[Aviso] Algumas observações sobre o Missal de Fiéis de Dom Gaspar Lefebvre

O Missal de Dom Gaspar Lefebvre de 1963, reeditado recentemente, pode ser muito bem aproveitado, não há dúvidas. Todavia, foi originalmente feito em um contexto já avançado do Movimento Litúrgico e reflete alguns (poucos) desvios desse.

1. Às vezes, embora raramente, a breve vida dos santos tem uma tendência racionalista, com a negação de milagres ou simplesmente relegando alguns fatos ao plano de lenda.

2. PÁG. 766. A fórmula da consagração apresenta-se em formato narrativo. No Missal tradicional, o HOC EST ENIM CORPUS MEUM e o HIC EST ENIM CALIX… são separados das palavras que precedem – manducate (bibite) ex hoc (eo) omnes – por um ponto final e um novo parágrafo. Este ponto final e o parágrafo marcam a passagem de um modo narrativo a um modo afirmativo, que é próprio da ação sacramental. A consagração não é uma narração, mas a renovação do ato de Cristo. Somente as palavras da consagração estavam em negrito e em letras maiúsculas e não o texto inteiro, deixando claro quais são as palavras da Consagração. Parecem detalhes, mas são aspectos importantíssimos para deixar claro que a Missa não é um mero memorial, mas a renovação do sacrifício de Cristo na cruz.

3. PÁG. 767. A fórmula da Consagração do Cálice tem um erro de tradução. “Pro multis” está traduzido como “por todos” e não “por muitos”. A tradução, embora não seja em si um erro doutrinário, pode levar a induzir ao pensamento da salvação universal. De fato, o Sacrifício de Cristo é objetivamente eficaz por todos, mas apenas muitos a aproveitam subjetivamente, aderindo a ela pela fé e caridade. O erro na tradução induz ao pensamento da salvação universal, que é uma heresia.

4. PÁG. 773. No Pai Nosso, a tradução de “debita” e “debitoribus” já é a tradução moderna em português: “ofensas” e a “quem nos tem ofendido”, no lugar de “dívidas” e “devedores”. Essa nova tradução não é doutrinariamente errada, mas não expressa os dois aspectos do pecado tão bem como a tradução tradicional. “Dívidas” expressa melhor o aspecto da culpa e da pena do pecado.

5. Pág. 772. Dá uma explicação que a assembleia recita em voz alta o Pater Noster com o sacerdote. Isso foi permitido em 1958. Todavia se manteve o costume quase universal de não o recitar com o Padre. Isso porque o Pater Noster, na liturgia romana da Missa, é considerado uma oração sacerdotal. Fazer que os fiéis a recitem junto com o Padre é confundir o sacerdote com os fiéis, atenuando a diferença entre eles.

[Vídeo] Fundamentos do Matrimônio – 1. Sacramento

Conferência dada na II Jornada de Formação para Casais da Capela Nossa Senhora das Dores, em Brasília, no dia 15.07.2017, pelo Padre Daniel Pinheiro, IBP.

A conferência é dada em tom informal, abordando o matrimônio como sacramento.

Fundamentos do Matrimônio – 2. Amor de sacrfício: https://youtu.be/ThDVjwdnUKg

Fundamento do Matrimônio – 3. Oração familiar: https://youtu.be/o-B9OTj0FBU

[Vídeo] Peregrinação do IBP a Aparecida: Missa Rezada na Basílica Antiga

Missa Rezada no Rito Romano Tradicional na Basílica Antiga de Nossa Senhora Aparecida em 30.07.2017. VIII Domingo depois de Pentecostes.

A Missa foi rezada no contexto da Peregrinação do IBP a Aparecida. O grupo vindo de Brasília permaneceu até domingo em Aparecida. Muitos fiéis e transeuntes romeiros puderam ter contato com essa Missa imemorial. Foi uma enorme graça para todos os presentes.

Missa Rezada pelo Padre Daniel Pinheiro, IBP.
Servida e cantada pelos seminaristas do Instituto Bom Pastor.

As filmagens e a edição foram feitas e cedidas pela TV Aparecida a quem agradecemos enormemente por isso.

[Aviso] Vigília de Adoração ao Santíssimo pelos sacerdotes

Transmitimos o aviso do Padre Daniel Pinheiro, IBP:

“Prezados, Salve Maria!

  1. Amanhã, 08/08, terça-feira, Festa do Santo Cura d’Ars no calendário tradicional, faremos uma pequena Vigília de Adoração ao Santíssimo Sacramentos, para que se possa rezar pelos padres.
  2. Ela será na intenção de todos os sacerdotes, em particular pelos sacerdotes da Arquidiocese de Brasília e pelos sacerdotes do Instituto Bom Pastor.
  3. A Vigília começa após a Missa de 19h30 e vai até meia-noite. Logo após a exposição será cantado o ofício de Completas.

Agradeço pela orações. Deus abençoe.”

[Sermão] Necessidade da união com Cristo

Sermão para a Festa da Transfiguração

06.08.2017 – Padre Daniel Pinheiro, IBP

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Ave Maria…

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Três vezes a Igreja nos faz ler o Evangelho da Transfiguração durante o ano litúrgico. No sábado antes do 2º Domingo da Quaresma, no próprio 2º Domingo da Quaresma e hoje, dia 6 de agosto, Festa da Transfiguração. A Festa da Transfiguração foi tornada universal na Igreja para comemorar a vitória dos cristãos sobre os muçulmanos em Belgrado em 1456, impedindo que toda a Europa caísse nas mãos do flagelo islâmico após a queda de Constantinopla em 1453. A notícia da vitória chegou em Roma exatamente na data em que se comemorava a Transfiguração, 6 de agosto. Para comemorar essa vitória e em ação de graças, o Papa Calisto III estendeu a festa para toda a Igreja.

O gesto do Papa foi excelente, pois a Festa da Transfiguração é um resumo do Evangelho, da doutrina católica e é somente com fidelidade plena aos Evangelhos que se pode resistir aos inimigos de Cristo, da Igreja e do homem, sejam eles quias forem: ateus, muçulmanos, liberais, materialistas, conservadores eivados de erro, falsos profetas, falsos doutores e falsos filósofos.

Na transfiguração, temos a Santíssima Trindade claramente afirmada. No Monte Tabor, onde ocorreu a Transfiguração, vemos também que aparece uma nuvem e que uma voz fala. A nuvem significa Deus. No deserto, no êxodo do Egito, Deus guiava o seu povo com uma nuvem durante o dia e de noite com uma coluna de fogo. Essa nuvem luminosa que vemos aqui no Evangelho é o Espírito Santo, caros católicos. E a voz que sai da nuvem e se dirige a Jesus Cristo, chamando-o de Filho, é Deus Pai, que coloca todas as suas complacências nEle. Jesus Cristo é, portanto, Filho de Deus Pai, Deus como Deus Pai. Temos aqui a Santíssima Trindade, um só Deus em três pessoas: Pai, Filho, e Espírito Santo.

Na Transfiguração, podemos entrever a união das naturezas divina e humana em Cristo. Nosso Senhor tinha em sua alma, desde o primeiro instante de sua concepção, a visão beatífica. A consequência natural da visão beatífica é a glorificação do corpo. Nosso Senhor deveria ter tido um corpo glorioso desde o início por causa da visão beatífica e por causa da união com a natureza divina ao ponto de formar uma só pessoa com ela. Todavia, Cristo não quis ter o corpo glorioso, para poder sofrer, para poder expiar os nossos pecados, reparando-os com toda a justiça e também para poder mostrar, por meio de seus sofrimentos, o seu amor por nós.

Vemos ainda Moisés e o profeta Elias, significando que a lei mosaica e os profetas, isto é, todo o Antigo Testamento está centrado em Nosso Senhor e na sua obra de redenção. Do que falavam os dois com o Messias nesse momento, senão sobre a redenção do gênero humano, motivo da encarnação do Verbo?

Devemos, porém, considerar atentamente as palavras de Deus Pai: “este é o meu filho amado, em quem pus todas as minhas complacências. Ouvi-O”. Deus colocou todas as suas complacências em seu Filho, em Jesus Cristo. Nada pode agradar a Deus a não ser em Jesus Cristo. Nosso Senhor é o centro de tudo. Se queremos agradar a Deus e alcançar o céu, devemos estar unidos a Nosso Senhor Jesus Cristo. Se dEle estivermos separados pelo pecado mortal, seremos desagradáveis a Deus, seremos colocados à esquerda de Deus e jogados no fogo eterno do inferno. Devemos, então, estar unidos a Cristo. Não há outro caminho. Ele é o caminho, a verdade, a vida.

Deus Pai nos dá o primeiro princípio, para estarmos unidos a Cristo: ouvi-lO. Ter a fé, a fé católica, ensinada por Cristo e pregada fielmente pela Igreja. Ter a fé que faz que nossa inteligência dê sua adesão às verdades reveladas por Cristo. Sem essa verdadeira fé, como diz São Paulo, é impossível agradar a Deus. Para estar unido a Cristo é preciso ouvi-lO e colocar em prática tudo aquilo que nos ensinou. É preciso, evidentemente, rezar. E isso Nosso Senhor também nos ensina no Evangelho de hoje. Ele se afasta, sobe o monte, leva somente três apóstolos para poder rezar com tranquilidade, afastando-se da multidão. Para estar unido a Cristo, é preciso frequentar e bem os sacramentos da penitência e da comunhão. Para estar unido a Cristo é preciso banir o espírito mundano, que quer conciliar Cristo e Belial, Cristo e o demônio, esse espírito que quer ficar com um pé na barca de Pedro, a Igreja, e outro pé na barca do mundo. Acaba se desequilibrando e cai. Nós estamos no mundo, vivemos nele, mas não somos do mundo, como diz o Salvador. Precisamos vencê-lo, seguindo a exortação do Senhor: Não tenhais medo, Eu venci o mundo. Para estar unido a Cristo é preciso que eu ame Jesus com todo o meu coração, com toda a minha alma, com todo o meu entendimento, e com todas as minhas forças. Não de um amor ineficaz e inoperante, mas efetivo.

Só em Cristo Deus encontra agrado. Devemos, portanto, estar unidos a Cristo profundamente. Assim viveremos bem, assim morreremos bem, assim chegaremos à felicidade eterna.

Temos ainda a lição que nos é dada pela ação de Pedro. Diante da visão tão agradável de Nosso Senhor transfigurado, quer ele fazer ali três tendas, uma para o Senhor, outra para Moisés e outra para Elias. A proposta de São Pedro nem é respondida; ela não é aceita. Pois para chegar à felicidade plena, é preciso passar antes pela cruz. São Pedro queria já viver a plenitude do céu na terra, mas sem passar pela cruz. Nosso Senhor ainda tinha que padecer e morrer antes de sua ressurreição. São Pedro, antes de poder contemplar eternamente a Deus, também teria que carregar a sua própria cruz em união com Cristo. Portanto, devemos nos unir a Cristo, mas nos lembrando de que Cristo é Cristo crucificado, loucura para o mundo.

Mas aquele que vive unido a Cristo tem também o conforto de Cristo. E a transfiguração mostra isso. Nosso Senhor quis mostrar toda a sua glória, a sua filiação divina para esses três apóstolos para que não se escandalizassem diante da sua paixão, crucificação e morte. Para que eles pudessem também confirmar os outros na fé. Assim, as cruzes dos que estão unidos a Nosso Senhor são temperadas com suas graças e ajudas mais do que suficientes. Não existe vida apenas com cruzes nem vida apenas com consolações. Teremos as duas coisas. E devemos aproveitar ambas para nos unir ainda mais a Nosso Senhor Jesus Cristo. Tudo coopera para a santificação do justo, para a santificação daquele que deseja efetivamente servir a Deus.

Consideremos, na transfiguração, todas as coisas, com nossos olhos e nossos ouvidos. É um resumo de nossa santa religião.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

[Sermão] Sermão do Cardeal Raymond Leo Burke na Festa de São Gregório Barbarigo

Apresentamos a transcrição do Sermão do Cardeal Raymond Burke pronunciado na Capela Nossa Senhora das Dores, IBP, na Festa de São Gregório Barbarigo, 17/06/2017.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Sou profundamente grato pela oportunidade de oferecer o Santo Sacrifício da Missa hoje, nesta bela Igreja de Nossa Senhora das Dores. Agradeço a sua Eminencia Reverendíssima, o Cardeal Sergio da Rocha, Arcebispo de Brasília, e a sua Excelência Reverendíssima, Dom Fernando Guimarães, Arcebispo Militar, pela calorosa acolhida e hospitalidade. Agradeço também a todos os que trabalharam tão bem e diligentemente para a minha primeira visita ao Brasil, em especial à Capital Federal de sua grande nação. Ofereço a Santa Missa nesta manhã pelas intenções da Arquidiocese de Brasília, da Arquidiocese Militar e de vossa nação.

Hoje, nós celebramos a memória de São Gregório Barbarigo, bispo e confessor do século XVII, na Itália. Ele foi um brilhante canonista que serviu a Santa Sé desde o tempo da sua ordenação sacerdotal. Mais tarde, serviu como bispo de Bérgamo e depois como bispo de Pádua. Durante o seu tempo de serviço como bispo de Bérgamo, foi criado cardeal da Santa Igreja Romana. Em cada serviço sacerdotal confiado aos seus cuidados, ele se mostrou ser o bom e fiel servo que fielmente usou os dons com os quais o Senhor o havia enriquecido para o bem de todo o rebanho. E, portanto, em sua morte, como a Igreja proclamou, ele ouviu essas palavras de Cristo, Sumo Sacerdote: “entra na Glória de teu Senhor”.

Ele escolheu São Carlos Borromeu como seu modelo no ofício episcopal, e foi tratado universalmente com estima e afeto como um digno e incansável pastor do rebanho de Nosso Senhor. Nas vidas dos santos, ele é lembrado com estas palavras: O zelo com o qual São Gregório conduziu seus deveres pastorais fez que ele fosse aclamado como um segundo Carlos Borromeu. Ele foi de fato exemplar em cada instante de sua vida, suas caridades foram enormes. Severo apenas consigo mesmo, ele era gentil para com todos, especialmente com aqueles que tinham problemas ou dificuldades. No que diz respeito ao ensino, ele fundou uma faculdade em um seminário para jovens padres que alcançou grande renome, ele deu, por sua conta, uma prensa manual para o seminário, além de uma bela livraria, particularmente ornada com os escritos dos Padres da Igreja e com as obras sobre as Sagradas Escrituras. São Gregório Barbarigo, em sua compaixão por cada membro do rebanho, sabia do grande dom com o qual havia sido ordenado e consagrado, o dom do qual eles tinham mais necessidade e pelo qual eles mais ansiavam: Jesus Cristo, o Filho de Deus Encarnado, reinando em glória na destra de Deus Pai, e ao mesmo tempo vivo para nós na Igreja através do derramamento do Espírito Santo, Deus, em nossos corações, desde seu glorioso Coração transpassado por nós.

Em ambas as dioceses nas quais ele serviu, fez as devidas visitas pastorais a cada paróquia, a fim de entender tão perfeitamente quanto possível as necessidades espirituais da porção do rebanho do Senhor confiada ao seu cuidado, e lhes prover tão plenamente quanto possível. Nele, nós vemos o cumprimento da imagem de nossos pais na fé do Antigo Testamento, louvados pelo livro do Eclesiástico: “Eis que um grande sacerdote foi julgado justo e perfeito, e no tempo da ira tornou-se o elo da reconciliação. Ninguém lhe foi igual em glória, guardou a lei do altíssimo e fez aliança com Ele”. Durante sua vida, São Gregório Barbarigo cooperou com a graça Divina pela qual ele foi conformado à pessoa de Cristo Sumo Sacerdote, conduzindo o ministério sacerdotal para a glória de Deus e a salvação das almas. Ele foi obediente a Nosso Senhor e aos sete dons do Espírito Santo dados a ele para a santificação de muitas almas. Quanto à relação de nosso Senhor com o  seu sacerdote, diz o texto inspirado do livro do Eclesiástico: “O Senhor fez uma aliança eterna com ele, deu-lhe um sumo sacerdócio, o revestiu de glória para executar o oficio do sacerdócio, e cantar os louvores do Senhor, e oferecer a Ele um incenso digno com odor de suavidade”. De fato, São Gregório Barbarigo, em virtude de sua consagração sacerdotal e episcopal e por sua cooperação com as muitas graças conferidas a ele, como sacerdote, pelo Senhor, tornou-se um modelo para bispos e padres, os principais colaboradores do bispo.

A festa de hoje nos lembra da necessidade de rezarmos por nossos bispos e por nossos padres, a fim de que eles tenham o cuidado de pastores com o rebanho de Nosso Senhor, e obediência a Ele em todas as coisas. Ainda que a vida de São Gregório Barbarigo nos mostre como a santidade do pastor inspira a santidade do rebanho, nós também sabemos que quando os bispos falham no seu dever de ensinar a fé com clareza e coragem,  no dever de administrar os sacramentos como  verdadeiros atos de Cristo em nosso meio e no dever de corrigir o rebanho de acordo com a lei moral, seguem-se a confusão e o erro que conduzem ao pecado grave.

Neste sábado, dia da semana em que honramos a Virgem Mãe de Deus de modo especial, recordemos a terceira parte da mensagem ou segredo de Nossa Senhora de Fátima. Deixando à parte a discussão se a terceira parte do segredo foi ou não revelada na íntegra, parece claro, pelos mais respeitados estudos das aparições de Nossa Senhora de Fátima, que esta parte do segredo está relacionada a forças diabólicas descarregadas sobre o mundo em nosso tempo e que entraram na própria vida da Igreja apartando as almas da verdadeira fé, e, portanto, do amor divino que emana do glorioso Coração trespassado de Jesus. Frei Miguel da Santíssima Trindade, em seu estudo monumental sobre as aparições de Nossa Senhora de Fátima, escreve o seguinte a respeito da terceira parte do segredo, também conhecida simplesmente como terceiro segredo: “Em suma, o triunfo do Coração Imaculado de Maria se refere muito mais ao terceiro segredo do que, propriamente, ao segundo, porque a restauração da paz será um dom celeste, mas não se trata propriamente falando do triunfo do Imaculado Coração de Maria. Sua vitória é de outra ordem, de ordem sobrenatural, sendo de ordem temporal, então, por consequência. Será, primeiro, a vitória da fé, a qual porá fim ao tempo da apostasia e às grandes faltas dos pastores da Igreja.” Tão horríveis quanto possam ser os castigos físicos associados à desobediente rebelião contra Deus, muito mais horríveis são os castigos espirituais, pois eles tem a ver com o fruto do pecado grave, a morte eterna. Como é claro, só a fé, que coloca o homem em relacionamento de união íntima com o Sagrado Coração de Jesus, pela mediação do Imaculado Coração de Maria, pode salvar os homens dos castigos espirituais que a rebelião contra Deus necessariamente traz sobre o seus propagadores e sobre o todo, seja da sociedade, seja da Igreja. O ensinamento da fé na sua integridade e com coragem é o coração do ofício dos pastores da Igreja, do Romano Pontífice, dos bispos em comunhão com a Sé de Pedro e de seus principais colaboradores, os padres. Por esta razão, o terceiro segredo é direcionado com particular intensidade àqueles que exercem o oficio pastoral na Igreja. Seu silêncio e o fracasso deles em ensinar a fé em fidelidade com o  ensino e a prática constantes da Igreja, através de uma abordagem superficial, confusa ou mesmo mundana, põem em perigo de morte, no mais profundo sentido espiritual, as próprias almas pelas quais eles foram consagrados para cuidar espiritualmente. Os frutos envenenados dos fracassos dos pastores da Igreja são vistos em uma forma de culto e de disciplina moral que não está de acordo com a lei divina.

Hoje, confiemos os nossos bispos e sacerdotes aos cuidados e intercessão da Mãe dos Sacerdotes e do seu amado filho São Gregório Barbarigo. Nós amamos com a mais ardente devoção a Bem-Aventurada Virgem Maria, Mãe de Nosso Salvador, que, antes de morrer na Cruz, deu-nos a ela como seus filhos queridos. A cada sábado, recordamos o grande mistério do amor de Deus por nós, no qual a nossa Bem-Aventurada Mãe participa de uma maneira especial. Ela, primeiro, acolheu nosso Salvador, Deus Filho, em sua vinda  ao mundo, na sua concepção sob o seu Imaculado Coração. Seu Coração, sem pecados, era como o Coração Divino dEle. Daquele momento em diante, ela foi de fato a sua primeira e melhor discípula. A Bem-Aventurada Virgem Maria é o modelo de confiança no Espírito Santo que nosso Senhor nos ensina nos Evangelhos. As setes dolorosíssimas dores de Nossa Senhora transpassaram seu Coração, mas através de todo o seu sofrimento, mais especialmente através da cruel paixão e morte de seu altíssimo Filho, ela confiou que a palavra de Deus a ela dirigida era cumprida. Nossa Bem-Aventurada Mãe ensina-nos a ter uma fé cada vez mais profunda em Nosso Senhor Jesus Cristo, ardente no amor e firmemente arraigada na esperança e na confiança nas promessas de Deus. A Virgem Maria e seu materno amor conduz-nos sempre a Cristo, cabeça de seu corpo, a Igreja, única na qual se encontram nossa vida e salvação. Peçamos a ela, hoje, com o mais profundo respeito e amor, que conduza nossos bispos e sacerdotes a Cristo e que sigam o seu materno conselho: “Fazei o que Ele vos disser”.

Com nossa Bem-Aventurada Mãe, nós agora nos aproximamos do altar do sacrifício de Cristo, nos colocamos com ela diante de Nosso Senhor, implorando seu perdão no derramamento de sua graça em nossas almas. Ele não deixará de ouvir as orações de sua Mãe e nossas orações. Ele irá se rebaixar para nos elevar a Ele, a fim de partilhar conosco as infinitas riquezas de misericórdia e amor de que está repleto o seu Coração. Pela a intercessão da Bem-Aventurada Virgem Maria, digne-se Nosso Senhor receber a oferta de nós mesmos a Ele. Que Ele digne-se a ouvir as nossas orações por nossos bispos e sacerdotes, a fim de que eles, à imitação de São Gregório Barbarigo, e com o auxílio de suas orações, sejam encontrados justos, guardando a lei do altíssimo e, portanto, exercendo o oficio sacerdotal para a glória de Deus e a salvação de muitas e muitas almas.

[Sermão] Guardar e pregar a fé: primeiro dever do sacerdote.

Sermão para o 7º Domingo depois de Pentecostes

23.07.2017 – Padre Daniel Pinheiro

 

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Ave Maria…

Caro Padre Marcos, faz alguns dias, na sua ordenação para o sacerdócio, o senhor ouviu: ao padre cabe abençoar, governar, oferecer (o sacrifício) e pregar. Ao fazer essas coisas excelentes, o padre age realmente em conformidade com Nosso Senhor Jesus Cristo. Quão sublime é a missão do sacerdote!

Cristo é a luz que iluminou todo homem, como nos diz São João, embora muitos não o tenham recebido. Ele é a Verdade. A Igreja, que perpetua a obra de do Salvador, é a coluna e o sustento da verdade (1Tim 3, 16). Propagar essa verdade, fazer brilhar para os homens a luz do Evangelho, eis a obra da Igreja ao longo dos séculos. A Igreja transmite os ensinamentos de Cristo. Sem isso, não pode haver a salvação. A salvação está no conhecimento da verdade, na fé unida às obras. E o responsável por essa pregação é o sacerdote.

São Paulo exige que o candidato ao sacerdócio seja capaz de ensinar (1Tim 3, 2; Tit. 1, 9; 2Tim 2, 24). Não precisa ser humanamente eloquente, não precisa ter os diplomas mais elevados, mas precisa conhecer bem Nosso Senhor Jesus Cristo, ter aquela ciência supereminente de Cristo e ser apto a transmiti-la. Deve o sacerdote abordar os temas litigiosos em doutrina, deve impor a definição de verdade, refutar o erro e convencer os contraditores, sendo possível.

O ensinamento da doutrina tem, nos textos de São Paulo, um lugar de imenso destaque. O sacramento da ordem, caro Padre Marcos, institui o homem como ministro da palavra divina. Assim, São Paulo diz que o padre deve proclamar a palavra de Deus (Tit. 2, 5; 2Tim 2, 9), a palavra da verdade (2Tim 2, 15), deve ressoar as palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo (1Tim 6, 3; Tit.2, 8). Deve pregar as palavras da fé (1Tim 4, 6). A própria vida pública do Salvador foi uma incessante pregação. E Ele enviou seus discípulos para ensinarem e pregarem no mundo inteiro. Assim, São João Crisóstomo dirá que “aquele que não sabe ensinar a verdadeira doutrina deve afastar-se da cátedra do ensino.” E que missão tremenda a de pregar a mesma palavra do Salvador. Que missão tremenda a de participar do ensinamento do Verbo Encarnado. O sacerdote que sabe em que consiste o seu dever de ensinar, não se desviará nem um jota da doutrina de Cristo, isto é, da doutrina católica.

São Paulo insiste com enorme veemência, nas epístolas a Tito e a Timóteo, na integridade da doutrina e na obrigação de ensinar a doutrina em toda a sua pureza. São Paulo pede a Timóteo que fique em Éfeso e lhe confere sua autoridade apostólica para combater, antes de tudo, os falsos doutores (1Tim. 1, 3; 6, 3-5). Em Creta, Tito deverá silenciar os propagandistas de mitos e que abusam da credulidade das pessoas (Tit. 1, 10-11; 3, 9).

Ora, esses perigos, caro Padre Marcos, contra os quais o apóstolo São Paulo alerta, não são passageiros nem restritos àqueles momentos ou àqueles lugares. Os ataques contra a fé são perpétuos, pois os homens têm sempre sede de novidades, ou de erros antigos apresentados sob nova roupagem. Sempre há homens que buscam sistemas ou invenções que agradem ao seu orgulho e sensibilidade. E eles vão buscar esses sistemas e invenções com qualquer mestre e se tornam vítimas desses impostores. O apóstolo é severo contra esses erros. Esses falsos doutores e profetas pretendem conhecer a Deus, mas são abomináveis a Deus. Cheios de orgulho, pretendem chegar a um alto conhecimento, bem que, no fundo, não saibam nada do que interessa. Isso não impede que falem muito, que discorram à toa sobre os mais variados temas e que se coloquem como doutores. Suas afirmações são loucuras e se disseminam insidiosamente como um câncer, principalmente hoje com as chamadas redes sociais. Eles provocam, com seus sistemas errôneos e suas novidades contrárias à doutrina, discussões e divisões. São independentes, indóceis e obstinados quanto à verdadeira religião e se opõem a ela.

Essa mentalidade herética se encontra hoje disseminada como se encontrou nos tempos anteriores aos nossos. E é espantoso ver os católicos e sobretudo padres que se entregam facilmente às inovações intelectuais, filosóficas ou sociais. Têm a posse da verdade, mas inclinam a orelha às inovações. Têm a doutrina de sempre de Cristo, têm a doutrina de sempre da Igreja, mas buscam a solução nas novidades que pipocam aqui e acolá.

Caro Padre Marcos, há e deve haver uma oposição constante entre o sacerdote e o herege, entre o padre de Nosso Senhor Jesus Cristo e o propagador de mentiras e de fábulas. O padre refuta o herege e sua heresia. Esse, em geral, não se submete, infelizmente. E o que está em jogo é a salvação das almas. O pastor tem, portanto, o dever de promover a vida cristã dos fiéis, mas seu primeiro dever, como fundamento disso, é defender o rebanho de toda contaminação doutrinal. Para isso, deve o sacerdote permanecer firme na fé. Deve preservá-la por uma vida de piedade. Deve aprofundá-la também por seus estudos. Deve ensinar aos fiéis a doutrina tradicional, isto é, aquela que foi transmitida por Cristo e pelo Espírito Santo aos apóstolos e que se transmite e se transmitirá na Igreja e pela Igreja até o fim dos tempos. O sacerdote deve afastar toda novidade, toda inovação. A doutrina de Cristo não suporta novidades nem mudanças. Ela já foi dada integralmente pelo Senhor aos apóstolos. Se alguém ensina algo contrário ao que a Igreja sempre ensinou não deve ser ouvido. O próprio São Paulo, na Epístola aos Gálatas (1, 8), diz: ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie um Evangelho diferente daquele que vos temos anunciado, seja anátema. Se o próprio São Paulo ou um anjo do céu anunciasse uma doutrina diferente da doutrina de sempre, não deveriam ser ouvidos. E assim é. Se alguém ensina algo contra o que a Igreja sempre ensinou, querendo inverter o Evangelho, não pode ser ouvido.

O Padre, em seu zelo para evitar toda contaminação doutrinal do rebanho, não deverá desviar nem à esquerda nem à direita. Como os Macabeus (1Macabeus 2,22), diante do rei Antíoco, diziam: “Não obedeceremos a estas ordens do rei, não nos desviaremos da nossa religião, nem para a direita, nem para a esquerda.” O sacerdote não se desvia da doutrina católica nem à esquerda, nem à direita, como tantos o fazem hoje para um lado e para o outro com prejuízo enorme das ovelhas. O sacerdote não se deixa levar pelo canto da sereia da suposta alta cultura, pretexto constante ao longo dos séculos para propagar o erro, como menciona Leão XIII em sua Encíclica Humanum Genus contra a maçonaria. O sacerdote funda a cultura sobre o Evangelho. O sacerdote não se deixa levar por um erro menor para combater um maior. O bom sacerdote não admite o erro na doutrina. O bom sacerdote não admite a aliança com os inimigos jurados da Igreja, como as sociedades maçônicas e secretas. Não aceita a aliança com qualquer princípio errôneo, como os princípios liberais, por exemplo. Não aceita uma mera forma de governo como solução dos problemas, como, por exemplo, a monarquia ou a democracia, ainda mais quando os representantes de tal forma de governo aderem a falsos princípios. O bom padre sabe que – como diz o Padre Lemoyne, primeiro e melhor biógrafo de Dom Bosco – o demônio não se converte e não se apaga e que se ele é introduzido em casa (por uma falsa doutrina, ainda que mínima, por exemplo), ele trará consigo a traição e a morte. Foi o erro, por exemplo, do Rei Carlos Alberto de Itália que quis utilizar os liberais como meio para fazer a Itália livre e que para que nela florescesse a religião. Terminou engolido pelo liberalismo. O sacerdote sabe que a mais temível perseguição não é a sangrenta. Ele sabe que o pior inimigo é o erro introduzido sutilmente nas almas sob a aparência de verdade. Ele sabe que é essa a estratégia do inimigo utilizada no passado e ainda utilizada largamente hoje. Ele sabe que o pior inimigo são os falsos profetas, os falsos doutores que se apresentam com pele de cordeiro, com aparência católica, mas que são lobos devoradores, como diz Nosso Senhor. Devoradores da fé, da inteligência, dos bons costumes e, muitas vezes, dos bolsos.

Mas, diante de todos esses males, de todos os erros, o sacerdote deve guardar o depósito da fé e da moral. Ele sabe que um só erro na fé destrói toda a fé e toda a religião. Que um só erro na doutrina ou na moral basta para fazer perecer todo o rebanho. Ele sabe que mesmo as ambiguidades e palavras menos precisas podem levar à perdição. Prega a palavra, insiste a tempo e fora de tempo, repreende, corrige, admoesta com toda a paciência e doutrina, porque virá tempo em que (muitos) não suportarão a sã doutrina, mas acumularão mestres em volta de si, ao sabor das suas paixões, (levados) pelo prurido de ouvir. Afastarão os ouvidos da verdade e os aplicarão às fábulas. Tu, porém, vigia sobre todas as coisas, suporta os trabalhos, faze a obra de evangelista, cumpre o teu ministério. Combate, até ao fim, o bom combate, guardei a fé. E terá preparada a coroa da justiça que o Senhor, justo Juiz, lhe dará naquele dia. São as palavras de São Paulo a Timóteo e que um padre deve ter profundamente marcadas em letras de fogo na sua alma. Guardar a fé e pregar a fé.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.