Novena de Nossa Senhora das Dores: início hoje, dia 18/03

Destacado

Ver também: [Sermão] Jesus Cristo, alegria dos homens

Como se sabe, na sexta-feira da Semana da Paixão (semana anterior à Semana Santa), ocorre a comemoração de Nossa Senhora das Dores. A veneração da Santa Igreja pelas dores de Maria Corredentora é tão grande que em duas ocasiões no ano ela se lembra dessas dores: na sexta-feira anterior ao Domingo de Ramos e no dia 15 de setembro. Em agradecimento pelas inúmeras graças que nos concedeu a Mãe das  Dores, rezemos essa novena que se inicia hoje, já que a Comemoração das Sete Dores de Nossa Senhora ocorrerá, nesse ano de 2015, no dia 27/03.

Novena para a Comemoração de Nossa Senhora das Dores

 Do dia18 de março ao dia 26 de março

 

“ Jesus prometeu graças extraordinárias aos devotos das dores de Maria.”

Santo Afonso Maria de Ligório, Glórias de Maria, p. 367.

Uma devoção salutar e muito favorecida pela Igreja

“Pelberto refere-nos a seguinte revelação de S. Isabel a esse respeito. São João Evangelista, depois da Assunção da Senhora, muito desejava revê-la. Obteve com efeito essa graça e sua Mãe querida apareceu-lhe em companhia de Jesus Cristo. Ouviu em seguida Maria pedir ao Filho algumas graças especiais para os devotos de suas dores, e Jesus prometer quatro principais graças. Ei-las: esses devotos terão a graça de fazer verdadeira penitência por todos os seus pecados, antes da morte; Jesus guardá-los-á em todas as tribulações em que se acharem, especialmente na hora da morte; Ele lhes imprimirá no coração a memória de sua Paixão, dando-lhes depois um prêmio especial no céu; por fim, os deixará nas mãos de sua Mãe para que deles disponha a seu agrado, e lhes obtenha todos e quaisquer favores.” (Santo Afonso Maria de Ligório, Glórias de Maria, p. 368)

“Essa devoção recebeu a mais alta sanção da Igreja, pois está tanto no Missal quanto no Breviário. Duas festas distintas são estabelecidas em honra dessas dores. Uma em setembro (dia 15) e a outra na sexta-feira da semana da Paixão (semana que antecede a Semana Santa). A Coroa ou Rosário de Nossa Senhora das Dores, assim como várias outras devoções foram abundantemente indulgenciadas. Entre elas, pode ser mencionado o Hino Stabat Mater, a devoção de uma hora empregada em qualquer época do ano para meditar as Dores, um exercício em honra de seu coração doloroso, sete Ave Marias com o Sancta Mater istud agas, um exercício para os últimos dez dias do carnaval e uma hora ou meia hora de oração na Sexta-feira santa e nas outras sextas-feiras. Nada, portanto, falta para a aprovação dessa devoção, nem a Igreja poupou meios para atrair seus filhos a essa devoção.

A Igreja escolheu especialmente, porém, sete dores de Maria para uma devoção mais particular. Ela as colocou no Ofício Divino por meio de antífonas, e fez delas os sete mistérios do Coroa das Dores. Essas dores são (1) a Profecia de Simeão, (2) a Fuga para o Egito, (3) a Perda do Menino Jesus no Templo por três dias, (4) o Encontro de Nossa Senhora com Jesus carregando a Cruz, (5) a Crucificação, (6) a Descida da Cruz, (7) o Sepultamento de Cristo. (…) Essas sete dores são misteriosas amostras de suas inúmeras outras dores e podemos encontrar nelas, talvez, o tipo de todas as outras dores humanas.” (Padre F W Faber, The Foot of the Cross, Tan Books, pp. 64 e 65)

Novena de Nossa Senhora das Dores

A novena é igual nos nove dias. Ela é composta de (1) sete Ave-Marias, cada uma acompanhada da estrofe Sancta Mater do Hino Stabat Mater, seguidas da (2) Ladainha de Nossa Senhora das Dores com suas orações.

(1) Ave Maria, gratia   plena…Sancta Mater, istud agas,Crucifixi fige plagasCordi meo valide. Ave Maria, cheia de graça…Santa Mãe, dai-me isto,Trazer as chagas de CristoGravadas profundamente em meu coração.

(2) Ladainha de Nossa Senhora das Dores

(Composta por Pio VII em 1809, no cativeiro sob Napoleão. Para uso privado somente. Original latino em Golden Manual, 1870.)

Kyrie, eleison.Christe, eleison.Kyrie, eleison.Christe, audi nos.Christe, exaudi nos.

Pater de caelis, Deus, miserere   nobis.

Fili, Redemptor mundi, Deus,

Spiritus Sancte Deus,

Sancta Trinitas, unus Deus,

Sancta Maria, ora pro nobis

Sancta Dei Genetrix,

Sancta Virgo virginum,

Mater crucifixa,

Mater dolorosa,

Mater lacrimosa,

Mater afflicta,

Mater derelicta,

Mater desolata,

Mater filio orbata,

Mater gladio transverberata,

Mater aerumnis confecta,

Mater angustiis repleta,

Mater cruci corde affixa,

Mater maestissima,

Fons lacrimarum,

Cumulus passionum,

Speculum patientiae,

Rupes constantiae,

Ancora confidentiae,

Refugium derelictorum,

Clipeus oppressorum,

Debellatrix incredulorum,

Solatium miserorum,

Medicina languentium,

Fortitudo debilium,

Portus naufragantium,

Sedatio procellarum,

Recursus maerentum,

Terror insidiantium,

Thesaurus fidelium,

Oculus Prophetarum,

Baculus Apostolorum,

Corona Martyrum,

Lumen Confessorum,

Margarita Virginum,

Consolatio Viduarum,

Laetitia Sanctorum omnium,

Agnus Dei, qui tollis peccata mundi, parce nobis, Iesu.

Agnus Dei, qui tollis peccata mundi, exaudi nobis, Iesu.

Agnus Dei, qui tollis peccata   mundi, miserere nobis, Iesu.  

 

Oremus. Respice super nos, libera nos, salva nos ab omnibus angustiis in   virtute Iesu Christi. Amen.

Scribe, Domina, vulnera tua in corde meo, ut in eis legam dolorem et   amorem: dolorem, ad sustinendum per te omnem dolorem: amorem, ad contemnendum   per te omnem amorem.

Credo, Salve Regina, et ter Ave Maria

Senhor, tende piedade de nós. (2x)Cristo, tende piedade de nós. (2x)Senhor, tende piedade de nós. (2x)Jesus Cristo, ouvi-nos. (2x)Jesus Cristo, atendei-nos (2x)

Deus Pai dos Céus, tende piedade   de nós.

Deus Filho, Redentor do mundo,

Deus Espírito Santo,

Santíssima Trindade, que sois um só Deus,

Santa Maria, rogai por nós.

Santa Mãe de Deus,

Santa Virgem das virgens,

Mãe crucificada,

Mãe dolorosa,

Mãe lacrimosa,

Mãe aflita,

Mãe abandonada,

Mãe desolada,

Mãe despojada de seu Filho,

Mãe transpassada pela espada,

Mãe consumida pelas tribulações,

Mãe repleta de angústias,

Mãe cravada na Cruz em seu coração,

Mãe tristíssima,

Fonte de lágrimas,

Ápice dos sofrimentos,

Espelho de paciência,

Rochedo de constância,

Âncora de confiança,

Refúgio dos desamparados,

Escudo dos oprimidos,

Vencedora dos incrédulos,

Conforto dos miseráveis,

Remédio dos enfermos,

Fortaleza dos fracos,

Porto dos náufragos,

Bonança nas borrascas,

Recurso dos aflitos,

Terror dos insidiosos,

Tesouro dos fiéis,

Olho dos Profetas,

Báculo dos Apóstolos,

Coroa dos Mártires,

Luz dos Confessores,

Pérola das Virgens,

Consolação das viúvas,

Alegria de todos os Santos,

Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, perdoai-nos, Jesus.

Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, ouvi-nos, Jesus.

Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, tende piedade de nós, Jesus.

 

Oremos. Lançai vosso olhar   sobre nós, livrai-nos e salvai-nos de todas as angústias pela virtude de  Jesus Cristo. Amém.

Imprimi, Senhora, as vossas feridas em meu coração, para que possa ler   nelas a dor e o amor; a dor, para suportar, por ti, toda dor; o amor para desprezar,   por ti, todo amor.

Credo, Salve Regina, et três Ave-Marias

Ato de Consagração a Nossa Senhora das Dores (para o dia 15 de setembro)

Maria, Santíssima Virgem e Rainha dos Mártires, queria ser levado ao Céu, para contemplar aí as honras dadas a vós pela Santíssima Trindade e por toda a corte celeste. Todavia, como ainda sou um peregrino nesse vale de lágrimas, recebei desse vosso servo, indigno e pecador, a mais sincera homenagem e o mais completo ato de submissão que um ser humano é capaz de vos prestar. Em vosso Coração Imaculado, transpassado por tantas espadas de dor, eu coloco, definitivamente, a minha pobre alma. Recebei-me como o companheiro de vossas dores e não permitais jamais que eu me separe daquela Cruz, na qual vosso Filho morreu por mim. Convosco, oh Maria, suportarei todas as tribulações, contradições e enfermidades com que, nessa vida, vosso Divino Filho se dignar me visitar. Eu ofereço tudo a vós, em memória das dores que sofrestes durante vossa vida na terra. Assim, que todo pensamento de minha mente, toda batida de meu coração, seja, de agora em diante, um ato de compaixão por vossas dores e um ato de comprazimento com as glórias de que agora vós desfrutais no Céu. Portanto, caríssima Mãe, enquanto eu agora me compadeço de vossas dores e me alegro de vossa glorificação, tende compaixão de mim e reconciliai-me com vosso Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, para que eu seja vosso filho verdadeiro e fiel. Vinde em meu último dia para assistir-me na agonia, assim como assististes ao vosso Divino Filho, a fim que, deixando esse exílio, possa partilhar de vossa glória no Céu. Amém.

[Lembrete] Comemoração de Nossa Senhora das Dores – Missa Cantada, 27/03, às 19:30

Duas vezes no ano a Santa Igreja celebra Nossa Senhoras das Dores: 15 de setembro e na Sexta-Feira da Semana da Paixão, a sexta-feira que precede o Domingo de Ramos.

Todos estão convidados a honrar Nossa Senhora das Dores nessa sexta-feira, 27 de março para agradecer pelas graças recebidas por intercessão dela, padroeira da Capela de Nossa Senhora das Dores. E também para pedir pelas graças de que necessitamos.

Programação na capela Nossa Senhora das Dores:

Das 18:30 às 19:00 – Confissões

Às 19:00 – Santo Terço

Às 19:30 – Santa Missa Cantada de Nossa Senhora das Dores

 

 

[Sermão] A Paixão de Cristo

Sermão para o 1º Domingo da Paixão

22.03.2015 – Padre Daniel Pinheiro, IBP

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Ave-Maria…

Entramos hoje no Tempo da Paixão. Os sinais de austeridade se acentuam. O Gloria Patri é tirado do Asperges, do Intróito e do Lavabo. O Salmo 42, que expressa alegria, é omitido. A Cruz e as imagens dos santos são cobertas com panos roxos, simbolizando que a Paixão de Cristo ainda não ocorreu e, se ela ainda não ocorreu, os santos também ainda não entraram no céu. Somente na Sexta-Feira Santa a Cruz será descoberta e somente na Vigília, após a ressurreição, os santos serão descobertos.

Entramos hoje, caros católicos, nesse tempo particular dentro do Tempo da Quaresma: o Tempo da Paixão. É tempo oportuno para refletir bem e meditar bem a obra da nossa Redenção e o mistério dos sofrimentos de Nosso Senhor Jesus Cristo durante a sua Paixão. Não basta, no entanto, considerar somente o fato dos sofrimentos suportados por Nosso Senhor. É preciso conhecer também as causas e os efeitos da Paixão, pois somente assim poderemos começar a ter ideia da grandeza da bondade divina e poderemos haurir uma água viva para a nossa vida espiritual.

A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo encontra sua origem no pecado de nossos primeiros pais. Com efeito, Nosso Senhor se encarnou para nos livrar do pecado, que entrou no mundo pela falta cometida por Adão. Nós sabemos, a gravidade de uma ofensa se mede a partir da dignidade da pessoa ofendida. Como o pecado é uma ofensa feita a Deus, infinitamente digno, o pecado é uma ofensa infinita. E isso não só para o pecado de Adão, mas também para todos os nossos pecados graves, que são, então, ofensas infinitas feitas a Deus. Ora, como nós somos seres finitos, como podemos satisfazer por nossos pecados, que são ofensas infinitas? Como podemos satisfazer, quer dizer, como podemos oferecer a Deus algo que lhe agrade mais do que a ofensa infinita lhe desagradou? Isso é, para nós, impossível. Até mesmo se oferecêssemos a Deus todas as vidas de todos os homens de todos os tempos, seria largamente insuficiente. Assim, é impossível para nós satisfazer pelo pecado. Como resolver esse problema?

Nós, na nossa sabedoria humana, teríamos pensado em um perdão gratuito e completo de Deus, que Ele poderia nos dar sem nenhuma injustiça e sem prejudicar ninguém. Todavia, nessa hipótese, a justiça divina, embora não fosse violada, não seria perfeitamente satisfeita. Além disso, com um perdão gratuito, o homem não se daria conta da gravidade de seu pecado: se Deus perdoa com tanta facilidade, o pecado não é assim tão grave, diria o homem. Podemos dizer também que esse perdão gratuito não manifestaria claramente e perfeitamente o amor de Deus pelos homens. O perdão puramente gratuito é uma solução humana.

A sabedoria divina, que dispõe perfeitamente todas as coisas, nos deu outra solução. Deus permite um mal sempre em vista de um bem superior. Dessa forma, se a sabedoria divina permitiu o pecado, que é o maior dos males, foi justamente para que ocorresse a encarnação e para que a obra da redenção se cumprisse pelo Verbo feito carne, Nosso Senhor Jesus Cristo, homem e Deus. Sendo homem e Deus, uma só ação de Nosso Senhor basta para satisfazer abundantemente a ofensa infinita do pecado. E isso pela simples razão de que a mais simples ação de Cristo é feita sempre com uma caridade, com um amor infinito por Deus. E essa caridade do Homem-Deus é infinitamente mais agradável a Deus do que todos os pecados lhe são desagradáveis. Assim, a encarnação é necessária para satisfazer plenamente a justiça divina. Um ato, então, do Menino Jesus recém-nascido teria bastado para resgatar, redimir todos os homens. A encarnação, resposta divina ao pecado, satisfaz perfeitamente a justiça divina. Mas a solução divina não se resume a isso. A solução divina compreende, além da encarnação, a paixão, os sofrimentos e a morte de Cristo.

No entanto, caros católicos, se uma única ação do Menino Jesus teria bastado para a redenção de todos os homens, por que uma paixão tão sangrenta? Estamos nós diante de um Deus sedento de vingança? Claro que não. Como dissemos, a justiça divina já está plenamente satisfeita com a mais simples ação de Cristo, homem e Deus. Se a providência divina permitiu a paixão e a morte de Nosso Senhor, há uma razão (principal) para isso. Seu amor por nós. Como nos diz São João: Deus amou de tal modo o mundo, que lhe deu seu Filho Unigênito. E Nosso Senhor, Ele mesmo, desejava com um desejo ardente a chegada de sua hora, que não é outra que a hora de sua Paixão. Mas como? Nosso Senhor quis padecer tantos sofrimentos por amor dos homens? Sim, caros católicos, o motivo principal da paixão e morte de Cristo é seu amor por nós. Por amor, Ele quis ser preso e amarrado no Jardim das Oliveiras, maltratado  na casa do sumo sacerdote, flagelado e coroado de espinhos diante de Pilatos. Ele quis carregar a Cruz, Ele quis as quedas dolorosas durante o caminho da Cruz. Por amor, Ele quis, enfim, ser destituído de todas as suas vestes, quis a crucificação com dores inauditas, a sede tremenda. Ele quis também padecer as dores interiores, mil vezes maiores que essas imensas dores exteriores: a tristeza mortal no Jardim das Oliveiras diante da visão de todos os tormentos que Ele ia sofrer, o sofrimento diante da perfídia dos judeus que teriam tantos imitadores ao longo dos séculos; a tristeza mortal face à infidelidade de seus discípulos e de tantos cristão frouxos, face aos pecados sem número cometidos até o final dos tempos, face à inutilidade de seu sangue para o mau ladrão e para tantas outras almas que não o aceitaram.

O Verbo Encarnado nos mostrou, pela sua Paixão e Morte de Cruz, a imensidade de seu amor porque uma das medidas mais seguras e exatas do amor é justamente o sofrimento que somos capazes de suportar para alcançar o bem do amigo. Ele quis nos mostrar esse amor infinito, amor capaz de sofrer todas as dores para o bem daqueles que eram ainda pecadores. E ao nos mostrar seu amor, ele queria uma só coisa, pois Cristo quer uma só coisa: que o amemos em troca. E que o amemos com todas as nossas forças, com toda a nossa alma, com todo o nosso ser, guardando os seus mandamentos. A paixão de Cristo destrói os obstáculos que se opõem à conversão da alma, em particular, ela destrói a dureza do coração que se obstina a não escutar a voz suave de Deus que o chama por meio de sua Paixão.

Da Paixão de Nosso Senhor há ainda vários outros frutos. A Paixão de Cristo e sua Cruz, de modo particular, é a cátedra mais eloquente que pode existir. O Salvador nos ensina, do alto dessa cátedra, pelo exemplo. Ele nos ensina a prática de todas as virtudes, sem as quais o homem não pode se salvar: obediência, humildade, paciência, justiça, constância, fidelidade à vontade de Deus, etc…

Pela Paixão de Cristo, a feiura e as gravíssimas consequências do pecado nos são mostradas claramente. Os sofrimentos, as feridas, as chagas, os opróbrios suportados por Nosso Senhor Jesus Cristo deveriam ter sido carregados por nós, os verdadeiros culpados. Assim, à vista das graves consequências do pecado, tão graves que levam Deus a um tal sofrimento, devemos ser levados a abandonar todo e qualquer pecado.

Finalmente, a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo é a derrota mais humilhante para o demônio. O inimigo do gênero humano havia triunfado fazendo nossos primeiros pais pecarem. A morte, fruto amargo do pecado, era o troféu do demônio. Nosso Senhor destruiu a obra perniciosa do demônio e abriu para nós o céu justamente pela sua morte. Quando o demônio acreditava vencer, ele foi, na realidade, definitivamente derrotado e humilhado.

Sofrer por aquele que amamos e lhe fazer o bem. Eis as duas coisas que nos fazem conhecer um amigo, diz Cícero. Todos os sofrimentos e todos os bens que decorrem da Paixão de Cristo nos mostram a grandeza de seu amor por nós. Na Paixão de Nosso Salvador, a justiça e o amor se encontram de modo perfeito. E é o amor que vence, pois a Paixão, embora tenha por finalidade satisfazer pelo pecado, ela tem como objetivo principal mostrar aos homens o amor infinito de Deus por nós, a fim de que o amemos em troca. A Paixão era, então, a maneira mais conveniente de nos resgatar porque pela paixão nós somos levados a Deus e afastados do pecado de uma maneira admirável. Um homem não seria capaz nem de suspeitar uma resposta tão perfeita ao pecado.

Não fiquemos indiferentes, caros católicos, a um tal amor. E quando Nosso Senhor se dirige a nós, como o faz agora, não endureçamos nosso coração, mas sigamos o Salvador, guardando seus preceitos e carregando nossa cruz com verdadeira alegria. Não sejamos como os judeus do Evangelho de hoje, que, não encontrando nenhuma falta em Cristo, quiseram lapidá-lo. Ao contrário, vivamos, de agora em diante, por Cristo, com Cristo, em Cristo, fazendo em tudo a sua divina vontade. Combatamos pelo triunfo de Nosso Senhor Jesus Cristo. Se o pecado e a morte entraram no mundo pela falta de um só homem – Adão – a graça e a vida eterna vieram também por um só homem – Jesus Cristo. Consideremos com frequência a misericórdia, a bondade, o amor infinito de Jesus Cristo por nós, e que nos foram manifestados na sua Paixão e Morte. E peçamos também a Nossa Senhora, Virgem das Dores, a graça de nos fazer herdeiros desses bens que foram adquiridos ao preço de um sangue tão caro. Foi pela nossa alma que Cristo sofreu e morreu. Foi para salvar a nossa alma.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

[Sermão] Jesus Cristo, a alegria dos homens

Ver também:

[Sermão] O católico e as diversões

[Sermão] O milagre da multiplicação e a Eucaristia

Sermão para o 4º Domingo da Quaresma (Laetare)

15.03.2015 – Padre Daniel P Pinheiro

Novena de Nossa Senhora das Dores, a partir do dia 18 de março.

Rezar pelo Brasil.

“Rejubila, Jerusalém, e vós todos que a amais.”

Caros católicos, falamos, nesses três domingos precedentes da Quaresma, de Nosso Senhor Jesus Cristo. Vimos que ele é verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem. Vimos que Ele nos ensinou uma doutrina celeste, perfeita, absolutamente necessária para a nossa salvação e, evidentemente, boa para nós. Nosso Senhor Jesus Cristo, por tudo o que é e por tudo o que fez e faz por nós é a nossa verdadeira alegria. Como já tivemos a oportunidade de dizer algumas vezes, a alegria de cada ser consiste em agir conforme a sua natureza. Assim, o cachorro é (sentimentalmente) feliz quando age como cachorro. O gato é (sentimentalmente) feliz quando age em conformidade com sua natureza de gato. Um microfone, se pudesse ser feliz, seria feliz ao transmitir o som em altura adequada para os ouvintes. Nós seres humanos somos felizes (espiritualmente, sobretudo) quando agimos como seres humanos. Agimos como seres humanos quando conhecemos a verdade, quando amamos a verdade e colocamos a verdade em prática. Somos seres dotados de inteligência e de vontade. Inteligência e vontade são a parte mais elevada do nosso ser. Portanto, somos felizes quando nossa inteligência conhece a verdade e quando nossa vontade ama a verdade, o bem verdadeiro. Somos felizes quando a inteligência iluminada pela verdade e a vontade inflamada pelo amor a essa verdade orientam os nossos sentimentos, o nosso corpo, toda a nossa vida. Ora, a verdade absoluta e o bem infinito são Deus, são Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele é a Verdade. Ele é o Bem. Portanto, devemos nos alegrar imensamente com Nosso Senhor Jesus Cristo.

Devemos nos alegrar porque Nosso Senhor veio nos ensinar a Verdade. Ele veio nos falar da vida de Deus. Ele veio nos falar das perfeições de Deus. Ele veio nos ensinar a verdade, e somente ela pode nos salvar, somente ela pode ser para nós motivo perene de alegria. Ele veio também nos dar as graças para que possamos aderir à verdade que nos ensinou.

Devemos nos alegrar porque Nosso Senhor Jesus Cristo veio nos trazer o amor à verdade, o amor ao bem verdadeiro, ele veio nos trazer o amor a Deus. Somente o amor a Deus pode nos fazer realmente felizes já nessa vida e plenamente felizes no céu, se nos salvarmos. Nosso Senhor nos mostrou como devemos amar a Deus: fazendo a vontade de Deus em todas as coisas. Ele veio nos trazer o amor por Deus mostrando a sua caridade para conosco, ao sofrer tanto para nos salvar. Deus amou tanto os homens que enviou seu próprio Filho para nos salvar.

Devemos nos alegrar, então, porque a segunda Pessoa da Santíssima Trindade dignou-se vir ao mundo para nos salvar. Deus não nos abandonou depois do pecado de nossos primeiros pais, Adão e Eva. Alegremo-nos porque Ele não nos abandonou depois de nossos pecados.

Devemos nos alegrar porque o Verbo feito carne veio nos salvar pregado numa cruz. Ele veio nos salvar sofrendo mais do que todos os homens juntos.

Devemos nos alegrar porque Nosso Senhor é bom. Em todas as coisas, desde a sua encarnação até a sua ascensão, e agora no céu, Ele agiu e age par a glória de Deus e para o nosso bem: no seu nascimento em Belém, na sua apresentação no templo, na sua fuga para o Egito, na sua vida escondida em Nazaré, nos seus milagres, nos seus ensinamentos, nas suas ações.

Devemos nos alegrar porque Jesus é misericordioso. Ele quer nos tirar da miséria do pecado, Ele quer o nosso verdadeiro bem, que é nossa santificação. Devemos nos alegrar porque a misericórdia de Jesus é uma misericórdia diferente da misericórdia do mundo. A misericórdia do mundo deixa cada um nos seus erros e conforta cada um em seus erros e pecados. A misericórdia de Deus não é para nos deixar no pecado ou para no confortar no pecado. A misericórdia divina, paciente e bondosa, é para nos tirar do pecado, mostrando-nos a verdade.

Devemos nos alegrar porque Jesus Cristo nos dá as graças mais do que suficientes para que possamos resistir às tentações, para que não pequemos. Ele nos dá graças abundantes para que possamos viver uma vida virtuosa, uma vida de união a Deus, uma vida de imitação de Cristo.  Ele nos dá com generosidade essas graças que mereceu na Cruz. Devemos, porém, pedi-las.

Devemos nos alegrar porque Nosso Senhor, em meio às maiores tribulações nossas, nos consola. Talvez não sensivelmente, mas nos consola, se recorremos a Ele, nos dando a força para perseverar no bem, para termos paciência nas provações, fazendo-nos pensar em tudo o que Ele sofreu por nós e fazendo-nos pensar na recompensa da vida eterna.

Devemos nos alegrar porque Nosso Senhor fundou uma sociedade para continuar a sua obra ao longo dos séculos, até o fim dos séculos. Ele instituiu uma sociedade, que é a Igreja Católica, para assegurar a transmissão intacta dos seus ensinamentos. Ele instituiu nessa sociedade um poder de magistério que é infalível quando faz definições no campo da fé e da moral.

Devemos nos alegrar porque Nosso Senhor nos deu os sacramentos. Ele instituiu na Igreja os canais pelos quais os frutos de sua paixão deveriam ser aplicados. Ele nos deu os sacramentos que nos acompanham ao longo de toda a nossa vida. Do batismo, em nosso nascimento, até à extrema-unção perto de nossa morte.

Devemos nos alegrar porque entre os sacramentos, Nosso Senhor, nos deixou a Eucaristia. Ele nos deixou seu próprio Corpo e seu próprio Sangue sob as aparências do pão e do vinho. Grande deve ser a nossa alegria por termos Jesus Cristo realmente presente em Corpo, Sangue, Alma e Divindade nos tabernáculos de nossas Igrejas. Grande deve ser a alegria por poder nos alimentar espiritualmente, se estamos em estado de graça, do próprio Cristo Jesus.

Devemos nos alegrar porque Nosso Senhor nos deixou a Santa Missa, a renovação não sangrenta do único sacrifício da Cruz. É pela Missa que podemos adorar a Deus devidamente. É pela Missa que podemos agradecer a Deus devidamente. É pela Missa que podemos pedir com toda confiança as graças de que precisamos. É pela Missa que podemos pedir a Deus o arrependimento de nossos pecados. É pela Missa que poderemos fazer bem todas essas coisas em nosso quotidiano.

Poderíamos multiplicar muito mais, caros católicos, os motivos para nossa alegria em Nosso Senhor Jesus Cristo. Todavia, nesse tempo da Quaresma, alegremo-nos porque Nosso Senhor nos chama, de modo veemente, à conversão. Alegremo-nos e aproveitemos esse tempo de conversão e misericórdia para abandonarmos os nossos pecados, para travarmos uma luta firme, mas serena, contra os nossos vícios. Aproveitemos esse tempo para nos confessarmos com grande contrição, para crescermos no amor efetivo a Nosso Senhor, guardando as suas palavras e as colocando em prática.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Domingo Laetare e inauguração dos Sinos na Capela Nossa Senhora das Dores

Minha voz é a voz da vida, chamo-vos às coisas sagradas, vinde. Cantarei eternamente as misericórdias do Senhor. Quebro os raios, canto os domingos (as festas), desperto os preguiçosos, dissipo os ventos, pacifico os cruentos.

(texto inscrito no sino Miguel)

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[Aviso] Inauguração dos Sinos e Confraternização – Domingo Laetare

Veja também: [Sermão] Jesus Cristo, o Mestre – 3º Domingo da Quaresma

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O Padre Daniel Pinheiro, IBP, pede para avisar que no próximo Domingo, 15/03/2015, Domingo Laetare, haverá a inauguração dos Sinos e confraternização pela ocasião. O Padre conta com a ajuda de todos para a confraternização, pedindo que levem salgados e doces.  

Abaixo damos o nome dos três sinos e as inscrições em cada um deles.

Benção dos Sinos 05

Maria. Ave Maria, Virgo Dolorosa! Gloria tibi sit, haeresum et daemonum interemptrix: sis pia nostra gubernatrix. Tecum nos perducas ad gaudia caeli.

O Rex Gloriae, veni cum pace. Me resonante pia populo succurre Maria.

Ave Maria, Virgem Dolorosa! Glória a vós, destruidora das heresias e dos demônios: sede nossa bondosa guia. Conduzi-nos convosco às alegrias do céu.

Ó Rei da Glória, vinde com paz. Quando eu ressoar, socorrei o povo, piedosa Maria.

Benção dos Sinos 04Miguel. Sancte Michael Archangele, defende nos in praelio.

Vox mea, vox vitae, voco vos ad sacra, venite. Misericordias Domini in aeternum cantabo. Fulgura frango, sabbata pango, excito lentos, dissipo ventos, paco cruentos.

São Miguel Arcanjo, defendei-nos no combate.

Minha voz é a voz da vida, chamo-vos às coisas sagradas, vinde. Cantarei eternamente as misericórdias do Senhor. Quebro os raios, canto os domingos (as festas), desperto os preguiçosos, dissipo os ventos, pacifico os cruentos.

Benção dos Sinos 03Sebastião. Sancte Sebastiane, gloriose Martyr, miles Christi et defensor Ecclesiae, ora pro nobis.

Laudo Deum verum, plebem voco, congrego clerum, defunctos ploro, nimbum fugo, festa decoro.

São Sebastião, glorioso Mártir, soldado de Cristo e defensor da Igreja, rogai por nós.

Louvo o Deus verdadeiro, convoco o povo, congrego o clero, choro os defuntos, afasto a tempestade, embelezo as festas.

[Sermão] Jesus Cristo, o Mestre

Sermão para o 3º Domingo da Quaresma

08.03.2015 – Padre Daniel Pinheiro, IBP

 

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Ave Maria…

Avisos

Peço a todos orações pelo apostolado. Para que seja agradável a Deus, para que possa dar bons frutos em nossas almas. Peço também que rezem uns pelos outros. Em particular, peço que rezem pelas crianças que nascem, pelas crianças em geral, pelas grávidas e pelas famílias.

Exorto as famílias para que providenciem a entronização do Sagrado Coração de Jeus nos lares. Exorto a praticarem a devoção das nove primeiras sextas-feiras. Uma das promessas do Sagrado Coração aos seus devotos é justamente colocar a paz nas famílias.

 Sermão

“Bem-aventurados aqueles que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática.”

Caros católicos, nos dois primeiros domingos da Quaresma, consideramos quem é Nosso Senhor Jesus Cristo. Consideramos a sua divindade, nos baseando no seu título de Filho de Deus. Consideramos a sua humanidade, nos baseando no seu título de Filho do homem. Continuando a consideração de Nosso Senhor Jesus Cristo durante essa Quaresma, para poder amá-lo mais profundamente, devemos hoje considerar Jesus como Mestre. Os Evangelhos, mais do que a grandiosa história de um poderoso taumaturgo, é a história de um pregador das multidões. Muitas vezes, ouvimos a afirmação de que nos Evangelhos não há doutrina, mas que neles simplesmente se conta a história de Jesus. Assim falam os que querem esvaziar o ensinamento de Jesus, para mudá-lo, para distorcê-lo, para criar uma doutrina própria. Os discursos de Nosso Senhor ocupam praticamente 75% dos Evangelhos. E não podia ser diferente. O pecado original, além de nos tirar a graça, feriu também as nossas faculdades. Entre elas, feriu primeiramente a nossa inteligência. Depois do pecado original, inclinamo-nos para o erro, tendemos a não considerar as verdades sobrenaturais. Assim, o Messias deveria vir para restaurar também a nossa inteligência nos ensinando a verdade. Para restaurar o reinado de Deus nas almas e na sociedade, é necessário, primeiramente, restaurar a nossa inteligência fazendo-a conhecer a verdade e fazendo-a se submeter à verdade. É pela inteligência que conhecemos a nossa finalidade, que é chegar ao céu, e é por ela que podemos também dirigir a nossa vontade e as nossas paixões. A fé, que deve ser a luz que orienta inteiramente a nossa vida, está na inteligência. A fé é a adesão da nossa inteligência às verdades reveladas por Deus. Portanto, é impossível haver restauração ou redenção sem a fé, sem que nossa inteligência se submeta inteiramente a Nosso Senhor Jesus Cristo. Assim, para restaurar a vida moral, é preciso, antes, restaurar a nossa inteligência. Nosso Senhor veio, então, nos ensinar, de modo particular, a verdade. Alguns vêem como a causa da revolução a simples corrupção dos costumes, as paixões desordenadas. Como remédio, querem corrigir os costumes. Existe aí um erro sério. A primeira causa da decadência que vivemos está na inteligência, na perda da fé. É preciso, então, em primeiro lugar, restaurar a fé. Somente com a restauração da fé é possível restaurar os costumes.

Já nas profecias do Antigo Testamento o Messias é apresentado como um verdadeiro mestre.  No Evangelho, Nosso Senhor é denominado rabi, que quer dizer mestre, inúmeras vezes. E Ele não rechaça esse título. Ao contrário, o aceita. Assim, Ele dirá (Jo 13, 13): “Vós me chamais Mestre… e dizeis bem, porque o sou.” Deus Pai, falando na ocasião da transfiguração, dirá de Jesus (Mt 17, 5): “Este é o meu filho bem amado em quem coloquei toda a minha complacência: ouvi-o.” Sim, é preciso ouvir aquilo que Nosso Senhor nos ensina. Além disso, os episódios mais marcantes da vida de Cristo são decorrência dos seus ensinamentos. Ele vai ser perseguido, crucificado e morto pelos chefes dos judeus em virtude da sua pregação, em virtude dos seus ensinamentos. Em particular, por afirmar ser verdadeiramente o Filho de Deus. As multidões o seguem também pela fama de seus ensinamentos, pela eloquência sobrenatural de suas palavras. Não há dúvida. Nosso Senhor é verdadeiramente mestre. E é mestre perfeito. Sendo Deus, não pode se enganar nem nos enganar. Aquilo que ensina só pode ser para o nosso bem. É preciso realmente ouvir o que nos ensina Nosso Senhor Jesus Cristo, colocando em prática o que nos disse.

Jesus é Mestre perfeito. Ele é o Verbo de Deus Encarnado. Ele é a Palavra de Deus encarnada. Ele é a sabedoria infinita encarnada. Luz de luz, “luz que ilumina todo o homem que vem ao mundo” (Jo 1, 9). “Por Ele nos veio a graça e a verdade” (Jo 1, 17). Nosso Senhor dirá: “Eu sou o princípio que vos falo” (Jo 8, 25). Fica claro que Jesus é Deus que nos fala. Por isso, São Paulo diz aos Hebreus (1, 1 e 2) : “Deus, tendo falado outrora muitas vezes e de muitos modos a nossos pais pelos profetas, ultimamente, nestes dias, falou-nos por meio de seu Filho, a quem constituiu herdeiro de tudo, por quem criou também os séculos.” Jesus não é um representante de Deus, Ele não é o embaixador de Deus, ou o porta-voz de Deus. Ele é o próprio Deus feito homem que nos fala, caros católicos.

Como é sábio Nosso Senhor Jesus Cristo ao nos ensinar a verdade. Como dizia o povo que ouvia Jesus (Jo 7, 46): “Nunca homem algum falou como fala esse homem.” A inteligência humana de Jesus recebe diretamente a luz da sua inteligência divina. Daqui, a clareza, a simplicidade e, ao mesmo tempo, a profundidade estupenda das palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo. Também a sensibilidade e a imaginação perfeitas de Jesus são auxiliares importantíssimos na sua pregação. O Mestre usa, então, os seres da natureza, os fenômenos da natureza, os episódios da vida cotidiana para ensinar as mais sublimes verdades. Assim, as aves do céu e os lírios do campo servirão para explicar a providência de Deus sobre todas as coisas (Mt 6, 26). Ensina a humildade nas boas obras dizendo que a nossa mão esquerda não deve saber o que fez a direita (Mt 6, 3). Ao mesmo tempo, compara os fariseus aos sepulcros caiados, brancos por fora, limpos por fora, mas podres por dentro (Mt 23, 27). Tal inteligência gerou frases lapidares, que em poucas palavras dizem praticamente toda a doutrina evangélica: “onde está o teu tesouro, ali está também o teu coração (Mt 6, 21)”, ou “que aproveitará ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua alma? (Mc 8, 36).”

Nosso Senhor arrastava também os seus ouvintes porque pregava uma doutrina perfeita e que dirigia os homens à perfeição. No Antigo Testamento, os ensinamentos de Deus pelos profetas foram preparação para o ensinamento de Nosso Senhor. E Nosso Senhor ensinava também com autoridade, uma autoridade sobrenatural. Autoridade para estabelecer uma Nova Lei, a Lei Evangélica, autoridade para fundar a sua Igreja, autoridade para condenar os erros, mesmo com veemência quando necessário. E as multidões reconheciam essa autoridade de Jesus Cristo. Em São Marcos (1, 22) está dito: “E os ouvintes ficavam admirados com a sua doutrina, porque os ensinava como quem tem autoridade e não como os escribas.” A autoridade de Nosso Senhor é serena. Basta lembrarmo-nos do Sermão da Montanha. Todavia, o Mestre sabe também recorrer às condenações veementes, ao discurso rápido e cortante para corrigir um erro ou quando a hipocrisia e maldade de seus inimigos o obrigam a isso. Finalmente, o ensinamento de Nosso Senhor é também universal. Seus ensinamentos se dirigem a todos os povos de todos os tempos. As lições aparentemente tão particulares de Nosso Senhor, seus exemplos tirados muitas vezes do cotidiano da época e daqueles lugares por onde andou, são, na verdade, universais. Nosso Senhor se dirige a todos nós.

Ao pregar, ao ensinar a todos nós, Cristo tem um objetivo preciso. Seu objetivo é que tenhamos a vida eterna. Para tanto, precisamos em primeiro lugar crer. “Aquele que crer e for batizado, será salvo; o que, porém, não crer, será condenado”, nos diz Nosso Senhor. Devemos, então, crer em tudo o que Ele nos ensinou. Devemos fazer parte da sociedade que Ele fundou, que é a Igreja Católica. Devemos colocar em prática os ensinamentos do Mestre. Como nos diz São Pedro, Ele tem palavras de vida eterna. E seu jugo é suave e leve. Como cantamos no Trato da Missa de hoje, assim como os olhos do servo se fixam nas mãos do Senhor e os da escrava nas mãos da senhora, para agir imediatamente a qualquer gesto deles, devemos ter a nossa alma pronta para fazer a vontade de Deus em todas as coisas, para seguir todos os seus ensinamentos.

 Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

[Sermão] Jesus Cristo, o Filho do homem: em tudo, Ele agiu com caridade infinita para conosco

Sermão para o 2º Domingo da Quaresma

01/03/2015 – Padre Daniel Pinheiro, IBP

 

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Ave Maria…

Caros católicos, continuemos hoje com o nosso propósito de conhecer melhor alguns aspectos de Nosso Senhor Jesus Cristo. No último Domingo, o 1º da Quaresma, falamos daquele título mais glorioso de Nosso Senhor, o título de Filho de Deus. Filho de Deus não por adoção, mas por natureza. Nosso Senhor é verdadeiramente Deus. Ele é o Filho de Deus encarnado. Outro título que aparece com frequência nos Santos Evangelhos é o título de Filho do homem. E, enquanto Cristo esteve entre os homens, isto é, até a sua Ascensão, o título de Filho do homem foi usado somente por Ele próprio. No final do Evangelho de hoje, Nosso Senhor o utiliza: “Não digais a ninguém o que vistes, até que o Filho do homem ressuscite dos mortos.”

A expressão “filho do homem” ocorre no Antigo Testamento em distintas ocasiões. Em todas elas, com exceção de uma, “filho do homem” significa simplesmente homem. Assim, está dito, por exemplo, que Deus não é como o homem, para mentir, ou como o filho do homem para mudar (Números 23, 19). Todavia, há uma vez em que “filho do homem” não significa homem pura e simplesmente, mas designa o homem-tipo, o homem por excelência. Diz o profeta Daniel (7, 13 e ss.): “Eu estava, pois, observando estas coisas durante a visão noturna, e eis que vi como que um Filho do homem, que vinha com as nuvens do céu e que chegou até o Ancião. (…) E o Ancião deu-lhe o poder, a honra e o reino; e todos os povos e tribos e línguas o serviram; o seu poder é um poder eterno que lhe não será tirado e o seu reino não será jamais destruído.” Portanto, está claro que o Filho do homem visto pelo profeta Daniel não é um simples homem como outro qualquer. É um filho do homem, mas que vem nas nuvens do céu. Filho do homem, para deixar clara a natureza humana. Mas que vem nas nuvens do céu para deixar clara a natureza divina e o poder divino. No Antigo Testamento com frequência Deus é apresentado sobre as nuvens do céu (Ex. 14, 24; Salmo 17, 10). De fato, os judeus da época de Jesus entendiam bem o título “Filho do homem” como designando o messias, que não seria um simples homem. Assim, Caifás pergunta a Cristo se Ele é o Messias, o Filho de Deus. Nosso Senhor confirma e diz que Caifás verá depois o Filho do homem sentado à direita do poder de Deus e vir sobre as nuvens do céu. Caifás compreende a alusão à profecia de Daniel e rasga as vestes por compreender também que Cristo se atribuía a natureza divina não só ao confirmar que era o filho de Deus, mas também ao dizer que era o Filho do homem que voltaria sobre as nuvens do céu. O Filho do homem representava, para os judeus, o Deus que se fez homem.

Jesus se chama Filho do homem nos Evangelhos 82 vezes. Por que Nosso Senhor insiste tanto nesse título? O Filho do homem?  Em primeiro lugar, Nosso Senhor quer afirmar a sua natureza humana. Ele é homem. Mais do que isso, Ele é o Filho do homem, ele é o homem por excelência, o homem cuja perfeição está acima de todos os homens. Ele é um homem, com uma alma e um corpo. Nosso Senhor é verdadeiramente homem. Aquele que era Deus, o Verbo, sem deixar de ser Deus, sem sofrer nenhuma mudança, tornou-se carne, tornou-se homem. O Verbo assumiu a natureza humana. Em Cristo, temos uma só pessoa, a pessoa divina, do verbo de Deus, mas temos duas naturezas: a natureza divina e a natureza humana. Nosso Senhor é verdadeiramente e perfeitamente Deus. Ele é verdadeiramente e perfeitamente homem. Em tudo, assim, Nosso Senhor é homem como nós, exceto no pecado e no que pode levar ao pecado. Em Nosso Senhor não houve nenhum tipo de defeito moral.

Ele tinha, então, um corpo como o nosso. São Tomé até coloca o dedos nas chagas gloriosas desse corpo depois da ressurreição. São Mateus e São Lucas dão a genealogia de Cristo. Ora, a genealogia não é para os espíritos, mas para os corpos. Nosso Senhor nasce envolto em panos, Ele é circuncidado, exerce a profissão de artesão carpinteiro, come, dorme encostado em uma barca, senta-se na beira de um poço de água, tem sede. Fala, percorre o que se chama hoje, por causa dEle, de Terra Santa. Sofre dores incríveis, morre e é sepultado. Mais do que tudo isso, Ele tem um corpo ao ponto de transformá-lo em alimento: “Em verdade, em verdade vos digo: Se não comerdes a carne do Filho do homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós”, diz Nosso Senhor no Evangelho de São João (6, 54). E, na véspera de sua morte, transforma o pão em seu corpo na última ceia, para alimentar as nossas almas. É o seu corpo – a sua vida – que é oferecido pela remissão dos pecados.

Nosso Senhor tinha também uma alma como a nossa, salvo na impossibilidade de pecar e de se inclinar ao pecado ou a qualquer desordem moral. Tudo na alma de Nosso Senhor estava perfeitamente ordenado a Deus. Nosso Senhor tinha, então, uma inteligência humana, a mais perfeita que já existiu, e que conheceu toda a verdade e todas as coisas ainda na terra. Nosso Senhor tinha uma vontade humana perfeitamente e livremente submetida à vontade divina, incapaz de pecar, incapaz de qualquer traço de pecado. Com sua alma e seu corpo, Nosso Senhor tinha também emoções e sentimentos. Nunca, porém, desregrados, mas sempre submetidos à sua razão e à sua vontade, razão e vontade que estavam, por sua vez, plenamente submetidas a Deus. Nosso Senhor não tinha nenhum sentimento ou emoção desregrado, irracional, pecaminoso, nada, absolutamente nada. Desse modo, Ele tinha uma imensa ternura por sua santíssima mãe (Jo 19, 27), tinha predileção por São João Evangelista, teve tristeza pela morte de Lázaro, teve compaixão da multidão que o seguia durante dias sem comer; teve a angústia mortal no Jardim das Oliveiras, a santa ira para expulsar os vendilhões no templo e assim por diante. Tudo perfeitamente ordenado.

Sim, Nosso Senhor era homem e era o homem perfeito. Ele usa, então, o título de Filho do homem para afirmar, primeiramente e claramente, a sua humanidade. Em segundo lugar, Nosso Senhor Jesus Cristo se designa com frequência como o Filho do homem para afirmar que Ele é o Messias prometido ainda a Adão e Eva. Ao afirmar ser o Filho do homem, os judeus se lembravam imediatamente da profecia de Daniel – que já citamos – profecia que fala, evidentemente, do Messias. É ele o Salvador. Em terceiro lugar, como já se pode compreender, Nosso Senhor se designa como Filho do homem porque ao se dizer Filho do homem ele se afirma homem, mas sem nunca deixar de lado a sua divindade. A profecia de Daniel, como vimos, fala de um Filho de homem que virá sobre as nuvens, ou seja, de um homem que é também Deus. Ao se designar como Filho do homem, Cristo afirma a sua humanidade, mas sempre lembrando aos ouvintes de sua divindade, ainda que de maneira sutil. Mais uma vez, caros católicos, Nosso Senhor Jesus Cristo é verdadeiramente homem e verdadeiramente Deus. Durante toda a história do cristianismo, houve erros que negaram ou a humanidade ou a divindade de Cristo. Se Cristo não é homem, não poderia nos salvar porque não seria um de nós. Se Cristo não é Deus, seria meramente um de nós, incapaz de satisfazer pelos nossos pecados. A redenção perfeita, a justiça perfeita exige que Jesus Cristo seja Deus e homem. Negar sua humanidade ou sua divindade é negar a redenção.

Vejamos agora, juntos com São Tomás de Aquino, como o Filho do homem viveu entre os homens. Antes de tudo, foi convenientíssimo que Cristo convivesse com os homens, em vida verdadeiramente apostólica, em vez de se entregar a uma vida puramente contemplativa e solitária. Foi conveniente, primeiro, para nos manifestar a verdade. Nosso Senhor diz a Pilatos (Jo 18, 37): “vim ao mundo para dar testemunho da verdade” Para tanto, não devia levar uma vida solitária, ocultando-se, mas manifestar-se em público, pregando abertamente. E dizia (Lc 4, 42): “É preciso que anuncie o reino de Deus também em outras cidades, porque para isso fui enviado.” Nosso Senhor quis também viver entre os homens e não solitariamente a fim de livrar os homens do pecado. Ainda que ele pudesse ter atraído todos a si morando em um mesmo lugar, preferiu andar por aquelas regiões para nos dar o exemplo de que devemos correr atrás das ovelhas perdidas. Quis também viver entre os homens e não solitariamente para que tivéssemos acesso a Deus. Ao conversar com os homens nos deu confiança e nos aproximou dEle. Claro está, porém, que Nosso Senhor não passava o dia todo pregando, em uma vida puramente ativa, relegando a contemplação. Não, Nosso Senhor levava uma vida mista, em que a ação decorre da oração, da contemplação. Afastava-se com frequência da multidão, sobretudo ao fim do dia, para rezar, para fugir da ostentação do mundo e de seu aplauso, para descansar também.

Nosso Senhor viveu entre os homens igualmente acomodando-se aos usos e costumes legítimos de seus contemporâneos, pois não teria sido muito conveniente que Cristo levasse uma vida demasiadamente austera. Acabamos de ver que era conveniente que Cristo vivesse entre os homens e não que vivesse de maneira solitária. Ora, aquele que vive com outros tem que se acostumar aos seus usos e costumes legítimos. Assim, no comer, no beber, etc. foi conveniente que Cristo se acomodasse aos demais. Todavia, não devemos achar que a vida de Cristo não foi austera ou dura. Ao contrário, foi uma vida cheia privações e sofrimentos. Nasceu em um estábulo, fugiu em seguida para um país estrangeiro, exercitou um rude trabalho manual durante trinta anos, viveu de esmola durante sua vida pública, não tinha onde reclinar a cabeça, passava com frequência noites em oração, jejuou durante quarenta dias, sofreu as terríveis dores da paixão, morreu despojado de tudo, até de suas vestes, foi sepultado em sepulcro emprestado. Todavia, pela razão apontada acima, esteve presente em ocasiões normais: por exemplo, nas bodas de Caná, no banquete na casa de Zaqueu, mas sempre para levar a salvação, para evitar os pecados.

Foi muito conveniente também que Nosso Senhor tenha vivido entre os homens uma vida pobre e desapegada dos bens terrenos. Isso porque convém que os pregadores da palavra de Deus possam entregar-se inteiramente à pregação e que, para tanto, estejam livres dos cuidados seculares. Também foi conveniente a pobreza de Cristo para nos enriquecer. Da mesma forma que por sua morte corporal nos deu a vida espiritual, suportou a pobreza corporal para nos encher das riquezas espirituais, como diz São Paulo (2Cor 8, 9): “sendo rico, se fez pobre por amor de nós, para que vós fôsseis ricos por sua pobreza.” Foi conveniente que Jesus levasse uma vida pobre também para que não se atribuísse sua pregação ao desejo pelas riquezas. Se tivesse riquezas, poderia parecer que se entregava à instrução dos homens mais pela ganância do que pela salvação dos homens. Foi conveniente que Cristo levasse uma vida pobre para que o poder de sua divindade aparecesse mais claramente. Nosso Senhor tinha, claro, quem o ajudasse e tinha o necessário para o seu sustento e o dos discípulos, sendo mencionada no Evangelho (Jo 12, 6) a bolsa de moedas que servia para esse fim, e que era guardada por Judas Iscariotes, o traidor.

Eis, então, Jesus Cristo, o Filho do homem, o Verbo de Deus que se fez homem, que veio ao mundo, viveu entre os homens para nos ensinar as verdades eternas. Em tudo, absolutamente em tudo, Nosso Senhor agiu com caridade infinita para conosco, para nos levar para o céu. Ele não nos chama para a imundície, mas para a santidade, como diz São Paulo na Epístola de hoje. Junto com o Trato da Missa desse 2º Domingo da Quaresma, louvemos ao Senhor, porque Ele é bom, porque eterna é a sua misericórdia. Ditosos os que guardam a justiça, isto é, os mandamentos, e a praticam o tempo todo. Lembrai-vos, Senhor, do vosso povo na vossa bondade e visitai-nos com a vossa salvação. Arrependidos de nossos pecados, convertamo-nos ao Senhor. Ele é bom. Aproveitemos enquanto Ele nos concede misericórdia.

Em nome do pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

[Sermão] Jesus, Filho de Deus: amemos a Jesus Cristo, Ele é Deus.

Sermão para o 1º Domingo da Quaresma

22.02.2015 – Padre Daniel Pinheiro, IBP 

[Sermão] Programa para a Quaresma: a Cruz, a caridade, a oração e a batalha contra o defeito dominante (Quinquagésima 2013)

[Sermão] Tentações: razões, fases, modos de vencê-las (1º Domingo da Quaresma 2013)

[Sermão] A importância e necessidade do jejum (1º Domingo da Quaresma 2014)

Em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Amém.

Ave Maria…

Estamos no início desse tempo de misericórdia que é a Quaresma. A santa Igreja nos traz, nesse primeiro domingo da Quaresma, o Evangelho da tentação de Cristo, para nos dar o exemplo de luta contra o pecado, contra as ciladas do demônio. Tratamos disso especificamente em sermão passado (ver link acima). Na Quaresma, como falamos, e como em todas as coisas da nossa vida, devemos buscar avançar no amor a Jesus Cristo. Para isso, devemos combater nossos pecados e defeitos, mas também crescer no conhecimento de Jesus Cristo. Só podemos amar aquilo que conhecemos. Hoje e nos próximos domingos, consideremos justamente um pouco melhor alguns aspectos de Nosso Senhor Jesus Cristo, para poder conhecê-lo melhor e amá-lo mais profundamente.

Jesus Cristo, caros católicos, é o Filho de Deus. No Evangelho de hoje, o demônio, na primeira tentação, ao se dirigir a Jesus Cristo, diz: “Se és o Filho de Deus…” O demônio não sabia ao certo quem era Jesus Cristo. Tinha já indícios de que Jesus era o Messias e o Filho de Deus, mas não tinha certeza e continuou ainda sem essa certeza por certo tempo. Nosso Senhor é verdadeiramente o Filho de Deus e assim Ele se apresentou diante dos homens. Filho de Deus, é esse o título mais glorioso de Nosso Senhor Jesus Cristo, no qual se fundam todos os outros. Foi por ser Filho de Deus que Nosso Senhor conquistou tantos discípulos ao longo da história e tantos inimigos. Ele é Filho de Deus não no sentido de uma filiação adotiva, mas Ele é Filho de Deus no sentido natural. Jesus é Deus. Jesus é Deus Filho encarnado, Deus Filho feito homem.

Na Sagrada Escritura, nós vemos o título de Filho de Deus aplicado a outras pessoas. Os anjos são chamados em algumas oportunidades filhos de Deus (Salmo 28, 1; Daniel 3, 92). Nosso Senhor chama os pacíficos de filhos de Deus no sermão da montanha (Mateus 5, 45). São João (Prólogo) diz que aos que recebem Jesus é dado o poder de se tornarem filhos de Deus. Aqui, porém, se fala da filiação divina pela graça, pela união com Deus em virtude da fé e da caridade. É uma filiação adotiva. Participamos da natureza divina, mas não adquirimos a natureza divina. Com Jesus Cristo é bem diferente. Umas trinta vezes “filho de Deus” se encontra no Evangelho para designar Jesus Cristo. Em muitas dessas trinta vezes “filho de Deus” aparece simplesmente como sinônimo de Messias. Todavia, em algumas delas, “filho de Deus” significa realmente a filiação divina de Cristo por natureza. Citemos apenas duas nos Evenglhos Sinóticos (Mateus, Marcos, Lucas). (1) Quando Jesus é preso, o Sumo Sacerdote lhe pergunta se ele é o Filho de Deus. Nosso Senhor confirma e o sumo sacerdote rasga as vestes dizendo que o Salvador blasfemou, pois se fez Deus. (2) Já depois de ressuscitado, Nosso Senhor manda os seus discípulos batizarem em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. O Filho de Deus, que é Cristo, é também Deus, como o Pai e o Espírito Santo. No Evangelho de São João, isso é ainda mais claro. A finalidade maior do Evangelho de São João é afirmar e mostrar claramente a divindade de Cristo. O Evangelista nos diz, já no final de seu Evangelho (20, 31): “todas essas coisas foram escritas para que acrediteis que Jesus é o Cristo, Filho de Deus.” Abunda em São João o uso por Cristo do título de Filho de Deus para significar a sua divindade, a sua igualdade de natureza com o Pai. “Eu e o Pai somos um.” (10, 30). E é sobretudo na última ceia, pouco antes de sua paixão e morte, que Nosso Senhor fala ainda mais claramente aos apóstolos, aos quais foi confiada a Missão de ensinar tudo o que Jesus falou. Nessa ocasião, Nosso Senhor diz: “E, agora, Pai, glorifica-me junto de ti mesmo, com aquela glória que tive em ti, antes que o mundo fosse” (17, 5) Continua Jesus dizendo que todas as coisas do Filho são do Pai e que todas as coisas do Pai são do Filho (17, 10).

Além do próprio título de “filho de Deus” todo o Evangelho abunda para mostrar que Cristo é realmente Deus, como o Pai. Sua preexistência: antes que Abraão fosse, eu sou; São João Batista diz que Cristo vem depois dele, mas que existe antes dele, sendo que Cristo nasceu depois de são João Batista. Ele é o Verbo de Deus pelo qual foram feitas todas as coisas, como nos diz o Prólogo de São João. Ele afirma ter todo o poder na terra e no céu, como está no final do Evangelho de São Mateus. Só Deus tem todo o poder. Ele se diz o senhor do sábado, superior à Lei Mosaica, que era a lei dada por Deus. Apenas Deus pode ser maior que a lei dada por Deus. Ele se diz maior que todos os profetas e patriarcas. A missão transcendental de Jesus Cristo, as relações que o unem ao Pai de uma maneira única demonstram também a sua divindade. Os milagres e as profecias, que confirmam a veracidade dos ensinamentos de Cristo, confirmam de modo particular o seu ensinamento de que Ele é uma pessoa divina.  O demônio não pode absolutamente nada contra Ele, como nos mostra também o Evangelho de hoje. Nosso Senhor está absolutamente livre do pecado. Mais do que isso, Ele perdoa os pecados, para escândalo dos fariseus que sabem que só Deus pode perdoar os pecados. Eles compreendem que Cristo ao perdoar os pecados em seu próprio nome se faz Deus. E Ele transmite aos apóstolos o poder de perdoar os pecados em seu nome. Ele se chama “luz do mundo”, “caminho, verdade e vida”. Ninguém pode se chamar assim se não é Deus. Ele se coloca como objeto de amor superior ao pai e à mãe de cada um. Ele deve ocupar o primeiro lugar na hierarquia do nosso amor: “se alguém ama pai ou mãe mais do que a mim, não é digno de mim; o que ama seu filho ou sua filha mais do que a mim, não é digno de mim.” A sublimidade da doutrina dogmática e moral de Nosso Senhor também indica a sua divindade. Claro, santos e profetas ensinaram coisas elevadas e divinas, mas Nosso Senhor ensina um sistema total, orgânico, plenamente harmônico de doutrina. E Ele ensina em nome próprio, como Mestre que age por conta própria, exercendo as funções que recebeu do Pai e falando de tudo o que vê no seio do Pai. Nosso Senhor funda uma sociedade religiosa, que é a Igreja Católica, e o faz sobre um pescador, tornando-o uma rocha firmíssima. Promete a assistência à sua igreja até a consumação dos séculos. Funda essa sociedade sem nenhum temor de que algo possa dar errado, ao contrário dos homens temerosos diante das adversidades em suas empresas. Os adversários de Jesus reconhecem que Ele se afirma “Filho de Deus” no sentido natural e sabem que os milagres e seus ensinamentos confirmam que Ele é Deus e que Ele vai acabar arrastando todo o povo consigo. É por isso que querem matá-lo: porque Cristo se fez igual a Deus. Em um desses momentos os judeus dizem: “Não é por causa de nenhuma obra boa que te apedrejamos, mas pela blasfêmia, e porque Tu, sendo homem, te fazes Deus.” E Jesus escapou das mãos deles nos diz o Evangelho. Aos escapar tão simplesmente das mãos deles, essa e outras vezes, ao escapar tão simplesmente de pessoas cheias de ódio e já com pedras na mão, Nosso Senhor mostra também que tinha domínio completo sobre todas as coisas, Ele é Deus. Todo o Evangelho nos mostra a divindade de Cristo.

Aquele que nós ofendemos pelos nossos pecados, aqueles que nós pregamos na cruz pelos nossos pecados é Deus. Não é simplesmente um homem muito unido a Deus, um homem muito perfeito. Não, Ele é Deus feito homem para nos salvar, caros católicos. Consideremos tudo o que Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, fez por nós, pobres pecadores para nos salvar. Deus que veio à terra, viver entre os homens miseráveis, para salvar os homens.

Com nossas lágrimas e penitências nesse tempo da Quaresma, queremos, Senhor abandonar as nossas iniquidades e voltar-nos a Vós. É grande o nosso pecado, Senhor, mas perdoai-nos, pois nos confessamos culpados. Dai remédio para os nossos males, concedei-nos a graça do perdão. Dai-nos fazer boa confissão. Queremos, Jesus Cristo, Deus e homem verdadeiro, amar-Vos com toda a nossa alma, com todas as nossas forças. Como nos diz São Paulo na Epístola: Deus está pronto para ouvir no tempo aceitável e nos ajudar no dia da salvação. É agora o tempo aceitável. É agora o tempo da salvação. Não tardemos em amar Jesus Cristo.

[Sermão] Somos pó. As criaturas são menos que pó. Amemos a Deus.

Sermão para a Quarta-Feira de Cinzas

18.02.2015 – Padre Daniel Pinheiro, IBP

Aviso

Estamos hoje na quarta-feira de cinzas, primeiro dia da Quaresma. Dia de jejum e abstinência. Abstinência é não comer carne, obrigando todos os fiéis católicos, a partir dos 14 anos. Jejum é fazer uma refeição normal, em geral o almoço, e duas colações, uma de manhã e uma de tarde, que, juntas, não cheguem a uma refeição normal. E não se deve comer nada entre as refeições. Todos os católicos entre dezoito e sessenta anos estão obrigados ao jejum, a não ser por motivo de saúde, ou por trabalho mais duro, ou uma mulher pela gravidez, por exemplo.

Recomendo muito, prezados católicos, que escolham um bom livro para acompanhá-los durante a quaresma. O livro de Santo Afonso sobre a Paixão, por exemplo, ou as Meditações Diárias do mesmo santo; a Prática do Amor a Jesus Cristo ainda de Santo Afonso; Filotéia de São Francisco de Sales, ou o Combate Espiritual, do Padre Scupoli, os Exercícios de Perfeição Cristã do Padre Rodrigues, ou uma boa Vida de Cristo. Algo que possa elevar a alma nesse tempo santo.

Sermão

Memento homo quia pulvis est et in pulverem reverteris. Lembra-te, ó homem, que és pó e que ao pó retornarás.

Entramos hoje, com a quarta-feira de cinzas, no tempo da Quaresma, caros católicos. É tempo da misericórdia divina. É tempo de grandes graças. É tempo, então, de nos convertermos ao Senhor. É tempo de deixarmos nossos pecados, é tempo de pararmos de ofender a Deus com os nossos pecados. É tempo de buscar o sacramento da confissão.

É um tempo de graça porque nos lembra, desde o início, que somos pó e ao pó retornaremos. Diante de Deus, nós somos como um nada. E se nós, seres humanos, a mais perfeita criatura que vive na terra, somos pó, o que dizer das outras criaturas terrenas? O que dizer dos bens terrenos aos quais somos apegados de maneira desordenada. Se o homem é pó, o que são os bens desse mundo? São nada. Somos pó, os bens desse mundo são ainda menos que pó. Não podemos trocar Deus, o bem infinito e nossa felicidade eterna, por nós mesmos ou pelos bens desse mundo. Não podemos trocar Deus e ofendê-lo por um monte de pó. O tempo da Quaresma é tempo de pensarmos nos novíssimos: na morte, no nosso juízo particular – que ocorrerá no momento de nossa morte -, no inferno, no paraíso. Muito útil o pensamento de tudo isso para nos convertermos a Deus. Somos pó e ao pó retornaremos.

A Quaresma é tempo de penitência. Claro, estamos obrigados a fazer durante todo o ano as penitências impostas pela Igreja, principalmente às sextas-feiras, em que é bom manter a penitência tradicional de abstinência de carne. Todavia, no tempo da Quaresma, devemos reforçar ainda mais essas práticas penitenciais. Nossas práticas quaresmais devem ser em três ordens: mortificação, oração e caridade para com o próximo. O belo prefácio da Quaresma, que hoje cantamos e que recitaremos ao longo de todo esse tempo, mostra os bons efeitos das práticas quaresmais, de modo geral, e do jejum e da mortificação em particular: os vícios são reprimidos, a mente é elevada, a virtude é concedida por Deus com largueza e Ele também nos concede o prêmio pela virtude, que é o céu. Com maior afinco devem procurar exercer as práticas quaresmais as pessoas afetadas pelo pecado contra a castidade. É o pecado que mais leva as almas ao inferno. É bom nos entregarmos então às práticas penitenciais na Quaresma, sempre guardando a prudência, de modo que a penitência não nos impeça de cumprir nossos deveres de estado. E devemos sempre manter a humildade e a discrição nas práticas penitenciais. Se as fizermos com orgulho não obteremos nenhum efeito positivo, mas, ao contrário, teremos apenas prejuízos espirituais. E devemos perseverar nessas práticas, mesmo se falharmos uma vez ou outra.

Todavia, essa penitência mais corporal, bem como todas as outras práticas quaresmais são apenas um meio – necessário, diga-se – para se chegar à penitência que realmente nos interessa: o arrependimento e a detestação dos nossos pecados, por um lado, e o amor a Deus pelo outro. Também isso está no prefácio: reprimir os vícios, isto é, deixar de lado os pecados, a inclinação para as criaturas, e elevar a mente a Deus, isto é, elevar nossa inteligência a Deus pela fé católica e elevar a nossa vontade a Ele pela prática dos mandamentos. O objetivo da quaresma, como de tudo em nossa vida, é somente um: crescer no amor a Deus ou passar a amá-lo, se estamos em pecado mortal. As práticas quaresmais nos são ajudas preciosas para isso.

Deus é benigno e compassivo, paciente e de muita misericórdia, e inclinado a suspender o castigo, como nos diz o profeta Joel na Epístola. Enquanto vivermos, Deus ainda nos dá a sua misericórdia, para que nos convertamos a Ele. Esse tempo não vai durar para sempre. A morte nos chegará, como um ladrão. Precisamos estar sempre preparados, em estado de graça. Aproveitem, aqueles que ainda vacilam no caminho da virtude, que caem com frequência em pecados mortais ou que vivem habitualmente nesses pecados, aproveitem o tempo da quaresma para remediar os próprios vícios, para alcançar a misericórdia divina, para recorrer a ela com confiança e determinação de conversão. Aproveitem aqueles que já vivem habitualmente em estado de graça, para avançar cada vez mais no caminho da virtude, sempre vigiando e rezando, com muita humildade, reconhecendo as próprias fraquezas e defeitos, para não cair em tentação. Corrijamo-nos, agora, caros católicos, amemos a Deus efetivamente agora, deixando os nossos pecados agora e fazendo o bem agora, porque depois será tarde. Convertamo-nos agora, para que não aconteça que, surpreendidos pela morte, procuremos espaço para fazer penitência e não o encontremos, como nos diz um dos cantos de imposição das cinzas.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.