[Aviso] Texto: A vocação sacerdotal no Instituto Bom Pastor

O Padre Daniel Pinheiro, IBP, nos pediu a gentileza de publicar o seguinte texto, dirigido aos jovens que desejam conhecer melhor o Instituto Bom Pastor. Trata-se de um texto oficial do dito Instituto. Aqui segue a versão portuguesa do texto.

Fonte:  IBP-SP

A vocação sacerdotal no Instituto Bom Pastor

O Instituto Bom Pastor é uma sociedade de vida apostólica de direito pontifício, fundado em 2006, sob o pontificado e os auspícios do Papa Bento XVI. Isso significa que seus membros são padres seculares e não religiosos, embora os membros vivam em comunidade nas casas do Instituto. A espiritualidade sacerdotal do Instituto se baseia nas qualidades de Jesus, o Bom Pastor, que não cessa de buscar as ovelhas perdidas, com zelo pastoral repleto de caridade e misericórdia. O objetivo do Instituto é a santificação dos seus membros e a santificação das almas, para a maior glória de Deus.

O Instituto Bom Pastor tem como missão própria e específica – que lhe foi confiada pela Santa Sé – a difusão no seio da Igreja do tesouro da Tradição católica, tanto litúrgica quanto doutrinal, colocando a serviço das Dioceses padres formados em vista de um apostolado tradicional sob todas as suas formas.

Essa missão se concretiza, sob um aspecto, com o uso exclusivo do rito tradicional (livros litúrgicos em vigor no ano de 1962, chamado “forma extraordinária do rito romano”) em todos os seus atos litúrgicos. Na esteira da Instrução Universae Ecclesiae (2011), o Instituto objetiva tornar acessíveis as riquezas do usus antiquior a todos os fiéis católicos, em vista de participar da renovação do fervor cristão e de uma reevangelização que, para ser frutuosa, deve estar necessariamente fundada na Tradição.

Sob outro aspecto, essa missão se realiza com a formação espiritual, filosófica e teológica tradicional dada aos seus sacerdotes, o que implica a possibilidade – dada também explicitamente pela Santa Sé – de crítica construtiva e séria a certos atos controversos do Magistério recente, de acordo com os princípios teológicos que regem os diversos graus de Magistério e os diversos graus de assentimento que lhe são devidos. Não se trata de polêmica vã, mas de colocar à disposição da autoridade eclesiástica argumentos teológicos sólidos para uma boa interpretação dos textos e mesmo para a correção de certos textos recentes problemáticos.

Para os membros do Instituto, a liturgia tradicional e a formação teológica fundada sobre a doutrina de São Tomás de Aquino – tantas vezes recomendado pelos Soberanos Pontífices – são meios indispensáveis para o bem do sacerdote e das almas de que cuida.

O apostolado do Instituto pode se desenvolver em âmbitos diversos: Paróquias Pessoais, mas também capelanias, escolas, pregação de retiros, obras de caridade, etc. Tudo aquilo que serve para o bem das almas pode fazer parte do ministério de um padre do Instituto. Atualmente, o Instituto tem casas na França, na Itália, na Polônia, no Brasil e na Colômbia.

O Instituto Bom Pastor possui a sua casa de formação, o Seminário São Vicente de Paulo, na França, em Courtalain, cidade com aproximadamente 400 habitantes, na Diocese de Chartres (duas horas de Paris). A tranquilidade do local permite a vida de oração e de estudo da sagrada doutrina pelos seminaristas. A formação dura seis anos: um ano de espiritualidade ou propedêutica, dois anos de filosofia e três de teologia. Nesses seis anos, sob a guia do Doutor Angélico, os seminaristas estudam os tratados clássicos da Filosofia e da Teologia, mas abordam também os problemas contemporâneos e suas consequências práticas no âmbito dessas duas ciências. Ao longo desses anos, o candidato ao sacerdócio recebe a tonsura e as ordens menores e maiores, preparando-se, pouco a pouco, para receber o sacramento da ordem, a fim de oferecer quotidianamente o Santo Sacrifício da Missa e de administrar os outros sacramentos. Procura-se, então, no Seminário São Vicente de Paulo, unir a vida de piedade e a vida intelectual do seminarista, que são os dois pilares da santidade sacerdotal e do apostolado frutuoso.

O desejo de ingressar em um Seminário e de buscar a vida sacerdotal pressupõe uma vida cristã sólida, com frequentação assídua dos sacramentos, com a aplicação aos deveres de estado, com o desejo de salvar as almas e o propósito de servir Deus e a Igreja inteiramente. O candidato deve levar uma vida moral coerente com o estado que almeja abraçar e deve ter também a aptidão intelectual para aprender a doutrina da Igreja, a fim de poder alimentar o rebanho que lhe será confiado.

Todo jovem católico deve considerar diante de Deus o estado de vida em que, concretamente, melhor pode servir a Deus. Não se trata de esperar um chamado extraordinário, mas de fazer uma escolha esclarecida, com sua inteligência e vontade movidas pela fé e pela caridade. Para isso, é preciso rezar bastante, sobretudo à Virgem Maria, consultar um bom diretor espiritual, e tomar a decisão com generosidade. Nesse processo de discernimento, caso a escolha se oriente para a vida sacerdotal, o candidato deve considerar com atenção a instituição ou a congregação que lhe permita melhor servir ao Senhor.

Os desejosos em servir Jesus Cristo e a Igreja como sacerdotes do Instituto Bom Pastor podem entrar em contato com o Padre Daniel Pinheiro, responsável pelas vocações, pelo e-mail seguinte: ibpvocacional@gmail.com

[Sermão] Sentido Espiritual das Cerimônias da Missa – Parte 5: Do Gradual ao Sermão

Sermão para o 3º Domingo depois da Epifania

25.01.2015 – Padre Daniel Pinheiro, IBP

Em nome do Pai, e do Filho, e do espírito santo. Amém.

Ave Maria…

Aviso

A propósito de algumas palavras do Santo Padre – depois corrigidas, mas sem o mesmo efeito – e que fizeram das famílias católicas numerosas motivo de chacota.  É evidente que católicos não devem reproduzir como coelhos porque isso é impossível. Devem seguir a lei natural e da Igreja, o que leva a famílias numerosas. Nunca é lícito a um casal católico fazer uso de métodos contraceptivos ou consumar o ato conjugal de modo inapto à geração da prole. Aliás, fazer isso é um pecado mortal. A primeira finalidade do matrimônio é a geração dos filhos. Se, em determinado caso, a geração não pode se fazer em virtude de uma esterilidade natural ou pela idade, não há problema. O importante é que o ato seja em conformidade com a natureza que Deus nos deu, isto é, que ele seja apto para a geração dos filhos. Mesmo os chamados métodos naturais só podem ser usados licitamente quando existem razões graves para isso. Portanto, os católicos devem ter em alta conta uma família numerosa. Como diz o Salmo 126: “Eis que os filhos são um dom do Senhor, o fruto das entranhas é uma recompensa. Como setas na mão do guerreiro, assim são os filhos da juventude. Ditoso o homem que delas (dessas setas, que são os filhos) encheu a sua aljava (estojo para as setas).” O católico que tem uma família numerosa não é um coelho. Ele é, simplesmente, católico.

Sermão

Continuemos, caros católicos, o nosso breve percurso pelos ritos e orações da Missa no Rito Romano Tradicional.  Terminada a Epístola, o celebrante recita o Gradual e o Aleluia na mesma posição da Espístola, tocando o Missal ou porta-missal. Quando acaba de recitá-los, se a Missa é cantada, vai sentar-se, enquanto a Schola Cantorum canta essa parte. Essa parte da Missa, entre a Epístola e o Evangelho, é como um prolongamento do “Deo Gratias” com que se respondeu à Epístola. E como são belos esses cantos nessa parte da Missa e o canto gregoriano, em geral. Santo Isidoro de Sevilha diz: “o canto sagrado (gregoriano) produz um grande número de efeitos salutares: ele enfatiza a solenidade e a majestade do culto, eleva o espírito, alegra a alma e produz nela uma santa alegria, acalma as paixões, nos leva à devoção e ao arrependimento, chama as lágrimas, nos leva à conversão, nos eleva acima das coisas terrestres e nos faz mergulhar na meditação dos bens celestes.” Infelizmente, com o abandono do canto gregoriano, o canto atual nas nossas liturgias produz exatamente o inverso do que fala Santo Isidoro. Esse canto moderno que se usa nas liturgias tira a solenidade do culto, tornando-o profano, impede a elevação do espírito, deixando-o escravo da mera emoção, não nos leva à conversão, mas à satisfação da nossa sensibilidade e nos impede de meditar nos bens celestes, fazendo-nos meditar somente em nós mesmos e nos nossos gostos. Que falta faz na Igreja, caros católicos, o canto gregoriano, marcadamente presente em uma Missa cantada no Rito Romano Tradicional.

Entre a Epístola e o Evangelho, pode-se ter, dependendo do tempo litúrgico: 1) o Gradual e o Aleluia, 2) o duplo Aleluia, 3) o Gradual e o Trato. Em certas Festas, tem-se também a Sequência. Habitualmente, como na Missa de hoje, do Tempo depois da Epifania, tem-se o Gradual e o Aleluia. Na Septuagésima e na Quaresma, tem-se o Gradual e o Trato. No Tempo da Páscoa, tem-se o duplo Aleluia. Em algumas circunstâncias, tem-se só o Gradual.

O Gradual. Entre os 150 Salmos, temos os sete salmos chamados graduais, que se denominam assim porque eram cantados nos degraus do Templo de Jerusalém. O nome dessa parte vem daí, mas também porque, em certo momento da história, eram cantados, nas Igrejas, nos degraus do altar ou nos degraus do ambão da Epístola. Esses degraus, que o cantor subia entre a Epístola e o Evangelho, significavam as virtudes pelas quais é preciso subir para praticar o Evangelho. Em geral, o texto do Gradual é tirado dos salmos, mas, às vezes, é tirado também de outros livros da Sagrada Escritura ou pode ser até mesmo de composição eclesiástica.

O Trato, como mencionamos, canta-se após o gradual durante a Septuagésima e a Quaresma. Os autores medievais viam no Trato a tristeza dos judeus cativos na Babilônia, que, às margens do Eufrates, tinham suspendido os instrumentos musicais. Assim, o que o roxo significa para os olhos, o Trato significa para os ouvidos. Antigamente, se recitava o Salmo inteiro, como ainda se faz no 1º Domingo da Quaresma e no Domingo de Ramos.

Mas é o Aleluia que está geralmente presente junto ao Gradual nos textos das Missas. Aleluia é palavra do hebreu, transmitida sem tradução para o grego e para o latim. Aleluia quer dizer “louvai ao Senhor” e é uma expressão de alegria. Canta-se duas vezes Aleluia, segue o texto e canta-se novamente o Aleluia. Três vezes, pois três são as pessoas da Santíssima Trindade. Tripla a nossa alegria pela nossa criação, pela encarnação do Verbo e pela nossa redenção.  No tempo Pascal, entre a Epístola e o Evangelho, só se canta o Aleluia, dobrado, pois multiplicada deve ser a nossa alegria com a ressurreição de Nosso Senhor. Nos tempos penitenciais, o Aleluia, como manifestação de alegria, é omitido. O Aleluia é continuação da ideia contida no Gradual. O canto da palavra Aleluia é bem prolongado, acompanhado de várias notas porque a alegria dos santos no céu é sem fim, nos diz São Boaventura. São João (Ap. 19, 1-4) diz que o aleluia é o canto dos céus: “depois disso, ouvi no céu como uma grande voz de uma grande multidão que dizia: aleluia. (…) E eles disseram uma segunda vez: aleluia. (…) E os 24 anciãos e os quatro animais se prostraram e adoraram Deus sentado sobre o trono dizendo: Aleluia, aleluia.” No Aleluia, a Igreja toma um pouco mais de liberdade e se limita menos aos textos dos Salmos.

Em certas Missas, pode haver, entre a Epístola e o Evangelho o que se chama Sequência. A Sequência, como o próprio nome diz, é sequência, é prolongamento do Aleluia, tratando do mistério celebrado na Santa Missa. Só subsistem cinco Sequências na liturgia romana tradicional: a Sequência de Páscoa (Victimae Paschali laudes), a de Pentecostes (Veni Sancte Spiritus), a de Corpus Christi (Lauda Sion), a de Nossa Senhora das Dores (Stabat Mater) e a da Missa de Requiem (Dies irae). Cada uma dessas Sequências são tesouros inestimáveis de doutrina e espiritualidade católicas.

Terminados o Gradual e Aleluia ou Trato, o celebrante se prepara para o Evangelho. Ele vai ao meio do altar, eleva os olhos para a cruz pela primeira vez durante a Missa, e recitas duas orações (Munda cor meum e Iube Domine benedicere), profundamente inclinado. Nelas, o sacerdote ou o diácono (na Missa solene) reconhece que é indigno de anunciar o Santo Evangelho e reconhece que precisa do auxílio divino. A oração Munda cor meum faz menção ao profeta Isaías, que se desesperava diante da sua missão de profeta por ter os lábios manchados, por ser pecador. Veio um serafim, e com um carvão tirado do altar tocou os lábios de Isaías dizendo-lhe: “tua iniquidade foi retirada e teu pecado foi perdoado”. Nessa oração, o padre pede a purificação dos lábios, mas também do coração, claro, pois nada adianta louvar a Cristo com os lábios se o coração está longe dele. Tendo pedido a purificação de seu coração e de seus lábios, o sacerdote pede a bênção divina, a fim de que o Senhor esteja em seus lábios, para que possa anunciar digna e competentemente o Santo Evangelho. Na Missa Solene, é o diácono que canta o Evangelho. Nessa Missa, o diácono coloca o Evangeliário sobre o altar. Ele coloca no altar, que é Cristo, como já falamos, para indicar que o Evangelho vem de Cristo, que aquilo que ele vai anunciar veio de Cristo. Em seguida, o diácono se ajoelha no primeiro degrau do altar e recita a oração Munda cor meum. Em seguida, pega o Evangeliário no altar e pede a benção ao sacerdote. Dada a bênção, o sacerdote coloca a mão direita sobre o Evangeliário e o diácono oscula a mão do padre. O sacerdote envia visivelmente o diácono para que ele cante o Evangelho. Ele dá a bênção ao diácono antes do canto do Evangelho, ao contrário do que ocorre na Epístola, em que ele dá a bênção ao subdiácono somente depois do canto. A Epístola, como dissemos, significa o Antigo Testamento. No Antigo Testamento, Nosso Senhor não enviou visivelmente ninguém, pois não estava entre os homens. Já no Novo Testamento, Nosso Senhor enviou visivelmente os Apóstolos. Depois da bênção, faz-se a procissão do diácono, subdiácono, turiferário, cerimoniário e dois acólitos. As velas e o incenso são marcas de honra dadas a Cristo. Velas e incenso acompanham o sacerdote na procissão de entrada e saída porque ele é outro Cristo. Velas e incenso acompanham o Evangelho porque é Nosso Senhor que está ali presente espiritualmente na sua Revelação. (Claro, presença muito distinta e inferior à presença substancial na Eucaristia, mas uma presença verdadeira). Na Missa Cantada, em torno do Evangelho estão o sacerdote, o cerimoniário, o turiferário e os acólitos. É bom lembrar que, na Missa, mesmo as leituras não têm por finalidade primeira a instrução, a catequese. Não, a finalidade das leituras é, antes de tudo, prestar culto a Deus, e venerar sua bondade ao nos revelar a sua própria vida. Por isso, as leituras são feitas em latim e não são feitas voltadas para o povo. A instrução é na homilia. As velas são a luz que os ensinamentos de Cristo representam para nossa inteligência. Cristo quer iluminar nossas inteligências com sua doutrina sublime. As velas são também fogo. Nosso Senhor quer colocar o fogo do amor a Ele em nossas almas. Ele mesmo falou que veio trazer o fogo ao mundo. O incenso representa o bom odor da doutrina, dos ensinamentos, dos exemplos e das virtudes de Cristo. O Incenso representa também o Sagrado Coração de Jesus, ardendo de caridade, querendo nos transmitir a vida da graça. O Evangelho é incensado com as mesmas honras que o Santíssimo Sacramento, com as mesmas honras que o sacerdote, com as mesmas honras que a Cruz. O Santíssimo Sacramento é o próprio Cristo. As outras coisas – sacerdote, Evangelho, cruz – estão intimamente ligados a Ele. Na Epístola, como dissemos, aquele que a canta é acompanhado só pelo cerimoniário, por uma só pessoa, o que significa a pequena quantidade de judeus que seguiram, de fato, as profecias, aceitando o Messias. No Evangelho, o Padre ou o diácono está cercado de quatro ou cinco pessoas, com muita solenidade, evidenciando a grande quantidade de pessoas que se converteram ao Evangelho. Como todos percebem, o Missal muda de lado no momento do Evangelho. O Evangelho é cantado para o norte, ao menos para o norte espiritual, já que o altar está voltado para o leste. Canta-se para o norte porque era sobretudo para o norte que o Evangelho tinha que ser anunciado nos tempos antigos, pois no norte estavam os pagãos, os bárbaros, no mundo então conhecido. Voltado para o norte, para os países gelados dos infiéis, que devem ser embrasados pela pregação apostólica. Na Missa cantada ou rezada, é impossível que o Missal, que está sobre o altar, esteja completamente voltado para o norte. Ele fica, então, na diagonal. Na Missa Solene, durante o canto do Evangelho, o livro é sustentado pelo subdiácono, é o Antigo Testamento que dá a base ao Novo Testamento. O subdiácono representa também aqueles judeus que aceitaram Nosso Senhor Jesus Cristo.

Para iniciar o Evangelho, diz-se ou canta-se o Dominus Vobiscum. Em seguida vem o Sequentia ou Initium Sancti Evangelii secundum… Faz-se, nesse momento, um dos mais antigos sinais da cruz de que se tem notícia. O sacerdote faz um sinal da cruz no início do texto do Evangelho que será cantado, para nos lembrar de que o Evangelho é o Evangelho de um Deus crucificado. Em seguida, ele faz um sinal da cruz na testa, porque não devemos ter vergonha do Evangelho, mas confessá-lo. O que está na testa é evidente, vide o dito popular: “está escrito na sua testa”. Por isso, o santo crisma se recebe na testa, quando a pessoa se torna soldado de Cristo e, por isso, as cinzas se recebem na testa, pois é um lugar que nos expõe aos outros. Portanto, sinal da cruz na testa: não se envergonhar do Evangelho e aderir inteiramente a ele. Faz-se o sinal da cruz na boca, para poder confessar o Evangelho e transmiti-lo. No coração, para que o Evangelho seja impresso no nosso coração, para que nossa vontade possa amá-lo profundamente, colocando-o em prática. Também os fiéis fazem esse sinal da cruz na testa, na boca e no peito. O sacerdote se volta para o Evangelho, que se torna o centro da Igreja. No final do Evangelho, o sacerdote oscula o início do texto, em sinal de adesão completa ao que acabou de ser dito. Ao beijar/oscular o Evangelho, ele pede também que os nossos delitos sejam perdoados. O Evangelho na Santa Missa é um sacramental que perdoa as faltas veniais, se estamos arrependidos delas. Na Missa Solene, é o subdiácono que carrega o Evangelho para que o padre o oscule, simbolizando os judeus que se converteram pela pregação do Evangelho e que se dirigiram a Cristo. A reverência ao Evangelho é tanta que o subdiácono ao levá-lo ao padre, para que ele o oscule, não faz nenhuma genuflexão ou reverência ao santíssimo, apesar de passar diante do sacrário. Alguns ainda ousam dizer que a Sagrada Escritura não é devidamente venerada na liturgia tradicional. Ao contrário, ela é venerada com grandes honras, mas sempre abaixo, claro, do Santíssimo Sacramento. Na Missa Solene, o sacerdote é incensado. No final do Evangelho, diz-se Laus tibi Christe, “Louvor a Vós, ó Cristo”, por ter habitado entre os homens e por ter falado com eles.  O Evangelho se ouve de pé, pois é o Evangelho também da Ressurreição. De pé, para mostrar a determinação e prontidão em praticar o que foi lido. De pé, prontos para o combate por Cristo. De pé, prontos para pregar o Evangelho depois de ouvi-lo.

Depois do Evangelho, pode vir o sermão. Ele é obrigatório aos domingos e festas de preceito. Na liturgia tradicional, o sermão não faz parte do rito da Missa propriamente dito. Por isso, o sacerdote tira o manípulo para pronunciar o sermão, pois o manípulo se usa exclusivamente na Missa. Convém que o sermão se faça de lugar alto, pois a doutrina que deve sair da boca do sacerdote deve ser uma doutrina celestial. Esse lugar elevado é também um lembrete ao sacerdote de que sua pregação não será eficaz por causa da sua eloquência, mas por causa da origem celestial dela.  Esse lugar elevado é igualmente um lembrete ao sacerdote de que a eficácia da sua pregação dependerá também da altura de suas virtudes. A elevação do púlpito de onde o padre profere o sermão indica, ainda, que ele tem autoridade para ensinar. Esse lugar significa as montanhas sobre as quais Nosso Senhor tantas vezes subiu para pregar as verdades eternas.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

[Aviso] Missa Pontifical Solene no Faldistório

Dia 2 de fevereiro, Festa da Purificação de Nossa Senhora, Dom Fernando Guimarães, Arcebispo Militar, celebrará uma Missa Pontifical Solene no Faldistório, na Capela Nossa Senhora das Dores, em Brasília.

Às 19:30, haverá a bênção das velas, seguida da procissão de Nossa Senhora das Candeias e da Missa Pontifical.

Endereço: Capela Nossa Senhora das Dores, Jardim Botânico III, Av. das Paineiras, Entrequadra 9/10.

Mapas abaixo.

Como chegar de ônibus:

Pegar as seguintes linhas que passam pela DF-463 – pista que vai para SÃO SEBASTIÃO – e descer na parada da entrada do Condomínio Jardim Mangueiral:

147; 147.3; 147.6; 180; 180.1; 186; 197.3; 197.4. As principais são as linhas 180 e 197.3

Mapa Capela SatéliteMapa site Julho 2014Mapa Capela Julho2014

 

 

[Sermão] Sentido espiritual das Cerimônias da Missa – Parte 4: Do Gloria à Epístola

Sermão para o 2º Domingo depois da Epifania

18.01.2015 – Padre Daniel Pinheiro, IBP

Para ver as partes precedentes e compreender melhor as seguintes:

[Sermão] Sentido Espiritual das Cerimônias da Missa – Parte 1: Os Paramentos

[Sermão] Sentido espiritual das Cerimônias da Missa – Parte 2: Da Aspersão à subida ao Altar

[Sermão] Sentido espiritual das Cerimônias da Missa – Parte 3: Da Incensação ao Kyrie

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Ave Maria…

Prezados Católicos, havíamos começado na Septuagésima do ano passado a explicação espiritual das cerimônias da Missa. A primeira parte tratou dos paramentos. A segunda parte da Aspersão até a subida ao altar. A terceira parte tratou da incensação até o Kyrie. Retomemos hoje e nos próximos domingos essa explicação do sentido espiritual das cerimônias da Santa Missa no Rito Romano Tradicional.

Terminamos o último sermão sobre o assunto no Kyrie. Depois do Kyrie vem o Gloria in excelsis Deo. Passou, provavelmente, do Breviário para a Santa Missa. O Gloria é um dos cantos Cristão mais antigos. Alguns chegam a dizer que o Gloria estaria entre aqueles hinos que menciona Plínio, o Jovem, em ao Imperador Trajano, dizendo que os cristãos cantam hinos a Jesus Cristo, que consideram Deus. Isso em torno do ano 100 depois de Nosso Senhor Jesus Cristo. O Gloria é um canto Trinitário. A primeira parte se dirige a Deus Pai, a segunda, a Deus Filho e a última frase ao Espírito santo. Conclui-se com o sinal da cruz, que é sinal de Cristo, mas também da Santíssima Trindade. É um canto profundamente contrário à heresia ariana, que nega a divindade de Cristo. No Gloria, a divindade de Cristo está claramente afirmada: “Só Vós sois Santo, só Vós sois o Senhor, só Vós sois o Altíssimo”. O Gloria contém a menção clara às quatro finalidades da Missa: a finalidade latrêutica, isto é, de adoração a Deus, quando dizemos nós “vos adoramos”; finalidade eucarística, isto é, de ação de graças, quando dizemos “nós vos damos graças por vossa imensa glória”; finalidade impetratória, isto é, em que pedimos que Deus atenda às nossas orações e nos conceda as graças de que precisamos, quando dizemos “ouvi a nossa prece; finalmente está presente também a finalidade propiciatória, isto é, de pedido de perdão pelos nossas pecados, quando dizemos “vós que tirais os pecados do mundo, tende piedade de nós”.

Considerando a Missa como a vida de Nosso Senhor, vimos que o Introito anuncia o seu nascimento. Vimos que no Kyrie esse nascimento é implorado pelos clamores de misericórdia, fazendo menção aos patriarcas e profetas que imploravam a vinda do Messias. No Gloria, esse nascimento já é festejado, retomando em suas primeiras palavras o canto dos anjos na noite de Natal: Glória a Deus nas alturas e paz na Terra aos homens de boa vontade. O Gloria se diz apenas nos dias de festa e não é dito nos dias de penitência ou na missa de defuntos, pois nos dias de penitência devemos olhar mais para os nossos pecados do que para a glória do céu. São Tomás diz: não ousamos cantar a glória do céu quando choramos nossa própria miséria ou a miséria das almas do purgatório.

Depois do Gloria ou diretamente depois do Kyrie, se não houver o Gloria, vem a oração chamada de Coleta. Coleta quer dizer reunido, junto. A Coleta recebe esse nome por dois motivos, basicamente. Primeiro, porque ela se faz, a princípio, sobre o povo reunido. Segundo, porque ela reúne e expressa os desejos dos fiéis para aquela Missa.

O sacerdote, então, beija, ou melhor, oscula o altar. Cada vez que ele dá as costas para o altar, para se voltar para o povo, o sacerdote oscula antes o altar no meio. Oscula o altar como sinal de respeito por Nosso Senhor Jesus Cristo. Como já mencionamos, o altar representa Jesus Cristo. Esse ósculo no altar, além do respeito pelo altar, significa também que aquilo que vai dizer para os fiéis, ele recebeu no altar, que ele recebeu de Cristo. Tudo vem do altar, vem de Cristo.

O sacerdote, tendo osculado o altar, vira-se para o povo, e diz Dominus Vobiscum, abrindo e fechando as mãos. Dominus vobiscum é um pedido para que os fiéis estejam na graça de Deus, ou na paz de Cristo, que só pode existir na graça dEle. O Bispo diz, em missas festivas, Pax Vobis: a Paz esteja convosco. São as palavras de Nosso Senhor depois de sua ressurreição. O Dominus vobiscum é, assim, uma oração para que Deus esteja com os fiéis e por isso o sacerdote abre os braços, em posição de oração quando diz isso. Os fiéis retribuem o desejo do sacerdote dizendo: et cum spiritu tuo, e com o teu espírito. Responder “ele está no meio de nós”, como manda a tradução brasileira na Missa Nova é um despropósito completo. É como dizer: Deus já está conosco, não precisamos de sua oração, Padre, e também não rezamos pelo senhor. Ou, no mínimo, é compreender muito mal o significado das palavras Dominus vobiscum, ditas pelo sacerdote. Sete vezes o sacerdote saúda os fiéis dizendo Dominus vobiscum, para que recebam os sete dons do Espírito Santo, a não confundir com os dons carismáticos. Sete vezes para que recebam a plenitude da graça. O ste é o número da plenitude. São sete os sacramentos, por exemplo.

Tendo saudado o povo com o Dominus vobiscum, o sacerdote vai para o lado da epístola fazer a oração chamada Coleta. Ele diz Oremus, inclinado-se para a cruz, abrindo e fechando as mãos. Diz Oremus para convidar os presentes a se unirem espiritualmente à sua oração. Inclina-se para que sua oração seja agradável a Deus, em movimento de súplica e de humildade. Abre as mãos que é a posição de oração, fecha-as na posição do vassalo, submetendo-se à vontade divina. O sacerdote, em seguida, diz ou canta a oração com as mãos estendidas, uma palma voltada para a outra, sem passar da altura dos ombros. A palma da mão direita representa o Novo Testamento, a da esquerda o Antigo Testamento. Não passam dos ombros porque é Cristo, cabeça, que domina os dois Testamentos. Como falamos, as mãos estendidas e elevadas é a posição do orante, daquele que faz a oração pública, a exemplo de Moisés, intercedendo por seu povo na batalha contra os amalecitas. Com as mãos elevadas, o povo hebreu vencia; com as mãos abaixadas, perdia (Ex 17, 12). Também Salomão estende as mãos ao céu, rezando pelo povo (3Reis 8, 22). Essas mãos elevadas lembram também as mãos de Cristo na cruz, oferecendo a Deus a oração mais perfeita, seu sacrifício. Algumas liturgias guardaram o braço em cruz em algumas orações. Rezar com as mãos estendidas já era a posição de rezar na Igreja primitiva, vide pinturas nas catacumbas. Portanto, o sacerdote reza a Coleta com as mãos estendidas. Os leigos e o sacerdote fora da Missa devem rezar com as mãos postas em posição de vassalagem, de submissão a Deus.

As Coletas, junto com o Cânon Romano – Cânon Romano que é a única oração eucarística no rito romano tradicional – são o melhor exemplo e o modelo mais perfeito do latim eclesiástico, latim eclesiástico que se formou a partir do momento em que a liturgia passou a ser em latim.  As coletas são, em geral, composições dos séculos IV, V, VI, em prosa, com ritmo, vocabulário e estilo sóbrios e solenes, com várias figuras de linguagem. É um latim acessível, mas bem trabalhado. Os reformadores da liturgia diziam que era um latim decadente. Era um pretexto para se abandonar o latim e adotar cada vez mais a língua vernácula. Não é verdade que o latim eclesiástico seja um latim decadente. As orações em latim eclesiástico são uma poesia em prosa. Melhor e mais claro exemplo disso é o venerável Cânon Romano. A origem desse estilo do Cânon Romano e das coletas é o panegírico, isto é, o elogio que se fazia ao príncipe, agora dirigido a Deus. As coletas têm, via de regra, quatro elementos: 1º) elevação da alma a Deus; 2º) ação de graças, ou uma glorificação, ou um elogio; 3º) o pedido e 4º) conclusão. É a mesma ordem do Pai Nosso. Elevação da alma a Deus: Pai Nosso. Glorificação de Deus: que estais nos céus. Pedidos, que no Pai Nosso são sete e a conclusão. Portanto, as coletas se baseiam profundamente na estrutura do Pai Nosso também e não só no panegírico latino profano. As coletas não acrescentam nada ao Pai Nosso, apenas tornam mais explícitos os pedidos feitos ali. Essas orações são de uma precisão teológica imensa. Assim, Santo Agostinho as utilizou para combater a heresia do pelagianismo, heresia que negava a necessidade da graça para a salvação, como se cada um pudesse se salvar por conta própria.

A conclusão habitual da coleta é per Dominum Nostrum Iesum Christum… por Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho, que convosco vive e reina, Deus, por todos os séculos dos séculos.  Pedimos ao Pai por intermédio do Filho, em união com o Espírito Santo. Seguimos os conselhos de Nosso Senhor, que disse: tudo o que pedirdes em meu nome vos será dado. Às vezes as coletas se dirigem diretamente a Cristo ou ao Espírito Santo, que são igualmente Deus com o Pai. Ao pronunciar o nome de Jesus, o sacerdote sempre se inclina para a cruz, salvo no Evangelho, em que se inclina ao Missal, por respeito às palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo. Pouco antes de se inclinar, fecha as mãos, em posição de vassalagem, de submissão, confiando em Deus para que atenda às suas súplicas. O per omnia saecula saeculorum… por todos os séculos dos séculos, abolido da tradução brasileira na liturgia nova, é confissão na eternidade da Santíssima Trindade.

A coleta se conclui com o Amen. Amém pode exprimir uma afirmação, um desejo ou um consentimento. No Credo, é uma afirmação. Também quando Nosso Senhor diz “Amen, Amen, dico vobis”, traduzido por “em verdade, em verdade vos digo”, o “amém” significa uma afirmação solene. O “amém” depois de uma oração que não nos obriga a nada, é um simples desejo. Quando ele vem depois de uma oração que nos obriga a alguma coisa, é um consentimento. Nos três casos, é uma espécie de adesão ao que está sendo dito. O uso litúrgico do “amém” é apostólico. São Paulo o utiliza em suas epístolas. É preciso pronunciar essa palavra curta, mas cheia de significado, com convicção.

Depois da Coleta vem a leitura de um trecho da Sagrada Escritura que pode ser tirada de qualquer livro dela, menos do Evangelho. Essa leitura é chamada de Epístola porque, na maioria das vezes, é tirada de uma Epístola dos Apóstolos. Epístola é justamente o nome dado aos escritos dos apóstolos, excetuando o Apocalipse. (Quando tem mais de um texto, os primeiros se chamam lições, o último, Epístola).  Epístola quer dizer não simplesmente algo enviado, mas algo enviado a mais, por que as epístolas foram dadas aos homens além da lei, dos salmos, dos profetas. Uma mensagem escrita, uma carta, é chamada epístola porque é algo enviado a mais, além da mensagem oral. Embora a epístola seja tirada na maioria das vezes dos escritos dos apóstolos (daí o nome de epístola), ela representa o Antigo Testamento e mais propriamente São João Batista, pois ela precede quase que imediatamente o Evangelho. A pregação de Cristo (Evangelho) já está bem próxima. Nosso Senhor também mandou os apóstolos preparem as cidades pelas quais Ele passaria depois. Como já dissemos, o lado esquerdo do altar (esquerdo a partir da cruz e não a partir de quem olha para o altar), isto é, o lado da epístola, significa o Antigo Testamento, os judeus. A Epístola é lida ou cantada na direção do altar, pois o Antigo Testamento e São João Batista estavam completamente voltados para Cristo, a missão deles era anunciá-Lo. O Padre canta ou recita a Epístola com as mãos tocando o livro ou o porta-missal. As mãos representam as obras. Isso significa que ele está disposto a aceitar e colocar em prática a doutrina ali expressa. Na Missa Solene, é o subdiácono que canta a epístola, acompanhado somente do cerimoniário, pois poucos foram os que seguiram a pregação de São João Batista e as profecias. Muito poucos judeus se converteram. Terminado o canto, o subdiácono se ajoelha do lado da Epístola. O sacerdote coloca a mão sobre o epistolário e o subdiácono beija a mão do sacerdote, que o abençoa em seguida. O sacerdote, que é Cristo, coloca a mão sobre o livro, para mostrar que Cristo cumpriu tudo o que está escrito (a mão são as obras) e para mostrar que é Ele quem pode manifestar o significado profundo das Sagradas Escrituras. Cristo não veio para abolir a lei, mas para cumpri-la. E aperfeiçoá-la. O ósculo do subdiácono na mão do sacerdote significa justamente o reconhecimento de que Cristo é o Messias anunciado e de que as profecias se cumpriram. Tendo reconhecido isso, recebe a recompensa, que é a salvação, simbolizada na bânção. Os que reconhecem que Cristo cumpriu as profecias do Antigo Testamento recebem a bênção de Cristo. No sentido literal, o sacerdote dá a bênção pelo fato de que o subdiácono proclamou com fidelidade e sem adulterações a palavra divina.

Terminada a Epístola, se responde Deo gratias, “demos graças a Deus”. Agredecemos a Deus pelo alimento espiritual que nos Deus com a Sagrada Escritura. Nem só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus. Agradecimento por todos os benefícios que nos são trazidos pela Revelação. Não se diz Laus tibi Christe, “Louvor a Vós, ó Cristo”, pois estamos, simbolicamente, ainda no Antigo Testamento, e não no Novo Testamento, no Evangelho.

Tendo considerado brevemente o Gloria, a Coleta e a Epístola, podemos compreender um pouco mais os significados riquíssimos dessas partes da Missa, com seus gestos e ritos, compreender que elas expressam verdades perenes e que são profundamente agradáveis a Deus e benéficas para a nossa alma.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito santo. Amém.

[Sermão] Os Reis Magos e suas lições para nós

Sermão para a Solenidade da Epifania

11.01.2014 – Padre Daniel Pinheiro, IBP

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Ave Maria…

Antes de considerarmos os exemplos dos Reis Magos, é bom ter bem presente quem eram os reis magos. Como já dissemos, mago, no oriente antigo, significa a mesma coisa que sábio na Roma Antiga, filósofo na Grécia, ou escriba em Israel. Portanto, os Magos não eram astrólogos, nem adivinhadores, nem feiticeiros. A graça de serem os primeiros gentios a adorarem Cristo não poderia ser dada a adoradores do demônio, como o são os astrólogos, os adivinhadores, os feiticeiros. E era comum, naquela época, que os sábios fossem também governantes, ao menos de uma parcela do povo. Por isso, são chamados de Reis Magos. Os magos eram, então, sábios, que praticavam a lei natural e cultivavam as ciências, em particular a astronomia. Sabiam, então, auxiliados pela graça, que a estrela que surgiu era a estrela do Messias, como eles mesmos dizem: “vimos sua estrela no Oriente”. Os Reis Magos sabiam que não se tratava de um fenômeno natural, mas de uma estrela milagrosa, a estrela anunciada pela profecia. Os pastores judeus, que praticavam a verdadeira religião, são levados ao Menino Jesus pelo anjo. Os Reis Magos, ainda pagãos, são levados até Ele por um milagre.

Os Reis Magos estavam provavelmente contemplando o céu quando apareceu a estrela milagrosa. Por esse fato, se nos mostra que Deus favorece aos que buscam as coisas do alto, que têm o seu pensamento elevado para as verdades eternas e para a vida eterna.

Em seguida, os Magos dizem que viram a estrela e que vieram. Viram e vieram. Vidimus et venimus. Vimos e viemos. Com grande prontidão. Não duvidaram um momento em deixar tudo para seguir a estrela de Belém. Não duvidaram em deixar tudo para vir adorar o Menino Deus. Grande prontidão em seguir a vontade de Deus.

Prontidão e confiança também. Confiança porque não conheciam o caminho por onde estavam indo. Apenas seguiam aquela estrela, confiados de que Deus só poderia lhes conduzir ao bem, ainda que com certas provações durante o percurso. Uma grande confiança tinham então os magos na providência divina, simbolizada naquela estrela. Prontidão, confiança e paciência para suportar a longa jornada e as moléstias do caminho. Tiveram paciência para suportar tudo isso porque sabiam o valor do que iriam encontrar no final.

Os Reis Magos fizeram também prova de constância e perseverança. A maior provação que tiveram foi sem dúvida o desaparecimento da estrela em Jerusalém. Poderiam ter desistido, ou se desesperado. Depois de tão longo percurso, desaparece a estrela. Todavia, certos de que Deus os tinha trazido até ali, buscam se instruir com os representantes legítimos da verdadeira religião. Eis, então, que baseados nas profecias de Miquéias, os príncipes dos sacerdotes e os escribas indicam aos Reis Magos o local do nascimento do Messias: Belém de Judá. Depois de provarem a constância, a perseverança e a fidelidade a Deus, a estrela reaparece. Em um momento ou outro de nossas vidas pode ser que algo semelhante ocorra. Pode ser que nos pareça que a providência nos abandonou. Ela nunca o fará. Mesmo nesses momentos devemos continuar perseverantes no bem.

Eles deram, também prova de fortaleza, pois não temeram a crueldade do rei Herodes, sempre pronto a trucidar cruelmente quem colocasse em cheque o seu reinado. Sem medo, os reis magos perguntam a Herodes onde está o Rei dos Judeus que nasceu. Para chegar até Cristo, não devemos temer os poderes da terra.

Finalmente, o Reis Magos entregam os presentes que traziam a Nossa Senhora. Traziam presentes porque não se podia visitar um Rei sem lhe oferecer nada. Gaspar, Melquior e Baltazar traziam ouro, incenso e mirra. Ouro porque Cristo é verdadeiramente Rei. Incenso porque ele é verdadeiramente Deus. Mirra porque o Menino é também verdadeiramente homem e conhecerá a morte para nos salvar. A Mirra era perfume usado para embalsamar os corpos. O Reis Magos entregaram, assim, os presentes a Nossa Senhora, certamente, já que o Menino Jesus não poderia recebê-los. Aquilo que eles trazem para Jesus, eles confiam a Nossa Senhora.

Devemos imitar o exemplo dos Reis Magos, caros católicos: voltados para as coisas do céu, com prontidão para seguir a vontade de Deus em todas as coisas, confiados na sua providência, com paciência, constância e perseverança face às cruzes e provações. Devemos ser fortes na fé e na caridade. Devemos professar a divindade e a humanidade de Nosso Senhor Jesus Cristo e buscá-lo sempre. Finalmente, devemos confiar a Maria o que de bom temos a oferecer a Jesus: nossas orações, nossas boas obras, nossas cruzes carregadas com paciência… Coloquemos tudo nas mãos de Maria. Ela saberá dispor desses bens, como dispôs bem dos presentes trazidos pelos magos.

 Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

[Sermão] O nome de Jesus

Sermão para a Festa do Santíssimo Nome de Jesus

04.01.2015 – Padre Daniel Pinheiro, IBP

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Ave Maria…

“Foi-lhe posto o nome de Jesus.”

Caros católicos. No dia 1º de janeiro, celebramos a circuncisão de Nosso Senhor e agora celebramos o seu Santíssimo Nome. Na verdade, as duas coisas ocorreram no mesmo momento. Todavia, a Igreja as separa, para que possamos tirar delas maior proveito. Entre os Judeus, então, o nome era colocado no momento da circuncisão, pois no momento em que Deus ordenou a Abrão a circuncisão, ele mudou o nome do patriarca para Abraão. Assim ficou estabelecida a prática de dar o nome à criança no momento de sua circuncisão. O nome de Jesus foi dado pelo próprio Deus, como sabemos pelas palavras do Anjo a Nossa Senhora e a São José. E, de fato, só Deus poderia dar um nome conveniente ao Verbo Encarnado. Um nome é dado do modo mais conveniente quando o nome corresponde à natureza da coisa. Somente Deus conhece perfeitamente a pessoa de Jesus Cristo, a união existente entre a natureza divina e a humana em Jesus Cristo e somente Ele conhece a finalidade da Encarnação perfeitamente. Para nós, essa união é um grande mistério, algo sobrenatural, que supera a nossa pobre inteligência. O nome de Jesus não poderia ser mais perfeito. Jesus significa Salvador. E nosso Salvador, para nos salvar de modo perfeito, só poderia ser verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem. O nome de Jesus exprime essa união, pelo simples fato de significar Salvador. Além disso, quando Deus dá um nome a alguém, esse nome significa a graça e a missão particulares que aquela pessoa recebeu de Deus. Assim, Abrão passou a chamar-se Abraão, que significa pai de muitos, mostrando a graça que recebera de ser da ascendência do Messias. Simão, Filho de Jonas, passou a chamar-se Pedro, para manifestar que é o fundamento da Igreja, como primeiro Papa. Deus deu ao Verbo Encarnado o nome de Jesus, que significa Salvador e exprime exatamente aquilo que Cristo veio fazer entre nós: ele veio nos salvar, nos redimir, nos mostrando a verdade e nos ajudando a colocá-la em prática. É essa a missão de Jesus: a redenção.

Jesus quer dizer, então, Salvador. E podemos dizer que o nome de Jesus é, em certo sentido, superior ao próprio nome de Deus. São Paulo diz que foi dado ao Verbo Encarnado um nome que está acima de todo nome. Quando falamos Deus, nos referimos, antes de tudo, a Deus criador e à sua obra, a criação, que é, sem dúvida, uma obra admirável. Mas quando falamos o nome de Jesus nos referimos a Deus como redentor, nos referimos à redenção, que é uma obra muito mais admirável que a criação. A própria Missa no rito tradicional nos fala isso na oração em que se coloca uma gota de água no vinho durante o ofertório: “Deus que criastes a dignidade da natureza humana de um modo admirável, e que a reformastes (a redimistes) de um modo ainda mais admirável”. Isso nos mostra a grandeza do nome de Jesus e o porquê de todo joelho dever se dobrar em seu nome. A liturgia nos ensina o respeito ao nome de Jesus, pois os ministros devem fazer uma inclinação cada vez que o Nome do Salvador é dito. Tudo isso mostra a excelência do Nome de Jesus: em seu Nome se realizam milagres (os cegos vêem, os surdos ouvem, os mudos falam), em seu Nome a saúde do corpo é preservada, em seu Nome os demônios são expulsos, em seu Nome podemos obter de Deus tudo aquilo o que é necessário e útil para a nossa salvação. Quanta veneração e respeito devemos ter pelo nome de Jesus.

Todos os outros nomes que foram atribuídos ao Messias estão contidos no nome Jesus: Príncipe da Paz, Anjo do Grande Conselho, Deus forte, Pai do Futuro Século, Emanuel, que quer dizer Deus Conosco. Tudo isso está contido no nome Jesus. Porque o Salvador para ser verdadeiramente tal tinha que ser não só homem, mas também Deus e é o Salvador quem nos traz a verdadeira paz, é o Salvador que ilumina nossa inteligência, que nos conduz ao futuro século, quer dizer, à vida eterna. Ao nome de Jesus se acrescenta o nome de Cristo, que quer dizer ungido. No Antigo Testamento eram ungidos os sacerdotes, os reis e, por vezes, os profetas. Nosso Senhor é o supremo sacerdote, mediador entre Deus e os homens, o único que pode oferecer um sacrifício digno a Deus, o sacrifício da Cruz, que Ele renova sobre os altares por intermédio dos sacerdotes. Ele é o Rei dos Reis, pelo qual todas as coisas foram criadas. Ele é Rei porque adquiriu o domínio sobre todas as coisas pelo seu Sangue derramado na cruz. Ele é Rei também das nações. E Cristo é o Profeta. Ele não só anuncia a verdade divina, como os profetas faziam, mas Ele é a própria Verdade. E Cristo recebeu essa unção de rei, de sacerdote e de profeta desde o momento de sua encarnação pela união com o Verbo.

Que respeito e veneração devemos ter para com o dulcíssimo nome de Jesus! Recorramos ao nome de Jesus com frequência em nossas necessidades, nas tentações ou simplesmente para elevar nossa alma até Deus. Recorramos ao nome de Jesus com frequência, mas não como o fazem os protestantes que o invocam para tudo e sem razão, sem discernimento, dizendo, por exemplo, em nome de Jesus isso, em nome de Jesus aquilo… Por respeito ao Santíssimo Nome de Jesus não o invoquemos por motivos vãos. Não o invoquemos por impaciência, por simples admiração, ou por simples costume ou rotina. Como diz a Sagra Escritura no Eclesiástico (23 10), “o nome de Deus não esteja sempre na tua boca… porque nisso não serás isento de falta.” E “todo o homem que (…) repete a cada passo o nome de Deus não será de todo isento de pecado.” Essas coisas se aplicam também ao nome de Maria e dos santos. E procuremos também reparar as blasfêmias, as injúrias lançadas contra Deus, contra seus atributos, em particular contra sua bondade e misericórdia, contra Nossa Senhora, os santos e as coisas sagradas..

Não há canto mais suave, não há som mais alegre, não há pensamento mais doce que Jesus, o Filho de Deus e nosso Salvador. É o que cantamos hoje com a Igreja no Breviário. É o que cantaremos na comunhão durante a Missa de hoje.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

[Sermão] A Circuncisão e o mistério da Encarnação

Sermão para a Festa da Circuncisão de Nosso Senhor 
1º de janeiro de 2015 – Padre Daniel Pinheiro

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém. Ave Maria. […]

O Verbo se fez carne. Ele se fez carne para nos salvar. Na presente ordem de coisas, a finalidade da encarnação do Verbo é a nossa redenção. A Sagrada Escritura nos deixa isso claro. Em São Mateus (20, 28) está dito que o Filho do Homem veio para servir e dar a sua vida em redenção de muitos. Em São Lucas (19, 10), está dito que o Filho do Homem veio salvar o que estava perdido. Na sua Epístola aos Gálatas, São Paulo diz claramente que, ao chegar a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, para redimir os que estavam sob a lei. Para Timóteo, São Paulo escreve que Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores. Na sua primeira Epístola São João diz que Deus nos amou e enviou seu próprio Filho, vítima expiatória de nossos pecados. A Revelação é clara, então, quanto ao motivo da encarnação. Deus Filho se fez homem, para nos redimir, para nos salvar.

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[Sermão] As provações e as graças no ano de 2014

Sermão para a Festa de São Silvestre
31 de dezembro de 2014 – Padre Daniel Pinheiro

 

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém. Ave Maria. […]

Estamos no último dia do ano de 2014. Foi um ano de provações. Provações em nosso país com as eleições, sem muita alternativa para um candidato realmente bom e com a vitória da pior dentre os que tinham chances. Maiores dificuldades e restrições impostas pelo governo à prática de nossa religião podem estar à vista. Uma oposição cada vez mais ferrenha à lei natural e à lei divina também. Precisamos rezar pelo nosso país e fazer a nossa parte, começando por nós mesmos e pelas nossas famílias. As dificuldades, as provações são também meios que Deus nos dá para exercer a virtude, para suportar os males com paciência, para vencê-los com a virtude contrária.

Turbulência também na Santa Igreja Católica, em particular com o Sínodo dos Bispos. Que Bispos da Santa Igreja Católica cogitem reconhecer atos e uniões contra a natureza era inimaginável há alguns anos. Que se pudesse admitir à comunhão quem se encontra objetivamente em estado de pecado mortal, idem. Confundir misericórdia com abandono da lei de Cristo e da Igreja, igualmente. Mas, aí também, vimos prelados fiéis a Cristo se levantarem contra a demolição da moral natural e cristã. Em 2015, teremos nova etapa do Sínodo sobre a família. Mais uma vez, precisamos rezar, para que Deus desfaça os planos dos ímpios, como disse Dom Athanasius Schneider. Devemos cuidar das nossas famílias, combater o bom combate e guardar a fé e a caridade. De pouco adianta ser um paladino da Missa Tradicional e da moral católica, se com os nossos pecados mortais não combatidos seriamente cooperamos para o reino do demônio. Não é suficiente louvar a Cristo com a boca, se o crucificamos com nossos pecados. É preciso amar e defender e propagar a liturgia tradicional, bem como defender a moral católica, sobretudo sendo fiel aos mandamentos de Cristo. Devemos nutrir a nossa fé e a nossa alma não com facebook ou fotos de internet ou com um site qualquer, mas com os tesouros da espiritualidade e da fé católicas: os bons livros, que são nossos melhores amigos.

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[Sermão] Para entender o presépio de Belém

Sermão para o Domingo dentro da Oitava do Natal 
28.12.2014 – Padre Daniel Pinheiro 

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém. Ave-Maria…

Escutemos, caros católicos, atentamente e com devoção o que o Menino Jesus tem para nos ensinar, reclinado na manjedoura em Belém. É simples, mas extremamente profundo e útil para o bem de nossa alma. Continuar lendo