[Sermão] O sacerdote e Maria

Sermão para a Solenidade Externa da Assunção

21.08.2016 – Padre Daniel Pinheiro, IBP

 

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Ave Maria…

 

Caros católicos, nós festejamos hoje a Assunção de Nossa Senhora, quer dizer, o fato de que Maria Santíssima, em corpo e alma, subiu aos céus. A Assunção de Maria Santíssima foi motivo de imensa alegria no céu, pois anjos e santos receberam a sua Rainha. Uma grande alegria para nós que estamos nesse mundo, por ver a santidade de tão boa Mãe recompensada inteiramente e por ganharmos tal advogada no céu. A Mãe de Deus, tendo vivido tão perfeitamente nesse mundo, tão unida ao seu Filho e à Santíssima Trindade, crescendo sempre no amor a Deus, recebe, assim, o prêmio da bem-aventurança eterna.

Aproveitemos a ocasião dessa primeira Missa do Padre, para rapidamente tratar da relação do sacerdote para com a sua Mãe, Maria Santíssima. Antes de tudo, o sacerdote é filho de Maria. Maria é a Mãe do Sumo e Eterno Sacerdote, Nosso Senhor Jesus Cristo. O ofício próprio do sacerdote é ser mediador entre Deus e os homens, dando aos homens as coisas divinas e oferecendo a Deus as preces dos homens, oferecendo o sacrifício e satisfazendo pelos pecados. Ora, Nosso Senhor Jesus Cristo, sendo verdadeiro Deus e verdadeiro homem, transmitiu aos homens a doutrina sagrada e as graças de Deus, e ofereceu-Lhe a satisfação perfeita pelo pecado com a sua paixão e morte. Jesus Cristo é o sumo e perfeito Sacerdote. Maria é Mãe de Jesus Cristo Sumo Sacerdote. Ora, o sacerdócio que recebem os padres católicos nada mais é do que uma participação no sacerdócio de Cristo. Dessa forma, o sacerdote tem Maria como mãe de seu sacerdócio.

Podemos nos perguntar, todavia, onde ocorreu a ordenação sacerdotal de Nosso Senhor? Onde e em que momento? A unção sacerdotal dEle deu-se no exato momento de sua Encarnação no ventre de Maria. Nosso Senhor Jesus Cristo é o Sumo Sacerdote pelo fato mesmo de ser verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Foi, então, no ventre de Nossa Senhora que Jesus foi, se assim podemos dizer, ordenado, feito sacerdote. Os padres recebem o sacerdócio das mãos do Bispo, mas devem se deixar formar por Maria, Mãe do Sacerdócio católico.

Assim, como a criança pequena necessita usualmente da ajuda da mãe em sua educação e formação, o padre precisa do auxílio de Maria Santíssima não somente na sua formação como seminarista, não somente no início de seu ministério sacerdotal, mas durante toda a sua vida. O Padre precisa de Maria como sua mãe espiritual, para dirigi-lo, como estrela do mar, a Nosso Senhor Jesus Cristo.

O Padre precisa de Maria como sua mãe espiritual também para protegê-lo de tantas ciladas que podem se apresentar na vida sacerdotal. A primeira dessas ciladas é contra a fé: sucumbir à tentação de agradar aos homens, agradar à mentalidade da época colocando em perigo a doutrina católica. Outra cilada é o ativismo: entregar-se a atividades sem fim, esquecendo-se da própria vida de oração, da própria vida de união com Deus, esquecendo-se de que o verdadeiro fruto do ministério sacerdotal depende da vida de união do padre com Deus, sendo essa a alma de todo apostolado. Outra cilada, muitas vezes ligada ao ativismo, é colocar o êxito do ministério sacerdotal na quantidade, fazendo de tudo para alcançar quantidade, muitas vezes cedendo, para tanto, na doutrina, na moral, na liturgia. Não é a quantidade o êxito do ministério sacerdotal. O êxito do ministério sacerdotal é a glória de Deus e a santificação das almas, que se pode fazer somente com a fidelidade plena à doutrina católica em todos os seus aspectos. Os frutos de seu ministério, o padre deve entregar a Nosso Senhor Jesus Cristo pelas mãos de Nossa Senhora. Se o padre é fiel, Deus fará frutificar o seu ministério em tempo oportuno. Ainda uma outra cilada é a falta de zelo apostólico. O Padre deve lembrar-se sempre de que foi ordenado sacerdote para levar as almas a Deus. Ele procura manter a maior união com Deus para isso também: para levar as almas mais facilmente ao Senhor. Outra armadilha: o orgulho. Quando parecer ter êxito em seu ministério, o sacerdote deve se lembrar do exemplo perfeitíssimo de Maria: reconhecer que é Deus a causa primeira de todo bem e humilhar-se, como pobre criatura. Assim fez Nossa Senhora na Encarnação, considerando-se mera escrava de Deus, no momento em que se tornava Mãe dEle. Assim fez Maria no Magnificat afirmando a sua humildade. Em todas essas ciladas e tantas outras que podem existir no ministério sacerdotal, Maria, como boa Mãe, ajuda o Padre, se ele tem por ela devoção.

O Padre verdadeiramente devoto de Nossa Senhora procura agradar a tão boa Mãe. Antes de tudo, vai agradá-la não ofendendo seu Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo. Em segundo lugar, agrada a Maria tornando-se realmente uma cópia, um retrato, como diz São José Cafasso, de Jesus Cristo, Sumo Sacerdote. Claro, a devoção a Maria pode ter apenas uma finalidade: nos fazer semelhantes a Cristo. O único objetivo de Nossa Senhora, como criatura que é, embora a mais perfeita, é a glória de Deus, é a conversão das almas a Deus.

O Padre deve ter uma devoção profunda a Nossa Senhora, devoção que o leve à imitação de suas virtudes, para melhor imitar Nosso Senhor Jesus Cristo. Mantendo essa sólida devoção a Maria, o apdre vai se preservar das ciladas, vai avançar nas virtudes, ganhará almas para Deus, despreocupado do resto. É isso que deve interessar ao sacerdote: a glória de Deus pela salvação das almas. Como dizia Dom Bosco, repetindo São Francisco de Sales, da mihi animas et coetera tolle: dai-me as almas e tirai o resto.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

[Aviso] Missas também pela manhã nessa semana (22/08 a 26/08)

Prezados, Salve Maria!

Transmitimos a informação de que haverá, nessa semana, Missa às 06h30 da manhã (além da Missa no horário habitual das 19h30) na segunda-feira, na quarta-feira e na quinta-feira:

22/08, segunda-feira: Imaculado Coração de Maria

24/08, quarta-feira: São Bartolomeu, Apóstolo

26/08, sexta-feira: Féria, comemoração de São Zeferino, Papa e Mártir.

[Download] Republicação do Calendário Trimestral de Atividades

Salve Maria!

A pedido do Padre Daniel Pinheiro, republicamos neste post o calendário trimestral de atividades da Capela Nossa Senhora das Dores (o calendário “Vida Espiritual e Doutrina Católicas”, referente aos meses de julho a setembro), que foi revisto e aumentado.

Destacamos as seguintes alterações:

  1. Início do Curso de Introdução à Sagrada Escritura no último sábado de agosto.
  2. Início da Sociedade da Alegria de Dom Bosco Minor para meninos entre 4 e 6 anos.
  3. Mudança da data do Terço das Mães de Família em setembro para o dia 1º de setembro.

Segue o arquivo para download (também sempre disponível na barra lateral do blog):

Calendário 3º Trimestre/2016

[Sermão] Gratidão a Deus – Lições de um curto Evangelho

Sermão para o 13º Domingo depois de Pentecostes

14.08.2016 – Padre Daniel Pinheiro, IBP

Em nome do Pai, e Do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Ave Maria…

“Um deles, ao ver-se curado, voltou, glorificando a Deus em alta voz.”

Eram dez leprosos, nove judeus e um samaritano, que vieram ao encontro de NSJC. Pararam a certa distância como prescrevia a lei mosaica (Lev. 13, 45-46). Prescrevia a lei essa distância para evitar o contágio de outras pessoas com a lepra. A lepra, significa espiritualmente, a alma em estado de pecado mortal. Se a lepra vai destruindo a carne, o pecado mata a alma e a devora, tirando-lhe as forças. O pecador fica, assim, distante de Deus, porque se afastou do Senhor pelo seu pecado.

Erguem, então, a voz. Erguem a voz porque estão à certa distância, prescrita pela lei, mas erguem a voz para mostrar também a grave necessidade em que se encontram. E erguem a voz unidos para mais facilmente mover a bondade e a compaixão de Jesus. É uma oração pública, pois Deus quer que rezemos não só individualmente, o que é essencial, mas também publicamente. Devemos rezar também em sociedade porque Deus é o criador não só dos indivíduos, mas também da sociedade, ao criar o homem como animal social, isto é, como um ser que precisa de seus semelhantes para poder viver adequadamente. Clamam: “Jesus, Mestre, tende compaixão de nós.” Clamam Jesus, porque é Ele a salvação deles, o nome Jesus significa Salvador, lembremos. Pedem ao Senhor misericórdia, para que Ele os tire da miséria dessa doença e desse sofrimento. Ao pedir misericórdia, reconhecem o poder de Cristo, homem e Deus. Chamam-no Mestre, pois Nosso Senhor veio nos salvar pelo seu sacrifício e pela sua doutrina, pelos seus ensinamentos. Erro comum hoje afirmar que Nosso Senhor nada veio afirmar, mas apenas começar um vago sentimento ou movimento religioso. Erro comum mesmo entre alguns que se denominam conservadores. Nosso Senhor Jesus Cristo veio ensinar uma doutrina clara.

Nosso Senhor responde: “Ide mostrar-vos aos sacerdotes.” Os leprosos, quando ficavam curados, deviam apresentar-se ao sacerdote para que esse declarasse a pureza deles. Nosso Senhor, ao dizer aos dez leprosos para que se mostrem aos sacerdotes, afirma que vai curá-los antes que cheguem lá. E eles foram prontamente, acreditando, então, que Nosso Senhor Jesus Cristo iria curá-los. Demonstraram uma fé sincera e uma pronta obediência, além de grande confiança no Mestre.

Ainda no caminho, ficaram curados. Os dez ficaram curados. Apenas um voltou. E foi justamente o samaritano. Voltou glorificando a Deus em alta voz e prostrou-se aos pés de Nosso Senhor, que aproveita a ocasião para manifestar a ingratidão dos outros nove que haviam sido curados. Ubi sunt? Onde estão os outros nove? Esse que voltou, ao agradecer a Deus, ao se prostrar diante de Nosso Senhor, ficou curado não somente de sua lepra, mas teve a sua alma curada: “levanta-te e vai, a tua fé te salvou.” Era esse o objetivo de Jesus Cristo ao curar os dez: que pudessem ter a alma purificada, que se convertessem a Deus. São inúmeras as lições dessa parte final do Evangelho. Vemos que a cura lhes foi dada para que se convertessem a Deus, assim como tudo o que Deus nos dá é para que melhor o sirvamos. Devemos usar tudo o que temos unicamente para melhor servir a Deus. O fato da cura dos leprosos e a volta do único estrangeiro, do único que não era judeu, mostra a difusão e aceitação do cristianismo entre os pagãos, enquanto a maior parte dos judeus recusou Nosso Senhor. Vemos que o samaritano volta glorificando a Deus em alta voz. Com alta voz tinha clamado pela cura. Com alta voz agradece. É preciso ter o mesmo fervor para pedir favores a Deus e para agradecer por tudo o que nos deu e dá. Quantas vezes existe grande fervor ao pedir, mas pequeno fervor ao agradecer a Deus.

A grande lição do Evangelho de hoje é a gratidão que devemos ter para com Deus. Devemos ser reconhecidos a Deus pelos inúmeros benefícios que nos dá. Muitas vezes, quando tudo vai bem, esquecemos de agradecer a Deus ou agradecemos muito pouco. Quando as coisas vão mal, esquecemos que também as cruzes vêm das mãos de Deus, esquecemos que também elas são graças, e esquecemos de tudo o que Deus já nos fez. E no lugar de glorificar a Deus, murmuramos. Quantas graças Deus nos dá e ficamos indiferentes, apenas nos lembrando de pedir mais graças, esquecidos de agradecer a Deus. Quantas graças de boa inspiração, de arrependimento. Quantos benefícios na ordem temporal e espiritual. Quantas vezes nos livrando de perigos e ciladas de todos os tipos, dando provas sem fim de sua bondade sem medida. Mas, em geral, somos dos nove que não voltaram. Onde estão as nossas ações de graças dirigidas a Deus por tudo que nos deu? Não está dito dos nove que a fé deles os salvou, apenas daquele que voltou agradecido. Devemos agradecer e glorificar a Deus, como fez o samaritano. Glorificar a Deus não tanto com as palavras quanto com as obras. Nossa gratidão a Deus deve ser mais efetiva do que afetiva. Nossa gratidão não pode ser um mero sentimento. A gratidão que deve encher a nossa alma – gratidão sobretudo pela misericórdia que até esse momento Deus tem exercido para conosco – deve ser uma gratidão manifestada também com as obras, observando e guardando as suas palavras e os seus mandamentos. Gratidão efetiva a Deus em nossas orações e em nossos obras. Gratidão a Deus com toda a nossa vida.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

[Aviso] Missa Solene e Confraternização – Despedida do Padre Tomás

Prezados, Salve Maria!

A pedido do Padre Daniel Pinheiro, IBP, transmitimos os seguintes avisos:

  1. Hoje, 08/08, despedida do Padre Tomás Parra, IBP, que partirá, em definitivo para Belém. Haverá Missa Solene às 19:30, seguida de Confraternização. Para a confraternização, cada um deverá trazer uma bebida e um salgado ou doce.
  2. Domingo, dia 21/08, haverá a Primeira Missa do Padre Thiago Bonifácio em Brasília. O Padre Thiago irá ajudar, desse dia em diante, o apostolado do IBP em Brasília, na Capela Nossa Senhora das Dores.
  3. Agradecemos ao Padre Tomás por toda a assistência espiritual dada durante esses onze meses. E asseguramos as nossas orações ao Padre pelo seu novo ministério sacerdotal.

[Sermão] Sentido Espiritual das Cerimônias da Missa – Parte 10: O Cânon Romano II – Te igitur e Memento vivorum

Sermão para o 11º Domingo depois de Pentecostes

31.07.2016 – Padre Daniel Pinheiro, IBP

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

 Ave Maria…

Caros católicos, continuamos hoje a tratar do significado espiritual das cerimônias da Santa Missa no Rito Romano Tradicional. Na última oportunidade, fizemos um comentário geral sobre o Canon Romano, a única oração eucarística na Missa Tradicional. O Canon Romano que, nas palavras do Concílio de Trento, é tão “puro de todo o erro, que nele não há nada que não exale a suma santidade e piedade, não há nada que não eleve a Deus as almas dos que o oferecem. O Cânon Romano que se compõe das palavras do próprio Senhor, das tradições dos Apóstolos e das piedosas instituições dos Sumos Pontífices. ” Vimos como o Canon Romano é uma fortaleza inviolável contra todo erro e toda heresia.

Começamos, hoje, a considerar cada oração do Canon Romano em particular. A primeira delas é o Te igitur. E a primeira letra dessa oração, quer dizer, a primeira letra do Canon Romano, é um T, que é uma das formas da cruz. Já a primeira letra do Canon nos indica, então, aquilo que ocorrerá durante a sua recitação pelo padre: a renovação do sacrifício da Cruz. Esse T do Te igitur foi sendo ornado, como cruz, nos Missais, até que, com o tempo, se começou a colocar Nosso Senhor Crucificado na página ao lado do início do Canon.

O igitur significa a continuidade do Canon com o prefácio e o ofertório que lhe antecederam. No Te igitur nós pedimos e rogamos, suplicantes, para que Deus aceite o sacrifício que lhe será oferecido. Para exprimir a nossa humilhação diante de Deus e a nossa súplica, o padre, antes de pronunciar as palavras, faz gestos de súplica. Primeiro, eleva as mãos e os olhos, para dirigir-se a Deus, confiado na clemência divina. Depois, juntando as mãos apoiadas sobre o altar, inclina-se profundamente. Apoia-se no altar porque o altar representa Nosso Senhor Jesus Cristo. Somente apoiados em Cristo é que ousamos pedir algo a Deus. Profundamente inclinado, mostrando a nossa miséria diante de Deus, o padre começa a oração. Essa inclinação mostra também a humildade de Nosso Senhor no momento de seu sacrifício e as suas quedas durante o caminho da cruz. O Padre dirige-se a Deus chamando-o de clementíssimo, pois confia na misericórdia divina e sabe que Deus não usa de todo o rigor da sua justiça. A clemência é a virtude que tempera o rigor do castigo. O sacerdote dirige-se a Deus clementíssimo por meio de Jesus Cristo, o perfeito intermediário, pois é Filho de Deus e Senhor nosso. É pelo nome de Jesus que conseguimos todas as graças. É por Cristo que, suplicantes, ousamos rogar e pedir a Deus que aceite e abençoe esses dons, essas dádivas e esse santo sacrifício sem mancha. Rogar e pedir parecem ser sinônimos, mas, na verdade, não são. Rogamos quando não temos direito algum de exigir aquilo que desejamos. Pedimos quando temos o direito de sermos atendidos. Nessa oração, na Missa de um modo geral e mesmo na vida, não temos, por nós mesmos, direito algum de obter de Deus o que desejamos. Podemos apenas rogar. Todavia, unidos a Jesus Cristo e em nome dEle, podemos pedir. O sacerdote, aqui no Te Igitur, não só roga, mas ousa pedir, porque o faz em nome de Jesus Cristo e porque participa do sacerdócio de Nosso Senhor Jesus Cristo.

O Padre, oscula (ósculo é o beijo litúrgico) o altar, ergue-se e, com as mãos estendidas, pede que Deus aceite e abençoe estes dons, estes presentes, e esse sacrifício. Dons e presentes podem também parecer sinônimos, mas os termos latinos empregados têm uma nuance importantíssima: donna, os dons, é aquilo que o superior dá ao inferior. Munera, presentes, é aquilo que o inferior dá ao superior. O sacrifício da cruz é um dom porque nos vem de Deus e é munera, um presente, porque nós o oferecemos a Deus. Para deixar ainda mais claro o que são esses dons e esses presentes, o padre fala em sacrifício ilibado, sem mancha, perfeito, que só pode ser, então, o sacrifício do Corpo e do Sangue de Cristo, Deus e Homem. Como no ofertório, o Te igitur considera, por antecipação, que o Corpo e o Sangue de Cristo já estão presentes, para mostrar que no momento da consagração é o Corpo e o Sangue de Nosso Senhor que são oferecidos a Deus. Tendo pedido a Deus que abençoe esse sacrifício, o próprio Padre traça sobre as oblatas, isto é, sobre o pão e vinho, três sinais da cruz ao dizer dons, presentes e sacrifício ilibado. Antes de fazer o sinal da cruz, o padre osculou o altar para mostrar que a bênção procede de Nosso Senhor. O Te igitur mostra que a Missa é um sacrifício e ao dizer que se trata de um sacrifício ilibado, sem mancha, perfeito, nos mostra que é o sacrifício de Cristo.

Continua o Te igitur: In primis, em primeiro lugar esse sacrifício é oferecido pela Santa Igreja Católica. Em cada Missa, graças imensas são dadas à Igreja. São essas graças que mantêm a Igreja sempre santa, nunca pecadora. O padre, mantendo as mãos estendidas, pede quatro graças para a Igreja: a paz, a proteção, a manutenção da unidade e para que Deus a governe. Pede-se primeiro a paz. Uma paz exterior e uma paz interior. Que a Igreja possa ter a tranquilidade na ordem e possa assim propagar o Evangelho, a doutrina de Nosso Senhor Jesus Cristo. Todavia, uma paz completa não é possível. A Igreja é combatida pelo mundo, cheio de descrença e de imoralidades. Ela deve resistir ao mundo. A sua paz não pode ser feita de acordos com o mundo. A Igreja é muitas vezes atacada também pelos seus próprios membros. A Igreja deve, então, combater e ser protegida por Deus. Vem, assim, o segundo pedido, para que Deus proteja a sua Igreja diante de todos os assaltos, para que seus membros permaneçam fiéis. Pede-se, em terceiro lugar, para que Deus mantenha a unidade de sua Igreja, para que todos permaneçamos na unidade da Igreja, unidade que se faz pela mesma fé, pela submissão à autoridade eclesiástica em suas ordens legítimas e pelos mesmos sacramentos.  Finalmente, pede-se para que Deus governe a sua Igreja por meio de bons pastores por toda a terra. Feito esse pedido, o padre reza especificamente pela hierarquia da Igreja. Primeiramente, o sacerdote reza pelo Papa, a quem professa estar unido. Depois, reza pelo bispo local, a quem também professa estar unido. Finalmente, reza pelos que professam a verdadeira fé e propagam a fé católica e apostólica, incluídos aí o restante do clero e os fiéis.

Nessa segunda parte do Te igitur, nós vemos as quatro notas da Igreja fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo: santa, católica, una e apostólica.

O sacerdote passa, após o Te igitur, à segunda oração do Canon: o Memento dos vivos. Após rezar pela hierarquia e pelos fiéis em geral, a Igreja dá ao Padre a possibilidade de rezar por algumas pessoas em favor de quem o sacrifício será oferecido de modo mais particular. Ora, no Calvário, pouco antes do sacrifício de Cristo, o bom ladrão pede a Jesus para que se lembre dele. E esse pedido do bom ladrão é atendido. Assim, o sacerdote pede a Deus que se lembre de algumas pessoas especificamente pouco antes da renovação de seu sacrifício. Esse pedido de lembrança dará frutos como deu o pedido de lembrança do bom ladrão, que se converteu. Ao dizer o nome das pessoas por quem reza especificamente, o padre une as mãos em posição de submissão completa a Deus, suplicando para que seja atendido.  Não custa lembrar: essa posição das mãos – juntas, com os dedos estendidos, polegares cruzados, direito sobre o esquerdo – é a posição do vassalo diante de seu suserano ao prometer fidelidade e submissão a ele. A simples posição da mão do padre mostra a sua inteira submissão diante de Deus.

Após nomear algumas pessoas especificamente, o padre pede por todos aqueles que estão presentes na Missa, por todos aqueles que estão diante do altar assistindo à Missa. Uma graça particular é dada na Missa para aqueles que a ela assistem. Daí, entre outras razões, a importância de se assistir à Missa com a maior frequência possível. Daí a importância de trazer à Missa os bebezinhos, pois também eles recebem graças ao estarem diante do altar. Daí valer a pena o esforço dos pais de trazer as crianças para a Missa. Todavia, as graças recebidas por cada um na Santa Missa dependem das disposições interiores. O sacerdote menciona, então, a fé e a devoção de cada um, conhecidas por Deus. Aqueles que têm uma fé mais firme, que vivem da fé, aqueles que têm a prontidão em fazer a vontade de Deus em todas as coisas (isso é a devoção), receberão mais e maiores graças. Por esses presentes que têm a fé e a devoção conhecidas por Deus, o sacerdote oferece esse sacrifício de louvor, quer dizer, esse sacrifício de adoração, pelo qual reconhecemos o soberano domínio de Deus e queremos nos submeter a Ele. Esse sacrifício é também oferecido pela redenção da alma dos presentes e dos seus. Quer dizer, é sacrifício que aplaca a ira divina, pagando o preço do ultraje de nossos pecados e é sacrifício que dá para a nossa alma a graça do arrependimento. É um sacrifício também oferecido pela esperança de salvação e para a proteção, quer dizer, para nos alcançar as graças de que precisamos para a nossa salvação. E esses por quem o sacrifício é oferecido dirigem a Deus as suas preces. Mas o vota sua em latim é mais do que as simples preces. É no fundo a própria vida que a pessoa oferece a Deus em união com o sacrifício de Cristo. Aqueles que querem se beneficiar profundamente do sacrifício de Nosso Senhor Jesus Cristo, renovado no altar, devem colocar nas mãos de Deus a própria vida, oferecendo a Ele tudo o que são e tudo o que possuem.

É interessante notar um detalhe importante nessa oração do Memento dos vivos. Nela, o padre diz que os próprios fiéis oferecem o sacrifício. Todavia, não se trata de igualar fiéis e padre. Os fiéis oferecem esse sacrifício no sentido de que o oferecem a Deus por meio do sacerdote e no sentido de que podem apresentar as suas intenções pessoais em união com o sacrifício realizado pelo sacerdote. Lembremo-nos aqui das palavras ditas no Orate Fratres: Orai irmãos para que o meu e o vosso sacrifício seja agradável diante de Deus Pai. Nessas palavras, está dito “meu e vosso sacrifício”, pois distinto é o papel do sacerdote e dos fiéis no sacrifício da Missa. O sacerdote age na pessoa de Cristo, como outro Cristo, oferecendo realmente o sacrifício. Os fiéis se unem ao sacrifício oferecido pelo sacerdote, do qual tiram grande proveito. Sacerdote e leigos têm função bem distinta durante a Santa Missa.

Nessa segunda oração do Canon Romano, o Memento dos vivos, nós vemos claramente a Missa como sacrifício de louvor e como sacrifício de redenção, isto é, para o perdão de nossas faltas. Vemos, ainda, nessa oração, a Missa como sacrifício de salvação, ou seja, como sacrifício que nos obtém as graças para a nossa salvação. A Missa como sacrifício de ação de graças estava mostrada claramente no Prefácio.

Essas duas primeiras orações são um pedido pela Igreja militante, pela sua hierarquia, por todos os seus membros, por aqueles que o padre menciona em particular, pelos que estão presentes e pelas intenções dos presentes. São orações que mostram claramente a natureza da Missa: o sacrifício do Corpo e do Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo. São orações belíssimas, de profunda espiritualidade e de profunda doutrina. Por isso mesmo, os inimigos da Igreja sempre quiseram destruir o Canon Romano.

Aproveitemos, caros católicos, o melhor conhecimento dessas orações, para nos unirmos mais perfeitamente ao sacrifício de Cristo, que se renovará em instantes sobre o altar, rezando por toda a Igreja militante, em particular pela hierarquia, e oferecendo-nos inteiramente a Deus.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.