[Sermão] Jesus Cristo, o Filho do homem: em tudo, Ele agir com caridade infinita para conosco

Sermão para o 2º Domingo da Quaresma

01/03/2015 – Padre Daniel Pinheiro, IBP

 

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Ave Maria…

Caros católicos, continuemos hoje com o nosso propósito de conhecer melhor alguns aspectos de Nosso Senhor Jesus Cristo. No último Domingo, o 1º da Quaresma, falamos daquele título mais glorioso de Nosso Senhor, o título de Filho de Deus. Filho de Deus não por adoção, mas por natureza. Nosso Senhor é verdadeiramente Deus. Ele é o Filho de Deus encarnado. Outro título que aparece com frequência nos Santos Evangelhos é o título de Filho do homem. E, enquanto Cristo esteve entre os homens, isto é, até a sua Ascensão, o título de Filho do homem foi usado somente por Ele próprio. No final do Evangelho de hoje, Nosso Senhor o utiliza: “Não digais a ninguém o que vistes, até que o Filho do homem ressuscite dos mortos.”

A expressão “filho do homem” ocorre no Antigo Testamento em distintas ocasiões. Em todas elas, com exceção de uma, “filho do homem” significa simplesmente homem. Assim, está dito, por exemplo, que Deus não é como o homem, para mentir, ou como o filho do homem para mudar (Números 23, 19). Todavia, há uma vez em que “filho do homem” não significa homem pura e simplesmente, mas designa o homem-tipo, o homem por excelência. Diz o profeta Daniel (7, 13 e ss.): “Eu estava, pois, observando estas coisas durante a visão noturna, e eis que vi como que um Filho do homem, que vinha com as nuvens do céu e que chegou até o Ancião. (…) E o Ancião deu-lhe o poder, a honra e o reino; e todos os povos e tribos e línguas o serviram; o seu poder é um poder eterno que lhe não será tirado e o seu reino não será jamais destruído.” Portanto, está claro que o Filho do homem visto pelo profeta Daniel não é um simples homem como outro qualquer. É um filho do homem, mas que vem nas nuvens do céu. Filho do homem, para deixar clara a natureza humana. Mas que vem nas nuvens do céu para deixar clara a natureza divina e o poder divino. No Antigo Testamento com frequência Deus é apresentado sobre as nuvens do céu (Ex. 14, 24; Salmo 17, 10). De fato, os judeus da época de Jesus entendiam bem o título “Filho do homem” como designando o messias, que não seria um simples homem. Assim, Caifás pergunta a Cristo se Ele é o Messias, o Filho de Deus. Nosso Senhor confirma e diz que Caifás verá depois o Filho do homem sentado à direita do poder de Deus e vir sobre as nuvens do céu. Caifás compreende a alusão à profecia de Daniel e rasga as vestes por compreender também que Cristo se atribuía a natureza divina não só ao confirmar que era o filho de Deus, mas também ao dizer que era o Filho do homem que voltaria sobre as nuvens do céu. O Filho do homem representava, para os judeus, o Deus que se fez homem.

Jesus se chama Filho do homem nos Evangelhos 82 vezes. Por que Nosso Senhor insiste tanto nesse título? O Filho do homem?  Em primeiro lugar, Nosso Senhor quer afirmar a sua natureza humana. Ele é homem. Mais do que isso, Ele é o Filho do homem, ele é o homem por excelência, o homem cuja perfeição está acima de todos os homens. Ele é um homem, com uma alma e um corpo. Nosso Senhor é verdadeiramente homem. Aquele que era Deus, o Verbo, sem deixar de ser Deus, sem sofrer nenhuma mudança, tornou-se carne, tornou-se homem. O Verbo assumiu a natureza humana. Em Cristo, temos uma só pessoa, a pessoa divina, do verbo de Deus, mas temos duas naturezas: a natureza divina e a natureza humana. Nosso Senhor é verdadeiramente e perfeitamente Deus. Ele é verdadeiramente e perfeitamente homem. Em tudo, assim, Nosso Senhor é homem como nós, exceto no pecado e no que pode levar ao pecado. Em Nosso Senhor não houve nenhum tipo de defeito moral.

Ele tinha, então, um corpo como o nosso. São Tomé até coloca o dedos nas chagas gloriosas desse corpo depois da ressurreição. São Mateus e São Lucas dão a genealogia de Cristo. Ora, a genealogia não é para os espíritos, mas para os corpos. Nosso Senhor nasce envolto em panos, Ele é circuncidado, exerce a profissão de artesão carpinteiro, come, dorme encostado em uma barca, senta-se na beira de um poço de água, tem sede. Fala, percorre o que se chama hoje, por causa dEle, de Terra Santa. Sofre dores incríveis, morre e é sepultado. Mais do que tudo isso, Ele tem um corpo ao ponto de transformá-lo em alimento: “Em verdade, em verdade vos digo: Se não comerdes a carne do Filho do homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós”, diz Nosso Senhor no Evangelho de São João (6, 54). E, na véspera de sua morte, transforma o pão em seu corpo na última ceia, para alimentar as nossas almas. É o seu corpo – a sua vida – que é oferecido pela remissão dos pecados.

Nosso Senhor tinha também uma alma como a nossa, salvo na impossibilidade de pecar e de se inclinar ao pecado ou a qualquer desordem moral. Tudo na alma de Nosso Senhor estava perfeitamente ordenado a Deus. Nosso Senhor tinha, então, uma inteligência humana, a mais perfeita que já existiu, e que conheceu toda a verdade e todas as coisas ainda na terra. Nosso Senhor tinha uma vontade humana perfeitamente e livremente submetida à vontade divina, incapaz de pecar, incapaz de qualquer traço de pecado. Com sua alma e seu corpo, Nosso Senhor tinha também emoções e sentimentos. Nunca, porém, desregrados, mas sempre submetidos à sua razão e à sua vontade, razão e vontade que estavam, por sua vez, plenamente submetidas a Deus. Nosso Senhor não tinha nenhum sentimento ou emoção desregrado, irracional, pecaminoso, nada, absolutamente nada. Desse modo, Ele tinha uma imensa ternura por sua santíssima mãe (Jo 19, 27), tinha predileção por São João Evangelista, teve tristeza pela morte de Lázaro, teve compaixão da multidão que o seguia durante dias sem comer; teve a angústia mortal no Jardim das Oliveiras, a santa ira para expulsar os vendilhões no templo e assim por diante. Tudo perfeitamente ordenado.

Sim, Nosso Senhor era homem e era o homem perfeito. Ele usa, então, o título de Filho do homem para afirmar, primeiramente e claramente, a sua humanidade. Em segundo lugar, Nosso Senhor Jesus Cristo se designa com frequência como o Filho do homem para afirmar que Ele é o Messias prometido ainda a Adão e Eva. Ao afirmar ser o Filho do homem, os judeus se lembravam imediatamente da profecia de Daniel – que já citamos – profecia que fala, evidentemente, do Messias. É ele o Salvador. Em terceiro lugar, como já se pode compreender, Nosso Senhor se designa como Filho do homem porque ao se dizer Filho do homem ele se afirma homem, mas sem nunca deixar de lado a sua divindade. A profecia de Daniel, como vimos, fala de um Filho de homem que virá sobre as nuvens, ou seja, de um homem que é também Deus. Ao se designar como Filho do homem, Cristo afirma a sua humanidade, mas sempre lembrando aos ouvintes de sua divindade, ainda que de maneira sutil. Mais uma vez, caros católicos, Nosso Senhor Jesus Cristo é verdadeiramente homem e verdadeiramente Deus. Durante toda a história do cristianismo, houve erros que negaram ou a humanidade ou a divindade de Cristo. Se Cristo não é homem, não poderia nos salvar porque não seria um de nós. Se Cristo não é Deus, seria meramente um de nós, incapaz de satisfazer pelos nossos pecados. A redenção perfeita, a justiça perfeita exige que Jesus Cristo seja Deus e homem. Negar sua humanidade ou sua divindade é negar a redenção.

Vejamos agora, juntos com São Tomás de Aquino, como o Filho do homem viveu entre os homens. Antes de tudo, foi convenientíssimo que Cristo convivesse com os homens, em vida verdadeiramente apostólica, em vez de se entregar a uma vida puramente contemplativa e solitária. Foi conveniente, primeiro, para nos manifestar a verdade. Nosso Senhor diz a Pilatos (Jo 18, 37): “vim ao mundo para dar testemunho da verdade” Para tanto, não devia levar uma vida solitária, ocultando-se, mas manifestar-se em público, pregando abertamente. E dizia (Lc 4, 42): “É preciso que anuncie o reino de Deus também em outras cidades, porque para isso fui enviado.” Nosso Senhor quis também viver entre os homens e não solitariamente a fim de livrar os homens do pecado. Ainda que ele pudesse ter atraído todos a si morando em um mesmo lugar, preferiu andar por aquelas regiões para nos dar o exemplo de que devemos correr atrás das ovelhas perdidas. Quis também viver entre os homens e não solitariamente para que tivéssemos acesso a Deus. Ao conversar com os homens nos deu confiança e nos aproximou dEle. Claro está, porém, que Nosso Senhor não passava o dia todo pregando, em uma vida puramente ativa, relegando a contemplação. Não, Nosso Senhor levava uma vida mista, em que a ação decorre da oração, da contemplação. Afastava-se com frequência da multidão, sobretudo ao fim do dia, para rezar, para fugir da ostentação do mundo e de seu aplauso, para descansar também.

Nosso Senhor viveu entre os homens igualmente acomodando-se aos usos e costumes legítimos de seus contemporâneos, pois não teria sido muito conveniente que Cristo levasse uma vida demasiadamente austera. Acabamos de ver que era conveniente que Cristo vivesse entre os homens e não que vivesse de maneira solitária. Ora, aquele que vive com outros tem que se acostumar aos seus usos e costumes legítimos. Assim, no comer, no beber, etc. foi conveniente que Cristo se acomodasse aos demais. Todavia, não devemos achar que a vida de Cristo não foi austera ou dura. Ao contrário, foi uma vida cheia privações e sofrimentos. Nasceu em um estábulo, fugiu em seguida para um país estrangeiro, exercitou um rude trabalho manual durante trinta anos, viveu de esmola durante sua vida pública, não tinha onde reclinar a cabeça, passava com frequência noites em oração, jejuou durante quarenta dias, sofreu as terríveis dores da paixão, morreu despojado de tudo, até de suas vestes, foi sepultado em sepulcro emprestado. Todavia, pela razão apontada acima, esteve presente em ocasiões normais: por exemplo, nas bodas de Caná, no banquete na casa de Zaqueu, mas sempre para levar a salvação, para evitar os pecados.

Foi muito conveniente também que Nosso Senhor tenha vivido entre os homens uma vida pobre e desapegada dos bens terrenos. Isso porque convém que os pregadores da palavra de Deus possam entregar-se inteiramente à pregação e que, para tanto, estejam livres dos cuidados seculares. Também foi conveniente a pobreza de Cristo para nos enriquecer. Da mesma forma que por sua morte corporal nos deu a vida espiritual, suportou a pobreza corporal para nos encher das riquezas espirituais, como diz São Paulo (2Cor 8, 9): “sendo rico, se fez pobre por amor de nós, para que vós fôsseis ricos por sua pobreza.” Foi conveniente que Jesus levasse uma vida pobre também para que não se atribuísse sua pregação ao desejo pelas riquezas. Se tivesse riquezas, poderia parecer que se entregava à instrução dos homens mais pela ganância do que pela salvação dos homens. Foi conveniente que Cristo levasse uma vida pobre para que o poder de sua divindade aparecesse mais claramente. Nosso Senhor tinha, claro, quem o ajudasse e tinha o necessário para o seu sustento e o dos discípulos, sendo mencionada no Evangelho (Jo 12, 6) a bolsa de moedas que servia para esse fim, e que era guardada por Judas Iscariotes, o traidor.

Eis, então, Jesus Cristo, o Filho do homem, o Verbo de Deus que se fez homem, que veio ao mundo, viveu entre os homens para nos ensinar as verdades eternas. Em tudo, absolutamente em tudo, Nosso Senhor agiu com caridade infinita para conosco, para nos levar para o céu. Ele não nos chama para a imundície, mas para a santidade, como diz São Paulo na Epístola de hoje. Junto com o Trato da Missa desse 2º Domingo da Quaresma, louvemos ao Senhor, porque Ele é bom, porque eterna é a sua misericórdia. Ditosos os que guardam a justiça, isto é, os mandamentos, e a praticam o tempo todo. Lembrai-vos, Senhor, do vosso povo na vossa bondade e visitai-nos com a vossa salvação. Arrependidos de nossos pecados, convertamo-nos ao Senhor. Ele é bom. Aproveitemos enquanto Ele nos concede misericórdia.

Em nome do pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

[Sermão] Jesus, Filho de Deus: amemos a Jesus Cristo, Ele é Deus.

Sermão para o 1º Domingo da Quaresma

22.02.2015 – Padre Daniel Pinheiro, IBP 

[Sermão] Programa para a Quaresma: a Cruz, a caridade, a oração e a batalha contra o defeito dominante (Quinquagésima 2013)

[Sermão] Tentações: razões, fases, modos de vencê-las (1º Domingo da Quaresma 2013)

[Sermão] A importância e necessidade do jejum (1º Domingo da Quaresma 2014)

Em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Amém.

Ave Maria…

Estamos no início desse tempo de misericórdia que é a Quaresma. A santa Igreja nos traz, nesse primeiro domingo da Quaresma, o Evangelho da tentação de Cristo, para nos dar o exemplo de luta contra o pecado, contra as ciladas do demônio. Tratamos disso especificamente em sermão passado (ver link acima). Na Quaresma, como falamos, e como em todas as coisas da nossa vida, devemos buscar avançar no amor a Jesus Cristo. Para isso, devemos combater nossos pecados e defeitos, mas também crescer no conhecimento de Jesus Cristo. Só podemos amar aquilo que conhecemos. Hoje e nos próximos domingos, consideremos justamente um pouco melhor alguns aspectos de Nosso Senhor Jesus Cristo, para poder conhecê-lo melhor e amá-lo mais profundamente.

Jesus Cristo, caros católicos, é o Filho de Deus. No Evangelho de hoje, o demônio, na primeira tentação, ao se dirigir a Jesus Cristo, diz: “Se és o Filho de Deus…” O demônio não sabia ao certo quem era Jesus Cristo. Tinha já indícios de que Jesus era o Messias e o Filho de Deus, mas não tinha certeza e continuou ainda sem essa certeza por certo tempo. Nosso Senhor é verdadeiramente o Filho de Deus e assim Ele se apresentou diante dos homens. Filho de Deus, é esse o título mais glorioso de Nosso Senhor Jesus Cristo, no qual se fundam todos os outros. Foi por ser Filho de Deus que Nosso Senhor conquistou tantos discípulos ao longo da história e tantos inimigos. Ele é Filho de Deus não no sentido de uma filiação adotiva, mas Ele é Filho de Deus no sentido natural. Jesus é Deus. Jesus é Deus Filho encarnado, Deus Filho feito homem.

Na Sagrada Escritura, nós vemos o título de Filho de Deus aplicado a outras pessoas. Os anjos são chamados em algumas oportunidades filhos de Deus (Salmo 28, 1; Daniel 3, 92). Nosso Senhor chama os pacíficos de filhos de Deus no sermão da montanha (Mateus 5, 45). São João (Prólogo) diz que aos que recebem Jesus é dado o poder de se tornarem filhos de Deus. Aqui, porém, se fala da filiação divina pela graça, pela união com Deus em virtude da fé e da caridade. É uma filiação adotiva. Participamos da natureza divina, mas não adquirimos a natureza divina. Com Jesus Cristo é bem diferente. Umas trinta vezes “filho de Deus” se encontra no Evangelho para designar Jesus Cristo. Em muitas dessas trinta vezes “filho de Deus” aparece simplesmente como sinônimo de Messias. Todavia, em algumas delas, “filho de Deus” significa realmente a filiação divina de Cristo por natureza. Citemos apenas duas nos Evenglhos Sinóticos (Mateus, Marcos, Lucas). (1) Quando Jesus é preso, o Sumo Sacerdote lhe pergunta se ele é o Filho de Deus. Nosso Senhor confirma e o sumo sacerdote rasga as vestes dizendo que o Salvador blasfemou, pois se fez Deus. (2) Já depois de ressuscitado, Nosso Senhor manda os seus discípulos batizarem em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. O Filho de Deus, que é Cristo, é também Deus, como o Pai e o Espírito Santo. No Evangelho de São João, isso é ainda mais claro. A finalidade maior do Evangelho de São João é afirmar e mostrar claramente a divindade de Cristo. O Evangelista nos diz, já no final de seu Evangelho (20, 31): “todas essas coisas foram escritas para que acrediteis que Jesus é o Cristo, Filho de Deus.” Abunda em São João o uso por Cristo do título de Filho de Deus para significar a sua divindade, a sua igualdade de natureza com o Pai. “Eu e o Pai somos um.” (10, 30). E é sobretudo na última ceia, pouco antes de sua paixão e morte, que Nosso Senhor fala ainda mais claramente aos apóstolos, aos quais foi confiada a Missão de ensinar tudo o que Jesus falou. Nessa ocasião, Nosso Senhor diz: “E, agora, Pai, glorifica-me junto de ti mesmo, com aquela glória que tive em ti, antes que o mundo fosse” (17, 5) Continua Jesus dizendo que todas as coisas do Filho são do Pai e que todas as coisas do Pai são do Filho (17, 10).

Além do próprio título de “filho de Deus” todo o Evangelho abunda para mostrar que Cristo é realmente Deus, como o Pai. Sua preexistência: antes que Abraão fosse, eu sou; São João Batista diz que Cristo vem depois dele, mas que existe antes dele, sendo que Cristo nasceu depois de são João Batista. Ele é o Verbo de Deus pelo qual foram feitas todas as coisas, como nos diz o Prólogo de São João. Ele afirma ter todo o poder na terra e no céu, como está no final do Evangelho de São Mateus. Só Deus tem todo o poder. Ele se diz o senhor do sábado, superior à Lei Mosaica, que era a lei dada por Deus. Apenas Deus pode ser maior que a lei dada por Deus. Ele se diz maior que todos os profetas e patriarcas. A missão transcendental de Jesus Cristo, as relações que o unem ao Pai de uma maneira única demonstram também a sua divindade. Os milagres e as profecias, que confirmam a veracidade dos ensinamentos de Cristo, confirmam de modo particular o seu ensinamento de que Ele é uma pessoa divina.  O demônio não pode absolutamente nada contra Ele, como nos mostra também o Evangelho de hoje. Nosso Senhor está absolutamente livre do pecado. Mais do que isso, Ele perdoa os pecados, para escândalo dos fariseus que sabem que só Deus pode perdoar os pecados. Eles compreendem que Cristo ao perdoar os pecados em seu próprio nome se faz Deus. E Ele transmite aos apóstolos o poder de perdoar os pecados em seu nome. Ele se chama “luz do mundo”, “caminho, verdade e vida”. Ninguém pode se chamar assim se não é Deus. Ele se coloca como objeto de amor superior ao pai e à mãe de cada um. Ele deve ocupar o primeiro lugar na hierarquia do nosso amor: “se alguém ama pai ou mãe mais do que a mim, não é digno de mim; o que ama seu filho ou sua filha mais do que a mim, não é digno de mim.” A sublimidade da doutrina dogmática e moral de Nosso Senhor também indica a sua divindade. Claro, santos e profetas ensinaram coisas elevadas e divinas, mas Nosso Senhor ensina um sistema total, orgânico, plenamente harmônico de doutrina. E Ele ensina em nome próprio, como Mestre que age por conta própria, exercendo as funções que recebeu do Pai e falando de tudo o que vê no seio do Pai. Nosso Senhor funda uma sociedade religiosa, que é a Igreja Católica, e o faz sobre um pescador, tornando-o uma rocha firmíssima. Promete a assistência à sua igreja até a consumação dos séculos. Funda essa sociedade sem nenhum temor de que algo possa dar errado, ao contrário dos homens temerosos diante das adversidades em suas empresas. Os adversários de Jesus reconhecem que Ele se afirma “Filho de Deus” no sentido natural e sabem que os milagres e seus ensinamentos confirmam que Ele é Deus e que Ele vai acabar arrastando todo o povo consigo. É por isso que querem matá-lo: porque Cristo se fez igual a Deus. Em um desses momentos os judeus dizem: “Não é por causa de nenhuma obra boa que te apedrejamos, mas pela blasfêmia, e porque Tu, sendo homem, te fazes Deus.” E Jesus escapou das mãos deles nos diz o Evangelho. Aos escapar tão simplesmente das mãos deles, essa e outras vezes, ao escapar tão simplesmente de pessoas cheias de ódio e já com pedras na mão, Nosso Senhor mostra também que tinha domínio completo sobre todas as coisas, Ele é Deus. Todo o Evangelho nos mostra a divindade de Cristo.

Aquele que nós ofendemos pelos nossos pecados, aqueles que nós pregamos na cruz pelos nossos pecados é Deus. Não é simplesmente um homem muito unido a Deus, um homem muito perfeito. Não, Ele é Deus feito homem para nos salvar, caros católicos. Consideremos tudo o que Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, fez por nós, pobres pecadores para nos salvar. Deus que veio à terra, viver entre os homens miseráveis, para salvar os homens.

Com nossas lágrimas e penitências nesse tempo da Quaresma, queremos, Senhor abandonar as nossas iniquidades e voltar-nos a Vós. É grande o nosso pecado, Senhor, mas perdoai-nos, pois nos confessamos culpados. Dai remédio para os nossos males, concedei-nos a graça do perdão. Dai-nos fazer boa confissão. Queremos, Jesus Cristo, Deus e homem verdadeiro, amar-Vos com toda a nossa alma, com todas as nossas forças. Como nos diz São Paulo na Epístola: Deus está pronto para ouvir no tempo aceitável e nos ajudar no dia da salvação. É agora o tempo aceitável. É agora o tempo da salvação. Não tardemos em amar Jesus Cristo.

[Sermão] Somos pó. As criaturas são menos que pó. Amemos a Deus.

Sermão para a Quarta-Feira de Cinzas

18.02.2015 – Padre Daniel Pinheiro, IBP

Aviso

Estamos hoje na quarta-feira de cinzas, primeiro dia da Quaresma. Dia de jejum e abstinência. Abstinência é não comer carne, obrigando todos os fiéis católicos, a partir dos 14 anos. Jejum é fazer uma refeição normal, em geral o almoço, e duas colações, uma de manhã e uma de tarde, que, juntas, não cheguem a uma refeição normal. E não se deve comer nada entre as refeições. Todos os católicos entre dezoito e sessenta anos estão obrigados ao jejum, a não ser por motivo de saúde, ou por trabalho mais duro, ou uma mulher pela gravidez, por exemplo.

Recomendo muito, prezados católicos, que escolham um bom livro para acompanhá-los durante a quaresma. O livro de Santo Afonso sobre a Paixão, por exemplo, ou as Meditações Diárias do mesmo santo; a Prática do Amor a Jesus Cristo ainda de Santo Afonso; Filotéia de São Francisco de Sales, ou o Combate Espiritual, do Padre Scupoli, os Exercícios de Perfeição Cristã do Padre Rodrigues, ou uma boa Vida de Cristo. Algo que possa elevar a alma nesse tempo santo.

Sermão

Memento homo quia pulvis est et in pulverem reverteris. Lembra-te, ó homem, que és pó e que ao pó retornarás.

Entramos hoje, com a quarta-feira de cinzas, no tempo da Quaresma, caros católicos. É tempo da misericórdia divina. É tempo de grandes graças. É tempo, então, de nos convertermos ao Senhor. É tempo de deixarmos nossos pecados, é tempo de pararmos de ofender a Deus com os nossos pecados. É tempo de buscar o sacramento da confissão.

É um tempo de graça porque nos lembra, desde o início, que somos pó e ao pó retornaremos. Diante de Deus, nós somos como um nada. E se nós, seres humanos, a mais perfeita criatura que vive na terra, somos pó, o que dizer das outras criaturas terrenas? O que dizer dos bens terrenos aos quais somos apegados de maneira desordenada. Se o homem é pó, o que são os bens desse mundo? São nada. Somos pó, os bens desse mundo são ainda menos que pó. Não podemos trocar Deus, o bem infinito e nossa felicidade eterna, por nós mesmos ou pelos bens desse mundo. Não podemos trocar Deus e ofendê-lo por um monte de pó. O tempo da Quaresma é tempo de pensarmos nos novíssimos: na morte, no nosso juízo particular – que ocorrerá no momento de nossa morte -, no inferno, no paraíso. Muito útil o pensamento de tudo isso para nos convertermos a Deus. Somos pó e ao pó retornaremos.

A Quaresma é tempo de penitência. Claro, estamos obrigados a fazer durante todo o ano as penitências impostas pela Igreja, principalmente às sextas-feiras, em que é bom manter a penitência tradicional de abstinência de carne. Todavia, no tempo da Quaresma, devemos reforçar ainda mais essas práticas penitenciais. Nossas práticas quaresmais devem ser em três ordens: mortificação, oração e caridade para com o próximo. O belo prefácio da Quaresma, que hoje cantamos e que recitaremos ao longo de todo esse tempo, mostra os bons efeitos das práticas quaresmais, de modo geral, e do jejum e da mortificação em particular: os vícios são reprimidos, a mente é elevada, a virtude é concedida por Deus com largueza e Ele também nos concede o prêmio pela virtude, que é o céu. Com maior afinco devem procurar exercer as práticas quaresmais as pessoas afetadas pelo pecado contra a castidade. É o pecado que mais leva as almas ao inferno. É bom nos entregarmos então às práticas penitenciais na Quaresma, sempre guardando a prudência, de modo que a penitência não nos impeça de cumprir nossos deveres de estado. E devemos sempre manter a humildade e a discrição nas práticas penitenciais. Se as fizermos com orgulho não obteremos nenhum efeito positivo, mas, ao contrário, teremos apenas prejuízos espirituais. E devemos perseverar nessas práticas, mesmo se falharmos uma vez ou outra.

Todavia, essa penitência mais corporal, bem como todas as outras práticas quaresmais são apenas um meio – necessário, diga-se – para se chegar à penitência que realmente nos interessa: o arrependimento e a detestação dos nossos pecados, por um lado, e o amor a Deus pelo outro. Também isso está no prefácio: reprimir os vícios, isto é, deixar de lado os pecados, a inclinação para as criaturas, e elevar a mente a Deus, isto é, elevar nossa inteligência a Deus pela fé católica e elevar a nossa vontade a Ele pela prática dos mandamentos. O objetivo da quaresma, como de tudo em nossa vida, é somente um: crescer no amor a Deus ou passar a amá-lo, se estamos em pecado mortal. As práticas quaresmais nos são ajudas preciosas para isso.

Deus é benigno e compassivo, paciente e de muita misericórdia, e inclinado a suspender o castigo, como nos diz o profeta Joel na Epístola. Enquanto vivermos, Deus ainda nos dá a sua misericórdia, para que nos convertamos a Ele. Esse tempo não vai durar para sempre. A morte nos chegará, como um ladrão. Precisamos estar sempre preparados, em estado de graça. Aproveitem, aqueles que ainda vacilam no caminho da virtude, que caem com frequência em pecados mortais ou que vivem habitualmente nesses pecados, aproveitem o tempo da quaresma para remediar os próprios vícios, para alcançar a misericórdia divina, para recorrer a ela com confiança e determinação de conversão. Aproveitem aqueles que já vivem habitualmente em estado de graça, para avançar cada vez mais no caminho da virtude, sempre vigiando e rezando, com muita humildade, reconhecendo as próprias fraquezas e defeitos, para não cair em tentação. Corrijamo-nos, agora, caros católicos, amemos a Deus efetivamente agora, deixando os nossos pecados agora e fazendo o bem agora, porque depois será tarde. Convertamo-nos agora, para que não aconteça que, surpreendidos pela morte, procuremos espaço para fazer penitência e não o encontremos, como nos diz um dos cantos de imposição das cinzas.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Benção dos Sinos e Missa Prelatícia

Maria, Miguel e Sebastião. Sãos os sinos da Capela Nossa Senhora das Dores, abençoados ontem – sábado de carnaval – por Sua Excelência Reverendíssima Dom Fernando Guimarães, Arcebispo Militar do Brasil, conforme rito próprio do Pontifical Romano Tradicional, de 1962. Em seguida, Sua Excelência rezou Missa Prelatícia e procedeu à exposição do Santíssimo Sacramento, para adoração durante a devoção das Quarenta Horas.

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Seguem algumas fotos (algumaas legendas são parte das rubricas do Pontifical Romano):

Benção dos Sinos 01

O sino deve ser abençoado antes de ser colocado no campanário.

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Para a ação litúrgica sejam preparados: o santo crisma; um vaso de água benta “ordinária”; dois candelabros para os acólitos, e a cruz processional; turíbulo com a naveta, incenso e colher; vaso com carvão ardente; (…) amito, alva, cíngulo, estola e pluvial de cor branca, bem como mitra aurifrisada e báculo pastoral pro Pontífice.

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(…) faldistório ornado sobre tapete, diante do sino a ser abençoado;

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Uma vez com a mitra e o báculo, precedido dos acólitos com os candelabros e a cruz, e do clero, o Pontífice se encaminha para o local onde o sino deve ser abençoado. 

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O Pontífice, portando a mitra, asperge o sino, circundando-o em silêncio. Enquanto isso, a Schola Cantorum canta a antífona “Vox Domini super aquas” Salmo 28) 

Benção dos sinos, consagração

Com a mitra, o Pontífice segue em direção ao sino, molha o polegar da mão direita no óleo do santo crisma, faz sobre o sino quatro cruzes, a distâncias iguais, e para cada cruz ele diz: “Senhor, que este sino seja santificado e consagrado, em nome do Pai e do Filho ✠ e do Espírito Santo; em honra do Santo N.”

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Procissão em direção à Sacristia, ao fim da Benção dos Sinos 

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Missa Prelatícia: leitura do Evangelho

Benção dos Sinos 23

Sermão de Dom Fernando Guimarães 

Benção dos Sinos 26

Missa Prelatícia: elevação do cálice na consagração

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Missa Prelatícia: comunhão dos fiéis

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Exposição do Santíssimo Sacramento. Início da devoção das Quarenta Horas.

[Aviso] Alteração de horário da missa da próxima segunda-feira (reposição do SS. Sacramento)

Atenção!

A pedido do Pe. Daniel, comunicamos que o horário da Santa Missa no dia 16/02, segunda-feira, passa a ser 10h da manhã (e não mais às 17h como foi anunciado anteriormente).

Lembramos que se trata da missa de encerramento da devoção das quarenta horas de adoração, com reposição do Santíssimo Sacramento.

* Os demais horários da semana seguem inalterados.

[Sermão] Sentido Espiritual das Cerimônias da Missa – Parte 7: Ofertório (até a Secreta)

Sermão para o Domingo da Sexagésima
08 de fevereiro de 2015 – Padre Daniel Pinheiro

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém. Ave Maria. […]

Continuemos o nosso caminho pelas maravilhas das cerimônias da Missa no Rito Romano Tradicional. Tínhamos começado o Ofertório indo até o momento em que o padre mistura uma gota de água ao vinho dizendo a oração Deus qui humanae substantiae. Depois disso, o sacerdote, no meio do altar, erguendo o cálice na altura de seu olhos e olhando para a cruz, recita a oração do ofertório do cálice: Offerimus tibi Domine. Na Missa Solene, o diácono segura o cálice junto com o padre e também reza a oração junto com o padre. Como no ofertório da hóstia, o cálice já é aqui tratado como se contivesse o Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, como sendo já o cálice da salvação que contém o Sangue de Cristo. Continuar lendo

[Aviso] Bênção dos Sinos e 40 horas de adoração ao Santíssimo durante o carnaval

1. Bênção dos Sinos:

No próximo sábado, dia 14/02, às 17:00. Sua Excelência Reverendíssima, Dom Fernando Guimarães, irá abençoar os três sinos da Capela Nossa Senhora Dores: Maria, Miguel e Sebastião.

2. 40 horas de adoração ao Santíssimo Sacramento em reparação pelos pecados do carnaval. Do sábado 14/02, às 17:00, até a segunda-feira de carnaval, 16/02, às 17:00:

Após a Bênção dos Sinos, Sua Excelência irá expor o Santíssimo Sacramento para a adoração

O Santíssimo ficará exposto até a segunda-feira de carnaval, dia 16/02. A Missa de reposição do Santíssimo (diante do Santíssimo exposto, como permitido para essa devoção) será às 10:00.

A Missa do Domingo da Quinquagésima, 15/02, será no horário habitual (10:00) e também diante do Santíssimo Exposto.

Todos estão convidados a adorar o Santíssimo Sacramento (a qualquer hora) nesse tempo em que o Sagrado Coração de Jesus é tão ofendido. Os mundanos não medem esforços para cometer seus pecados. Não meçamos esforços para reparar por esses pecados e também pelos nossos.

3. A Missa, na terça-feira de carnaval, 17/02, será  à 17:00.

4. A Missa da Quarta-Feira de Cinzas, 18/02, será às 09:30, com imposição das cinzas.

[Sermão] Sentido Espiritual das Cerimônias da Missa – Parte 6: Ofertório (até o Deus qui humanae substantiae)

Sermão para o Domingo da Septuagésima

01/02/2015 – Padre Daniel Pinheiro, IBP

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Ave Maria…

Caros católicos, prossigamos os nossos sermões sobre as cerimônias da Missa no Rito Romano Tradicional. Com o sermão, termina a primeira parte da Missa, chamada de Missa dos Catecúmenos. Nos primeiros séculos da Igreja, havia o que se chama disciplina do arcano. A disciplina do arcano permitia que somente os batizados assistissem às cerimônias da Igreja. Isso ocorria para evitar profanações dos sacramentos e também por cautela, devido às perseguições. Assim, os catecúmenos, isto é, os adultos que estavam se preparando para receber o batismo, podiam assistir à Missa somente até o sermão ou o até o Credo. Essa primeira parte da Missa, das orações ao pé do altar até o sermão ou Credo, é, por isso, designada como Missa dos Catecúmenos. A segunda parte da Missa, que era reservada aos batizados, aos fiéis, recebeu o nome de Missa dos Fiéis, indo do ofertório até o Último Evangelho. Continuar lendo

[Fotos] Parte 5: Missa Pontifical Solene na Festa da Purificação de N. Sra. – Dom Fernando Guimarães