povo. Interessante notar como já se propagavam os erros por esses meios artísticos e culturais. Ainda hoje se faz isso e com muita abundância. Erros contra a fé e contra a moral são espalhados, por exemplo, por meio de romances, músicas, filmes, desenhos, jogos… E muitos ingenuamente acham que essas coisas são inofensivas por definição. Na esmagadora maioria dos casos, não são inofensivas.

Mesmo depois da condenação pelo Concílio de Nicéia, o arianismo continuou sendo afirmado por inúmeros clérigos – incluindo padres e bispos -, professado também por grande parte do povo e alcançou difusão enorme. O imperador romano da época, Constantino, chegou, em determinado momento, a favorecer essa heresia. Os arianos passaram a se esconder atrás do semi-arianismo, após o Concílio. No lugar de negar claramente a divindade do Verbo, passaram a afirmar que o Verbo é semelhante ao Pai. Outros passaram a dizer que o Verbo é de substância semelhante ao Pai. Ou seja, não afirmavam que o Verbo era da mesma substância que o Pai, consubstancial ao Pai. Era um jeito light de favorecer a heresia, procurando atenuá-la. Depois de uma heresia, em geral, surge a heresia em forma atenuada, a semi-heresia, que muitas vezes causa mais estragos do que a heresia plenamente afirmada. A principal figura contra a heresia ariana foi Santo Atanásio.

Outra heresia de meados do século IV é o apolinarismo. Apolinário, Bispo de Laodicéia afirma a natureza divina de Cristo, mas nega uma natureza humana completa em Cristo. Apolinário afirmava que Cristo tinha uma natureza humana composta somente de corpo e de uma alma sensível, isto é, Cristo não tinha uma inteligência humana nem uma vontade humana, mas o próprio Verbo exercia essas funções em Cristo. Temos aqui o erro contrário ao arianismo: a negação de uma verdadeira natureza humana em Cristo. Sem uma inteligência e uma vontade humanas, não se pode falar de verdadeira natureza humana. Sem a natureza humana completa e verdadeira, Cristo não poderia também nos salvar. O erro de Apolinário também impediria a nossa redenção. A teoria de Apolinário é uma reação exagerada ao arianismo. Querendo afirmar a divindade de Cristo, termina por negar a Cristo uma verdadeira natureza humana. Apolinário foi deposto e condenado pelo Papa Damásio em 377 e 382.

Ainda no século IV surgiu também o erro donatista, que tira seu nome de Donato, grande organizador dessa heresia. O donatismo afirma que a validade dos sacramentos depende da santidade do ministro do sacramento. Dizem, então, que se o ministro estiver privado da graça, se ele se encontra em pecado mortal, o sacramento seria inválido. Isso é falso. A validade do sacramento, na verdade, não depende da santidade do ministro que o administra. A graça transmitida no sacramento não é a graça do ministro, mas de Cristo. Até mesmo um herege pode batizar validamente, por exemplo, se ele batiza com água, dizendo as palavras corretas do Batismo e querendo fazer o que a Igreja faz, ainda que ele tenha uma concepção errada do que a Igreja faz. Um padre em pecado confessa e absolve os pecados validamente, se as outras condições são observadas. O donatismo está ligado ao rigorismo dos montanistas, de que falamos no sermão precedente sobre as heresias.

Já no século V, a Igreja é agitada pela heresia do pelagianismo, difundida particularmente pelo monge bretão Pelágio. O pelagianismo é uma heresia que afirma o naturalismo, quer dizer, afirma que o homem pelas suas próprias forças naturais, sem o auxílio da graça de Deus, pode evitar todo pecado e conquistar o céu, ver Deus face a face. O que é absurdo pois ver Deus face a face é sobrenatural, está acima de nossa natureza, de suas exigências e forças. Pelágio afirma, então, que pelas nossas simples forças naturais nós podemos chegar acima da nossa natureza, o que é contraditório. Os erros do pelagianismo são: i) afirmar que o pecado de Adão, o pecado original, prejudicou somente ao próprio Adão e afirmar que o pecado de Adão não se transmite aos seus descendentes; ii) afirmar que as crianças nascem sem o pecado original, portanto inocentes e unidas a Deus; iii) afirmar que as crianças mortas sem o batismo alcançam a vida eterna; iv) afirmar que o homem com as suas forças naturais e com a sua liberdade pode evitar todo pecado e alcançar a visão beatífica; v) afirmar que a graça de Deus não é necessária para evitar o pecado, para nos manter unidos a Deus e para chegar à vida eterna; vi) afirmar que a graça de Cristo é somente o seu exemplo; vii) afirmar que a redenção não é a regeneração do homem pela graça de Deus na alma, mas que a redenção é um chamado para uma vida mais elevada a ser conquistada com as próprias forças.

O pelagianismo é um humanismo, de um otimismo irracional. Modernamente, foi retomado por Rousseau, por exemplo, com o seu mito do bom selvagem. É retomado também nos sistemas de educação que deixam a criança (ou o jovem) entregue a si mesma. O pelagianismo é a destruição completa da ordem sobrenatural. Qualquer um sabe, por experiência própria e alheia, que o homem nasce com as feridas do pecado original, com inclinação para o erro, para mal (bem aparente), para uma deleitação desordenada dos bens sensíveis. Qualquer um sabe que, pelas suas próprias forças, não consegue vencer de modo duradouro o pecado, ainda menos todo pecado. O pelagianismo esvazia a redenção feita por Nosso Senhor Jesus Cristo, colocando-o simplesmente como exemplo e não como a cabeça de um corpo místico que transmite o vigor para os membros do corpo. Para o pelagianismo, é o homem que se redime a si mesmo, com as suas próprias forças. A ajuda divina nem é necessária para eles. Santo Agostinho combateu veemente o erro pelagiano, reconhecendo a sua gravidade ao abandonar o homem a si mesmo, ao negar a redenção de Cristo. Na verdade, a redenção se faz pela graça de Deus unida à cooperação do homem a essa mesma graça. O pelagianismo foi condenado inúmeras vezes pela Igreja. Por exemplo, no Concílio de Éfeso.

Depois do pelagianismo, surge o semi-pelagianismo. Mais uma vez, a semi-heresia, que tenta fazer uma certa síntese entre a heresia e a verdade. A síntese entre o erro e a verdade só pode ser ela mesma um erro. Mas a heresia mitigada e mais misturada com a verdade engana mais facilmente as pessoas e atrai muitas vezes aquelas que estão cansadas da oposição ao erro e buscam uma via de conciliação, de pacificação. Por isso, a semi-heresia tende a conquistar, muitas vezes, mais adeptos. Mas lembremos sempre: a mistura de erro e verdade é sempre um erro. O semi-pelagianismo afirma que não se requer a graça para começar a ter fé ou para começar a se santificar, mas somente para completar a fé e a santificação. Afirma também que a perseverança final é fruto simplesmente de nossos méritos.  Ao contrário, a verdade é que a graça é necessária para qualquer ato, mesmo inicial, da vida sobrenatural. A fé e a santificação, mesmo no seu primeiro início, só podem existir com a graça de Deus. E sem a graça divina é impossível perseverar até a morte e alcançar a vida eterna. O semi-pelagianismo foi combatido, entre outros, por São Cesário de Arles. Foi condenado no Concílio de Orange, aprovado pelo Papa Bonifácio II.

Entre essas heresias, o arianismo, o donatismo e o pelagianismo chegaram a alcançar grande difusão. O arianismo e o pelagianismo também nas suas formas mitigadas. O combate dos católicos contra esses erros foi árduo, mas a verdade terminou triunfando. Para o arianismo, São Jerônimo diz que o mundo inteiro acordou com um gemido para encontrar-se ariano. A adesão ao erro foi imensa. Os arianos tinham mesmo a maior parte das igrejas, dos templos para o culto. Santo Atanásio, bispo de Alexandria exilado, escrevendo ao seu rebanho, dizia” eles, os hereges, têm as igrejas, os lugares de culto, mas que vocês têm a verdadeira fé que habita em vocês.” Também o donatismo chegou a cooptar vários bispos. O pelagianismo igualmente teve uma considerável penetração nos meios católicos.

Nos séculos quarto e quinto, os erros foram muitos e se apresentaram com vigor. A verdade, porém, triunfou. A defesa da fé, pelos que a guardaram, foi firme. Vale também a lição a propósito da semi-heresia, desse erro que se mistura com mais elementos de verdade para mais facilmente enganar. Essa síntese entre o erro e a heresia que atrai aqueles que desejam uma pacificação a todo preço, essa síntese que só pode ser ela mesma um erro. Vivemos nós uma imensa crise de fé. Não é só uma ou outra verdade de fé que é atacada ou negada, mas toda a religião católica com seu fundamento que é negada. E, muitas vezes, diante de tão imensa catástrofe é grande a tentação de aceitar erros menores. É grande a tentação de aceitar erros misturados com a verdade, a fim de encontrar apoio, a fim de encontrar uma certa pacificação. Nosso apoio não pode estar no erro, nem no menor deles. Nosso apoio deve estar na verdade, na verdade que nos foi revelada por Deus. A pacificação não pode também encontrar-se fora da verdade, fora de Nosso Senhor Jesus Cristo. Não se pode transigir ou negociar com a verdade, ainda mais com a verdade que nos foi revelada por Deus e que a Igreja Católica nos ensina.

Em nome do Pai…

[Aviso] Missas 02/02 e 03/02

Prezados, Salve Maria!

A pedido do Padre Daniel Pinheiro, IBP, informamos:

Dia 02/02, Festa da Purificação de Nossa Senhora (ou Nossa Senhora da Candelária): Bênção das velas, Procissão e Missa às 19h30.

Dia 03/02, primeira sexta-feira do mês: i) NÃO haverá Missa pela manhã; ii) Hora Santa às 19h00 e Missa às 20h00.

 

[Sermão] História das heresias I: judaizantes, gnosticismo, adocionismo, maniqueísmo e outras

Sermão para o 4º Domingo depois da Epifania

29.01.2017 – Padre Daniel Pinheiro, IBP

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Ave Maria…

Nós temos hoje o Evangelho da tempestade acalmada. A barca em que está Jesus Cristo e seus discípulos significa a Igreja Católica Apostólica Romana. O mar é o mundo, no qual a Igreja se encontra, visível aos olhos de todos. Na tempestade agitada, podemos ver as perseguições que sofre a Igreja ao longo de toda a sua história.

A Igreja é perseguida de dois modos: pela violência externa, física. E aí temos os mártires, aqueles que aceitaram a morte para permanecerem fiéis a Nosso Senhor Jesus Cristo e à sua Igreja. Temos os mártires da antiguidade, os mártires no oriente, os mártires nas mãos dos muçulmanos, os mártires nas mãos dos protestantes e cismáticos, os mártires do comunismo na Espanha e na Europa do leste, os mártires do nazismo, os mártires do regime maçônico no México e tantos outros…

O outro modo de perseguir a Igreja é mais sutil e, em geral, perde mais almas: o erro doutrinário, as heresias. É delas que trataremos hoje. Alguns podem pensar que a Igreja, ao longo de sua história, viveu uma grande tranquilidade e que somente agora é que atravessa uma enorme crise e uma perseguição. Não é verdade. A Igreja, sendo o corpo místico de Cristo, é perseguida ao longo de toda a sua existência, a exemplo do próprio Cristo em sua vida pública. É muito útil conhecer algumas heresias ao longo dos séculos, para que não caiamos nelas novamente e para que melhor conheçamos a verdade. Os erros se repetem ao longo da história. Veja-se, por exemplo, a tentativa de conciliar práticas como a astrologia, entendida seja no sentido de prever o futuro seja como símbolo de forças que governam o mundo, com a religião católica. A adivinhação, pecado contra o primeiro mandamento, engloba querer prever o futuro ou conhecer coisas ocultas. Os erros se repetem com frequência, sob novas aparências.

Vejamos algumas dessas tempestades agitadas ao longo da história da Igreja. E também como, apesar de tudo, a Igreja continua a mesma na sua constituição e no seu ensinamento. Podemos tomar, primeiramente, o período que vai do ano 33 ao ano 325, ano do Concílio de Nicéia. A primeira heresia foi a heresia dos judaizantes, que afirmava a necessidade de se manter a lei mosaica, por exemplo, quanto à circuncisão, quanto aos alimentos, etc. Sendo a lei mosaica uma figura do Messias, praticá-la significa, ao fundo, que o Messias ainda não veio. Praticar a lei mosaica é negar que Cristo seja o messias. Heresia condenada no Concílio de Jerusalém, feito pelos apóstolos, no ano 49.

Em seguida, nos primeiros séculos do cristianismo, desenvolveu-se a heresia do gnosticismo, que diz existir uma religião externa para a pessoa comum e um conhecimento mais profundo, do qual essa religião é símbolo. Esse conhecimento seria reservado a alguns apenas. O gnosticismo afirma a divindade do homem, que teria em si uma partícula divina. Nessa heresia, trata-se de levar uma classe de homens superiores ao conhecimento da própria divindade, a reconhecer a própria identidade com Deus. Isso se faz por conhecimentos esotéricos e práticas esotéricas, reservados a alguns, por meios de simbolismos, por exemplo, astrologia, numerologia, hipnose, às vezes, e outras práticas. Gnosticismo que afirma também o dualismo, quer dizer, a oposição entre a alma e a matéria. A matéria é ruim. O espírito é bom. E afirma a existência de dois princípios equivalentes o bem absoluto e o mal absoluto. Quantos erros, mas bem presentes em nossa sociedade e que alguns tentam reavivar sob a roupagem de certa filosofia ou espiritualismo. Esse erro da gnose é o mais pérfido, o mais enganador e aquele que mais subiste ao longo da história, pois é realmente uma caricatura do cristianismo. O pecado original é o homem acreditar que é divino: “Se comerdes desse fruto, sereis como deuses, conhecendo o bem e o mal”, diz o demônio a Eva, que come o fruto, apesar da clara falsidade da proposição. O gnosticismo e seu erro de fundo, a gnose, é absurdo, é uma grande mentira, mas seduz os homens de diferentes maneiras, sobretudo pela sua pretensão de dar uma explicação inteligente, “filosófica” da religião. Philip Hughes, historiador da Igreja, diz que o gnosticismo não desapareceu ao longo da história e que não é fantasia que uma corrente subterrânea do gnosticismo persiste através dos tempos. E de tempos em tempos ela aparece sobre a terra com mais clareza.

A Igreja sempre se opôs e sempre se oporá a tudo isso. A verdade não é isso. O homem não é Deus nem tem partícula divina. É absurdo argumentar isso. Não somos onipotentes, nem oniscientes, nem eternos. Adquirimos, por exemplo, inúmeras perfeições ao longo de nossa vida. Deus já tem todas elas. Nosso Senhor Jesus Cristo e Sua Igreja nunca transmitiram um conhecimento escondido. O que vos é dito aos ouvidos, pregai sobre os telhados, diz Nosso Senhor. O verdadeiro conhecimento nos vem pela fé, pela doutrina ensinada pela Igreja católica. A matéria é boa, tendo sido criada por Deus e não se opõe ao espírito, mas auxilia a nossa alma, bastando ser bem ordenada. O mal absoluto não existe, ao contrário do que prega o gnosticismo. O mal é ausência de ser. O mal absoluto seria a total ausência de ser, quer dizer, não existiria. O demônio não é princípio equivalente a Deus ou quase equivalente, mas é uma pobre criatura, com grande capacidade, mas que nada pode fazer sem a permissão de Deus, que permite os males para que deles venham um bem superior, como permitiu o pecado original para que daí viesse a Encarnação do Verbo. Não somos deuses nem temos uma centelha divina em nós. Podemos participar e nos assemelhar a Deus pela graça santificante, mas nunca nos identificar com Ele ou nos deificar no sentido estrito, mas permanecemos inteiramente seres humanos, pobres criaturas. Não existe uma religião para a pessoa comum e uma outra reservada a poucos. A doutrina católica é uma só para todos.

Temos também a heresia do subordinacionismo, que afirma que o Verbo, a segunda pessoa da Santíssima Trindade, não é propriamente Deus, mas uma criatura excelente, intermediária entre Deus e o mundo, subordinada a Deus, donde o nome da heresia. Nega a divindade de Jesus Cristo e a Trindade das pessoas, ambas claramente afirmadas no Evangelho e confirmadas por Deus pelos milagres. Essa foi uma grave heresia que existiu ao longo dos séculos II e III.

Outro erro dessa época foi o Montanismo, uma heresia de fanáticos profetas (falsos), de iluminados e visionários que queriam independência quanto às autoridades eclesiásticas. Com pretensos êxtases e dons do Espírito Santo. Montano, em torno do ano 170, se dizia iluminado e movido pelo Espírito Santo. Esperavam o fim próximo do mundo, como muitos hoje. Entregavam-se a um rigorismo descabido: proibição de segundo casamento após a morte do cônjuge, aversão ao casamento pura e simplesmente, uma mortificação exagerada, irracional, proibição de se esconder nas perseguições, afirmação de que certos pecados não poderiam ser perdoados, a proibição de qualquer ornamentação para as mulheres. O erro da heresia é evidente: querer saber com precisão o fim do mundo, falsos dons recebidos do Espírito Santo, rigorismo infundado. Infelizmente, Tertuliano, que havia muito bem defendido a fé católica, deixou-se levar por esse erro grave. Ninguém está imune de cair, se não vigiar e evitar os perigos para a fé. Quanto se arriscam, por exemplo, aqueles que leem autores cheios de erros dizendo que levam em consideração somente o que é bom. Mas nem critério têm para saber o que é bom.

 Em seguida, a heresia do adocionismo, que afirma que Nosso Senhor Jesus Cristo não é o Filho de Deus segundo a natureza, ou seja, afirma que ele não tem a natureza divina, mas afirma que Cristo é somente filho adotivo de Deus, o filho adotivo mais perfeito, mas somente filho adotivo. Teodoto de Bizâncio sustentava essa gravíssima heresia no ano de 190. Paulo de Samósata, em torno do ano 260, professou esse mesmo erro. Ora, Cristo é verdadeiramente homem e verdadeiramente Deus. E, em Cristo, as duas naturezas se unem na pessoa divina do Verbo. De forma que Jesus Cristo é Filho de Deus segundo a natureza, tem a mesma natureza de Deus. É Deus de Deus, Deus Verdadeiro de Deus Verdadeiro. Não se pode dizer nem mesmo que Cristo é filho adotivo de Deus segundo a sua natureza humana, pois a filiação se refere à pessoa de Cristo e a pessoa de Cristo é divina. Nós é que somos filhos adotivos, pois não temos a mesma natureza que Deus, apenas podemos participar da vida divina pela graça santificante.

Outra heresia é o modalismo, professado por Sabélius, que viveu em torno do ano 200. O modalismo afirma que o Pai, o Filho e o Espírito Santo não são pessoas distintas, mas apenas modos de se manifestar da mesma pessoa divina, o Pai. Assim, não há três pessoas divinas e um só Deus, mas apenas uma pessoa divina, o Pai, que teria sofrido na cruz. Esse sofrimento de Deus Pai na cruz dá nome a uma variante dessa heresia, chamada de patripassionismo: o Pai e não o Filho teria sofrido na cruz. As duas heresias negam a divindade de Cristo e trindade das Pessoas.

Finalmente, nesse primeiro período das heresias, podemos considerar o maniqueísmo, que vem de Mani, nascido em 216, oriundo da Persa, mas formado também na Índia. Mani afirmava que as religiões eram complementares, chamava-se o “apóstolo de Jesus Cristo” e o intérprete de Buda. Unia as diferentes “tradições religiosas”, negando um princípio básico, que é o princípio de não contradição. O maniqueísmo é uma manifestação da gnose, que vai serpenteando ao longo da história, aparecendo com mais intensidade em alguns momentos, principalmente em momento de crise da sociedade, como o que vivemos hoje, por exemplo. Os princípios são basicamente os mesmos do gnosticismo que explicamos há pouco. O esquema é o mesmo: dois princípios equivalentes, um bom e outro mau. A oposição entre os dois princípios, sendo que o mau seria criador da matéria e o bom do mundo espiritual. O maniqueísmo afirma também o aprisionamento da partícula divina na matéria, o que é particularmente absurdo, como se a divindade pudesse ser presa por algo. Afirma a identificação com a divindade por meio de um conhecimento esotérico (às vezes tratado como um conhecimento de si mesmo), reservado a alguns e que pode ser atingido por certa filosofia, e por certas práticas como a astrologia, numerologia, e outras. Santo Agostinho deixou-se levar muito tempo por esse gravíssimo erro, pela aparente erudição de membros da seita, pela falaciosa ciência astrológica e outras ciências a que às vezes chamam de “tradicionais” (alquimia, por exemplo). Erro que vai combater vigorosamente depois de conhecer a Verdade, depois, então, de conhecer realmente Nosso Senhor Jesus Cristo e sua Igreja, a Católica. Muitos se deixaram levar por essas fábulas, apresentadas sob capa de erudição. Santo Agostinho diz que, em Roma, havia vários maniqueus ocultos entre os cristãos, por exemplo. Ainda hoje assim acontece: muitos se deixam levar por essas fábulas ou sob capa de erudição, de política ou filosofia, falsa, é claro.

Podemos ver, então, caros católicos, nesse primeiro período, o quanto a Igreja foi atacada pelos erros, pelas heresias. Heresias que queriam a manutenção da religião judaica, como se Cristo, no fundo, não fosse o Messias. Heresias que negavam a Santíssima Trindade, como o modalismo. Heresias que negavam a divindade de Cristo, como o adocionismo, o subordinacionismo. Heresia de certos falsos profetas, visionários e iluminados, com pretensos dons do Espírito Santo, que afirmavam a independência da autoridade, que afirmavam a impossibilidade do perdão de certos pecados e que professavam um rigorismo irracional. A gnose sob formas distintas, com suas práticas esotéricas. Desde sempre a Igreja permaneceu firme face a esses erros gravíssimos. Ela sempre afirmou a Trindade das pessoas divinas e a divindade e humanidade de Cristo. A Igreja sempre recusou qualquer forma de gnose e de esoterismo e suas práticas e ciências. A Igreja sempre recusou uma suposta religião oculta como base das diferentes religiões. E sempre continuará assim. Existe uma única religião verdadeira e que todos podem conhecer: a católica. Esses erros continuam sendo erros hoje. Ao longo dessas tempestades agitadas, com a Igreja, estava Nosso Senhor Jesus Cristo, não permitindo que ela se afastasse da verdade, mas assistindo a Igreja para que ela permanecesse fiel a Nosso Senhor Jesus Cristo em seus ensinamentos. E assim permaneceu a Igreja e assim permanecerá sempre: fiel, em seu magistério infalível, àquilo que Nosso Senhor Jesus Cristo ensinou. A Igreja não perecerá. E, mesmo sabendo disso, devemos rezar e pedir ajuda ao Senhor, face a tantos erros, vindos de todos os lados. Peçamos a ajuda de Cristo para que, permanecendo fiéis à Igreja Católica e à sua doutrina constante, não pereçamos nós.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Algumas fontes:

Santo Agostinho. Confissões.

Philip Hughes. História da Igreja Católica.

Pietro Parente. Dizionario di Teologia Dommatica.

Bernardino Llorca. Manuel de História Eclesiástica.

Richard M. Hogan. Dissent from the Creed. Heresies past and present.

[Sermão] Evangelho da cura do servo do centurião

Sermão para o 3º Domingo depois da Epifania

22.01.2017 – Padre Daniel Pinheiro, IBP

 

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Consideremos, caros católicos, a segunda parte do Evangelho de hoje: a cura do servo do centurião. Entrando Jesus em Cafarnaum, o centurião foi até ele, por si mesmo ou por emissários, fazendo uma súplica e dizendo: “Senhor, o meu servo jaz em casa paralítico e sofre.” São João Crisóstomo destaca aqui a caridade fraterna do centurião. Reconhecendo a diferença hierárquica entre si mesmo e seu servo, reconhece também a igualdade de natureza e suplica a Jesus Cristo para que cure o seu servo.

A esse primeiro pedido do centurião, Jesus Cristo responde dizendo que irá e fará a cura. Em outras ocasiões, como no caso da cura do régulo de Caná não vai, embora realize a cura. Por que essa disparidade na ação de Nosso Senhor? Para melhor manifestar a fé das pessoas envolvidas ou para melhor favorecer a fé dessas pessoas. Não indo à casa do régulo de Caná, curando-o de longe, Nosso Senhor fortalece a fé do régulo e dos outros presentes, que tinham pedido ao Senhor para que fosse até o local realizar a cura. Ao dirigir-se à casa do centurião, Nosso Senhor dá ocasião para que o centurião manifeste a sua humildade e a sua fé profundas, ao insistir que o Senhor poderia curá-lo simplesmente por uma palavra.

Assim, quando Jesus diz que se dirigirá até lá e que vai curar o servo do centurião, esse pronuncia uma das mais belas orações do evangelho, junto com uma profissão de fé. Senhor, não sou digno de que entreis na minha casa, porém, dizei uma só palavra e meu servo será curado. Essa oração começa com um ato de respeito e mesmo de adoração: Senhor. Em seguida, vem um ato de humildade: não sou digno de que entreis em minha morada. O centurião, reconhecendo-se miserável diante de Cristo, sabe que nada merece, mas que tudo vem da bondade de Nosso Senhor. E, afirmando a onipotência de Cristo, pede novamente a cura de seu servo. Afirma a onipotência ao dizer que basta uma palavra de Cristo para curar o seu servo. E conclui a sua oração dando o seu próprio exemplo: se ele, que tem soldados sob suas ordens pode dizer vem, e o soldado vem, e vai, e o soldado vai, quanto mais Nosso Senhor Jesus Cristo que tem sob seu poder todas as coisas, sendo Ele o criador e o Senhor de todas elas. Tão sublime é a oração do centurião, tão verdadeira a sua humildade e tão firme a sua fé que a Igreja utiliza cotidianamente as palavras do centurião na Santa Missa, pouco antes da comunhão, para que nos disponhamos com humildade e fé para a sagrada comunhão.

É uma oração boa porque a humildade e a fé são os dois fundamentos da vida espiritual. Para construir um edifício é necessário, primeiramente, limpar o terreno dos obstáculos e, em seguida, lançar as fundações, sobre as quais todo o edifício se apoiará. A humildade remove os obstáculos, remove o orgulho, a presunção, a autossuficiência. Deus se revela aos humildes e resiste aos soberbos, aos orgulhosos. A fé lança as fundações sobre as quais todo o edifício da vida espiritual se ergue. Sem fé, não pode haver esperança. Não pode esperar em Deus quem não acredita nEle. Sem fé, não pode haver caridade. Não pode amar a Deus quem não acredita nEle. Sem fé, não pode haver caridade para com o próximo, pois a caridade para com o próximo se baseia no amor a Deus. Sem fé, não pode haver nenhuma virtude sobrenatural. É indispensável, então, que procuremos ser humildes e que tenhamos uma fé firme e que evitemos os perigos para a nossa fé. Quanto se arriscam, por exemplo, aqueles que leem autores cheios de erros dizendo que levam em consideração somente o que é bom. Mas nem critério têm para saber o que é bom. Certamente cairão, perderão a fé católica, se ainda realmente a tiverem.

Está dito no Evangelho que Nosso Senhor se admirou ao ouvir as palavras do centurião. Claro, Nosso Senhor, que conhece todas as coisas, mesmo os segredos dos corações, já conhecia a fé e a humildade do centurião. A sua admiração, então, não é por surpresa, mas é para que os outros compreendam o valor das palavras do centurião e procurem seguir o exemplo desse militar na humildade e na fé. E esse centurião nem judeu era. Era um pagão que já havia se convertido a Jesus Cristo, pois, bem disposto, compreendeu os seus milagres e aderiu inteiramente aos seus ensinamentos. E Nosso Senhor aproveita a fé desse homem para afirmar a futura conversão de numerosos pagãos à fé católica, enquanto muitos judeus preferirão permanecer cegos, sem reconhecer o Messias, que é Nosso Senhor Jesus Cristo. Finalmente, Nosso Senhor opera o milagre: vai e seja-te feito, conforme creste. E naquela mesma hora ficou curado. Que possamos, antes da comunhão, dizer as palavras do centurião com toda a sinceridade e repitamos essas palavras no nosso cotidiano. Com humildade, com fé. E o Senhor nos ajudará.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

[Sermão] Os bens do matrimônio e os três presentes dos reis magos

Sermão para a Solenidade Externa da Epifania

08.01.2016 – Padre Daniel Pinheiro, IBP

 

Em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Amém.

Ave Maria…

A Festa da Epifania é Festa importantíssima. Na Epifania, pouco depois do nascimento do Salvador, nós vemos esses três reis pagãos, irem até Belém para adorar o Menino Deus. Eles significam a vocação dos pagãos, são as primícias dos pagãos que se converterão a Jesus Cristo. Esses três reis reconheciam o Menino Jesus como rei, como Deus e como homem. Assim, levaram ouro, que é o presente dado aos reis. Ouro que é o metal mais precioso e que não se corrompe. Levaram incenso que é oferecido somente a Deus. Na antiguidade, quando queriam que os cristãos negassem o Deus único e verdadeiro, uno e trino, tentavam fazer que eles oferecessem ao menos um grão de incenso aos deuses pagãos, falsos deuses. Oferecer o incenso é um ato de latria, quer dizer, de adoração, o que se pode fazer somente a Deus. Levaram mirra, que serve para embalsamar o corpo e que tem um gosto amargo. Significa o sofrimento e a morte, quer dizer, significa que Jesus Cristo vai sofrer e morrer, que Ele é homem, portanto. Já temos uma bela confissão de fé feita por esses três reis pagãos e logo no início do Evangelho: Cristo é Rei, Deus e homem. A Epifania era a festa mais expressiva da Realeza de Cristo, antes de ser criada a Festa de Cristo Rei. Na Epifania e nos acontecimentos que a circundam, vemos como todos reconhecem que o Menino que nasceu é Rei. Os magos perguntam a Herodes onde está o rei dos judeus, que nasceu. Herodes não contesta isso. Ao contrário, tanto acredita que vai procurar matar o Menino Jesus depois, com medo de perder o seu reinado terrestre, já que não entendeu que o reinado de Cristo é espiritual em primeiro lugar. E toda a cidade se perturbou junto com Herodes diante de tal pergunta, mas ninguém parece ter negado a realeza de Cristo. Os príncipes dos sacerdotes e os escribas do povo também não questionam. Ao contrário, dizem que ele deve nascer em Belém. Todos afirmam a realeza de Cristo. Os três reis magos vêm para adorar o rei dos judeus. Como dissemos, o ouro significa a realeza de Cristo. Mas os outros dois presentes indicam também a realeza de Cristo, pois mostram a causa dessa realeza: Cristo é rei porque é Deus e Cristo é rei porque adquiriu domínio sobre nós com sua morte na cruz.

Hoje, esse primeiro domingo depois da Epifania (Festa da Epifania que é no dia 6), é dedicado à Sagrada Família. Nós podemos fazer um paralelo entre os dons dos reis magos e os bens do matrimônio. Os reis magos oferecem ouro, incenso, mirra, três bens que receberam de Deus e que oferecem de volta a Deus. No matrimônio, os esposos recebem de Deus três bens: a fidelidade conjugal, a indissolubilidade e os filhos. A fidelidade conjugal é como o ouro, pois permite que a união conjugal persevere intacta ao longo dos anos, das décadas. Como o ouro verdadeiro brilha de modo claro, a fidelidade conjugal faz resplandecer a beleza do matrimônio. A fidelidade é um tesouro preciosíssimo, que deve ser guardado e incrementado com todo o zelo. O ouro serve como base e medida para outras riquezas. Assim, a fidelidade conjugal é muitas vezes a base para a felicidade no lar, pois é ela que gera e favorece a confiança, é ela que permite o desenvolvimento da estima e o aperfeiçoamento do amor conjugal. O ouro para conservar sua beleza e esplendor deve ser puro. A fidelidade conjugal para dar todos os seus frutos deve ser inteira, em tudo, nos pensamentos, nos olhares… Em tudo se deve guardar a mais pura fidelidade no matrimônio. Esse é um bem que os esposos receberam no matrimônio e que devem oferecer a Jesus.

O segundo bem do matrimônio é a indissolubilidade, significada pelo incenso. A indissolubilidade permite que os cônjuges realmente se apoiem um no outro, com a certeza de que não serão abandonados nas dificuldades. E ela permite a devida educação dos filhos, com um pai e uma mãe, cada uma fazendo a parte que lhe cabe na educação da criança e do jovem. A indissolubilidade no matrimônio deve ser reflexo da união indissolúvel entre Cristo e a Igreja. Cristo tem uma só Igreja e isso até o fim do mundo. A marido tem uma só esposa e a esposa um só marido e isso até que a morte os separe. Mas por que razão a indissolubilidade pode ser associada ao incenso? Precisamente porque ela é reflexo da união entre Cristo e a Igreja. A indissolubilidade mais claramente expressa o caráter sobrenatural da união matrimonial e o seu caráter sacramental junto com as graças associadas ao sacramento. O incenso significa a divindade de Cristo. A indissolubilidade lembra que a união estre os esposos é reflexo da união entre Cristo e a Igreja, lembra que se trata de um sacramento, de algo instituído por Deus, e lembra aos esposos o dever de fidelidade à graça e de pedir a Deus as graças necessárias para o matrimônio.

O terceiro bem do matrimônio é a prole, os filhos. A mirra como dissemos, por seu relativo amargor, representa o sofrimento, o sacrifício de Cristo. A obra de gerar e de educar os filhos envolve sofrimento e sacrifícios. Na geração dos filhos, os esposos se associam a Deus criador. Na educação dos filhos, eles se associam a Deus redentor. E a redenção se faz com sacrifício. Todavia, além do amargor, a mirra tem um cheiro agradável e serve para preservar o corpo dos mortos da corrupção. Gerar e educar os filhos exige sacrifícios, mas é também uma grande alegria. Nosso Senhor sofreu e morreu para ressuscitar. Pelos sacrifícios na geração e educação dos filhos, os pais preparam, para os filhos e para si mesmos, a felicidade eterna no céu e a felicidade possível já aqui nesse mundo.

Enumeramos aqui esses três bens do matrimônio sem pretender colocá-los em ordem, mas seguindo a ordem mais comum dos presentes trazidos pelos reis magos: ouro, incenso e mirra. A ordem dos bens do matrimônio é: filhos, fidelidade e indissolubilidade.

Que três bens esplêndidos esses do matrimônio – filhos, fidelidade, indissolubilidade – que Deus deu aos esposos e que os esposos devem oferecer de volta a Deus.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.