[Lembrete] Programação sábado (29/08) e domingo (30/08)

Salve Maria!

Lembramos a todos a programação para os próximos sábado e domingo.

Sábado, 29/08:

Missa às 17h00, seguida de conferência das Irmãs Escravas Reparadoras da Sagrada Família. É importante a presença de todos para apoiar projeto tão necessário, pela sua perspectiva tradicional e pelo objetivo de santificar as famílias.

Domingo, 30/08:

1ª Missa do Padre Tomás Parra às 10h00, seguida de bênção e confraternização. Para a confraternização, o Padre pede a cooperação de todos, como já é tradição na Capela Nossa Senhora das Dores.

[Sermão] As virtudes teologais

XIII DOMINGO DEPOIS DE PENTECOSTES
23/08/2015 | Capela N. Sr.ª das Dores
Padre Daniel Pinheiro, IBP

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Ave Maria…

Prezados católicos, consideremos a oração da Coleta da Missa de hoje: “aumentai em nós, Senhor eterno e onipotente, a fé, a esperança e a caridade, e, para merecermos alcançar os efeitos da vossa promessa, fazei-nos amar os preceitos da vossa lei.” Como vemos, na coleta de hoje a Santa Igreja nos faz pedir um aumento de fé, de esperança e de caridade. Ela nos faz também pedir que amemos os preceitos divinos, para que possamos alcançar o que Deus nos promete: a salvação eterna.

Fé, esperança e caridade são as três virtudes teologais. Chamam-se teologais porque se referem diretamente a Deus.

A fé é a virtude sobrenatural pela qual aderimos com nossa inteligência a tudo o que Deus nos revelou, em virtude da veracidade de Deus, que não pode se enganar nem nos enganar. A fé é uma virtude sobrenatural, quer dizer, que nos é dada por Deus. E ela é uma virtude que se encontra na inteligência, que é uma faculdade espiritual e não sentimental. Portanto, a fé não se confunde com um sentimento. A fé é um ato da nossa inteligência, é a adesão da nossa inteligência às verdades reveladas por Deus. As verdades reveladas por Deus estão contidas na Sagrada Escritura e na Tradição, as duas fontes da revelação, e nos são transmitidas pelo Magistério constante da Igreja, quando ela ensina de maneira infalível. Dissemos, há pouco, que as virtudes teologais se referem diretamente a Deus. A fé se refere a Deus enquanto Ele é a Verdade, com “V” maiúsculo, enquanto Ele é a verdade absoluta. Nosso Senhor diz: Ego sum veritas: eu sou a verdade. Quando a verdade absoluta nos fala, devemos aderir, pois a verdade absoluta conhece todas as coisas e não pode se enganar nem nos enganar. Nada mais conforme à razão humana do que aderir ao que Deus fala. E sabemos por inúmeras provas (milagres, profecias e a própria história da Igreja Católica) que Deus nos falou. E falou fundando a religião católica, única verdadeira.

Na coleta, pedimos o aumento da fé. Vejamos, em linhas gerais, como podemos perseverar e crescer nela. Devemos, antes de tudo, pedir a Deus que nos conserve na fé católica, pois a fé é, antes de tudo, uma graça dada por Deus. Devemos pedir como os apóstolos: “Senhor, aumentai a nossa fé.” Não se trata de aumentar uma sensação qualquer, mas de pedir maior prontidão para acreditar nas verdades reveladas e maior docilidade a Deus. Devemos rechaçar para longe tudo o que possa colocar em perigo nossa fé: as leituras perigosas ou filmes perigosos também para a fé (perigosos não só quando contêm algo diretamente contrário à fé, mas por favorecer uma mentalidade mundana ou simplesmente superficial, superficialidade que é um dos males dos nossos tempos de redes sociais). Outro perigo a ser evitado: soberba intelectual. Os ambientes mundanos também vão pouco a pouco minando a nossa fé e devem ser evitados. Para perseverar na fé, é preciso combater eventuais tentações contra a fé, fazendo um ato de fé, e distraindo o pensamento. Na hora da tentação contra a fé, não é o momento de discutir com ela ou dar razões para acreditarmos, pois nossa inteligência está, nessa hora, perturbada, e não conseguirá encontrar as respostas adequadas. Na hora da tentação contra a fé, devemos fazer um ato de fé. Devemos, para guardar a fé e crescer nela, estudar a nossa santa religião, lendo bons catecismos (Catecismo Católico Popular do Padre Spirago, Catecismo de São Pio X, por exemplo), lendo livros clássicos de doutrina católica. Cada um procure aumentar o próprio conhecimento da religião católica e aumentar a sua cultura religiosa, segundo as suas condições. Devemos também repetir os atos de fé, nas orações da manhã, nas orações da noite, e ao longo do dia. Devemos fazê-lo com verdadeira convicção. Devemos sempre ver as coisas com os olhos da fé e guiar nossa vida inteiramente por ela.

A esperança é a virtude sobrenatural pela qual, com nossa vontade, esperamos com plena certeza receber de Deus a vida eterna e os meios necessários para alcançá-la em virtude de sua onipotência. Claro, podemos ter a virtude de esperança se nos propusermos a viver segundo a fé católica, observando os mandamentos. A esperança é uma virtude sobrenatural, dada por Deus. Ela está na vontade, que é também uma faculdade espiritual e não sensível. Portanto, a esperança também não se confunde com um vago sentimento. A esperança se funda na fé, que nos mostra a onipotência divina, e nos faz confiar em Deus e no seu auxílio para a nossa salvação. A esperança se refere a Deus enquanto Ele é onipotente. Deus dispõe, efetivamente, de todos os meios para nos ajudar e pode, verdadeiramente, nos ajudar. Podemos esperar nEle, se fazemos a nossa parte. Deus nos dá os meios para deixarmos os nossos pecados, por mais que estejamos afogados neles. Ele nos dá os meios para avançarmos na virtude e para perseverarmos na graça até a nossa morte. Para perseverar na esperança, devemos, primeiramente, pedi-la a Deus. É preciso evitar a presunção, que é esperar a nossa salvação sem fazer esforço sério para sair do pecado, e o desespero, que consiste em achar que a salvação é impossível. Para favorecer a virtude da esperança, devemos ter os olhos de nossa alma voltados para o céu, a fim de desprezar as coisas desse mundo, para nos consolarmos nas dificuldades, para nos animarmos a ser bons católicos. Devemos considerar realmente que nossa pátria é o céu. Devemos também fazer o ato de esperança nas orações da manhã, da noite, e ao longo do dia, sobretudo, quando nos inclinamos ao desânimo diante das dificuldades de perseverar no bem.

A caridade é a virtude sobrenatural pela qual amamos a Deus sobre todas as coisas e o próximo por amor a Deus. A caridade é também uma virtude sobrenatural, que nos é dada por Deus. A caridade está na vontade, faculdade espiritual, e não se confunde com um sentimento, intenso ou menos intenso. A caridade se refere a Deus enquanto Ele é o Bem absoluto. A vontade é feita para amar o bem. Pela caridade, amamos o Bem Supremo, que é Deus. Amando a Deus, amamos tudo o que pertence a Ele. Amamos o próximo na medida em que o próximo participa ou pode participar da bem aventurança eterna. Assim, amamos os anjos e santos no céu, que já participam da bem aventurança eterna. Amamos as almas do purgatório, que participarão da bem aventurança eterna. Amamos aqueles que ainda estão nesse mundo, pois podem alcançar a bem aventurança eterna. Não podemos, porém, amar os já condenados, pois não podem mais se salvar.

A caridade é hoje muito mal compreendida, como se fosse um mero sentimento ou simples palavras. A caridade não é algo vago e Nosso Senhor deixou isso bem claro, quando disse: aquele que me ama, guarda os meus mandamentos. Aquele que ama a Deus, faz a vontade de Deus. Para guardar a caridade, é preciso pedi-la a Deus, antes de tudo. Devemos, também, procurar fazer as coisas cada vez com uma intenção mais pura, isto é, por amor a Deus, e fazer todas as coisas com uma caridade cada vez maior. Devemos fazer atos de caridade, nas orações da manhã, da noite e ao longo do dia.

Pedimos, então, nessa Coleta, aquilo que é essencial para a nossa salvação. É possível que haja a fé sem a esperança e sem a caridade, pois podemos deixar de esperar em Deus sem deixar de acreditar nEle, e podemos estar em pecado mortal e continuar a ter fé, mas se tratará de uma fé morta, que não nos levará ao céu. Podemos também ter a fé e a esperança sem a caridade. Todavia, jamais podemos ter a caridade sem fé e esperança. Não podemos amar Aquele em quem não acreditamos ou em quem não esperamos. Para que haja amor a Deus, é preciso que haja a fé. E a fé católica, que é a verdadeira.

Somente com a fé, a esperança e caridade poderemos alcançar as promessas divinas.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

[Notícia] Ordenações do IBP no Brasil – Crônica

Neste sábado, dia 22 de agosto, Festa do Imaculado Coração de Maria, deu-se uma magnífica cerimônia de ordenação na Paróquia São Paulo Apóstolo, na cidade de mesmo nome. Durante Missa Pontifical Solene no Rito Romano Tradicional, Sua Excelência Reverendíssima, Dom Athanasius Schneider, Bispo Auxiliar no Cazaquistão, ordenou dois sacerdotes Pedro Gubitoso e Tomás Parra – e dois diáconos – Thiago Bonifácio e José Luís Zucchi – do Instituto Bom Pastor (IBP).

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Estavam presentes inúmeros membros do IBP – sacerdotes e clérigos vindos de toda a parte do mundo (brasileiros, franceses, poloneses, colombianos) -, bem como vários sacerdotes e seminaristas de vários lugares de nossa Terra de Santa Cruz.

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A grande quantidade de fiéis – igualmente vindos de todas as partes – e o fervor deles durante a cerimônia foram notáveis. Tudo isso mostra como a ordenação de um sacerdote é um grande bem para toda a Igreja.

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Os fiéis puderam seguir com grande fruto todas as cerimônias do rito de ordenação. Entre elas, destacam-se algumas. Primeiramente, a prostração, durante o canto das Ladainhas de Todos os Santos, dos que serão ordenados: reconhecem que nada são diante de Deus e imploram o auxílio de Deus, de Nossa Senhora, de todos os anjos e Santos. Depois a imposição das mãos e a as palavras da ordenação, que são a essência do sacramento, constituindo-os sacerdotes do Altíssimo. A consagração das mãos feita com o óleo sagrado, para que possa tocar no Corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo. A casula desdobrada no final da cerimônia, significando o poder de absolver os pecados. Enfim, todas as riquíssimas cerimônias da Igreja, que, ao mesmo tempo, explicam o que se está fazendo e merecem graças diante de Deus. Cerimônias em que o céu toca a terra.

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Na ordenação, aquele que era filho de Deus e soldado de Jesus Cristo torna-se mediador entre Deus e os homens, prestando o devido culto a Deus e comunicando aos fiéis as graças divinas. Nosso Senhor não chama os sacerdotes de servos, mas de amigos. E o Padre é, principalmente, o homem da Missa, o homem da renovação do Sacrifício de Cristo no Calvário, pelo qual o mundo é salvo. Ele trata das coisas mais santas. Quão imensa é a dignidade sacerdotal. Quão grande é a responsabilidade sacerdotal, devendo o Padre responder pelas almas que o Senhor lhe confia. Quão grande é a bondade de Nosso Senhor ao ter instituído o sacerdócio e ao nos dar padres constantemente. Quão grande deve ser a nossa gratidão para com o Salvador.

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[Sermão] Assunção de Nossa Senhora: o dogma e seus benefícios

SOLENIDADE EXTERNA DA ASSUNÇÃO DE MARIA SANTÍSSIMA
16/08/2015 | Capela N. Sr.ª das Dores
Padre Daniel Pinheiro, IBP

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Ave Maria…

Nós celebramos hoje a Assunção de Nossa Senhora aos céus. A festa é do dia 15 de agosto, mas, como depois da infeliz separação da Igreja e do Estado, o calendário civil não corresponde, muitas vezes, ao calendário religioso, a Igreja nos leva a transferir algumas festas de preceito para o domingo. E o fazemos, primeiramente, para honrar a Deus, a fim de que todos os fiéis – que não podem ir à Missa durante a semana – possam honrar os mistérios de nossa religião, como por exemplo, a Epifania, ou a Ascensão, ou a Assunção. Mas fazemos essa transferência também para benefício nosso. Toda festa litúrgica tem a sua graça própria. E essas grandes festas de preceito têm não só uma graça própria, mas têm também uma graça abundante. Privar os fiéis católicos dessas graças seria extremamente prejudicial. Por isso, faz já muito tempo, quer dizer, desde a não correspondência entre calendários civil e religioso, que a Igreja permite que se transfiram as festas de preceito para o Domingo, quando elas não correspondem a um feriado no calendário civil. Não é preciso dizer que esse não é o estado normal das coisas, pois essa distinção dos calendários civil e religioso vai contra o princípio de que o Estado, enquanto criatura, deve também ele cultuar a Deus publicamente em conformidade com a religião que Ele nos revelou, que é a católica. Essa não correspondência termina, também, diminuindo a influência da liturgia na vida social dos católicos. Essa distinção de calendário induz, ainda, as pessoas a pensarem que a religião é algo puramente privado, que deve permanecer nas sacristias e nas igrejas, o que é um erro. E muitas das mais importantes festas da cristandade – Epifania, Ascensão, Assunção, Todos os Santos, para citar algumas – terminam passando quase despercebidas, infelizmente. É preciso remediar isso marcando bem essas festas, principalmente em família.

Nós festejamos hoje, então, a Assunção de Nossa Senhora. A Assunção de Nossa Senhora é motivo de alegria não somente para Nossa Senhora, mas também para nós, seus filhos. Mas antes de tratarmos da razão pela qual a Assunção é motivo de alegria não só para Nossa Senhora, mas também para nós, devemos falar algo da proclamação do dogma da Assunção.

A Assunção de Nossa Senhora aos céus sempre foi professada e ensinada pela Igreja, mas tornou-se verdade de fé somente com a proclamação do dogma pelo Papa Pio XII, em 1950. Nós sabemos que a revelação por Deus de novas verdades acabou com a morte do último apóstolo, São João Evangelista. Dessa forma, a Assunção de Nossa Senhora é uma verdade já contida naquilo que Cristo e o Espírito Santo revelaram aos Apóstolos. Não se trata, pois, de uma invenção da Igreja, que, aliás, não foi constituída por Cristo para ensinar novidades, mas foi constituída para defender, propagar, explicar e explicitar as verdades reveladas. Assim, a Assunção de Nossa Senhora é uma verdade contida na doutrina dos Apóstolos e na Sagrada Escritura, mas que se tornou mais perfeitamente conhecida e explícita com a proclamação do dogma. E depois da proclamação do dogma ninguém mais pode deixar de confessar a Assunção de Nossa senhora aos céus sem deixar, ao mesmo tempo, de ser católico. O Papa Pio XII se exprimiu assim na Bula MUNIFICENTISSIMUS DEUS, na qual proclamou o dogma em 1º de novembro de 1950, Festa de Todos os Santos: “pronunciamos, declaramos e definimos ser dogma divinamente revelado que: a imaculada Mãe de Deus, a sempre virgem Maria, terminado o curso da vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celestial”. E, logo em seguida, acrescenta o mesmo Sumo Pontífice: “Pelo que, se alguém, o que Deus não permita, ousar, voluntariamente, negar ou pôr em dúvida esta nossa definição, saiba que naufraga na fé divina e católica.”

Nós vemos, então, pela definição de Pio XII, que a Assunção de Nossa Senhora consiste no fato de que, terminada a sua vida aqui na terra, ela subiu em corpo e alma para a glória celestial. Convinha que Nossa Senhora sofresse e mesmo que ela morresse, pois ela recebeu uma natureza semelhante à nossa em tudo, salvo o pecado. Convinha que ela sofresse e que ela morresse para participar de modo muito particular na obra da redenção operada por seu Filho, redenção que se realizou pela morte e morte de cruz. Convinha que Maria Santíssima sofresse e morresse para se assemelhar a Nosso Senhor, que sofreu e morreu para nos salvar. Convinha que Maria Santíssima sofresse e morresse para nos dar o exemplo e para nos consolar, quer dizer, para nos ensinar a morrer bem e para adoçar nossos temores na hora da morte, mostrando que a morte não é tão terrível para aquele que viveu santamente. Nossa Senhora não morreu por doença, nem por morte violenta – por exemplo, por martírio – nem por idade avançada. Nossa Senhora morreu por força do amor divino, e do desejo veemente de alcançar o céu, de contemplar as coisas celestes. Essa morte é tão particular que, muitas vezes, é chamada de dormição. Se convinha que Maria sofresse e morresse, não convinha, porém, que seu corpo conhecesse a corrupção. Cristo permitiu que sua mãe sofresse tremendamente porque isso era o melhor para ela e para nós. Melhor para ela, porque aumenta a sua glória no céu. Melhor para nós, que temos em Maria um modelo a ser seguido, além de Nosso Senhor. Mas permanecer no sepulcro não podia acrescentar nenhum mérito para a alma de Maria Santíssima. NSJC observando, então, o quarto mandamento, honrar pai e mãe, e querendo sempre o melhor para sua Mãe, fez que ela ressuscitasse e subisse ao céu em corpo e alma pouco tempo após a sua morte. Além disso, Maria foi concebida sem pecado, sem o pecado original e, portanto, ela não estava sujeita a essa pena do pecado original, que é a corrupção do corpo depois da morte. Maria morreu para imitar seu Filho e nos dar o exemplo de uma boa morte, mas ressuscitou e subiu aos céus imediatamente. Devemos dizer também que a carne de Maria e a carne de NSJC são a mesma carne. Não convinha que tão nobre carne conhecesse a corrupção devida ao pecado, corrupção que faz a carne voltar ao pó, ao nada. Finalmente, Maria santíssima foi associada intimamente ao Calvário e pelo Calvário ela participou da vitória definitiva de Cristo sobre o demônio, o pecado e a morte. Nada mais normal que se manifestasse em Nossa Senhora, pela assunção e logo depois de sua morte, essa vitória completa sobre o demônio, o pecado e a morte.

Nossa Senhora subiu, então, ao céu em corpo e alma para a glória celestial. E nós mal podemos imaginar a glória de Maria no céu. Nossa glória no céu corresponde ao grau de graça com que morremos aqui na terra. Os teólogos dizem que a graça de Maria no instante de sua concepção era, em virtude de sua futura maternidade divina, maior que a graça de todos os anjos e santos juntos no céu. Não somente essa graça inicial de Maria era imensa, mas ela aumentava a cada ato de Nossa Senhora. A graça progredia nela em verdadeiro movimento acelerado. Embora imensamente inferior à graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, a graça de Maria Santíssima no instante de sua morte é, para nós, incompreensível. E, consequentemente, a glória de Maria no céu também é, para nós, incompreensível. Não podemos imaginar a alegria da Santíssima Trindade no céu. Deus Pai, que recebe sua Filha perfeita, sem nenhuma mancha. Deus Filho, que recebe a sua Mãe, Mãe que o seguiu em tudo, negando-se a si mesma e carregando a sua cruz. Deus Espírito Santo, que recebe sua esposa, fidelíssima a todas as graças recebidas. Também os anjos se alegram, pois recebem no céu a Rainha deles. Rainha não em virtude de sua natureza humana, inferior à natureza angélica, mas Rainha em razão de sua santidade, superior à santidade de todos os anjos juntos. Os santos também se alegram, pois recebem no céu a Mãe deles, aquela que obteve para eles não só o princípio da salvação – Cristo -, mas que obteve para eles todas as graças por sua mediação universal – sempre subordinada à mediação de Cristo. A alegria de Nossa Senhora é evidente. Sua alegria, com a Assunção, é plena. Sua alma contempla Deus face-a-face e ama-o de todas as suas forças. O seu corpo unido à sua alma no céu recebe também ele a recompensa da maternidade divina, da virgindade perpétua, das suas dores imensas. Maria Santíssima é a criatura mais feliz no céu, pois é aquela que mais amou a Deus na terra. Alegremo-nos, então, com Nossa senhora, elevada ao céu em prêmio de seus trabalhos aqui na terra, trabalhos sempre voltados para a glória de se Filho e para o bem das almas. Alegremo-nos com a Santíssima Trindade, com os coros de Anjos e com os Santos no céu.

Devemos, por outro lado, nos alegrar também nós com a Assunção de Nossa Senhora porque ela nos traz grandes benefícios. Se já na terra a intercessão de Nossa Senhora era poderosíssima – basta lembrarmo-nos das Bodas de Caná – quanto mais eficaz será a sua intercessão no céu? Ao adentrar o céu, o amor de Maria por Deus cresceu ainda mais e consequentemente cresceu também o amor dela pelos homens e, portanto, sua vontade de nos ajudar a alcançar o céu, concedendo-nos graças abundantes. No céu, Nossa Senhora conhece perfeitamente nossas necessidades. Ganhamos no céu uma advogada onipotente, pois ela alcança de Deus tudo aquilo que é bom para a nossa salvação. É no céu que Maria se torna plenamente Mãe de misericóridia. A misericórdia consiste justamente em reconhecer a miséria de alguém e em ajudá-lo a sair dessa miséria. No céu, Nossa Senhora conhece perfeitamente nossas misérias e tem poder para nos ajudar a sair de nossas misérias, sobretudo espirituais, mas também materiais, se sair dessas misérias materiais é útil para nossa alma.

Deus, em sua perfeita sabedoria, quis que a Assunção da Santíssima Virgem beneficiasse não somente a ela e aos habitantes do céu, mas Ele quis que a Assunção beneficiasse também a nós, pobres pecadores nesse vale de lágrimas. Alegremo-nos, então, porque ganhamos no céu uma advogada onipotente, que pleiteia por nós e que nos obtém, se estamos bem dispostos, ganho de causa. Recorramos a tão boa advogada, a tão boa Mãe de Misericórdia com grande confiança. Nunca se ouviu dizer que algum daqueles que tenha recorrido a tão sublime advogada, tenha sido abandonado.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

[Sermão] Tradidi quod et accepi. Guardar a fé: transmitir o que recebemos

XI DOMINGO DEPOIS DE PENTECOSTES
09/08/2015 | Capela N. Sr.ª das Dores
Padre Daniel Pinheiro, IBP

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Ave Maria…

“Porque, antes de tudo, transmiti-vos o que eu mesmo recebi.”

A Epístola da Missa de hoje, tirada da primeira Epístola de São Paulo aos Coríntios, é uma resposta do apóstolo a uma dúvida dos coríntios acerca da ressurreição. Bastaria afirmar a imortalidade da alma ou seria preciso afirmar a ressurreição do corpo efetivamente? São Paulo responde demonstrando a ressurreição de Cristo ao mencionar alguns testemunhos dessa ressurreição: Cefas, quer dizer, São Pedro, e depois os onze viram o Senhor ressuscitado; depois foi visto por mais de quinhentos de uma só vez; Nosso Senhor ressuscitado foi visto por Thiago e os outros apóstolos; também São Paulo o viu.

Ao afirmar a ressurreição de Cristo e consequentemente a nossa futura ressurreição, São Paulo diz que está transmitindo aquilo que ele recebeu. Ele está ensinando aquilo que ele recebeu de Nosso Senhor Jesus Cristo e dos outros apóstolos. O apóstolo diz: “porque, antes de tudo, vos transmiti aquilo que recebi.” O apóstolo não inventa novidades, não cria novas verdades, não cria uma doutrina própria. Ele simplesmente transmite o que ele recebeu do Senhor.

Essas palavras do apóstolo – “vos transmiti aquilo que recebi” – são importantíssimas para nós, sobretudo nesses tempos em que de todas as partes e em todos os níveis se quer mudar a doutrina católica. Atualmente, em nossa sociedade moderna, antropocêntrica, a religião tende a ser simplesmente algo para aos homens e não para Deus. Assim, muda-se a doutrina para que ela seja mais conforme ao pensamento atual dos homens. Muda-se a moral, para que ela seja mais de acordo com o comportamento dos homens. Muda-se a liturgia, para que ela seja mais centrada no homem. E assim em cada aspecto da prática religiosa: tudo na religião deve ser feito de modo que a pessoa se sinta bem, nos dizem. Se a sociedade atual não suporta mais a noção de hierarquia, é preciso aplicar isso na Igreja e dizer que os leigos são iguais ao padre, os padres aos bispos, os bispos ao Papa, para agradar à mentalidade moderna. Se a sociedade atual não suporta mais a indissolubilidade do matrimônio, é preciso permitir a comunhão aos divorciados recasados. Em tudo querem mudar nossa santa religião para que ela agrade aos homens. Tudo isso é um erro profundo, grave e extremamente difundido. Nossa santa religião, ao contrário, caros católicos, não é uma fabricação humana, ela não é forjada pela imaginação coletiva ou por uma inteligência engenhosa. Nossa religião não é a expressão de um sentimento religioso subjetivo que está em nós. Nossa religião não adapta a sua doutrina segundo as filosofias da hora presente. Ela não adapta sua moral para agradar aos caprichos dos homens. Ela não deve mudar sua liturgia para se conformar simplesmente aos sentimentos dos homens.

Não. Nossa religião, a religião católica, a única verdadeira, nos foi dada por Deus. Nós recebemos as verdades, em que acreditamos, de Nosso Senhor Jesus Cristo, enquanto Ele esteve aqui nessa terra entre os homens, e do Espírito Santo, depois de Pentecostes. O Salvador e o Espírito Paráclito ensinaram essas verdades aos apóstolos, que as transmitiram intactas dentro da Igreja fundada por Cristo, que é a Igreja Católica Apostólica Romana. As verdades que nos foram ensinadas por Deus são imutáveis: elas nos falam de Deus, que é imutável: Deus é uno e trino sempre, o Verbo se encarnou, padeceu e morreu para nos salvar e ressuscitou ao terceiro dia. Nada pode mudar isso. Nosso Senhor fundou a Igreja Católica e lhe deu uma constituição que durará até o fim dos tempos: hierárquica, tendo Pedro como chefe supremo, tendo bispos e sacerdotes para governar, ensinar e santificar o povo. Não mudam os principais meios de santificação, que são os sete sacramentos. A moral dada por Deus também não muda, já que não muda o ensinamento dado por Deus nem muda a natureza humana. Não pode mudar a liturgia formada ao longo dos séculos por simples gosto do homem.

Pouco antes de sua ascensão, ao mandar os apóstolos para que batizassem todas as nações, Nosso Senhor lhes deu uma ordem muito clara: “ensinai-as a observar tudo o que prescrevi.” Na Igreja, ninguém tem ordem para ensinar algo distinto do que foi ensinado por Cristo aos apóstolos. Os pastores e fiéis podem simplesmente transmitir aquilo que receberam. Nem mesmo o Papa, sucessor de São Pedro, tem autoridade para inventar uma nova doutrina, para favorecer uma novidade qualquer no campo da fé ou da moral. Como ensina tão perfeitamente o Concílio Vaticano I: “o Espírito Santo não foi prometido aos sucessores de S. Pedro para que estes, sob a revelação do mesmo, pregassem uma nova doutrina, mas para que, com a sua assistência, conservassem santamente e expusessem fielmente o depósito da fé, ou seja, a revelação herdada dos Apóstolos.” Também o Papa pode apenas transmitir aquilo que recebeu dos apóstolos. E ele o faz infalivelmente, sob certas condições. Quando uma autoridade eclesiástica ensina uma novidade, contrária ao que foi ensinado por Cristo, contrária ao que foi ensinado infalivelmente pela Igreja, não deve ser seguida nesse ponto preciso. A fé é chamada de depósito, justamente porque não podemos modificá-la, mas devemos guardá-la intacta até o fim de nossos dias.

Nesses tempos, caros católicos, em que os homens já não suportam a sã doutrina, mas em que multiplicam para si mestres conforme os seus desejos e afastam os ouvidos da verdade e os aplicam às fábulas, é preciso que perseveremos constantes no Evangelho recebido de Cristo e transmitido intacto pelos apóstolos e pela Igreja católica em seu magistério infalível. Como diz São Paulo, aos pastores cabe pregar a palavra de Deus, insistir oportunamente e importunamente, exortar, suplicar, repreender com toda a paciência e doutrina. A todos, ainda com as palavras de São Paulo, cabe combater o bom combate e guardar a fé. Como está na Epístola de hoje, se conservamos a fé transmitida pelos apóstolos e a colocamos em prática efetivamente, seremos salvos por ela.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

[Sermão] A parábola do fariseu e do publicano: a oração humilde

X DOMINGO DEPOIS DE PENTECOSTES
02/08/2015 | Capela N. Sr.ª das Dores
Padre Daniel Pinheiro, IBP

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Ave Maria…

Consideremos, caros católicos, a parábola de hoje. Nosso Senhor diz que dois homens subiram ao templo para rezar, um fariseu e um publicano. Subiram ao templo fisicamente, pois o templo se encontrava sobre um monte, chamado Moria, mas a subida significa também que a oração é a elevação da alma a Deus.

Todavia, bem diferente foi a oração de cada um desses dois homens. Vejamos o que podemos aprender com cada um deles. Primeiro, com o fariseu, para repetir o que ele fez bem e para evitar o que ele fez mal. O fariseu se dirige ao templo para rezar, o que é uma coisa boa. O templo é o lugar de oração por excelência. Devemos nós rezar na Igreja na medida do possível. Ele enumera boas obras, que devemos procurar também fazer: ele não é ladrão, não é injusto nem adúltero. Devemos nós ser justos e praticar a castidade segundo o nosso estado. Ele jejuava e pagava o dízimo. Devemos nós fazer mortificações e ajudar no sustento da Igreja e de seus ministros.

A oração do fariseu, porém, foi desagradável a Deus por dois motivos: orgulho e desprezo do próximo. Com a boca somente, o fariseu agradece a Deus pelas suas boas obras, pois fica claro que ele atribui as suas boas obras a ele mesmo e não a Deus. Ele se considera perfeito e não um pecador. O fariseu não pede nada a Deus, dando a entender que não precisa de nada de Deus, pois já tem todas as virtudes e perfeições adquiridas pelos seus próprios esforços. Ele não pede perdão pelos seus pecados, pois julga não possuí-los. Ele não pede perdão pelos pecados de que talvez não se lembre ou que foram cometidos sem que ele notasse. Ele basta a si mesmo e é ele – não Deus – a causa de suas boas obras. O fariseu faz uma oração orgulhosa, exaltando de modo desordenado a própria excelência, não reconhecendo que tudo o que fazemos de bem nos vem de Deus.

A oração do fariseu não foi uma oração humilde. A humildade é verdade e justiça. A humildade é verdade, quer dizer, é reconhecer nossas qualidades e defeitos, nossas virtudes e vícios. E a humildade é justiça (atribuir a cada um o que lhe é devido), quer dizer, atribuir a Deus as nossas qualidades e virtudes e atribuir somente a nós nossos defeitos e vícios. São Paulo, por exemplo, enumera várias de suas obras, mas não se vangloria nem se exalta, pois reconhece com profunda humildade que tudo isso se faz pela graça de Deus, reconhece que tudo de bom que ele tem lhe foi dado por Deus. Como estamos distantes da santidade de São Paulo, não convém muito enumerarmos nossas eventuais boas obras, pois dificilmente estaremos isentos de orgulho. O fariseu em sua oração não é humilde. Ele falta com a humildade porque não reconhece toda a verdade ao não reconhecer seus defeitos e pecados, mas apenas as suas boas obras. E ele falta com a humildade também porque não atribui realmente a Deus as boas obras, mas somente com a boca.

Do orgulho, o fariseu passa ao desprezo do próximo e ao juízo temerário com relação ao próximo. Ao nos exaltarmos indevidamente, é quase natural que passemos a desprezar os outros, pois ficamos cegos para os nossos defeitos, mas tendemos a ver facilmente os defeitos dos outros e a exagerá-los. Tendo se exaltado de modo tão desordenado e esquecido de Deus, saiu de lá o fariseu humilhado, isto é, sem a graça divina.

Deve ficar para nós também uma importante lição para a vida espiritual: quando fazemos boas obras, quando começamos a avançar no caminho da virtude, o demônio tentará nos fazer cair pelo orgulho, fazendo que nos exaltemos e que esqueçamos que a causa de tudo é Deus. Ao contrário, devemos sempre manter a humildade, reconhecendo que somos pobres pecadores e que, se fazemos algum bem, por menor que seja, é pela graça de Deus.

Nossa oração, ao contrário da oração do fariseu, deve ser humilde, o que nos leva à oração do publicano. O publicano não se atreve a se aproximar do altar. Aqui, devemos considerar não tanto o aspecto físico, mas o que significa isso espiritualmente. Essa distância significa que, se reconhecendo pecador, ele estima ser indigno de se aproximar de Deus, que é a própria santidade, como os leprosos que não ousavam se aproximar de Cristo e que de longe imploravam a sua misericórdia. Segundo, para significar que, por seus pecados, ele se afastou de Deus, como o filho pródigo que deixou a terra do pai e foi para uma terra longínqua. De fato, pelos nossos pecados, nos tornamos indignos de nos aproximar de Deus e nos afastamos dEle.

Em seguida, nos é dito que o publicano não levantava os olhos. Aqui também devemos considerar mais o significado espiritual do que o aspecto físico. Não ousava levantar os olhos por vergonha de ter pecado contra Deus, de ter ofendido a Deus, que é o sumo bem e infinitamente amável. Não levantava os olhos para significar que, com o pecado mortal, não poderemos chegar ao céu e ver Deus face a face.

E o publicano batia no peito, para significar o seu coração despedaçado pela ofensa cometida a Deus, para significar o arrependimento pelos seus pecados. O publicano sabe que Deus é misericordioso e que está pronto para perdoar, se estamos verdadeiramente arrependidos, isto é, se reconhecemos o mal que fizemos, se detestamos esse mal e se nos determinamos a não mais pecar.

A oração humilde do publicano agradou a Deus. Ele reconheceu seus pecados, reconheceu que a culpa era sua e, com verdadeiro arrependimento e grande confiança, pediu a Deus misericórdia. Tendo se humilhado ao reconhecer seus pecados e ao implorar a divina justiça, saiu de lá o publicano, exaltado, isto é, com a graça de Deus. É o que devemos fazer.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

[Sermão] A modéstia no vestir – 2ª versão

IX DOMINGO DEPOIS DE PENTECOSTES
26/07/2015 | Capela N. Sr.ª das Dores
Padre Daniel Pinheiro, IBP

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Ave Maria…

“Não nos demos a impurezas, como alguns deles, e morreram num dia vinte e três mil.”

Nós, seres humanos, somos formados por corpo e alma. Estamos colocados entre os anjos, que são puro espírito e os seres puramente materiais. No homem, a alma e o corpo estão unidos, formando a própria essência dele. Evidentemente, essa união natural entre a alma e o corpo, querida por Deus, é algo bom. A alma precisa do corpo para realizar suas operações de maneira mais conveniente. A alma, para conhecer as coisas, precisa dos sentidos, da imaginação. São Tomás diz que nada está no nosso intelecto, a não ser que tenha passado antes pelos sentidos. Todo o nosso conhecimento vem pelos sentidos. O corpo é, portanto, um bem para a nossa alma, um bem para o ser humano. A alma separada do corpo age de modo menos perfeito do que quando se encontra unida a ele, e, por isso, ela deseja a ressurreição do corpo, após a morte.

Todavia, é claro que a parte mais nobre do composto humano é a alma, parte espiritual, e que pode conhecer a verdade e amar o bem. É pela parte espiritual ou racional, quer dizer, pela inteligência e pela vontade, que nos distinguimos dos animais brutos. E no homem, como em todas as coisas, o inferior deve estar subordinado ao superior. Portanto, é a razão que deve dirigir as ações do nosso corpo, é a razão que, reconhecendo a nossa natureza e reconhecendo a natureza e a finalidade das nossas faculdades, deve ordenar todas as nossas ações. A ordenação dos nossos atos segundo a razão constitui a virtude. A virtude é, então, a ordenação dos nossos atos, de forma que eles sejam conformes à nossa natureza de animais racionais.

Entre esses atos que devem ser ordenados pela razão estão os atos exteriores: as palavras, os gestos e também o vestir. A razão nos mostra com relação ao vestir que ele tem uma finalidade básica e principal, que nos é dada pela própria Revelação. Essa finalidade é a decência.

Quando Deus criou Adão e Eva, os dois estavam em estado de graça e haviam recebido da bondade divina o dom da integridade. Isso significa que todas as suas paixões estavam plenamente subordinadas à razão. Não havia em Adão e Eva nenhuma desordem no campo da concupiscência e, por isso, não precisavam se vestir. A exposição do corpo entre eles, portanto, não era motivo para nenhum pensamento, desejo ou ato desordenado. Assim, a Sagrada Escritura diz que eles não se envergonhavam.

Todavia, nossos pais cometeram o pecado original, que foi um pecado de orgulho – que não teve nenhuma relação com o sexto mandamento, deixo claro. Ao cometerem o pecado original, a razão e a inteligência se revoltaram contra Deus e as faculdades inferiores e as paixões, que se encontravam plenamente submissas à razão, revoltaram-se contra ela. A Sagrada Escritura nos mostra claramente isso com relação ao corpo: os olhos de ambos se abriram e tendo conhecido que estavam nus, coseram folhas de figueira e fizeram para si cinturas. Depois do pecado original, tiveram que se vestir, pois diante do corpo desnudo começaram a surgir desordens. Costuraram folhas de figueira e fizeram para si cinturas. Todavia, essas poucas folhas de figueira não eram suficientes para evitar a desordem e Deus fez, Ele mesmo, umas túnicas de pele e os vestiu.

Então, caros católicos, o corpo é em si mesmo bom e é a obra material mais perfeita que saiu das mãos do criador. A Igreja Católica reconhece a excelência do corpo e é a maior defensora da honra e da dignidade do corpo, pois ela reconhece o devido lugar do corpo, subordinado à alma. A Igreja reconhece a excelência do corpo ao ponto, por exemplo, de não favorecer a cremação do corpo. Quem odeia o corpo são aqueles que não reconhecem o seu devido lugar, subordinado à alma. Quem odeia o corpo são aqueles que o colocam acima da razão e submetem a razão às paixões e usam o corpo de forma indevida. Ao longo da história, vemos que os que mais permitem desordens com o corpo são os que o odeiam. Assim foi com os gnósticos e os cátaros, por exemplo. Essas heresias consideravam o corpo como intrinsecamente mau e, portanto, o entregavam a todo tipo de desordem, com a condição de que se impedisse a geração de uma nova vida, de um novo corpo.

Hoje, é exatamente o que vemos em nossa sociedade. Ela exalta tanto o corpo porque o odeia. Ela não reconhece o lugar do corpo. Ela permite tudo ao corpo e todas as desordens, desde que uma nova vida não seja gerada. As pessoas passam a vida inteira submetendo-se ao corpo para, no final, queimá-lo, cremando-o, com esse costume pagão que tem cada vez mais força entre nós. A Igreja respeita o corpo durante a vida da pessoa e, reconhecendo a sua dignidade, não vê com olhos favoráveis a cremação. Portanto, caros católicos, se alguém reconhece a bondade e a dignidade do corpo humano é a Igreja, que chega a proclamá-lo Templo do Espírito Santo, pois nossa alma, em que pode habitar o Espírito Santo, está unida ao corpo intimamente.

Depois do pecado original, apesar de nosso corpo ser em si bom, devemos nos vestir, devemos esconder algumas partes do nosso corpo, a fim de não provocar nos outros maus pensamentos, maus desejos, maus atos em virtude das paixões desordenadas. Depois do pecado original, o pudor e a modéstia são indispensáveis. O pudor consiste na vergonha salutar no que toca ao sexto mandamento, à castidade, e ele leva as pessoas a cobrirem as partes de seu corpo que podem levar outras pessoas a caírem na impureza. Foi o que Deus fez com Adão e Eva, cobrindo-os com túnicas. A modéstia é a virtude que nos leva a ordenar nosso aparato exterior, nos leva, em particular, a ordenar a nossa vestimenta, a fim de que elas cumpram bem a primeira finalidade delas: esconder certas partes do corpo. A principal finalidade da roupa é, então, a decência.  Para que uma veste seja chamada decente, ela deve cobrir aquelas partes do corpo que induzem a pessoa de virtude média ao pecado. Essas partes que devem ser absolutamente cobertas são aquelas que se encontram entre os joelhos e os ombros, incluindo os dois. Portanto, a roupa deve cobrir o joelho em todas as posições, inclusive quando se está sentado com as pernas cruzadas. As roupas devem ter mangas também e não basta cobrir os ombros com o véu quando se vem comungar. A roupa cavada ou sem manga não pode ser considerada modesta, porque quase certamente mostrará, pelas suas aberturas, bem mais do que é lícito.

O Cardeal Vigário de Roma na época do Papa Pio XI diz que “um vestido não pode ser chamado de decente se é cortado mais que a largura de dois dedos sob a cova da garganta, se não cobre os braços pelo menos até os cotovelos, e se mal chega até um pouco abaixo dos joelhos. Além disso, os vestidos de materiais transparentes são impróprios…” A única coisa que se permite alterar aqui, e que é admitido por todos os sacerdotes de doutrina moral séria, são as mangas até os cotovelos, mas não se pode admitir a ausência completa de mangas.

E para que vestir-se de modo diferente do que diz o Cardeal Vigário? Para que mostrar o nosso corpo? Para que atrair os olhares dos outros sobre nosso corpo? Isso só é lícito entre marido e mulher, em vista da procriação. Para que se mostrar para os outros? O que se ganha ao expor o corpo aos outros? Isso lhe fará ganhar o céu? Ao contrário. Para que ser ocasião de pecado para os outros? E não adianta dizer que, se o outro tem pensamentos ruins, a culpa é dele. Não. Nós somos responsáveis pela salvação das almas dos nossos irmãos. Ai daquele que é causa de escândalos, nos diz Nosso Senhor Jesus Cristo.

Tudo isso aqui se aplica sobremaneira à mulher, pois a mulher tem uma inclinação natural a buscar agradar o homem pelo seu aspecto físico e o homem tem uma inclinação natural a deixar-se levar por isso. Vemos essa verdade claramente no livro do Gênesis, em que Eva é apresentada a Adão, que encontra nela agrado. Se essa inclinação permanece sóbria e moderada, dentro da modéstia, ela não é ruim. Se ela se torna excessiva pela indecência, pelo excesso de ornato ou pelo luxo no ornato, ela se torna ruim, pecaminosa. Desse modo, a modéstia não é sinônimo de deselegância. A modéstia não se opõe à elegância. A elegância é perfeitamente bem-vinda, desde que seja modesta e sem excessos, sem atrair para si os olhares. Mas se ela se aplica principalmente à mulher, o homem está também obrigado a se submeter às mesmas regras de modéstia.

Alguns pretendem dizer que a moda indecente já é tão comum que ela não provoca mais as paixões desordenadas. Isso é falso. A partir de certo ponto, dizem os moralistas, as vestes indecentes sempre trarão prejuízo para o pudor, para a pureza. Esse limite é justamente os ombros e os joelhos, que devem estar sempre cobertos junto com o que se encontra entre eles. E ainda que as modas indecentes não conduzissem ao pecado contra o sexto mandamento, o cristão não deve se contentar com os padrões de uma sociedade decadente, corrompida e neo-pagã. Os jesuítas não se contentaram com a ausência de vestes dos índios, embora os índios estivessem habituados a isso. Eles mudaram a maneira de vestir dos indígenas.

Em virtude da união que existe entre a alma e o corpo de que falamos mais acima, podemos considerar dois aspectos importantes das vestes. Primeiramente, a veste é reflexo da alma da pessoa. Portanto, vestir-se mal reflete uma desordem espiritual, interior. Em segundo lugar, nossas ações exteriores e, consequentemente, nossas vestes têm uma influência em nossa alma. Assim, por exemplo, rezar de joelhos ou rezar de pé criam disposições distintas em nossa alma. Roupas indecentes geram na alma consequências prejudiciais com relação à pureza e levará a um jeito de se comportar indecente: a um jeito de andar, de sentar, de falar que não convém. Por outro lado, roupas modestas levam a alma a se resguardar melhor contra os pecados opostos ao sexto mandamento. As roupas decentes criam na alma uma disposição que leva a pessoa a andar, a sentar, a falar de um modo que convém para cristãos. Assim, a roupa é expressão de nossa alma e ela influencia a nossa alma. E como as roupas influenciam a nossa alma, é importante vestir bem as crianças, desde a mais tenra idade.

Em algumas ocasiões, falamos aqui da luxúria e de suas consequências graves para a sociedade. Em particular, falamos que a luxúria conduz ao amor de si mesmo e ao ódio a Deus. Vimos que a luxúria conduz ao apego à vida presente e ao desespero das coisas do alto. Vimos que a luxúria mata não só a alma daquele que a comete, mas destrói também a sociedade, como falamos na ocasião. Como chegamos nessa sociedade atual em que tudo, praticamente, se move pela luxúria? Uma das principais causas é a falta de modéstia no vestir. A modéstia é a guardiã da castidade. Sem a modéstia não há castidade. Sem castidade, não há amor a Deus. Por mais que a intenção da pessoa ao se vestir mal não seja ser objeto do olhar das outras pessoas, ela será o objeto dos olhares e será ocasião de pecado, se ela se veste indecentemente. Uma boa intenção não é suficiente para tornar boa uma ação ruim. Assim, vestir-se imodestamente por que faz calor, por exemplo, não se justifica. O calor é plenamente suportável. No passado, também havia calor, e as pessoas se vestiam bem.

Portanto, caros católicos, é preciso usar vestes modestas. Espero que todos tenham entendido e comecem agora a seguir plenamente esses ditames. Se não compreenderam, passem a seguir por obediência aos princípios da Igreja. A obediência também é uma virtude excelente. E, para deixar claro, as regras de modéstia não se resumem à Igreja. Essas regras de modéstia devem ser observadas sempre e em todo lugar. Repitamos essas regras: 1) As vestes devem cobrir tudo o que está entre os joelhos e os ombros, incluindo joelhos e ombros, e em qualquer posição (de pé, sentado, com pernas cruzadas, de joelhos). As vestes devem, portanto, possuir mangas e devem ser sem decotes. 2) As vestes não devem ser transparentes (colocar forro – anágua – do tamanho da saia, pois é relativamente comum a saia longa que se torna transparente contra a luz) nem em tom de pele e 3) não devem ser apertadas ou coladas ao corpo. Será preciso um grande esforço, um grande desapego e uma grande generosidade para se vestir modestamente. Mas tudo isso é necessário. E Deus nos dá as graças para fazê-lo. E será grande a recompensa de quem praticar as virtudes do pudor e da modéstia, tão esquecidas, mas tão essenciais para uma vida católica. Deus saberá recompensar esse ato de caridade da pessoa para consigo mesma e para com o próximo. Mais uma vez: a modéstia diz respeito a homens e mulheres. Não somente na Igreja, mas em todos os lugares. É princípio da lei natural. Infelizmente, não é raro ver pessoas que se vestem bem para a Missa, mas que expõem o corpo na vida quotidiana e em redes sociais…

A modéstia é também vestir-se em conformidade com o próprio estado, com as circunstâncias, com o grau de formalidade do lugar, da atividade e levando em conta a dignidade da pessoa com quem se está. Assim, um sacerdote que aparece em público sem a batina ou o hábito clerical – contrariando, aliás, o Direito Canônico – comete uma falta contra a modéstia, pois não se veste conforme ao seu estado. Em geral, como católicos, devemos nos vestir conforme ao nosso estado de católicos. Portanto, como pessoas que levam a vida a sério, buscando agradar a Deus. Isso vale em particular para os homens, que, às vezes, tendem a se vestir de maneira desleixada, com bermuda e sandálias onde não convém, em ocasiões que não convêm, etc. Devem ser evitados os dois erros nesse ponto: por excesso, com um cuidado indevido, uma solicitude indevida com o traje; por defeito, com desleixo, se vestindo como alguém que não leva a vida a sério.

Evitem-se, então, as roupas desleixadas, e todas aquelas com símbolos pagãos, com inscrições contrárias à religião, etc. Sobretudo na Igreja é indispensável observar a modéstia também nesse ponto. A roupa deve ser adequada àquilo que há de mais importante na face da Terra: a Casa de Deus, sobretudo quando nela se realiza o Santo Sacrifício da Missa.  A pessoa deve, então, vestir-se com dignidade para ir à Missa, evitando vestes demasiadamente informais. Particularmente, sejam abolidas, para a Missa, as vestes que contenham desenhos (de animais, de pessoas etc) ou alguma mensagem escrita, mesmo para as crianças. Também não sejam usadas roupas com personagens de desenho, com frases escritas, camisetas de times de futebol, calças rasgadas, bermudas, moleton, etc. Nada disso condiz com a santidade e a dignidade do lugar. Não se deve, porém, cair no erro oposto, como falamos. Dignidade com simplicidade e sem exageros.

É próprio da virtude da modéstia também que homens e mulheres se vistam de forma a diferenciar o sexo de cada um e de forma a exprimir o papel de cada um na sociedade. As vestes semelhantes de homens e mulheres causam muitos danos às próprias pessoas e à sociedade. Como disse, as vestes exprimem uma disposição da alma e terminam também influenciando o nosso comportamento. Se homens e mulheres se vestem igualmente, haverá um grande problema. E esse problema nós vivemos hoje, pois as roupas de homens e mulheres têm se tornado cada vez mais semelhantes, principalmente com as mulheres usando roupas que são mais próprias do homem e que levam a atitudes masculinizadas. Com essa confusão nas roupas, os homens são cada vez mais efeminados. As mulheres cada vez mais masculinizadas. O homossexualismo se difunde. Portanto, é preciso haver diferença na maneira de vestir do homem e da mulher e que essa diferença seja clara e, ao mesmo tempo, modesta. Essa mesma diferença deve existir nos adereços, no cabelo, etc. Por exemplo, não convém ao homem utilizar enfeites, isso convém à mulher, que deve fazê-lo com moderação. O homem pode apenas utilizar um sinal distintivo de sua função ou de seu estado: assim, usa a aliança de casado, o Bispo o usa o anel para significar sua união com diocese. Essa diferenciação clara entre homem e mulher deve ser não só na Igreja, mas em todos os lugares.

As vestes imodestas ofendem ao Sagrado Coração de Jesus e por isso dizemos no Ato de Desagravo ao Sagrado Coração: “queremos nós hoje desagravar-vos, particularmente da licença dos costumes e imodéstias do vestido, de tantos laços de corrupção armados à inocência […]. Nossa Senhora de Fátima também insiste na Modéstia, ao ponto de a letra da música de Nossa Senhora de Fátima nos lembrar disso. Diz a letra: “Vesti com modéstia, com muito pudor, olhai como veste a Mãe do Senhor!” Eis o nosso modelo para a modéstia no vestir: Nossa Senhora, para as mulheres, e São José, para os homens.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.