[Sermão] Devoção a Nossa Senhora das Dores

Sermão para a Festa de Nossa Senhora das Dores

15.09.2016 – Padre Daniel Pinheiro, IBP

 

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Ave Maria…

Agradecemos ao Eminentíssimo e Reverendíssimo Cardeal Dom José Freire Falcão, por todo o apoio e ajuda. Deus lhe pague, Eminência.

Caros católicos, percorrendo as antigas Igrejas do Brasil que se conservaram um pouco mais, podemos reparar em uma constante. Em praticamente todas elas, existe uma Capela, um altar ou uma imagem de Nossa Senhora das Dores. Os fiéis católicos sempre reconheceram a importância de venerar Nossa Senhora das Dores. Sempre reconheceram a importância de recorrer à Virgem das Dores. Evidentemente, além da devoção do povo católico, está também a mão poderosa e suave da Providência Divina, conduzindo os homens à devoção a Nossa Senhora das Dores. Tão importante é a devoção a Nossa Senhora das Dores que, além dessa festa principal no dia 15 de setembro, a Igreja faz também a sua comemoração na sexta-feira que antecede o Domingo de Ramos, durante o tempo da paixão.

Muito nobre, importante e necessária a devoção a Nossa Senhora das Dores. Nas dores de Nossa Senhora, podemos entrever toda a obra da redenção, desde a infância do Salvador até a sua paixão e morte na Cruz. A primeira dor ocorre 40 dias depois do nascimento do Menino Jesus, com a profecia do velho Simeão no Templo dizendo a Maria que uma espada lhe transpassaria a alma. A última dor é Nosso Senhor colocado no sepulcro. Claro, Nossa Senhora sofreu ainda antes de saber que ia ser mãe de Deus e começou a sofrer muito mais desde a Anunciação, desde que o Verbo se fez carne em seu seio. Mas é com a profecia do velho Simeão no Templo de Jerusalém que Maria Santíssima tem as suas dores agravadas enormemente. Claro também que ela sofreu depois da ressurreição e da ascensão de Cristo, principalmente vendo a ingratidão dos pecadores. Mas é entre a profecia do velho Simeão na apresentação do Menino ao templo e a sepultura de Jesus que a Igreja coloca as principais dores de Maria. Com as dores de Maria podemos entrever toda a obra da redenção nos sofrimentos de Cristo e de Maria, corredentora.

As dores de Maria nos mostram todos os outros privilégios de Maria. Se ela sofre tanto ao lado de Cristo e ao ver Cristo sofrer, é porque ela é a Mãe de Cristo, homem e Deus. A mãe das dores é a mãe das dores porque é a Mãe de Deus.

Ao ver Maria sofrendo tanto, devemos nos lembrar que ela é a Virgem Imaculada, isto é, concebida sem pecado original. E é também a Virgem que não conheceu pecado algum ao longo de sua vida. Se Maria sofre tão bem, é porque não tem pecado.

Se Maria sofre tanto e tão bem, é porque ela ama a Deus mais do que qualquer criatura. Ela ama a Deus mais do que o mais santo dos anjos. Na verdade, o sofrimento dela é causado, principalmente, pelo seu amor a Deus. Ela sofre não tanto com os sofrimentos físicos de Cristo. Ela sofre principalmente porque compreende profundamente que o amor de Deus é desprezado pelos homens. Ela sofre porque ofendemos a Deus com os nossos pecados. Ela sofre porque zombamos de Deus com a nossa vida morna e tíbia. Ela sofre porque não compreendemos tudo aquilo que Deus nos preparou desde toda a eternidade. Ela sofre porque preferimos o pecado a Deus. Ela sofre porque muitos morrem obstinados no pecado. Maria, no seu sofrimento, nos dá o exemplo de amor a Deus. Seu sofrimento é esse sofrimento porque ela ama a Deus e seu sofrimento é tão bom e meritório porque ele é suportado por amor a Deus. Amando a Deus, ela despreza todo outro amor que não leve a Deus.

Maria, ao sofrer, nos ensina como sofrer. A devoção do povo católico pela Virgem Dolorosa talvez encontre aqui a sua principal razão de ser. Nossa Senhora das Dores é um exemplo muito concreto para o nosso cotidiano, para cada passo de nossa vida nesse vale de lágrimas. Nós sofremos. A cada dia, teremos pelo menos algum sofrimento. Maior ou menor. Nossa tendência, diante deles, é a impaciência, a murmuração, às vezes, até mesmo a revolta contra Deus, pecado gravíssimo. Nesse momento, a Virgem Dolorosa nos dá uma grande lição: sofrer bem. Ela é a Mãe de Deus, a pessoa mais digna que já passou e passará nesse mundo depois de seu Filho. E, sendo a pessoa mais digna, sofreu mais do que cada um de nós e mais do que todos nós juntos. Nós, sendo miseráveis pecadores, nos achamos muito dignos para o sofrimento. Ela é Virgem Imaculada, concebida sem pecado e isenta de pecado durante toda a sua vida. E, sendo a Virgem Imaculada e Puríssima, ela sofreu mais do que cada um de nós e mais do que todos nós juntos. Nós, que ofendemos a Deus com nossos pecados, achamos injustos os nossos sofrimentos. Ela, amando mais a Deus do que todos os anjos e santos do céu juntos, sofreu mais do que cada um de nós e mais do que todos nós juntos. Nós, que amamos a Deus de forma tão vacilante, tão fria, achamos que não somos dignos de sofrer porque fizemos uma ou outra boa obra. Maria nos ensina a sofrer nas grandes coisas e nas pequenas coisas, nas pequenas cruzes do dia-a-dia. A piedade popular compreende isso. Se alguém sabe o que é sofrer, esse alguém é Nossa Senhora. Se alguém sabe o que é sofrer bem, esse alguém é Nossa Senhora. Se alguém pode nos ensinar a sofrer e carregar a nossa Cruz, e nos fazer seguir Jesus Cristo em tudo, esse alguém é Maria. Maria das Dores, a Virgem Dolorosa.

A piedade do povo católico vê facilmente em Nossa Senhora das Dores o modelo do bom sofrimento. Sofrimento, cruz, que é o caminho necessário para chegar a Jesus. Maria, Mãe de Deus. Maria sem pecado, Maria que tanto amou a Deus. Por que sofreu? Sofreu porque Deus a amou… Sofreu para amar a Deus ainda mais. Sofreu para crescer em todas as virtudes. Sofreu para cooperar na reparação pelos nossos pecados, unindo-se aos méritos infinitos de seu Filho. Sofreu para ter maior glória no céu. Sofreu para assemelhar-se a Cristo. Que modelo é Nossa Senhora das Dores para nós nesse vale de lágrimas!

Modelo e grande conforto. Temos uma mãe que sabe muito melhor do que nós o que é o sofrimento. Temos uma Mãe que sofreu enormemente mais que nós, não havendo comparação possível. Temos uma Mãe que nos ajuda no sofrimento a nos mantermos fiéis, que nos ajuda a abraçarmos as cruzes com profunda caridade.

Temos uma Mãe que nos mostra que, nas dores, se pode encontrar a alegria. A alegria de servir a Deus, a alegria de crescer nas virtudes, a alegria de reparar pelos nossos pecados, a alegria de purificar nosso amor a Deus. Na ladainha de Nossa Senhora das Dores, composta pelo Papa Pio VII, depois das invocações que exprimem as dores de Maria Santíssima, ela é invocada como a alegria de todos os santos. Essa alegria profunda da alma em meio às cruzes, que não é uma alegria sentimental, só se consegue com o amor a Deus.

Tenhamos, caros católicos, essa devoção a Nossa Senhora das Dores. Devoção tão enraizada no povo católico. Devoção tão favorecida pela Providência. Devoção que nos ensina o amor a Deus até o desprezo de todos os outros amores que não levem a Ele. Devoção que nos ensina a suportar qualquer sofrimento para permanecer fiéis a Deus.

Viva Nossa Senhora das Dores! Virgem Dolorosa, rogai por nós!

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

[Sermão] Não ter medo de conhecer, amar e servir a Nosso Senhor Jesus Cristo

Sermão para 17º Domingo depois de Pentecostes

11.09.2016 – Padre Daniel Pinheiro, IBP

O Evangelho de hoje começa nos mostrando a sabedoria de Nosso Senhor Jesus Cristo e termina pela afirmação clara de sua divindade. A cena narrada no Evangelho de hoje ocorre na última semana de vida de Cristo, entre o Domingo de Ramos e a Quinta-Feira Santa. Nesses dias, os inimigos do Salvador procuravam, de todas as formas, que ele caísse em suas armadilhas, plantadas por perguntas mais ou menos complicadas. No Evangelho desse Domingo, temos um escriba da seita dos fariseus que faz uma pergunta tentando-O. Pouco antes, no Evangelho, está dito que Nosso Senhor havia reduzido os saduceus ao silêncio. Os saduceus eram uma outra seita que havia na época, negando a ressurreição da carne e a imortalidade da alma, por exemplo. Os inimigos de Jesus, de um lado e de outro, faziam-lhe perguntas difíceis para ver se Ele errava, pois se errasse, não seria o Messias. Ou para ver se Ele alterava algum preceito divino, fazendo-se, consequentemente, Deus, o que seria motivo para condená-lO.

Hoje, o escriba pergunta a Nosso Senhor qual o maior dos mandamentos. A resposta que Jesus Cristo dá ao fariseu nos parece bastante simples. Todavia, na época de Nosso Senhor, os fariseus tinham inventado, por conta própria, inúmeros preceitos e havia grande discussão para saber qual deles era o mais importante. Ora, Jesus Cristo coloca as coisas no seu devido lugar, lembrando que o maior preceito é o de amar a Deus. E não de amá-lo de qualquer jeito, mas de amá-lo com todo o coração, com toda a alma e com todo o espírito. Isto é, devemos amar a Deus com todas as potências ou faculdades de nossa alma. Tudo o que fazemos deve ser inspirado, em última instância, pelo amor a Deus. Amor a Deus que não é um sentimento, como Nosso Senhor deixa claro em outro momento. Amor a Deus que se manifesta, diz Ele, na guarda, na observância dos mandamentos. É evidente que esse é o máximo e primeiro mandamento. Todavia, aqueles homens estavam cegos. Cegos pela vontade própria, cegos pelo orgulho, cegos porque seguiam cegos e falsos profetas. Cegos porque seguiam as próprias paixões.

O segundo mandamento, diz o Salvador, é semelhante ao primeiro: amar ao próximo como a si mesmo. Esse segundo mandamento é semelhante ao primeiro porque o verdadeiro amor ao próximo decorre do amor a Deus. O amor ao próximo e o amor a Deus não podem existir separadamente. Quem ama a Deus, amará ao seu próximo. E só ama ao próximo ordenadamente quem o ama por amor a Deus. E amar ao próximo como a si mesmo porque devemos amar a nós mesmos também por amor a Deus, isto é, para agradar a Deus, para alcançar o céu.

Desses dois mandamentos dependem todos os outros mandamentos da lei de Deus. Assim se representam tradicionalmente os mandamentos: na primeira tábua, temos os três mandamentos que se referem diretamente a Deus e, na segunda tábua, temos os sete mandamentos que se referem ao próximo.

Nosso Senhor respondeu perfeitamente à pergunta do fariseu. Todavia, o Salvador sabia que a pergunta vinha da falta de fé dos fariseus nEle. Não acreditavam que Ele fosse o Messias, não acreditavam que Ele fosse Deus. E tinham a ideia de um Messias meramente político. Como muitos hoje colocam praticamente toda a esperança na política, num homem, ou numa forma de governo. Nosso Senhor irá remediar isso. Tendo respondido à pergunta do fariseu, faz Ele mesmo duas perguntas: “que vos parece do Cristo? De quem é Ele filho?” Os fariseus respondem: “Ele é filho de Davi.” Responderam bem. De fato, as Sagradas Escrituras deixam muito claro que o Messias é filho de Davi. Nosso Senhor cita, então, o Salmo 109, escrito por Davi e inspirado por Deus, como inspirada é toda a Sagrada Escritura, como toda a Bíblia. Nesse Salmo, Davi chama o Messias de seu Senhor, dizendo: “disse o Senhor ao meu Senhor, senta-te à minha direita.” Ora, como Davi chama o Messias de Senhor, sendo que o Messias é seu filho? E como o chama de Senhor igualando-o ao Senhor Deus? Se Davi o chama de Senhor como pode o Messias ser seu filho? A resposta é muito clara: o Messias não é somente filho de Davi. O Messias é também filho de Deus. Por isso, Davi o chama de Senhor. Os fariseus compreenderam isso muito bem com a pergunta de Cristo. Compreenderam que o Messias era homem e Deus, compreenderam que Jesus era o Messias, que Ele era o Filho de Deus feito homem. Mas diante das perguntas de Cristo, não responderam, calaram. Não responderam porque não queriam se submeter a Cristo. Se reconhecessem abertamente que Cristo era o Messias e Deus encarnado, teriam que mudar de vida, teriam que abandonar os seus pecados. Desse dia em diante, não lhe perguntaram mais nada. Simplesmente procuraram, por intrigas políticas e religiosas, matá-lo. Tendo a possibilidade de conhecer a verdade e de segui-la, preferiram persegui-la, para continuar em seus pecados, para continuar em seus pensamentos e ideias tortas. Preferiram continuar cegos. Assim acontece com muitos. Não querem reconhecer Nosso Senhor Jesus Cisto, não querem se aprofundar no conhecimento da religião, para não se verem obrigados a mudar de vida, para não se verem obrigados a abandonar os próprios pecados, para não se verem obrigados a abandonar os próprios caprichos, para não se verem obrigados a ter de combater o mundo. Preferem ficar cegos. E na cegueira perseguem Jesus com seus pecados ou chegam até a combatê-lo frontalmente.

Não tenhamos medo, caros católicos, de reconhecer Nosso Senhor Jesus cristo, o Messias, o Salvador, homem e Deus. Não tenhamos medo de praticar os seus mandamentos os seus preceitos. Não tenhamos medo de amá-lo inteiramente, com todo o nosso coração, com toda a nossa alma, com todo o nosso espírito.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

[Doutrina] Erros atuais

Publicamos abaixo o aviso que o Padre Daniel Pinheiro tem dado em algumas ocasiões. Pensamos ser importante a publicação pela confusão completa que, infelizmente, reina também nos meios católicos. Se os erros à esquerda são já bem conhecidos, começa a surgir uma direita com fundamentos completa e gravemente errôneos. E os católicos se deixam facilmente iludir por ela. Segue o aviso.

Aviso

É preciso deixar de seguir aqueles que, embora se digam católicos, querem confundir os católicos. É preciso deixar aqueles que, se dizendo católicos, negam que o Papa Francisco seja o Papa e afirmando que ainda é Bento XVI ou dizendo que não há mais um Papa. É preciso deixar aqueles que, se declarando resistentes, recusam a união com o Papa, mesmo estando asseguradas a fé, a moral e a liturgia católicas. É preciso deixar aqueles que, se dizendo católicos, têm uma filosofia que contradiz a doutrina católica e que se aproxima do esoterismo e do modernismo pelo caminho do erro gravíssimo do perenialismo. É preciso deixar aqueles que se dizendo católicos não seguem uma filosofia aristotélico-tomista (fundada na realidade), mas seguem as suas próprias invenções. É preciso deixar aqueles que, se dizendo católicos, não aderem à doutrina social da Igreja, que não é socialista nem propriamente capitalista e que dizem que a Igreja erra em sua doutrina social. É preciso deixar aqueles que colocam a primazia no campo político e não no campo religioso. É preciso deixar aqueles que usam palavrões para convencer os outros ou para expor sua pretensa filosofia ou teoria política, fazendo que as pessoas, levadas pelas paixões suscitadas pelos palavrões, não pensem no que está sendo dito e fiquem cegas. E, sem pensar, seguem cegamente uma pessoa, dominadas por ela. Sem falar que os palavrões provocam os pecados contra a pureza. E, assim, o demônio continua a reinar sobre as almas. É preciso deixar aqueles que simpatizam com a maçonaria e a defendem, dizendo que existe uma boa maçonaria. É preciso deixar de seguir aqueles que cultuam falsos profetas. A verdade é que os católicos se deixam levar facilmente por supostos movimentos ou pensadores de direita, simplesmente por se declararem anticomunistas. E, combatendo o comunismo, terminam por aderir a tantos outros erros graves, às vezes sem perceberem. Não se pode combater um erro com outro erro. O bem tem que ser integralmente bom (bonum ex integra causa). O católico tem que ser integralmente católico. Os católicos têm que ser católicos também nos ensinamentos sociais da Igreja, tão limpidamente expostos pelos Papas no século XIX e início do XX. Contra o liberalismo, também econômico, e contra o socialismo e comunismo. Não brinquem com a fé se deixando iludir pelas modas de pensamentos à direita, à esquerda ou ao centro, combatendo um erro e engolindo vários outros. É preciso ser católico coerente e não caótico.

[Fotos] Missa Pontifical celebrada Dom Fernando Guimarães: Natividade de Maria e 10 anos do IBP

Tivemos a belíssima Missa Pontifical Solene no Faldistório, no dia 8 de setembro, em honra da Natividade de Nossa Senhora e em ação de graças pelos 10 anos de fundação do IBP.
A alegria de poder festejar, na Capela Nossa Senhora das Dores, o nascimento da aurora, que é Maria, e a primeira década de existência do Instituto Bom Pastor (IBP) com uma das mais belas cerimônias católicas não pode ser descrita. Nossa gratidão se dirige primeiramente a Nosso Senhor Jesus Cristo, a Maria Santíssima, em seguida, e, por fim, a Sua Excelência Reverendíssima, Dom Fernando Guimarães, Arcebispo Militar do Brasil.
Há dez anos (08/09/2006) era fundado o IBP com a ajuda muito importante do, na época, Monsenhor Fernando Guimarães, chefe de seção na Congregação para o Clero, na Santa Sé. Uma década depois, já Arcebispo, Sua Excelência celebra uma Missa Pontifical Solene em Capela administrada por um padre do IBP que foi por ele ordenado. São as disposições da Providência. Deus lhe pague, Excelência!
Agradecemos também ao IBP pelos dez anos de dedica às almas. Dez anos de dedicação às almas também pela fidelidade aos seus princípios fundadores: a exclusividade da liturgia tradicional e a transmissão da imutável doutrina católica. 
Missa Pontifical I - Dom Fernando Guimarães: Natividade de Maria Santíssima e 10 anos do Instituto Bom Pastor

Missa Pontifical II - Dom Fernando Guimarães: Natividade de Maria Santíssima e 10 anos do Instituto Bom Pastor

 

 

[Sermão] Arrancar e destruir, plantar e edificar: São Pio X, modelo de Padre.

Sermão para o 16º Domingo depois de Pentecostes

04.09.2016 – Padre Daniel Pinheiro, IBP

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Ave Maria…

Caros Católicos, a primeira Missa de um padre aqui na Capela Nossa Senhora das Dores é sempre ocasião para falarmos algo sobre o sacerdócio. Falamos, há duas semanas, sobre o sacerdote e Maria Santíssima.

Hoje, aproveitemos a Festa do Papa São Pio X, celebrada ontem (03/09), para falar um pouco do sacerdócio. São Pio X foi vigário de uma paróquia, pároco, cônego, bispo de Mântua, Arcebispo e Patriarca de Veneza e, finalmente, Papa. Papado que ele aceitou na cruz, conforme suas próprias palavras. Passou por todos os degraus da hierarquia eclesiástica. Era um pastor de almas. Um pastor de almas que compreendeu sempre que o pastor não está à frente do rebanho para agradá-lo, para fazer as vontades do rebanho. Compreendeu que o pastor está à frente do rebanho para servi-lo, mostrando-lhe o caminho do céu, o único caminho, que é NSJC crucificado e a Igreja por Ele fundada, a católica.

Em todo o seu ministério sacerdotal, São Pio X teve uma preocupação sempre intensamente presente: a preocupação de ensinar fielmente a doutrina de Nosso Senhor Jesus Cristo, transmitida intacta pela Igreja Católica. Preocupou-se com a instrução religiosa das crianças no catecismo e também com a instrução dos adultos quando vigário e pároco. Preocupou-se de forma profunda com a formação dos padres quando Bispo em Mântua ou em Veneza. Cuidou do Seminário como da pupila de seus olhos porque é do Seminário que saem aqueles que irão instruir todos os outros. Preocupou-se, ao longo de todo o seu sacerdócio, principalmente como Bispo e Papa, em combater os erros mais graves ou menos graves que ameaçavam a fé do povo e, consequentemente, a salvação das almas. Combateu o erro e propagou a verdade. Seu grande combate foi, como não podia ser diferente, como sucessor de Pedro. Combateu aquela que é a pior das heresias: o modernismo. Mais do que uma heresia, o modernismo é, como dizia o próprio Papa, o esgoto coletor de todas as heresias, a síntese de todas as heresias. O modernismo não ataca uma ou algumas verdades de fé. Se aceito, ele destrói todo o edifício da religião católica em seus fundamentos. O modernismo faz a revelação brotar do próprio homem, de seus sentimentos. Assim, a revelação já não é mais aquilo que Deus nos fala exteriormente e que somos obrigados a acreditar. A revelação, no modernismo, é a expressão do sentimento de cada um. A religião serve simplesmente para a pessoa sentir-se bem e não para conhecer, amar e servir a Deus tal como Ele é. O centro da religião torna-se o homem e não Deus. O modernismo é uma forma de fazer do homem Deus, como propôs o demônio no pecado original: sereis como deuses. Então, caros católicos, o grande combate de São Pio X foi contra o modernismo e para defender a fé. Assim lutou heroicamente durante o seu pontificado. Conseguiu frear esse gravíssimo erro, mas o erro submergiu para voltar à superfície em seguida e praticamente triunfar. Hoje, podemos constatar, que, em matéria de religião, as pessoas já não se preocupam com o ensinamento de Nosso Senhor Jesus Cristo, com o ensinamento da Santa Igreja. Preocupam-se em se sentir bem. É o triunfo do modernismo. Mas São Pio X, embora não tenha conseguido vencer definitivamente o erro, deixou-nos os remédios contra esses males. Deixou-nos também o exemplo de seu combate constante.

Um dos principais remédios que São Pio X apontava contra os erros era o sacerdote bem formado. Bem formado na doutrina e na piedade. Ao longo de todo o seu ministério, o sacerdote tem que guardar a doutrina e crescer na piedade. São Pio X dizia: “a piedade e a doutrina são necessárias ao sacerdote. Sem a piedade, a doutrina torna o padre arrogante. Sem a doutrina a piedade torna o padre inútil.” Assim dizia São Pio X. Podemos ir um pouco além: sem a piedade, a doutrina tende a se tornar uma ciência que infla, que enche de orgulho. Cheio de orgulho, é fácil considerar a doutrina como própria e não mais como de Jesus Cristo. A doutrina sem a piedade facilmente degenera em uma doutrina pessoal, com erros e heresias. A piedade sem doutrina, por outro lado, torna o padre inútil porque o ensinamento faz parte de seus deveres mais importantes. E a piedade sem doutrina vai facilmente degenerar em uma piedade sentimentalista e subjetivista, pois não está fundada no dogma, mas em impressões pessoais. A piedade sem doutrina levará também a erros.

O sacerdote deve unir a piedade e a doutrina. A piedade ele mantém e desenvolve pelo santo sacrifício da Missa celebrado com devoção, com a recitação atenta e reverente do Breviário, com a generosidade no exercício de seus deveres sacerdotais: batizar, confessar, visitar os enfermos. São indispensáveis também a meditação, a devoção a Nossa Senhora, principalmente pelo Santo Terço. E o conhecimento das Sagradas Escrituras, necessário tanto para a piedade quanto para a doutrina.

Para a guardar a doutrina, deve manter os seus estudos, baseados no magistério constante da Igreja, baseados na filosofia e na teologia de São Tomás de Aquino, muralha que protege a verdade revelada. Filosofia e Teologia tomistas tão recomendadas pelos Papas (Clemente VI, Nicolau V, Bento XIII, São Pio V, Clemente XII, Urbano V, Inocêncio XII, Bento XIV, Inocêncio VI, Leão XIII). Inocêncio VI dizia que sempre será suspeito de erro aquele que impugnar a doutrina de São Tomás. Tão grande é a sua autoridade que se pode dizer que esteve presente, pela sua doutrina, nos Concílios de Lyon, Viena, Florença e Vaticano I. Não só presente, mas como que presidindo, como diz Leão XIII (Enc. Aeterni Patris). Tão excelente é a Filosofia e Teologia de São Tomás que, no Concílio de Trento, a Suma teológica foi colocada sobre o altar ao lado das Sagradas Escrituras (Enc. Aeterni Patris e Studiorum ducem). O Padre, para guardar a doutrina, de manter estudos baseados em autores comprovadamente católicos. Não pode basear os seus estudos na última moda à direita, à esquerda ou ao centro, em falsos filósofos. O padre deve ter um amor profundo à doutrina católica, que nada mais é do que a doutrina de Nosso Senhor Jesus Cristo. Em nada pode ceder, adulterar ou negociar quando se trata da verdade.

A Missa dos Sumos Pontífices, citando passagem em que Deus fala ao profeta Jeremias, diz assim: “eis que pus as palavras em tua boca, e te estabeleci sobre os povos e sobre os reinos, para que arranques e destruas, edifiques e plantes. ” Claro, essas palavras se aplicam mais perfeitamente ao Papa, mas se aplicam também ao Padre. O Padre que fala a doutrina católica, isto é, a doutrina de Cristo, fala com as palavras de Deus. Daí é que vem a eficácia de seu ministério: fala não as suas palavras, mas a palavra de Deus. E com a palavra de Deus, contida na Sagrada Escritura e na Tradição, e afirmada infalivelmente pela Igreja, o sacerdote deve arrancar e destruir, edificar e plantar. Sim, o padre tem a obrigação de arrancar e destruir. Arrancar e destruir o erro, tão acessível a todos atualmente, muitas vezes sob capa de alta cultura. Deve arrancar e destruir o erro evidente, mas também o erro muitas vezes sutil. Arrancar e destruir aquilo que ameaça a salvação das almas. Assim fez São Pio X contra os erros de seu tempo. Assim fizeram todos os santos sacerdotes. O Padre deve também edificar e plantar. Plantar a semente da doutrina católica, edificar a vida espiritual nas almas, com a fé, a esperança, a caridade e todas as outras virtudes. Não basta destruir e arrancar, é preciso também edificar e plantar. Todavia, é impossível edificar e planar sem que antes sejam arrancadas as ervas daninhas sem que antes sejam destruídas as antigas edificações corrompidas. Arrancar, destruir, plantar e edificar.

Combater como São Pio X combateu: pela verdade e pelo bem das almas. Eis o exemplo de São Pio X. Como vigário ou como Papa, pouco importa. Piedade e doutrina, sempre unidas.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.