[Sermão] Sentido Espiritual das Cerimônias da Missa – Parte 13: O Cânon Romano V – Consagração do Cálice

Sermão para o 23º Domingo depois de Pentecostes

12.11.2017 – Padre Daniel Pinheiro, IBP

 

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Ave Maria…

Hic est enim cálix sanguinis mei.

Voltamos a considerar, caros católicos, as cerimônias da Missa em seu sentido espiritual. Insisto mais uma vez para que se interessem pela liturgia romana, para que a conheçam, a fim de amar esse tesouro inestimável de nossa fé católica. E que transmitam esse conhecimento e esse amor aos filhos. Tudo o que já falamos até aqui está publicado na internet.

Estamos no centro da Missa, no centro de nossa santa religião católica, no centro do mundo. Estamos na consagração, momento em que, pelas palavras do sacerdote, Nosso Senhor Jesus Cristo se faz realmente e substancialmente presente com seu corpo, sangue, alma e divindade. Já tratamos da consagração da hóstia. Passamos, então, à consagração do cálice. Simili modo, “de modo semelhante’ são as primeiras palavras que o padre diz. De modo semelhante, terminada a ceia, tomou este precioso cálice em suas santas e veneráveis mãos. Mais uma vez, como para a consagração da hóstia, se fala das santas e veneráveis mãos de Cristo. Mãos que fizeram tantas obras de santificação, mãos que foram pregadas na cruz para a nossa salvação. Mão dignas de toda a nossa devoção e veneração. Infelizmente, essa menção foi tirada de todas as orações eucarísticas no Rito de Paulo VI, permanecendo somente na oração eucarística I. São palavras que favorecem o respeito e a reverência ao sacramento. Ao dizer essas palavras, o padre pega o cálice com vinho em suas mãos e o eleva um pouco, colocando-o novamente sobre o corporal. Ao fazer menção à ação de graças, inclina novamente a cabeça e, ao mencionar a bênção, faz o sinal da cruz sobre o cálice. Tudo isso tem o mesmo sentido de quando é feito sobre o pão. Menciona ainda as palavras do Senhor: “tomai todos e bebei.”

Chega, então, às palavras da consagração propriamente dita: “este é, com efeito, o cálice do meu sangue, o sangue da nova e eterna aliança – mistério da fé – que será derramado por vós e por muitos em remissão dos pecados”. É por essas palavras que a substância do vinho será transformada na substância do sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo. Aqui, como para a consagração do pão, o padre realiza o que está dizendo, não se trata de uma mera narração, lembrança ou comemoração. O sangue do Senhor se torna realmente presente. É o sangue da nova e eterna aliança. A palavra “eterna” não se encontra nas Sagradas Escrituras, tendo-nos sido transmitida pelo ensinamento oral de Cristo e dos apóstolos, ou seja, pela Tradição. O fato de não ser uma repetição palavra por palavra da Sagrada Escritura torna mais claro o fato de que não se trata de uma narração, mas da renovação do sacrifício de Cristo. É o sangue da nova e eterna aliança. De fato, a aliança estabelecida pelo sacrifício, pelo sangue de Cristo não passará como passou a aliança feita com os judeus. O Novo Testamento e o sacrifício de Cristo não serão substituídos por outro, pois já estamos também no máximo possível de perfeição.

O padre diz em seguida: mysterium fidei, mistério da fé. No rito romano tradicional, essas palavras são ditas ainda durante a fórmula da consagração. Enquanto o sacerdote realiza esse grande milagre, ele confessa que se trata de um mistério, reconhecendo a grandeza da bondade de Cristo, reconhecendo a grandeza do que está ocorrendo. Essas palavras são uma confissão de fé profunda e instantânea no que está ocorrendo e na presença real de Cristo sob as aparências de pão e de vinho. Essas palavras inseridas nesse momento são também da Tradição. Mais uma vez, não se repetem aqui simplesmente as fórmulas presentes na Bíblia, para deixar claro que não se trata de uma narração. Tirar o mysterium fidei das palavras da consagração atenua a confissão de fé na presença real de Cristo nas espécies consagradas.

O padre continua, referindo-se ao sangue de Cristo, dizendo que ele será derramado por vós e por muitos em remissão dos pecados. Será derramado por vós, isto é, pelos presentes, e por muitos, conforme o latim, pro multis, conforme também os originais gregos da Sagrada Escritura e conforme as palavras mesmas de Cristo. Infelizmente, no rito novo traduziram o “por muitos” como “por todos” em português. É uma tradução errada, contrária a todos os textos da Sagrada Escritura e à Tradição. Ora, esse derramado “por todos” em vez de “por muitos”, sobretudo nas circunstâncias atuais, em que as pessoas perderam a noção de pecado e acham que já estão salvas independentemente do que fizerem, é no mais das vezes interpretado como a confirmação de que todos se salvam, é interpretado como a afirmação da salvação universal. “Derramado por todos” pode ser bem interpretado, se entendemos que o Sangue de Cristo foi suficiente e mais do que suficiente para obter para todos as graças para se salvarem, mas não no sentido de que todos se salvarão, pois é preciso ser fiel à graça e cooperar com ela para se salvar. Assim, a tradução errônea é aberta a más interpretações, mas não é herética e não impede que a consagração ocorra, mas pode induzir a um erro sério. É altamente conveniente que seja corrigida, como, inclusive, já pediu a Santa Sé há alguns anos. O original “derramado por muitos” indica que muitos efetivamente aproveitarão o sangue de Cristo para se converterem, para obterem o perdão dos pecados, para se salvarem, mas nem todos aproveitarão o sangue de Cristo derramado por nós, infelizmente. Podemos fazer para a consagração do vinho as mesmas observações tipográficas que fizemos para a consagração do pão. Depois das palavras “tomai todos e bebei” vem um ponto final. Há um parágrafo e, em letras maiúsculas, vêm as palavras da consagração. Não temos, portanto, dois pontos, que designam uma narrativa. As palavras da consagração, ou seja, as palavras “este é o cálice do meu sangue etc.” estão separadas do resto. (O missal de fiéis de Dom Gaspar já apresenta uma tipografia narrativa, como preparação para as mudanças que viriam depois.)  O que está sendo dito nas palavras da consagração se realiza efetivamente pela obra de Cristo, sacerdote principal na Missa, como já dissemos.

O padre faz a genuflexão imediatamente depois da consagração e antes da elevação para significar que Cristo está todo inteiro presente no cálice consagrado, independentemente da consideração dos fiéis. Faz a genuflexão também depois da elevação, depois que os fiéis adoraram o sangue de Cristo. No rito novo sobrou apenas a genuflexão após a elevação.

Pela força das palavras do sacerdote, o sangue de Cristo se faz presente sobre o altar. Como o sangue de Cristo está unido ao seu corpo, à sua alma e à sua divindade, Cristo todo inteiro se faz realmente e substancialmente presente no altar.

Após a consagração o padre diz: toda vez que fizerdes isso, fazei-o em memória de mim. Ele lembra aqui o mandamento de Nosso Senhor que institui ao mesmo tempo a eucaristia, a Missa e o sacerdócio. Toda vez que o padre fizer o que Cristo fez na última ceia, vai fazê-lo para lembrar Cristo. O que fez Cristo? Transformou o pão no seu corpo, o vinho no seu sangue, celebrou a primeira Missa como sacerdote. É isso que o padre faz por ordem de Cristo na Missa. Não é um memorial somente. Ele faz exatamente o que Cristo fez: transforma o pão no Corpo de Cristo, o vinho no seu Sangue e celebra a Missa.

Terminada a consagração do cálice, o sacrifício do calvário está renovado. A separação das espécies significa mística e sacramentalmente a morte de Cristo. Se houvesse a consagração apenas do corpo ou do sangue de Cristo, não haveria sacrifício. Com a consagração das duas espécies, a essência da Missa está realizada, o sacrifício é renovado. No momento da consagração, Cristo oferece novamente seu Corpo e seu Sangue à Santíssima Trindade. Na consagração, ocorre o maior mistério de nossa fé, como o padre diz nas palavras da consagração. O Verbo encarnado se oferece pela nossa salvação. Pela salvação nossa, pobres homens pecadores. Mistério tremendo do amor de Deus. Mistério tremendo do amor de Deus é a Santa Missa. Como dissemos na homilia passada sobre o assunto, a Missa é o mesmo sacrifício da cruz, mudando apenas o modo em que é oferecido. Na cruz, foi sangrento. No altar é incruento, sem sangue, sem sofrimento.

A consagração é a parte mais importante da Missa, caros católicos. Nela, Nosso Senhor se faz presente e renova o seu sacrifício. Muitos pensam que a parte mais importante da Missa é a comunhão e chegam a dizer que se não é para comungar não vale a pena ir à Missa. Chegam a dizer que se a pessoa está em pecado mortal, não tem sentido ir à Missa porque não pode comungar. Isso é um erro. A parte mais importante da Missa é a consagração. Aquele que está em pecado mortal encontrará graças abundantes para o seu arrependimento e conversão vindo à Missa, ainda que não comungue. É pela Missa que nos vêm todas as graças, pois ela é o ato central da verdadeira religião. É pelo seu sacrifício renovado sobre os altares que Cristo nos aplica as graças que alcançou na cruz. Da Missa, depende todo o resto.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

[Aviso] Peregrinação a Trindade da Capela Nossa Senhora das Dores

Prezados, Salve Maria!
1. A compra do pacote de transporte para a peregrinação a Trindade começará nesse próximo domingo, 12/11.
2. Ela vai ocorrer somente nos domingos 12/11, 26/11 e 10/12.
3. Ela será somente após a Missa das 10:00, sem exceção. É a própria empresa que receberá os pagamentos.
4. O horário de saída e de retorno ainda será definido em função da melhor logística.
5. Precisamos de 50 pessoas por ônibus.
6. O ônibus é parte importante da peregrinação, com as cantorias e orações. É o mais recomendável e proveitoso.
7. É possível ir de carro e nos encontrar no ponto de início da caminhada.
8. A caminhada terá entre 18 e 20 km. É para os fortes! Coragem! Havendo muitas crianças, podemos organizar trajeto mais curto para elas.
9. Ver valores no banner acima.

[Sermão] O número dos que se salvam

Sermão para a Solenidade Externa da Festa de Todos os Santos

05.11.2017 – Padre Daniel Pinheiro, IBP

 

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Ave Maria…

Depois disso, olhei e vi uma multidão grande que ninguém podia contar, de toda nação, tribo, povo e língua

Poderíamos, caros católicos, considerando nesse dia de hoje todos os santos no céu, considerando a glória da Igreja triunfante, nos perguntar como aquele judeu perguntou ao Salvador: “Senhor, são poucos os que se salvam ?” E o Senhor respondeu: “Esforçai-vos por entrar pela porta estreita porque vos digo que muitos procurarão entrar, e não conseguirão.” Nosso Senhor fala que é preciso esforçar-se, que é preciso entrar pela porta estreita, que o caminho é difícil, mas não responde propriamente quanto ao número de eleitos. Mesmo em outras passagens, quando o Senhor diz que muitos são os chamados e poucos os escolhidos, Ele não se refere exatamente ao número de eleitos, mas fala da maior parte dos judeus, que não quis entrar no reino de Deus, isto é, na Igreja de Cristo, a Igreja Católica.

Nosso Senhor, no lugar de responder, mostra o caminho, mostra que é preciso esforçar-se, que é preciso renunciar a si mesmo, ao pecado, ao demônio, ao mundo. Nosso Senhor não quis responder para evitar que as almas se perdessem. Se Nosso Senhor respondesse que são poucos os que se salvam, muitos seriam levados ao desespero. Se Nosso Senhor falasse que é grande o número dos que se salvam, muitos seriam levados à presunção, quer dizer, seriam levados a pensar que poderiam se salvar de qualquer jeito, sem muito esforço. Nosso Senhor não responde.

Dentro desse tema, não devemos acreditar que praticamente todo mundo se salva nem que praticamente todo mundo se condena. Nós podemos, todavia, com base na Revelação e na razão, ter um otimismo moderado. Ora, mesmo a lição do livro do Apocalipse, que lemos hoje, fala de uma multidão incalculável de santos. A própria repetição do texto dá a idéia de uma grande multidão. E nós, ao comemorar todos os santos, nos lembramos também da quantidade imensa deles, de quantos nos são completamente desconhecidos e de quantos eram como nós, no mesmo estado de vida, com os mesmos problemas.

Nós temos motivos para um otimismo moderado quanto ao número dos que se salvam. Temos motivo para esse otimismo por causa da misericórdia de Deus, em virtude da sua justiça, que pune apenas os que merecem. Podemos ter um otimismo moderado porque a redenção de Cristo é superabundante. Podemos ter grande esperança porque temos a intercessão de Nosso Senhora, Mãe de Deus e nossa, advogada nossa, refúgio dos pecadores. Portanto, o número dos que se salvam não é um número ínfimo. Devemos evitar essa posição rigorista, mas, ao mesmo tempo, devemos evitar a posição de que todos se salvam, ou a posição de que o caminho para a salvação é fácil. E o dogma de que fora da Igreja católica não há salvação continua sempre válido evidentemente. Apenas se salva quem está na Igreja Católica de fato (reapse) ou por desejo.

São Tomás, ao tratar do assunto, escreve que é melhor dizer que somente de Deus é conhecido o número dos eleitos que serão colocados na felicidade suprema. Nosso Senhor não responde e São Tomás também não responde abertamente à questão. Quem seríamos nós para fazê-lo?

O que deve nos interessar, caros católicos, não é tanto a quantidade de pessoas que se salvam. Pode ser que a maioria dos homens se salve, mas isso não significa que eu esteja entre eles. Pode ser que poucos se salvem, mas que eu esteja entre eles. O que deve nos interessar, então, não é o número dos que se salvam, mas que estejamos entre os que se salvam. E isso é plenamente possível porque Deus quer nos tirar de nossa miséria, Deus nos dá os meios abundantes para vivermos em sua graça e para perseverarmos nela. Temos a Missa, temos os sacramentos, temos os sacramentais, temos o Terço, temos tantas outras orações. Temos a intercessão de Nossa Senhora e dos outros santos. Temos a comunhão dos santos, pela qual podemos e devemos rezar uns pelos outros.

A salvação nos é possível, caros católicos. E não apenas a salvação, mas a santidade, o grande avanço nas virtudes. O caminho é que renunciemos a nós mesmos, tomemos a nossa cruz e sigamos a Jesus.

Renunciar a nós mesmos é renunciar à nossa vontade própria cada vez que a nossa vontade se opõe à vontade divina. É também renunciar ao pecado mortal. E lutar seriamente também contra o pecado venial, isto é, contra o pecado leve. É também renunciar ao demônio com as suas tentações. É renunciar ao mundo, pisoteando o respeito humano, fugindo das ocasiões de pecados, em particular das diversões mundanas. Devemos afastar para longe de nós o espírito mundano, amaldiçoado por Cristo.

Devemos nos apoiar na graça de Deus mais do que em nós mesmos e devemos nos conformar com a vontade de Deus em tudo. Nesse caminho de esperança em direção ao céu, não podemos desanimar. Grande armadilha do demônio é o desânimo e a tristeza. Nós vemos mesmo muitos católicos atingidos profundamente pelo desânimo e pela tristeza. Isso se vê na expressão do rosto, se vê no modo de falar e de agir. Quantos, compreendendo mal o caminho da salvação, desanimam porque não avançam tão rápido quanto idealizaram ou desistem de tudo porque caíram? Querendo avançar muito rápido, tropeçam. Querendo ficar de pé apenas com as próprias forças, caem. E têm dificuldade para levantar. Porque não se apoiam em Deus ou porque não têm paciência consigo mesmo. Claro, é preciso lutar, levantar-se o quanto antes com o propósito de não mais cair, mas com humildade e apoiados em Deus. Esforçar-se de modo sereno, suavemente e fortemente. Esse é o caminho dos santos. Força e suavidade. Sem angústia, sem ter a alma dilacerada na busca pela santidade e pela salvação. Força e suavidade.

O reino dos céus é dos violentos, nos diz Nosso Senhor, isto é, daqueles que o arrebatam pela força, pela força da fé, da caridade, da conformidade com a vontade de Deus, pela força da luta contra a carne, contra o demônio e contra o mundo. Mas o reino dos céus é também dos mansos e dos humildes. É preciso ser violento, manso e humilde, ou seja, suave e forte. É preciso compreender que não há contradição em ser violento, manso e humilde, quando falamos do combate espiritual.

Caros católicos, façamos a nossa parte para estar no número dos que se salvam. Não nos interessa o número dos que se salvam, mas estar entre eles. É perfeitamente possível, com suavidade e força. Deus nos dá graças abundantes para isso. Deus é bom! Confiança nEle!

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

[Sermão] Cristo Rei e o liberalismo

Sermão para a Festa de Cristo Rei

29.10.2017 – Padre Daniel Pinheiro

 

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Ave Maria…

 

A Festa de Cristo Rei foi instituída por Pio XI em 1925 para afirmar a realeza de Nosso Senhor Jesus Cristo não só sobre os indivíduos, mas também sobre as sociedades, sobre todas as sociedades, da família ao Estado, da menor sociedade à maior. Por essa época, praticamente a maioria das nações cristãs já haviam se separado da Igreja, muitas realmente apostatado, em movimento que trouxe enorme prejuízo para as pessoas membros dessas nações e para os próprios estados.

Nosso Senhor é Rei porque Ele é Deus verdadeiro. Mas Ele é Rei também enquanto homem, em virtude da união de sua natureza humana à natureza divina na pessoa do Verbo. Nosso Senhor Jesus Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro Homem e sua pessoa é divina. Ele é Rei enquanto homem também por direito de aquisição. Adquiriu a realeza sobre nós pelo seu sangue derramado para a nossa redenção. Essa realeza é sobre os indivíduos e todas as suas faculdades: realeza sobre a inteligência, sobre a vontade, sobre os sentimentos, sobre os sentidos. Essa realeza é sobre todas as ações nossas. Devemos nos submeter inteiramente a Cristo, nosso Rei.

Todavia, Nosso Senhor é Rei também das sociedades. A sociedade também é uma criatura de Deus, já que Deus criou o homem como animal social, ou seja, Deus criou o homem como um ser que precisa de outros para sua perfeição, para viver de modo conveniente. Isso começa pela família, onde todos nascemos. E se conclui com a sociedade civil, com o estado. Nem mesmo a família sozinha basta para a perfeição do homem. É necessária a convivência entre famílias, formando a sociedade civil. Portanto: em suas leis, em seu governo, na educação, em todos os aspectos, a sociedade civil, o estado, e qualquer outra sociedade devem reconhecer a realeza de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Todavia, as nações se revoltaram contra Deus, dizendo: não queremos que Jesus Cristo reine sobre nós. Essa revolta, filha autêntica do demônio com o seu non serviam (não servirei), é própria do liberalismo. A sua origem se encontra na decadência filosófica, teológica e política de fins da idade média, quando se foi abandonando a boa filosofia e a teologia de São Tomás. Podemos, porém, apontar um marco decisivo no avanço do liberalismo: Lutero e a revolta protestante. Lutero nega a autoridade da Igreja e coloca cada indivíduo como autoridade para interpretar a Sagrada Escritura. É o chamado livre exame. Cada um pode, com inspiração particular, interpretar a Bíblia sozinho. É curioso como essa inspiração, teoricamente vinda de Deus, é tão contraditória. Um indivíduo interpreta de um jeito. Outra pessoa interpreta de outro. As duas viriam de Deus. Deus pode se contradizer? Afirmar isso seria uma blasfêmia. O fato é que ao negar a autoridade da Igreja e ao afirmar a independência total do indivíduo em ponto tão fundamental, Lutero coloca as bases mais claras para o liberalismo.

O liberalismo afirma a independência da vontade com relação ao bem, como se cada um pudesse escolher, sem distinção, entre o bem e o mal. Ele afirma a independência do sentimento com relação à inteligência e a vontade, como se todo sentimento devesse ser seguido cegamente, independentemente de qualquer outra coisa. O liberalismo afirma a independência do corpo em relação à alma, como se fôssemos puramente animais. Afirma a independência do indivíduo com relação à sociedade, como se não houvesse hierarquia alguma na família, entre marido e esposa, entre pais e filhos; como se não houvesse hierarquia na Igreja, entre o clero e os fiéis. O liberalismo afirma a independência dos homens com relação a Deus, como se Ele não existisse ou como se Deus existisse simplesmente para satisfazer os anseios dos homens, a fim de que eles se sintam bem. Ele afirma a independência do Estado com relação a Deus e à Igreja, como se não houvesse uma religião verdadeira, como se fossem todas boas. Nessa falsa concepção, também a economia se torna independente de toda lei moral. Essa é a concepção atual de liberdade, radicalmente oposta à liberdade verdadeira, que nos foi dada por Deus. Essa é a concepção liberal de liberdade, conhecida como liberalismo. Essa concepção tão gravemente errada de liberdade e que vai tão profundamente contra a natureza das coisas é uma liberdade que escraviza, que escraviza o homem à sua vontade própria, ao pecado. É uma liberdade que conduz à perdição. A verdadeira liberdade é uma liberdade para nos movermos no bem.

Inspirando-nos em Monsenhor Gaume, prelado francês do século XIX podemos dizer: “Se arrancando sua máscara, perguntamos ao liberalismo: quem és tu? Ele dirá: eu não sou o que pensam. Muitos falam de mim e poucos me conhecem. Não sou a maçonaria, nem motim, … nem troca de monarquia por república, nem substituição de uma monarquia por outra, nem a perturbação momentânea da ordem pública. Não sou nem os latidos dos comunistas, nem os furores dos direitistas, nem a guerrilha nem a pilhagem, nem o incêndio, nem a reforma agrária, nem o socialismo, nem a social democracia, nem o centro, nem a guilhotina, nem as execuções. Essas coisas são minhas obras e minhas filhas, mas não eu. Essas coisas são passageiras mas eu sou um estado permanente. Sou o ódio por toda ordem que não tenha sido estabelecida pelo homem e na qual ele não seja ao mesmo tempo rei e deus. Sou a proclamação dos direitos do homem sem respeito aos direitos de Deus. Sou a fundação do estado religioso e social na vontade do homem em lugar da vontade de Deus. Sou Deus destronado e o homem em seu lugar. Eis porque me chamo Revolução, ou seja, subversão, liberalismo.”

Não adianta combater meramente as filhas e as obras do liberalismo. É preciso combater seus princípios. Ainda menos adianta combater as obras do liberalismo com outras obras do liberalismo, alimentando e reforçando o liberalismo enquanto se tem a ilusão de combatê-lo (o comunismo com o liberalismo em geral ou o liberalismo econômico em particular; a democracia moderna com uma monarquia que é no fundo liberal e maçônica). É preciso combater com os bons princípios da lei natural, com os bons princípios da religião católica. É preciso proclamar a realeza de Cristo em nossa alma e viver essa realeza. É preciso buscar, com os meios que nos são possíveis, que Cristo reine na sociedade, começando por nós e pelas nossas famílias.

Boa é a data da Festa de Cristo rei porque afirma o reinado de Cristo já aqui nesse mundo sobre os indivíduos e sobre as sociedades. Ela não é relegada ao último domingo do ano litúrgico, que trata do fim do mundo, como se o reino de Cristo viesse apenas no fim do mundo.  Boa porque afirma a realeza de Cristo no céu e no purgatório pela proximidade com a Festa de Todos os Santos e com o Dia de Finados. Boa porque é próxima da data que marca o início da revolta de Lutero: a fixação das 95 teses na porta da Igreja de Wittenberg ocorreu em 31 de outubro de 1517 (alguns historiadores chegam a contestar que isso realmente tenha acontecido). Os protestantes a comemoram no último domingo de outubro. A festa de Cristo Rei, sendo no último domingo de outubro, é o antídoto ao liberalismo protestante, que destruiu as pessoas e a sociedade. A realeza de Nosso Senhor Jesus Cristo é o remédio para os males de nossa época. Viva Cristo Rei.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

[Aviso] Missas e confissões no Dia de Finados, Festa dos Santos e outros

Lembretes:
1. Amanhã, 02/11, Comemoração de todos os fiéis defuntos: Missa Solene às 10:00. Missas rezadas às 8:00 e às 19:00.
2. Confissões. Não haverá confissão durante a Missas das 10:00. Haverá:
a) de 7h30 às 10h00.
b) a partir de 18h30.
3. Os convites para a Festa dos Santos ainda serão vendidos amanhã após as Missas.
4. Mais informações (com algumas mudanças) sobre a peregrinação a Trindade serão dadas após a Festa dos Santos.

[Aviso] Indulgência plenária para os fiéis defuntos

* ALERTA DE INDULGÊNCIA PLENÁRIA *

Uma indulgência plenária, aplicável somente às almas do purgatório, é concedida ao fiel que:

1) entre os dias 1º e 8 de novembro visita devotamente um cemitério e reza pelos defuntos, ainda que só mentalmente;

2) no dia 2 de novembro visita piedosamente uma Igreja ou um oratório e recita um Pater e um Credo.

É preciso cumprir as outras condições para ganhar indulgência plenária: desapego de todo pecado, mesmo venial, confissão sacramental, comunhão eucarística e oração nas intenções do Sumo Pontífice (essa oração pode ser um Pater e uma Ave Maria ou outra).

Lembrete: com uma só confissão sacramental pode-se lucrar várias indulgências plenárias, mas cada indulgência plenária requer uma comunhão e uma oração pelo Santo Padre. A indulgência plenária nesses dias deve ser aplicada a uma alma do purgatório determinada, ainda que seja dizendo “aquela que mais precisa de vossa misericórdia”.

São duas indulgências distintas. A do número 2 vale apenas para o dia de finados, 02/11.
A do número 1 vale para todos os dias entre 1º e 8/11. Em cada dia se pode lucrar uma indulgência plenária. Para lucrar a indulgência em um desses dias ou em todos (previstos no n. 1) tem que visitar o cemitério no dia, rezar pelos fiéis defuntos, rezar também nas intenções do papa, comungar e estar desapegado mesmo dos pecados veniais. Mas não é necessário confessar em cada um desses dias. Basta confessar em um dia próximo.